Work Text:
Suguru andou pelo espaço vazio. Não vazio de coisas, aquilo era uma bela imitação de um saguão de aeroporto; mas vazio de gente. De movimento.
O pós-vida conseguia ter um senso de humor tão único como a vida. E quase tão fora da caixa quanto ela: por que um saguão de aeroporto, ele não fazia ideia. Mas era estranhamente relaxante ficar em um espaço cujo propósito era apenas esperar. Aguardar para onde sua alma ia.
Ele reencontrou Satoru, e até Nanami e Haibara. Conversaram sobre tudo e sobre nada. Chegava a ser cômico como a vida cheia de eventos trágicos dos três parecia sequer ter existido. Uma das vantagens de estar morto parecia ser ver a própria vida de uma distância considerável, sabendo que, afinal, já estava tudo feito agora. Um merecido descanso para quem é feiticeiro, talvez.
Mas algo que Suguru logo percebeu é que não teria descanso. Porque havia coisas que ele achava ter entendido antes, e tinha falhado miseravelmente em entender.
A raiz de toda a sua dor estava na ingratidão dos não-feiticeiros. Na pequenez suja, estúpida e insignificante deles. Na falta de sentido que era ter que sacrificar sua vida por eles. Estava aí, mas não estava aí.
Se estivesse aí, ele teria sido amargurado desde o início. O que a morte de Riko Amanai escancarou não era a falta de sentido em ser um feiticeiro poderoso, mas que Suguru não sabia o que fazer quando o sentido que acreditava ser o da sua vida desabou.
Ele não soube construir outro sentido.
Um outro jeito de ver as coisas, como Satoru fez, ou como Nanami mais tarde fez também. Para ele, sinceramente só parecia haver outra alternativa. A de inverter tudo completamente.
Criar um mundo apenas para feiticeiros.
Até o seu último suspiro, aquilo fez sentido. Suguru verdadeiramente acreditou que odiava primatas. Mas, por fim, descobriu que não odiava.
Odiava o que tinha acontecido. Que Toji Fushiguro tivesse existido para dar cabo da vida de Amanai, e que a lógica que sustentava o Culto à Estrela tivesse ceifado a vida de Haibara. Que os mais dispostos a colaborar com a segurança dos não-feiticeiros fossem as vítimas de massacres.
Sua sanidade chegou à beira do abismo, e só voltou porque ele encontrou um sentido em não conviver mais com primatas. Em fazer deles o massacre. Era o único jeito, o único que fazia sentido. Suguru odiava se ver parte, ainda que involuntária, do sistema do mundo jujutsu. Ele odiava pensar que tantas vezes foi gentil para nada.
Mas... seria, verdadeiramente, nada?
A resposta começava a se formar, incômoda a princípio, mas depois apenas clara. Ele agora sabia, e entendia que o que fez com os não-feiticeiros era o mesmo que Toji Fushiguro fez com Riko. Não era justiça, era só outra forma de crueldade. Foi como abraçar aos poucos, muito aos poucos, a verdade sobre seu erro, enquanto procurava uma parte perdida. Uma parte fundamental de si.
Até que um dia avistou uma figura estranha em algum lugar do saguão, sentada em um dos bancos. Estranha não, familiar.
Uma atmosfera luminosa a envolvia. Aconchegante, com cheiro de casa. E ele quebrou.
— Suguru.
— Pai...
Seu pai estava igualzinho à última vez que o viu. As rugas suaves no rosto, a aura firme e inabalável. Os cabelos prateados, nos quais a cor escura ainda resistia. Suguru teve medo de toca-lo, embora o nó na garganta parecesse força-lo a se mover.
— Sente-se, filho.
— Não... não posso.
Com um olhar que era a um só tempo um comando e uma súplica, seu pai conseguiu que ele se sentasse. Ficaram em silêncio por um longo instante, fitando um ao outro. Seu pai não tinha nenhuma animosidade. E aquilo quebrou Suguru ainda mais.
— Pai, não pode ser assim comigo... não depois do que eu fiz...
Os joelhos de Suguru cederam e tocaram o chão. As lágrimas romperam a barreira dos olhos.
— Não... quando fui eu que...
Ele sentiu a mão quente apertando seu ombro. Seu pai não disse nada, só manteve aquele aperto seguro. Em desespero, Suguru tocou um dos joelhos dele, como um suplicante.
— Suguru, querido.
Uma voz mais suave se anunciou, acompanhada de um toque em seu braço, tão suave quanto.
— Mãe...
Suguru mal voltou os olhos para ela, sufocado pelas próprias lágrimas. Ela também mantinha as mesmas feições, as linhas delicadas ao redor dos olhos e da boca, apenas alguns fios grisalhos brilhando no cabelo negro. O choro de Suguru redobrou, enquanto ele lutava para achar palavras.
— Eu não mereço vocês!
Tomando as mãos deles entre as suas, Suguru encostou a fronte nelas, o corpo sacudido por soluços e uma falta de ar quase dolorida. Controlou-se, e com muito custo continuou:
— Eu não mereço... não há perdão para mim... como podem ser assim comigo?
— Ah, filho...
— Não me chamem assim, eu não sou digno! Por favor...
A mão de seu pai alisou seus cabelos, e a de sua mãe afagou seu rosto antes de dizer:
— Não seja assim, venha aqui.
Suguru foi puxado para um abraço. Se viu rodeado pelos braços de seu pai, enquanto sua mãe abraçava os dois. Algo que, por inúmeras razões, ele jamais imaginou que pudesse sentir de novo.
— Nosso menino – ele ouviu o pai dizer, num sussurro carregado.
— Nosso menino.
Suguru se agarrou a eles como uma âncora em mar revolto, molhando os braços de ambos com suas lágrimas, mesmo que sentisse que não devia. Naquele abraço, conseguiu tirar as palavras pesadas de sua boca:
— Não há perdão que chegue para o que eu fiz a vocês. E nem palavras para o meu arrependimento... mas mesmo assim, eu... vocês me amaram até o último minuto...
— Nós te amamos agora.
— E nós te amaríamos, de novo e de novo.
Ele os abraçou forte, com tudo o que tinha.
— Mesmo tendo sido capaz de fazer o que eu fiz... por favor, me perdoem. E, com tudo o que existe em mim, eu amo vocês.
Ficaram em um enlace apertado, seus pais alternando entre beijar seu rosto e embalar o filho nos braços. Por fim, sentaram-se no banco, e Suguru baixou o olhar, subitamente envergonhado.
— Havia uma sombra terrível nos seus olhos naquele dia – seu pai disse, fazendo-o olhar – Mas apesar do nosso medo, nós sabíamos...
— Sabíamos que aquela sombra era triste também – sua mãe segurou seu rosto – E você chegou a termos com o que fez, filho.
Suguru assentiu, um gesto mínimo, resignado. Mas um que não queria apagar o passado, e sim aceita-lo.
— E é parte do seu processo que, por enquanto, não possa nos acompanhar.
— Talvez esse seja um castigo para nós também...
Ele deu um sorriso trêmulo, tornando a pegar as mãos dos pais.
— Eu voltaria a ser o filho de vocês em todas as vidas, mesmo não merecendo.
— Não diga isso jamais – sua mãe atalhou – Te conhecemos como a palma da mão.
— E por isso mesmo, você seria sempre nosso.
Entre beijos e abraços que queriam se demorar mais um pouco, eles se despediram. Suguru ficou. Se afastou daquele cenário que parecia mais um delírio, ou um sonho. Mas, naquele lugar, ser real era a única opção.
Se sentiu mais inteiro. Mais íntegro.
Com tudo de melhor que havia aprendido com os pais. Com a sua própria parte gentil curada – ou, que começava a se curar. Com tudo que ele ainda deveria fazer, Suguru se sentia reencontrando quem era de verdade. Com um sentido que ele não sabia que havia procurado.
