Work Text:
Eu precisava sair do escritório urgente. Emily estava com a babá, mas eu precisava preparar o jantar.
— Tchau — despedi-me do pessoal que ainda estava no escritório, passando pelos corredores de estações de trabalho.
— Bom jantar — desejou um colega.
Entrei no elevador com pressa. Meu coração batia rápido e eu não conseguia conter o sorriso.
Meu celular vibrou no bolso e atendi no primeiro toque.
— Alô, é a Grace.
— Olá, menina — falou Leon. Ele tinha lembrado afinal.
Minhas bochechas doíam.
— Oi, tio, como está? Espero que estejam com fome — conversei. Meus dedos tremiam.
Ele riu baixo, eu até conseguia imaginar ele passando os dedos pela barba grisalha por fazer.
— Estamos. Sherry vai levar um vinho, — pigarreou — deu uma olhada em como está o tempo?
Uni as sobrancelhas e ofeguei.
— Ainda não, estou saindo do elevador — avisei e fui em direção à porta. Apesar de ser dia, o céu estava muito escuro, encoberto por nuvens densas. — Ai, que merda!
Minha respiração falhou.
Essa seria a primeira vez que jantaríamos juntos no meu apartamento, tudo devia acontecer conforme o programado.
Não existiam brechas para erros. Não essa noite.
— Ei, Grace. Fique tranquila, eu confio em você. Sei que vai dar o seu máximo, e você sabe que vamos adorar tudo o que for preparado — tentou me tranquilizar, com a voz calma.
Fechei os olhos com força, engolindo aquela ansiedade.
— A-acho que sim — gaguejei.
— Está tudo bem — continuou meu tio de coração. — Quando estivermos todos juntos mais tarde você nem vai se lembrar que estava nervosa agora — argumentou com humor na voz grave.
Suspirei, concentrando-me nas palavras dele. Leon quase sempre tinha razão.
Peguei a chave do carro e dirigi para casa depois de desligar a ligação, torcia para que desse tempo antes que a chuva começasse a cair. E para minha surpresa, deu.
— Tô em casa — gritei ao passar pela porta com a caixa térmica com as compras que fiz antes do expediente.
Uma música muito familiar tocava no quarto de Emily no fundo do corredor e alguns gritinhos vinham de lá.
O sorriso voltou aos meus lábios.
Guardei o pote de sorvete no congelador e o restante das compras, além de colocar o forno para preaquecer.
Olhe em volta… nós vamos conquistar… esta é a nossa canção… A música tocava alto por todo o apartamento.
Abri a porta do quarto e Emily estava de mãos dadas com Fay, a babá, e elas pulavam à trilha sonora de Barbie Rock’n Royals, o filme favorito de minha filha atualmente.
— Mãe! — gritou ao me ver e veio correndo ao meu abraço.
Agarrei-a no colo e dei um beijo estalado na bochecha macia de Emily.
— Como foi seu dia, meu amor? — perguntei, enquanto dava uma piscadinha para Fay saber que estava liberada.
— Foi legal. A Fay fez essa trança em mim — contou mostrando os cabelos brancos no penteado adornado com presilhas azuis claras.
— Ficou tão linda — dei outro beijo na menina sorridente que pulou do meu colo e entrou na cabaninha de lençol no chão do próprio quarto.
A babá tinha ido pegar a mochila na sala e a segui, lembrando da data do pagamento.
— Obrigada mais uma vez, Fay. Tem sido de grande ajuda — agradeci, estendendo o envelope com o dinheiro que ela pegou rápido e guardou no bolso da calça.
— Eu que agradeço. É bom ter um serviço assim depois da escola.
Ela sorriu para mim mostrando as covinhas nas bochechas rosadas.
— Bom final de semana — desejei quando ela saiu e foi em direção ao elevador, também se despedindo com um aceno.
Olhei para o relógio de pulso, que indicava uma hora até Leon e Sherry chegarem. Eu precisava me apressar.
Porém, graças à minha ansiedade, deixei muita coisa pronta, sendo preciso apenas aquecer a macarronada com almôndegas, fritar as batatas e montar a salada.
O céu não parava de trovejar, enquanto Emily começara a ficar chorosa por não querer desmanchar a trança.
— Eu prometo que faço outra bem linda depois que você sair do banho — argumentei, ajoelhando-me na frente dela.
Os olhos da garota passearam por mim, procurando brechas para argumentar. Incrível como a escola transformou ela em uma criança normal.
— Você tem dez minutos, pois logo o Leon chega — falei com a voz firme.
As sobrancelhas dela se ergueram à menção dele.
— E vou poder colocar filme para assistir junto com ele? — Emily virou a cabeça de lado com um sorrisinho torto.
Retribuí o sorriso, mas ele era um eufemismo para a felicidade que essa menina me fazia sentir.
— Por que você mesma não pergunta pra ele quando chegar?
Ela concordou com a cabeça e correu para o banheiro.
Terminei de por à mesa posta, com conjuntos que não combinavam entre si, mas demonstravam muito sobre nossa pequena família.
Com tudo pronto, sentei no sofá verde claro e suspirei.
A tempestade quebrou o céu, e fez molhar as janelas. Mas não me importei, eu tinha feito tudo o que precisava.
Emily saiu do banho e correu até meu colo para eu fazer a trança nos cabelos brancos dela. Os fios macios entre meus dedos eram como pétalas brancas cheirosas.
— Quero as presilhas roxas agora — pediu me estendendo os adereços e fiz como ela pediu, apesar de não tão habilidosa quanto a babá dela.
Olho pela janela vendo que a noite caiu e nem sinal deles chegarem.
— Você gosta da Fay?
Emily cruzou as pernas e encostou as costas na minha barriga.
— Sim, ela é diferente — começou com a voz delicada — às vezes ela me faz perguntas que eu não entendo.
Uni minhas sobrancelhas.
— Que tipo de perguntas?
Ela deu de ombros e murmurou pensativa.
— Se eu gosto de música da Coreia, mas o que é isso? Coreia? — perguntou com a voz vacilante.
Minha careta quase brava se contorceu em um sorriso aliviado.
— É um lugar do mundo, onde eles falam outra língua e tem outra cultura, por exemplo — expliquei, terminando o penteado e abraçando ela.
A menina assentiu, olhando para as próprias unhas com o esmalte infantil descascado.
— Você gosta de música coreana, mãe? — Ela me chamar assim, mesmo depois de alguns anos, ainda me traz muita emoção, principalmente considerando tudo o que passamos.
— Algumas são boas, e são bem famosas.
— Posso pedir pra Fay colocar pra mim na próxima vez que ela vier brincar comigo?
— Claro, meu amor — falei apertando mais nosso abraço, que foi interrompido por um barulho na mesinha lateral do sofá.
O nome de Leon surgiu na tela.
— Oi, como estão? — perguntei ao atender.
Ouvi-o suspirar.
— Tenho uma notícia boa e uma ruim — começou com a voz pesarosa e o barulho intenso de chuva ao fundo. — A ruim é que as ruas estão alagadas e o carro não passa de jeito nenhum…
Um toque na janela interrompeu a fala dele, e quando viramos vimos duas figuras na sacada de incêndio.
Pulamos do sofá para abrir para eles entrarem.
— E a notícia boa é que chegamos — completou ele com um sorriso.
Com dificuldade, Leon passou pela fresta da janela e ajudou Sherry em seguida.
— Tio Leon — Emily falou e correu para abraçá-lo.
Sherry estava com o cabelo loiro bem curto e brincos vermelhos brilhantes. Ela sorriu e veio ao meu encontro para um abraço saudoso. E úmido pela chuva.
— Quanto tempo — ela falou e parecia muito mais sadia que a última vez que nos vimos.
— Você está linda! — Cochichei para ela, que riu em resposta e me entregou o vinho tinto.
— Emily, que grande você está — exclamou Sherry, também abraçando minha filha, e ela sorria de orelha a orelha em rever a tia de coração.
Quando os conflitos em Rhodes Hill e Raccoon City passaram, Sherry foi uma das primeiras a usar a cura, e a próxima foi Emily, então elas passaram bastante tempo juntas nas clínicas de tratamento.
Fui levar o tinto para a cozinha e ouvi os passos atrás de mim, mais altos que as conversas das meninas.
— Espero que uma garrafa seja o suficiente — comentou com um sorriso torto Leon, encostado no batente da cozinha.
— Conhecendo nós três com certeza vai ser pouco — complementei rindo baixo.
Olhei para meu tio, as roupas dele completamente molhadas. Uni as sobrancelhas e estalei a língua.
— Olhe isso, vai ficar doente — estiquei a mão enfatizando os trajes.
— Doente? Quando que isso aconteceu comigo? — Ele puxou uma cadeira da pequena mesa para sentar-se.
Coloquei a mão na cintura, evitando comentar a última vez que ele esteve doente, e o que isso quase resultou.
— Eu devo ter alguma coisa pra vocês vestirem. Por favor, você sabe que não tem mais a mesma saúde de antigamente — falei abrindo a portinha da máquina de lavar, onde em cima uma pilha de roupas estava dobrada.
A testa dele enrugou-se.
— Está me chamando de velho?
Pigarreei. Na verdade, estou chamando de moribundo.
Mas ao invés de responder, joguei a mão na direção dele com desdém. Coloquei uma calça de moletom e uma camiseta, ambas bem largas, sobre a mesa para ele pegar.
Leon analisou as peças e conteve um sorriso.
— Suponho que essas roupas sirvam em mim — sugeriu ele.
— Sim, por isso estou te oferecendo elas.
— Então, elas não são suas — concluiu. Era óbvio onde ele queria chegar.
— Bem observado — cruzei os braços e pressionei os lábios.
Leon estreitou os olhos para mim. Minha atenção se desviou para os barulhos de risada da sala.
— É algum namorado? — perguntou finalmente.
Eu não queria olhar para ele, tinha certeza que estaria rindo de mim. Era típico dele.
— Não, não é. É só um vizinho que está com a máquina de lavar quebrada e pediu minha ajuda — confessei.
Finalmente com coragem de encará-lo, lá estava, aquele sorriso orgulhoso e sincero. Era muito difícil eu me relacionar e confiar em pessoas novas, e Leon sabia muito bem disso.
Leon concordou com a cabeça e pegou a muda de roupa, passando pelo corredor.
Voltei para a sala, deparando-me com Emily exibindo a coleção de filmes DVD da Barbie, ambas sentadas no chão.
— Essa aqui é minha favorita. A de cabelo roxo — a menina falava empolgada.
— Adorei o cabelo dela, da mesma cor que suas fivelas — Sherry passou os dedos pela trança que se desmanchava.
O sorriso de Emily se iluminou ao ser notada pela tia.
— Está muito molhada suas roupas, Sherry? — Interrompi.
Ela olhou para mim e em seguida para as próprias roupas. Sherry vestia um casaco de lã e uma calça justa, e estava sem sapatos pois ela havia tirado-os quando entrou.
— Estão um pouco, mas não quero incomodar.
— Que isso, pode ir ao meu quarto, pegue o que gostar. — Vendo-a hesitar, fiz sinal para a porta do quarto.
Ela olhou entre mim e Emily e depois se levantou para trocar-se.
— Mãe, vamos comer já, por favor — pediu com a voz manhosa.
Acariciei a cabeça dela e voltamos para a cozinha.
— Sente e espere eles voltarem, Emi — ordenei e assim ela o fez.
Abri o forno, onde uma travessa de macarronada gratinada se mantinha aquecida e coloquei no centro da mesa, entre os pratos.
A salada geladinha foi posta no balcão, assim como as batatas fritas.
— Vou abrir o vinho — falou Leon entrando no pequeno cômodo, vestindo as roupas do meu vizinho, que pareciam um pijama para ele.
— Sim, senhor. O abridor está na segunda gaveta — expliquei apontando, para em seguida servir uma colherada de almôndega no prato de Emily. — Coma bem.
Ela concordou com a cabeça em resposta.
As luzes piscaram enquanto Leon punha a garrafa e taças baratas sobre a mesa. Nos entreolhamos por um segundo.
— Parece que vestimos o mesmo tamanho, Grace — Sherry falou ao se juntar a nós. Ela escolheu um conjunto de moletom que eu raramente usava, e ficava muito melhor nela.
— Isso significa que você pode me emprestar suas saias de marca — brinquei sorrindo para ela.
O som das trovoadas se intensificaram, como se os raios estivessem caindo próximos do prédio.
Os olhinhos arregalados de Emily me procuraram. Ela estava com a boca lambuzada de molho de tomate e segurava o garfo com uma almôndega espetada ali.
— Está tudo bem, Emi. É só a chuva. — Antecipou Leon, tranquilizando-a.
Comemos, apesar da instabilidade da luz.
— Está muito bom, amiga — elogiou Sherry.
Sorri em agradecimento.
A essa altura, só sobrara o picles azedo da salada, e duas batatinhas um pouco queimadas. Isso era um ótimo sinal.
Minha barriga estava inchada por comer tanto, e pelos suspiros pesados de Leon, eu sabia que ele estaria da mesma forma.
Bebi o último gole da minha taça de vinho, com o rosto quente.
Pensando na tempestade, e na forma como eles entraram no apartamento, perguntas me inundaram.
— Onde vocês deixaram o carro?
Olhei para Sherry e depois para Leon. Ele bebeu um gole de vinho.
— Um quarteirão para trás, onde não estava alagando. E viemos andando até os fundos do prédio — explicou. A tranquilidade na voz mostrava como aquilo não era um incômodo. Afinal, a chuva não era culpa minha.
Esse se tornara um dos meus exercícios após voltar para a terapia.
— Que bom que conseguimos chegar — falou Sherry, com o sorriso meigo de sempre.
Leon, sentado ao lado de Emily, percebeu que ela limpava a boca suja no braço e esticou um guardanapo para ela, que aceitou.
Sorri com a cena.
Ele estava certo, agora que estávamos juntos e alimentados eu nem conseguia me lembrar do nervosismo de preparar tudo.
Um estrondo. O apartamento tremeu. Escuridão. Um grito agudo soou.
Silêncio.
— Tá tudo bem — disse uma voz grossa. — É só um apagão.
Pisquei com força, mas o breu não me permitia ver nada.
— Emily, fique sentada — ordenei, e tateei o caminho até ela, já ouvindo o choro baixinho.
Alguém pigarreou e ouvi passos sobre a madeira.
Minha filha chorava pelo susto. Mesmo estando pesada, abracei-a em meu colo. Com um braço estendido, procurei o caminho até o sofá da sala.
— Você tem velas, Grace? — A voz de Sherry quebrou o silêncio. Uma lanterna de celular iluminou o caminho dela até nós.
Apontei para um gaveteiro no corredor e ela entendeu, indo procurar.
A força da tempestade batia contra as janelas.
Sherry e Leon prontamente acenderam velas e distribuíram pela sala, enquanto eu balançava Emily até perceber que ela caíra no sono.
— Vou colocar ela na cama — sussurrei para Leon que estava sentado na poltrona mexendo no próprio celular.
Em resposta, ele acenou com a cabeça e sequer tirou os olhos do aparelho.
Empurrei a porta do quarto dela com as costas e carreguei-a até a cama, colocando ela deitada com cuidado.
Acendi o abajur de pilha em formato de joaninha, e a luz avermelhada tomou conta do quarto.
Dei um beijo na bochecha delicada dela, inspirando o cheiro adocicado da minha filha.
— Durma bem — sussurrei e saí do quarto, acompanhando a figura dela sumir pela fresta da porta.
De volta à sala, Sherry estava deitada no sofá de dois lugares e Leon do mesmo jeito de antes.
— Pelo visto está viciado nesse celular — brinquei, virando para a janela, só sabendo da chuva que se chocava contra ela.
— Só estou tentando falar com o velho do seu síndico — resmungou. Claro que ele sabia que o síndico do prédio era um velho, foi ele quem me ajudou a alugar esse apartamento.
— A essas horas ele já deve ter dormido — expliquei com as mãos na cintura.
— Sabe onde está o quadro elétrico daqui?
— Deve estar no terraço, na sala de manutenção.
— Eu vou dar uma olhada. Pode ser que o disjuntor tenha caído — avisou indo em direção à porta com aquele pijama e os sapatos sociais molhados.
Liguei a lanterna do meu celular indo atrás dele.
— Sherry… — disse, mas ao olhar para ela, já estava adormecida com a boca aberta e os braços jogados para fora do sofá.
Segurei a risada e fechei a porta do meu apartamento para seguir Leon.
— Ela dormiu também — comentei.
— Sherry tem estado bem apurada ultimamente. Comentou comigo sobre fazer um tipo de yoga que você fica suando, ou sei lá…
— Hot yoga? — Perguntei rindo.
— Acho que era isso — resmungou subindo o último lance de escadas até a sala de manutenção.
Minha lanterna iluminou grande parte do pequeno cômodo, enquanto Leon mexia nas peças.
— O problema não é aqui, deve ser na concessionária — ele bufou. — Podemos abrir uma ocorrência pelo site.
Concordei com a cabeça.
— Vocês podem dormir aqui essa noite, quero dizer, até a chuva parar já vai ser tarde demais.
E quero ter certeza que eles vão estar seguros, mas não digo isso.
— Se você não se incomodar, vai ser mais fácil do que tentar acordar Sherry — acrescentou com humor.
— Não se preocupe, você pode dormir no quarto de hóspedes — ofereci, enquanto descíamos as escadas.
— Vai me deixar estrear o novo quarto de hóspedes?
— Hoje o senhor tá merecendo — brinquei.
Um miado soou. Trocamos um olhar rápido, tendo certeza que não fomos nós que fizemos o som.
Apontei a lanterna para o chão, procurando a origem daquele barulho. Mais um miado agudo.
— Tem um gato aqui — sussurrei.
— É mesmo! Você tem vocação para veterinária, sabia? — ironizou, agachando-se para procurar atrás das caixas.
Revirei os olhos e continuei procurando.
Enrolado em um pano sujo estava uma bolinha de pelos alaranjados. Com a luz do celular, o gatinho virou na nossa direção e berrou.
— Achei — enfiei a mão entre as caixas para pegá-lo.
O gatinho se aninhou na minha mão, tremendo e um pouco molhado.
— Quer um gato? — perguntei encarando o homem perto de mim.
— Sem chance. Eu mal fico em casa, quem vai cuidar desse bicho? — Reclamou, descendo as escadas.
De volta ao apartamento, Leon cobriu Sherry com uma manta e sentou-se na poltrona ao lado. As velas queimaram até a metade. E o gatinho continuou assustado no meu colo.
— Consegui abrir uma ocorrência, mas eles avisaram que só vão conseguir vir verificar quando a tempestade diminuir — expliquei mantendo a voz baixa para não acordar Sherry.
Leon riu de desdém.
— Pode esperar sentada — acrescentou ele.
Tentei pensar em tudo que poderia estragar se ficasse sem energia, mas só conseguia pensar na geladeira.
— Merda, o sorvete vai descongelar — falei entredentes apontando a lanterna na direção da cozinha.
Abri a geladeira e peguei o leite, coloquei em um potinho e deixei no chão. O gatinho pulou do meu colo para beber o leite, morto de sede.
— Cuidado, os animais só podem tomar o leite das próprias mães — alertou Leon ao entrar na cozinha com a lanterna do celular ligada.
Ergui minhas sobrancelhas na direção dele e abri o freezer, pegando o pote de sorvete.
— Pra quem não quer um gato de jeito nenhum, você tá sabendo bastante — ironizei.
— Depois de um tempo a gente aprende uma coisa ou duas.
Eu sempre conseguia ver o sorriso no rosto dele, mesmo sem precisar olhar para conferir. Peguei duas colheres e abri o pote, colocando-o sobre a mesa ainda bagunçada do jantar.
Começamos a comer o sorvete um pouco descongelado. O sabor do morango era completamente artificial, mas era tão especial, apesar dos obstáculos.
— Obrigada por virem essa noite. É muito importante pra mim ter vocês por perto — falei, sentindo o choro se embolar na minha garganta.
Leon comeu mais uma colherada.
— É um prazer ter você como parte da minha família. Eu sei que às vezes sou ingrato, mas quero que você saiba o quão você, Emily e Sherry são importantes pra mim.
A essa altura eu não conseguia mais segurar o choro, e as lágrimas escorriam pelas minhas bochechas.
— Sei que você é completamente contra isso, mas me sinto muito responsável pelo bem-estar de vocês — rimos chorosos juntos. — Um dos meus maiores orgulhos é ver você e a Emily juntas, fazendo tudo isso. — Ele apontou para a casa e entendi o que ele quis dizer.
Mesmo no escuro, dava para enxergar nossas fotos coladas na geladeira, os desenhos dela também colados lá. Os livros de receita feitos a mão por nós duas, quando eu tento ensinar ela a ler e a cozinhar ao mesmo tempo. Até o papel de parede da cozinha tem estampas de pequenas margaridas porque quando Emily saiu da clínica e pôde enxergar o mundo pela primeira vez, essas foram as primeiras flores que ela viu. E as amou desde aquele segundo.
— Ela é tudo pra mim — confessei. — Não sei mais como minha vida seria sem ela. — Enxuguei as lágrimas e Leon afagou o topo de minha cabeça de forma fraternal.
— Eu sei. Ainda sou novo pra isso, mas sinto como se ela fosse minha neta — falou e soltou uma gargalhada. Eu o acompanhei.
Sequei o resto das lágrimas e comi o restante do sorvete.
— Pode ir deitar na sala, vou dar um jeito nessas louças — propôs, já se colocando em pé e juntando os pratos da mesa.
— Não vou ser modesta, ajudaria muito — confessei.
Ajudei ele a colocar os pratos e copos na pia, e ele começou a lavar e secar. Fui até a sala e me deitei no sofá maior. Estava caindo de sono e o som da chuva era como uma canção de ninar.
Sequer tinha percebido em qual momento dormi, mas despertei com os passos de Leon voltando para a sala.
— Dei um pedaço de maçã para o gato. Ele parecia com fome — explicou, sentando-se na poltrona com as pernas esticadas sobre o puff.
— Eu e ele agradecemos — murmurei sonolenta.
— Vai ficar com ele? Emily vai ficar muito animada quando ver ele.
Tentei dar de ombros.
— Amanhã eu decido, mas imagino que sim ela vai querer ficar com ele.
Ouvi uma risada baixa e não demorou muito para que ele também caísse no sono, com o gato aninhado sobre a barriga dele, onde o ritmo da respiração o ninava.
