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A cafeteria abria às oito da manhã.
Heeseung chegava às sete e meia, sempre. Acendia as luzes, ligava as máquinas, colocava a primeira leva de grãos para moer. Tinha um ritual, uma ordem certa para cada coisa, e ele seguia aquilo com muita seriedade.
Jay chegava às oito e dois, todo dia, sem exceção. E Heeseung, depois de um tempo, desistiu de questionar. Moravam na mesma casa e ele sabia o motivo de Jay atrasar, mas achava engraçado ele sempre chegar no mesmo horário quebrado, como se fosse um ritual.
— Você faz isso de propósito, né? — disse Heeseung, sem levantar os olhos da xícara que estava preparando, quando ouviu a porta abrir com aquele tilintar familiar de sino.
— Bom dia pra você também, Hee — respondeu Jay, jogando o casaco no gancho perto do balcão e amarrando o avental ㅡ E eu não faço de propósito, você sabe.
— Faz sim, eu moro com você há mais de 8 anos, Park Jongseong.
— E me conhece há mais de 10, devia saber que o meu alongamento matinal é sagrado.
ㅡ Você podia fazer isso mais cedo, sabia?
ㅡ Sim senhor, chefe. ㅡ Jay falou com um tom de deboche e sorriu em seguida.
ㅡ E por que sempre oito e dois?
ㅡ Eu gosto desse número.
ㅡ Tem algum motivo específico? você nunca me falou.
ㅡ Você nunca perguntou.
ㅡ É verdade. ㅡ Heeseung deu de ombros.
ㅡ É o dia que a gente se conheceu. ㅡ Jay disse simples. ㅡ Oito de fevereiro, o dia que eu te vi pela primeira vez.
ㅡ Não sabia desse seu lado romântico, senhor Park.
ㅡ E namora comigo há 8 anos? ㅡ Jay sorriu. ㅡ Eu gosto de chegar nesse horário, porque eu encontro você com um bico deste tamanho ㅡ ele gesticulou com os braços ㅡ e zangado, por ter me atrasado mais uma vez. Acabou que eu fiz disso algo especial pra mim.
ㅡ Que fofo, mas podia ter me dito antes, na minha cabeça o meu namorado era só um folgado preguiçoso.
ㅡ Assim você me magoa, hyung. ㅡ Jay fez bico e Heeseung sorriu, abrindo os braços e abraçando o mais novo.
A cafeteria era pequena, do jeito que cafeterias boas costumam ser. Oito mesas, uma estante de livros que os clientes podiam pegar e deixar, uma playlist cuidadosamente montada por Heeseung que Jay vivia tentando sabotar colocando músicas no meio sem ele perceber. As paredes eram cor de areia, as xícaras eram todas diferentes entre si, achados de feiras e mercadinhos que os dois tinham acumulado ao longo do tempo.
Não era o projeto de vida que qualquer um dos dois tinha imaginado quando se conheceram, mas tinha virado o lugar mais parecido com lar que Jay conhecia. Em parte pelo café. Em maior parte pela pessoa que estava sempre ao seu lado, atrás do balcão.
O problema começou, como quase todos os problemas da manhã começavam, com Jay tentando ajudar.
— Eu faço o leite — ofereceu ele, já se movendo em direção à vaporizadora antes que Heeseung pudesse dizer qualquer coisa.
— Jay.
— Eu sei usar a vaporizadora.
— Você sabe usar a vaporizadora no papel. Na prática, você sempre esquece de segurar o pitoro no ângulo certo e aí-
O som foi exatamente o que Heeseung estava prestes a descrever: um borbulhar rápido, um respingo e Jay recuando com uma expressão de choque. O leite foi no balcão, no avental e em parte considerável do braço esquerdo de Jay.
Silêncio.
— Eu vou limpar — disse Jay.
— Eu sei que você limpa — respondeu Heeseung, já pegando o pano. — O problema é que você suja primeiro.
— É um processo.
— É um problema, na verdade.
— Amor.
— Oi.
Os dois se encararam por um segundo. Então Jay sorriu, um sorriso largo, sem vergonha nenhuma, que Heeseung fingia que não o afetava e que claramente afetava. Heeseung desviou o olhar com um ruído de derrota no fundo da garganta.
— Vai trocar o avental — disse ele. — Eu termino aqui.
— Você me ama.
— Vou reconsiderar essa decisão.
Jay riu saindo pelo corredor. Heeseung ficou olhando para o balcão sujo, sacudiu a cabeça, e começou a limpar.
E, porque não tinha mais ninguém na cafeteria ainda para ver, deixou o canto da boca subir.
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O movimento da manhã chegou. De repente, em grupo, todo mundo precisando de café ao mesmo tempo como se tivessem combinado.
Heeseung ficava no balcão. Jay ficava nas mesas e no caixa. Sua energia intimidava pela quantidade. Ele cumprimentava todo mundo pelo nome, lembrava dos pedidos dos clientes fixos, papeava e sempre deixava as pessoas saindo com a sensação de que o dia tinha começado melhor.
Era um dos jeitos que eles eram completamente diferentes.
Heeseung era preciso e cuidadoso. Colocava atenção nas coisas de um jeito silencioso, no café que ficava na temperatura certa, no detalhe que ninguém pedia mas que fazia diferença. Jay tinha presença e era bom de papo. O tipo de pessoa que preenche um espaço de um jeito que você só percebe quando ele não está.
Juntos, a cafeteria funcionava em completa harmonia e sincronia. Separados, Heeseung tinha tentado tocar o lugar sozinho por três semanas quando Jay tinha viajado uma vez, e tinha sido tecnicamente correto e completamente sem graça. Ele não contou isso para Jay, mas ele provavelmente já sabia.
✦
No intervalo entre o rush da manhã e o almoço, quando a cafeteria ficava com aquela quietude gostosa de dois ou três clientes no máximo, Jay apareceu atrás do balcão com duas xícaras.
— Fiz pra você — disse, colocando uma na frente de Heeseung com uma cerimônia levemente exagerada, como se estivesse expondo uma obra de arte.
Heeseung olhou para a xícara e deoois olhou para Jay, que tinha os olhos brilhando em expectativa.
— Você que fez?
— Sim.
— Com a vaporizadora?
— Com a vaporizadora e sem incidentes. — Jay cruzou os braços com uma satisfação enorme. — Pode agradecer.
Heeseung pegou a xícara, examinou, tomou um gole. Era bom. Estava no ponto certo, o leite vaporizado como devia ser, a temperatura equilibrada. Ele olhou para o café por um segundo e depois soltou uma risadinha.
— Está bom — disse, com uma voz levemente diferente da que usava para reclamar.
— Tô melhorando.
— Está mesmo, amor.
Jay sentou no banquinho do lado de dentro do balcão, lá era o seu lugar favorito. Ficaram em silêncio por um momento, os dois com as xícaras, a cafeteria quieta ao redor.
— Dez anos.... — disse Jay, de repente, olhando para o café.
Heeseung não perguntou o quê, porque ele entendeu. Jay estava pensando sobre a relação deles.
— Dez anos — Heeseung confirmou.
— Parece mais. — Jay pensou um segundo. — Parece menos. Não sei.
— As duas coisas ao mesmo tempo — disse Heeseung.
Jay assentiu devagar.
Dez anos desde aquela noite fria, quando Jay sentou no balcão de um bar, pronto para encher a cara de álcool após um problema no trabalho e Heeseung estava sentado ao lado, fazendo a mesmíssima coisa. Eles pediram a mesma bebida para o barman, ao mesmo tempo e, após uma risada, iniciaram uma longa conversa que terminou com números trocados e um "te vejo em breve".
Dez anos de versões diferentes. Da amizade que foi crescendo antes de virar um namoro. Das brigas que pareciam grandes na hora e pequenas depois. Das madrugadas em claro e das surpresas de aniversário. Das crises e dos planos que mudaram, e do plano maluco de abrir uma cafeteria que tinha parecido impossível até deixar de parecer e se concretizar.
— Você se lembra do primeiro café que você fez pra mim? — perguntou Jay.
Heeseung franziu levemente o cenho.
— Você devolveu.
— Eu devolvi porque estava frio!
— Você pediu errado!
— Você podia ter perguntado o que eu queria direito antes de fazer!
— Eu perguntei. Você disse 'qualquer coisa'.
— 'Qualquer coisa' não significa literalmente qualquer coisa, Hee, significa que você deve usar o bom senso pra-
— Isso não faz nenhum sentido.
— Faz todo sentido!
Os dois pararam. O silêncio durou um segundo. Depois Jay deu uma risada primeiro, porque a situação era absurda, e Heeseung sorriu logo em seguida.
— Dez anos brigando sobre café — disse Jay, ainda rindo.
— Seis, na verdade. Dez que nos conhecemos e oito que namoramos.
ㅡ Deixa eu aumentar um pouco o meu drama, por favor.
Jay girou a xícara nas mãos, olhando para o movimento do líquido.
— Valeu a pena, né?
A pergunta era simples e não precisava de contexto. Heeseung entendeu tudo o que estava dentro dela. Ele não respondeu imediatamente. Não porque estava em dúvida, mas porque ele estava refletindo no quanto amava Jay.
— Sim — disse, por fim. Simples e sincero.
Jay virou o rosto pra ele.
Heeseung estava olhando para o café, mas havia um sorriso pequeno no canto da boca. Um sorriso que ele não mostrava para muita gente. O tipo de sorriso que Jay conhecia de cor e sempre despertava as borboletas que moravam em seu estômago.
— Mesmo com toda a bagunça? — insistiu Jay, com uma voz mais suave.
Heeseung finalmente virou o rosto e sorriu.
— Especialmente com toda a bagunça.
✦
A tarde chegou com mais clientes, mais pedidos, mais uma tentativa de Jay de operar algum equipamento que terminou com Heeseung limpando alguma superfície. A playlist foi sabotada pontualmente às três da tarde, quando uma música completamente fora do estilo apareceu no meio das outras e Jay fingiu não saber como tinha acontecido.
Às seis, quando fecharam, Heeseung varreu o chão e Jay limpou as mesas. Era a divisão natural deles, nunca combinada, só estabelecida com o tempo até virar parte da rotina como tudo mais.
Quando as luzes foram apagando uma a uma e a porta foi trancada, os dois ficaram do lado de fora por um momento, o silêncio da rua ao redor, o cansaço gostoso do fim do dia pousado nos ombros.
Jay passou o braço pela cintura de Heeseung enquanto começavam a caminhar.
— Amanhã você deixa eu usar a vaporizadora de novo?
— Não.
— E se eu prometer que não derramo nada?
— Você sempre promete isso.
— E às vezes cumpro.
— Às vezes não é garantia suficiente.
Jay apertou a cintura dele levemente.
— Hyung.
— Hm?
— Obrigado, por tudo. Pelos dez anos.
Heeseung ficou quieto por alguns segundos e depois encostou levemente a cabeça no topo da cabeça de Jay, por um momento, enquanto caminhavam.
— Amanhã você pode usar a vaporizadora.
Jay riu.
— Sabia que você me amava.
— Estou reconsiderando.
— Mentira.
— Mentira mesmo — concordou Heeseung, baixinho, sorrindo em seguida. ㅡ Eu te amo, muito.
ㅡ Eu também te amo muito.
E continuaram andando, lado a lado, como há dez anos. Nenhum dos dois precisava olhar para trás, não havia necessidade. O passado já estava guardado em cada xícara de café servida nesses últimos anos. E se o amor tem gosto de alguma coisa, talvez seja exatamente isso: uma bela xícara de café com leite vaporizado.
FIM
