Work Text:
B
Buck estava fazendo qualquer coisa, menos arrumando sua mala.
Por que Eddie estava olhando para ele daquele jeito em Nashville?
Parecia—
Não.
O que rolou em Nashville?
“Toda a água quente,Buck? Sério?”, diz Eddie exasperado.
“Você pode parar por um segundo?” Ele encara Eddie.
Eddie não para de reclamar desde que o carro de Buck quebrou no caminho de volta para Los Angeles. E não estava nem um pouco preocupado em disfarçar sua irritação.
‘Por que simplesmente não voamos pra Nashville?’
‘Como assim só vai ficar pronto depois de amanhã, Buck? Maravilha!’
‘Como você está conseguindo comer tanto? Parece que sal foi o único tempero que acharam na cozinha’
‘Só uma cama? Ótimo!’
‘Você usou toda a água quente, Buck’
Eddie olha pra ele incrédulo. “O que? Você usou a água quente do motel inteiro. Eu tenho direito de reclamar!”
Se fosse só sobre isso.
“Ah, claro. Porque é só sobre isso que você está reclamando”. Buck resmunga enquanto tenta fechar a mala.
Ele empurra o zíper com força, a mala não coopera.
Eddie cruza os braços.
“Por que você não para de resmungar? Você tem algo a dizer, não tem? Então diga Buck. Nos presenteie com sua opinião”, diz Eddie, em tom de desafio.
Buck suspira, balançando a cabeça.
“Você quer mesmo saber?”
Eddie assente, irritado.
“Não é só sobre a água, Eddie. É sobre você sendo rabugento.” Buck se levanta da cama, de frente para Eddie agora. “Tudo o que você está fazendo nas últimas horas é reclamar, reclamar e reclamar. Sobre tudo.”
Eddie levanta as sobrancelhas, indignado.
“Eu sou rabugento?” Eddie solta um riso curto e sem humor.
Essa é a parte que ele achou importante?
“Nem todo mundo acha tudo lindo igual você, Buck. Eu só estou reagindo como qualquer pessoa reagiria. Isso tudo está sendo uma droga, e você sabe disso. Seria melhor ter voado para Nashville desde o começo .”
Eddie começa a se afastar, pegando suas coisas e seguindo para o banheiro.
Buck poderia deixar essa discussão acabar ali mesmo, como fez muitas vezes. Deixando pra lá, desistindo de falar muitas coisas. Mas Eddie disse ‘seria melhor ter voado pra Nashville desde o começo’, e ele trouxe isso à tona antes. Eddie se arrependeu de ter aceitado a ideia de Buck de dispensar o avião e ir de carro.
Mas não era só sobre a irritação de Eddie. Ele estava acostumado com isso. Era mais do que isso.
A verdade é que as coisas tinham mudado. Eddie tinha mudado. A amizade deles tinha mudado. E Buck queria saber por quê.
O que ele fez de errado? Por que agora existe tensão entre eles?
Ele achava que essa viagem seria perfeita para descobrir isso. Viajar de carro juntos cairia como uma luva. Passar algum tempo sem distrações, apenas eles e a estrada. Horas para conversar.
Buck esperava consertar o que quer que estivesse acontecendo e desejava mais do que tudo que eles voltassem a ser como antes.
Eddie estava ali na frente dele, em todos os turnos, em todas as vezes que a 118 saia para algum bar depois do trabalho e em todas as vezes que ia visitar Buck e Buck ia visitar ele.
Mas ele ainda sentia falta de Eddie. De quando ele se sentia mais confortável em simplesmente aparecer na casa de Eddie quando bem entendesse, de quando Eddie também fazia isso. De quando tudo era simplesmente mais fácil. Mais natural.
Ele também se preocupava com algumas decisões que Eddie tomou, que afetavam outras áreas além da amizade deles. Como se fechar para a parte romântica de sua vida, por exemplo.
Pela primeira vez em muito tempo ele não sabia o que estava acontecendo com Eddie. E odiava isso.
Ele decide que não ia deixar essa discussão acabar assim. Não podia. Ele ignora as pedras em seu estômago e arrisca.
“O que aconteceu Eddie?” Sai mais rápido do que ele planeja.
Eddie para na porta do banheiro e se vira. “Eu acabei de falar, seu car—“
“Não, eu ouvi o que você disse”, ele precisava cortar Eddie antes de perder toda a coragem. “Eu sei que você se arrependeu de não ter viajado de avião. Olha, eu só queria, uh, passar um tempo com meu melhor amigo de novo. Achei que precisávamos disso.”
Ele arrisca olhar para Eddie, ele já está olhando de volta. Buck não consegue mais ver raiva ali, o rosto de Eddie está ilegível.
“O que você está dizendo Buck?” diz Eddie, a irritação se esvaiu um pouco de seu tom também.
Então Buck respira fundo. Se vai acontecer, que seja agora.
“Eu estou dizendo que…. algo está diferente, desde que você voltou do Texas, e eu só queria entender. Eu sei que a Abuela e o Bobby…. eu sei que isso mudou tudo, eu sinto isso também, eu-eu entendo” ele não vai começar a chorar. “Mas parece mais do que isso. Parece que alguma coisa aconteceu com…. a gente. Então, o que está acontecendo com você? Ou eu fiz alguma coisa?”
Suas mãos estão suando. Ele sente que revelou demais.
Tantas emoções passam pelo rosto de Eddie que Buck mal consegue entender. Ele dá um passo para mais perto de Buck, saindo da porta do banheiro.
Eddie o encara. “Olha, eu…. mudei desde que fui pro Texas. E nós dois passamos por muita coisa. É isso. Não tem a ver com você.” A voz de Eddie vacila na última frase. Buck percebe.
Então tem a ver com ele?
“Então, o que você está dizendo?”, pede Buck, quase inaudível.
“O que eu estou dizendo?”, ecoa Eddie.
“Você mudou e nossa amizade agora é assim? Nada está acontecendo pra você?” Buck sente como se uma agulha estivesse perfurando seu peito por perguntar isso.
“Buck, não é isso, eu vou resolver —“, diz Eddie exasperado.
“Resolver? Então temos alguma coisa pra resolver?” Buck percebe que tocou em algo. Eddie está ficando vermelho e Buck sabe que o pegou.
Ele queria que a sensação fosse de vitória. Ele sente que está prestes a ter um ataque cardíaco.
Buck consegue ver a mandíbula de Eddie tensionada, a irritação voltando pro seu corpo.
“Não. Você pode parar?” diz Eddie.
“Como?” Buck ri, curto e incrédulo.
Eddie esfrega o rosto com força.
Buck continua. “Você acabou de admitir que tem a ver comigo, que temos algo a resolver”. De repente,os olhos de Buck queimam, e ele perde tudo. “Você sumiu, Eddie. Você está lá, mas você sumiu. Às vezes eu tenho que saber de você pelo Chris. Eu só sei o que vocês dois fizeram no Halloween porque ele me contou. Você foi parar no hospital indo atrás da Abgail e eu fiquei sabendo pelo Harry. Meu melhor amigo está me afastando e eu não sei o motivo.”
“É sempre tudo só sobre você, né?” exclama Eddie, quase antes mesmo de Buck terminar de falar, num tom sarcástico.
“Sobre quem mais seria?” Buck estala.
Ele não deveria ter falado isso.
Buck se encolhe.
“O que você disse?” pergunta Eddie com os dentes cerrados, o tom entre desafio e hesitação. Ele da mais um passo em direção a Buck.
Ele não consegue olhar para Eddie agora.
“Eddie, eu não quis—“ ele tenta, sua voz quase inaudível.
“Ah, você quis sim, Buck. Diga logo”, ordena Eddie, um passo mais perto. Seus braços estão cruzados e Buck consegue ouvir sua respiração rápida.
“Você faz ser tudo sobre mim, Eddie.” Buck quase grita. Ele fala tão rápido que acha que Eddie pode não ter entendido, mas só por um segundo.
“Não, Buck”, Eddie responde com rispidez, a expressão vacila entre raiva e algo que Buck não consegue nomear.
Buck sabe que o olhar que lança é derrotado.
“Você… você faz ser sobre os meus sentimentos, pra não”, Buck engole. “falar dos seus.” Ele sente seu corpo inteiro doer.
Eddie se afasta como se tivesse levado um golpe físico, toda a raiva e irritação esvaziadas de seu corpo em um segundo.
Ele encara Buck com uma expressão murcha. Distante.
Ele observa Eddie sentar na cama e encarar o chão por minutos angustiantes.
Buck acha que pode ter quebrado Eddie.
“Eddie, me desculpa—“
“Vou tomar banho.” Eddie anuncia, se levantando com um estalo. Buck acha que ele parece prestes a chorar.
Eddie pega suas coisas, se tranca no banheiro e fica lá por muito tempo.
Buck arruma a cama e deita em seu lado.
O que ele fez?
Ele não age assim, por que ele agiu assim agora?
Ele perdeu Eddie para sempre?
Ele perdeu o único melhor amigo que teve em toda a sua vida?
Ele perdeu Chris também?
O que Eddie tinha que resolver entre eles?
Ele sente um buraco no peito. Ele não era assim. Nunca foi. Será que ele chegou àquele limite que as pessoas falam que você quebra e acaba com tudo?
Seus olhos estão molhados de novo.
Eddie sai do banheiro. Ele não liga nenhuma luz, apenas mexe em alguma coisa em sua mala e depois se deita ao lado de Buck. Muito silenciosamente.
Ele precisa consertar isso. Precisa tentar pelo menos mais uma vez.
“Eddie—“
“Boa noite Buck” diz Eddie, num tom indecifrável.
O que ele fez?
E
“Eddie, me desculpa—“
“Vou tomar banho.”
Ele se levanta e pega sua coisas. Não dá pra ficar ali agora. Buck ainda quer conversar, mas ele não quer. Ele não consegue.
Sua garganta parece estar fechando. O ar está entrando e saindo muito rápido de seus pulmões.
‘Você faz ser tudo sobre mim, Eddie’
Ele segura a pia com força além do necessário. E tenta se recompor. Fazer os exercícios que lhe ensinaram.
Inspira. Expira.
‘Você faz ser sobre meus sentimentos, pra não falar dos seus’
Inspira. Expira.
Sua respiração começa a voltar ao normal.
Inspira. Expira.
Suas pernas parecem estar voltando a ser firmes de novo.
Inspira. Expira.
Ele olha para seu reflexo no espelho. Parece destruído.
Era isso, não era?
Buck estava certo. Buck viu.
Ele sabe? Ou só acusou Eddie de não olhar para seus sentimentos seja qual forem?
Eddie achou que estava fazendo um ótimo trabalho criando apenas um pouco de distância entre Buck e a bagunça de sua recente descoberta — considerando que ele demorou três décadas para entender — “recente” é um conceito relativo.
Voltar para o Texas mudou tudo.
Sentir falta de Buck o tempo todo não podia significar muitas coisas. Pensar nele o tempo todo poderia significar menos coisas ainda. Junte isso as opiniões sem filtro, e os olhares de pena de suas irmãs e você terá o verídico.
‘Está tudo bem admitir que você precisa dele’
‘Acho que isso é paixão, Hermano!’
Aceitar…. admitir que seus sentimentos por Buck não são platônicos foi a parte fácil. É Buck. Buck é gentil, bondoso, inteligente, leal,…. Ele é apaixonante. Eddie não pode dizer que estava totalmente bem com essa parte, mas é quase isso.
Mas amar Buck é fácil. Amar um homem não é. Essa é a parte difícil. Essa é a parte que desestabiliza toda a imagem que ele tem de si, que o faz repensar todas as suas escolhas de vida.
Ele ainda não entende o que isso significa totalmente. Não em relação a mulheres. A Shannon. Ao casamento que ele jurou que era amor. Ao homem que achava que era e que deveria ser.
E essa é a bagunça. A bagunça que ele esperava manter afastada de Buck enquanto descobre tudo.
Mas não. Ele só conseguiu machucar Buck. A única pessoa que gostou dele o suficiente pra chamá-lo de melhor amigo. O homem que cuida dele e de Chris.
Fez Buck duvidar de seu valor-próprio. Pensar que Eddie não o queria mais por perto. Que algo estava errado com ele.
Nada disso era verdade. Eddie queria Buck por perto. Mais do que nunca.
Agora que ele estava se abrindo para isso, podia admitir que precisava de Buck, que gostava de precisar, gostava de querê-lo.
Que gostava de toca-lo — uma mão nas costas, ombros se esbarrando ao andar, pernas se encostando no sofá por tempo demais.
Que ouvir Buck falar por horas nunca o cansava — às vezes, até o acalmava.
Que gostava de como ele aparecia na casa de Eddie com pizza ou ingredientes que ele nunca tinha visto, para cozinhar algo que ele nunca tinha ouvido falar.
Amar Buck é fácil, é genuíno, quase instintivo.
O faz sorrir pro nada. Corar quando Buck o olha por tempo demais. Ficar ansioso quando ele está chegando para uma noite de filmes.
É bom, um sentimento muito bom, um que ele nunca experimentou.
Um que o faz querer….
As vezes, Eddie se pega pensando se Buck poderia sentir o mesmo. Uma vozinha bem lá no fundo diz que sim.
Olha como ele te olha quando acha que você não está vendo.
Olha o que ele faz por você sem pedir nada em troca.
Ele também acha que sim, as vezes. Buck retribuir os sentimentos. Ele seriam um belo casal. Provavelmente.
Mas Eddie não é bom assim, é? Não para Buck.
Pelo menos, não ainda. Não com todas as coisas que ele tem para descobrir.
Buck merece mais.
Ele sempre destrói as coisas. Arrasta as pessoas com ele.
Ele fez de novo. E nem percebeu. Machucou alguém que ele ama.
É claro que Buck iria perceber que ele se afastou, Buck é Buck. Quando se trata dele, Buck sempre percebe. Cuida. Ajuda.
Ele precisa resolver isso. Não pode perder Buck.
Mas não dá pra contar a verdade a ele.
Talvez um dia.
Talvez eles possam conversar e voltar ao normal. Mesmo que, para Eddie, nunca mais exista o “normal”.
A água fria ajuda com a tensão.
Ele quase ri da ironia disso.
A água quente acabou — e isso foi o início da briga.
Enquanto se veste, ele decide que eles definitivamente vão conversar, mas não hoje.
Amanhã.
Ele precisa pensar no que vai dizer.
Eddie destranca a porta. O quarto está escuro. Buck já está deitado. Bom.
Ele coloca as roupas sujas na mala, e se vira para a cama.
Cuidadosamente puxa uma das cobertas e se deita, ficando de costas para Buck.
“Eddie—“, diz Buck. Ou pelo menos tenta, com a voz trêmula.
“Boa noite, Buck”
Dói dizer isso. Mas precisa ser amanhã.
A cabeça dele está explodindo agora. Milhões de pensamentos.
Se eles começaram agora ele pode dizer a coisa errada, ou revelar demais.
Ou explodir tudo de uma vez.
….
Ele mal dorme.
Sabe que Buck também não. Ele nem roncou.
Quando abre os olhos de manhã, percebe que mudou de posição.
Eles mudaram de posição. Agora estão no meio da cama, deitados de barriga para cima.
Braços e pernas se encostando.
Ele não tem certeza em que momento isso aconteceu durante a noite. Ou quem se aproximou primeiro.
Ele fica imóvel.
As mãos deles estão tão próximas que ele consegue imaginá-las entrelaçadas.
Ele sente o calor de Buck. A proximidade. Ouve os suspiros que ele solta enquanto dorme.
Buck parece tão calmo em sua névoa de sono. Eddie sabe que não é verdade. Ele vai começar a pensar em mil coisas por minuto no momento que abrir os olhos. Mas ele parece tão tranquilo agora.
Tão alheio a briga que eles tiveram.
Eddie fica ali, apenas o observando.
Ele deseja absorver um pouco dessa calma. Seria útil hoje.
Ficar assim com Buck quase o faz esquecer a situação deles. Estava começando a parecer um pouco bom demais.
Perigoso demais.
Então ele puxa a coberta para baixo cuidadosamente e sai da cama, torcendo para não acorda-lo.
….
Vestir as primeiras roupas que suas mãos tocaram no desespero de sair do quarto resultou em um uma combinação que ele nunca escolheria — calça jeans cinza, henley azul e jaqueta bordô.
Ele agradece por ser previsível, e nunca se aventurar além dos tons neutros quando compra roupas. Se esse fosse o caso, provavelmente ele estaria ainda mais ridículo agora.
Ele só percebe que chegou ao restaurante do lado do hotel quando já está na porta.
Enquanto andava até lá só o que ele conseguia pensar era no que ele falaria pra Buck.
Algo para tranquiliza-lo de que não tem nada a ver com ele.
Mesmo que tenha.
Nada muito revelador para Buck não achar que Eddie está apaixonado por ele, e isso estragar tudo o que eles já tem.
Ele está apaixonado.
Demais.
Para o meio do nada, o restaurante não está tão vazio. Ele entra e observa as pessoas acomodadas em seus lugares, quase fazendo uma varredura — hábito que você adquire sendo ex-militar e socorrista.
Ele escolhe a cabine mais afastada de todos. De frente para a porta. De costas para a parede.
Buck aparece quase 50 minutos depois.
Deus, 50 minutos pensando e ele não chegou a nenhuma conclusão.
Buck abre a porta do restaurante mais agitado do que o normal.
Ele vira a cabeça de um lado para o outro rápido demais. Lembra um policial procurando um criminoso no meio da multidão.
Ele para quando encontra Eddie. Buck não sorri como sempre.
Buck hesita alguns segundos antes de ir até ele. Eddie odiou isso.
Buck senta de frente para ele. Braços apoiados na mesa. Dedos se mexendo ansiosamente.
“Oi.” Buck o observa com cautela.
“Oi”, ele espera que seu tom seja neutro, ou descontraído. E não tenso, igual ele está se sentindo agora.
Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa a garçonete vem em busca de um pedido pelo quarta vez.
Ele disse que ainda não sabia o que pedir das outras três.
Ela sorri para ele com paciência insaiada. “O senhor decidiu o seu pedido?”
Ela não está irritada por que ele ficou aqui quase uma hora sem consumir nada, está?
“Café. Ovos e bacon.”
“Anotado. E quanto ao senhor?” Ela sorri por tempo demais para Buck.
Eddie quase revira os olhos.
“Uh? Panquecas. Café também.”
“Anotado. Vou agilizar pra você”, ela diz lançando um olhar a Buck e saindo.
Oferecida.
Ei, Buck é solteiro. Lembra?
E irritantemente bonito. Deus ajude qualquer um.
Ela sai.
E agora eles estavam olhando um para o outro. Buck inquieto. Eddie tenso.
Nenhum dos dois tinha coragem de falar.
Eles estavam em silêncio. Não era um silêncio confortável, era apenas…. silêncio.
Ele decide acabar com isso.
Bate a mão no lugar ao seu lado.
Buck o encara, perdido.
“Eu estava prestes a ligar para o Chris. Ele vai querer falar com você também.”
Buck parece querer dizer algo, mas não o faz. Ele apenas desliza sobre o grande acento que contorna quase toda a mesa, até que esteja ao lado de Eddie, perto além de o necessário.
Bom.
Chris atende quase imediatamente.
Estranho.
Buck sorri ao ver Chris.
Eddie ama ver essa expressão no rosto de Buck. Depois de ontem, ama mais ainda.
Chris parece ter acabado de acordar. Fios de cabelo saindo em várias direções diferentes. O olhar sonolento. Um dos olhos fechado enquanto boceja.
Ele lembra Buck saindo da cama depois de um turno de 24 horas.
Eddie sente uma onda de afeto lembrando disso — eles morando juntos por um curto período quando Eddie voltou do Texas.
“Oi amigo”, eles dizem em uníssono.
“Está tudo bem?” Chris pergunta, um pouco alarmado.
“Tudo bem. Por que não estaria?” Eddie pergunta.
Chris volta a prestar menos atenção.
“Vocês acabaram de me ligar. E agora estão ligando de novo, e por vídeo.”
“Eu? Eu não liguei—“. Ele olha para Buck, que está olhando para baixo, sorrindo meio constrangido.
Era isso que Buck queria dizer. Eles já haviam se falado.
Eddie bufa.
Buck e Chris tem seu próprio relacionamento. É bom quando essas coisas acontecem e fazem Eddie lembrar disso. O jeito que eles se preocupam um com o outro é independente dele.
“Buck falou com você Chris, eu não.”
Chris revira os olhos enquanto coloca os óculos. “E qual a diferença? Vocês repassam as informações um pro outro de qualquer jeito. Parecem— nossa, a aparência de vocês está uma merda.”
“Linguajar” Buck e Eddie dizem ao mesmo tempo.
Eles se olham rapidamente.
Deus, sério?
Chris revira os olhos de novo. “Vocês dormiram essa noite?”
Agora eles se olham de novo, mas com outro sentimento. Tristeza.
“Mais ou menos”, responde Buck. É possível sentir o desconforto em sua voz.
Christopher os olha com uma expressão engraçada.
Eddie desvia do assunto. “Então, huh, como estão as coisas por aí?”
“Buck sabe, já contei tudo para ele. Acordei pra isso” diz Chris, com sarcasmo.
“Como eu iria saber que você estava dormindo?” diz Buck, suplicante.
Chris os dispensa depois de mais duas perguntas, dizendo que tinha partidas para jogar e que Buck provavelmente já sabia tudo que Eddie queria perguntar mesmo.
Eles ficam ali, um ao lado do outro. Encarando a tela do celular de Eddie.
Buck decide quebrar o silêncio.
“Eddie.”
Ele se vira e olha para Buck.
“Você, uh, podemos conversar agora?”
Buck o observa, esperando uma resposta. Eddie jura que consegue ver os momentos da última noite martelando em sua cabeça.
Sim, me desculpa.
Ele esta prestes a abrir a boca quando a garçonete volta com seus pedidos.
Ela olha um pouco curiosa para a mudança de lugar de Buck, mas rapidamente volta a se concentrar em mudar as refeições da bandeja para a mesa.
“Obrigado.” Buck agradece educadamente.
Ela lança a Buck outro olhar.
“Obrigado.” Infelizmente Eddie também tem educação.
Ela sai com um gesto.
Ele está tão feliz que ela nunca mais vai ver Buck depois de hoje.
Ah, Buck.
Eddie volta a olhar para ele. Buck já está olhando de volta.
Talvez nunca tenha parado de olhar.
“Sim, podemos.” Ele observa a postura de Buck ficar um pouco mais relaxada. “Mas aqui não. Vamos voltar para o quarto.” Ele diz, usando sua voz mais segura e tranquilizadora.
Buck assente.
Eles começam a comer e Eddie faz uma pergunta sobre Chris. Que se transforma em outra, e outra. E logo eles estão comendo, rindo e divagando sobre o menino.
Eddie se permite aproveitar esse momento de normalidade.
….
Eles não conversam depois. Simplesmente não conseguiram.
Eddie acordou achando que eles iriam morrer de tédio naquele lugar. Que o único grande evento de seu dia seria a conversa sobre a amizade deles.
Ele estava errado. Esse só era um dos grandes eventos.
Eles passaram horas sob perigo. Buck quase morreu — de novo, pra variar.
“Ai”, diz Buck.
“Fica quieto”, a voz de paramédico entra em ação antes da de Eddie.
Buck está com um corte na testa. Quase na linha do cabelo.
Sim, já foi examinado. Sim, ele vai examinar de novo mesmo assim.
É irônico que eles parecem sempre viver à beira da morte.
Eles estão na parte de trás do motel agora. O sol se pondo. Só eles e o silêncio.
Não há muito o que ver. Apenas metros e mais metros de terrenos de plantio. Quase todos são planos.
O céu é a grande coisa. É um dos pôr do sol mais lindos que ele já viu. Várias cores quentes se misturando. É um espetáculo.
Ele reflete sobre a vida deles enquanto examina o corte de Buck.
Hoje foi Buck. Mas já foi Eddie outras vezes. Já foi Buck outras vezes também.
Eddie tenta afastar o pensamento de que, em uma dessas vezes, Buck realmente morreu.
Hoje ele caminharia com Buck até o quarto, se sentaria com ele e faria tudo ao seu alcance para explicar a Buck que ele não é o problema. Que nunca foi.
Que Eddie o quer em sua vida, que eles vão ser sempre melhores amigos. Ele achava que conseguiria achar um jeito de explicar isso para Buck sem revelar muito.
Mas hoje quando o pior estava acontecendo, ele teve um lembrete de como é a vida, jogado bem na sua cara.
As pessoas morrem.
A vida não é justa e nem espera.
Eddie teve um vislumbre disso. E foi desesperador.
Um mundo sem Buck. Sem a alegria que ele trazia para Eddie e para Chris.
Um mundo em que ele nunca contou.
Um mundo que Buck nunca soube o quanto Eddie o apreciava. O quanto o desejava. O quanto significava para ele.
Ele iria ser um covarde hoje. Eles iriam conversar e Eddie iria se certificar que eles voltariam para Los Angeles ainda como amigos.
Ele convenceu a si mesmo de que, se se privasse disso, estaria protegendo Buck.
Buck não merecia essa versão quebrada e perdida dele.
Ele estava mentindo pra si. Eddie não iria apenas se privar. Ele privaria Buck também.
Se as circunstâncias fossem outras, Buck partiria sem saber exatamente o tipo de pessoa que é.
Uma tão gentil e verdadeira, que despertou coisas em Eddie que ele nunca achou que pudesse sentir, outras que ele achou que estavam mortas.
Buck era um raio de sol.
Era conforto nos dias nublados.
Era a certeza de Eddie de o mundo não era totalmente ruim.
Era um dos heróis de Chris.
Eddie o privaria disso.
Privaria Buck de saber quantas coisas bonitas eram méritos dele.
“Eddie, o que foi?”, pergunta Buck alarmado.
Ele desce seu olhar da testa para os olhos de Buck. Que o encara preocupado.
Ele sente um risco de umidade em seu rosto. Lágrimas, e ele nem percebeu.
“Está tudo bem?”, Buck pede.
Não. Mas pode ficar.
Talvez possa ficar.
Eddie planejava lidar com tudo isso — sexualidade, descobertas, culpa — sozinho.
Parecia simples na época. Buck não precisava saber de nada no começo.
Ele estava processando tudo. Devagar. Mas estava avançando.
Iria melhorar. Ser uma pessoa melhor.
E quando fizesse as pazes com tudo isso. Quando se sentisse bem. Contaria ao seu filho e Buck. E depois para a 118.
E se, por acaso, depois de tudo isso, se sentisse digno de Buck. Se acreditasse que poderia fazê-lo feliz. Nem que fosse metade do que Buck o faz. Ele contaria a Buck sobre seus sentimentos.
Não parece mais simples.
Coisas aconteceram. Ele foi se deixando sentir. Deixou escapar em alguns momentos.
A decisão de ser sempre o melhor amigo. De nunca contar. Agora é muito pesada.
Eddie queria esperar até ser sua melhor versão. Ser tudo o que Buck merece.
Mas depois de hoje, ele sabe que talvez nunca exista momento perfeito.
Ele não sabe se aguentaria quase perder Buck outra vez…. sem nunca tê-lo de verdade.
Tudo o que ele, que eles tem, é o agora. O que está acontecendo.
Então ele vai tentar se permitir. Vai tentar escolher a alegria.
Pela primeira vez na vida ele sabe exatamente o que quer, e vai abraçar isso.
“Precisamos ter aquela conversa. Agora.”
Buck o olha com atenção e assente.
Preocupação e nervosismo estampados em seu rosto.
“Eu preciso dizer tudo que tenho para dizer. E você tem que apenas ouvir até eu terminar. Sem interrupções.”
Buck assente de novo. Eddie sabe que ele quer falar alguma coisa.
“Você pode escolher fazer o que quiser com o que eu vou falar. Independente do que for. Vai ficar tudo bem. Eu te garanto”, diz ele. Tentando parecer seguro.
Talvez nada fique bem de novo.
“Eddie, eu estou começando a—“ diz Buck, em tom baixo.
“Só escuta, Buck”, diz Eddie, abaixando a voz. “Por favor.” Ele suplica.
Buck está olhando para ele.
Eddie vai derramar seu coração e esperar que fique tudo bem no final. Seja lá o que isso signifique.
É agora. Ele sente que está prestes a pular de um precipício.
Respire.
“Ontem você tinha razão. Sobre tudo. Não era sobre a água quente. Eu sei que algo mudou entre a gente. E sim, sou eu quem transforma tudo em algo sobre você.” Parece que ele engoliu ácido e está derretendo todas as suas entranhas.
Buck parece uma estátua. Atento a cada palavra que sai da boca dele.
“Tem muitas coisas que eu não te contei. E sim, eu afastei você. Mas nada disso é culpa sua. Eu…. eu descobri coisas enquanto eu estava no Texas. Coisas novas sobre mim. Na verdade, coisas que eu não sabia. Quer dizer, eu sabia até certo ponto. Só nunca tinha encarado de verdade.”
Ele suspira de frustração. Passa as mãos no cabelo.
Por que falar dos próprios sentimentos é tão difícil?
Buck franze as sobrancelhas. Ele está tentando entender.
“O que eu quero dizer é que achei que tinha descoberto coisas sobre mim, mas, acho que eu só estava vendo as coisas de um jeito mais claro, e não pela primeira vez. Faz sentido?”, Buck assente. “Eu afastei você porque não queria te atrapalhar com as coisas difíceis que eu ainda não sei explicar.”
Nem pra mim.
Buck dá alguns passos em sua direção. Prestes a protestar.
‘Você nunca me atrapalharia.’
‘Eu nunca sentiria isso.’
Eddie ergue um dedo para adverti-lo. “Antes que você diga qualquer coisa, deixa eu terminar.”
Deixe-me dizer que estou apaixonado por você.
Buck recua um passo. Relutante e apreensivo.
“Eu….” Seu corpo inteiro está tenso. Parece que pode quebrar a qualquer momento. “Você disse que eu ignoro meus sentimentos. Que sempre faço tudo girar em torno de você. Eu não sabia que fazia isso. Mas você tinha razão, eu fiz isso mesmo.”
Dói admitir isso. Ele pensa nas vezes que agiu assim e nem percebeu.
“Eu acho que era porque era mais fácil. Era mais fácil falar de você. Ficar bravo com você. Porque se eu tivesse que falar do que eu sinto, eu teria que admitir que eu…. eu nunca consegui sentir raiva de você. Nenhuma vez.” Ele se aproxima de Buck. O coração palpitando. “Só de mim.”
Buck o olha, emocionado. Parecendo que não sabe o que fazer consigo mesmo.
“Eu teria que admitir que ficava com raiva de mim por precisar tanto de você. Por gostar de precisar.” Eddie solta a respiração que nem sabia que estava prendendo.
Buck o encara com lágrimas nos olhos, confuso. Um passo mais perto agora.
“Eddie, você é…. o que você— O que isso significa?” diz Buck, cauteloso.
Tantas coisas. Algumas tão intensas e abstratas que ele não conseguiria colocar em palavras. Outras tão simples e perfeitas que ele não sabe como demorou tanto para ver.
“Significa que eu levei anos pra perceber que eu já tinha o que sempre quis. Tive que voltar pro Texas e ficar longe de você pra ver o tamanho do espaço que você ocupa na minha vida. Mas agora eu sei. E depois do que aconteceu hoje, eu não quero mais guardar isso só pra mim. Não posso. Eu te amo Buck. Acho que desde a nossa primeira semana trabalhando juntos. Não tem nada que possa explicar isso se não, amor.” Ele se sente….calmo? Mais leve?
Nossa.
Buck não parou de olhar pra ele nem por um segundo, parecendo hipnotizado.
Ele está chorando agora.
Meu Deus. Ele esqueceu da parte que pode não ser recíproco.
“E se…. se você não sentir o mesmo, está tudo bem, nós podemos—“
Buck o beija.
Eddie desviava o olhar enquanto falava e nem percebeu que Buck estava invadindo seu espaço pessoal.
Ele apoiou as mãos na mandíbula de Eddie, e o puxou para que não houvesse nem um centímetro entre eles.
Eddie leva um milissegundo para registrar os lábios de Buck nos seus. É casto. Pouco mais que um leve toque. É uma resposta.
Buck quebra o beijo. “Eu nem acredito que isso está acontecendo. Eu te amo Eddie. Eu te amo tanto. Eu—“
Eddie o corta com um beijo.
Era tudo que ele precisava ouvir agora. Pode ouvir o resto depois.
O beijo é diferente dessa vez, é mais profundo. Exploratório.
As mãos de Buck pousam em sua cintura agora, puxando impossivelmente para mais perto. Pressionando-o contra ele.
Eddie deixa seu corpo seguir a própria vontade, passando mãos exploratórias pelo corpo de Buck.
A sensação da língua quente de Buck deslizando contra a dele, as mãos dele em sua cintura, o cuidado. É uma sensação divina.
Eddie sente como se estivesse flutuando.
É assim que beijar deveria ser o tempo todo?
Eles quebram o beijo depois de um tempo. Precisando respirar.
“Se eu soubesse que era só ter quase morrido, teria feito mais vezes.” Buck diz, balançando as sobrancelhas e sorrindo.
Os dois arregalam os olhos.
Buck começa a corar.
Ele já fez. Muitas outras vezes.
“Você é um idiota.” Eddie empurra Buck de leve para trás. Fingindo irritação.
“Aparentemente, um idiota que você não consegue sentir raiva nem que sua vida dependesse disso”, cita Buck, parecendo muito satisfeito.
Eddie passa a mão no rosto. “Não foi assim que eu disse.”
Mas já está sorrindo de orelha a orelha. Buck mais ainda.
“Vem. Vamos sair daqui. Está ficando muito escuro.” Ele puxa Buck com ele.
Deus, os engraçadinhos.
Mais tarde Eddie compartilha algumas coisas sobre suas descobertas no Texas — ele conta quase todas as coisas. Buck tem muitas perguntas.
Eddie diz as palavras ‘eu sou gay’ a alguém pela primeira vez. É bom. Buck o abraça e conta várias curiosidades sobre sexualidade. Ajuda.
Quando dormem juntos de novo, eles não ficam mais em lados opostos. Agora eles estão resolvidos. Buck o puxa contra ele e deposita beijos na parte de trás de seu pescoço. Eddie adormece com Buck abraçado a ele. É o melhor sono de sua vida.
