Actions

Work Header

O Ninho do Harpia

Summary:

Pomba estava muito nervoso. Chegava a hora de apresentar não só UM, como DOIS, namorados a seu pai: um ex-militar rígido, super protetor e, para piorar, completamente descrente do amor

One-Shot Frambole

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

capa

 

 

 

"Eu hoje tive um pesadelo 

e levantei atento, a tempo

 

Eu acordei com medo e procurei 

no escuro alguém com seu carinho

 

E lembrei de um tempo

 

Porque o passado me traz uma lembrança

 

Do tempo que eu era criança

 

E o medo era motivo de choro

 

Desculpa pra um abraço ou um consolo"

 

︵︵ 𓅰 𓅬 𓅯 ︵︵

. . .




Tuuuu tuuuu tuuuu tuuuu

 

 

– Pai..? 

 

– Pomba? 

 

– Oi!

 

– Olá… tá tarde 

 

– É! Então. Fiquei de esperar amanhã, mas acho que não ia aguentar

 

– Aconteceu algo? – Seu tom é firme e  um tanto duro demais, mas preocupado, definitivamente preocupado.

 

– Não! Eu liguei porque – Meus dentes prendem meu lábio inferior com força, me sinto zonzo de quase cair a pressão. E, olha, nem era uma apreensão muito lógica, apenas um receio irracional que eu nem sequer notava ter antes. Um nervosismo eufórico e inexplicável que parece querer bater de frente com minha felicidade atual, a mesma que me moveu a fazer essa ligação minutos atrás.

 

Um suspiro me escala, me escapa, foge por minhas narinas na primeira brecha que dou. Eu fecho meus olhos e me dou alguns bons segundos para pensar direitinho em como dizer aquilo sem pirar de vez. Sei bem que era pra ser algo simples. Mas se tem uma coisa que a visão de meu pai sobre o amor não é, é simples.

 

E Isso dificulta tudo, mas tudo mesmo.

 

Seria a primeira vez que eu precisaria ter uma conversa a respeito com ele, o que agora, na hora de encarar, me deixa realmente nervoso, definitivamente bem mais do que eu esperava estar. Mas ele precisava saber, ele merecia. Queria mesmo que ele soubesse que estou finalmente amando. Um amor doce e envolvente, muito diferente de como ele sempre descreveu.

 

– Bom, não queria falar disso por mensagem eu… bom… eu… – Engulo a seco as palavras que parecem querer escapar sozinhas. Estava tão motivado antes dele atender. Mas aquele sentimento bom, aquela motivação breve, não vinha mais só. Tornava-se uma amálgama estranha quando misturada a meu nervosismo crescente. 

 

Suspiro.

 

Não posso ficar só dando voltar para sempre.

 

uma vez que eu disser, vai valer a pena.

 

– Tô namorando – Deixo a verdade sair, de uma vez só, como arrancar um curativo - sem pensar demais, sem complicação. Meu tom é firme no início, mas se torna mais leve, uma vez que consegui dizê-lo sem vomitar. 

 

Solto um ar que nem percebi ter reprimido em meus pulmões e me deixo tomar fôlego. Era como tirar ao menos parte de um peso de minhas costas. Sinto uma vontade avassaladora de sorrir. Meu coração bate mais rápido no peito, ao ponto de eu temer que acabe me sufocando de novo. Eu sentia como se fosse explodir

 

E não sei dizer se seria por felicidade ou ansiedade pura. 

 

Eu nunca, nunca mesmo, havia namorado antes. Nunca havia conseguido confiar em alguém o suficiente, me entregado assim, me deixado ser tão amado. Nunca quis tanto amar de volta em voz alta, como quero agora. E é por isso que seria a primeira vez que apresentaria alguém a família, mesmo que minha situação não fosse das mais convencionais do mundo. 

 

Tive a sorte de me apaixonar logo por dois de uma só vez e, mais ainda, de ter sido muito bem retribuído. 

 

Meu pai calou-se de súbito, do outro lado da linha, por um longo e arrastado minuto inteiro. E, honestamente, eu não saberia dizer o que se passa na cabeça do velho Harpia nem se eu me esforçasse muito.

 

Vinte anos da minha vida e eu nunca passei nem perto. 

 

O silêncio de repente me causa calafrios.

 

– Quando vou conhecê-lo? – Ele pergunta em um tom misto de secor e abertura, uma combinação extremamente Harpia de se fazer. Tão repentino que me sobressalto um pouco.

 

Já antecipava aquela pergunta.

 

Mas não me sinto pronto para ela mesmo estando a quase uma semana ensaiando sua resposta. 

 

Encaro o teto, respirando bem fundo, perdido no branco repentino que me toma, me encurrala em um corredor alvo e vazio dentro de minha própria cabeça. Minhas palavras só não saem, sinto-me preso em um labirinto. A linha novamente em silêncio 

 

– São… dois, na verdade…

 

– O que? – Seu tom é genuinamente confuso 

 

E, novamente, eu não saberia dizer o que se passa na cabeça de meu pai, nem se me esforçando

 

Vinte anos da minha vida

 

passei. nem. perto. 

 

Mas agora, eu definitivamente sei que ele nunca esperaria ouvir isso. Não de mim pelo menos

 

 

Talvez de Corvo

 

Definitivamente do Papagaio

 

Não do Pomba

 

 

Meus dedos coçam minha nuca ao que  desço meus olhos aos lençois limpos de minha cama, admirando a longa cabeleira dourada que se espalha por eles, fluindo da cabeça aconchega em meu colo, emoldurando sua face sonolenta e calma. Me perco em sua pele alva e no nariz grande que sempre me fascina, tão linda que me tira um suspiro, um daqueles patéticos demais, abobalhados demais. 

 

Contra seu queixo, cabelos espetados e ruivos se espalham por sua pele. Tão colados a elu, vindos de um corpo tão emaranhado ao seu, que quase pareciam um só. A face dona do escarlate é adornada por milhares de sardinhas adoráveis e uma tatuagem característica de nuvem. Ele parece dormir tão pesado, que sua boca se encontra entreaberta, quase babando, e, mesmo assim, ele é definitivamente um dos caras mais gatos que eu já vi. Eu sorrio, genuíno, ainda não acreditando em tê-los pra mim…

 

Os dois.

 

Com meu coração mais calmo, volto a meu pai

 

– Dois namorados – Repito, mais firme.

 

– Ha…





⸻ ✧ ./づ~ 𓅇 " 





Sábado;

Uma semana depois;

Por Harpia.



O gosto amargo que desce por minha garganta explicita perfeitamente a minha… angústia. A incerteza dura, difícil de deixar de lado, que me gera preocupação pura, mas obtusa, difícil de atravessar ou esquecer.

 

Mas Pomba parecia feliz na ligação.

 

E eu sempre soube que ele não tardaria muito a arranjar alguém. Meu filho é um rapaz bonito e gentil, inteligentíssimo. Ele encontraria um par cedo ou tarde, nunca duvidei disso. 

 

Era por isso que eu queria mesmo lhe dar meu voto de confiança.

 

Eu só, genuinamente, precisaria averiguar tudo muito bem antes de fazer isso de fato.

 

Pomba é ingênuo e tem um coração doce, sempre vê o melhor nas pessoas. Eu não.

 

Só quero ter certeza.

 

Certeza que ele não está cego de paixão. Que seus olhos bondosos não estão lhe mostrando apenas o que convém. Apenas o lado bonito.

 

E, convenhamos, eu definitivamente não estava esperando ter de lidar logo com dois genros de uma só vez

 

Estou sentado em minha poltrona, aguardando-os chegar. Um programa qualquer passando em minha televisão de tubo, cercada por plantas e fotos de família, em um grande raque-meio-estante. Meus filhos mais velhos papeiam sobre qualquer outra coisa. Não presto atenção em nada. A preocupação me engole vivo.

 

Meus tímpanos parecem dignos de um predador, atentos de mais, focados demais, prontos para me possibilitar uma efetiva emboscada a quantas presas eu desejasse

 

Ouço mais os carros passando lá fora que a TV, ou toda a converseira paralela. 

 

Ao ponto de identificar perfeitamente o barulho gasto e tépido daquele motor tão conhecido por mim, tal qual o estalo alto e nada discreto de seu câmbio, outrora tão rotineiro que eu chegava a nem ouvir 

 

Era indubitavelmente minha velha Chevette.

 

O carro de Pomba.

 

Ouvi as portas baterem e, não muito depois, a campainha tocar. 

 

Me apronto a levantar.

 

Me disporia defronte a porta com a postura impecável, ombros erguidos e olhos firmes. Como a figura imponente que quero passar ser.

 

Mas antes que eu possa de fato deixar minha poltrona, Coruja se apressa na minha frente, passos rápidos e dedos ágeis para girar a maçaneta sem me dar a chance de ao menos ficar em pé.

 

Ela sorri simpática à porta, cumprimenta-os e os indica para entrar e ficar à vontade. É suave.

 

Da porta, logo atrás de Pomba, vejo duas figuras estarem a seu encosto, as duas mãos de meu filho com seus dedos emaranhados a aqueles outros tão branquinhos

 

Ambos mais altos que ele, com aparências distintas, mas igualmente desniveladas, indômitas 

 

Eram revoltosos, subversivos a seu próprio modo

 

Rebeldes

 

A figura à sua direita tinha longos cabelos loiros, sobrancelhas finas e tensionadas, escondidas por trás de uma franja reta. Sobre seu nariz, um piercing bem na ponte, uma evidência de sua irreverência sutil e elegante. Seus olhos azuis-gelo passavam o mesmo tanto de emoção que sua face fria e apática. Indecifrável, essa era a palavra 

 

Mesmo suas roupas eram um meio termo muito bem pensado. blusa branca, social, de manga curta, colete preto com um bom corte, justo, mas não colado, calças boca de sino feitas de jeans preto, adornadas por um cinto de fivela enorme e cheio de ilhós. Suas botas pretas de saltos largos e grandes eram pontudas como o de uma bruxa. E, para dar uma mensagem mais forte, possuía, em seu pescoço, uma coleira de spikes moderadamente grandes. 

 

Era um visual forte, mas elegante. Respeitoso a sua medida, mesmo que trouxesse aquele tom irreverente de excesso de senso crítico 

 

Não sei o que pensar sobre esse ainda, assim, só de olhar.

 

Diz muito e nada ao mesmo tempo.

 

Mas quando volto meus olhos à sua esquerda, passo a ver tudo vermelho escarlate. 

 

Cabelos ruivos espetados, olhos verde-nervosismo, camiseta de banda punk, tatuagens no rosto e pescoço 

 

Calças surradas, tênis surrado

 

E aquela carinha de cafajeste, embalada por sardas e por um cheio inegável de cigarro, misturado com menta. Provavelmente uma tentativa de mascarar o odor

 

Era, definitivamente, uma mensagem a se passar

 

Nada agradável.

 

Me levanto de imediato da poltrona e rumo a passos firmes até lá. Meu rosto sério. 

 

Na frente deles, mantinha minhas mãos atrás das costas, queixo erguido, postura de soldado. Precisava manter uma imagem

 

Até não ser mais necessário 

 

Pomba não liga muito, está acostumado. Ele apenas sorri, doce. 

 

Era um contraste grande de seus suéter macio para os spikes ao redor e era justamente isso o que me preocupa

 

Pomba dá dois passos à frente, soltando as mãos dos namorados.

 

— Pai. Esses são Alê – Ele aponta para a figura loira, rosto ainda impassível, neutro – E… o Franco.

 

Meus olhos se fixam neste, rigidamente. Enquanto estufo meu peito para parecer maior

 

Mas Coruja me olha feio por detrás do Ombro dele. Seus olhos enormes e sobrancelhas juntas dizem um claro “para com isso pai” 

 

A olho meio indignado e dou de ombros, não vejo o que há de mal nisso.

 

Mas ela insiste. Seus lábios soletram um lento “se comporta” enquanto me encara com seriedade

 

– Pode chamar Alê de qualquer pronome… ta? – Pomba avisa, não parecia notar a conversa sileciosa por cima de seus ombros. O sorriso em seus lábios é sutil, seu tom respeitoso e claro – Mas prefere nenhum, se der. ou neutro. né?

 

Ele olha na direção da figura loira, claramente buscando aprovação. Seus olhos enormes e aliviados ao receber um aceno de cabeça desta.

 

Quando eles voltam a olhar para mim, apenas assinto e estendo minha mão para qualquer um dos dois namorados de meu filho pegar.

 

O tal Franco se encolhe como um rato, mas tenho que me segurar muito para não sorrir satisfeito com isso. Ale é quem pega minha mão, firme, sua expressão ainda sólida e inelegível, peito estufado, como quem diz sem dizer um “não tenho medo de você” 

 

Eu o fito austero, intenso, bem lá no fundo de seus azuis, sem nem piscar. Mas elu também o faz, não desvia os olhos, não pisca, não se acanha. Sua postura é firme, seu olhar impassível. O corpo propositalmente bloqueando meu acesso ao ruivo, que se esconderá atrás de suas costas. 

 

Não sei dizer se me admiro disso ou acho só muito insolente. 

 

Então me contento a apenas apertar a mão delu. 

 

– Fran, Lelê. Esse é meu pai, Harpia. 

 

Pomba é doce quando diz isso. Segura a mão do ruivo medroso e deposita um beijo singelo ali, para então guiá-lo mais para frente, o dando coragem para me estende-la. Seus dedos visivelmente tremem.

 

Me seguro para não deixar escapar uma careta e aperto a mão dele. Meus olhos ainda rígidos, fitando-o até a alma, como se apenas aguardasse algum deslize estupido.

 

Porque tão nervoso se não tem culpa alguma no cartório? 

 

– Vamos entrar, que tal? – Coruja se pronuncia, enlaçando seu braço ao de Pomba e o levando com ela. Os dois namorados o seguem imediatamente, como dois filhotes de cachorro que caíram do caminhão de mudança e tem medo de ficar para trás.

 

O pavor é palpável. Inspirador.

 

Me vou logo atrás deles.

 

Adentrando a sala, Papagaio e Corvo finalmente param de conversar entre si. O mais velho dos irmãos se levanta, com um sorriso largo no rosto, e estende as mãos aos namorados de Pomba, uma para cada, assim que chegam mais perto do sofá em que estava 

 

– Prazer, Papagaio – Ele aperta a mão de ambos, mantendo aquele ar naturalmente amigável e despojado que ele tem. Para então, logo depois, se vira ao seu caçula, bagunçando seus cachos e o fazendo resmungar, mas sorrir logo em seguida – Bom gosto, Pombinha 

 

Pomba cora, mas mantém o sorriso, olhando tímido de um namorado ao outro

 

– Eu sei.

 

Tento novamente não fazer alguma careta, suspiro e vou a cozinha terminar o jantar. 

 

Ele parece feliz, até então, é o que importa 





⸻ ✧ ./づ~ 𓅇 " 




Sábado;

Naquele mesmo dia;

Por Papagaio.

 

Okay, meu pai ‘tá realmente mal humorado. 

 

O observo sair da sala a passos pesados, os ombros tensos ‘pra caralho enquanto respiro bem fundo. Era isso que eu temia.

 

É óbvio que o velho Harpia iria dar trabalho.

 

Pomba até parece ter murchado um pouco. Os namorados dele podem não ter notado, mas eu tenho certeza que ele fez, já que sempre foi o mais observador e sensível de todos nós 

 

Busco o olhar dos meus irmãos para ver o que pensam. Corvo me olha breve, como quem sabe o que fazer, e se apressa a ir falar com os novos cunhados, tentando entreter a eles e a Pomba, para que não deem tanta importância ‘pra aquele clima tenso que vinha se formando

 

O olhar de coruja é mais sério e preocupado, como quem sabe demais. Me aproximo dela a tempo de ouvir seu suspiro sair

 

– Vai falar com ele – Ela sussurra aquilo quase como uma ordem. Eu arqueio minhas sobrancelhas 

 

– Por que eu? – Retruco indignado, em um sussurro “gritado”.

 

– Você.é.o.mais.velho – Ainda acho ilógico, mas ela parece ver isso perfeitamente em minha cara. Minha irmã suspira meio sem paciência e franze as sobrancelhas, antes de continuar – Papagaio eu era muito pequeno quando tudo rolou, você é o único que também passou o que ele passou, que viu ele passar, e que lembra

 

Suspiro. Ela tá certa. Mesmo que eu não goste muito desse assunto.

 

– Tá. Eu vou – Bufo e rumo a cozinha, deixando uma Coruja ainda séria e de braços cruzados para trás. Sei que ela ‘tá vistoriando se não vou fugir 

 

 

Eu não vou fugir

 

 

É pelo Pombinha, não quero que seja um fiasco. 

 

Só no pouco que vi, na forma que ele olha para os dois, consegui perceber o quanto ele parece apaixonado e feliz. Seus olhos brilham só de mencionar eles.  

 

É bonitinho demais.

 

Uma vez que eu chego cozinha, encaro as costas de meu pai, que está de frente pro’ fogão, mexendo a comida na panela, totalmente distraido. Me dou alguns segundos ‘pra tomar coragem e entrar de vez, alcançando a geladeira e tirando de dentro dela duas cervejas bem geladas, daquelas de garrafa de vidro, antes de me aproximar dele e me apoiar na bancada a seu lado

 

– E ai, meu velho – Estendo uma das cervejas para ele, o fazendo olhar em minha direção e me analisar desconfiado. Sorrio largo para ele, que suspira e aceita, bebendo um longo gole. Percebo que sob a pia, já havia uma garrafa semelhante vazia. 

 

O que me faz contrair os lábios. 

 

É genuinamente raro meu pai beber. 

 

– a gente pode conversar? – Ele apenas gesticula para que eu vá em frente, sem nem olhar para mim. – Pai. – Eu chamo mais sério, realmente precisando de sua atenção agora.

 

E sei que ele sabe disso, pois inspira bem fundo e espia a porta da cozinha, desligando o fogo e me indicando com a cabeça para segui-lo até nosso quintal, logo em seguida. 

 

Agora, apoiados na mureta da parte alta da varanda, bebemos longos goles de nossas cervejas, adiamos mutuamente por mais alguns instantes a conversa que precisávamos ter. Seria foda.

 

Sei que ele imagina do que se trata, ou pelo menos o por que de eu vir

 

– O senhor tá bem? 

 

– … 

 

– Pai. 

 

– Estou tentando lidar. Mas a situação não ajuda 

 

– Situação? – Pergunto, com medo de ouvir o que viria, minhas sobrancelhas se juntam

 

– Você viu eles, Papagaio? 

 

Suspiro. É. Ele vai falar MUITA bosta

 

eu rio de nervoso 

 

– Eu vi. O que tem?

 

– Você acha que eles tem cara de boa influência? De verdade? Aquele ruivo, fedendo a cigarro?

 

– Pai.

 

– Eu já lidei com moleques assim quando era sargento, eu sei bem o tipo…

 

– Pai.. – repito, contido, achando que ele iria se tocar e parar de falar na segunda repreensão

 

– E aquele loire é um insolente, entra na minha casa e me olha daquela forma? voce realmente…

 

– PAI. 

 

Ele se cala. 

 

E eu respiro bem fundo, tentando ser paciente com ele. Sei de tudo que ele passou, é justamente por isso que estou aqui. Eu. Não o Coruja.

 

– Você nem conhece eles, pai, precisa dar uma chance. 

 

– Alguém precisa fazer vista grossa nessa casa. O Pomba é ingênuo, não quero que… não quero – ele se cala, afundando o rosto nas mãos, sua mente parecia estar entrando em um território difícil, que ele não gosta de entrar 

 

Me viro na direção dele, o analisando brevemente enquanto recálculo como dizer o que eu quero dizer. Sei que vou entrar em um território muito difícil para ele agora:

 

– Pai. O Pomba não tem mais 8 anos – Solto, firme, mas com o máximo de empatia que consigo por em meu tom. Harpia desvia os olhos e se cala definitivamente, seu olhar distante ao que encara os ladrilhos da escadinha que dava para a parte baixa, como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Mas seu silêncio era bom naquele momento, havia muita coisa que ele precisava ouvir já faz um tempo – E ele definitivamente não é ingênuo como você pensa. Ele sempre foi o mais desconfiado de todos nós, ‘pra falar a verdade. E por causa de tudo isso aí – O aponto inteiro. – Fiquei inclusive muito feliz quando soube dele estar namorando, porque eu genuinamente tinha medo que ele nunca fosse se abrir pra isso

 

Meu pai me olha, seus olhos incertos e meio tristes, sem aquela firmeza e teimosia característica.  Ele me encara, por um longo momento de silêncio, mas logo volta a baixar a cabeça 

 

– Ele parece muito com você 

 

Ele suspira ao ouvir isso, fechando os olhos

 

– Eu sei. É isso que me preocupa.

 

– Quer falar… sobre..? – nem sei como perguntar isso, meu tom é nitidamente incerto – cê sabe

 

Ele fica por um longo minuto em silêncio, olhos fechados, os punhos cerrados sobre a muretinha o dando sustento. Consigo ver o quão doloroso é pensar nisso. Quase desisto de entrar no assunto, dou nossa conversa até aqui como o suficiente, mas então, ele pergunta:

 

– Você lembra dele? 

 

Eu contraio meus lábios.

 

– Lembro. 

 

– Eu era cego de amor. – Ele suspira.

 

Harpia me teve bem novo, uns vinte e poucos anos, com o primeiro namorado. Militar e fervorosamente crente. Ele ainda achava ser mulher na época, eram o início dos anos 90. Se conheceram no alistamento 

 

Nunca conheci meu progenitor.

 

Ele abandonou Harpia no segundo trimestre da gravidez, por perceber que  não poderia mudá-lo, nunca o assumiu. Foi superado com o tempo. Meu pai o acha patético. Não o amou de verdade.

 

Mas isso não muda que é o tipo de coisa que deixa uma marca feia. 

 

Por muito tempo para ele, depois disso, amor não foi mais uma prioridade. Focava na carreira de militar e em ser um bom pai. Eu era seu foco, e, mais tarde, Coruja e Corvo se tornavam também.

 

Até ele chegar

 

Cristino 

 

Meu pai o amou muito, muito mesmo.

 

Mas ele era um canalha, com aquela óbvia cara de cafajeste, o tipo de cara bonito que nitidamente não presta. 

 

Só que Harpia era cegamente apaixonado. Não conseguia ver isso. Amou-o intensamente por 6 longos anos, eu quase o via como um pai, praticamente me criou assim. Mas as coisas nunca foram perfeitas.

 

Cristino era um homem de temperamento complicado, egocêntrico. Um dia ele só sumiu, eu nunca soube o porquê, meu pai não gosta de falar disso.

 

– Posso te perguntar algo delicado? 

 

Ele não respondeu por alguns instantes, dando um longo gole de cerveja

 

– Vai em frente

 

– Por que ele sumiu? 

 

– Fama. Sonhava em ser músico, tocava em barzinhos e, na primeira oportunidade real, acabou tudo. – Seu tom é amargo. Ele desvia seus olhos de mim e bebe um longo gole de sua cerveja, já pela metade – Sumiu sem nem olhar para trás, mesmo quando soube…

 

Ele não consegue continuar. Leva a mão à barriga e fecha os olhos com força.

 

O puxo pra um abraço apertado e, pela primeira vez em toda minha vida, vejo aquele homem enorme desmontar. Meu pai chora em meus braços e, pela primeira vez em muitos anos, eu sinto aquele choque estranho que me lembra que sou, de fato, um adulto formado.

 

O suficiente para ele desabafar comigo e pra me contar esse tipo de coisa tão delicada, que ele nunca nos deixou saber.

 

– Não quero… – Ele limpa a garganta, tentando sumir com aquele tom frágil. Era tão estranho ouvir sua voz fraquejar. – Não quero que o Pomba passe o que eu passei. – Seu tom é firme, mas sinto seu corpo todo tremendo. 

 

Eles eram iguais demais.

 

Paralelos.

 

Talvez olhar para o Pomba de vinte anos o lembrasse dele mesmo, desamparado, nessa mesma idade. 

 

– Pai, você não pode projetar nos namorados do Pomba os seus traumas, tentar conhecer eles já querendo não gostar não vai ajudar em nada, só vai afastar ele – Tento dizer sem ser tão duro no meu tom. Sei que ele está mal e não é uma situação fácil, mas é uma conversa difícil a ser finalmente tida – E, olha, as coisas são diferentes hoje, o Pomba tem a gente, ele tem você. Pode só dar tudo muito certo, que nem a transição dele que não foi difícil como a sua, porquê você tava lá pra guiar e apoiar, por que ele tinha uma rede de apoio grande, por que é aceito. – Tento acalmá-lo com isso, lembrá-lo de algo que poderia parecer óbvio, mas que o medo dele parecia o cegar de ver – Se for o caso dos namorados dele não prestarem mesmo, ele vai ter a gente pra avisar, pra ajudar ele a sair dessa, cair na real 

 

Meu pai suspira e o vejo relaxar ao menos um pouco os ombros, o choro havia parado, mas ele ainda estava nitidamente abalado. Não saberia dizer o que exatamente se passa na cabeça dele agora, mas ele parecia estar genuinamente ouvindo e reconsiderando, não havia rebatido nada até agora, como geralmente seria de seu feitio

 

O seguro pelos ombros e o afasto, olhando para aquela cara barbada e arrasada, bem fundo em seus olhos

 

– Juro que até te ajudo a bater neles, se for o caso – Digo firme, mas é nitidamente uma tentativa de descontração, mesmo que ele saiba que eu falava isso pra valer. Jamais perdoaria se fizessem meu irmãozinho sofrer – Mas você não pode julgar sem saber, entende? O melhor é conhecer, não por eles, mas pelo Pomba. Ele parece muito feliz

 

Digo aquilo e imediatamente olho em direção a nossa casa, ao ter uma ideia. 

 

Vou até a janela que dá visão à cozinha, indicando para meu pai se aproximar para olhar também. Ele não questiona muito, ainda parece meio desnorteado, surpreendentemente cooperativo.

 

Indico para ele olhar em direção a passagem para sala, um grande arco redondo, que nos dava visão parcial dos sofás, o que, por sorte, para o que eu queria, parecia ser mais que o suficiente.

 

Corvo e Coruja papeavam amigáveis com Pomba e os namorados dele. O clima parecia leve, mas meu irmãozinho estava claramente nervoso ainda sim. Mesmo que sorrisse no meio da conversa, eu conseguia ver sua perna tremer daqui. 

 

Num timing perfeito, vejo o braço da loirinhe dele o envolver a cintura, o dando amparo, enquanto o tal Franco entrelaça seus dedos com os dele, sobre o joelho que tremia, os três sentados bem pertinho. Pomba suspira e relaxa quase que instantâneamente, deitando a cabeça no ombro do ruivinho, um sorrisinho mais que genuíno crescendo em seus lábios.

 

Ele ta realmente muito rendido.

 

Eu só queria mostrar para meu pai como ele olha ‘pra eles a princípio, mas essa cena parecia calhar muito bem também 

 

Olho para Harpia, me certificando que ele viu tudo. Mas me deparo com ele muito pensativo. Seus olhos definitivamente distantes e isso me deixa real em duvida

 

O silêncio se estende por alguns instantes. Meus olhos fixos nele, tentando antecipar qualquer reação.

 

– Ele… realmente parece feliz  

 

– Parece.

 

Meu pai suspira e se endireita, tentando voltar à postura inabalável de sempre, mas ele ainda tinha aquele ar característico de quem tinha acabado de chorar muito.

 

– Eu vou pegar mais leve.

 

– Se quiser ir lavar o rosto, toma’ um banho… Eu termino a comida e chamo eles pra mesa

 

Ele concorda com a cabeça, inspirando aliviado. E me resmunga apenas um “okay” antes de entrar pra casa e rumar direto para o banheiro. 

 

Ele definitivamente precisa de um tempo 





⸻ ✧ ./づ~ 𓅇 " 




Sábado;

Naquele mesmo dia;

Por Pomba.

 

Com a cabeça deitada no ombro de Franco, me sinto leve, meu corpo está definitivamente relaxado por fora, ao que o calor aconchegante de meus namorados me envolve e ampara. Mas isso não muda o quão meu coração bate rápido em apreensão, ele só não consegue me sufocar de ansiedade; É singelo.

 

Tenho muito medo de meu pai odiá-los.

 

Não vai me impedir de namorar eles, claro. Eu nunca terminaria só por isso. 

 

Mas eu quero tanto que ele goste deles, simplesmente porque os amo muito, do fundo do meu âmago e com todo o meu ser. A aprovação dele é importante para mim, porque ele é meu pai e eu o amo também. Quero que ele veja o quão incríveis são e que estou genuinamente feliz com eles.

 

Sorrio quando Alê me abraça mais apertado, a cabeça delu se encaixando na volta de meu pescoço. Agradeço por meus irmãos não ligarem tanto para esse grude todo, eu realmente estou precisando desse amparo agora

 

Corvo até resmunga um pouco sobre sermos melosos, mas ele sempre diz sorrindo. É nítido que é uma brincadeira, principalmente considerando o quão fácil se deu bem com os dois.

 

Brincava sobre finalmente ter “gente descolada na família” e que, até então, estava “faltando bom gosto”. Resmungava sobre as vezes que barraram suas músicas nos churrasco e que seus anos “tentando fazer o Pombinha gostar de rock” valeram de algo.

 

“Pelo menos ele gosta de Pitty” 

 

E os três riam juntos.

 

Me sentia mais leve com isso. De saber que alguém desta casa já gostava deles.

 

Agora só faltavam três.

 

Mas Coruja e Papagaio não me preocupavam, geralmente gostam de todo mundo. 

 

No fim, o problema era meu pai

 

Sinto meu estômago embrulhar ao pensar nisso, ao que aquele frio estranho me cobre dos pés a cabeça, gelido e interno – esquisito. Parece estar entre minha derme e os músculos, dentro de minha pele, é angustiante.

 

Meu coração batendo forte em meu peito

 

Meus olhos uma vez distantes, só voltam a realidade quando escuto a voz de Papagaio da cozinha

 

– Corvo e Coruja, ‘cês podem me ajudar a arruma’ a mesa? – Eles concordam e se levantam indo à cozinha. Por um momento penso em ir também, só pra me distrair, mas, assim que ameaço de levantar, Papagaio ergue a mão em um sinal de “pare” – Você não precisa Pombinha, fica com seus namorados, vai ser rapidinho – E sorri para mim, sumindo da sala junto aos meus outros irmãos. 

 

Eu dou de ombros e volto a me acomodar entre Franco e Alê, me afundando no abraço deles de volta. Uma vez sozinhos, dois pares de olhos claros me avaliam, com aquele brilho de  preocupação em comum. Me sinto até meio zonzo.

 

Ale abraça minha cintura com os dois braços agora e Franco beija minha bochecha. Eles ficam ainda colados comigo, me apertando entre eles em conjunto.

 

 – Cê ta bem, gatinho? – Franco é quem pergunta, baixinho, acariciando minha bochecha, enquanto Alê está deitado em meu ombro, brincando com meus dedos. 

 

Tê-los tão perto é reconfortante.

 

– Eu. To. – O olhar dele não parece muito convencido quando digo isso. 

 

Eu suspiro 

 

– Tá… eu to nervoso. Quero muito que meu pai goste de vocês. Muito mesmo.

 

Fran sorri, todo bobinho, ele provavelmente acha isso meio fofo de minha parte. Alê, por sua vez, me dá um beijinho na bochecha e segura meu queixo, me virando pra elu. Meu coração dispara, mas não pelo mesmo motivo de antes; eu só não sei lidar com isso tão bem ainda. Alê era sempre demais pra mim. 

 

Seus olhos azuis maresia quase me fazendo esquecer meu próprio nome.

 

– vamos tentar uma boa primeira impressão, te juro – Seu tom é sussurrado, lento, mas firme. Seu olhos nos meus, olhar profundo, capaz de me despir inteiro de corpo, de contemplar minha alma.

 

Só saio desse transe na vez de meu ruivinho beijar minha bochecha – o que me faz olhá-lo imediatamente, me perdendo naquele sorriso charmoso que me derrete inteiro. Franco é inteiro charmoso.

 

– Isso ai que Lelê disse, vamo’ conquistar ele nem que a gente tenha que puxa saco 

 

Sorrio quando ele diz isso. Feliz. Feliz de tê-los comigo, me apoiando assim.

 

Eu notei como Franco teme meu pai. Assim como notei as farpas silenciosas dele com Alê. 

 

Eu não sou cego.

 

Mas eu sei o quanto estão dispostos a passar por cima disso, por mim.

 

Tê-los ao meu lado – assim como o apoio de meus irmãos – tornava as coisas definitivamente mais fáceis.

 

Me sinto mais calmo. 

 

Passo meus braços por seus ombros e envolvo os pescoços de ambos os dois, olhando-os com todo meu carinho, de um para o outro. Sinto meu coração mais quentinho, a preocupação contida, mas ainda ali. Eu sorria, feliz, mesmo que ainda sentisse aquele gosto amargo de apreensão bem no fundo de minha boca.

 

Já estava bem melhor. Por eles.

 

Mas talvez algo na minha expressão lhes demonstrasse o vestígio lamurioso de minha angústia entalado no fundo de minha garganta. Olhavam através de meus olhos como se fossem janelas, me flagrando nu de qualquer dissimulo.

 

Alê acaricia minha bochecha e esfrega nossos narizes de leve enquanto Franco assiste com olhos enormes e brilhantes. Fascinado. Ele espia a porta da cozinha assim que o rosto de Alé se afasta do meu, para então trocar olhares cúmplices com elu.

 

De alguma forma, só pelo sorrisinho que eles trocam, sei imediatamente que eles mutuamente tiveram a mesma ideia do que fazer para me distrair disso.

 

Meu coração dispara em antecipação quando eles se viram pra mim. A mão de Franco em minha nuca enquanto Alê segura meu queixo. Ambos tão próximos de mim que tenho que me conter muito pra não arfar só de olhá-los.

 

Minhas pálpebras se fecham quando os vejo fechar a distância entre nossas bocas, fazendo com que os três pares de lábio se encontrem em um único beijo, terno e lento, cheio de amor. 

 

Me sinto leve – e zonzo. Completamente inundado por eles. 

 

E por aqueles instantes não lembro mais nem mesmo do meu nome. Não quando nossas línguas se enroscam daquela forma, tão íntima, tão completa.

 

Me sinto fora de órbita, mesmo quando nossos lábios se separam. Não estou mais ciente de muita coisa, não me recordo de preocupação nenhuma, a única coisa que tenho noção é que o sorriso em meu rosto provavelmente é largo e abobado demais, quase que ridículo, mas nem com isso consigo me preocupar. Não enquanto olho para eles, tão lindos, tão meus.

 

Inspiro, fundo, e solto tudo de uma vez só. Como se estivesse tragando aquela visão, necessitando-a parcialmente presa a mais profunda parte de meus pulmões, como se só assim eu fosse conseguir respirar propriamente de novo.

 

Amo eles tanto. 

 

Franco deita em meu peito, parecia mais calmo, o que me faz perceber imediatamente que ele provavelmente também estava tenso demais antes – e que, consequentemente, também precisara daquilo. Meu pai não estava pegando muito leve com ele, né, vamos combinar. Imagino que estivera preocupado que isso pudesse seguir por toda a noite. 

 

Abraço a cintura dele e o beijo na pontinha do nariz. Tentando lhe dar algum chamego a mais. Ele sorri, todo bobo, com aqueles lábios rosinha dele. Alê o dá um um selinho gentil não muito depois disso, provavelmente por reparar o mesmo que eu. O ato me faz olhar para elu, bem fundo naquela imensidão azul de seus olhos, ao ter um pequeno lapso sobre a probabilidade de também estar nervosa. Busco por qualquer sinal, por menor que seja, pois sei o quão bom Alê é em esconder esse tipo de coisa.

 

Elu desvia os olhos dos meus, me fazendo notar que, de fato, havia algo errado – Nunca era quem desviava primeiro. Suspiro e seguro a mão delu, delicadamente, a trazendo próxima a meu rosto. Meus lábios alcançam as costas branquinhas desta, beijando desde os dedos adornados de aneis e esmalte preto, a altura de seu pulso, com carinho. Meus olhos presos a seu rosto, notando a sutil movimentação dos cantinhos de sua boca levemente mais pra cima

 

– Ele vai gostar de vocês – Digo baixinho, olhando primeiro nos olhos de Alê para depois levá-los a Franco. Tentava ser positivo e firme, ser forte por eles, como estavam sendo por mim. – Se ele vir o quanto amo você… Em algum momento ele vai, eu sei disso

 

Eles sorriem, ambos os dois, tal qual me beijam, um em cada bochecha.

 

Seria impossível não sorrir também 

 

– Ei, pombinhos. O jantar ‘tá pronto ceis já podem vir – A voz de Papagaio soa da cozinha, e, no mesmo instante, nós três olhamos a porta, notando ele ali, encostado ao batente. 

 

Meu rosto avermelha, tal qual o de Franco. Alê retorna a postura neutra e firme imediatamente, quase que no piloto automático. Pelo menos meu irmão não parecia estar ali a muito tempo, então me sinto menos sem graça, 

 

– Engraçado dizer pombinhos logo prá vocês –  Papagaio apenas ri e volta à cozinha, nem ligando pras nossas reações ou qualquer coisinha que tenha visto.

 

– Já vamos! 

 

Tiramos alguns instantes – gastos em olhares cúmplices e um apoio silêncio mútuo – Apenas para nos recompor o suficiente e poder rumar ao novo cômodo. Seguro as mãos deles de novo e tomo a frente, levando-os comigo. 

 

Na cozinha, Coruja e Corvo estavam sentadas à mesa, papeando calmamente entre elas. Nosso irmão mais velho trazia a última das travessas para deixar ali: rondelli. Um clássico dos nossos jantares de domingo, desde quando eu me entendia por gente. Fácil, prático e barato, mas MUITO gostoso.

 

Me deixava feliz de pensar que meus amores provariam uma comida tão afetiva pra mim, exatamente como eu sempre comi. É bobo, eu sei, mas sempre sou sentimental demais quando se trata deles – E da minha família. 

 

– O Rondelli do meu pai é muito bom, ele sempre faz molho de tomate caseiro… – Digo sorrindo, olhando para meus namorados, por cima de meus ombros.

 

Meu pai.

 

Olho de volta à mesa e depois ao redor de toda a cozinha, não demorando a notar que ele não está aqui.

 

– Cadê o pai? – Questiono a meus irmãos, agora todos sentados à mesa.

 

eles ficam alguns instantes em silêncio, o que é definitivamente estranho. Mas logo Coruja se pronuncia:

 

– O Papagaio mandou ele ir tomar banho. Tava tudo quase pronto e ele não tinha parado pra fazer isso ainda

 

Eu arqueio as sobrancelhas, sinto que havia algo a mais ali ainda sim. Mas ao mesmo tempo era crível, meu pai era desses que excedia o próprio trabalho e se esquecia até mesmo de beber água quando estava muito focado.

 

Suspiro. 

 

Decido confiar que tava tudo certo e que me diriam caso contrário.

 

Tento não pensar demais.




⸻ ✧ ./づ~ 𓅇 " 




Sábado;

Naquele mesmo dia;

Por Harpia.



Encaro meu rosto no espelho.

 

E é estranho fazê-lo. Sinto-me distorcido, um borrão do que um dia fui.

 

Nunca chorei na frente de qualquer um de meus filhos

 

até hoje

 

É estranho e constrangedor, mas sei que foi necessário. Minha cabeça parece finalmente estar voltando ao lugar depois de nossa conversa.

 

Após um longo banho quente, eu me sentia, outra vez, mais racional. Mesmo que minha vontade fosse de desaparecer

 

Não sei com que cara vou olhar para Papagaio. Mas eu não tenho escapatória.

 

Preciso voltar lá, pelo Pomba. 

 

Estou disposto a – tentar – pegar mais leve. A dar uma chance a seus namorados. 

 

Claro que não vou ama-los de imediato, ficar babando ovo.

 

Suspiro fundo 

 

Mas vou tentar não odiá-los de imediato também, ou projetar minhas experiências ruins neles e em meu caçula 

 

Preciso ver com meus próprios olhos, livre de pré-conceitos e convicções já formadas 

 

Pelo Pomba.

 

Me seco e visto, breve, descendo de volta sem mais enrolação.

 

Da sala, já consigo ouvir vozes conversando acaloradamente 

 

– MANO POR QUE PRO ALÊ AS RECOMENDAÇÕES DE PÁSSARO SAO FODA E PRA MIM É “FRANGO” VAI SE FODER – a voz diz definitivamente indignada, mas não brava, de certa forma sei só pelo tão que esses gritos provavelmente foram proferidos com um sorriso no rosto. 

 

Papagaio gargalha alto ao fundo da reclamação. 

 

Que escândalo.

 

Mas sigo em frente normalmente, até estar perto o suficiente para ouvir alguém além dos dois barulhentos

 

– Entenda Franco, Alê é muito cisne – A coruja quem diz, convicta. 

 

– E por que eu tenho que ser FRANGO? por que eu não posso ser, sei lá, uma fênix? – Ele estende os braços para os lados, palmas abertas.

 

– Ah! e a sua cauda de sereia vai ter todas as cores também? – É corvo quem retruca, rindo – mitológico não vale

 

– Não pode nada também – Ele cruza os braços, se afundando na cadeira que esta sentado. 

 

– Com essa cabelo espetado, ruivo, você tá mais pra um Pica-pau – Pomba diz, num tom de brincadeira, um sorrisinho em seus lábios quando se vira para o namorado. Sua mão bagunça o cabelo do dele, enquanto o olha nos olhos

 

O sorriso de Franco cresce ladino e ele dá uma estaladinha na língua. Algo em sua postura despojada e expressão galhofeira me faz deduzir que falaria algum absurdo dos grandes 

 

Me recosto no batente da porta para a cozinha, apenas aguardando para ver o que ele iria falar, quieto, sem me pronunciar, meus braços cruzados 

 

Mas tenho meu elemento surpresa arrancado de mim quando o outro namorado de meu filho se inclina sobre Franco, sussurrando no ouvido dele, antes que ele possa falar qualquer outra coisa.

 

Franco arregala os olhos e olha na minha direção, tapando a boca e corando imediatamente, tudo numa fração de segundos – O que faz o resto da mesa olhar para o mesmo canto que ele olhara antes, me notando ali. Ao contrário dele que se encolhe e se cala, desviando os olhos, como um ratinho

 

Tento não ficar muito satisfeito com essa reação. E nem pesar a mão sobre o quanto Alê segue insolente. Até porque é admirável de certa forma

 

Elu me olha firme, não desrespeitoso ou desafiador, mas como quem não abaixaria a cabeça fácil 

 

Consigo ver agora que com mais clareza, como aquilo vem muito de um lugar protetor. Elu é forte e parece leal às próprias morais e paixões. Só me desafiara quando foquei muito no ruivinho. É algo positivo em um genro ou nora, provavelmente cuida bem de meu filho também e o defenderia sempre que precisasse.

 

Talvez eu goste delu. 

 

Me sento em meu lugar de sempre: no meu lugar na ponta da mesa, oposta a porta. Defronte a mim, na outra ponta, papagaio era quem estava sentado. À minha direita, Coruja e Corvo. A esquerda, meu filho e os namorados, estando a mesa mais lotada que o comum.

 

– A gente ‘tava esperando você pra comer – Pomba é quem diz, seu tom simples e explicativo, seus olhos redondos buscando os meus. Eu aceno com a cabeça 

 

– Podem começar 

 

E assim o jantar oficialmente inicia. 

 

Vejo Alê servir o prato de ambos os dois namorados por estar mais perto da travessa de rondelli, é cuidadosa. Ato simples mas justo de se analisar e levar em consideração na hora de jugar-lhe como seu sogro 

 

O tal Franco sorri feliz ao receber o prato, seus olhos brilham ao olhar para a comida. Esse rapaz me confunde 

 

Sirvo meu prato também. Dando-os tempo de iniciar a refeição antes de chegar finalmente onde me interessa.

 

Me viro para a direita, onde meu filho e seus namorados estão sentados à mesa, fixando meu olhar nos últimos dois citados, especificamente. 

 

– Qual a intenção de vocês com meu filho? 

 

Franco engasga. Alê para de comer e endireita a postura me olhando, fixamente.

 

– Boas intenções. – A figura loira quase sussurra, sem desviar o olhar, dando tempo ao namorado se recompor 

 

Vejo-a olhá-lo de canto de olho. Quando ele finalmente se vê capaz de falar

 

– Amamos seu filho senhor. De verdade – Ele diz meio afobado e ri sem graça, olhando então para Pomba por um longo segundo – Eu… só quero o melhor pra ele, pra eles, quero fazer os dois felizes eu… amo de mais ter essa chance de namorar eles e… cara eu realmente realmente quero eles bem eu…

 

Ele ta claramente se embolando, provavelmente mais fala do que pensa no que dizer e já não sabe muito mais onde chegar com isso, mas algo nesse fato e em seu tom totalmente cru, dessas falas tão imediatamente ditas, soa realmente honesto.

 

Suspiro

 

É nítido quando ambos seus namorados chegam mais perto com as cadeiras e provavelmente entrelaçam os dedos aos dele. Eles parecem realmente unidos.

 

Sinto uma onda esquisita me envolver e aquela vontade de chorar voltar

 

Não sei por que me sinto assim, mas o enjoo é inconfundível. Não há nojo, só… angústia. Não chamaria de inveja, mas é algo próximo a isso. 

 

Não por eles. É mais embaixo.

 

É só… doloroso. Perceber depois de anos que eu talvez nunca tenha tido isso de fato.

 

Agora que mais ponderado, despido de minha rispidez e prepotência. Consigo admitir que é nítido só no olhar o carinho que sentem por Pomba e o amor que ele tem por eles. Tal qual nas pequenas ações de cuidado, tão fáceis, tão naturais.

 

Concordo com a cabeça e relevo o quão incoerente fora formulada a resposta dele, deixando-os em paz um pouco.

 

E, por um tempo, apenas o barulho de talheres pôde ser ouvido por toda cozinha. 

 

Mas era angustiante, não gosto de me sentir sozinho com meus pensamentos. Enclausuro-os no fundo de minha mente e os deixou lá, sem direito a serem visitados. Mas o silêncio parecia dar-lhes potência de mais…

 

– Então – limpo a garganta – O que fazem profissionalmente? – Questiono aos dois namorados de meu filho, que trocam um olhar entre eles ao ouvirem isso.

 

Alê se vira para mim e me olha firme, sem receio ou vergonha. Sua expressão, como sempre, inelegível 

 

– Banda.

 

Sinto minha garganta fechar

 

– Banda?

 

– É.

 

Ótimo. Músicos.

 

Engulo um pouco de saliva – Minha garganta árida de tão seca. Olhando para Pomba. Meu filho está quietinho comendo, ele tem a cabeça apoiada na mão, e os olhos fixos na conversa que tenho com seus namorados, mais neles do que em mim agora. 

 

Tão adorável. 

 

Sei que ele é adulto já, mais de vinte, mas não consigo olhar para ele e não ver o garotinho que eu vivia limpava os machucados por que insistia em subir em qualquer árvore que via pela frente, ou por que confiava demais em qualquer criaturinha viva, incapaz de ver maldade nelas 

 

Lembro de arranhões de gatos muito ariscos e das picadas de abelha. Do choro sentido e surpreso dele após ter sido machucado. Ele sempre vai ser aquela criança pra mim, de certa forma.

 

E não só aquela criança, como também o meu bebê gordinho, dos cachinhos de anjo, que sorriu para mim assim que abriu os olhos pela primeira vez. E só com isso me fez esquecer – ao menos nos primeiros meses – do quão triste estava por não ter mais Cristino comigo.

 

Desvio meus olhos. Encaro meu prato.

 

Por que Pomba tinha de ser tão parecido comigo?

 

Dois. Músicos.

 

Dois.

 

Ouso olhar para meu Papagaio a primeira vez depois do meu deságue e noto que ele já me olhava com preocupação. Os olhos dele buscam nos meus a confirmação de se estou bem

 

Eu apenas suspiro

 

Mas talvez meu suspiro não tenha soado muito legal aos namorados de meu filho, pois Franco logo volta a tagarelar nervoso:

 

– A gente trabalha serio, senhor Harpia, nós tocamos quase todos os sábado e estamos começando a ganhar um dinheiro decente… E, olha, não fazemos só isso da vida. Alê tem uma lojinha de artesanato e atende como cartomante e eu faço uns bicos como assistente de mecânico…

 

Ele não para nem pra respirar. Mas Alê segura a mão dele mais firme e lhe sussurra um “calma”

 

E então é Pomba quem toma a frente, um pouco mais serio. 

 

– É pai, Musica é uma profissão digna, como qualquer outra – Ele diz firme, me olhando no fundo dos olhos, firme, mas algo ali me implorava para pegar leve – Sempre foi o sonho deles e eu acho lindo que corram atrás disso. 

 

Pareço tanto assim ser alguém que acha artistas vagabundos? 

 

Os dois namorados dele sorriem com a defesa, é sutil, mas eu vejo.

 

– Sei que é digna. Estão vendo coisas onde não tem. 

 

Eles se calam, mas vejo os ombros de Franco relaxarem. Meu filho solta um bocado de ar.

 

Tento não pensar muito no último músico que conheci. Era um cretino e não falava por todos eles.

 

Como Papagaio dissera, não posso projetar Cristino neles. 

 

Se Pomba está feliz, só tenho que torcer para ser genuíno e saudável – E me mostrar sempre presente caso se revele o contrário.

 

Ele tem apoio. Como eu não tive.

 

As coisas não são mais como na minha época.

 

Pomba não sou eu.

 

Bebo um longo gole de refrigerante e tento recapitular o que disse, em busca qualquer coisa que pudesse expulsar aquele silêncio tenso e esquisito. 

 

Tagarelavam muito antes de eu chegar. Sei que fui o problema.

 

Mas me recordo de algo específico que me faz mudar de foco na hora. Olho para o tal Franco um pouco surpreso.

 

– Você faz bicos de mecânico, isso que disse? – Questiono, genuinamente curioso 

 

Ele acena com a cabeça, confuso por meu interesse

 

– Sabe algo de carros antigos? 

 

– Sei. São os que mais gosto de mecher na verdade 

 

Franco parece surpreso. Mas noto o rosto de meu filho se iluminar ao perceber o que estava acontecendo 

 

– Tenho um Maverick GT legítimo, bem conservado. 

 

– Sério? – Ele parece empolgado

 

– Sério. Venho me dedicando a ele desde a aposentadoria, mas tem coisas que não entendo muito bem, nessa parte mais técnica 

 

– Quer que eu dê uma olhada? – Ele definitivamente quer dar uma olhada 

 

– Agora mesmo?

 

– Já.

 

– Okay, podemos ver.




⸻ ✧ ./づ~ 𓅇 " 




Sábado;

Naquele mesmo dia;

Por Pomba.

 

Meu pai e Franco simplesmente saem juntos.

 

Olho para Alê, meio incrédulo, e ele retribui meu olhar com a mesma surpresa

 

Fora tão fácil assim? 

 

Quando olho para meus irmãos, também parecem surpresos, mas quando nossos olhares se encontram é meio impossível de não rir um pouco, pela situação 

 

– Quem diria que seria só falar de carro – Papagaio diz, em meio a risada

 

– Ele é obcecado naquele negócio, se o menino der jeito vai amar ele pra sempre – É coruja quem comenta, ela provavelmente estava certa. Havia poucas coisas que meu pai amava mais que aquele carro. Acho que é coisa de aposentado.

 

Olho para Alê e seguro sua mão, ao perceber seu olhar distante, beijando de levinho ali. 

 

– Ele vai gostar de você também – Sussurro pertinho do ouvido delu e vejo seus olhos brilharem ao olharem aos meus – Impossível alguém não gostar de você 

 

O vejo sorrir, sutil, mesmo que esconda logo depois, por não estarmos sozinhos. E não consigo resistir a sorrir também. 

 

Beijo a pontinha do nariz delu.

 

– A gente tá aqui ainda – Ri baixo ao ouvir o lembrete de Corvo e me afasto de meu namorade, voltando a meus irmãos.

 

– Acham que vai demorar?

 

– Provavelmente.

 

Suspiro

 

– Acho que vou fazer uma marmita pro Franco mais tarde, ele não comeu quase nada

 

O resto do jantar passou bem calmo depois disso. Só comemos e papeamos sobre qualquer assunto que surgisse. Coruja parecia ter gostado bastante de Alê, tal qual Corvo que já o tratava como se fossem amigos a anos. Elas se davam bem naturalmente.

 

E em algum momento, após terminar de comer, Papagaio se mandou para a garagem com meu pai e Franco, dizendo que iria “checar se o ruivinho ‘tá vivo”. Ele parecia já considerar Franco bastante, o santo deles bateu realmente rápido. 

 

ver que meus namorados se encaixarem tão bem no meu mundo, me deixa realmente feliz. 

 

Quando nos ajeitamos para ir embora, já estava bem tarde. 

 

Franco voltou cheio de graxa lá de fora, um sorriso enorme nos lábios, com meu pai e Papagaio logo atrás dele. Pela postura descontraída eu deduzia que não houveram mais interrogatórios e isso me aliviava bastante.

 

Fora só questão dele emprestar uma roupa limpa de Papagaio para se livrar da graxa e a marmita dele ficar pronta, para concordarmos os três em ir embora.

 

Nos despedimos de meus irmãos e rumamos a porta, acompanhados por meu pai que insistiu em fazê-lo.

 

Ele dá tchau a Alê e Franco, mas, quando se vira para mim, ele apenas diz um:

 

– Podemos conversar? Só nós

 

– Claro. – Me viro para meus namorados – Me esperam no carro? Já vou – Eles concordam e se vão, dando um beijinho em cada lado do meu rosto.

 

Sorrio meio bobo, mas me recomponho rápido e me viro para meu pai

 

– Ta feliz?

 

– Bastante – Digo sem conseguir parar de sorrir – Obrigado por pegar leve. Eu… realmente amo muito eles

 

– É perceptível – ele suspira. Ficamos em silêncio por longos segundos depois disso, apenas olhando um para a cara do outro.

 

Me surpreendo quando ele se aproxima e me abraça apertado. Deviam fazer pelo menos uns 10 anos desde que não abraço ele. Retribuo, confuso, mas retribuo.

 

– Não sou de falar, mas te amo, filho. – ele diz baixo, não entendo o porque agora, mas aprecio. Fecho meus olhos e seguro o choro de emoção. Acho que ele nunca me disse isso diretamente antes – Sempre vou estar aqui pra você, se estiver feliz, mas se estiver triste também. Qualquer imprevisto… eu vou estar aqui. Seus irmãos também 

 

Eu só assinto, aproveitado um pouco mais do abraço dele, mesmo que não entendesse o porquê disso. Parecia importante para ele

 

– Gostou deles?

 

– Parecem rapazes bons – Ele dá de ombros, mas parece honesto 

 

– Ameaçou o Franco?

 

– Obviamente. 

 

Eu rio. 

 

– E Alê?

 

– Não pessoalmente. Mas Franco vai dar o recado 

 

Cruzo os braços mas sorrio. Um longo suspiro me escapa.

 

Pelo menos ele parecia estar aberto a gostar deles.





︵︵ 𓅰 𓅬 𓅯 ︵︵

 

“Hoje eu acordei com medo, 

mas não chorei. Nem reclamei abrigo

 

Do escuro, eu via um infinito 

sem presente, passado, ou futuro

 

Senti um abraço forte, já não era medo

Era uma coisa sua que ficou em mim

 

De repente, a gente vê que perdeu

 

Ou está perdendo alguma coisa

 

Morna e ingênua

 

Que vai ficando no caminho

 

Que é escuro e frio, mas também bonito

 

Porque é iluminado pela beleza 

do que aconteceu há minutos atrás”

 

– Poema. Ney Matogrosso 





F I M

 

 

 

 

 

Notes:

oi gente espero que tenham gostado! historia bobinha que fiz pra alimentar a frambole nation, faz tempo que não escrevo então relevem qualquer coisa!