Work Text:
SOLITÁRIO,
PERDIDO,
SACRIFÍCIO,
CULPA,
TRAUMA,
FAMÍLIA:
POMBA
██▓▒░⡷⠂𝙳𝚘𝚒𝚜 𝚙á𝚜𝚜𝚊𝚛𝚘𝚜 𝚎𝚖 𝚞𝚖 𝚏𝚒𝚘
𝚄𝚖 𝚍𝚒𝚣: 𝚅𝚎𝚗𝚑𝚊, 𝚎 𝚘 𝚘𝚞𝚝𝚛𝚘 𝚍𝚒𝚣: 𝙴𝚜𝚝𝚘𝚞 𝚌𝚊𝚗𝚜𝚊𝚍𝚘
𝚃𝚠𝚘 𝙱𝚒𝚛𝚍𝚜 - 𝚁𝚎𝚐𝚒𝚗𝚊 𝚂𝚙𝚎𝚔𝚝𝚘𝚛⠐⢾░▒▓██
Dia 14
Meu nome é Pomba, e eu sobrevivi.
O seu nome era Corvo, e você morreu.
Eu não deveria sentir culpa por isso. Eu sei que fiquei vivo por pura sorte, por decisões que não cabiam mais à mim. Eu sei que, da primeira vez que te perdi, nada que eu fizesse teria mudado aquele destino.
Mas talvez pelo menos eu tivesse morrido junto com você.
Eu poderia entender esse segredo que vocês parecem compartilhar entre si. Essa sensação de morrer e voltar que eu nunca pude sentir, mesmo tendo tentado. Eu juro que tentei. Eu queria ter ido com vocês. Eu queria poder sentir alguma coisa além dessa covardia.
Eu sou o mais novo.
O pássaro pequeno.
Pombas não são os pássaros favoritos de ninguém. São pequenos, comuns, rápidos e inteligentes, mas o que é um pombo diante de um Corvo. Grande, imponente, forte. Deus, até reproduzir sons humanos Corvos e Papagaios conseguem. Corujas são silenciosas e predadoras natas, Harpias são grandes como uma muralha.
Os pombos comem migalhas de pão e fazem cocô nas pessoas.
São inteligentes, sabem se localizar muito bem… mas ninguém sabe disso. Eu acho.
Então porque, de todos os pássaros… uma pomba foi a que ficou viva? Das duas vezes em que a morte bateu na nossa porta, inclusive.
Talvez seja uma piada ruim do destino. Mas eu não acredito nessas coisas. Não mais.
Minha terapeuta lá na Ordem disse que isso se chama “culpa de sobrevivente”. Eu acho que é só um fato. Principalmente agora que você se foi.
Franco me deu a ideia de escrever. Eu sempre gostei de anotar de tudo… mas anotar meus sentimentos é novo. Mal consigo fazer isso sem enfiar curiosidades sobre pássaros no meio disso tudo.
Bom…
Pombas também são animais de bando.
Meu bando está incompleto sem meu irmão mais velho.
E eu acho que isso é culpa minha sim.
Eu poderia ter atirado.
Eu poderia ter matado ele quando tive a chance.
Mas de alguma forma, parece que eu não aprendi. Que eu continuo tendo medo de traçar uma linha que eu mesmo tracei na minha cabeça. Que tipo de moral eu acho que ainda tenho?
A gente nem era digno do Hexatombe. Eu nem era digno de você.
Eu queria culpar a Cindy por não ter atirado no Cristino.
Mas como eu posso fazer isso, quando eu fiz o mesmo?
Eu fico pensando nisso todos os dias, quando vou para a sala, quando olho pra todo mundo e tenho que engolir esse clima doloroso em cada centímetro dessa casa grande de mais. Tento não deixar essa sensação me levar, mas é difícil. Tem sido difícil pra todo mundo desde que tudo aconteceu.
Quando você morreu, eu lembro de sentir a maior dor da minha vida. De novo. Ou talvez até um pouco pior, porque eu tive a chance de refazer as coisas, de resgatar a gente. Eu poderia ter feito de tudo naquele momento, mas eu só consegui ser uma pomba.
Alê tentou usar os dedos quebrados pra tocar e te salvar. Acho que você ficaria feliz sabendo disso, que ela gostava tanto de você quanto você dela. Acho que a mão delu nunca mais volta ao normal, porque algum ligamento importante deve ter rompido.
Depois disso, eu fiquei com seu corpo. Eu não soltei de jeito nenhum.
Estava frio, e você odeia frio.
Eu senti você ficar gelado de mais. Eu tentei manter seu calor, juro que tentei. Eu fiz de tudo, Corvo. Eu fiz tudo que eu podia até quase desmaiar de tanto frio agarrando seu corpo. Eles precisaram me agarrar e dizer pra soltar, mas eu só não conseguia. Eu me recusei até o último segundo.
Você não gosta de frio.
Não é justo.
Não é justo.

Dia 15
Acho que Franco é um idiota. Essa ideia de escrever sobre você não deu certo. Me desculpa, eu estou chorando. Não quero mais fazer isso.
Queria que eu tivesse levado aquela facada no seu lugar.
Dia 20
Não sei se cheguei a contar, mas queimamos seu corpo.
Vamos ignorar a hipocrisia que é eu continuar escrevendo. Não tenho outra opção, eu estou transbordando. Eu sinto sua falta. Eu preciso… acho que eu só preciso sentir que você ainda tá aqui, mesmo que no papel.
Sempre fomos mais próximos.
É estranho…
Quando eu cheguei em casa, quando os outros ficaram sabendo do que aconteceu, acho que cada um dos pássaros morreu um pouco junto com você. A Coruja ficou dias trancada, não falava com ninguém, nem mesmo comia direito. O Papagaio até tentou cozinhar alguma coisa que ela gostasse, mas queimou tudo, e aí ele se irritou e jogou a travessa de lasanha no chão.
Eu não sei quando foi que eles começaram a brigar, nesse dia. Mas a Coruja só saiu do quarto, quieta, e viu a bagunça. Aí ela começou a gritar, gritar mesmo. Falou um monte de coisa pro Papagaio, e ele pra ela.
O Harpia veio intervir.
Aí os dois ficaram putos. Disseram que tudo isso é culpa dele.
Eles diriam isso pra mim se soubessem que eu tive a chance de te salvar e não fiz nada?
Eles deveriam.
Foi tudo culpa minha, Corvo.
Acho que nossa família tá desabando. Desabando porque você se foi. E não é justo que tenha ido. Todo mundo sente sua falta, todo mundo te quer de volta.
Nem deu tempo de dizer tchau.
A morte é assim mesmo?
As pessoas nem podem se despedir, ela só toma.
Eu pensei que o mundo fosse parar junto com você, mas a cada dia que se passava, aquele gato da vizinha continua miando na porta pedindo a comida que você costumava deixar e o Harpia sempre brigava. O entregador ainda errou o número da nossa casa, a Coruja ainda recebeu ligações do trabalho perguntando onde ela estava.
As contas continuam chegando. O mundo continua rodando. O mundo de todo mundo, menos o meu.
A gente não quis te enterrar. A gente lembrou do seu pedido.
A gente queimou seu corpo.
Eu entreguei as cinzas pra Alê.
Eu nunca entendi bem porque você teria me pedido uma coisa assim, ou como você sabia que morreria antes de mim, mas eu lembrei das nossas conversas. Por que justo pra elu? Por que queimar? O que você pensou quando disse uma coisa dessas, Corvo?
Você pensava muito na sua morte? Você queria morrer?
O que você pensou quando ele te esfaqueou?
Você estava com raiva? Estava triste? Estava feliz?
Eu acho que você estava com frio.
Você odeia o frio.
Dia 25
Eu te odeio.
Eu te odeio por ter lutado.
Por que você foi até lá?
Você não tinha o direito de subir naquele prédio. Não tinha o direito de ir atrás de mim. Era minha missão para cumprir. Se algum de nós tinha que morrer naquele dia, essa pessoa era eu. Era pra ter sido eu.
Por que você foi até lá? Por que me ajudou?
Por que ficou?
Eu te odeio.
Eu te odeio por ficar, por ir, por lutar, por insistir. Eu te odeio por não sair do meu lado, eu te odeio por não ter confiado em mim.
Eu te odeio por ter morrido.
Eu me odeio por ter deixado.
Dia 30
Descobri porque você pediu pra Alê ficar com as suas cinzas.
A Coruja começou a ir em missões na Ordem. De verdade, não só coisas investigativas. Ninguém questionou essa decisão dela. Ela não explicou, também. Só apareceu lá um dia e disse pro senhor Cervero dar uma arma pra ela. Ela passou por várias avaliações, não me deu satisfação, mesmo quando eu perguntei.
Mesmo quando eu chorei.
Eu chorei muito. Até pensei em sabotar o treinamento dele, fazer qualquer coisa que fosse necessário pra convencer todo mundo de que o Coruja não deveria estar ali. Eu não quero arriscar mais uma perda, mais uma morte. Elu não tem o direito de fazer com a gente o mesmo que você fez e ir embora.
Não é justo.
Mas não adiantou. Coruja é esperto, ele perceberia se eu sabotasse.
Eu juro que implorei pra ele desistir, mas ele me disse que “tinha que fazer alguma coisa”. Disse que ficar parada esperando a dor passar estava matando ela por dentro.
Eu entendi, mas mesmo assim, me permiti ser egoísta e ainda sim desejar que ela morresse por dentro desde que estivesse viva. Desde que continuasse sendo minha irmã.
Eventualmente, ele foi pra uma missão.
E elu se feriu.
Não sei se te contei, mas Alê começou a trabalhar na enfermaria da Ordem. Agora que os Psikolera voltaram a ser só uma banda indie, todos eles meio que precisaram arrumar uns empregos. O Arthur convidou ela pra ajudar com os rituais. Ela está sempre andando com a Agatha e ajudando os feridos. Acho que deve receber um salário mínimo, não sei. Mas melhor do que a merreca que eles cobram por show.
Você acharia engraçado ver eles tendo trabalhos normais.
A Cindy tem trabalhado fazendo as unhas de mulheres metidas num salão de beleza, o Caio virou estoquista num supermercado e o Eloy voltou pra faculdade pela noite e conseguiu um estágio maneiro pra comprar as coisas da Florence. Eles estão tentando ficar no anonimato por um tempo depois do cancelamento em massa da banda e tal.
Mas acho que você choraria de rir quando eu dissesse que o Franco tem feito bico de animador de festa infantil.
Imagine: Franco, com uma cabeça gigante da Peppa Pig em baixo do braço e fumando nos fundos de uma festa.
Se te anima, ao menos ele me trás salgadinhos sempre.
Eu quase consigo te ouvir rindo…
Me desculpa, precisei dar uma pausa. Eu comecei a chorar. Não consigo parar de chorar pensando na sua risada.
Ah, sim as cinzas.
Como eu disse, a Coruja tem trabalhado na Ordem mais ativamente que antes, mas na última missão, ela se feriu. Muito. Era tanto sangue que eu vomitei em pânico. Eu não queria (eu não podia) perder ela como eu perdi você.
E aí Alê veio correndo.
Elu estava segurando consigo uma bolsa com um jarro diferente, o abriu com todo o cuidado do mundo.
Elu usou suas cinzas.
Tem usado suas cinzas pra curar as pessoas. Os rituais são mais poderosos do que eu imaginaria.
Acho que foi a coisa mais linda que eu já vi.
Foi isso que você pediu pra elu? Por isso aquelas anotações inusitadas?
Elu me mostrou suas mensagens antigas. Puta merda, você realmente falava sobre isso.
Que performático, Corvo.
Só podia ser você.
Dia 40
Não consigo mais escrever.
Não consigo pensar em outra coisa que não seja o fato que eu condenei meu irmão.
Foi culpa minha, porque eu fui fraco.
Todos os dias eu acordo e essa vazio nunca vai em bora. Eu achei que depois de um mês inteiro, doeria menos. Deveria doer menos, não deveria? O mundo deveria voltar ao normal, mas parece que o vazio dentro de mim só cresce.
Todos os dias eu acordo e vou dormir com saudades de você.
Ontem teve uma tempestade na cidade, e eu sei que faz muito tempo que eu parei de ter medo, mas quando as primeiras gotas caíram, eu lembrei do som daquela chuva de sangue. Do barulho de carne, eu lembrei do quão frio você estava.
O Papagaio tentou fazer chá e Coruja não saiu do meu lado. Mas nada adiantou. Nem mesmo quando Harpia se ofereceu para buscar alguma comida que fosse do meu agrado. Nada resolvia. Eu só conseguia chorar e tremer.
Foi a primeira vez que eles ficaram todos juntos num cômodo de novo. Ao meu redor, tentando trazer algum tipo de conforto.
Mas eu só lembrava de quando a gente era pequeno e você aproveitava o barulho da chuva forte pra gente ir escondido na cozinha comer doce fora de hora.
É uma memória boba, mas ela dói pra caralho, porque não tem mais graça comer doce escondido.
Nada tem sabor algum.
E só restam trovões.
E eu choro.
Eu sinto dor.
Por favor, Corvo.
Por favor, volta. Só mais uma vez.
Dia 49
Alê leu minha mão.
“Sozinho, perdido, sacrifício, culpa, trauma, família”
Essas foram as minhas palavras.
Que idiota.
Estou chorando de novo.
Dia 50
Por que parece que só eu ainda sinto sua falta?
Eu já deveria ter superado?
Me diz, tem alguma coisa de errado comigo?
Dia 58
Fui a uma festa pela primeira vez!
Não sei se serve de consolo para você, mas acho que consegui passar horas a fio me divertindo sem me sentir um lixo. Eu pensei em você, é claro. Mas não no corpo frio.
Eu pensei no meu irmão que gostava de festas, principalmente as violentas.
Então eu fui pra um mosh pit com o Franco.
Meu nariz quebrou nessa brincadeira, a gente parou no hospital, mas ele disse que “pelo menos temos narizes combinando agora”. Até perguntou se o cara que me acertou com o cotovelo na cara não estaria flertando comigo.
Eu disse que ele estava sendo idiota.
“Bom, minha namorada quebrou meu nariz uma vez, foi gostoso pra caralho”.
Eu chamei ele de esquisito. Você teria chamado também.
Será que eu tô ficando melhor?
Será que eu vou esquecer de você?
Dia 64
O Papagaio veio no meu quarto hoje e ficou me vendo desenhar. Ele não disse muita coisa dessa vez, ele sempre costuma ficar dando pitacos nos meus desenhos, mas só ficou assistindo quieto até eu ficar desconfortável e perguntar o que ele estava fazendo. Eu disse que era um trabalho da faculdade, mas quem estava querendo enganar? Todo mundo sabe que eu tenho sido desleixado na faculdade.
Eu perguntei se ele não ia dar pitacos.
Aí ele só… ele disse coisas.
Deixa eu ver se me lembro bem.
“Eu acho que não vou dar mais pitaco no desenho de ninguém, seria meio bosta”
“Por que?” eu perguntei.
Aí ele disse que é porque ele nem desenhava mais.
O Papagaio não desenha mais desde que você morreu. Nem pintar, nem esculpir.
Como eu não notei isso?
Acho que eu aprendi que as pessoas sofrem de jeitos completamente diferentes.
Acho que eu demorei demais pra notar isso.
“Bom, eu acho que você ainda pode reclamar do meu traço simplista” Eu tentei mostrar o desenho, mas ele só sorriu um pouco.
“Seu traço tá cada vez mais parecido com o dele”
E aí ele chorou também.
A gente não disse pra ninguém que ele chorou, mas eu sei. Acho que virou um segredo nosso.
Dia 70
Eu quase morri.
Acho que estou ficando imprudente.
Fui numa missão séria de mais pra minha patente. Fiz coisas difíceis.
Era pra ser uma missão de reconhecimento da Equipe Abutre. Eu queria muito ir junto, poder ajudar. A missão era na região em que a gente cresceu antes de conseguir uma casa melhor com o dinheiro do trabalho da Coruja e do Harpia, então eu servi de guia para o grupo. Eu conheci a senhorita Leone, um cara engraçado e grande chamado Balu e o Rubens, mas com esse eu já conversava às vezes.
O único deles que me dá medo mesmo é o Dante.
Enfim, eu meio que talvez tenha me jogado na frente de uma criatura e talvez tenha ficado vários dias de cama na Ordem tentando me recuperar.
Alê usou suas cinzas em mim. Acho que elu guarda elas para ocasiões como essas, acho que guarda elas para nós. Para os Pássaros.
Já não sei se isso era parte do acordo de vocês.
Mas eu senti uma coisa estranha. Acho que por isso demorei para escrever.
Eu senti você.
Foi estranho. O mundo inteiro estava escuro e eu só sentia uma solidão estranha e dor. Muita dor.
Por um momento, eu achei que fosse morrer. Acreditei de verdade que finalmente o mundo ia me fazer pagar por ter falhado com você naquele dia.
E aí eu senti cheiro de café fresco e incenso. Eu senti a textura estranha e áspera de uma roupa velha, eu quase ouvi sua voz na minha cabeça reclamando comigo, me dizendo que eu estou dormindo de mais.
Era algo como…
Você vai acabar perdendo a hora de abrir os olhos
Já deu de dormir
Anda, levanta
Levanta, Pomba
Se prometeu continuar
Então continue
Eu acordei chorando, acho que falei seu nome, porque quando abri os olhos, Alê estava me encarando daquele jeito meio arregalado, meio trêmulo. Elu tem estado mais pálido que o normal nos últimos dias, mas olhando pra mim, parecia feita de papel.
Eu perguntei o que tinha acontecido, e elu disse que era a primeira vez que eu abria os olhos em alguns dias, que elu tinha sentido você.
Eu pedi pra elu não contar pros Pássaros que eu tinha acordado.
Eu queria ficar sozinho.
Pensando na sua voz.
Pensando em continuar.
Aí eu pedi pra elu ir lá em casa e pegar esse bloco de notas tosco, e elu fez isso. Acho que elu não leu, mas acho que ele sabe o que é, porque quando voltou, estava com os olhos vermelhos.
“Eu sinto falta dele todo dia” Ela falou pra mim.
Dia 76
Franco veio me visitar. Coruja veio me visitar. Papagaio veio me visitar.
Harpia também, mas ele não disse nada até os outros saírem.
Então ele me olhou. E disse:
“Eu perdi muitos companheiros na guerra. E eu perdi um filho agora” Ele suspirou “Não me faz perder outro”.
Acho que ele nunca mais vai ser vivo de novo.
Dia 80
“Eu deveria ter morrido no lugar dele”
Essa foi a primeira coisa que eu disse pra Alê quando elu estava conferindo meus sinais vitais.
Elu não me julgou.
“Por que?”
“Porque deveria”
“ Se fosse para você estar morto, acho que você estaria morto”
Fiquei pensando. Doeu.
“Alê”
“hm”
“Você acha que ele me odiaria?”
Alê me observou em silêncio. Eu comecei a chorar, acho que tudo que consigo fazer desde que você morreu é chorar, tentar morrer, rir vez ou outra ou chorar de novo.
“Eu deixei ele morrer” Gaguejei “Eu poderia ter atirado no Cristino, impedido tudo isso. Eu tive a chance, tive aquele merda na minha mira e não atirei. Não é possível que ele não sinta raiva de mim que você não sinta raiva de mim por ter sido tão…tão covarde…”
Silêncio. Sempre silêncio com elu.
“Eu senti” Admitiu “Eu quis matar você por não atirar. Eu te acho idiota e bobo”
Acho que elu não mentiu, e eu concordei com isso. Faz sentido. Talvez seja verdade.
“... mas o Corvo não achava isso”.
Acho que nunca prendi tanto o ar quanto naquele momento, com Alê sentado ao meu lado, olhando para mim. Elu sempre parece sentir desprezo olhando para mim, mas dessa vez era quase ilegível. E eu não o culpo.
Eu poupei o homem que te matou.
Eu poupei o homem que torturou ela.
Ainda consigo ver as cicatrizes nos braços. Os dedos meio tortos.
“... eu não acho que ele sentiria raiva por você não ter atirado. Acho que ele sentiria alívio”
“Isso… n-não faz sentido” Eu gaguejei. Por que eu sou um fracote.
Ela riu baixo.
“Faz” Alê balançou a cabeça “O maior medo de Corvo era você perder a sua essência, Pomba. Elu não tinha medo de te ver ficar forte, mas ele tinha medo que você atravessasse algo e deixasse de… ser você mesmo, eu acho. Se você tivesse atirado, elu não ia deixar de te amar… mas…”
Ela respirou fundo.
“O fato de você não ter atirado provou pro Corvo que o irmãozinho dele ainda existia. Então ele ficaria aliviado, porque o Pomba que elu amou é o mesmo Pomba que não conseguiu atira. Porque você não é um completo estranho pra elu, e você ainda…existe”.
Eu não consegui responder.
Nunca ouvi ela falar tanto.
“A única coisa que irritaria ele” Ela ri “É se você tivesse morrido do jeito idiota que quase morreu”
E aí eu…ri.
Eu ri de verdade.
Dia 87
Franco tem um carro agora.
Não é nada muito luxuoso. Uma picape usada toda pintada que ele fez questão de encher de desenhos de chamas na caçamba. Ele chamou ele de brega, e eles ficaram se beijando enquanto achavam que eu estava distraído. Foi bem nojento.
A picape vai ser útil hoje, e deu pra todo mundo vir nela. Papagaio, Coruja, até o Harpia e seu silêncio estão aqui hoje.
A gente veio na sua casa.
Estou sentado na sua cama, ouvindo Alê na cozinha guardando algumas coisas nas caixas. A Coruja pagou uma pessoa pra ficar limpando aqui, mas nenhum dos pássaros teve coragem de pôr os pés.
É a primeira vez que a gente disse pra equipe de limpeza que a gente cuidava das coisas.
Eu sei que você odeia que mexam nas suas coisas… odiava, mas pelo menos agora elas vão ficar em algum lugar que não seja esse apartamento sem ninguém pra morar.
Sua cama nem tem mais seu cheiro.
Se tivesse, eu não sei bem o que eu sentiria.
Eu tô ouvindo risadas lá fora. Acho que o papagaio encontrou alguma coisa idiota sua. Não se preocupe, eles teriam rido também na sua cara. Não é só porque você não pode se defender.
Mas sério, uma calcinha dos ursinhos carinhosos?
Não esperava essa de você.
Eu teria gostado de ver seu rosto incrédulo quando descobrisse que o Papagaio quer pendurar ela num quadro da sala.
O Harpia ameaçou expulsar ele de casa.
Dia 90
Conversei com Arthur hoje.
Ele perdeu tudo.
Literalmente, tudo. O pai, os amigos, irmãos. Perdeu animais, perdeu a cidade, o rosto.
Ele perdeu tudo e continua sorrindo.
Eu perguntei pra ele quando parava de doer, sabe?
“Nunca”. Foi o que ele respondeu.
“Nunca para. Nunca vai embora. Perder uma pessoa é deixar uma parte de você ir embora também. Você ama ela até não poder amar mais”
“O luto é o preço de amar uma pessoa, né?” Eu ri.
Ele não riu.
Arthur olhou pra mim de um jeito sério, afagou meu cabelo do mesmo jeito que você fazia quando queria me dizer algum importante.
“Eu acho que não. O luto é o amor que perdura mesmo depois que a pessoa se vai. Ele se foi, ele não pode retribuir seu amor, então você o ama pelos dois. E isso dói porque é solitário”.
“E o que eu faço com essa solidão senhor Cervero?”
“Abraça ela. Deixa a vida crescer em torno do vazio, não espera ele diminuir”.
Eu fiquei pensando sobre a morte desde essa conversa.
Talvez a culpa não tenha sido minha nem sua. Nem mesmo de um destino.
Talvez seja só esse amor grande que eu fico sentindo, que todos nós ficamos sentindo, que dói de mais para caber no peito. Porque foi de uma vez, foi violento e foi injusto. Mas no fim das contas, não existe justiça na morte. Ela não escolhe quem levar, só leva quem escolhe ela.
Você sentiu medo quando morreu?
Você escolheu paz?
Espero que sim.
Dia 100
Eu pensei em você hoje, de novo. E pela primeira vez, não doeu tanto quanto eu achei que doeria.
Ainda parece uma ferida, mas é como o Arthur falou, nunca vai sarar.
Mas aos poucos, eu sinto que o mundo aprendeu o ritmo em que ela vai cicatrizando.
A Coruja voltou a estudar as coisas que gosta. O Papagaio fez uma escultura muito legal de argila no último fim de semana, que ele nomeou de “o penico” e fez todo mundo da casa rir. A gente voltou a se reunir nos domingos pra jogar baralho e comermos coisas ruins juntos. Sinto que nós somos uma família de novo, que a gente pode sentir falta de você em conjunto.
A gente até falou de você. O Harpia contou umas histórias de quando você era pequene. Ele tem parecido um pouco melhor desde todo aquele inferno que aconteceu com a gente, como se alguma coisa tivesse parado de devorar ele por dentro. Foi um processo lento e que nos custou um pouco de paciência, mas agora ele até voltou a dançar forró nos almoços.
Ele parece estar se curando.
Todos nós estamos nos curando.
Nos últimos dias, eu aprendi algumas coisas.
Eu aprendi que eu consigo ser feliz mesmo sentindo saudade. Que o mundo não para, mas eu preciso aprender a respeitar meus limites. Às vezes eu vou precisar parar, às vezes eu vou precisar chorar. e isso também faz parte de ter vivido tudo isso. Eu tentei fazer sacrifícios grandes de mais por você, por todos, pelo Harpia, e agora parece que sacrifiquei uma parte da minha felicidade tentando entender a perda. Não sei se valeu a pena, mas pelo menos, agora acho que entendo.
Eu aprendi que não foi culpa minha. Meu Deus, talvez não tenha sido nem culpa da Cindy.
O Hexatombe tirou muito de todos nós. Nos fez tomar decisões ruins e, quando tudo acabou e a gente voltou, trouxe essa maldição com cada uma das pessoas que morreu. Pelo que conseguimos captar, o Paranormal tentou usar os mortos revividos como veículo, por isso os estigmas estavam pressionando para serem realizados. Mas agora, depois de todo o combate, alguma coisa fez recuar.
Alguma coisa pareceu ter medo da nossa força, e eu acho que isso que significa ter esperança? Eu não sei.
Mas eu sei que eu fiz tudo que conseguia fazer. Eu sei que, se tivesse atirado no Cristino naquele momento, teria ultrapassado um limite que é meu. Não que matar seja errado, mas eu, não gosto. Não alguém que eu olho nos olhos e consigo ver que é humano. E eu preciso parar de me sentir mais fraco por ainda acreditar que o mundo pode ter bondade.
Acho que você teria orgulho disso, não teria?
Mesmo depois de tudo, mesmo depois dos traumas… acho que eu ainda quero fazer o bem.
Claro, não é ser um idiota.
Mas acreditar, de verdade, que isso tudo pode valer a pena. Seguir lutando pelos que ainda estão vivos e pelas memórias dos que se foram.
Eu aprendi que eu choro muito, principalmente pensando em você, mas que tudo bem, isso faz parte. Alguns dias são melhores que outros. Dias como hoje, em que eu tô escrevendo de barriga cheia depois de todo mundo dançar junto e comer e contar histórias ruins uns dos outros. Me sinto menos perdido agora. Como se eu soubesse quem eu sou.
Você foi o melhor irmão que eu poderia ter. Foi o melhor que você poderia ser.
E hoje, eu penso que talvez tudo que você queira seja ver seus irmãos seguindo a própria vida. Porque você morreu por isso. Pra proteger cada um de nós, pra proteger Alê, pra me proteger das mãos daquele homem horrivel que finalmente tá morto.
Nesse tempo eu aprendi muitas coisas sobre a morte e o morrer.
Eu tenho um pouco de medo de ser cedo de mais, ou tarde de mais, pra dizer que acho que encontrei sentido no luto. Na perda. Acho que não é exatamente sobre superar, ou algo que acontece em uma única linha, como se seguisse um sentido.
Nossos corações não tem nenhum sentido. Humanos são complexos, não é mesmo?
Eu aprendi uma coisa interessante sobre Pombas.
Sabia que existe uma espécie de pomba que se chama “Pomba de luto”? Elas são chamadas assim porque o som que elas fazem é bem triste.
Pombas podem ser pequenas, mas elas são aves gentis. A maioria das artes e obras usam elas para falar de esperança, vida e amor. Mas o fato de mesmo nessa espécie tão artisticamente adorável, existir uma com um som triste, me trás um certo conforto.
Isso fez eu me sentir melhor comigo mesmo. Com quem eu sou. Reencontrei o sentido que tinha dado ao meu nome tanto tempo atrás. Na época, soou certo, e agora parece mais certo ainda.
Pomba.
Meu nome é Pomba.
E eu acho que a melhor coisa que posso fazer por você agora é viver.
Obrigado por ter sido meu irmão, mas acho que agora, eu consigo lidar com o mmeu peito apertado sozinho.
Eu preciso te deixar ir.

Assinado, Pomba.
