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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-03-19
Words:
1,897
Chapters:
1/1
Hits:
9

Memórias de um Homem Perdido

Summary:

Aproximamos nossos rostos a centímetros quand-

Gwhar.

Um grasnar alto e reverberante.
Tão alto que jurei ter visto a cadeira se mover.

Embora não tenha mexido um centímetro sequer...
ou talvez tenha.

Me levantei assustado e olhei para os lados com inquietação aparente.

Me levantei rápido demais e corri até a janela, o livro tendo caído em algum lugar em meio à bagunça do meu piso.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

estação de outono
Data, 1895, 10, 17
Localidade, Londres, Inglaterra

uma ave devastada pela fome estava a grasnar no parapeito de minha fina e empoeirada janela.
Um corvo de altura impressionante carregando consigo um cheiro de cobre misturado com o desconhecido.

Lia em minha cama grande demais para apenas um homem de baixa estatura.
O livro em minhas mãos era a mais requintada obra de amor feita pela minha mulher em seus últimos dias de vida.
Somente agora estou a ter coragem e vergonha em meu rosto sombreado pelos constantes tormentos a noite.

As palavras se embaralham em minha mente já confusa pelo tempo.
Um sol vira uma flor ou talvez seja um cachorro... não acho que não, minha esposa odeia cães.

A cada palavra que pronuncio em minha mente é esquecida rapidamente pelo som insistente em minha janela.
Você pensaria que corvos sabem respeitar um momento tão requintado de paz como a leitura.
Ou talvez eles saibam, mas não se importem.

Levanto-me com calma apesar de meus pés chegarem segundos mais rápido que o aceitável.
Balanço os braços freneticamente e expulso a criatura do parapeito, parando apenas quando o vejo repousando em árvores secas e magras pelo tempo.

Me incomodo de ver certas semelhanças em nossa aparência fina.
Há um certo ar de desolação e solidão a rodeando mesmo cercada de outras como ela.
Jamais se tocando,apenas existindo.

Após o momento reflexivo improvisado, lentamente volto à minha cama e começo do início.
Nem bem perto do meio estou quando ele vem à minha janela novamente.

Infelizmente não sou alguém que preze pela virtude.
De paciência muito me falta, mas de impulsividade muito me sobra.

Não me lembro de quando cheguei em minha cozinha decadente.
que desde que me lembro por gente esse cômodo era rodeada pelo constante silencio de coisas não ditas.
Apenas me lembro de cumprimentar minha linda garota Lily que acabara de completar oito anos recentemente.

Pequena demais para sua idade.
Olhos cor de âmbar como os de sua mãe e longos cabelos ruivos cacheados como os meus caindo em ondas sobre seus ombros ossudos.

Carregando consigo sempre uma pelúcia de coelho gasto pelo tempo e remendado constantemente pelo seu amor infinito.
Josy, seu nome se me recordo bem.
Foi esse o nome que minha doce Lily escolheu aos 2 anos.

Lily não perguntou o porquê de eu estar indo com uma faca em meu quarto.
Garota esperta como a mãe há muito tempo havia sido.

Estava subindo as escadas quando ela falou.
Algo raro de acontecer.

- Pai... eu te amo.

Ela falou tão suavemente que juraria ter inventado em minha mente se não fosse um pequeno tremor em suas mãos delicadas.

- Eu te amo também, Lily.
- Agora vá dormir, minha doce coelhinha. Amanhã teremos que acordar cedo.

Falei enquanto segurava o corrimão com força desnecessária criando um pequeno ferimento na madeira podre e quebradiça.

Observei enquanto a via subir apressadamente, quase caindo ao subir e passar por mim.

Recordo-me de chegar perto do corvo, mas não sei em que momento ele deixou de grasnar.
Talvez nunca tivesse feito isso e estou apenas imaginando, não seria a primeira vez que isso acontece.

Uma coisa estou certo:
ele havia sujado minha janela com seus fluidos.
Tão repugnante assim como sua existência em si.

Foi uma tarefa tão árdua limpar tudo aquilo, mas os esforços valeram cada gota de suor quando pus-me a ler novamente.

Sempre me perguntei de onde minha amada Renan tivera essas ideias para livros.

Mas sempre a apoiei e a incentivava mesmo quando via-a adoecer com tantas noites acordadas e poucas pausas para comer ou para passar com a família.

Eu sempre fui um covarde e naqueles dias não foi diferente.
Eu deveria tê-la parado quando tive a chance, mas escolhi observar em silêncio ela definhando aos poucos.

Não há um dia que não me arrependa de minha covardia...

Um príncipe com sua coroa pegou em minhas mãos e me pôs a dançar.
Cada giro balançava meu longo e esvoaçante vestido amarelo decorado com babados e um laço firmemente amarrado em minha fina cintura

Dançávamos sobre a sombra das árvores longe de olhares curiosos.

Ele ria e me olhava com tanta magnitude que pensei estar no reino dos sonhos e o único jeito de acordar era por um beijo de amor.

Pela minha perspectiva não parecia demorar pelo jeito que seus lindos olhos cor de âmbar fitavam minha boca.

Aproximamos nossos rostos a centímetros quand-

Gwhar.

Um grasnar alto e reverberante.
Tão alto que jurei ter visto a cadeira se mover.

Embora não tenha mexido um centímetro sequer...
ou talvez tenha.

Me levantei assustado e olhei para os lados com inquietação aparente.

Me levantei rápido demais e corri até a janela, o livro tendo caído em algum lugar em meio à bagunça do meu piso.

Olhei pela janela e não vi nada.

Leves farfalhares à minha esquerda e um grasnar à minha direita não me indicavam sua localização, embora eu tenha deduzido que ele estivesse atrás de mim quando senti uma de suas penas tocando em meu nariz.

Me virei lentamente e o vi.

Com uma faca.
a mesma que juraria ter usado em seu momento final
ele repousava em cima de minha cama com o livro ao seu lado.

Um tremor percorreu todo meu corpo e juraria que a temperatura caiu graus abaixo quando o vi se aproximar do livro com intenções claras em seus olhos grandes e feios.

Eu não pensei com clareza.
Eu nunca penso.

Ou talvez tenha pensado há muitos anos atrás quando a vida não tinha uma perspectiva tão sombria e solitária.

Eu apenas senti uma dor nas palmas de minha mão e um vermelho tão brilhante e escuro pintar meus lençóis.

Eu havia segurado a faca o impedindo de realizar o que pretendia com um pequeno custo.

Ao ver os papéis de um tom sujo e envelhecido pelo esquecimento se pintarem por uma cor tão vibrante como a vida, palavras antes legíveis se tornaram borrões indecifráveis.

Tendo apenas uma palavra escrita nela ainda legível a olho nu.

Tento me esquecer, mas sei que seus gritos agudos e grasnar alto irão assombrar minha vida assim como o de minha doce Lily que já devia estar acordada pelo barulho incessante e agudo.

Mas o que mais me perturbou foi quando ele começou a falar.

Amigos, não estou dizendo de maneira poética, mas aqui está tudo que ouvi sair de seu bico.

- Socorro, pare por favor!

Jamais pensei que ouviria um pássaro falar, mas aqui estou eu o estrangulando com minhas mãos sujas tentando o calar.

Suas palavras assustadoras e aterrorizantes e estranhamente agudas e infantis...

Foi horrível e quero que acabe.

Ele era uma bagunça grotesca em poucos minutos ou talvez horas.

Vísceras que nem sabia possuir escorriam pela cama até cair no chão com um splash audível para todos.

Um de seus olhos esmagado na mesa perto da janela...

Era grotesco, repugnante, aliviador.

Tamanho alívio que senti ao ver a causa de meu tormento finalmente morto jamais poderia ser descrito em palavras, por isso compensei em gestos.

Em minha cozinha apertada coloquei a panela no fogo a lenha e o joguei na panela quando a água ferveu.

Talvez assim ele não tentasse mais fugir do abraço acolhedor da morte, não que eu soubesse como era.

Descasquei batatas uma por uma.
No total foram 7 e coloquei na panela enquanto afiava a faca.

Fatiava o corvo com destreza e paciência que raramente demonstro ter.

Sua carne dura e cheia de ossos demorava a ceder.

Em pouco mais de 2 horas eu terminei de o fatiar e joguei na panela após o lavar.

Renan estaria orgulhosa se ainda lhe restasse o sopro da vida em seu corpo.

Ganho a vida como artesão, faço muito e ganho pouco.

Nunca precisei me dedicar a cozinhar até ela morrer, mas aqui estou eu fazendo um jantar para nossa filha com tanta dedicação.

Lily deveria vir comer em algum momento quando começasse a ferver.

Fiz o prato favorito dela como maneira de compensar o seu sono já escasso arruinado.

Coloquei o disco no Gramofone e comecei a cantar.

Uma lua tão bela e brilhante
Um coelho passava por ali
Quando encontrou um lobo em meio às flores de jasmim
Um pássaro sobrevoava
Apenas para um gato o ver fugir

A música tocava no ar apenas para ser quebrada pelo som agudo de batidas em minha porta reverberando pela rua de paralelepípedos.

Em segundos Bobbies estavam em minha porta.

Os deixei entrar e perguntei se iriam jantar.

Eles recusaram e falavam com seriedade sobre altos barulhos de gritos em minha residência.

Expliquei calmamente e a cada palavra minha mais eles ficavam retos e enojados.

Eles vasculharam tudo até chegar em minha cozinha...

Não.
Não.

Eu... não sei dizer o que aconteceu.

Não era para isso estar acontecendo...

Em vez de um pássaro na panela minha querida coelhinha estava em pedaços em minha panela.

Era grotesco.

Um de seus olhos faltava enquanto seus braços faltavam pele e pedaços de ossos estavam na bancada.

A água antes transparente era pintada por um vermelho vivo e irônico em meio à confusão.

Suas mãos...

Oh, suas lindas e frágeis mãos não estavam ali.

Lembro vagamente de ter comido uma das patas do corvo para provar.

Senti náuseas e pensei que iria desmaiar.

Quem dera tivesse tamanha sorte.

Senti pontos pretos dançando nos cantos dos meus olhos.

Minhas pernas curtas ameaçavam me derrubar a qualquer instante.

Os Bobbies me prenderam e o resto foi apenas som e som.

Eu vi tudo acontecer diante de meus olhos e nada a se fazer.

Era como se tudo estivesse se repetindo diante de mim.

estação de primavera
Data, 1897, ??, ??
Localidade,Prisão de Newgate, Londres, Inglaterra

Não sei em que momento isso aconteceu.
Mas desde alguns dias, ou talvez meses depois de ser preso, eu continuava a ver a criatura sem alma em meus pesadelos.

E, de repente, não era só em pesadelos.
Em dados momentos eu o vejo sobrevoar o céu, como se zombasse da minha falta de liberdade, como se ele não fosse a causa da falta dela.
Eu não me importo.
Ou pelo menos é o que repito a mim mesmo todos os dias e noites.
Dizem que, se repetir uma mentira várias vezes, talvez se torne verdade.

Não tenho arrependimentos e me envergonho de não os ter.
Talvez o único arrependimento que tenha tido foi não ter terminado o livro de minha mulher falecida.
Mas me alegro de me lembrar da única frase não borrada e ainda legível naquele dia macabro.

O beijo aconteceu, mas não lembro de ser feliz.
Às vezes me pego pensando se estou realmente acordada ou se só estou em um sonho particularmente longo.

Não me entristecerei se acordar de repente em um mundo escuro e cruel.
Pois lembrarei de ter aproveitado cada momento de felicidade e ainda assim ser infeliz.

Renan, meu amor, nunca saberei se você estava se referindo ao nosso amor, mas saiba que fui feliz em todo momento e mais cedo do que gostaria,me juntarei ao mundo dos sonhos com nossa princesa Lily. Apenas me esperem um pouco mais e não se arrependerão.
Eu os amo e juro que o que aconteceu naquele dia foi um ato de puro amor. Renan, eu só queria que você pudesse descansar
Para sempre...
Como você sempre dizia querer, meu lindo pássaro maldito.

Notes:

Olá, meus lindos corvos deslumbrantes :)
Esta é a minha primeira história publicada no AO3 e, nossa, como é difícil publicar algo em inglês. Se alguém souber como mudar para o português, por favor me avise nos comentários.
Esta é uma história original ambientada na era vitoriana. Meus trabalhos e futuras histórias serão pequenos contos de terror. Amo adicionar romance, elementos vitorianos e muito drama, sem enrolação. Gosto de aprofundar pensamentos e emoções, embora eu nem sempre consiga dizer o que sinto. Cof cof, hipocrisia do caralho.
Minhas histórias serão, em sua maioria, contos curtos que prenderão sua atenção. Tenho uma conta no Wattpad com o nome de usuário ScriptorCorvinus, caso você goste desta obra. Raramente postarei no AO3, então minhas atualizações por lá serão ocasionais.
Também publicarei, em alguns momentos, conteúdos de Bungou Stray Dogs, principalmente com ships como Akutagawa/Dazai ou Atsushi/Dazai.
No momento, estou trabalhando em uma grande novela ambientada na era vitoriana, com casais LGBTQIA+, então o drama já é garantido. Pretendo publicá-la até o Dia do Orgulho LGBTQIA+, mas não prometo nada em relação ao prazo.
Uma última mensagem: ame a si mesmo e não pense demais. Alguém que tem consciência de seus erros e acertos já possui o suficiente neste mundo miserável.
Ah, e quase esqueci: temas como depressão, canibalismo, narrador não confiável e suicídio estarão presentes em minhas futuras obras, caso você goste ;)