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No litoral norte, quando o sol atravessa a janela, iluminando o quarto e o corpo de Eduarda, Lorena e a vida dialogam silenciosamente. O subir e descer pacífico do corpo, no compasso da respiração, quase imperceptível para olhos nus, é magnético para os dela. A serenidade estampada no rosto amassado de Eduarda lhe revoluciona o espírito: Lorena está em paz.
Se pudesse, moraria na tranquilidade desta manhã de domingo. O mundo lá fora continuaria e elas permaneceriam aqui, com Eduarda sob o sol, as horas passando devagar, uma faminta pela outra, mãos que não se cansam do carinho, olhos vidrados nos detalhes do rosto, lábios colados em todas as esquinas da casa.
Os celulares estão na gaveta; há cadernos de palavras cruzadas empilhados na mesa de centro da sala, quase todos resolvidos durante os primeiros dias do feriado.
Eu trocaria a eternidade por esta vida, ela pensa, e então se dá conta: já trocou. Ao fincar sua bandeira ao lado da de Eduarda, Lorena renunciou os confortos oferecidos pelo controle do pai.
Eduarda está acordando, ela percebe. Os olhos abrem e fecham sonolentos, em frestas pequenas, parceladas. Desde a primeira vez em que dormiram juntas, Lorena estuda esses detalhes. Eduarda é resmungona. Solta grunhidos antes de despertar, reclama com o próprio corpo por retirar-se do transe. Sem despertador para apressá-la, vira-se na cama, mostrando os seios para o sol. Ela raramente dorme vestida, só quando está morrendo de frio, e Lorena ama senti-la assim à noite, pele na pele.
Resistir à vontade de abraçá-la e cheirá-la no pescoço é um desafio, mas Lorena não apressará o fenômeno do despertar para se deleitar sobre a namorada. Este é um momento sagrado, pouco aproveitado entre as duas durante o cotidiano.
O relógio digital na mesa de cabeceira marca dez horas e onze minutos.
— Bom dia — diz Eduarda.
Os olhos permanecem fechados, ainda na ponte entre o sonho e a vida. A voz rouca combina com a imagem.
— Bom dia, meu amor — responde Lorena.
Sonolenta e manhosa, Eduarda se estica na cama e a puxa para perto; de repente, estão abraçadas na superfície macia, emboladas entre lençóis e travesseiros. Feito a montagem de um quebra cabeça, se ajeitam até que o rosto de Lorena esteja no pescoço da namorada.
— Dormiu bem? — Eduarda pergunta.
— Bem é pouco. Depois do que você fez ontem à noite, dormi mansa, tranquila. Apaguei — responde Lorena. — Você fica linda de manhã, sabia? A mulher mais bonita do mundo. Desse jeito é muito difícil não te pedir em namoro de novo.
— É só pedir, ué. Eu sempre vou aceitar.
Os dedos de Eduarda dançam em seu couro cabeludo, calmantes. Em cada milímetro do toque, há um eu te amo gravado.
Em família, Zenilda nunca lhe negou carinho, dengo, essas coisas de mãe. No entanto, em determinado momento, a dinâmica dos conflitos entre pai e filha impossibilitaram a abertura de caminhos honestos entre ela e a mãe, coisa que também atrapalhava na distribuição do amor.
Durante o jantar, Santiago a atacava, Leo o apoiava e Zenilda apaziguava. Ela não a defendia — isso ninguém nunca fez — e, quando a procurava antes de se deitar para dormir, era para limpar a própria consciência e pedir desculpas em nome de Santiago. “Não esquenta com o seu pai, ele é assim, mas só porque te ama e se preocupa”. Para Lorena, nunca pareceu amor, muito menos preocupação.
Ao conhecer Eduarda, ela percebeu que estava faminta.
No último ano da escola, o professor de artes sugeriu que os alunos escrevessem uma carta para as crianças de suas memórias mais antigas.
No caso de Lorena, a primeira lembrança é cor de rosa em tule e collant.
As datas nas fotografias informam os três anos de idade, as imagens mostram Santiago, Zenilda e Leonardo na primeira fileira do teatro.
Naquele tempo o mundo era imenso. Todos os adultos pareciam gigantes, especialmente o pai. Nos braços dele, Lorena estava segura inclusive quando seus pés não tocavam o chão. A mão pesada em suas costas era sinal de acalento, âncora entre ela e a realidade, protegendo-a dos monstros nas sombras que a noite levava para o quarto.
Até o dia do espetáculo, Lorena só ensaiou com o teatro vazio, ao lado das colegas e da professora, e eram íntimas o bastante para que tudo parecesse uma brincadeira. No entanto, no dia da apresentação, os assentos da plateia foram ocupados por pais, irmãos, avós, tios e tias de alunos de diferentes turmas, e os bailarinos mais velhos dividiram o mesmo camarim que ela, minúscula entre os gigantes.
Se antes de entrar no palco já estava aterrorizada, diante da plateia, pôs-se a chorar.
Ela concluiu a apresentação de mãos dadas com a professora e, após o final, na saída do camarim, ele a aguardava com um minúsculo buquê de flores e braços abertos. Aliviada por encontrá-lo, Lorena soltou a assistente que a acompanhava e correu para abraçá-lo.
Organizando as memórias no papel, Lorena recordou-se do alívio transmitido pela imagem do pai na multidão. Naqueles braços, havia quem a protegesse.
Hoje Lorena entende que, das flores ao abraço, seu pai estava mais preocupado com a aparição nas primeiras páginas do jornal local do que com ela. O recorte da edição está junto com as fotos de família e O brilho dos herdeiros Ferette dá início ao comentário do jornalista. É um trecho pequeno, encomendado de ponta a ponta para promover a boa imagem de Santiago perante a população geral, possíveis investidores da fundação e governantes regionais.
Ainda assim, ela sabe — em muito motivada por uma carência melancólica que não lhe larga os pés — que viu o amor naquele dia.
Para os adultos é mais fácil amar as crianças, em especial as pequenas. Por mais que possuam pensamento próprio, estão sujeitas a seguir o que os pais mandam e são incapazes de executar seus desejos sem a permissão dos responsáveis legais. Além disso, elas não os confrontam nem desafiam. São pouco exigentes, apesar de dependentes, e inábeis para o julgamento objetivo do caráter alheio.
Lorena só sabe disso porque já reinou princesa no castelo construído por Santiago Ferette. Antes de seus olhos se conectarem à alma, enquanto o conhecia como herói e era incapaz de entender a tristeza para além das lágrimas, foi possível receber beijos na testa e pequenas demonstrações de amor no dia a dia.
(In)felizmente, foi destituída de seu trono assim que o confrontou pela primeira vez.
Naquele tempo, a maldade inerente à criatura de Santiago deleitava-se orgulhosa na dependência de Zenilda, sempre sutil, disfarçando-se na firmeza solene da voz. As ordens dadas de cima a baixo pareciam uma sugestão até serem contrariadas. Então, durante o café da manhã, uma conversa sobre a atividade profissional da mãe transformou-se na primeira vez em que Lorena testemunhou um grito do pai.
Você não vai porque eu NÃO QUERO, Zenilda.
À noite, Santiago chegou com um vestido e um par de brincos com uma caixa de bombons. Feito um tolo aos pés de Zenilda, pediu desculpas, justificou seus atos e, por fim, recebeu, no olhar delicado da esposa, o perdão e o pedido para que aquilo não se repetisse.
Lorena os observava de longe, escondida nas paredes da casa. Quando Zenilda subiu para trocar de roupa — porque os dois sairiam para jantar — Lorena aproximou-se de Ferette. Diante dela, ele sorriu e disse:
— O que você está fazendo acordada, menina?
Ainda princesa, aluna daquele impositivo rei, Lorena respondeu:
— Eu não quero que você fale daquele jeito com a minha mãe.
Quando ainda o encarava de baixo para cima, precisava erguer o pescoço inteiro para encontrar os olhos, mas não desviava deles. Lorena continuou:
— Ela ficou triste. O que você fez foi muito feio.
Pela primeira vez, talvez por finalmente vê-la como uma pessoa e não uma extensão de si mesmo, Santiago a encarou com desprezo.
— Lorena — disse ele baixo, respirando fundo. — Você vai ter que se conformar com algumas coisas ao longo da vida. Escutar o seu marido será uma delas. Eu só falei daquele jeito com a sua mãe porque o que ela queria é impraticável. Entendeu? E se você não gostou, pode começar a passar o dia sozinha para aprender a não dar trela para o que a sua mãe diz.
Quando ele deu as costas para encontrar a esposa, Lorena correu para se esconder sob as cobertas, sozinha e chorando. Seu coração doía tanto que precisou esconder o bicho de pelúcia favorito, presente de Santiago, embaixo da cama; só assim voltou a respirar. Enquanto isso, marido e mulher saíram para jantar alheios à tragédia daquele minúsculo mundo.
Hoje Lorena tem a impressão de que passou os últimos anos assim, escondida num casulo de cobertas, até o corpo de Eduarda aparecer perfeito, construído para abrigar o dela sem pestanejar.
Se em casa a raridade do afeto o transformou em moeda de troca, medalha de ouro disputada entre ela e Leonardo, ao lado de Eduarda, Lorena tem certeza de sua abundância. Lhe dói pensar que eram só dois competidores e, ainda assim, ela sempre acabava em décimo lugar, sozinha entre os livros, os fones de ouvido e os desabafos da mãe, que, irritantemente, nunca fazia nada a respeito da própria vida, mas serviu para que ela soubesse, desde nova, o que não queria para si.
— Tive um sonho lindo essa noite — diz Eduarda. — Nós estávamos aqui no quarto, assim mesmo, e tinha a voz de duas crianças. Não vi os rostos, mas senti as mãozinhas entre a gente. Acredita que abri os olhos esperando encontrar os dois aqui?
Eduarda não consegue ver, mas Lorena ergue as sobrancelhas e responde:
— Eu acredito.
— É tão realista.
— Uhum.
O silêncio as cobre por um instante e a calma do corpo de Eduarda é inebriante o bastante para quase adormecer Lorena novamente. Na pele de Eduarda está um sonífero pacífico que invade os pulmões de Lorena imperceptível, impedindo-a de lutar. O que a desperta é a curiosidade aguçada e certeira da namorada.
— Lorena, você já deu a entender que sim algumas vezes, mas... Você gostaria de ter filhos um dia?
Se alguém perguntasse no começo do ano, a resposta seria não por dois fortes motivos. Primeiramente, a ideia de que uma criatura tão frágil e dependente a nível existencial procuraria abrigo sob as asas dela a amedrontava profundamente. Ela mal conhece o próprio lugar no mundo, quem dirá o de outra pessoa. Em segundo lugar, por reconhecer nela e em Leonardo os danos causados pelos pecados dos pais, achava melhor manter-se distante do campo da criação.
Crescendo, Lorena afeiçoou-se a tudo que encontrava de Zenilda em si: o amor, o cuidado, o manejo com as mais diversas situações. Poucas coisas conseguiriam derrubá-la, porque ela não deu em árvore, é filha da mãe. No entanto, ainda na época da escola, também percebeu Santiago no peito. Ele estava nos embates que ela travou em sala de aula, nos debates que sustentou ao lado dos colegas, nas ameaças que fez a outros alunos da escola para proteger o segredo homossexual de sua primeira paixonite.
Poucas coisas podem sujeitá-la à derrota — ela é filha do pai. Também por esse medo de ser demais como Santiago, Lorena negou a maternidade. Os herdeiros da família Ferette não viriam dela, nem se ela os desejasse em segredo.
Até Eduarda aparecer.
— Contigo sim, eu gostaria — responde. — Também já tive um sonho assim — confessa.
Eduarda pergunta como foi.
— Eu ainda era solteira, nem te conhecia. Sonhei com um bebê, segurei nos braços, amamentei e tudo mais. Lembro até de achar pesado, mas o mais bizarro é que eu senti amor. Tipo, de verdade. Fiquei triste quando acordei e não encontrei minha filha. Você pensa em ter filhos? — pergunta Lorena.
— Sim, sempre quis. Escolhi o nome quando tinha doze anos: Gabriela.
— Gabriela é um nome lindo, Eduarda.
Mais tarde, com as malas prontas, elas se aprumam no carro. Em São Paulo, Eduarda a deixará na galeria e partirá para a delegacia, depois só se encontrarão na segunda-feira à noite.
Pelas curvas da estrada, o rádio vagueia entre as notícias e as músicas da estação. Secretamente, Lorena só presta atenção nas músicas de amor.
Um dos aspectos mais interessantes da paixão é o estado de descoberta. Por um período indeterminado, quando duas pessoas se conhecem, se apaixonam e se encantam uma pela outra, a curiosidade aflora, fazendo com que o sujeito apaixonado se torne um descobridor aventureiro, louco para saber tudo (e mais um pouco) sobre a pessoa amada.
Nesse período de descoberta também é possível aprender muito sobre si. Lorena, por exemplo, que sempre se considerou bem resolvida sobre a condição humana e seu dinamismo, só entendeu a complexidade do ciúme depois que conheceu Eduarda. Da mesma maneira, esse seu lado romântico e perdidamente apaixonado era secreto, um quarto abandonado no coração.
O amor de Eduarda a comove, remexe e expõe ao sol partes que ela desconhecia em si. Em que momento todas as músicas de amor passaram a ter uma destinatária? Antes eram mera trilha sonora dos filmes, agora são a vida, o mundo em que vive.
Concentrada na estrada, Eduarda nem imagina que, sozinha, Lorena fabula sobre a playlist do casamento.
Casamento. Mais uma dessas coisas ressignificadas por Eduarda. O que antes era uma instituição amaldiçoada agora parece consequência da vida que levam. Eventualmente, estarão casadas, morando sob o mesmo teto, dividindo o mesmo lençol à noite.
Por vezes, Lorena considera parar tudo e fazer o pedido nos enlaces do cotidiano. Pensa em dizer “Eduarda, quer casar comigo?” no meio da estrada, durante um jantar, entre um drink e outro. Só não o faz porque, mais do que ela, Eduarda é e gosta de ser romântica: encomenda chocolates artesanais e buquês das flores favoritas de Lorena. Uma mulher assim merece um pedido costurado sob medida.
E já que não pode pedi-la em casamento nessas condições, Lorena contenta-se em dizer “eu te amo” e estampar um sorriso bobo no rosto de Eduarda. Eu também te amo é a melhor resposta.
O visor no painel de controle do carro anuncia o telefonema de Paulinho.
— Fala, cacareco — diz Eduarda. — Mas com respeito, minha namorada tá escutando.
— Não é brincadeira, Juquinha. Que horas você chega em São Paulo? Antes das oito?
Graças a Eduarda, Lorena também conheceu um novo aspecto do medo.
Apesar de saber que São Paulo é uma cidade violenta, foi poupada de testemunhar os crimes que a tornam um território perigoso. Passou a vida inteira num condomínio fechado, vertical, vigiado vinte e quatro horas por dia por homens de preto e câmeras de segurança. O motorista da família a levava para escola num carro blindado e ela nem sequer se dava conta.
Em razão disso, seus medos, apesar de ela saber que assaltos e assassinatos e balas perdidas existem, nunca foram sobre a integridade física de sua família. Ao ver o pai deixando a casa para trabalhar, ela tinha certeza de que ele voltaria à noite.
Durante algum tempo, essa inocente e costumeira convicção também se estendeu sobre Eduarda. Nas primeiras semanas em que estiveram juntas, sua namorada a deixava na porta de casa antes de ir para a delegacia e Lorena acreditava, sem sombra de dúvidas, que elas se veriam novamente, fosse naquele dia ou no próximo. A reflexão sobre os perigos enfrentados por Eduarda no exercício diário de sua profissão só veio depois, quando Lorena já estava na galeria.
Sem perceber, ela segura o fôlego enquanto escuta a conversa. Em silêncio, as engrenagens de sua cabeça funcionam desordenadamente para produzir os mais trágicos cenários, todos protagonizados por Eduarda.
— Você não acha esse tipo de situação perigosa demais? Por que você e o Paulinho não podem fazer só o trabalho de investigação? — questiona Lorena quando a ligação é encerrada.
— Porque investigadores também vão para a rua, amor. É como as coisas funcionam. É o nosso caso — explica Eduarda.
— Você usa colete?
— Sim, e todas as outras coisas que uma policial prudente precisa usar, sempre. Não me coloco em risco sem necessidade. Não quero que nada tire o meu tempo ao seu lado. Trabalho hoje e prometo que ainda te vejo amanhã.
À noite, Lorena não dorme.
O aperto preocupado no peito não lhe concede descanso, pelo contrário, a revira de um lado para o outro na cama, usando os piores cenários disponíveis para acelerar o coração.
Segundo Eduarda, será uma operação simples. O sujeito age sozinho, não tem capangas, ela e Paulinho não precisarão de grande aporte para alcançar o objetivo e, se tudo der certo, concluirão o serviço com folga para tomar um café da manhã reforçado na padaria mais próxima à delegacia.
Racionalmente, Lorena confia no que a namorada diz, mesmo considerando as variáveis da situação. Eduarda leva tanto o trabalho quanto Lorena a sério e, em outras ocasiões, já confessou estar preocupada com determinada atividade relacionada ao exercício do ofício. Se fosse exageradamente perigoso, Lorena saberia e teria um motivo fortificado para não conseguir dormir.
Acontece que, após esses dias ao lado de Eduarda, longe do mundo em que passam provações constantes, ela está a flor da pele em muitos sentidos. Tudo transborda: o amor por Eduarda, a ausência dela no colchão, o medo de perdê-la, que se junta ao medo constante da solidão, de depender demais da mulher por quem se apaixonou, de ser incapaz de erguer uma família novamente, entre outras coisas.
Na atual conjuntura da vida de Lorena, Eduarda é um pilar estrutural. A possibilidade de perdê-la para o acaso, para o estar no lugar errado na hora errada, enlouquece Lorena aos poucos e em silêncio.
Se é pouco ou muito perigoso, ela não se importa; seu coração está dividido, uma parte segue com Eduarda e outra sofre desinformada em casa, aterrorizada com os planos do destino.
A vibração escandalosa do telefone na mesa de cabeceira chama a atenção. Lorena se estica na cama para alcançá-lo antes de atender.
— Oi, mãe. Tudo bem por aí?
— Oi, meu amor, tudo bem sim. Desculpa ligar a essa hora, só tô com muita saudade de você. É difícil aguentar a sua ausência aqui em casa.
Eu imagino, Lorena pensa, mas não responde. No cotidiano da família Ferette, Lorena era a única defendendo a mãe dos ataques passivo agressivos do pai. Leonardo, em costumeira covardia, fingia que não estava vendo, e Zenilda mostrava-se vulnerável demais para conseguir se defender das ofensivas do algoz.
Nas manhãs, eles se ignoravam. Desviavam olhares, conversavam com os outros pares da família, aproveitavam o café em superfícies distintas, um na mesa, outro debruçado sobre a ilha da cozinha, evitando, assim, que qualquer tipo de espinho aparecesse em suas carapaças.
Naquele dia, no entanto, o humor de Santiago Ferette amanheceu tão nublado quanto o dia em São Paulo. Lorena soube, só pelos passos pesados nos degraus da escada, que seria uma longa manhã.
Feito a de um general, a recente presença de Santiago na sala de jantar impôs o silêncio. Leonardo reconheceu a situação e permanece quieto, nem se atreveu a dar bom dia. Zenilda foi a única que, na tentativa vã de hastear bandeiras brancas nas disputas familiares, se jogou no campo minado das emoções do esposo.
Honestamente, Lorena queria que ela ficasse em silêncio. A mãe fazia aquilo por um bom motivo — sonhava em testemunhar o reino da paz na residência Ferette —, mas nenhuma semente fértil sobreviveria num solo tão inóspito, banhado pela má vontade do pai. Pelo contrário, sob a torra do sol, tornava-se veneno intragável para a espécie humana.
Quando a mãe, em genuína curiosidade, desatenta aos sinais fulminantes de Santiago, perguntou se ele dormiu bem, Lorena e Leonardo trocam olhares já sabendo o que aconteceria.
De maneira geral, eram eles os alvos dos ataques, principalmente Lorena; Zenilda costumava ser poupada do que havia de pior no marido, que depositava todo o desgosto e a frustração dos dias nas carcaças dos filhos e deixava os cacos para que ela limpasse antes de se deitar para dormir. No entanto, quando Lorena e Leonardo foram prudentes o bastante para ficarem em silêncio, Zenilda confundiu a falta da briga com a presença da harmonia.
— O que você acha, Zenilda? Eu por acaso estou com a cara de alguém que dormiu bem? Eu pareço bem? — respondeu Santiago, grosseiro na voz e no olhar.
Sentado à direita de Lorena, Leonardo virou o rosto para o outro lado. De outra maneira, percebendo a feição entristecida da mãe, Lorena encarou o homem na cabeceira da mesa até ser percebida. Fez questão de sustentar o olhar enquanto o pai cortava o pão e se atrapalhava com a geleia, apressado para comer e sair logo de casa.
— O que foi, Lorena?
Santiago perguntou, mas foi covarde demais para erguer a cabeça e encará-la de volta.
Um calor nervoso passou a consumir o corpo de Lorena, mas ela não se deixou levar por ele. Às vezes tinha medo dos rompantes do pai, às vezes tinha raiva. Naquele dia reinava a segunda opção. Ela gostaria que Zenilda tivesse ficado em silêncio porque sabia que esse seria o resultado e que não conseguiria ficar quieta diante dele.
Quando os olhos de Santiago finalmente a encararam de volta, agora cercados por uma face vermelha, Lorena soube que podia retrucar:
— Você não tem vergonha de falar assim com a minha mãe? A sua mulher?
Tanto Leonardo quanto Zenilda esconderam o rosto atrás das mãos.
Nas manhãs, Lorena e Santiago se ignoravam por quê, quando se encontravam, era catastrófico. Não havia bons diálogos entre eles — na verdade, nem sequer havia diálogos. Todas as conversas eram meros caminhos para discussões acaloradas e brigas propriamente ditas.
— Não, não tenho — respondeu ele. — Eu estou na minha casa e falo com quem eu quiser da maneira que eu bem entender. Preciso te lembrar disso?
— Não precisa, pai, sempre que esse lugar vira um inferno eu lembro que você é o comandante de tudo.
— Lorena — repreendeu Zenilda. — Não fala assim com o seu pai.
Em outros tempos, Lorena se daria ao trabalho de rebater o comentário cego da mãe, mas o ignorou por completo. Já havia aceitado que defendê-la do constante desrespeito de Santiago era um trabalho sem recompensa, então manteve-se firme diante do pai, aparentemente inabalável.
Ele respirou fundo, deu um gole no suco de laranja. A vermelhidão do rosto se esvaiu aos poucos, dando espaço para o personagem calmo e educado de um mentiroso.
Lorena aprendeu em casa que as piores ofensas vêm em voz mansa, passivo-agressiva. Pouco tempo antes daquele dia, Santiago só falava baixo em casa, conseguia atuar em todos os cômodos. Eventualmente, seu papel de bom homem restringiu-se à Fundação e ao quarto principal, onde até hoje divide as noites com Zenilda. No entanto, o implacável passar do tempo transformou em pó as máscaras de Ferette. Lorena foi a primeira a identificar a desgraça por trás da maquiagem, talvez por também ser a primeira vítima dela, e, até hoje, pensa ser a única que se importa com o desgosto imposto por toda a situação.
Ela prefere a atual conjuntura da família. É mais fácil lidar com o que se pode ver. Antes, Santiago era uma serpente rasteira; hoje é uma hiena escandalosa, incapaz de se esconder da presa antes de atacá-la. Isso pelo menos lhe dá a chance de se defender e de defender os outros.
— No inferno não tem motorista para te levar para lá e para cá. Você tá insatisfeita com a vida que leva? Tudo bem. Vai passar a semana andando de metrô — disse Santiago, sustentando os olhos nos de Lorena. — E se eu souber que você emprestou o carro para ela, que você pediu um Uber ou conseguiu qualquer outro meio de transporte particular para essa menina, será a próxima a ficar a pé — reforçou, agora olhando para Zenilda.
— Também tô com saudade, mãe — responde simplesmente. — Você me ligou na hora certa, não tô conseguindo dormir preocupada com a Duda.
— A Juquinha? O que houve com ela?
— Nada demais, só tá trabalhando, mas ela é policial. Fico com medo do que pode acontecer — diz Lorena, evitando dar detalhes sobre as atividades de Eduarda. — Amar é bom, mas vem com tanto medo — completa com a voz embargada. Ela suspira e percebe as lágrimas atrás dos olhos, sente o nariz inchando para facilitar a respiração durante o choro, mas o segura mesmo assim.
— Ah, meu amor, é normal ficar assim. É uma atividade perigosa, ainda mais numa cidade como São Paulo. Estranho seria se você não tivesse medo. Mas olha, caso alguma coisa realmente aconteça (e não vai acontecer, mas caso aconteça), você precisa estar bem, descansada para ajudar a sua namorada. Você precisa dormir.
— É, eu sei, mas pensar e falar são coisas mais fáceis do que fazer. Queria que a Eduarda se teletransportasse para o meu lado agora mesmo.
Do outro lado da linha, Zenilda fala algo sobre como o amor jovem é passional. Dentro de si, incomodada pelo tom (mesmo sabendo que ele não pretende ser ofensivo), Lorena deseja perguntar se a mãe prefere o amor que vive com o pai, que mais parece uma sessão contínua de tortura, mas se resguarda. Não precisa desse problema, nem quer afastar a mãe. Ela é mais uma com quem Lorena se preocupa todas as noites.
— Olha, mãe, foi ótimo falar contigo, mas vou desligar aqui e tentar dormir. Vou ver se a Eduarda me respondeu também. Te amo, ok? Bom descanso.
No telefone, não há atualizações de Eduarda. Derrotada, Lorena fecha os olhos e se obriga a dormir.
Com facilidade, Lorena abandonou o cigarro desde que conheceu Eduarda.
Ela começou a fumar aos dezessete anos, na época em que estudava para o vestibular. Santiago insistia para que ela fizesse administração ou direito, qualquer coisa que fosse útil para o funcionamento da Fundação Ferette, mas Lorena ficava mesmo dividida entre letras e história.
Naquela época, seu corpo vivia estressado. Estava sempre ansiosa, pensando em como seguir o próprio coração representaria mais uma decepção na lista de Santiago Ferette e, ao mesmo tempo, tendo de se lembrar que ninguém além dela mesma viveria aquela vida, que deveria ser ela trilhando os próprios caminhos, não aqueles pavimentados por Santiago.
O primeiro cigarro veio no aniversário de um amigo. A festa aconteceu num clube com piscina, da manhã até à noite. Eventualmente, num canto isolado e à céu aberto, um dos colegas de turma lhe ofereceu um cigarro.
De maneira objetiva, Lorena sabia que aquilo a causaria mal, a deixaria mais propícia às doenças cardiorrespiratórias, à infertilidade e ao câncer, mas imaginou que um cigarro não causaria tantos danos a longo prazo.
O problema é que, num corpo tão ansioso quanto o dela, o efeito calmante da nicotina jamais seria esquecido. Desde aquele dia, ficou gravado em sua memória. Uma semana depois da festa, na noite anterior à um simulado aplicado na escola, Lorena se percebeu desejando aquele alívio mais uma vez.
Na época, ela não podia sair à noite sem motivo e sem dar satisfação, então viveu em agonia até adormecer. No dia seguinte, ao invés de entrar na escola imediatamente após a chegada, foi até a banca de jornal e comprou uma unidade do cigarro.
Quando ingressou na faculdade, percebeu que o cigarro tinha força cultural no mundo universitário. Na recepção dos calouros de letras, uma de suas novas colegas de turma lhe ofereceu um, dois, três. Eventualmente, ao longo do primeiro semestre, Lorena passou a comprar seu próprio maço.
No dia a dia, ela nunca fumava mais do que dois cigarros. Um depois do almoço, um depois do café, à tarde. Nas festas, fumava mais, se arrependia no dia seguinte, sentia a toxidade da droga no corpo, parava de fumar por uma semana e assistia o repetir do ciclo na própria vida.
Sob sua percepção, era mais um hábito do que um vício. O fumo estava associado a excelentes momentos de pausa e descontração na faculdade. O que mais a incomodava era o cheiro, o que a fez começar a andar com cremes e perfumes. Se recusava a andar fedorenta pelo campus.
Quando trancou a faculdade, parou de fumar tanto. Passava muito tempo em casa e, sem a pressão dos anos anteriores, bebendo menos, lendo mais, se alimentando direito e saindo para andar de bicicleta de vez em quando, o hábito de fumar se esvaiu e só voltava em momentos de grande estresse emocional, como eventuais brigas com o pai, ou em ocasiões descontraídas, como encontros em bares.
O fim definitivo veio quando, num dos primeiros encontros com a namorada, Lorena descobriu que a fumaça e o cheiro do cigarro causavam reações alérgicas a Eduarda. Desde então, nunca mais fumou, nem sequer deu um trago em cigarros alheios. A ideia de que sua presença poderia causar qualquer desconforto a mulher por quem se apaixonou era inaceitável e assim permanece.
No entanto, ao acordar às cinco da manhã sem qualquer sinal de vida vindo de Eduarda, precisou abrir o guarda-roupa e procurar o maço de cigarro escondido sob alguns vestidos. Acendeu uma unidade na boca do fogão, já que deixou sua coleção de isqueiros na casa de Santiago e não conseguia encontrar outra fonte de fogo na galeria, e foi para a varanda nos fundos fumar.
Incapaz de voltar a dormir, resolveu procurar sobre os trâmites necessários para reabrir a matrícula na faculdade, distrair-se com algo útil, mas concentrar-se nessa tarefa também se mostrou extremamente difícil.
O corpo ansioso precisa saber de Eduarda. Se pudesse, voltaria no tempo e passaria o feriado inteiro colada ao corpo de Eduarda, não se separaria nem durante o banho, só para aproveitar os segundos, os milésimos de tempo disponíveis entre elas.
Ela não quer entupir o celular de Eduarda de mensagens, mas tem tanto a dizer. Nesses momentos de grande preocupação, se arrepende de não ter feito o pedido antes, na estrada, na chácara ou em algum encontro num bar qualquer, de não ter dito casa comigo porque quero passar todos os meus dias ao seu lado. Escrever essas mensagens agora parece desesperado, algo feito no impulso, movido pelo tormento de uma cabeça ansiosa, mas é real, é o coração de Lorena, que, após resolver esperar pelo momento perfeito, se vê arrependido por não ter agido a qualquer momento.
Com a cabeça a milhão e desconcentrada, Lorena até se assusta quando recebe a notificação de um e-mail enviado por Eduarda.
“Lorena Ferette,
Mais nova, conheci a música Em Nome de Deus, do Sérgio Sampaio. Apesar da alusão religiosa, não é uma canção propriamente cristã, dedicada ao culto religioso. Penso que nela o compositor utiliza o imaginário católico-brasileiro para demonstrar a intensidade dolorosa do sentimento experimentado pelo eu lírico, dizendo ‘Sem ser João Batista, você batizou/Meu corpo na crista das ondas do mar/E aí me abriu feito ostra/E colheu minha pérola para Yemanjá’ e ‘Em nome das águas lá de Bom Jesus/Em nome de Deus, me carregue/Me pregue em sua cruz’.
É claro, como toda forma de arte, essa música está sujeita a uma análise subjetiva. Eu a considero uma excelente representação de um tipo de amor no qual uma pessoa, de maneira genuína, sente prazer em se devotar à outra.
Não me entenda mal, por favor! Não estou dizendo que sou uma devota no sentido cego, quase penitencial da palavra; não me ajoelharei no milho caso você peça. Quero dizer que, para mim, é verdadeiramente prazeroso estar à sua disposição, Lorena. Me carregue e me pregue em sua cruz, por favor: sempre que precisar, me peça ajuda para resolver o que aperta o seu coração; me diga o que te incomoda nas pessoas e nas coisas; me conte todos os seus sonhos, as menores e as maiores frustrações, a história do seu livro favorito; me convide para enfrentar o seu pai; me deixe pagar o próximo jantar; e, por último, mas não menos importante, nunca desconsidere o meu convite para dividirmos o mesmo teto. A sua presença sempre será bem-vinda em todas as partes da minha vida, aconteça o que acontecer.
Com muito, muito amor,
Um e-mail programado da sua namorada (Eduarda Fragoso).”
A mensagem acalma o coração de Lorena imediatamente, lhe põe um sorriso no rosto. Sem pestanejar, ela abre o reprodutor de música do telefone e procura pela música citada por Eduarda. Os versos “Eu nunca pensei que pudesse querer/Alguma mulher como quero você” abrem a canção, trazendo para Lorena o cheiro do corpo e a sensação do toque de Eduarda.
Empolgada, ela abre o notebook, cria um documento e começa a escrever a resposta.
“Duda, meu amor,
Te farei uma série de confissões desvairadas, motivadas, em primeiro lugar, pelo meu sono e sua decorrente inconsequência e, em segundo lugar, pelos irremediáveis efeitos da ansiedade no meu corpo.
Honestamente, não sei como numerá-las. Já usei “primeiro”, o que me estressa; pensei em utilizar a classificação alfabética, mas considero uma escolha antiestética, então acho que esta pode ser a minha primeira confissão: não gosto de repetir palavras de um parágrafo para o outro. Sei que, gramaticalmente, não é um crime. De um parágrafo para o outro, a utilização da mesma palavra em nada altera a riqueza do texto — tanto que acabei de repetir ‘parágrafo’ e ‘palavra’ sem grandes prejuízos. Na verdade, na ausência de sinônimos que me agradem, a repetição é quase inevitável. No entanto, nada me acalanta, fico mesmo incomodada, de forma semelhante ao incômodo de não te ter por perto neste instante. Gostaria que você estivesse aqui, testemunhando a elaboração da minha resposta, exalando Eduarda por todos os poros, mas o que posso fazer a respeito disso? Nada. Me resta a frustração de namorar uma mulher que, livre para decidir sobre a própria vida, resolveu arriscá-la diariamente.
Confesso, em segundo lugar, que amei a interpretação que você deu a esses versos da música. De forma geral, amo a sua visão sobre as coisas e a delicadeza racional dos seus pensamentos. Para mim, é uma prova de que você presta atenção e pensa a respeito das coisas que escuta e vê, absorvendo-as e devolvendo-as mastigadas — à sua maneira — para o mundo. Coincidentemente ou não, esse também parece ser o seu jeito de amar: prestando atenção, observando, notando os detalhes. Isso nos leva à terceira confissão, que é cheia de coisas que eu gostaria de te dizer pessoalmente, mas sempre tenho dificuldade em colocar para fora. Você sabe, meu amor, a maioria das coisas acerca da minha família é impalatável. Quando as mastigo e — finalmente — engulo, prefiro manter assim, colaborar para a manutenção do status quo do meu intestino, deixar a angústia gerada por eles azeitar as paredes do meu estômago. Não a coloco para fora, nunca tive coragem de cuspi-la sozinha e, na ausência de alguém disposto a me ajudar, resolvi conviver com essa dolorosa azia. As pessoas conhecem a superficialidade do absurdo: meu pai é homofóbico e me expulsou de casa. Esse, por si só, é um detalhe doloroso. Não preciso me debruçar sobre o assunto para que os curiosos entendam que dói. E dói mesmo (mais uma irritante reprodução), mas, para mim, foi só a cereja do bolo. Ele já me disse coisas piores, que me fizeram desejar fins mais trágicos do que ser expulsa de casa.
Por algum tempo, pensei que estava à margem dele, mas a verdade é que, às avessas, sempre fui o centro das atenções. O problema é que o Senhor Comendador Rei Imperador General Santiago Ferette, por ser moldado para agradar a opinião pública, prestava atenção em cada detalhe da fachada da minha existência, mas nunca buscava o que estava — e permanece — atrás dos meus olhos.
Nem ele nem ninguém.
Então te confesso, porque te amo, que não sei ser vista. Ao seu lado, é fácil contar sobre os meus planos — e o faço com facilidade —, mas me deleitar na abertura do seu coração parece um abuso, falta de educação com o tempo alheio. E eu reforço: só te digo isso porque te amo (repetição!) e confio profundamente no seu caráter e na sua dedicação. Também por acreditar nessas coisas digo que, desde que te conheci, a radicalidade das minhas conclusões foi reduzida à boa vontade do meu espírito. Há dias em que me preocupo com os perigos disso, me questiono se, de certa forma, estou abrindo mão de mim para te abrigar no meu peito, aterrorizada com a possibilidade de cometer os mesmos erros que a minha mãe ao seu lado. Sei que só me assusto com isso porque passei a vida inteira procurando fugir das masmorras vigiadas pelo meu pai e, simultaneamente, considero esse medo dos ideais românticos uma forma inteligente de me manter sã. Posso contar com você para o que der e vier, mas confesso, em quarto lugar: me aterrorizo com a ideia de me entregar a essa certeza e, do dia para a noite, acabar sozinha e desamparada. Mas ao lado de toda essa minha medrosa racionalidade, resiste o acelerar do meu coração quando te procuro numa multidão, ou espero por você no interior de um bar, vigiando a porta, desejando que a próxima pessoa a entrar seja a minha namorada, ou quando estamos em silêncio juntas, cada uma no próprio canto enquanto ocupamos o mesmo espaço. Há algo nos seus olhos que me faz acreditar em cada uma das suas palavras, que me deixa segura para crer que poderíamos começar a morar juntas amanhã e você não se importaria em pagar todas as contas da casa e os meus luxos e as nossas saídas e os meus livros e as minhas roupas e tudo que eu desejar. Sei que você me ama, sei que há verdade em todas as suas palavras — e te digo isso para que você saiba: se ainda não moramos juntas, é porque não consigo mesmo me colocar, de forma tão materialmente semelhante, na mesma posição em que a minha mãe esteve ao longo da vida. Sou incapaz de depender assim de outra pessoa, Eduarda.
Há muitos seis nesse parágrafo. Repeti muitas palavras. Não gosto disso, mas estou com sono e descafeinada, além de preocupada demais com o amor da minha vida para conseguir fazer qualquer outra coisa. Por favor, volte viva para casa, me mande uma mensagem, me faça um telefonema e eu te direi, com calma e em detalhe, que não me importo com o conforto material que você pode ou não me oferecer agora. Só quero que você esteja de pé para me abraçar, me beijar e dizer que também me ama — porque eu te amo muito. Devote-se a mim permanecendo ao meu lado, Eduarda.
Com todo o carinho do mundo,
Lorena.”
O recado de Eduarda chega pelo número de telefone de Paulinho: estou viva, meu celular descarregou, te encontro em uma hora na galeria.
Ainda de manhã, antes dos outros moradores acordarem, Lorena se sentou ao lado da porta para escutar a chegada de Eduarda sem que ela precisasse tocar a campainha, para não correr o risco de despertar alguém. Entre esses e outros, morar de favor a fez adquirir hábitos anteriormente inimagináveis.
Os dois toques do outro lado da porta anunciam a chegada do amor, de cabelo molhado e cheirando a sabonete. As olheiras fundas compõem o semblante cansado e — estranhamente — ainda mais atrativo de Eduarda. Ao vê-la, o sorriso no rosto de Lorena é instantâneo, vem sem aviso prévio, surge porque, na presença de Eduarda, faz-se inevitável.
Antes de deixá-la entrar, Lorena se joga nos braços de Eduarda. O alívio após uma noite de angústia, a bonança depois da tempestade. Se esconde no pescoço de Eduarda e ali se deleita, respira fundo, se entorpece do cheiro da mulher por quem, com muita facilidade, se apaixonou.
— Bom dia, meu amor — diz Lorena. — Passei a noite inteira esperando esse abraço.
— Eu imaginei. Li o seu e-mail depois de carregar o meu celular. Desculpa não ter te dado notícia ontem à noite, Lorena, não podia me concentrar em outra coisa e...
— Tá tudo bem, Duda, é o seu trabalho.
Lorena desfaz o abraço, coloca o rosto de Eduarda entre as mãos e o beija inteiro.
— Vem, nós duas precisamos dormir um pouco.
No quarto de Lorena, da maneira mais pura, são só elas. Eduarda veste um dos pijamas de Lorena, mas antes de se deitar, tira um objeto envelopado em papel de presente de sua bolsa.
— O que é? — pergunta Lorena.
— Olha, tudo bem se você achar uma ideia ruim, mas gostei da nossa troca de e-mails. O que você disse me fez pensar que algumas coisas realmente são mais fáceis de escrever do que de falar, então comprei isso. Abre.
Com cuidado, Lorena desembrulha o papel colorido. Dentro dele, uma capa de couro marrom protege as folhas amareladas de um caderno.
— Eu quero ter registros do nosso amor, Lorena. A vida... as coisas acontecem muito rápido. Não quero te assustar com esse papo, mas você tem razão, escolho me arriscar todos os dias durante o trabalho e preciso que você saiba que te amo em todos os segundos da minha vida. Quero que você tenha isso guardado em algum lugar. Então comprei esse caderno e já deixei um bilhete na primeira página. Mas não lê agora! Não na minha frente — diz Eduarda. — A ideia é que você escreva uma coisa, depois eu, depois você e daí em diante.
Duda, Lorena sussurra, incapaz de produzir qualquer outro som, quem dirá uma outra palavra.
Para ela, o amor está nos significados, nas ações e omissões das pessoas. Lorena não quer que Eduarda pague por jantares, lhe dê abrigo, que comprove a dedicação ao amor delas com o que tem a oferecer, porque, em verdade, foram essas regalias que lhe torturaram nas mãos de Santiago.
O caderno em suas mãos, por guardar a caligrafia delicada de Eduarda, tem mais valor do que qualquer uma de suas roupas. Há amor nele. Acabou de recebê-lo e, num incêndio, o salvaria junto com seus documentos. As lágrimas acumuladas em seus olhos são a comprovação de que, em seu coração, é essa a verdade.
— Gostou? — questiona Eduarda.
— Eu amei — responde Lorena.
Mais tarde, com Eduarda adormecida ao seu lado, Lorena lê o primeiro bilhete e escreve o que deixará gravado para a namorada.
Após seis meses trabalhando à noite no bar, Lorena finalmente consegue juntar dinheiro para pagar o que queria.
Ela vai escondida à joalheria, não conta nem a Maggye, que também não saberia disfarçar se encontrasse Eduarda antes que Lorena pudesse colocar o próprio plano em prática.
Resolveram morar juntas assim que Lorena conseguiu ser contratada como garçonete, sob a condição — imposta por Lorena — de dividirem as contas do apartamento de Eduarda.
É óbvio, a desproporcionalidade dos salários fez com que Eduarda advogasse por uma divisão equitativa das contas, coisa que deixou Lorena responsável pela mensalidade do plano de internet enquanto Eduarda banca... o resto.
Por vontade do destino, a última página do caderno comprado por Eduarda está à disposição de Lorena justamente hoje. Ela escreveu o recado antes de sair para trabalhar, revelou suas fotos favoritas de Eduarda e delas duas, comprou o chocolate favorito da namorada e, por fim, aguarda a atendente da joalheria para receber as alianças no balcão.
Gravada nelas está a data do dia em que se conheceram, no jantar da galeria.
Por vontade de Lorena, elas se encontram no mesmo restaurante em que o pedido de namoro aconteceu.
— O que você aprontou, ein, Lorena Ferette? — Eduarda pergunta no carro, a caminho do jantar.
— Eu? Nada. Não aprontei nada, só tô te olhando.
Eduarda sorri de lado.
— Você mente muito mal, Lorena.
Durante o jantar, o nervosismo impede a execução dos planos de Lorena. Nenhum momento parecer ser o certo e, quando ela finalmente junta coragem para dizer casa comigo, o garçom aparece com a conta, impedindo-a de proferir as palavras. A caminho de casa, no carro, ela fica em silêncio, pensando em como fará o pedido. Pode ser no quarto, na sala. Pode ser depois do banho, porque a primeira coisa que Eduarda faz ao chegar em casa é entrar debaixo do chuveiro. Não pode enrolar e deixar para a hora de dormir, porque estarão cansadas, Eduarda estará cansada e não quer que algo especial se transforme num sonífero para o dia seguinte.
Absorta em seus pensamentos, Lorena só se dá conta do estado de agonia em que colocou Eduarda quando finalmente chegam em casa.
— Lorena, você quer conversar sobre alguma coisa? — pergunta Eduarda. — Você tá meio estranha desde hoje de manhã e eu até pensei que pudesse ser algo relacionado ao trabalho, mas você não disse nada durante o jantar... E eu também estranhei porque você não deixou o último bilhete daquele caderno hoje de manhã.
Eduarda diz a última parte baixinho, como quem está envergonhada.
É inevitável, o passar do tempo diminui as borboletas nos estômagos dos amantes. O cotidiano, em especial quando há amor transbordando, traz segurança demais para que elas sobrevivam, foram feitas para a instabilidade da paixão.
No entanto, em momentos como este, nos quais Lorena sabe que está diante de uma versão exclusiva de Eduarda, elas voltam, não mais alimentadas pela fervura do desconhecido; aqui caminham soltas num percurso familiar, comum para o bater das asas.
Sem pestanejar, Lorena se aproxima, ata Eduarda ao próprio corpo, respira o perfume e, nesse ato, acalma a si mesma e a namorada.
— Eu tenho um presente pra você, Duda — diz. Ela se afasta para primeiro pegar o caderno. — Lê a última página.
“Meu amor,
‘Un coup de dés jamais n'abolira le hasard.’
Eu me desentendo com as promessas, em especial com as que preciso cumprir no decurso do tempo, estão sujeitas às mudanças da vida, e às que independem de mim. Não posso prometer que serei a mesma Lorena de hoje daqui a dez anos, nem que a chuva cairá amanhã, por mais que a meteorologia afirme com noventa e nove por cento de certeza que as nuvens trarão tempestades para São Paulo.
No balaio desse desentendimento, não as faço em nenhum contexto — não gosto de sujeitar as pessoas a mim, pendurando no meu corpo o alvo das expectativas alheias. Entretanto, ‘desde que te conheci, a radicalidade das minhas conclusões foi reduzida à boa vontade do meu espírito’. Para você, Eduarda, eu faço promessas, porque, ao longo dos últimos meses, em cada folha deste caderno, minha escrita se misturou a sua: há um pouco da sua letra e da sua prosa em tudo que eu escrevo. Seu cheiro está nas minhas roupas, na nossa cama, e as músicas das suas playlistas se misturam às minhas nas retrospectivas mensais.
A você faço promessas porque há um êxtase que só alcanço ao te ver antes de dormir e de despertar. Nos momentos em que posso observar e decorar cada detalhe do seu rosto, parece que é esse o meu dever na Terra: te contemplar, mantendo-me sedenta e contida, te amar, sonhar acordada ao seu lado. É o que quero fazer para o resto dos meus dias.
A sua chegada foi anunciada, Eduarda. Tenho a impressão de que nada que eu fizesse ao longo da vida impediria o meu destino de se unir ao seu — o acaso, essa rota descontrolada que, mesmo assim, chega a algum lugar, se não tivéssemos nos encontrado naquele jantar, eventualmente colocaria minha lápide ao lado da sua. Viveríamos nossos amores e aventuras, conheceríamos outras mulheres, enfrentaríamos diferentes problemas — ou os mesmos problemas em instâncias distintas — e nos tornaríamos pó no mesmo solo. Seríamos amantes em espírito. Como tive a sorte de te encontrar em vida, posso ser sua amante também na carne. Prometo estar ao seu lado nos dias ruins e nos bons; nas manhãs de tristeza e de alegria; entre amigos e familiares e sozinha. Prometo segurar a sua mão enfeita de aliança em todas as ruas deste país, em ‘músculo, carne e osso, pele e cor’. Nas linhas dessa promessa, deixo o coração dizer que, antes de te conhecer, esteve faminto por você e que, hoje, saciado dos seus atos amorosos e luxuriosos, sente sede por tudo que vem depois. Para além de um altar ou de um cartório e da juventude que nos ajuda a sustentar o cansaço, quem serei eu e quem seremos nós daqui a vinte anos? Mantenho-me curiosa para descobrir, porque é você.
Casa comigo?”
