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É normal que crianças tenham pesadelos. Ainda mais crianças tão inteligentes e maduras quanto Jason. Em especial aquelas que tem problemas, seja na escola ou em casa, o que também é o caso de Jason.
Quer dizer, não ter amigos na escola e morar junto com pais que não se amam não é lá muito benéfico para a mente de uma criança.
Não eram pesadelos muito específicos. Ele mal se lembrava deles ao acordar, para ser bem sincero. Mesmo assim, era difícil pegar no sono novamente, assustado e ansioso, encarando o teto de seu quarto.
Nesses casos, ele ia, bem devagar, até o quarto de seus pais.
Às vezes ele acordava Trina. Ela invariavelmente acordava em um salto, o que parece ser típico de mães por alguma razão. Ao notar a presença do filho, entretanto, sua feição se suavizava, ela acariciava seu rosto perguntando o que havia ocorrido e o consolava. Então ele contava que não estava conseguindo dormir, e ela dizia para o pequeno se acomodar entre Marvin e ela.
Era sempre muito apertado e faltava espaço na cama, projetada para duas pessoas e não três, mas era um calor reconfortante que Jason gostava. Quando eles acordavam, era uma cena familiar e doce, coisa que a criança passou a apreciar quanto mais raros aqueles momentos iam ficando.
Por outro lado, haviam vezes em que ele escolhia acordar seu pai. Não era a maior parte das vezes, mas quando via que sua mãe estava muito cansada ou tinha que acordar cedo no dia seguinte, optava por deixá-la dormir.
Marvin reagia de um jeito diferente de Trina. Ele acordava devagar, se espreguiçava e, com a voz terrivelmente sonolenta, perguntava o que havia acontecido. Após contar sua dificuldade em pegar no sono sozinho, Marvin dava um beijo na testa do filho e se levantava da cama, em direção ao quarto de Jason.
Era mais confortável e um dos raros momentos de afeto que Marvin o proporcionava. Eles trocavam algumas palavras sobre o pesadelo, normalmente em uma tentativa de racionalizar os medos do garoto para que ele percebece que não havia perigo nenhum, e então ele dormia, com os cabelos sendo acariciados por seu pai.
Jason nunca saberia, mas Marvin secretamente gostava que ele o tirasse da cama. Era uma ótima maneira de dormir em qualquer lugar que não fosse a cama que Marvin dividia com a mulher que ele não amava.
Era uma mistura de culpa, repulsa, aversão ao toque e muitos outros sentimentos que ele não sabia nomear. Só queria manter distância daquele corpo que ele, apesar de tanto esforço, não conseguia sentir atração.
Então era uma das primeiras vezes que Jason dormia na nova casa de seu pai, agora divorciado e morando com outro homem.
Ele nem sabia que homens podiam sentir atração por outros homens. Quando viu isso em um livro pela primeira vez, questionou seu pai sobre e ele respondeu, meio tímido "é, bem, sim, às vezes acontece". Não achando a resposta satisfatória, perguntou a sua mãe que disse algo como "Bem, filho. Alguns homens se apaixonam por outros homens e algumas mulheres se apaixonam por outras mulheres. É normal, apesar de não ser tão comum." Mas nessa época ela ainda não sabia que seu próprio marido era homossexual e transava com rapazes no banheiro de um bar, então talvez ela tenha mudado um pouco de discurso.
Jason não sabia direito o que gays faziam no dia a dia. Pelo que sua mãe murmurava, andando pela casa inquieta, parecia que gays eram seres promíscuos que roubavam maridos alheios. Perdoe-a, ela estava com muita raiva, ela não pensa assim realmente.
Mas aparentemente Whizzer era uma boa pessoa. Sim, talvez um pouco sem-vergonha, fazendo piadas que Jason não entendia, mas pelo contexto e pela reação de seu pai, pareciam ter duplo sentido. Whizzer gostava de beisebol, o que era um ponto positivo, e fazia uma comida não muito boa que Marvin reclamou o jantar inteiro, que rendeu conversas engraçadas entre os três.
O quarto que Jason dormiria não era tão confortável quanto o da casa de sua mãe, mas os dois garantiram que comprariam algo melhor assim que tivessem a chance.
Ele não consegue dormir. É um quarto novo, em uma casa nova, o que o deixa meio ansioso. Ele é muito rígido com mudanças.
Na pontinha dos pés, ele caminha para o quarto de seu pai e do outro cara. Talvez a presença de seu pai, em meio àquele monte de mudanças, o acalmasse.
Quando ele abre a porta, encontra os dois dormindo profundamente. Whizzer quase monopolizando as cobertas, enquanto Marvin o abraçava tão fortemente que parecia ter medo que ele desaparecesse se não o fizesse. Ele nunca dormia assim com Trina.
Ele chacoalha seu pai, devagar. Só escuta um "Whizz, agora não" sendo resmungando. Ri, depois retoma suas tentativas, sussurrando um "É o Jason, seu filho". Ele abre os olhos, só um pouquinho, sem largar Whizzer, e diz "sobe aqui."
Jason se acomoda entre os dois.
Marvin sorri, parecendo em paz.
Whizzer parece fazer bem a Marvin.
Jason decide que gosta de Whizzer.
