Work Text:
Rose ignorou as restrições dos guardas enquanto andava com pressa pelos corredores da BSAA. Ela não conseguiu surpreender o homem que a esperava em pé próximo à porta de seu escritório, por mais que violentamente quisesse.
— Chris, por que me tirou da missão?
— Você sabe que não pode me chamar assim aqui. Não é mais uma criança, não precisa que eu repita.
Rose bufou, cruzando os braços.
— Certo, Capitão Redfield. — a garota respondeu com desdém. — Então por que me trata como uma? A porcaria de um cabelo branco na sua cabeça não justifica você me subestimar. Você precisa de mim. Todos vocês precisam.
Rose virou e apontou com raiva para os guardas que os cercavam em posição de ataque.
— Sim. Nós precisamos de você. E nós precisamos que você siga as regras. O meu passado com seu pai não afeta em nada minha relação com você. Você ainda faz parte da minha divisão e segue minhas ordens.
— Você não tem o direito de mencionar ele. — a garota cuspiu as palavras, suas feições se contorcendo em ódio. Ela levantou a cabeça, voltando um olhar desafiador a Chris.
— Eu sugiro que aprenda a controlar seu temperamento.
Chris a encarou de volta, espelhando os braços cruzados dela.
— Três snipers estão com a mira na sua cabeça e tirando toda a incapacidade de compreender ordens, não quero perder uma boa agente.
Rose revirou os olhos e se afastou de Chris. — Eu não sou estúpida, Capitão Redfield. Você não me treinou para que eu fosse.
A garota virou e empurrou os soldados com os ombros, enquanto fazia seu caminho para fora do escritório. O som do seus passos ecoando pelos corredores silenciosos da BSAA.
Rose desceu do ônibus, ainda bufando. Ela não acreditava que Chris tinha feito aquilo de novo. Ela sabia que era perfeita para a missão, mas ele a havia dispensado sem nenhuma razão aparente.
A garota tocou a campainha a sua frente, tentando se acalmar.
— Rose? — Claire perguntou. Ela ainda secava as mãos no avental amarrado em sua cintura enquanto abria a porta
— Oi, Claire. Desculpa vir sem avisar. — Rose disse, seus olhos fixos no chão, incapaz de encarar a mulher à sua frente. O peso da impulsividade de suas ações lentamente se ajustando em meio a seus pensamentos.
Claire abriu a porta para a menina e a esperou entrar.
— Você sabe que não precisa avisar. — Claire respondeu. O cabelo castanho avermelhado agora com traços de fios brancos.
Ela entrou sem jeito na casa. Rose gostava de conversar com Claire, mas não sabia se a mulher gostava de escutá-la.
-— O que foi, Rose? Por que essa cara? Chris pegou pesado de novo?
— Mais ou menos. — ela respondeu baixo, sentindo a adrenalina e a raiva deixarem seu sangue.
Claire olhou de relance para a garota. Ela sabia que Rose levava seu treinamento a sério. A menina sempre desejou poder fazer o mesmo que o pai fez para salvá-la, como se precisasse honrar o sacrifício dele.
Claire não conheceu Ethan, mas tinha ouvido a história dos Winters diversas vezes depois que Rose começou a visitar a sua casa anos atrás, primeiro junto a Chris e depois junto a Mia.
Mia não gostava da proximidade que Rose havia criado com os Redfield desde que era menina. Claire acreditava que Mia ainda ressentia a morte do marido e culpava Chris por não tê-lo salvo. Mas ela sabia que Mia gostava de ver Rose feliz e a menina havia se apegado bastante a Chris.
Chris era horrível com crianças. Claire achava irônico que crianças assustavam seu irmão mais que qualquer arma biológica. Não ajudava em nada Rose ser ambas. Mas ele havia se tornado um visitante constante da casa de Claire depois de Rose, e Claire era grata à menina por isso.
Fazia anos que ela não via o irmão devido às missões da BSAA de Chris e suas reuniões da TerraSave. Quando Chris foi designado com a contenção e treinamento de Rose, em troca de que a menina se tornasse uma agente da BSAA no futuro, ele praticamente a jogou nos braços de Claire, já que ela tinha experiência com Sherry e ele não era nenhuma babá.
Rose foi crescendo em ambos os Redfield e Mia passou a vir junto, como um combo. Mia preferia a presença de Claire, mas ainda não confiava nela totalmente. A perda de Ethan havia afetado as duas Winters restantes profundamente e Claire pôde observar a saúde mental de Mia se deteriorando a cada ano que se passava. Depois que Rose se tornou uma agente ativa da BSAA, as coisas pioraram ainda mais.
— E sua mãe, como ela está?
Rose encolheu os ombros, aparentemente desconfortável.
— Ela tá cada vez mais distante. Igual o Chris. Ele não faz mais missões comigo. Sempre que ele precisa intervir, eu tô fora. E eu sinto como se estivesse perdendo os dois. Eu não quero perder mais ninguém depois do papai.
A memória do pai sempre despertava algo dentro de Rose que ela não conseguia controlar. Por mais que ele tivesse se sacrificado antes mesmo dela poder entender o próprio nome, ela sentia que Ethan sempre esteve lá, junto a ela. A vontade de poder abraçá-lo doía. Por mais que ela fosse grata ao sacrifício de Ethan, ela preferia que ele estivesse vivo ao invés dela.
— Desculpa, eu acabei projetando de novo, não foi? — a menina respondeu às pressas ao ver os movimentos circulares de Claire contra a panela pararem repentinamente.
Por mais que Rose tentasse controlar seus poderes, às vezes a menina sentia que eles eram maiores que ela.
— Tudo bem, Rose. Não precisa se sentir culpada.
-—Você acha que é por isso que eles estão se afastando? Por que eles têm medo de mim, do que eu posso fazer?
Claire segurou gentilmente o braço de Rose e a puxou para sentar junto a ela em frente à bancada da cozinha.
— Sua mãe está com saudades de você mais do que nunca. Você sabe que é a coisa mais preciosa pra ela, Rose. Mia tem medo de te perder. — Claire acalentou a garota, acariciando seus cabelos. — Enquanto ao Chris eu não acho que ele ficaria muito satisfeito se eu falasse por ele. Acho que você mesma deveria conversar com meu irmão. Se acha que ele está fazendo algo injusto, você tem todo o direito de reinvidicar sua posição como agente.
— Eu já tentei isso, mas ele não me escuta. — Rose respondeu, soltando uma respiração pesada, como se quisesse expurgar a frustração de seu corpo.
— Você já tentou ser mais sincera e menos agressiva? — Claire sugeriu, erguendo uma sobrancelha. Um sorriso brincalhão adornava seus lábios, suavizando as palavras dura, mesmo que um pouco. — Eu sei que meu irmão parece duro e frio. Quase um monumento de conservação de toda a moralidade às vezes, mas ele tem sentimentos.
Rose percebeu que Claire havia parado de falar com ela e seguiu o olhar da mulher. Ela se levantou com pressa quando viu Chris parado na porta de Claire, ainda de uniforme.
— Você ainda está em serviço. Uma das regras, caso tenha esquecido, é que você só sai da BSAA depois que eu ordenar.
— Boa tarde pra você também, Chris. — Claire interviu, recebendo um olhar reprovador do irmão. Ela riu e deu um leve tapa nas costas de Rose, encorajando a garota a seguir Chris.
Antes que eles saíssem, Claire sussurrou um Seja legal, Chris. Ela sabia que por baixo do agente ainda existia seu irmão e sentia falta dele. Talvez Rose pudesse recuperá-lo de algum jeito.
Rose sentou ao lado de Chris no carro blindado e colocou o cinto sem olhar para o homem.
— Me impressiona que Chris Redfield em pessoa tenha se dado ao trabalho de vir me buscar.
— Me impressiona que você foi realmente para outro lugar dessa vez. Seria bem mais fácil se tivesse ido visitar Ethan como sempre. Teria me poupado o trabalho.
A menção do pai fez Rose olhar séria para Chris.
— Por que quando estou com você é tudo sobre meu pai? — ela indagou.
O silêncio preencheu o carro por longos minutos.
— Você parece demais com ele. — ele disse.
A sinceridade de Chris assustou Rose. Ela esperava que ele mudasse o tópico da conversa ou desse mais alguma lição sobre seguir ordens e permanecer em silêncio.
— Eu ainda me sinto culpado, Rose. Era para ter sido vocês dois naquele dia. Você acha que eu não sei que a Mia ainda me culpa por isso? Eu não quero que você morra sob as minhas ordens também. — Chris passou a mão no rosto enrugado. Seus 67 anos finalmente pesando sobre seus ombros.
— Não foi sua culpa, Chris. Foi uma escolha dele. Sabe que eu ainda sinto a presença dele no mofo, não é? Às vezes é como se ele falasse comigo. Desde pequena ele sempre me diz para ser forte. E foi isso que você fez, você me fez forte.
Rose queria tocar o ombro de Chris, mas a autoridade que o homem exalava a impedia. Ela podia sentir o arrependimento e o cansaço dele. Seus poderes de controle mental a deixavam sensível às emoções dos outros, como se eles procurassem a menor vulnerabilidade para se infiltrar. Rose odiava aquilo.
Com mofo ou sem mofo, ela conhecia Chris há anos e sabia que ele ainda estava processando o luto de Ethan. Mesmo depois de vinte anos.
— Você não me treinaria para morrer, Chris. Eu confio em você, como meu superior e como amigo.
— Você definitivamente puxou à Claire. — um sorriso melancólico pintou o rosto de Chris, mas Rose conseguia sentir o afeto em suas palavras.
Rose sorriu de volta e virou para a frente, enquanto Chris virava a chave na ignição.
— E aí, vai me colocar de volta na missão, Capitão?
— Quem sabe na próxima? — Chris riu, enquanto assistia Rose se contorcendo para iniciar mais uma discussão.
Ele confiava nela, não tinha dúvidas daquilo. Ele só queria que ela tivesse uma vida normal. E quanto mais ele pudesse adiar as participações dela nas missões da BSAA, mais ele faria. Ele não poderia perdê-la. Ele não conseguiria suportar a culpa.
