Chapter Text
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Parte I: O começo
“Deus te ama, mas não o suficiente para lhe salvar
Então, garotinha, boa sorte tomando conta de si mesma”
— Sun Bleached Flies, Ethel Cain.
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MAISIE CLARKE NÃO GOSTAVA de pensar em sua vida antes do acampamento meio-sangue, antes dos deuses, dos monstros e das profecias. Lembrar de tudo era muito doloroso, não porque sua vida antes havia sido ruim, muito pelo contrário, o motivo da dor resultava exatamente de todas as coisas que ela havia deixado para trás. Seu pai, seus amigos, sua avó. Todos os pequenos pedaços e pilares de sua vida antiga haviam sido desmontados e realocados em lugares que ela não reconhecia, lugares que não lhe cabiam mais.
Mas esse era o fardo de ser um semideus, poucos conquistavam o privilégio de uma vida dupla, uma vida em que seu lado mortal também havia espaço para ser ocupado sem ameaçar a vida daqueles a sua volta. Ela se lembrava da primeira vez em que os monstros apareceram, de como o seu pai acreditava que ela estava ficando louca igual à mãe, e de como as visitas às clínicas se tornaram cada vez mais frequentes, até o momento em que se tornaram permanentes.
Maisie sabia que William não havia agido por mal. Ela ainda via o olhar arrependido e as olheiras profundas dele no dia em que voltou para buscá-la, acompanhado por um jovem estranho que logo ela descobriria ser um sátiro, encarregado de guiá-la até o acampamento. William Clarke era um homem bom em um mundo que derrubava aqueles que se atreviam a sentir demais. Ele a criou e a amou, sem jamais tratá-la de forma diferente por não compartilharem o mesmo sangue. Maisie se recusava a tirar mais daquele homem. Mas os deuses não pedem permissão antes de tomar algo para si.
Tudo havia começado anos antes. Sarah Clark conheceu o deus do sol em um momento complexo de sua vida. William havia sido seu companheiro por todos aqueles anos, do ensino médio a faculdade até a vida adulta, mas Sarah queria ver o mundo. Sentindo que havia perdido quem realmente era, deixou seu anel de noivado para trás e embarcou em uma aventura, passando de lugar em lugar com seu violão e seus charmes. O que Sarah e Apolo tiveram não foi amor verdadeiro, a coisa toda não havia passado de alguns dias, o verdadeiro amor de Sarah veio a nascer nove meses depois. . Apavorada e com uma criança divina nos braços, ela encontrou em William o seu caminho de volta. Sem hesitação ou julgamento, ele havia aceitado a responsabilidade, havia aceitado a mulher que ele havia amado por todos aqueles anos de volta e havia aceitado a criança que ela carregava.
Maisie ainda se lembra do cantarolar de sua mãe, de sua voz suave e das risadas que ambos compartilhavam na cozinha. Mas ela também se lembrava dos hospitais. A garota não conseguia deixar de sentir que tudo era muito injusto, o quão pouco tempo ela tinha tido com a mãe, antes da doença levar o resto de sua sanidade e então sua vida.
O dia em que Sarah Clarke morreu ainda estava fresco nas memórias da filha. Se perguntassem a Maisie, ela diria que tudo havia acontecido ontem. Doenças degenerativas podiam ser tão violentas e trágicas quanto qualquer história grega ou maldição divina e ensinou a garota a não confiar no tempo que se acredita ter garantido. Sarah havia usado o resto de suas forças para dar à sua filha uma última lembrança feliz e por isso ela sempre seria grata à mãe. A frustração, no entanto, andava de mãos dadas com a gratidão. Ela desejava ter sido preparada. Desejava que a mãe tivesse revelado sobre os perigos que lhe aguardavam. Ela sabia que a mulher havia tentado, no entanto, suas palavras haviam sido consideradas apenas delírios febris aos olhos dos médicos. Porém, a tentativa de mantê-la na ignorância apenas garantiu que o impacto contra a realidade fosse devastador.
Quando Maisie chegou ao acampamento, não havia barreira mágica ou proteção divina. Todos os dias pareciam um episódio ruim de um programa de TV de sobrevivência. Nem todos conseguiram sobreviver. E os monstros, os pesadelos, e o peso da vida, não pareciam querer trégua.
Até o dia em que eles chegaram.
Maisie nunca chegou a conhecer a filha de Zeus. A garota proibida, que havia sacrificado tanto para que os amigos estivessem seguros. Mas a filha de Apolo sabia que era por causa dela que agora eles estão seguros, que por causa dela o acampamento havia virado um lar e que por causa dela, Luke Castellan havia entrado em sua vida.
Ela ainda havia de descobrir que nem tudo que parecia uma bênção era de fato uma.
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