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O MARIDO DO LORDE BLACK

Summary:

No Expresso de Hogwarts, entre malas elegantes e olhares curiosos, dois mundos colidem pela primeira vez.

Sirius Orion Black — herdeiro de uma das famílias mais ricas e tradicionais do mundo bruxo — sempre teve tudo: beleza, status e a certeza de que o mundo se dobraria à sua vontade.

Severus Tobias Snape não tinha nada disso.

Criado à margem do luxo que observava de longe, Severus aprendeu cedo que desejar não basta — é preciso conquistar. Frio, observador e ambicioso, ele não se impressiona com o nome Black, mesmo quando Sirius decide, naquele primeiro encontro, que o quer.

E Sirius Black sempre consegue o que quer. Ou pelo menos, é o que acredita.

Entre provocações, jogos perigosos e uma atração crescente, os anos em Hogwarts moldam algo mais complexo que um simples capricho. Enquanto Sirius insiste em possuir, Severus aprende a dominar.

Ou

Onde Severus e Sirius se casam e enquanto o famoso mestre de poções Príncipe Mestiço assume o manto de Lorde Black, Sirius só quer continuar sendo a criatura mimada que nasceu para ser, ou seja, o marido troféu do Lorde Black.

Notes:

Bem, tive uma conversa interessante em um grupo do discord que eu estou sobre Jeverus ( onde basicamente shippamos todo mundo com Sevvy) e eu acabei perguntando aleatoriamente se Severus e Sirius se casassem eles trocariam os sobrenomes já que eles odeiam os deles por motivos diferentes. De qualquer forma, acabamos com Sirius e Severus se casando com James e virando um grande caos, mas decidi mudar essa parte KAKAK.

Todo o carinho do meu coração para a minha amiga/o virtual @00_helel por ter respondido as minhas ideias loucas no discord a ponto de me inspirar para isso

A ideia incial era uma fanfic curta de no maximo dois capitulos que eu postaria de uma vez, mas como sempre eu perdi o controle!

De toda forma, como uma conversa de, talvez, vinte minutos se tornou uma fanfic de quase 45 mil palavras? Bem, nós nunca saberemos...

Espero que vocês gostem, porque pretendo postar um capitulo por dia (por uma vez na eternidade já está tudo finalizado) enquanto trabalho no proximo capitulo de Alfa Maroto.

Aproveitem!!

Chapter 1: 0.1

Chapter Text

Na primeira vez que Severus Tobias Snape e Sirius Orion Black se encontram, não houve nada de discreto nisso — pelo menos, não para Sirius. Para o resto do compartimento, é apenas mais um garoto magro entrando com roupas simples demais para aquele tipo de viagem, carregando uma mala gasta e um olhar atento demais para alguém de onze anos; mas Sirius não vê pobreza, não vê inadequação, não vê sequer o contraste gritante entre aquele garoto e tudo o que ele próprio representa — ele vê perfeição, crua e inesperada, como uma dessas explosões estelares que ele ouvira os adultos mencionarem em conversas entediantes: raras, violentas, impossíveis de ignorar. Os olhos de Severus eram tão escuros... de um jeito que não refletiam quase nenhuma luz, que pareciam simplesmente absorvê-la, e dentro deles existia algo que Sirius reconheceu quase imediatamente, algo que o fez inclinar levemente a cabeça, interessado — ambição, pura e afiada, o tipo de coisa que não deveria existir tão claramente em uma criança, mas que ainda assim pulsa ali, viva, promissora, digna, em sua mente já moldada pelo orgulho da linhagem Black, de um consorte à altura.

Sirius cresceu tendo tudo o que quis, e isso nunca foi questionado — não quando chorou até ganhar um presente que nem sabia nomear, não quando decidiu que queria um irmão apenas porque as primas sempre tinham com quem brincar, não quando exigiu atenção, espaço, devoção; o mundo, até então, sempre se curvou, ainda que com relutância ocasional, e isso construiu nele uma certeza silenciosa, inabalável, de que querer é o mesmo que possuir, de que desejar algo é o primeiro passo inevitável para tê-lo. Então, quando Severus Snape entra naquele compartimento e hesita por um segundo antes de escolher um assento — um único segundo, mas suficiente para Sirius perceber cada detalhe, cada microexpressão, cada cálculo — a decisão já está tomada antes mesmo de qualquer palavra ser dita: aquele garoto será dele.

— Você pode se sentar — Sirius diz, como se estivesse concedendo algo, a voz leve, quase entediada, mas os olhos cinzentos fixos demais, atentos demais, brilhando com um interesse que raramente se permite demonstrar tão abertamente.

Severus o observa por um instante mais longo do que o esperado, avaliando, medindo, e há algo naquele olhar que não recua, que não se intimida com o corte impecável das roupas de Sirius, com a postura naturalmente altiva, com o nome que ainda não foi dito, mas que já pesa no ar; é irritante, um pouco, o modo como ele não parece impressionado, como se estivesse acostumado a analisar e descartar antes mesmo de considerar.

Severus está prestes a se sentar quando hesita — não por dúvida, mas por escolha — e, ao invés de simplesmente aceitar o lugar, ele se inclina levemente para trás, girando o corpo na direção do corredor, como se Sirius deixasse de ser o centro imediato de sua atenção no mesmo instante em que outra prioridade se impõe; é um movimento pequeno, quase banal para qualquer observador desatento, mas para Sirius, que já o observa com um foco quase predatório, aquilo soa como uma ruptura inesperada na ordem natural das coisas.

— Lily — Severus chama, a voz baixa, mas firme o suficiente para atravessar o burburinho do trem — encontrei um vagão.

A garota aparece quase de imediato, como se já estivesse por perto, e há algo na forma como ela se aproxima — direta, confortável, sem qualquer hesitação — que estabelece, sem necessidade de explicação, que ela pertence àquele espaço ao redor de Severus muito antes de Sirius sequer ter sido considerado. Lily Evans entra no compartimento com curiosidade viva nos olhos, avaliando rapidamente o ambiente, as pessoas, e por um segundo seu olhar cruza com o de Sirius, reconhecendo ali algo que ela ainda não nomeia, mas não se detém; é Severus quem recebe sua atenção completa, e ele, por sua vez, inclina-se levemente em sua direção, diminuindo a distância entre os dois de forma natural, quase instintiva, murmurando algo que não chega aos ouvidos de mais ninguém. Sirius vê o movimento, vê a proximidade, vê o modo como a resposta dela vem rápida, interessada — e algo nele se contrai.

Não é um sentimento ao qual ele esteja acostumado.

Porque Sirius Black nunca precisou disputar atenção.

E, no entanto, ali está ele, assistindo enquanto Severus Snape — o garoto que ele decidiu, sem qualquer margem para contestação, que seria seu — direciona palavras, olhares e pequenos gestos para outra pessoa, como se aquilo fosse perfeitamente aceitável.

Como se Sirius não estivesse ali.

Severus ainda não havia se sentado completamente quando Lily Evans se jogou ao lado dele no compartimento, e, dessa vez, ele não hesita em ocupar o lugar ao lado dela, como se aquele espaço tivesse sido, desde o início, destinado aos dois; há uma naturalidade na forma como se acomodam, ombro quase roçando em ombro, que fala de uma intimidade já construída, de conversas anteriores, de um vínculo que não precisa ser apresentado — e, ainda assim, será. Porque agora há outros ali.

Por um breve momento, o silêncio se instala, não desconfortável, mas expectante, como se todos estivessem, de alguma forma, conscientes de que aquele pequeno grupo improvisado está prestes a se definir.

É Lily quem quebra primeiro.

— Eu sou Lily Evans! — ela diz, com um sorriso aberto, direto, o tipo de simpatia que não pede permissão para existir — Eu sou nascida trouxa. Espero que não se importem com isso.

Ela não hesita ao dizer isso, não suaviza, não mede a reação dos outros antes de assumir o que é, e há uma firmeza sutil em sua voz que deixa claro que não há vergonha alguma ali, apenas verdade. Seus olhos passam de rosto em rosto, curiosos, atentos, e quando ela se inclina levemente na direção de Severus, é quase como um convite silencioso.

— Severus Snape — ele completa, a voz mais contida, mais baixa, mas não menos segura — mestiço.

Não há explicação além disso, nenhuma tentativa de elaborar ou justificar; Severus oferece apenas o essencial, como se cada palavra fosse escolhida com cuidado, como se não houvesse necessidade de dar mais do que aquilo que considera suficiente. Ainda assim, seus olhos percorrem os outros no compartimento, observando reações, registrando detalhes — aprendendo.

— Remus Lupin — o garoto de aparência mais tranquila diz em seguida, com um leve aceno de cabeça, como se não quisesse interromper demais o fluxo natural das coisas — também mestiço.

Há algo discreto nele, quase deliberadamente apagado, mas não fraco — apenas… cuidadoso. Seus olhos encontram os de Lily por um instante, gentis, antes de se afastarem.

— Peter Pettigrew — o próximo se apressa em dizer, como se tivesse medo de perder o momento — puro-sangue.

Ele fala rápido demais, e há um certo alívio em sua expressão ao terminar, como se aquela simples declaração fosse, de alguma forma, importante o suficiente para ser dita sem atraso.

Então, inevitavelmente, as atenções se voltam para os dois últimos.

James Potter sorri antes mesmo de começar, como se já estivesse confortável demais em sua própria pele para se preocupar com impressões iniciais.

— James Potter — ele diz, quase com orgulho, o nome saindo com facilidade — puro-sangue.

Não há arrogância explícita ali, mas há confiança, uma leve expectativa de reconhecimento que não chega a ser exigida, apenas… assumida.

E então Sirius.

Ele não fala imediatamente.

Por um segundo, ele apenas observa — Severus, principalmente, o modo como ele escuta, o modo como registra cada detalhe, o modo como não parece particularmente impressionado com nenhum dos nomes até agora. É curioso, quase fascinante, e profundamente irritante.

— Sirius Black — ele diz por fim, e diferente dos outros, seu nome não é apenas uma apresentação; ele carrega peso, história, expectativa, mesmo que ninguém ali, exceto talvez Severus, compreenda completamente a extensão disso — puro-sangue.

Há uma pausa sutil depois, como se o ar tivesse se ajustado ao redor daquelas palavras.

Porque “Black” não é apenas um sobrenome.

É um legado.

Um dos chamados Sagrados Vinte e Oito. Mais antigo até que os Potter.

E, ainda assim—

Nada.

Nenhuma reação real.

Nenhum brilho de reconhecimento imediato, nenhum sinal de deferência, nenhum deslumbramento.

Severus apenas o observa por um instante, avaliando, e então desvia o olhar, como se tivesse decidido algo internamente e aquilo fosse suficiente.

É a primeira vez que Sirius Black se apresenta — verdadeiramente se apresenta — e não recebe exatamente o que espera em troca.

E isso deveria ser um insulto.

Deveria incomodá-lo, provocar, ferir seu orgulho cuidadosamente cultivado.

Mas, em vez disso, algo diferente se instala.

Algo mais afiado.

Mais interessante.

Porque, pela primeira vez, não é sobre ser reconhecido.

É sobre ser… escolhido.

E, enquanto Lily retoma a conversa com leveza, puxando um comentário aqui, uma pergunta ali, e Remus responde com calma, James se envolve com entusiasmo e até Peter se arrisca a participar, Sirius se vê fazendo algo que nunca precisou fazer antes:

Prestar atenção em cada pequeno movimento de Severus Snape.

No modo como ele fala pouco, mas observa muito.

No modo como se inclina levemente para Lily ao responder, como se ela fosse o eixo ao redor do qual ele decide girar — por enquanto.

No modo como ele simplesmente… não olha para Sirius o suficiente.

E é nesse detalhe, pequeno e persistente, que algo novo começa a nascer dentro do herdeiro Black.

Não é mais apenas interesse.

É desafio.

Dentro do compartimento, os outros garotos acompanham a nova dinâmica com curiosidade mais aberta. James Potter observa tudo com interesse evidente, um sorriso fácil surgindo nos lábios como se já estivesse se divertindo com aquela pequena reunião improvisada; Peter Pettigrew parece mais cauteloso, olhando de um rosto para o outro como se tentasse entender onde se encaixar; e Remus Lupin, silencioso, atento, capta mais do que demonstra, seu olhar repousando por um instante em Severus e Lily antes de se suavizar quando ela, percebendo a atenção dele, lhe dirige a palavra com uma naturalidade que quebra qualquer formalidade inicial. A conversa entre os dois começa de maneira tranquila, fluida, e rapidamente cria um novo eixo de atenção dentro do compartimento — um eixo do qual Sirius, mais uma vez, não faz parte.

E isso é… inaceitável.

Porque Severus não olha para ele.

Não o suficiente.

Não como deveria.

Como ele ousa? Sirius Black estava lá, disposto a dar toda a sua atenção e Severus simplesmente... não se importava.

Há momentos, breves e quase acidentais, em que os olhos escuros passam por ele, mas nunca permanecem, nunca se fixam, nunca demonstram aquele tipo de interesse que Sirius, mesmo sem admitir em voz alta, já espera, já considera devido. Em vez disso, Severus se divide entre Lily, a janela, os outros alunos, como se Sirius fosse apenas mais um — e essa possibilidade, essa simples ideia, acende algo perigoso sob a superfície controlada do herdeiro Black.

Então ele faz o que sempre fez quando algo não se encaixa em suas expectativas:

Ele toma controle.

— Já pensaram em qual casa vão ficar? — Sirius interrompe, a voz cortando o fluxo das outras conversas com uma leveza ensaiada, mas carregando por baixo uma intenção clara demais para quem sabe observar.

Funciona.

As atenções se rearranjam, ainda que parcialmente, e desta vez Severus olha — não por muito tempo, mas o suficiente — e isso já é mais do que Sirius tinha um segundo antes.

— Grifinória! — James diz primeiro, quase antes mesmo de terminar de pensar, o sorriso fácil se ampliando como se a ideia lhe agradasse imediatamente — parece… certo, sabe? Coragem, ação, esse tipo de coisa. Meus pais estavam lá, foi onde se apaixonaram...

Há uma energia vibrante nele, algo impulsivo, e é fácil imaginar que ele realmente se encaixaria ali, como se já tivesse nascido pronto para aquilo.

— Eu também acho — Lily acrescenta, pensativa, mas animada, os olhos brilhando com uma curiosidade genuína — quero dizer, eu não sei exatamente como funciona, mas… parece um bom lugar.

Ela troca um olhar rápido com Severus ao dizer isso, como se buscasse confirmação, ou talvez apenas compartilhamento, e ele não responde de imediato; apenas observa, absorve, como se estivesse organizando as informações antes de se comprometer com qualquer resposta.

— Hm… — Remus murmura, mais para si mesmo do que para os outros, mas alto o suficiente para ser ouvido — Grifinória parece… interessante. Mas ouvi dizer que a Corvinal valoriza inteligência, e a Lufa-Lufa… bem, lealdade não é exatamente uma coisa ruim.

Há uma leve hesitação em sua voz, não por insegurança, mas por consideração real; ele não escolhe impulsivamente, não se entrega a uma ideia só porque ela soa bem — ele pesa, compara, analisa.

— Eu só… espero não ir para um lugar ruim — Peter solta, com uma risada nervosa que não chega a ser exatamente engraçada, mas também não é ignorada — qualquer um serve, desde que… bom, desde que eu consiga acompanhar.

James lhe lança um olhar rápido, quase automático, como se já tivesse decidido algo sobre ele, e então volta a se apoiar no banco, relaxado demais para se preocupar com possibilidades negativas.

Sirius escuta tudo isso com uma expressão que oscila entre o tédio e o interesse, mas seus olhos, inevitavelmente, retornam sempre para o mesmo ponto.

Severus.

Que ainda não falou.

E isso, mais do que qualquer outra coisa, o incomoda.

— E você? — Sirius pergunta, direto desta vez, sem rodeios, a atenção afiada como uma lâmina — Vai ficar em silêncio ou já decidiu?

Há um leve peso na pergunta, algo que tenta provocar, puxar uma reação, e por um instante Severus não responde; ele apenas ergue o olhar, encontrando o de Sirius com aquela mesma intensidade contida, como se estivesse avaliando não apenas a pergunta, mas a intenção por trás dela.

Então, finalmente:

— Sonserina.

A palavra cai simples, sem hesitação, sem dúvida.

E faz sentido.

Faz sentido de um jeito que é quase irritante na sua precisão.

Ambição, astúcia, estratégia — tudo em Severus aponta naquela direção como se já fosse inevitável.

Lily franze levemente o cenho, virando-se para ele com uma mistura de surpresa e curiosidade. — Sério? — ela pergunta, inclinando a cabeça — Eu ouvi dizer que é… meio… — ela hesita, procurando a palavra certa, mas não termina.

— Seletiva? — Severus sugere, frio, mas não ofensivo — Exigente.

Ele dá de ombros, mínimo.

— Faz sentido. Mamãe esteve lá, quero fazer parte disso também.

E faz mesmo.

Sirius observa aquilo com atenção renovada, algo se ajustando dentro dele com aquela confirmação; não é surpresa, não exatamente, mas ouvir em voz alta torna tudo mais… concreto.

Mais distante.

E ele não gosta disso.

— Eu quero a Grifinória! — Sirius continua, como se a decisão já estivesse gravada em pedra — é onde eu vou ficar.

James ergue as sobrancelhas imediatamente, inclinando-se um pouco para frente com interesse renovado, como se aquela informação fosse mais intrigante do que o esperado.

— Sério? — ele pergunta, um sorriso começando a se formar — Sua família não é toda da Sonserina?

Há um breve silêncio depois disso, o tipo de pausa que carrega peso, história, expectativa.

Sirius poderia responder de várias formas.

Poderia repetir o que ouviu a vida inteira, poderia aceitar o caminho já traçado, poderia se encaixar perfeitamente na imagem que todos esperam dele.

Mas Sirius Black nunca foi feito para ser previsível.

— Bem, sim... — ele diz, com um leve encolher de ombros que tenta parecer desinteressado, mas que não esconde completamente o brilho desafiador em seus olhos — eles estão todos lá.

Ele faz uma pausa, breve, calculada, deixando que a informação se assente antes de continuar, a voz ganhando uma nota mais firme, mais pessoal, mais… sua.

— E é exatamente por isso que não teria nenhuma graça! — Sirius resmunga, o desdém surgindo com naturalidade — o caminho dos Black na Sonserina já está traçado, é fácil, é… comum.

A palavra parece errada na boca dele, como algo que ele se recusa a aceitar para si mesmo.

— E eu não sou comum — completa, agora sem qualquer tentativa de suavizar a própria convicção — sou extraordinário! Preciso dos holofotes, e a Grifinória é perfeita para isso!

Desta vez, quando o silêncio vem, ele é diferente.

Mais atento.

Mais pesado.

E, por um segundo — um único segundo que Sirius agarra como se fosse vitória — os olhos de Severus permanecem nele um pouco mais do que antes, analisando, recalculando, talvez reconsiderando.

Não é o suficiente.

Mas é um começo.

Porque, do outro lado daquele breve contato visual, há algo que Sirius reconhece novamente, algo que o atrai tanto quanto o irrita: Severus já está pensando à frente, já está escolhendo um caminho próprio, um caminho que não tem nada a ver com holofotes ou reconhecimento fácil.

Um caminho que, Sirius percebe com uma clareza súbita e desconfortável, provavelmente o levará para longe dele.

Sonserina.

A realização não vem como surpresa — ela se encaixa perfeitamente com tudo o que Severus parece ser, com a ambição silenciosa, com o controle contido, com a forma como ele observa antes de agir — mas isso não torna a ideia mais aceitável.

Severus Snape não foi feito para ficar longe dele.

E Sirius, mesmo sem saber ainda como, decide ali, naquele compartimento apertado do Expresso de Hogwarts, cercado por vozes, risos e futuros que começam a se desenhar:

isso não vai ser um obstáculo.

Vai ser um desafio.

----/----/----/----/----

O Salão Principal de Hogwarts é maior do que qualquer coisa que a maioria deles já viu, e, ainda assim, não é o tamanho que mais impressiona — são os detalhes. O teto encantado refletindo um céu que não pertence exatamente ao mundo lá fora, as velas flutuantes lançando luz suave sobre mesas longas repletas de alunos mais velhos, os olhares curiosos que se voltam para os novos, avaliando, julgando, antecipando. Para alguns, aquilo é deslumbrante. Para outros, intimidante.

Para Severus Snape, é… informação.

Seus olhos percorrem tudo com atenção silenciosa, absorvendo padrões, registrando comportamentos, entendendo dinâmicas antes mesmo de fazer parte delas. Ele não se deslumbra, não se encolhe — ele aprende.

Ao lado dele, Lily Evans tenta disfarçar o encanto, mas não consegue completamente; seus olhos brilham, seus passos são ligeiramente mais rápidos, como se estivesse ansiosa para descobrir onde exatamente se encaixará naquele novo mundo. Mais à frente, James Potter já parece confortável demais, olhando ao redor com curiosidade aberta, enquanto Peter Pettigrew se mantém próximo, quase colado, e Remus Lupin observa com aquela calma característica, como se estivesse catalogando cada detalhe de maneira mais sutil.

E Sirius Black—

Sirius não observa Hogwarts.

Ele tem primos o suficiente para já saber descrever cada canto desse castelo sem nunca ter posto os pés nas pedras encantadas.

Ele observa Severus.

Mesmo cercado por algo que deveria prender sua atenção, mesmo diante de um cenário que marca o início de algo grandioso, seus olhos cinzentos retornam, repetidamente, para o mesmo ponto, como se houvesse algo ali que ainda não foi resolvido, algo que ele se recusa a deixar escapar.

A separação ainda não aconteceu.

Ainda não.

Mas está prestes a acontecer.

O Chapéu Seletor repousa sobre o banco à frente, antigo, aparentemente inofensivo, mas carregando um peso que todos sentem, mesmo sem compreender completamente. Quando os nomes começam a ser chamados, um a um, o salão se enche de aplausos, murmúrios, expectativas sendo confirmadas ou quebradas.

Sirius mal presta atenção nos primeiros.

Não até—

— Evans, Lily.

O nome ecoa pelo salão, e há um pequeno silêncio antes que Lily avance, respirando fundo, os ombros ligeiramente tensos. Ela lança um olhar rápido para Severus antes de subir, como se buscasse algo — apoio, talvez, ou apenas proximidade — e ele retribui com um aceno mínimo, quase imperceptível, mas suficiente.

O Chapéu toca sua cabeça.

Uma pausa.

E então—

— GRIFINÓRIA!

A mesa explode em aplausos, e Lily sorri, aliviada, caminhando rapidamente até seu lugar, ainda absorvendo o impacto da escolha. Seus olhos buscam Severus outra vez, como se quisesse compartilhar aquele momento, mas já é tarde — o fluxo continua.

— Lupin, Remus.

Remus caminha com mais tranquilidade, como se já tivesse feito as pazes com qualquer resultado possível. O Chapéu demora um pouco mais dessa vez, murmurando baixo, indeciso talvez, ponderando.

— GRIFINÓRIA!

Mais aplausos, mais aceitação.

— Pettigrew, Peter.

O nervosismo é evidente, quase palpável, e quando o resultado vem — GRIFINÓRIA — há um alívio tão grande em sua expressão que chega a ser visível à distância.

— Potter, James.

James sobe com confiança, como se aquilo fosse apenas mais uma etapa inevitável, e o Chapéu mal toca sua cabeça antes de anunciar—

— GRIFINÓRIA!

A mesa comemora como se já o reconhecesse, como se ele já pertencesse ali antes mesmo de chegar.

E então—

— Black, Sirius.

Há uma mudança no ar.

Não grande, não explícita, mas suficiente.

O nome carrega peso, e o salão sente.

Sirius se levanta com a postura ereta, cada movimento calculado sem parecer forçado, e por um breve segundo — um único segundo — seus olhos encontram os de Severus. Não há sorriso, não há gesto, apenas aquele contato direto, firme, como se algo estivesse sendo dito sem palavras.

Então ele se senta.

O Chapéu mal toca sua cabeça antes de começar a falar, e, diferente dos outros, Sirius escuta.

Argumentos.

Sugestões.

Caminhos.

Sonserina.

Tradição.

Legado.

Facilidade.

E então—

— Não — Sirius pensa, com uma firmeza que não admite contestação.

Não é sobre o que esperam dele.

Nunca foi.

O Chapéu parece considerar isso, pesar, ajustar—

— GRIFINÓRIA!

O salão reage, dividido entre surpresa e aprovação, mas Sirius já está de pé, já está descendo, já está ocupando seu lugar como se sempre tivesse sido ali que deveria estar.

Ainda assim—

Seus olhos voltam.

Sempre voltam.

— Snape, Severus.

Desta vez, o silêncio é diferente.

Mais contido.

Mais atento.

Severus caminha até o banco sem pressa, sem hesitação, como se aquele momento fosse apenas a confirmação de algo que ele já sabe. Não há busca por olhares, não há necessidade de apoio — ele não olha para Lily, não olha para Sirius, não olha para ninguém.

Ele se senta.

O Chapéu toca sua cabeça—

E, por um instante, tudo parece… parar.

Porque o Chapéu fala.

Mais do que falou com os outros.

Mais baixo.

Mais longo.

Como se estivesse explorando algo mais profundo, mais complexo.

Ambição.

Fome.

Inteligência afiada.

Controle.

E então, claro—

— SONSERINA!

A mesa verde e prata explode em aplausos, acolhendo-o imediatamente, como se reconhecesse algo valioso, algo promissor. Severus se levanta, retira o Chapéu e segue até seu novo lugar sem olhar para trás.

Sem olhar para Sirius.

E é nesse momento que a separação, finalmente, se torna real.

Mesas diferentes.

Casas diferentes.

Caminhos diferentes.

Sirius observa enquanto Severus se senta entre os sonserinos, já sendo absorvido por aquele novo ambiente, já começando a pertencer de uma forma que não inclui Sirius.

E algo dentro dele se recusa a aceitar isso.

Ele se inclina levemente para trás, o olhar ainda fixo, ainda calculando, ainda decidindo — porque, para Sirius Black, distância nunca foi um impedimento definitivo.

Apenas um obstáculo temporário.

— Ei — ele chama Severus, baixo, mas firme, atraindo a atenção de alguns alunos mais velhos da própria mesa — vocês têm primos meus na Sonserina.

Alguns olhares se voltam, curiosos.

— E por que está me contando isso? - O garoto de olhos negros pergunta, genuinamente curioso.

— Diga a eles — Sirius continua, a voz assumindo um tom quase casual, mas carregando intenção demais — Que você é meu amigo. Eles podem ajudar você.

Ele não precisa dizer os nomes.

Mas diz mesmo assim.

— Narcisa é a mais gentil, fale com ela se precisar.

Há um breve silêncio depois disso, seguido por um aceno aqui, um comentário ali — nada oficial, nada declarado, mas suficiente.

Suficiente para plantar algo.

E Sirius, finalmente, desvia o olhar.

Mas não desiste.

Porque, do outro lado do salão, sob luzes flutuantes e entre vozes que começam a se misturar em um novo cotidiano, Severus Snape está exatamente onde queria estar.

E Sirius Black—

Sirius apenas decidiu que isso não muda absolutamente nada.

----/----/----/----/----

As primeiras semanas em Hogwarts passam rápidas demais para quem ainda está tentando entender como tudo funciona, mas lentas o suficiente para que padrões se estabeleçam — e Sirius Black percebe cada um deles, especialmente aqueles que envolvem Severus Snape. Não é difícil, na verdade; Severus se torna rapidamente uma presença constante na mesa da Sonserina, sempre no mesmo lugar ou próximo dele, sempre com livros à mão, sempre cercado por uma atenção que Sirius considera… excessiva. É assim que ele nota pela primeira vez o outro garoto.

Não é alguém extraordinário.

Não tem um nome que pese, não tem uma postura particularmente imponente, não tem nada que, aos olhos de Sirius, justifique o que acontece a seguir — e, ainda assim, acontece. O garoto se inclina sobre Severus durante o jantar, aproximando-se mais do que o necessário, apontando algo em um pergaminho, falando baixo demais para que outros ouçam. Severus não se afasta. Pior: ele responde. Inclina-se também, reduz a distância, murmura de volta, e por um breve momento há algo ali que se parece perigosamente com… cumplicidade.

Sirius sente antes mesmo de entender.

Algo rápido, quente, desagradável.

Seu corpo reage antes da mente acompanhar, a postura enrijecendo levemente, os olhos cinzentos fixando-se naquela interação com uma intensidade que não deveria existir para algo tão pequeno. Ele não escuta o que James está dizendo ao seu lado, não percebe quando Peter ri de alguma coisa, não responde ao comentário tranquilo de Remus — tudo o que existe, naquele instante, é a proximidade indevida entre Severus Snape e alguém que não deveria estar ali.

Não daquele jeito.

Não no lugar que deveria ser dele.

— Quem é aquele? — Sirius pergunta de repente, a voz baixa, mas carregada de algo que não passa despercebido.

Remus segue seu olhar, atento.

— Não sei — responde com calma — mas parece só um colega de casa.

“Só.”

A palavra ecoa de forma irritante.

Porque não parece “só”.

Não quando Severus não se afasta.

Não quando permite.

Não quando… ignora completamente a existência de Sirius.

— Ele está perto demais — Sirius murmura, mais para si mesmo do que para os outros, mas alto o suficiente para que James arque uma sobrancelha, curioso.

— Você nem conhece o Snape direito — James comenta, meio divertido, meio confuso — desde quando isso te incomoda?

Sirius não responde imediatamente.

Porque a resposta não é simples.

Não é lógica.

Mas é clara.

Desde o momento em que Severus entrou naquele compartimento.

— Desde agora — ele diz por fim, seco.

Do outro lado do salão, Severus vira levemente a cabeça, como se tivesse sentido algo, como se estivesse sendo observado — e, por um segundo, seus olhos encontram os de Sirius.

Mas não permanecem.

Eles escorrem de volta para o pergaminho, para o outro garoto, para qualquer coisa que não seja ele.

E isso—

Isso é o suficiente para que Sirius entenda, com uma clareza desconfortável, que aquilo não é apenas irritação passageira.

É ciúmes.

E ele não gosta de dividir.

Não demora muito para que Sirius encontre uma solução — ou algo próximo disso.

Severus pode estar na Sonserina, pode estar cercado por pessoas que Sirius não controla diretamente, pode até escolher para onde direciona sua atenção…, mas isso não significa que Sirius ficará no escuro.

Ele nunca ficou.

— Você conhece Severus, não conhece? — Sirius pergunta aos primos casualmente certa noite, como se o assunto não tivesse peso algum.

Bellatrix, Andromeda e Narcisa — suas primas mais próximas — olham para ele, curiosidade refletindo nos olhos. — Conhecemos. Por quê?

Sirius dá de ombros, apoiando-se contra a parede com uma falsa despreocupação que não convence ninguém completamente.

— Nada demais. Só… quero que fiquem de olho nele para mim.

— E o que o pequeno corvo tem de tão especial? Além daqueles olhos impressionantes e inteligência assustadora? - Bellatrix pergunta, analisando Sirius.

— Bom, ele é meu. Ele só não sabe disso ainda...

Há uma pequena pausa, avaliativa.

— E o que exatamente você quer saber? - Narcisa pergunta, se divertindo com a possessividade emanando de Sirius em ondas.

Sirius inclina levemente a cabeça, como se estivesse organizando a resposta de forma simples, quando na verdade cada detalhe já foi pensado.

— Tudo.

A palavra é dita sem exagero, sem dramatização — e exatamente por isso carrega mais peso.

Rotina.

Amigos.

Aulas.

Com quem ele fala.

Com quem ele não fala.

Se ele ri.

Se ele sorri.

Se ele permite que alguém chegue perto demais.

Não é difícil.

Famílias puro-sangue se comunicam, se observam, se utilizam umas das outras com uma naturalidade quase automática, e Sirius, apesar de sua resistência à tradição, ainda sabe exatamente como se mover dentro dela quando quer algo.

E ele quer.

Então as informações começam a vir, aos poucos, fragmentadas, mas suficientes.

Severus passa mais tempo na biblioteca do que na sala comunal.

Se destaca em Poções.

Fala pouco.

Observa muito.

E—

Não se aproxima de muitas pessoas.

Exceto, ocasionalmente, alguns colegas de casa.

A informação não deveria incomodar tanto quanto incomoda.

Mas incomoda. E ele quer mudar isso. Desesperadamente.

A primeira aula em comum acontece mais cedo do que Sirius esperava.

Poções.

É apropriado, de certa forma.

A sala é diferente das outras — mais fria, mais fechada, com o cheiro constante de ingredientes que variam entre o interessante e o desagradável. Os alunos se acomodam em duplas ou pequenos grupos, e há uma reorganização inevitável quando casas diferentes compartilham o mesmo espaço.

Sirius entra já procurando.

Não conscientemente — ou pelo menos é o que ele diria — mas seus olhos encontram Severus antes mesmo que ele perceba que está procurando.

E lá está ele.

Já sentado.

Já preparado.

Já… envolvido.

Não sozinho.

A garota já está lá, Lily, inclinada novamente, próxima demais, falando baixo, enquanto Severus responde com aquela mesma atenção contida que Sirius aprendeu a reconhecer.

Algo dentro dele se tensiona imediatamente.

Não.

Ele se move antes de pensar demais, atravessando a sala com passos decididos, ignorando completamente qualquer tentativa de James de puxá-lo para outro lugar, até parar diretamente ao lado da mesa de Severus.

Perto demais.

Invadindo.

— Posso me sentar aqui? — Sirius pergunta, mas não espera resposta antes de se posicionar, os olhos fixos em Severus com uma intensidade que não tenta disfarçar. — Não sou muito bom em poções...

Lily não hesita, mas claramente fica surpresa, olhando de Sirius para Severus como se buscasse alguma reação, alguma instrução.

Severus, por sua vez, apenas ergue o olhar.

E, por um instante—

Há reconhecimento.

Não calor.

Não acolhimento.

Mas reconhecimento.

— Bem, você já se sentou... — ele responde, simples.

Não é um convite.

Mas também não é uma rejeição direta.

E isso basta.

Sirius pega seus materiais.

O espaço é apertado, forçado, três pessoas onde provavelmente deveriam ser duas, e isso obriga proximidade — não com a ruiva que tem tudo o que ele quer, mas com Severus.

Mais perto.

Como deveria ser.

A aula começa, e rapidamente fica claro, para qualquer um que esteja prestando atenção, que Severus não está ali para tentar.

Ele já sabe.

Responde antes de ser chamado, identifica ingredientes com precisão, corrige pequenos erros no preparo com uma segurança que não combina com sua idade. O professor — atento — nota, elogia, observa com mais interesse.

E Sirius—

Sirius não consegue decidir o que o incomoda mais.

O fato de Severus ser brilhante.

Ou o fato de que ele não olha para ele enquanto demonstra isso.

— Você vai errar a proporção — Sirius murmura em certo momento, inclinando-se levemente, mais perto do que o necessário, os olhos acompanhando o movimento das mãos de Severus.

Severus não pausa.

Não hesita.

— Não vou — responde, seco.

E não erra.

Claro que não.

O silêncio que segue é curto, mas carregado, e Sirius sente algo estranho se formar sob a irritação constante — algo que se aproxima perigosamente de… admiração.

Ele não gosta disso.

Mas também não recua.

Porque, enquanto observa Severus trabalhar, preciso, focado, distante de tudo que não seja o próprio objetivo, Sirius entende algo que muda, ainda que sutilmente, a forma como ele enxerga aquela dinâmica:

Isso não vai ser fácil.

E, pela primeira vez—

Ele quer que não seja.

Os dias seguem um ritmo próprio em Hogwarts, moldando hábitos antes mesmo que alguém perceba, e Sirius Black passa a reconhecer os de Severus Snape com uma precisão quase irritante. Não porque queira admitir, mas porque não consegue evitar. Ele sabe em quais horários Severus costuma estar na biblioteca, em quais corredores ele passa com mais frequência, em quais momentos ele se permite parar — ainda que brevemente — para conversar. E, inevitavelmente, há um padrão que se repete mais do que qualquer outro.

Lily Evans.

Não é surpresa, não deveria ser. Sirius viu desde o primeiro dia, desde o trem, desde o modo como Severus se inclinava para ela, como se ela fosse um ponto fixo em um mundo que ainda estava sendo organizado. Mas ver é diferente de sentir, e sentir… é outra coisa completamente diferente.

Porque Lily não precisa disputar.

Ela simplesmente… tem.

A atenção de Severus vem fácil para ela, natural, quase automática. Ele a escuta, responde, explica, às vezes até suaviza ligeiramente o tom — uma mudança sutil, mas perceptível o suficiente para alguém que está constantemente observando. E Sirius observa.

Demais.

— Você está olhando de novo — Remus comenta certa tarde, sem julgamento, apenas constatando, enquanto folheia um livro que claramente não está lendo com total atenção.

Sirius não desvia o olhar imediatamente. Do outro lado do pátio, Severus e Lily estão sentados próximos demais para o gosto dele, inclinados um em direção ao outro, compartilhando um pergaminho, murmurando algo que faz Lily sorrir — não alto, não exagerado, mas o suficiente.

O suficiente para incomodar.

— Não estou — Sirius responde, automático.

Remus não insiste.

Não precisa.

Porque a resposta não muda o fato.

— Ela fala demais — Sirius acrescenta depois de um momento, como se isso explicasse tudo, como se fosse uma justificativa válida para o desconforto que cresce lentamente dentro dele.

— Ou talvez ele goste de ouvir — Remus sugere, ainda tranquilo.

Sirius finalmente desvia o olhar, mas apenas por um segundo, antes de voltar a fixá-lo exatamente onde não deveria.

— Ele não gosta — diz, mais firme agora — ele só… está acostumado.

A lógica faz sentido na cabeça dele.

Precisa fazer.

Porque a alternativa—

A alternativa é que Severus escolha ela.

E Sirius ainda não aceita isso.

 

Não é como se ele não tentasse.

Na verdade, ele tenta demais.

Começa com pequenas interrupções, encontros “casuais” em corredores que ele já sabe que Severus vai atravessar, comentários jogados no momento exato em que Lily está prestes a falar, perguntas que não precisam de resposta, mas que exigem atenção.

— Snape — Sirius chama, apoiando-se contra a parede como se estivesse ali por acaso, embora tenha chegado segundos antes — ainda não cansou da biblioteca?

Severus para.

Olha.

Avalia.

— Não.

Simples.

Direto.

Sem abertura.

E, ainda assim, Sirius continua.

— Deve ser entediante — ele acrescenta, inclinando levemente a cabeça, os olhos fixos, tentando puxar algo, qualquer coisa.

— Não é.

Outra resposta curta.

Outra barreira.

E então Lily surge ao lado de Severus, como sempre, como se aquele espaço fosse naturalmente dela.

— Talvez para você fosse — ela comenta, cruzando os braços, um leve desafio na voz — nem todo mundo precisa de… distrações o tempo todo.

Sirius sorri.

Não é um sorriso gentil.

— E nem todo mundo precisa de companhia constante — ele devolve, o olhar deslizando brevemente até ela antes de voltar para Severus.

É sutil.

Mas não é.

E Severus percebe.

Claro que percebe.

— Não é uma necessidade — ele diz, frio, controlado — é uma escolha.

A palavra pesa mais do que deveria.

Ela queima, na verdade.

Escolha.

Sirius sustenta o olhar por um segundo a mais, algo se apertando dentro dele de forma desconfortável.

Porque, mais uma vez—

Não é ele.

Com o tempo, o incômodo deixa de ser pontual e se torna constante.

Lily está sempre lá.

Sempre presente.

Sempre ocupando um espaço que Sirius, mesmo sem nunca ter tido, já considera seu.

E isso o torna… inquieto.

Mais impulsivo.

Mais direto.

— Você passa tempo demais com ela — Sirius solta certa vez, sem introdução, sem contexto, apenas deixando a frase cair entre eles enquanto caminham na mesma direção por acaso, ou talvez não tão por acaso assim.

Severus não para.

Não desacelera.

— Isso não é da sua conta.

— Poderia ser.

A resposta vem rápida demais.

Instintiva.

E Severus finalmente para.

Se vira.

Olha.

Dessa vez, de verdade.

— Não é — ele repete, mais baixo, mais firme — e não vai ser.

Há um silêncio breve depois disso, o tipo que se estende mais do que deveria, carregado de algo que nenhum dos dois nomeia.

Sirius deveria recuar.

Deveria rir, transformar em brincadeira, ignorar.

Mas ele não faz nenhuma dessas coisas.

— Você não olha pra mim — ele diz, de repente, a voz mais baixa agora, menos performática, mais… real — não como olha pra ela.

A frase escapa antes que ele possa impedir.

E, por um segundo—

Há algo diferente no olhar de Severus.

Não suavidade.

Nunca isso.

Mas algo que se aproxima de compreensão.

Rápido demais para ser capturado.

— Talvez porque eu não queira — Severus responde, voltando ao controle imediatamente.

E é o suficiente.

Mais do que suficiente.

Sirius ri, mas não há humor no som.

— Vai querer — ele diz, quase como uma promessa, quase como um desafio.

Severus não responde.

Ele apenas se vira—

E vai embora.

Sem olhar para trás.

E Sirius fica ali por mais um segundo do que deveria, observando, absorvendo, sentindo algo se reorganizar dentro dele com uma clareza desconfortável.

Isso não é mais apenas sobre querer.

É sobre não aceitar não ter.

E, pela primeira vez, Sirius Black começa a entender que talvez—

Talvez Severus Snape seja a única coisa no mundo que não vem fácil.

E é exatamente por isso que ele não consegue parar.