Work Text:
Ana Paula e Milena estavam, mais uma vez, na lanchonete favorita delas, sentadas na cabine de sempre, aquela que já parecia ter dono, mesmo sem reserva. Não era como se alguém realmente impedisse outras pessoas de sentarem ali, mas, depois de tantas tardes ocupando o mesmo lugar, virou algo delas.
Parte disso era culpa da própria Ana Paula, que, com sua facilidade quase irritante de fazer amizade, tinha se aproximado do dono do lugar e, consequentemente, garantido descontos que nenhuma das duas tinha coragem de recusar.
“Cê não pode simplesmente sair negando todo mundo assim, gata,” Ana Paula comentou, apoiando o queixo na mão enquanto observava a amiga com um meio sorriso. “Você precisa de um boy— quer dizer, de uma girl pra passar o Dia dos Namorados.”
Milena revirou os olhos quase que automaticamente, girando o canudo dentro do milk-shake como se aquilo fosse ajudar a organizar os próprios pensamentos.
“Mas, Ana Paula… a maioria que me chama pra sair chama mais três pessoas junto,” ela respondeu, num tom que misturava irritação e cansaço, como se já tivesse repetido aquilo várias vezes na própria cabeça.
Ana Paula soltou um suspiro dramático, jogando o corpo contra o encosto do banco.
“Oh, Tia Milena… acorda pra vida! Tem um monte de mulher louca pra ficar com você e você aí complicando tudo. Além disso, eu me recuso a ver minha melhor amiga passando o Dia dos Namorados triste, assistindo filmes tristes e fingindo que tá tudo bem.”
“Eu não finjo,” Milena rebateu, mas sem muita convicção, desviando o olhar para o copo à sua frente. “E outra, o que eu ia fazer num encontro? Não é como se eu tivesse tantas opções assim.”
Ana Paula arqueou a sobrancelha, claramente discordando.
“Você rejeitou todas que apareceram, Milena.”
“Claro, né?” ela respondeu, cruzando os braços, agora mais firme. “Como que eu vou aceitar sair com alguém que aparece com um buquê de flor de plástico comprado por menos de cinco reais no restaurante do lado? Eu mereço pelo menos um mínimo de esforço.”
Ana Paula tentou segurar, mas acabou rindo, levando a mão à boca.
“Tu é exigente demais.”
“Quem eu quero não me quer e quem me quer não vai querer, Ana Paula. Simples assim.”
Milena respondeu, dando de ombros, embora, no fundo, soubesse que não era só isso.
A conversa continuou por mais um tempo, pulando de assunto em assunto, como sempre acontecia entre as duas, até que resolveram ir embora. Pagaram a conta, saíram da cabine e seguiram com o resto do dia, completamente alheias ao que tinham deixado para trás.
Na cabine logo atrás, Samira permaneceu sentada por alguns segundos, em silêncio, olhando fixamente para o buquê de flores de plástico que descansava ao seu lado. O objeto parecia ainda mais ridículo agora, depois de tudo o que tinha ouvido, e, por mais que tentasse não levar para o lado pessoal, era impossível não sentir aquele incômodo crescendo no peito. Com um suspiro baixo, ela se levantou, pegou o buquê e o jogou no lixo sem muita cerimônia, tentando agir como se aquilo não tivesse importância nenhuma, mesmo sabendo que tinha.
Afinal, o que mais ela podia fazer, se a conta bancária dela estava sempre negativa?
Samira nunca imaginaria que estaria passando uma segunda-feira à noite no próprio apartamento, em uma espécie de festa do pijama improvisada, só para desabafar sobre uma situação que, tecnicamente, nem tinha acontecido de verdade. Ainda assim, lá estava ela, sentada no chão da sala com Lindolfo no colo, usando o bichinho como suporte emocional enquanto tentava organizar os próprios sentimentos, o que claramente não estava funcionando.
Kai, sentado perto dela, observava tudo com uma mistura de preocupação e leve impaciência, porque, apesar de entender o drama, também achava que a amiga estava complicando mais do que precisava.
“Ai, Sami… tu não pode desistir de conquistar a tua mulher assim do nada,” ele insistiu, inclinando o corpo na direção dela, como se isso fosse ajudar a fazer a mensagem entrar.
Samira fungou, apertando Lindolfo com um pouco mais de força do que o necessário.
“Mas ela disse que tem várias concorrentes… e que quem ela quer não quer ela, e quem quer ela ela não vai querer,” murmurou, a voz carregada, repetindo as palavras como se ainda estivesse presa naquela conversa que nem era sobre ela, mas que, de alguma forma, parecia completamente sobre ela.
Ela jogou a cabeça para trás, encarando o teto por alguns segundos, respirando fundo enquanto as lágrimas diminuíam aos poucos. Quando voltou a olhar para frente, a expressão já não era a mesma; havia algo diferente ali, uma mistura de indignação e determinação que começava a tomar forma.
“Mas elas são mesquinhas,” continuou, agora mais firme. “Quem é que deixa a Milena como terceira opção? Me diz quem?”
Kai piscou algumas vezes, claramente confuso com a mudança repentina de tom.
“Tu tá citando Marília Mendonça?”
“Não importa,” ela respondeu rápido, descartando a observação com um gesto de mão. “O ponto é que isso não faz sentido.”
Kai soltou um suspiro curto, passando a mão pelo rosto antes de responder.
“O que faz sentido é que tu já tá de olho nela há muito mais tempo que qualquer uma dessas aí. A diferença é que tu nunca fez nada.”
Samira fez uma careta, desviando o olhar. “E como é que eu vou fazer alguma coisa se eu não consigo nem falar com ela sem gaguejar?”
“Tu sendo tu mesma,” ele respondeu, simples, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. “Não é como se fosse um bicho de sete cabeças.”
Samira ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo aquilo, embora não tivesse certeza se realmente ajudava.
Ela já gostava da Milena há tempo suficiente para prestar atenção nos pequenos detalhes, nas coisas que ela dizia, no jeito que reagia às situações, mas isso era muito diferente de realmente conhecê-la.
A única vez que tinham interagido de verdade tinha sido no bar onde Samira trabalhava, e a lembrança ainda era constrangedora.
Ela, que normalmente conseguia manter uma postura confiante, simplesmente tinha se atrapalhado inteira, errando o pedido, se enrolando nas palavras, quase derrubando o bloco de anotações, um completo desastre. Ainda assim, Milena tinha rido, e, por algum motivo, aquela risada tinha ficado na cabeça dela por muito mais tempo do que deveria.
Pelo menos eu fiz ela rir, pensou, tentando encontrar algum consolo na memória.
Mas aquilo já fazia um ano, e agora ela queria acreditar que as coisas poderiam ser diferentes, que talvez, dessa vez, ela conseguiria fazer algo sem estragar tudo no processo.
________________________
Samira não estava seguindo Milena, ou pelo menos era isso que ela repetia para si mesma enquanto caminhava pela mesma rua, mantendo uma distância que, na cabeça dela, ainda podia ser considerada aceitável.
Era só coincidência, afinal, o fato de estarem indo na mesma direção não significava nada, mesmo que ela estivesse claramente prestando atenção em cada palavra da conversa que Milena tinha com Juliano.
“A Olivia, que é uma das crianças que eu cuido, foi até mim hoje com um sorriso enorme pra me entregar uma carta,” Milena comentava, e dava pra perceber pelo tom da voz o quanto aquilo tinha significado para ela. “Tu precisava ver, era a coisa mais fofa do mundo. Eu sempre recebo essas cartinhas, e eu amo todas.”
Samira diminuiu o passo, absorvendo cada detalhe daquela informação como se fosse algo extremamente valioso, e, antes mesmo de perceber direito o que estava fazendo, já tinha atravessado a rua e entrado na papelaria mais próxima, com uma ideia começando a se formar na cabeça.
Se ela gostava de cartas então talvez fosse isso.
Talvez não precisasse de um buquê caro, nem de um grande gesto cinematográfico, talvez só precisasse acertar nas palavras.
Ela pegou papel, caneta, lápis de cor, mais coisas do que realmente precisava, na verdade, andando pelos corredores como se estivesse em uma missão extremamente importante, já calculando mentalmente o tempo que tinha até sexta-feira. Era terça-feira. A semana estava praticamente acabando. Isso significava que ela tinha… o quê? Dois dias e meio, no máximo.
Era pouco mas não impossível.
Assim que chegou no apartamento, ainda com a sacola da papelaria na mão, a primeira coisa que fez foi pegar o celular e ligar para Chaiany, andando de um lado pro outro enquanto esperava atender, sentindo uma ansiedade estranha crescer no peito.
Elas não eram exatamente próximas, não do tipo que se falava todo dia, mas Chaiany tinha uma qualidade muito específica que, naquele momento, fazia toda a diferença: ela parecia entender de romance..
Mas obviamente a mulher não seria uma poeta como Armandinho.
Porém, era uma terça-feira à noite, e Chaiany provavelmente estaria livre, o que, por algum motivo, só reforçava ainda mais a decisão.
Quando ela chegou, Samira nem perdeu tempo com rodeios, puxando a outra pra dentro do apartamento enquanto já começava a explicar a situação, cuidadosamente evitando nomes, mas deixando bem claro o desespero envolvido.
Precisava escrever uma carta, não qualquer carta, mas uma carta que fosse tão absurda de boa que fizesse qualquer outra tentativa de declaração parecer fraca em comparação.
“Tipo… nível Shakespeare,” ela disse, gesticulando enquanto falava, claramente investida na própria ideia. “Não, melhor– acima de Shakespeare.”
Chaiany cruzou os braços, encostada no sofá, observando aquela cena com um meio sorriso divertido.
“Que cliché.”
“Romântico,” Samira corrigiu, já puxando uma cadeira e espalhando os materiais pela mesa. “Porque a partir de agora eu não sou mais Samira Sagr.”
Chaiany arqueou a sobrancelha.
“Eu sou Samira Shakespeare Sagr.”
As duas se sentaram à mesa da cozinha e o que deveria ser uma tarefa simples rapidamente se transformou em algo muito mais intenso do que qualquer uma das duas esperava. As primeiras tentativas saíram ruins, frases forçadas, palavras que não encaixavam direito, ideias que pareciam melhores na cabeça do que no papel.
Samira amassou folhas, reclamou, levantou, sentou de novo, enquanto Chaiany tentava organizar aquele caos, sugerindo mudanças, cortando exageros, às vezes incentivando ainda mais o drama.
Em algum momento, começaram a consultar o dicionário, procurando palavras que parecessem mais profundas, mais bonitas e mais dignas do que ela queria expressar, como se a escolha certa de vocabulário pudesse, de alguma forma, compensar toda a insegurança que vinha junto com aquilo.
O tempo foi passando sem que percebessem direito, a luz do dia desaparecendo aos poucos pela janela, substituída pela iluminação amarelada da cozinha, enquanto a mesa ficava cada vez mais bagunçada com papéis rabiscados e ideias descartadas. Quando finalmente chegaram a uma versão que parecia certa, já era noite, e o cansaço pesava no corpo das duas.
Chaiany estava praticamente caindo de sono, apoiando a cabeça na mão, enquanto Samira se recostava na cadeira, sentindo as costas protestarem depois de horas na mesma posição.
Ainda assim, ela pegou a carta com cuidado, como se fosse algo frágil demais, e releu cada linha em silêncio, os olhos percorrendo as palavras que, de alguma forma, conseguiam dizer coisas que ela nunca teria coragem de falar em voz alta. Mordeu o lábio, nervosa, sentindo aquele aperto familiar no peito.
“Será que ela vai gostar?” perguntou, mais pra si mesma do que pra Chaiany.
Chaiany soltou um resmungo baixo, se levantando com esforço. “Se essa mulher misteriosa não gostar dessa carta, eu juro que eu mesma começo a namorar com você”
respondeu, já pegando suas coisas, ainda meio sonolenta, mas firme na afirmação.
Samira soltou uma risada curta, nervosa, acompanhando a outra até a porta, enquanto Lindolfo observava tudo como se estivesse participando ativamente do processo.
Antes de sair, Chaiany ainda se virou.
“Tu fez a carta perfeita, confia.”
Samira quis acreditar.
No dia seguinte, quando Chaiany sugeriu que se encontrassem na lanchonete para saber como tinha sido a reação da “mulher secreta”, parecia uma boa ideia, pelo menos até o momento em que Samira realmente precisou encarar a realidade.
Sentada à mesa, com os dedos inquietos batucando contra a superfície, ela tentou ensaiar mentalmente alguma forma menos humilhante de explicar o que tinha acontecido, mas nenhuma parecia boa o suficiente. No fim, respirou fundo, como se estivesse prestes a se jogar de um penhasco, e decidiu ir direto ao ponto.
“O Lindolfo comeu a carta.”
Chaiany ficou em silêncio por um segundo.
“Ele o quê?”
Samira já sentia os olhos arderem, abaixando a cabeça e escondendo o rosto entre os braços apoiados na mesa, como se aquilo pudesse fazer a situação desaparecer.
“Eu deixei em cima da mesa… fui fazer outra coisa… quando voltei, ele já tava mastigando,” murmurou, a voz abafada, carregada de frustração. “Nem deu tempo de salvar.”
Chaiany soltou o ar devagar, balançando a cabeça em negação.
“Não acredito… então nada de namorada pra Samira?”
“Nada de encontro no Dia dos Namorados,” ela respondeu, passando as mãos pelo cabelo de forma nervosa, sentindo o estresse aumentar à medida que o tempo passava. Sexta-feira estava cada vez mais perto, e parecia que tudo conspirava contra ela. “Mas eu não vou desistir, nem que o destino esteja tentando me amaldiçoar.”
Porque, no fundo, era isso que parecia.
Como se o universo estivesse brincando com ela, criando pequenas situações só pra ver até onde ela aguentava antes de desistir.
Mas desistir de quê, exatamente?
Ela nem tinha tentado de verdade ainda.
Milena não era só mais uma garota, não era só mais um interesse passageiro que ela poderia simplesmente ignorar depois de um tempo. Tinha algo ali, algo que ela nem sabia explicar direito, mas que fazia tudo parecer inevitável.
Milena é a sua sina.
Chaiany suspirou, levantando da cadeira e dando a volta na mesa, se sentando ao lado dela e passando um braço ao redor dos seus ombros, puxando-a levemente para um abraço.
“Calma, você ainda vai dar um jeito nisso,” disse, em um tom mais suave, tentando trazer Samira de volta para um lugar menos caótico.
Do outro lado da rua, Milena observava.
Sentada à mesa do restaurante em frente à lanchonete, ela já não prestava atenção na conversa que Ana Paula tentava puxar, respondendo de forma automática sempre que necessário, enquanto seu olhar permanecia fixo do outro lado da rua, como se algo ali tivesse prendido sua atenção de um jeito difícil de ignorar.
Samira e Chaiany.
Milena franziu levemente a testa, inclinando o corpo de forma quase imperceptível, como se isso fosse ajudar a entender melhor o que estava vendo. Nunca tinha parado pra pensar muito sobre a ideia das duas, na verdade, mas ela não poderia julgar o relacionamento de outras pessoas.
Até porque o contato mais concreto que ela teve com Samira foi quando ela visitou o bar da loira. A mulher tinha se atrapalhado por inteiro anotando o pedido, claramente nervosa, e aquilo tinha sido fofo.
Estranhamente fofo.
Ela também sempre achou o estilo da loira interessante, mesmo que não fosse exatamente o tipo de roupa que ela usaria, mas que parecia vestir de uma forma única o corpo de Samira.
As duas estavam próximas, mais do que o normal, inclinadas uma na direção da outra, compartilhando um espaço que parecia íntimo demais para ser só casual. E então Milena viu, com uma clareza incômoda, o momento exato em que as mãos delas se encontraram sobre a mesa, os dedos se entrelaçando de forma natural, como se aquilo fosse comum.
Como se já tivesse acontecido antes.
Milena prendeu a respiração sem perceber, sentindo uma sensação estranha apertar o peito, algo que ela não conseguiu identificar de imediato, incômodo, talvez, ou algo mais difícil de admitir.
“Tia Milena?”
O toque nos ombros fez com que ela se sobressaltasse levemente, voltando à realidade com um pequeno atraso.
“Tu tá me ouvindo?”
Milena piscou algumas vezes, mas não respondeu de imediato, porque, mesmo ali, com a voz da amiga chamando sua atenção, seu olhar ainda insistia em voltar para o outro lado da rua.
Para Samira.
________________________
Samira passou o resto do caminho até em casa tentando ignorar a sensação de urgência que tinha se instalado no peito, mas, quanto mais pensava, mais claro ficava que precisava fazer alguma coisa, e rápido.
Ficar parada claramente não estava funcionando, cartas estavam sendo comidas, o universo parecia ter desenvolvido algum tipo de implicância pessoal com ela, e, enquanto isso, Milena só parecia cada vez mais distante, como se qualquer chance que Samira tivesse estivesse escapando pelos dedos antes mesmo de existir de verdade.
Mas Milena não era exatamente acessível.
Juliano, por outro lado…
Samira parou no meio da sala, cruzando os braços enquanto encarava o nada, a mente trabalhando mais rápido do que ela conseguia organizar, como se estivesse prestes a montar um plano extremamente elaborado, quando, na realidade, era só uma ideia impulsiva tentando desesperadamente fazer sentido.
Não era o plano mais sólido do mundo, nem o mais inteligente, mas era alguma coisa, e, naquele ponto, qualquer coisa parecia melhor do que continuar sem fazer nada.
Falar com ele não parecia impossível.
Não diretamente, claro, mas talvez de um jeito mais estratégico.
Alguns minutos depois, ela já estava jogada no sofá, com o celular na mão, encarando a tela enquanto digitava, apagava e digitava de novo, presa naquele ciclo irritante de nunca achar que estava bom o suficiente.
O problema não era exatamente o que dizer, mas como dizer, porque precisava soar séria o bastante pra ele levar a mensagem a sério, mas não a ponto de parecer completamente maluca, o que, considerando a situação, era um risco bem real.
No fim, soltou o ar devagar, como se estivesse tomando uma decisão muito maior do que realmente era, e apertou em enviar antes que pudesse desistir:
Ela ficou encarando a tela por alguns segundos depois de enviar, como se as mensagens pudessem magicamente mudar de conteúdo se ela olhasse o suficiente, sentindo o coração bater um pouco mais rápido do que deveria.
Talvez tivesse pesado a mão. Talvez estivesse sendo dramática demais. Talvez ele simplesmente ignorasse.
Ainda assim, quando viu a resposta aparecer, uma mistura estranha de alívio e nervosismo tomou conta, porque, agora, não tinha mais como voltar atrás.
Mais tarde, Samira estava em frente ao restaurante, usando um moletom com capuz que definitivamente não ajudava em nada no calor, mas que, na cabeça dela, era essencial para manter o mínimo de disfarce. Ela puxou o capuz um pouco mais pra frente, como se aquilo realmente fosse esconder sua identidade, enquanto respirava fundo antes de entrar, tentando se convencer de que aquilo não era uma péssima ideia.
Por dentro, o lugar estava relativamente tranquilo, o som baixo de conversas e talheres criando um ambiente comum demais para o nível de tensão que ela estava sentindo.
Seus olhos demoraram alguns segundos para encontrar Juliano, mas, quando encontraram, ficou difícil desviar o olhar.
Ele já estava lá, sentado à mesa, olhando o celular com uma expressão claramente confusa, provavelmente tentando entender em que tipo de situação estranha tinha se metido.
Samira hesitou por um instante, parada ainda a alguns passos de distância, sentindo o nervosismo subir de novo como se fosse a primeira vez, como se ainda tivesse tempo de desistir e fingir que nada daquilo tinha acontecido.
Antes que pudesse pensar demais, se obrigou a andar até a mesa, puxando a cadeira e se sentando na frente dele sem dizer nada, mantendo o capuz baixo por alguns segundos a mais do que o necessário, como se ainda estivesse tentando sustentar uma imagem que claramente já não funcionava.
Juliano levantou o olhar, piscou algumas vezes, tentando processar a cena, e então franziu a testa, claramente juntando as peças.
“…Samira?”
Ela ficou em silêncio por um momento, sustentando o personagem por pura teimosia, embora já soubesse que não fazia mais sentido.
“A minha identidade não importa, Juliano Floss,” disse por fim, abaixando um pouco o capuz, mas ainda insistindo no drama como se isso salvasse alguma coisa. “O que importa é que eu preciso da tua ajuda.”
Juliano encarou ela por alguns segundos, como se estivesse avaliando o quanto daquela situação era real e então simplesmente começou a rir, apoiando o cotovelo na mesa enquanto balançava a cabeça.
“Tu me chamou aqui desse jeito pra isso?”
“Era pra ser mais misterioso,” ela murmurou, visivelmente constrangida, puxando o capuz pra trás de vez, aceitando a derrota naquele aspecto. “Mas enfim, não é esse o ponto.”
“Eu pensei que eu ia ser assassinado!” Ele ainda estava sorrindo, claramente se divertindo mais do que deveria com aquilo. “Tá, vai, fala.”
Samira respirou fundo, juntando o que restava de coragem, porque, agora que estava ali, não tinha mais como enrolar.
“Eu preciso conquistar a Milena… e você é o único que conhece ela de verdade e que pode me ajudar.”
Juliano piscou de novo, mas dessa vez a reação foi diferente, o riso diminuindo aos poucos enquanto a expressão dele se tornava mais compreensiva, como se finalmente tudo estivesse fazendo sentido.
“Tá explicado,” murmurou, quase mais pra si mesmo do que pra ela.
Samira se inclinou um pouco mais sobre a mesa, apoiando os cotovelos enquanto falava, deixando escapar toda a frustração acumulada de uma vez só.
“Eu já tentei… tipo, não tentei de verdade, mas tentei tentar, e deu tudo errado, e agora eu preciso saber onde ela vai estar, o que ela gosta, qualquer coisa que ajude, porque eu não posso simplesmente aparecer do nada e—”
“Calma,” Juliano interrompeu, segurando o riso mais uma vez, levantando levemente a mão. “Respira.”
Ela respirou, ainda meio descompassada, como se nem isso estivesse funcionando direito.
Ele apoiou o queixo na mão, observando ela por alguns segundos com mais atenção, como se estivesse tentando entender melhor a situação antes de responder.
“Tu gosta dela há quanto tempo?”
Samira hesitou, desviando o olhar por um instante. “Tempo suficiente.”
“Beleza,” ele respondeu, assentindo devagar, como se aquilo já explicasse bastante coisa. “Olha… por coincidência, a gente vai numa festa quinta-feira. Eu, a Milena, a Ana Paula…”
Ele deu de ombros, como se não fosse nada demais. “Tu podia aparecer.”
“Assim? Do nada?”
“Não é do nada,” ele respondeu, simples, com um leve sorriso de canto. “Agora tu tem informação privilegiada, se souber usar isso direito, tu consegue o que quer.”
Samira ficou em silêncio por um momento, absorvendo aquilo, sentindo a ansiedade ainda presente se misturar com algo novo, mais leve, quase uma expectativa que ela não queria admitir em voz alta.
E, pela primeira vez desde que tudo tinha começado a dar errado, parecia que talvez, só talvez, ela tivesse uma chance de fazer alguma coisa dar certo.
Uma festa com a Milena.
E, pior ainda, com a possibilidade real de alguma coisa finalmente acontecer, o que, por algum motivo, era muito mais assustador do que quando tudo só dava errado.
O dia até quinta passou arrastado de um jeito estranho, como se o tempo estivesse lento demais quando ela queria que corresse, mas rápido demais sempre que ela começava a pensar demais.
Samira tentou agir normalmente, mas “normal” virou um conceito meio distante quando, a cada intervalo de silêncio, a mente dela voltava pro mesmo ponto: o que dizer, como agir, até onde ir sem estragar tudo antes mesmo de começar.
Em mais de uma ocasião, ela se pegou encarando o próprio reflexo sem realmente ver, testando expressões como se aquilo fosse ajudar em alguma coisa, um sorriso mais leve, menos óbvio, talvez um ar mais casual, e desistindo logo depois, irritada consigo mesma por estar pensando tanto.
No dia da festa, nada parecia certo.
As roupas que ela normalmente usaria pareciam simples demais, como se não dissessem nada, mas qualquer tentativa de escolher algo “melhor” começava a parecer forçada, como se estivesse tentando ser alguém que não era.
Depois de trocar de roupa mais vezes do que gostaria de admitir, acabou parando no meio do quarto, cercada por opções descartadas, soltando o ar devagar enquanto passava a mão pelo rosto.
“Tá, chega…” murmurou, mais pra si mesma do que qualquer outra coisa.
No fim, escolheu algo que ficava no meio do caminho, uma mini saia amarela que marcava o suficiente sem chamar atenção demais, um cropped azul um pouco mais ajustado, com um decote na barriga, e nos pés sua bota branca que chegava até o joelho, uma de suas botas mais chamativas.
O cabelo deu mais trabalho do que deveria. Ela tentou deixar natural, depois tentou arrumar, depois voltou atrás, passando os dedos pelos fios num gesto quase automático até decidir parar de mexer antes que piorasse. No fim, ficou daquele jeito meio propositalmente desarrumado, como se tivesse sido fácil, mesmo não sendo.
Quando saiu de casa, ainda não se sentia pronta.
O som vinha de dentro antes mesmo dela atravessar a porta, grave o suficiente pra ser sentido no corpo, misturado com vozes, risadas e aquele tipo de energia caótica que fazia tudo parecer um pouco mais intenso do que realmente era. Assim que entrou, as luzes mais baixas e coloridas criaram sombras e movimentos que dificultavam reconhecer qualquer pessoa de imediato, o que deu a ela alguns segundos de respiro, um intervalo curto onde ninguém estava olhando diretamente, onde ela ainda podia fingir que só estava de passagem.
Ela parou perto da entrada, os olhos percorrendo o ambiente devagar, tentando se localizar. Pessoas conversando em grupos, outras dançando sem muita preocupação, algumas encostadas nas paredes, absorvidas em conversas mais baixas.
Por alguns instantes, ela só observou, como se precisasse entender o ritmo antes de tentar acompanhar. O coração ainda estava um pouco acelerado, não exatamente por medo, mas por aquela expectativa constante que não deixava ela relaxar completamente.
Então, quase sem perceber, encontrou.
Milena estava mais ao fundo, perto de um dos grupos maiores, rindo de alguma coisa que alguém tinha dito, o corpo levemente inclinado pra frente, completamente à vontade, como se aquele ambiente tivesse sido feito pra ela, ou como se ela simplesmente soubesse ocupar qualquer espaço sem esforço.
A luz colorida passava pelo rosto dela em intervalos irregulares, destacando expressões que Samira conhecia bem, ou pelo menos achava que conhecia, mas que, ali, pareciam diferentes de um jeito difícil de explicar.
Milena, que normalmente usava o cabelo preso, hoje estava com o cabelo afro solto.
E isso, sozinho, já foi o suficiente para prender a atenção de Samira por mais tempo do que ela gostaria de admitir.
Por um momento, ela não fez nada além de olhar.
Se pegou imaginando, quase sem perceber, como seria passar as mãos por aqueles fios, sentir o volume, a textura, o movimento, o tipo de pensamento que veio rápido demais, íntimo demais, fazendo ela desviar o olhar por um segundo antes de voltar, como se não conseguisse evitar. Também reparou na camisa de flanela que Milena usava, em tons neutros que, de alguma forma, pareciam feitos pra ela, ressaltando ainda mais os olhos castanhos de um jeito sutil, mas impossível de ignorar.
Samira sentiu algo apertar no peito, não exatamente ruim, mas intenso o suficiente pra deixar claro o quanto aquilo tudo importava mais do que ela queria admitir.
Ela soltou o ar devagar, desviando o olhar por um segundo, como se precisasse se reorganizar antes de tentar qualquer coisa, como se precisasse lembrar o próprio corpo de como se mover sem parecer tão consciente de tudo.
“Você consegue, Samayra.” murmurou, quase sem som, mais uma tentativa do que uma certeza.
Mas não foi.
Em vez disso, começou a andar sem direção muito definida, passando pelas pessoas com cuidado, como se estivesse só circulando, dando a si mesma mais alguns minutos, ou talvez coragem, antes de realmente chegar até ela.
Aos poucos, o ambiente ia deixando de parecer tão estranho, como se ela estivesse finalmente se ajustando ao ritmo da festa.
Samira passou reto pela mesa de bebidas. Não iria convidar Milena para um encontro enquanto estivesse bêbada, se fosse fazer aquilo, queria estar completamente consciente, sem desculpas e sem atalhos.
Ela decidiu se distrair por um momento, tentando aliviar a pressão que ela mesma estava criando. Acabou se juntando à pista de dança, encontrando alguns rostos familiares que logo se aproximaram, puxando conversa, rindo, envolvendo ela naquele movimento constante que, por alguns instantes, ajudava a esquecer o resto.
Mas não completamente.
E, sem precisar procurar muito, ela sabia exatamente onde olhar.
Foi quase automático. No meio de uma risada que ela nem tinha certeza se era sincera, o olhar escapou de novo, atravessando o espaço entre corpos, luzes e movimento, até encontrar o mesmo ponto de antes.
Milena ainda estava lá, mas, dessa vez, não estava exatamente igual.
O grupo tinha mudado um pouco, algumas pessoas saíram, outras se aproximaram, e ela parecia ainda mais à vontade, como se o tempo dentro daquele ambiente funcionasse diferente pra ela. A camisa de flanela agora estava levemente aberta na gola, provavelmente por causa do calor, e o cabelo solto se movia com mais liberdade conforme ela se mexia.
Samira percebeu que estava olhando tempo demais e desviou, não adiantou muito.
Sem perceber direito quando decidiu, Samira simplesmente saiu da pista, passando pela multidão com mais facilidade dessa vez, como se o corpo já tivesse se acostumado ao ambiente. Não olhou para trás, não procurou de novo, pelo menos tentou não procurar, só seguiu em direção a um lugar mais afastado, onde o som chegava mais baixo, abafado pelas paredes.
O corredor lateral estava quase vazio.
A luz era mais fraca, mais estável, sem as cores piscando o tempo todo, e o silêncio relativo parecia estranho depois de tanto barulho. Samira encostou levemente na parede, soltando o ar devagar, passando a mão pelo rosto de novo, como tinha feito mais cedo, tentando se reorganizar.
Ficou ali por alguns segundos, talvez mais, sem fazer nada além de respirar e tentar colocar os pensamentos em ordem, como se precisasse se lembrar do motivo de estar ali sem transformar aquilo em algo impossível.
Foi então que ouviu passos.
Primeiro baixos, depois mais próximos.
Samira virou o rosto por reflexo, e travou por um segundo.
Milena estava lá.
Ela também parecia ter acabado de sair da festa, o cabelo ainda solto, um pouco mais bagunçado agora, a expressão mais relaxada, como se também estivesse procurando um respiro longe do barulho. Por um instante, nenhuma das duas disse nada, só se encararam, pegas meio de surpresa pela coincidência.
“Oi…” Milena falou primeiro, com um leve sorriso, ainda meio incerto, como se estivesse tentando entender o que Samira estava fazendo ali.
Samira demorou meio segundo pra responder, ainda se ajustando à situação.
“Oi.”
Um silêncio curto se instalou, não exatamente desconfortável, mais inesperado do que qualquer outra coisa.
Milena deu mais alguns passos na direção dela, parando a uma distância tranquila, encostando de leve na parede oposta.
“Cê tá se divertindo?” perguntou, num tom leve, quase casual.
“Sim. Eu precisava de um pouco de ar.”
Ela assentiu devagar, como se entendesse perfeitamente.
“Eu também.”
Outro silêncio, dessa vez mais fácil e mais confortável.
Samira olhou pra ela por um instante, de verdade agora, sem a distância da festa, sem gente no meio, sem distrações. Era diferente ali, mais simples e direto, por algum motivo, isso ajudava.
“Não sabia que cê vinha,” Milena comentou depois de alguns segundos, inclinando levemente a cabeça.
“Também não sabia que tu vinha,” Samira respondeu, quase automático, mentiu fácil demais, e, assim que percebeu, deixou escapar um pequeno sorriso, mais sincero dessa vez.
Milena riu baixo.
“Tu parecia bem feliz hoje… com teus amigos,” Samira comentou, tentando soar casual, mesmo não sendo totalmente.
Milena ergueu uma sobrancelha, um sorriso surgindo de lado.
“Você estava me observando agora?” brincou e Samira sentiu o rosto esquentar na hora.
“Não! Não… claro que não.”
A resposta saiu rápido demais para ser convincente, e ela percebeu isso no mesmo instante.
Milena deixou o silêncio durar só o suficiente pra tornar a reação da Samira mais evidente, o canto da boca ainda levemente curvado, como se estivesse guardando um comentário que não precisava dizer em voz alta.
“Uhum,” murmurou, sem muita pressa.
Samira soltou um pequeno riso pelo nariz, desviando o olhar por um instante, mais por hábito do que por vergonha.
“Tá… talvez eu tenha olhado um pouco,” admitiu, mexendo de leve na barra da própria saia, como se aquilo desse alguma ocupação pras mãos.
“Um pouco?” Milena repetiu, com uma sobrancelha levemente arqueada.
Samira voltou o olhar pra ela, agora com um meio sorriso mais honesto.
“Tá, mais que um pouco.”
Milena não respondeu na hora, só sustentou o olhar por um segundo a mais, como se estivesse analisando, e depois soltou um riso baixo, sem pressão, sem julgamento.
Samira olhou para a mulher por mais tempo que o necessário, agora notando o jeito que o cabelo da Milena caía, um pouco mais bagunçado do que antes, alguns fios fora do lugar, como se ela tivesse passado a mão ali várias vezes sem perceber e a forma como sua mão se escondia sobre o bolso da calça jeans.
Até a maneira como ela apoiava o peso do corpo em um lado só, relaxada, como se não estivesse pensando em absolutamente nada.
Diferente dela.
“Tu gosta disso, né?” Milena comentou depois de um tempo, o olhar indo na direção da festa antes de voltar.
“Do quê?”
“De festas.”
Samira soltou um riso curto. “Gosto.”
E gostava mesmo. Normalmente, aquele tipo de ambiente era fácil, natural, ela não precisava pensar em cada movimento, em cada palavra, em como estava sendo percebida.
“É. Dá pra perceber,” Milena respondeu, com um pequeno sorriso.
Samira inclinou levemente a cabeça.
“E tu não?”
Milena fez uma expressão breve, quase um meio sorriso misturado com uma careta.
“Eu gosto… por um tempo.”
“E depois foge?”
“Mais ou menos isso.”
Milena ficou em silêncio por um instante, os olhos se desviando como se tivesse lembrado de alguma coisa.
“Na verdade, eu só vim pra cá porque a Ana Paula não parava de me incomodar hoje,” comentou, apoiando melhor as costas na parede.
Samira não respondeu de imediato, só ficou ali, ouvindo, prestando atenção mais do que o normal em cada detalhe, no tom, no jeito despreocupado que não parecia totalmente despreocupado.
“Ela tá meio obcecada em me arrumar alguém,” continuou Milena, num tom que misturava diversão com um leve cansaço.
“É mesmo?”
“Uhum,” ela respondeu, olhando pro chão por um segundo antes de voltar. “Agora inventou que eu preciso de um encontro de Dia dos Namorados.”
Samira bufou baixo, encostando melhor o corpo na parede, mais por reação do que por decisão, sem perceber o olhar de Milena demorando um pouco mais nela, as sobrancelhas levemente franzidas, como se estivesse tentando entender.
“Qual o problema?” Milena perguntou. “Não gosta do Dia dos Namorados?”
“Claro que gosto,” Samira respondeu, rápido demais no começo, mas desacelerando logo depois, o olhar voltando pra ela. “É que…”
Ela hesitou.
“A pessoa que eu queria chamar pra sair é meio… impossível,” disse, tentando soar leve, mas sem conseguir esconder completamente. “E todas as minhas tentativas de fazer isso deram errado, então eu acho que eu vou acabar passando o dia vendo um filme triste.”
Milena ficou em silêncio por um instante, olhando pra ela com mais atenção agora.
“Acredita que a Ana disse que eu ia fazer a mesma coisa?” comentou depois, desviando o peso do corpo de um lado pro outro. “Se eu não arranjasse um encontro.”
“Ela está bem confiante nisso.”
“Ela é.” Milena deu um pequeno sorriso. “Mas também… é uma pena que essa mulher tenha recusado.”
Samira franziu levemente a testa, sem entender de imediato.
“Você não é exatamente alguém de se jogar fora. Pelo menos foi isso que a Ana Paula disse.”
Aquilo pegou ela desprevenida.
“Capaz…” respondeu, quase automático, um pouco sem saber o que fazer com aquilo. “Eu nem sabia que a Ana tinha uma opinião sobre mim, muito menos uma boa.”
Milena soltou um riso baixo. “Cê tá falando sério?”
“Uhum.”
“Ela fala de você o tempo todo,” continuou, mais tranquila agora. “Você é a atendente favorita dela lá no bar.”
Samira piscou, surpresa de verdade dessa vez. “Ela me dá gorjeta…” começou, pensativa, e então riu. “Eu achei que ela fazia isso com todo mundo.”
“Não faz.”
Ela balançou a cabeça de leve, ainda meio sem acreditar, mas com um sorriso pequeno surgindo.
“Bom… então eu tava completamente por fora.”
A de cabelos loiros desviou o olhar por um segundo, passando a língua levemente pelos lábios, como se estivesse organizando alguma coisa na cabeça antes de falar de novo.
“Mas é uma pena mesmo,” murmurou, voltando o olhar pra Milena. “Eu podia ter te convidado…”
Ela deu de ombros, tentando manter o tom leve. “A Ana Paula ia ficar satisfeita, pelo menos.”
A tentativa de ironia ficou ali, mas não teve o efeito esperado.
Milena não riu. Em vez disso, só ficou olhando pra ela.
“Foda-se.”
Samira franziu a testa, um pouco confusa.
“Foda-se?”
Milena soltou o ar pelo nariz, desviando o olhar por um instante, como se estivesse tomando uma decisão ali mesmo. Quando voltou, tinha algo diferente.
“Sim, foda-se,” repetiu, mais baixo agora, mas mais firme.
Ela deu um pequeno passo pra frente, diminuindo um pouco a distância entre elas sem fazer disso um grande gesto.
“Samira…”
Milena chamou, a voz um pouco mais baixa dessa vez, como se o próprio nome já carregasse mais coisa do que antes.
Ela hesitou. Não foi um silêncio longo, mas foi o suficiente para mostrar que aquilo não estava saindo tão fácil quanto ela queria fazer parecer.
“Você quer ir num encontro comigo no Dia dos Namorados?”
Por um segundo, Samira não reagiu. O cérebro demorou a acompanhar o que tinha acabado de acontecer, como se as palavras tivessem chegado primeiro e o sentido delas viesse só depois, devagar, se encaixando peça por peça.
E aí veio tudo de uma vez.
Ela soltou, meio alto demais, quase um susto escapando junto, o corpo reagindo antes dela conseguir controlar. Acabou dando um pequeno pulo pra trás, a mão indo automaticamente pro peito como se isso fosse ajudar a segurar o coração, que agora batia rápido demais, descompassado, impossível de ignorar.
Milena arregalou levemente os olhos com a reação, claramente não esperando aquilo naquele nível.
“Meu Deus,” murmurou, soltando um riso curto, mais de nervoso do que de humor.
Os olhos indo de um lado pro outro por um segundo, voltando pra Milena, desviando de novo, como se encarar direto tornasse tudo ainda mais real.
“Tu—” ela começou, parando no meio. Respirou fundo, passando a mão pelo cabelo, bagunçando um pouco mais do que já tava. “Tu tá falando sério?”
Milena inclinou levemente a cabeça, observando ela agora com mais calma, mas ainda com um resquício de tensão nos ombros.
“Eu não ia brincar com isso,” respondeu, simples.
Aquilo não ajudou a acalmar.
Na verdade, fez o coração da Samira acelerar mais.
Ela soltou uma risada, sem muito controle, balançando a cabeça como se estivesse tentando organizar os próprios pensamentos, mas claramente falhando.
Deu um passo pro lado, depois voltou, como se nem soubesse pra onde ir com o próprio corpo naquele momento.
“Eu—”
Ela parou de novo e olhou pra Milena, dessa vez de verdade.
“Eu passei tipo… dias tentando pensar em como te chamar pra sair,” confessou, soltando o ar, ainda meio incrédula. “E tu simplesmente—” fez um gesto vago com a mão, como se aquilo resumisse tudo. “Tu só… falou.”
Milena deu de ombros, um grande sorriso aparecendo no canto da boca.
“Funcionou, não funcionou?”
Samira ficou em silêncio por um segundo, o coração ainda acelerado, mas agora por outro motivo.
“Funcionou,” respondeu, mais baixo dessa vez.
E então, quase como se tivesse medo de perder o momento se demorasse mais:
“Eu quero.”
“Beleza. Okay. Legal.” Milena murmurou.
O jeito meio travado fez Samira soltar um riso, daqueles que saem sem pedir permissão, mais leve do que qualquer coisa que ela tinha sentido nos últimos minutos.
“Tu tá nervosa?” ela perguntou, inclinando um pouco a cabeça, agora mais curiosa do que tensa.
Milena soltou o ar pelo nariz, desviando o olhar por um instante antes de voltar.
“Um pouco,” admitiu, dando de ombros como se não fosse nada demais, mas claramente sendo.
Isso fez alguma coisa dentro da Samira acalmar.
Porque, de repente, não era só ela.
“Eu também,” ela respondeu, quase no mesmo tom, sem tentar esconder.
Ficaram em silêncio por um momento, mas dessa vez não tinha peso nenhum, só um tipo de tranquilidade nova, como se as duas tivessem passado por alguma coisa juntas ali, mesmo que pequena.
Milena acabou soltando um riso baixo, balançando a cabeça.
“Isso foi bem menos planejado do que eu achei que ia ser.”
“Tu planejou?” Samira provocou, com um sorriso de canto.
“Não,” ela respondeu na mesma hora, deixando escapar um sorriso de volta. “Mas achei que ia parecer que sim.”
Samira riu de novo, mais solta agora, cruzando os braços de leve enquanto observava ela por um segundo a mais.
“Bom… funcionou mesmo assim.”
Milena sustentou o olhar dessa vez, sem desviar.
“Funcionou,” repetiu.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, nenhuma das duas parecia com pressa, nem tentando controlar o que vinha depois.
“Então…” Samira começou, meio incerta, mas sem perder o sorriso. “A gente vai mesmo sair no Dia dos Namorados.”
“Vai,” Milena confirmou, simples.
Um pequeno silêncio se instalou.
Samira assentiu devagar, como se estivesse registrando aquilo de verdade.
“Tá,” murmurou. “Eu vou precisar de um plano melhor dessa vez.”
Milena arqueou levemente a sobrancelha.
“Ah, então você já tinha um?”
“Talvez,” Samira respondeu, com um meio sorriso. “Mas claramente não funcionou.”
Milena riu baixo, se aproximando só um pouco mais, o suficiente pra diminuir aquela distância que antes parecia maior do que realmente era.
“Bom… agora você tem outra chance.”
Samira olhou pra ela por um segundo, dessa vez sem desviar, sem pensar tanto.
“Tenho.”
E ficou por isso mesmo.
Sem pressa, sem conclusão perfeita, sem precisar de mais nada naquele momento, só a certeza tranquila de que aquilo não acabava ali.
E que, na verdade, tudo estava só começando.
