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O tio de Kalim não era um homem honesto. Ainda assim, era um Asim respeitado e importante para as negociações com tecelões. Um dos irmãos mais distantes do pai de Kalim, que aparecia a cada 3 anos com um ritual que ele mesmo inventou.
Exigia do pai de Kalim uma troca de propriedade quando visitavam a casa um do outro. Era seu jeito de conquistar riquezas da família, enquanto presenteava seu irmão com seda cara. O mestre da casa Asim menosprezava esse ato, porém não discutia, pelo bem do relacionamento deles.
Neste ano, o tio avisou que o visitaria e pediu como presente uma serva jovem para cuidar de crianças e um servo cozinheiro, já que o seu faleceu “inesperadamente”. Por isso, Jamil pediu para voltar para casa com Kalim, a fim de se despedir de sua irmã, a serva escolhida.
Kalim soube da notícia por Jamil, porque seus pais evitavam ao máximo deixá-lo em contato com o tio. Em NRC ele estaria mais seguro, mas, notando o olhar chateado que Jamil tentava disfarçar, nem pensou duas vezes antes de concordar. Então, Jamil poderia passar dois dias aconselhando sua irmã, enquanto o homem ainda não fosse embora.
Quando chegaram em Escaldants Sands, Jamil ficou mil vezes mais em alerta. Precisou dividir sua atenção em cada passo de Kalim e nos olhos lacrimejados de Najma, até porque o tio abria um sorriso podre para Kalim sempre que cruzavam os caminhos e fazia questão de apertar sua mão bem forte.
Aquilo enojava Jamil; ele estava prestes a cortar as mãos do homem, não apenas pela ousadia de querer tocar em sua irmã, mas também por esfregar as unhas sujas na túnica recém-lavada de seu mestre.
Até que finalmente os sorrisos falsos foram deixados de lado e, o poderoso segundo Asim, fez uma proposta para Kalim: queria levá-lo para a Toca naquela noite.
A Toca, para você que não conhece o centro de entretenimento de Escaldants Sands, é um estabelecimento muito conhecido por receber apenas a elite. Todas as noites, ricos solteiros iam até o local para assistirem danças e estarem na companhia de lindas mulheres.
Naquela noite, o tio de Kalim levou seu sobrinho e mais um amigo num carro enorme, polido e escuro. Jamil se obrigou a estar com eles, ao invés de acompanhar o comboio de seguranças, o que foi desesperadamente apoiado por Kalim. O jovem de cabelos brancos grudou seus ombros, rindo abertamente para seu tio enquanto ouvia histórias desconhecidas e irrelevantes.
Jamil conseguiu uma breve oportunidade de sussurrar para Kalim tomar cuidado, ao passo que foi respondido com um sorriso nervoso. Kalim sabia o que estava acontecendo e, ainda assim, não conseguia encontrar forças para se afastar de um familiar como aquele. O tio dele era poderosamente manipulador, carismático e era o primeiro a distorcer tudo o que era dito. Kalim estava sem saída.
Apesar da leve revirada de olhos, Jamil entendia e sentiu até mesmo pena daquele medroso. O que ele não poderia negar é que seu coração estava apertado, martelando cada possibilidade das coisas darem errado.
Assim que desceram na calçada da Toca, Kalim se distraiu com as luzes, abrindo a boca impressionado por um bar parecer tão discreto e, ao mesmo tempo, tão chamativo. O tio lhe puxou pelos ombros, forçando sua entrada entre dois seguranças locais. Jamil tentou se apressar, mas os seguranças o barraram.
— Ah, que pena — a voz do tio estava virada para trás — servos não são bem-vindos.
Kalim encontrou os olhos de Jamil raivosos e tensos. Tentou esticar a mão para seu antigo amigo, mas não conseguiu evitar outro puxão que seu tio lhe deu, entrando no estabelecimento escuro e sozinho.
Jamil deu um passo de recuo, acalmando seus sentimentos. Porque sabia que o tio o impediria, precisava parecer desesperado e bravo. Mas, na verdade, estava mais do que pronto, graças ao alerta que o pai de Kalim o fez. Com um plano de improviso em mente, decidiu dar a volta pelo estabelecimento, procurando por entradas laterais ou nos fundos.
Felizmente, achou uma porta destrancada, que o recebeu com uma música abafada e baixos sons de risos. Jamil esgueirou-se pelo corredor semi-escuro, até que estivesse próximo do salão principal.
A Toca era espaçosa, escura e muito barulhenta. Havia vários homens sentados ou em pé, rindo alto com bebidas em mãos. Ninguém pareceu notar um adolescente agachado no canto do corredor, mas não poderia contar com a sorte por muito tempo. Observou em volta, notando que não havia muitos funcionários, e curiosamente, nem funcionárias.
Jamil mordeu os lábios, sem sinal da cabeleira branca que procurava. Ele precisava de um jeito de andar entre o salão sem ser percebido, mas não conseguiria se encaixar entre os ricos com tecidos caros, joias exageradas e notas de dinheiro em mãos, por algum motivo.
O jeito era olhar a bolsa marrom que recebeu.
Antes de entrar no carro com Kalim, Jamil foi chamado pessoalmente pelo pai dele para uma conversa em seu escritório. Entre tantos suspiros de desagrado, ele foi direto ao ponto, sabendo que o que lhe preocupava também preocupava a Jamil:
— Ele não quer que você vá — disse o pai de Kalim.
Jamil sentia-se mais solitário do que nunca no escritório do mestre Asim. Nunca era convidado a entrar, a não ser por situações extremas, e aquela era uma delas. O rapaz mantinha o olhar sereno e calmo, ainda assim.
— Não pude impedi-lo de levar meu filho para aquele lugar repugnante, mas pelo menos consegui que prometesse não deixar Kalim longe de você, Jamil — aquelas palavras não faziam o mínimo sentido para o jovem, até porque o mestre Asim mandava até na direção que o vento corria — obviamente ele não irá me escutar.
Jamil o analisava em silêncio, esperando que tivesse sua vez de falar. O pai de Kalim acenou para o conselheiro da casa, que se aproximou com uma bolsa marrom transversal. A bolsa foi entregue para Jamil com um olhar nervoso de ambos os homens.
— Ele barrará sua entrada, impedirá que chegue perto da Toca — o pai pigarreou encarando a bolsa — acredito na sua inteligência para se infiltrar, Jamil. Mas, em todo caso, use isso como… como um plano B, sim — seus olhos finalmente se prenderam ao do jovem — não deixe meu filho sozinho com aquele homem.
— Sim, mestre — abaixou a cabeça, tentando entender por que a pequena bolsa parecia leve.
Vestiu o item na lateral do corpo em frente ao seu mestre e demonstrou confiança com o que estava ali dentro. Iria investigar mais tarde, por agora precisava encontrar Kalim e mantê-lo por perto pelo máximo de tempo possível. Jamil não sabia do que o tio seria capaz, mas os planos, a atitude e a reação do mestre da casa eram justificativas o bastante para preocupar cada nervo dele.
No fim, não teve tempo de examinar a bolsa, então era agora ou nunca.
E sim, acertou quem disse que ali havia uma saia.
Jamil levou um grande susto com o conteúdo, uma fantasia completa de dançarina, inclusive feita com seda de altíssima qualidade. Olhou em volta, tentando se manter discreto, e viu a porta do que parecia um banheiro masculino.
Tentou modelar qualquer outro plano, qualquer outra ideia, mas nada veio tão rápido quanto o que tinha em mãos. Disfarçado daquela forma, poderia andar pelo salão e se manter em uma posição segura perto de Kalim. Seu tempo estava passando e quanto mais tempo levava para decidir o que fazer, mais próximo o tio poderia estar de seu protegido.
Encontrou o banheiro convenientemente vazio, agradecendo por ser o começo da noite ainda, então com poucos bêbados por aí. Se trocou, enfiando suas roupas na minúscula bolsa e a fazendo desaparecer com magia. Respirou fundo antes de sair do banheiro e ter a visão do inferno do espelho bem à sua frente.
Jamil estava… até que bonito. E isso genuinamente o surpreendia. Os tecidos que envolviam seu corpo não eram tão coloridos quanto os das outras meninas, se mantendo no neutro e no dourado. Seus braços estavam cobertos, sua barriga aparecendo cerca de um dedo apenas e suas pernas completamente cobertas até os pés descalços. Decidiu soltar seu cabelo para não deixar Kalim o reconhecer tão fácil e estragar seu disfarce, mas caiu na tentação de fazer algumas tranças laterais com um estalar de dedos.
Enquanto seu cabelo trançava sozinho, ouviu uma música diferente ecoar, então puxou o lenço que cobria metade de seu rosto e se apressou, torcendo para que Kalim estivesse bem.
Na verdade, ele estava. Kalim ficou bem desolado quando perdeu Jamil de vista na entrada da Toca, mas fingiu uma calma surreal para seu tio. Tentou se afastar do aperto que sentia, do braço em volta de seus ombros e do bafo que lhe deixava desconfortável.
Aquele tio era… uma pessoa suspeita até mesmo para Kalim, desde sempre. Nunca permitiu que a desconfiança impedisse a sua vida, mas aquele homem? Seus olhos brilhavam para as riquezas de seu pai, debochava quando media Kalim dos pés à cabeça, e o pior de tudo eram os comentários ácidos que fazia sobre Jamil ou outros servos.
Kalim definitivamente não gostava de seu tio, mas já havia tido essa conversa com seu pai, era tudo pelo bem das relações.
— E então, meu sobrinho querido — Kalim estava sentado ao lado do homem, com a cadeira virada para frente, sem ter certeza para onde deveria estar olhando — espero que se divirta hoje, pedi pessoalmente para os donos prepararem o melhor para o melhor! Aproveite, Kalim!
— A-ah, obrigado, tio… — sorriu sem graça, sem entender nada.
Então, no meio daquela confusão de pessoas e luz baixa, uma música mais alta e agradável começou a tocar. Em pouco tempo, o salão que havia apenas homens bebendo agora estava sendo preenchido por mulheres. Muitas e muitas mulheres bonitas balançando os quadris invadiam o salão, percorrendo os dedos finos pelas túnicas caras e fazendo os barbados baterem palmas.
Algumas carregavam bebidas, outros lenços longos e coloridos, trazendo vibração e alegria. Kalim se encantou pela quantidade de pessoas, um pouco mais também com as danças, mas principalmente com a animação que o lugar ia tomando. Seu tio ria alto, e ainda assim sendo abafado pela música animada.
Kalim pensou por um segundo que gostaria de um dia ser anfitrião de festas tão animadas quanto aquelas, no entanto, se arrependeria em breve desse pensamento.
O jovem ria nervoso conforme as moças desconhecidas trocavam olhares com ele, realmente queria estar mais relaxado naquele lugar enigmático. Kalim desviava o olhar de tempos em tempos, torcendo para irem embora logo que seu tio se cansasse.
No entanto, quando desviou de novo, viu algo que prendeu sua atenção. Era uma dançarina diferente de todas as outras, longe dele, balançando e se dobrando para trás com uma flexibilidade afetuosa. Ela olhou diretamente para Kalim, não como as outras moças tentaram antes, não, ela olhou diretamente no fundo dos olhos de Kalim, para sua alma praticamente.
E pelo jeito que suas íris cinzas reluziram, parece que foi tão capturada quanto Kalim. Quero dizer, na mente de Kalim, era isso que estava acontecendo.
Mas, para Jamil, que estava dançando e se arrastando por aí para encontrar Kalim, aquilo foi mais como um alívio por finalmente o ter em seu campo de visão. Jamil balançava as mãos na frente do rosto, analisando o tio alheio, mexendo com outras dançarinas. Se virou, pretendendo disfarçar sua presença para Kalim, porém ao voltar para frente, ainda via os olhos vermelhos arregalados para si.
“O que aquele idiota tá olhando? …” — pensava, fechando os olhos irritados.
— E então, sobrinho, alguém te chamou a atenção? — O tio se inclinou rindo, pegando Kalim no salto. O rapaz de cabelo branco ficou tímido de repente, negando, ainda assim não conseguia tirar os olhos de Jamil, que continuava dançando e se aproximando lentamente. Claro, o tio notou perfeitamente para quem Kalim olhava — aquela ali? Ah… ela parece bem jovem…
Kalim negou alguma coisa, com as bochechas ficando coradas. O tio sorriu maliciosamente e esticou a mão na direção de Jamil. Fez um sinal com os dedos, mandando — ordenando — que se aproximasse de Kalim. Jamil sentiu seu estômago embrulhar, mas não deixou que os movimentos cessassem, caminhando firme em direção a Kalim.
Enquanto isso, o coração de Kalim iria sair pela boca. Se já estava achando a moça bonita de longe, de perto era mais ainda. Mais presente, mais seduzente e muito elegante. Mesmo com o rosto coberto, Kalim poderia dizer facilmente que ela sorria, aproximando-se como uma serpente cuidadosa por sua presa.
Jamil evitou trocar um olhar com o tio, focando apenas em Kalim boquiaberto. De certa forma, ele conseguiu o que queria: estar bem perto de seu protegido, pronto para o que fosse necessário. Mesmo assim, queria evitar a humilhação da situação, então encarnou seu papel, torcendo para que Kalim não desconfiasse sob a luz baixa.
Levantou as mãos, mexeu o quadril, girou, admirando-se pela improvisação bem feita. Deixou que a música tomasse conta de seus movimentos, virando-se para um Kalim corado e extremamente vidrado na performance. Jamil não esperava que o outro fosse tão ingênuo a ponto de ficar apenas de boca aberta assistindo, ainda assim sentia-se bem, por alguma razão.
Suas mãos esticavam o lenço em direção a Kalim, dando mais movimento e o distraindo casualmente de seu rosto. Jamil sentia-se exposto, apesar de estar acostumado a dançar com Kalim, aquilo estava em outro patamar, ele estava se dedicando numa dança sensual, achando graça do olhar bobo que provocava. Pelo canto do olho, no entanto, se atentou a uma movimentação perigosa.
Pensou rapidamente se valia a pena se revelar, porém, meio que não queria. Então, Jamil se inclinou um pouco para Kalim, o deixando mais envergonhado, e percorreu os dedos levemente pela lateral de seu rosto.
Ambos se arrepiaram com o toque leve, mas Jamil se conteve, usando o indicador para empurrar o queixo de Kalim na direção do tio.
Kalim, que estava avoado e sentindo o coração bater forte, precisou de um segundo para analisar a imagem que pegou. O tio estava sendo servido por uma dama, com um copo bem cheio de uma bebida rosada. Quando ela terminou, a mão traiçoeira contornou a beirada do copo e algo borbulhou logo abaixo. Kalim arregalou os olhos, sentindo-se grato pelas vezes que Jamil o ensinou a notar bebidas alteradas ou o efeito efervescente de alguns medicamentos.
Foi tão rápido e tão discreto que Kalim abriu a boca, mas Jamil puxou seu queixo de volta para si. Kalim teve um instante de crise, mas mordeu o lábio inferior, soltando o ar pelo nariz. Uma mistura de adrenalina pela situação de risco e pelas mãos elegantes que o atraíam.
— Aqui está, meu sobrinho querido! — O tio enfiou o copo entre eles — relaxe e aproveite!
— Obrigado, tio, mas não bebo — respondeu nervoso, empurrando com a palma da mão.
— Como é?! — riu para o amigo próximo deles — deixe de frescura, rapaz, está em casa!
— Estou me guardando, quando for mais velho, será melhor!
O tio entortou os lábios, inalando profundamente. Kalim pressionou os lábios numa linha fina, com medo de que qualquer mísera gota do copo pudesse voar para sua boca. Quando o mais velho abriu a boca para tentar seu joguinho de palavras, Jamil o interrompeu, puxando silenciosamente a mão de Kalim para cima.
O herdeiro se assustou quando seus dedos se entrelaçaram, mas seu corpo reagiu tão instintivamente para o outro que não perdeu o equilíbrio. Em pé, descobriu que a moça era mais alta que ele, e era como se esse detalhe tivesse o atraído mais um pouco.
Talvez esse fosse o tipo dele, olhos cinzas, alta, cabelos longos e sedosos, dedos elegantes… e a lista continuaria conforme ele descobria detalhes sobre aquela jovem deusa.
Jamil, por outro lado, jogou o pano entre eles e começou com passos mais abertos e ritmados. Perdeu a mão da sensualidade e envolveu Kalim numa dança para ser feita a dois. Mexeu os ombros em sincronia com as sobrancelhas, convidando Kalim a se desvincilhar do tio idiota.
Seu convite foi aceito rápido demais, Kalim abriu um sorriso de ponta a ponta, que acertou direto no peito de Jamil. Como nenhum deles havia passado por isso antes, ou ao menos conheciam os passos feitos entre damas da noite e ricaços, acabaram que sincronizando uma dança própria.
Kalim esqueceu de tudo em volta, concentrado na bolha que Jamil criava entre eles, repetindo em mente que queria ficar para sempre dançando com essa deusa. Ria às vezes, provocando um sorriso em Jamil também. Eles estavam se divertindo, por mais que o mais alto não admitisse.
Enquanto isso, o tio observava ambos com uma sobrancelha torta. Queria amaldiçoar a menina, deixando o copo de lado. Então, esfregou a barba, procurando um funcionário com os olhos. O chamou para sussurrar algo, apontando discretamente para Kalim e… Jamil. Talvez ali houvesse uma oportunidade para ele.
O funcionário concordou, caminhando até Jamil para estourar a bolha mágica de dança e risadinhas. O funcionário segurou seu antebraço, falando em seu ouvido. Jamil sentiu-se quente, olhando rapidamente para Kalim. Ao mesmo tempo, o tio se escorou no sobrinho com um sorriso malicioso, envolveu seus ombros e o puxou para os fundos do salão.
Kalim sentia novamente estar perdendo uma parte de si quando foi arrastado para longe do conforto. Seu pensamento o fez buscar a porta, pensando se Jamil ainda o esperava na calçada. Balançou a cabeça, perguntando ao tio se estavam indo embora.
— Não, Kalim, a noite mal começou — ambos entraram num corredor cheio de portas, a música se tornou distante, deixando Kalim tenso.
O herdeiro tinha dois ou três feitiços em mente se precisasse agir. Ainda por ordem do pai, fugiria apenas em último caso. Surpreendentemente, nada de absurdo aconteceu. Apenas o tio abriu uma das portas, revelando um quarto mais iluminado e privativo, empurrou Kalim e sorriu, pedindo para esperar pelo seu presente.
A porta foi fechada na sua cara, então Kalim recuou nervoso, olhando em volta por sinais de perigo ou pontos de fuga. E, meio que havia uma janela ali.
No outro lado do corredor das portas, o funcionário acompanhava Jamil, sem o tocar, porque achou muito estranho que o braço da dama fosse duro e forte. Jamil primeiro foi escoltado para uma salinha de armazém, cheia de vinhos, copos limpos, toalhas e outros apetrechos que preferiu não encarar. O amigo do tio, aquele que os acompanhou durante o percurso todo, estava na sala, esfregando uma das garrafas.
— Vinho? — o funcionário perguntou ao homem, que tensionou os ombros.
— Sim! Este, aqui! — empurrou rapidamente a garrafa para as mãos de Jamil, que abaixou a cabeça para se manter discreto e o mais submisso possível — querida, você sabe quem é aquele garoto com quem dançava, não é? Um herdeiro muito importante para nosso país, portanto, leve esse vinho especial, divirta-o, faça bem o seu trabalho.
Jamil assentiu, fingindo timidez. O funcionário observou tudo sem contestar, podia ser um cúmplice, podia ser um segurança negligente, podia ser um desconhecido no lugar errado e na hora errada. Ainda assim, Jamil fez questão de gravar seu rosto, para vingar a tentativa estúpida contra a vida de seu mestre depois.
Quando finalmente foi colocado em frente à porta de Kalim, Jamil respirou fundo, nem um pouco mentalmente preparado para o que fosse acontecer. No melhor dos casos, faria Kalim dormir antes que se animasse, fugiria com ele, entregaria o tio para o mestre da casa… Ele tinha a prova do crime em mãos e uma habilidade de convencimento que iria ajudá-lo.
Entrou sozinho e fechou a porta atrás de si. O som fez Kalim congelar no lugar, ele estava tentando passar pela janela do quarto, que era mais estreita do que aparentava.
— T-tio… — se virou rápido, antes de se deparar com sua deusa com uma bebida — ó, é você!
Seu olhar se iluminou, deixando Jamil desconfortável por uma lista enorme de motivos agora. Jamil foi até a mesinha ao lado, deixando o vinho de lado por um instante.
— É... eu queria te agradecer pelo aviso, quero dizer, você estava me avisando, não é? — Kalim se aproximou tímido, querendo rever os olhos cinzas em si.
Jamil desviou os olhos para ele, parado no mesmo lugar. Se Kalim chegasse só um pouco mais perto, poderia recitar sua magia única sem falhas e sem levantar muito a voz.
— Sério, não faz ideia de como estou com medo — riu nervoso, coçando atrás da nuca — não queria estar aqui, tipo, acho que dançar com você foi a única coisa boa na minha noite — corou, fazendo Jamil esquentar levemente — você dança muito bem, e... e é linda — parou, encarando os pés sem jeito. Mesmo assim, aquele sorriso bobo estava estampado na face.
Era o mesmo sorriso que Kalim dava quando Jamil se maquiava em sua frente. Primeiro, ele arregalava os olhos, impressionado com a magia, depois sorria desse maldito jeitinho, reparando nos contornos do rosto. Jamil odiava esse sorriso, odiava como deixava sua respiração diferente.
Engoliu em seco, virando o rosto, precisava se concentrar num plano e não no idiota do seu mestre sorrindo. Kalim deu mais um passo, sem qualquer intenção maliciosa por trás (era nítido), ele só queria estar próximo. Ver o que a baixa-luz não o permitiu antes.
— Será que eu… posso saber o seu nome? — Kalim perguntou em um tom baixo, a diferença de altura não o intimidava, o que esse cara tinha na cabeça?!
E ainda estava lá o sorrisinho que fazia Jamil soltar o ar pelo nariz e a pupila dilatar. Acenou que não com a cabeça, apertando a ponta da mesa com a ponta dos dedos. O que ele ia fazer mesmo? Ah, sim, hipnotizar Kalim e o calar, isso facilitaria tudo.
Jamil encontrou os olhos curiosos de Kalim. E talvez aquilo foi o bastante, ou Kalim já tivesse percebido um segundo antes, não sei.
— Espera, Jamil? — Seu queixo caiu, intensamente mesmo. Jamil fechou os olhos, vencido.
Kalim tremeu a boca com as palavras engasgadas, seu rosto ficou vermelho e hesitou um passo para trás. Jamil sabia o que viria, então o encarou bravo, avançando para não perder a distância.
— CARALHO JA-
— Shhh!
Jamil se jogou para cima de Kalim, cobrindo sua boca com ambas as mãos. Kalim finalmente perdeu o equilíbrio, sentiu o corpo amolecer e os dois foram para o chão. O maior ouviu a porta se abrir imediatamente ao grito, claro.
Mas era apenas o amigo do tio, empurrando a porta com força.
— Herdeiro!
O amigo buscou olhar para a cama no fundo do quarto, mas se espantou com a cena que estava próxima da porta. Kalim sentado no chão com a dançarina em seu colo. Ela tinha a cabeça baixa em seu pescoço, provavelmente envergonhada. Kalim abriu a boca, o rosto supervermelho, mas ainda colando as mãos na cintura dela.
— Eita, no chão? — o amigo comentou baixo. — han… d-desculpa incomodar, herdeiro! — saiu apressado, batendo a porta.
Kalim piscou, precisando de um segundo, antes de Jamil o empurrar pelos ombros. O homem colocou o cabelo atrás da orelha, revirando os olhos.
— Será que você pode ser um pouco mais discreto? — Jamil disse baixo.
— Jamil — Kalim estava imerso nas memórias da dança, no jeito como tudo fazia sentido, desde os movimentos até o sorriso misterioso por trás do véu.
— Você já disse isso — não queria admitir, mas também pensava nisso, com as bochechas levemente coradas.
Jamil se ergueu, ignorando o mestre boquiaberto no chão. Juntou sua saia cheia de camadas, ajustando para não pisar na barra. Virou-se para a garrafa de vinho, porque, além da tensão estranha que havia entre eles, ainda precisava se concentrar em sua missão e agora uma nova pista o deixou mais intrigado ainda.
Por que o amigo, que representava perfeitamente a presença do tio, parecia tão preocupado? Se o plano deles era um envenenamento rápido, a dançarina seria a culpada, ainda assim o amigo não parecia encenar uma chegada. Ele foi rápido demais, porque estava guardando a porta, protegendo Kalim.
Proteger, atacar, matar, ajudar… alguma coisa parecia faltar ainda, qual era a verdadeira ideia do tio?
— Por que você está aqui? — Kalim retomou os sentidos, levantando num pulo — tipo, não era para você estar lá fora?
— Isso é uma pergunta séria? — Nem se deu o trabalho de se virar, alcançando a garrafa de vinho rosé.
— Sim! Quer dizer… tá, não, mas sim! Por que você está vestido assim? Como você conseguiu entrar assim? Desde quando você dança daquele jeito? Por que não me avisou que era você logo de cara?
As perguntas eram incoerentes demais para serem respondidas. Jamil permitiu que Kalim organizasse sozinho seus pensamentos; as respostas eram claras e diretas, ele só precisava… de tempo.
Jamil abriu a garrafa, derrubando o conteúdo em um dos copos. Depois, baixou o lenço que cobria sua boca.
— O que está fazendo? — Kalim demorou, mas conseguiu parar de olhar para a cintura de Jamil para analisar suas ações — Eles envenenaram esse também?
— Sim, mas preciso testar algo… — e virou imediatamente o copo entre os lábios.
— Porra, Jamil!
O servo fechou os olhos, sentindo o líquido na boca, deixou que a língua se lavasse, experimentando sentidos amargos ou sinais de dormência. Curiosamente, não sentiu nada, achando que a dose poderia estar fraca. Pensou de novo no amigo e descartou a possibilidade, não. Era proposital. Um veneno sem sinais imediatos, nada que causasse um alvoroço em pouco tempo.
Um plano para mãos limpas: o tio estava longe, nunca teve contato com a dançarina, não estava na porta vigiando o sobrinho e não seria o responsável por um acidente fora de casa. Jamil engoliu a bebida, sabendo que o tempo estava do lado deles, assim como o tio queria.
— Jamil, você engoliu — disse quase choramingando, mas o comentário fez Jamil voltar para o momento — o que está acontecendo…
— Esse veneno deve agir mais tarde, e se o seu tio pretende enrolar mais um pouco aqui na Toca, então temos horas de sobra para nos livrarmos dele — comentou pensativo, não precisava segurar mais suas palavras ou fingir para Kalim que respeitava todos os Asim.
— Mas e você?
— Eu, o quê? Kalim, concentre-se, seu tio precisa acreditar que-
Kalim avançou, tomando o rosto de Jamil com ambas as mãos. Pressionou os dedos em sua mandíbula, deixando a boca do maior entreaberta. O espanto de Jamil só não era mais relevante que o olhar irritado de Kalim.
— Odeio quando faz isso! — seus olhos lacrimejaram — Você tomou o veneno, Jamil! Sabia o que era e bebeu, precisa tirar isso do seu corpo agora! Não me importa se vai demorar para te ferir ou não!
— Kalim… — sussurrou, constatando que fazia algum tempo já que não via Kalim sendo cuidadoso com ele, desde aquilo que mudou um pouco a relação entre eles. Pensou que Kalim nem se daria mais ao trabalho, mas estava errado — está tudo bem… — deixou as mãos suavemente por cima das dele — você sabe que sou treinado para isso, não serei abatido.
— Não! — tinha um biquinho triste — você sempre faz isso, por favor, Jamil, não vou arriscar te perder!
O lábio inferior de Kalim tremeu, ele iria começar a chorar de verdade se Jamil não o acalmasse. Mas, ao invés de falar algo automático, deixou um sorriso escorregar entre os lábios. Puxou levemente as mãos de Kalim, pensando que há minutos atrás esse idiota estava dançando divertido, depois praticamente se declarando a um personagem e agora, prestes a chorar por um servo.
Esses picos na incoerência de Kalim eram divertidos para Jamil, reconfortantes.
— Prometo que vou me livrar disso — disse, ao invés do típico e falso “tá tudo bem”, até porque, Jamil não sabia se a dose que tomou conseguia matá-lo ou não — se eu fizer isso aqui, seu tio pode descobrir.
— Assim que sairmos, então — exigiu, com os olhos gigantes de preocupação.
— Certo, assim que você estiver seguro.
— Eu sempre estarei seguro com você — confessou baixo.
Jamil precisou de muita força para ignorar. Tossindo de lado para mudar o assunto e explicar seu plano. Kalim o ouviu atentamente, encarando a garrafa e as roupas de seda, fez suas perguntas básicas que tiraram o maior do sério, mas compreendeu o objetivo final.
Não perderam muito tempo no quarto. Em questão de vinte minutos, Jamil foi o primeiro a sair. Com o coração um pouco apertado, mas confiante de que Kalim daria conta de sua parte.
No lado de fora, como esperado, o amigo do tio se escorava na parede de braços cruzados e com um olhar misterioso nos olhos. Ele viu Jamil com as tranças bagunçadas, a roupa desalinhada e sorriu, cafajeste. Kalim e Jamil não tinham idade para o que o homem pensava, mas o mundo era podre.
Jamil abaixou os olhos, curvando-se para o idiota e caminhando devagar pelo corredor.
— Ei — o homem chamou, mas engoliu as palavras e acenou para sair.
Ao entrar no quarto, primeiro checou a mesa da bebida. Um dos copos virado, vinho na mesa, respingado no chão e a garrafa quase pela metade. Pelo menos a medida de 4 taças, o que não o surpreendeu por ver o líquido derramado. A dançarina não tocou na bebida, menina esperta.
Agora, Kalim estava deitado apenas com o tronco na cama. Os lençóis estavam levemente bagunçados, e o herdeiro demorou para notar que havia outra pessoa no quarto.
— Kalim, está tudo bem? — O homem desconhecido se aproximou. Kalim tinha um sorriso no rosto e os olhos fechados para a luz. Ergueu o polegar, levantando o corpo devagar.
— Jasmine — disse mole — acho que o nome dela era Jasmine.
— Duvido disso — colocou a mão na cintura, com um sorriso satisfeito — seu tio o espera. Vamos para casa, senhor.
Assistiu Kalim se esticar, soltando um suspiro. Suas roupas estavam mal colocadas, o amigo viu a faixa do cabelo de Kalim cair de sua cabeça, e o menino desajeitadamente se inclinou para segurá-la. Riu, desistindo de arrumar seu cabelo.
Ambos encontraram o tio de Kalim no salão, com uma dançarina rindo em seu colo. O tio ergueu uma sobrancelha para Kalim, analisando o rapaz e depois confirmando o sorriso confiante do amigo. Kalim agradeceu aleatoriamente e o tio riu alto e grave.
Saíram da Toca esperando Kalim se ajeitar entre os passos tortos, ele sorria e cumprimentava as pessoas em sua volta, abrindo um sorriso maior ainda para Jamil na calçada.
— Jamil! — Tropeçou de leve, se jogando nos braços do servo.
Jamil estava em posição de guarda, normal e com a bolsinha transversal, mas foi capaz de segurá-lo antes que fosse ao chão. Seu olhar desesperado foi direcionado ao tio de Kalim.
— O que houve lá dentro? — tentou não erguer a voz, não podia ser insolente apesar de tudo.
— Do que está falando? — O tio estava sereno, acenando para o motorista preparado — você mesmo o deixou beber. Ele chegou a este ponto por sua culpa.
— Tentamos impedir, mas Kalim escuta apenas seu servo favorito — o amigo deu de ombros.
Kalim riu, se aconchegando nos braços de Jamil, tipo, de verdade. Jamil abriu a boca, mas a fechou imediatamente, mordendo o lábio. Puxou seu mestre para seu ombro, perguntando se o menor estava bem.
Os quatro subiram no veículo, o tio com um olhar sério desta vez, cansado pela noite mal aproveitada. O amigo suspirou leve, encarando Jamil tentando acertar Kalim sentado. O transporte tomou a rua, em direção à casa dos Asim. Kalim observou a janela, o comboio estava mais atrás, então se endireitou, fechou os olhos e tampou os ouvidos.
Tanto o tio quanto o amigo se surpreenderam. Jamil conseguiu a atenção deles levantando a mão rapidamente. Então veio:
— Aquele que você contempla é o seu mestre. Quando eu lhe fizer uma pergunta, você responderá. Quando eu lhe der uma ordem, você concordará. Encantador de Serpentes.
E pronto, tio e amigo em transe total, apenas aguardando as ordens que teriam para confessar os crimes da noite. Kalim tirou a mão dos ouvidos e se atentou à forma mansa que Jamil ordenava, achando especialmente diferente a forma que ele falava.
— Ah, uh uh! — Kalim se empolgou, querendo completar os pedidos — pergunta o antídoto para o veneno, precisamos preparar rápido!
— Já disse para não se preocupar mais com isso, Kalim — relaxou com o corpo para trás, encarando os homens em transe — vocês conhecem o antídoto?
— Não, mestre — responderam juntos. Sem surpreender Jamil.
— Ah, não… — Kalim disse, profundamente chateado.
Jamil observou seu protegido com os ombros tensos, apertando a faixa do cabelo entre os dedos com força. Jamil reconhecia esse sentimento, podia deixar o menor refletindo sozinho, porém seu senso falou mais alto.
Tomou a faixa com cuidado de Kalim, recebendo atenção e um olhar magoado. Ajeitou o pano em silêncio e envolveu nos cabelos de Kalim, arrumando-o como todos os dias na NRC. Mas, agora, o gesto tinha outro peso para o menor. Encarou o rosto calmo de Jamil, focando nos olhos, permitindo ser invadido pelas memórias doces e frescas de uma dança íntima. Kalim corou, os lábios semiabertos.
— V-você dança bem — repetiu, querendo muito que Jamil dissesse que também gostou do momento, mas ele sabia que nunca ouviria isso do maior.
— Eu sei, você também disse que sou linda — permitiu um sorriso escapar, terminando de ajeitar a faixa.
— AAAAH — Kalim cobriu o rosto, morrendo de vergonha, sorria escondido conforme o coração voltava a bater rápido.
Jamil relaxou para trás, avaliando seu trabalho impecável no cabelo de Kalim. Irá ajeitar suas roupas depois também. Encarou os homens sem expressão ao lado deles, soltando um suspiro relaxado. Sua missão estava concluída e, graças à confissão, sua irmã também estaria salva.
— Se quiser, posso te ajudar a esquecer — disse rouco e sem emoção, enquanto Kalim abaixava as mãos do rosto — daquilo. Durante a dança.
— Não! — Kalim se inclinou para Jamil, alarmado — eu não quero esquecer de nada! Por quê?! Você quer?!
Os olhos vermelhos não desviaram de Jamil, o que era besta porque ele poderia hipnotizá-lo ali mesmo. Jamil engoliu em seco com o rosto rubro contra sua vontade, então somente balançou a cabeça negativamente.
Kalim abriu um sorriso aliviado, voltando para seu lugar. Pressionou a mão contra seu coração, Kalim era como um livro aberto e sabia disso com muita clareza. Do que adiantaria tentar esconder seus sentimentos a essa altura? Riu, fechando os olhos.
— Que bom, porque vou continuar me lembrando.
Completou desnecessariamente, porque agora Jamil sabia que sempre que visse aquele sorriso, era Kalim lembrando-se deles juntos.
