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A Canção de Arthur

Summary:

Após a noite onde Arthur auxiliou Dante com sua insegurança em relação a perda da visão, os dois homens iniciaram um namoro, com Arthur se tornando um dos maiores pilares na vida de Dante.

Contudo, o ocultista não pode deixar de notar como a voz de Arthur vacila ao falar de música, e como o violão em seu quarto só acumula cada vez mais poeira, e como a casa fica silenciosa demais sem uma música sendo tocada.

Talvez seja hora de Dante retribuir a ajuda.

Notes:

Essa fic sem querer acabou virando uma parte 2 de "Toque de Midas", isso não tava planejado kk

Ela é dedicada à Rito, que levantou da cama dez da noite pra me ajudar com a surpresa dessa fic. Obrigada de coração, xuxu. Estou em dívida com você 💘

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Autoestima. Grande demais para uns, e pequena demais para outros. Por mais que haja tentativas de diversas escolas teóricas, não há uma definição totalmente concreta do que, de fato, é a autoestima, por ser um tópico mais complexo do que esperado. Entretanto, ao menos no ramo da psicologia, existe uma teoria mais aceita que as outras: a autoestima é uma espécie de autoavaliação, englobando desde a aparência física, até o ego, os sentimentos mais profundos, escondidos de todos, exceto de nós mesmos. Basicamente, a autoestima pode ser definida como a maneira que olhamos para nós mesmos, e se nos amamos, ou nos odiamos.

E Dante sabe muito bem disso.

Desde que perdeu a visão, sua autoestima sofreu um grande ataque: precisar reaprender a como fazer coisas básicas, e precisar da ajuda de outras pessoas para tarefas tão simples, foram os principais fatores responsáveis por fazê-lo entrar numa grande crise de insegurança, crendo ser, num certo grau, uma pessoa patética. Ele não havia revelado isso para ninguém, um segredo guardado apenas entre si e sua sombra, mas, sim Dante se achava patético. Ele odiava saber que algumas pessoas o olhavam com pena; Dante não queria ser digno de pena. Dante não é, e nunca foi, uma pessoa digna de pena. Ele se lembra de ter sido vítima dos olhares de dó, muito antes da cegueira: toda vez que descobriam que ele era órfão, de seu problema de coração, do incêndio no orfanato, de seu breve período morando nas ruas de São Paulo, ou de sua falecida namorada, os olhos alheios ganhavam um brilho específico, e as feições transmutavam-se em expressões faciais sutis e suaves, como se fossem abraços sem braços. A pena, para Dante, era humilhante, pois significava que o sofrimento era tudo o que os outros viam quando olhavam para ele. De fato, Dante é alguém que sofreu, mas também é alguém feliz.

Ironicamente, a pessoa que mais o faz feliz é justamente a pessoa que nunca o olhou com pena: Arthur Cervero.

Ah, Dante se sente um adolescente apaixonado toda vez que pensa em Arthur, suas bochechas esquentam, e um sorriso bobo sempre aparece em seu rosto, antes mesmo de ele sequer pensar em reprimi-lo. Desde a noite em que Arthur teve a brilhante ideia de Dante traçar os dedos pela extensão de seu rosto — e, consequentemente, ter o beijado e dormido com ele pela primeira vez —, Dante percebeu que não havia mais como negar aquilo que fazia morada em seu peito, toda vez que olhava para Arthur. Dante não entendia o que sentia: ansiava pela companhia do outro, se sentia feliz quando Arthur estava presente no mesmo ambiente, um formigamento gostoso remanescia onde Arthur o tocava, e gostava de observar o homem, quando ele estava alheio ao par de iríses azuis o fitando em segredo, mapeando toda a extensão do corpo e roupas de Arthur. Ele acreditava ser apenas felicidade, por Arthur ser o único da Ordem — ao lado de Beatrice — a tratá-lo com o mínimo de educação, desde o primeiro contato. Onde os outros viam apenas um ocultista perigoso e criminoso, Arthur via um homem, uma pessoa, incompreendido, confuso, enganado, e dono de um bom coração. Arthur o via além dos rótulos impostos pela Ordem, e conseguia enxergá-lo através da penumbra daquela cela, incapaz de esconder a chama interior de Dante.

Dante tentou se enganar. Tentou dizer que não entendia o que sentia, ou que estava apenas alucinando. Tentou se convencer de que apenas havia esquecido como era ser tratado com o mínimo de civilidade depois de tanto tempo. Tentou conversar com o próprio reflexo, encarando aqueles olhos que o olhavam de volta, com um ar misterioso, carregando alguma sabedoria oculta. Mas, no fundo, o ocultista sabia exatamente quais sensações eram aquelas: foram exatamente as mesmas que ele sentiu com Jasmin.

Ceder à paixão subconsciente que nutria por Arthur foi catártico: se desprender, pela primeira vez na vida, de rótulos e amarras, ouvindo puramente seu coração e seus instintos, numa vontade quase animal, foi um divisor de águas na vida de Dante, mais intenso e mais profundo do que a cegueira. Sentir o calor e o peso do corpo de outro homem contra o seu era uma sensação estrangeira, mas logo tornou-se familiar: o braço forte de Arthur o segura e aperta com uma força sufocantemente boa, a firmeza e quentura de seu peitoral é um porto seguro para Dante, a cosquinha de sua barba quando Arthur o beija no rosto e pescoço é uma das melhores sensações que já sentiu. Estar com Arthur, abraçar Arthur, beijar Arthur, tocar Arthur, e dormir com Arthur, foram as melhores coisas que lhe aconteceram em meio ao turbilhão emocional e psicológico que a Desconjuração lhe causou. Em meio ao árido agreste, Arthur se tornou seu oásis.

Dante, contudo, sempre foi uma pessoa inteligente, que nunca precisou da visão para ler as pessoas. Ele sabia que Arthur escondia algo por baixo das piadas e dos sorrisos — que, muitas, vezes, não atingiam seus olhos. Ele sabia da dor excruciante que o homem carregava: em apenas uma noite, todo o conhecimento ele que possuía da realidade foi posto à prova. Desde a Cobaia 02 até Santo Berço, Carpazinha, aquela cidade pacata do interior gaúcho, onde Arthur nasceu, cresceu e conhecia como a palma de sua mão, tornou-se estranha, e Arthur se viu sendo um turista em sua própria terra natal. Em um período tão curto de tempo, Arthur perdeu demais, mais do que qualquer um em sã consciência aguentaria. Em uma noite, perdeu toda a sua gangue, sua família, inclusive seu pai. Poucos dias depois, perdeu Thiago, um amigo recente, porém altruísta o suficiente para se sacrificar por pessoas que mal conhecia. Agora, acabou de perder Elizabeth, outra amiga querida, com quem divide (ou melhor, dividia) as dores e os horrores de Santo Berço. Dante conhece melhor do que ninguém a dor e o vazio interior da perda, por isso, sabe exatamente como é o buraco negro que fez morada no peito de Arthur; muitas vezes, ambos se sentem cascas perambulantes, vivendo os dias como meros fantasmas.

Ah, e, claro, Arthur também perdeu seu braço esquerdo.

É curioso, de fato. Perante todas as outras perdas, um braço não parece ser grande coisa. A medicina está avançada, existem próteses que Arthur pode colocar no lugar o braço. Além disso, ele é alguém intimimamente ligado ao paranormal (Dante tem certeza que, em breve, ambos terão mais do Outro Lado dentro de si, do que a realidade), ele pode usar algum ritual para ganhar um braço de sangue, mesmo que temporário. Dante se lembra de ter visto algo assim em algum lugar. O que mais doía em Arthur, no entanto, era aquilo imaterial. Saber que nunca mais iria comer a deliciosa comida de sua mãe, implicar com seu irmão, ouvir um ''eu te amo'' de seu pai, ouvir a risada alta de Gregório, brincar de luta com Ivan e Marcelo, ver Thiago chutando uma porta, e curar a Liz de uma ressaca, eram o suficiente para deixá-lo deprimido por dias, até semanas. Arthur é muito bom em esconder o que sente, mas Dante consegue ouvir as fungadas e os gemidos soluçados, abafados pelo travesseiro no breu da noite. Dante parece ser o único capaz de perceber os sutis tremores presentes em sua voz.

Mas, acima de tudo, Dante sabe que perder o braço foi uma dor profunda, pois isso significa que Arthur nunca mais poderia tocar violão e guitarra novamente.

A música era oxigênio para Arthur; o rapaz a ama tanto que foi corajoso o suficiente para ir sozinho até outro estado, só para estudar música. Se nunca tivesse tido contato com o paranormal, Arthur ainda estaria junto dos Gaudérios Abutres, tocando noite após noite, em bar atrás de bar, tentando a todo custo uma chance no cenário musical brasileiro. Arthur respira arte, sempre respirou: vivia compondo músicas como uma máquina, os dedos dedilhavam as cordas dos instrumentos sem nem mesmo olhar, pois estava em seu habitat natural; a guitarra era uma extensão de seu corpo. Os calos nas mãos eram exibidos com orgulho, resultado de anos de práticas intensas e centenas de músicas diferentes. A coleção de palhetas era extensa e colorida, guardadas com o maior cuidado e carinho. Os sons dos acordes eram sua canção de ninar. As partituras eram cartas de amor secretas que somente ele compreendia. As batidas da bateria eram as batidas de seu coração, os graves sons do baixo eram seus pensamentos profundos, os altos sons da guitarra eram sua própria voz, e o vocal era seus pensamentos. A sinfonia de sua própria vida era o som mais bonito que Arthur já tinha ouvido.

Arthur não fala para ninguém, mas Dante sente a melancolia que o guitarrista — ou melhor, ex-guitarrista — carrega dentro de seu peito. Tocar violão, antes algo tão natural quanto tomar água, tornou-se apenas o fragmento de uma memória. Seu coração já não batia mais no mesmo ritmo da bateria, o baixo já não revelava mais pensamentos escondidos, a guitarra não tinha mais o que dizer, e o vocal se calou. Os acordes já não eram mais tão calmantes e soníferos, e a mão restante agora possuía calos originados de sua Glock e da Magnum de Brúlio. A coleção de palhetas estava guardada numa caixa preta (e trancada) embaixo da cama, e o violão acumulava cada vez mais poeira no canto do quarto.

Autoestima. Grande demais para uns, e pequena demais para outros. A este ponto, por mais que doa admitir, Dante tem certeza que a autoestima de Arthur é tão pequena quanto a cabeça de um alfinete. De todas as pessoas que já conheceu, Arthur, com certeza, não merecia ter tão pouca autoestima. Arthur possui tudo aquilo que Dante considera mais incrível numa pessoa, como pode o mundo ser tão injusto, ao ponto de alguém como Arthur sofrer desse jeito? Como alguém tão incrível, educado, amoroso, gentil, corajoso, inteligente, altruísta, pode ter um destino tão cruel? Que tipo de piada retorcida do destino seria essa? Por que com Arthur? O que o homem fez para merecer tanto sofrimento? Seu pecado foi amar demais a arte?

Ele finge que não sabe. Dante guarda este segredo à sete chaves, apenas entre ele e ele mesmo; ele finge que não sabe das madrugadas onde Arthur tenta, com apenas uma mão, tocar, em vão, seu velho amigo de cordas. Dante, escondido nas sombras do corredor da casa de Arthur, consegue ouvir as notas desafinadas do instrumento, os suspiros cansados de Arthur, os gemidos de frustração e raiva, e o modo agressivo como o homem larga o violão no canto do quarto, apenas para se jogar na cama e chorar igual uma criança, com o rosto enterrado no travesseiro. Dante gostaria de consolá-lo, mas como? Teria que admitir as espiadas secretas em Arthur durante a madrugada, e, com certeza, isso seria mais humilhante para o músico do que qualquer outra coisa. O ocultista nunca teria coragem de revelar tal atitude para a pessoa que ama.

Mais uma noite vítima da insônia, mais uma madrugada escondido atrás da porta, ouvindo as notas desconexas originadas do quarto de Arthur. Dante apoia a cabeça na porta, e sente seu coração apertar ao ouvir um ''vai, por favor'' baixinho, um segredo entre Arthur e o instrumento de madeira. O violão, contudo, parece não muito adepto a cooperar com o músico desesperado, as notas desafinadas sendo uma clara reclamação do instrumento. Um suspiro pesado é ouvido, e um barulho de papel sendo amassado logo segue. Dante ouve os passos de Arthur dentro do quarto, e o barulho do violão sendo depositado com certa força contra o suporte perto da parede. Passos se fizeram presentes novamente, e, logo, o barulho inconfundível de um corpo caindo sobre a cama foi tudo que Dante ouviu. Por alguns segundos, Dante creu que Arthur havia adormecido repentinamente, apenas para ouvir o (infelizmente) familiar barulho de choro abafado. As pontas de seus dedos coçam, e as solas de seus pés ficam inquietas, com uma súbita vontade de correr, entrar naquele quarto e ninar Arthur em seu colo até ele conseguir aprender a tocar violão novamente, e a música fluir de seus dedos, como as águas fluem nas cachoeiras.

Dante, contudo, apenas beijou a ponta dos dedos e os colocou encostados na porta por alguns segundos, num silencioso e secreto acalento. Deu meia volta e retornou para a sala, em sua cama improvisada no sofá. Ao se sentar, se surpreendeu com um miado: Jennifer havia decidido lhe fazer companhia esta noite.

Dante sorriu e se deitou, sentindo a gatinha se aninhar próximo às suas pernas. O ocultista sorriu com a ação da felina.

"Será que existe algum jeito possível de ajudar o Arthur, Jennifer?" A voz de Dante é baixa, sem certezas se o ocultista perguntava para a gata, ou para si mesmo.

Jennifer miou e se aconchegou mais ainda no sofá, o rabo jogado por cima da coxa de Dante. O ocultista suspirou e fechou os olhos, se ajeitando no sofá, tentando não pensar no homem que chorava a um cômodo de distância.


As costas de Dante estavam lentamente se acostumando com o estofado do sofá de Ivete, elas nem doíam tanto assim agora. O homem se senta para se espreguiçar, sua coluna dando um alto estalo gostoso. Passando a mão pelo cabelo, Dante consegue sentir como ele estava um pouco rebelde hoje. Dante tateou o sofá, em busca de sua companheira felina da noite, apenas para perceber que se encontrava só no sofá.

Dante ouve um barulho vindo da direção da cozinha e se levanta, seguindo até o cômodo, as mãos tocando os móveis e paredes à sua volta. Quando creu chegar na cozinha, conseguiu ouvir os barulhos mais altos, e sentia uma presença consigo no cômodo.

"Ah, bom dia, guri. Dormiu bem?" A voz de Ivete quebra a monotonia dos sons de louça e água escorrendo da torneira aberta.

"Bom dia, Ivete. Dormi bem sim, e a senhora?"

"Senhora 'tá no Céu, guri, já disse que não precisa me chamar assim." Ivete pega uma caneca e um prato, colocando ambos na mesa de jantar da cozinha. "Senta aí, preparei café pra tu."

"Obrigado, se… Ivete." Dante dá cerca de três passos até sentir a mesa, puxando uma cadeira e se sentando. Logo, o cheiro de café e misto quente invadem suas narinas, e seu estômago ronca em resposta. Dante dá a primeira mordida no sanduíche, se deleitando ao sentir o sabor do queijo invadindo e dominando toda sua boca, despertando o ocultista e expulsando todo e qualquer sono remanescente.

"Está uma delícia, muito obrigado, Ivete, é muita gentileza sua." Dante diz com a boca quase grudada na caneca, o cheiro de café o inebriando brevemente.

"Imagina, guri. Faço porque gosto de tu." Ivete termina de lavar a louça e fecha a torneira, porém não se vira na direção de Dante. "Você é muito importante pro meu filho, então é importante pra mim também."

Dante esconde um pequeno sorriso atrás da caneca branca após ouvir a declaração de Ivete. "Falando no Arthur, ele 'tá aí? Hoje é nosso dia de folga."

"Ele até 'tava, mas o tal senhor Veríssimo ligou pra ele, pedindo pra que ele fosse até a base. Um recruta novo, eu acho." Ivete deu de ombros. "Enfim, agora de manhã a casa é minha, sua e do César."

"Entendo." Uma parte de Dante não pode evitar de se entristecer com a ausência de Arthur. O rapaz sempre levantava os ânimos da casa. "Mas se o dever chama, não é sábio recusar."

"Com certeza." Ivete disse brevemente, o silêncio logo se instaurando naquela cozinha. Dante conseguiu perceber que a mulher estava um pouco diferente que o normal, mas não sabia dizer exatamente o porquê.

Após uma quietude longa demais para ser acidental, Ivete é quem se pronuncia. "Dante, é… posso falar contigo?"

"Claro, Ivete. Aconteceu algo?" Dante coloca a caneca e o prato vazios para o lado.

Ivete anda até a mesa, se sentando de frente para o homem. "Sabe, Dante… eu sei que você e o Arthur já são bem grandinhos, mas o Arthur é tudo o que eu tenho de família, sabe? Ele… é tudo que restou." Sua voz dá uma vacilada, e a mulher não perde tempo em se recompor. "E eu… eu já vi todo o tipo de gente por aí, mesmo sendo uma mulher do interior, sabe? Você ficaria surpreso com o tanto de pessoas que paravam no meu bar."

"Ivete, com todo o respeito, não consigo entender onde você quer chegar."

A mulher suspira, percebendo que estava fazendo aquilo que se aperfeiçoou desde as mortes de (quase) todos os Gaudérios: desviar da própria realidade. "Desculpa. O que quero dizer, Dante, é que… eu sei que o Arthur gosta de você, e você também gosta dele. Não tem porque esconder isso, pelo menos não aqui, nesta casa. Vou ser honesta, Dante: eu sou velha. De fato, existem coisas que eu nunca vou entender, mas eu entendo quando meu filho gosta de alguém, e quando alguém faz bem ou mal pra ele. Você foi a primeira pessoa sem ser eu, o César ou o Joui a arrancar um sorriso dele em quase um ano. O Arthur… sempre foi alguém que não se importava com o que os outros pensavam dele, ainda me lembro das noites em que ele ficava bêbado demais no bar, se jogando nos braços do primeiro homem, ou mulher, que aparecia." Ivete deixa uma risada nostálgica soar.

Dante estava parado em seu assento, assimilando a fala de Ivete. Era tão óbvio assim? Era tão óbvio os sentimentos dele por Arthur? O Gaudério deve ter contado para ela, só pode ter sido isso. As pontas de seus dedos tremiam de leve, e ele entrelaçou as mãos, numa tentativa de ocultar os tremores.

"Eu…" sua voz era fraca e baixa, seu rosto abaixado, na direção de seu próprio colo. "Eu… nunca gostei de um homem antes, Ivete. É um pouco assustador."

"Por que é assustador gostar de Arthur?"

"Porque isso vai contra tudo o que eu conheço acerca de mim mesmo." Dante aperta mais suas mãos. "Eu nunca nutri nenhum sentimento assim por outro homem, nunca, mas… com ele é diferente. Arthur é diferente de todos que já conheci. Ele… ele mexe comigo de um jeito diferente, eu nunca senti nada parecido antes, nunca gostei de alguém tão rápido assim. Mas…"

"Mas? Qual o problema?" Ivete fala baixo.

"Eu não sei se já posso seguir em frente. Eu ainda amo a Jasmin, não é porque ela morreu que meus sentimentos desapareceram. Mas, ao mesmo tempo que tento me consolar, falando que ela ficaria feliz de me ver feliz, não posso evitar pensar que seria um desrespeito com ela…"

"O coração é uma coisa complicada, né, guri?" Ivete coloca sua mão sobre as de Dante, acariciando a pele macia e um pouco gelada. "Sabe, Dante, eu também já perdi muita gente que eu amava, e continuo amando eles até hoje, mas eu acho que a gente não pode deixar o passado ser uma corrente pesada ao redor de nossos tornozelos. A gente merece viver, e a gente merece amar e ser amado. Continuar amando é a maior prova de amor que você pode fazer para a sua garota. Continuar amando seria continuar espalhando o amor que um dia ela te deu."

As palavras de Ivete ecoam na mente de Dante. No fundo, ele sabe que a mulher está certa, sabe que ele possui o direito de continuar vivendo e amando como todo ser humano, mas seu coração pensava diferente. O mesmo coração que acelera à menção do nome de Arthur, também acelera à menção de Jasmin. A mesma mente que sonha com Arthur, sonha com Jasmin. Como Dante poderia possivelmente esquecê-la? Como poderia seguir em frente?

"Ivete… você… teria como me ajudar? Eu…" Dante começa a brincar com a cutícula solta de uma das unhas. "Eu gosto muito do Arthur, de verdade. Eu quero ficar com ele, mas… eu não sei o que fazer pra convencer a mim mesmo de que eu posso seguir em frente."

Ivete percebe o nervosismo de Dante e suspira, colocando uma mão no ombro do ocultista e o apertando com pouca força. "Talvez vocês devam passar mais tempo juntos, só os dois. Se quiser, eu e o César podemos passar a noite fora pra vocês terem a casa toda de novo, ou vocês podem passar a noite fora também. Tenho certeza que fazer algo a dois vai colocar um sorriso nesse rosto bonito." Ivete sorri, e Dante, mesmo não enxergando, acaba espelhando a atitude da mulher.

"Talvez… é difícil, mas acho que a vida é assim, certo? Viver um dia de cada vez."

"Viver um dia de cada vez." Ivete repete a fala, se levantando e beijando Dante no topo de sua cabeça. "Vou dar um pulinho lá na Ordem só pra ver se tá tudo em ordem, quer alguma coisa da rua?"

"Não, obrigado." Dante acenou com a cabeça, e ouviu os passos de Ivete para fora do cômodo, sua voz abafada à distância e o som da porta de entrada se fechando. O ocultista se viu a sós consigo mesmo, pela segunda vez desde que acordou, porém com novas palavras e pensamentos rodeando sua mente. Dante se levantou da mesa e levou sua louça até a pia, a lavando com quase nenhuma dificuldade.

O homem começou a andar pela casa, as pontas dos dedos se arrastando pelas paredes lisas, mapeando mentalmente aquele lugar que estava tão próximo de se tornar um lar. A voz de Ivete em sua mente não cessava, e Dante sabia que a mulher estava certa: ele tem o direito de amar Arthur. Ele quer amar Arthur, ele quer continuar a segurar na mão de Arthur, a beijar seu rosto e boca, a deitar em seu peito, a dormir com ele… Dante quer Arthur, não há mais como negar ou esconder de ninguém, muito menos de si mesmo. O coração acelerado ao pensar nele, o sorriso bobo toda v ez que é beijado, a felicidade de poder deitar no peito grande e ouvir o batimento ritmado contra seu ouvido... quem Dante queira enganar?

Ele está completamente ''caidinho'' por Arthur, como Agatha diria.

Dante sorri ao chegar em tal conclusão, e seus dedos tocam algo diferente. Uma porta. A porta do quarto de Arthur. Ele para de andar, e fica congelado por alguns segundos. Será que deveria? Não é educado entrar no quarto dos outros sem permissão, ele não gostaria que fizessem isso com ele, então não deveria fazer com os outros.

Mas…

Ah, talvez uma espiada não faça mal a ninguém.

Mordendo o lábio inferior, Dante abre a porta lentamente, seus pêlos se eriçando quando ele se dá conta de que irá adentrar o quarto de Arthur. Não era a primeira vez, claro, mas era a primeira vez sem o dono do quarto presente. Ele fechou a porta atrás de si, inalando o cheiro sutil ali presente: perfume amadeirado barato, loção pós-barba e nicotina. Dante sorriu, a culpa pela intromissão rapidamente se esvaindo.

Seus passos eram lentos e silenciosos, os dedos se arrastavam pelo armário e escrivaninha, sentindo a madeira sob seus dedos. Dante acaba esbarrando sem querer no boneco de Força G que o César havia dado de presente a Arthur, e o ocultista logo endireitou-o na escrivaninha. Andando um pouco mais, suas pernas encostam na cama, e Dante se senta um pouco. Ao seu lado, ele consegue sentir uma camisa que Arthur deixou para trás. Ele pega a roupa e traz o tecido até seu rosto, inalando o cheiro, agora mais forte, de Arthur, abraçando aquela blusa contra o próprio corpo. Talvez Arthur não desse falta de uma blusa… certo?

Com a peça de roupa em mãos, Dante se levanta e, quando está prestes a retomar sua jornada no quarto de Arthur, seu pé esbarra em algo leve. Dante se abaixa e pega o objeto misterioso, quase escondido embaixo da cama. Ao pegá-lo, Dante consegue decifrar que se tratava de um papel amassado, e ele logo o abriu, antes de perceber que não conseguiria lê-lo. Contudo, seus dedos sentiram uma textura diferente, talvez algumas linhas? Também havia algumas formas curiosas, finas e curvas, claramente não eram letras. Ele sentia um pouco da textura delas, e foi necessário um minuto — ou dois — até Dante ligar todos os pontos em sua mente.

A madrugada anterior. A frustração de Arthur. A falha tentativa de dar vida à arte. O barulho de um papel sendo amassado e jogado no chão.

Aquela era a música que Arthur tentava tocar na noite passada.

Seus dedos traçaram as sutis marcas das notas da folha, tentando resgatar alguma memória dos tempos do orfanato, quando tinha aula de música, mas sem sucesso. Não era igual seu grimório improvisado, onde os símbolos estavam perfeitamente em alto relevo para serem traçados com os dedos. Dante ainda se lembra vagamente de como ler partituras, mas de nada adiantaria se não conseguisse enxergar, ou sentir, as notas na folha. Talvez, se ele se esforçasse muito, conseguiria lembrar de como tocar um violão. Mas de que isso adiantaria? Não foi ele quem perdeu o braço, não é ele quem passa as madrugadas chorando por não conseguir mais tocar seu instrumento favorito, e não é ele quem não entende mais as notas musicais.

"Um bailarino morre duas vezes — uma quando para de dançar, e esta primeira morte é a mais dolorosa," Dante se recorda de ter visto tal frase em algum lugar, mas não sabe dizer ao certo onde. Teria Arthur já morrido?

Isso não pode ser verdade. Dante prometeu a si mesmo que Arthur não morreria antes dele, que ele o protegeria com sua própria vida, se fosse necessário. O paranormal nunca devolve inteiramente o que já se foi, mas… será que Dante, um humilde humano, conseguiria?

Ele escuta uma voz masculina abafada à distância, e uma ideia surge em sua mente. Ele irá ressuscitar Arthur.

Escondendo a blusa de Arthur entre seus lençóis na sala, Dante se dirige até o quarto ao lado do de Arthur, com a partitura ainda em mãos. Ele bate timidamente na porta, até a mesma voz mandá-lo entrar.

Abrindo a porta, Dante ouve barulhos de alguém mexendo num teclado, e uma cadeira rangendo baixo, provavelmente um pouco velha. O ocultista fica parado na porta.

"Dante? O que foi?" César — ou melhor, Kaiser — removeu o headphone, deixando-o ao redor de seu pescoço.

"Desculpa incomodar, Kaiser. Posso entrar?"

"Pode." Um botão foi pressionado no teclado, e Dante deu três passos à frente, até crer estar ao lado do homem sentado. Ele desamassa o papel na medida do possível, e estica na direção de Kaiser.

"Por acaso, isso aqui é uma partitura?"

Kaiser fica em silêncio por dois segundos. "Sim."

"Você… poderia fazer uma cópia pra mim, por favor?"

"'Tá bom." Kaiser pegou o papel de Dante e, sem se levantar, apenas arrastando as rodinhas da cadeira, ele vai até impressora, erguendo a tampa e colocando o papel no scanner.

O silêncio era um pouco desconfortável para Dante, que brinca com os dedos, numa clara tentativa de diminuir seu sentimento de instrusão. Apesar de estarem vivendo sob o mesmo teto há algumas semanas, ainda era estranho interagir com Kaiser, pois Dante sabia que o programador não confiava complemente nele. Vez ou outra, Dante tenta aprofundar alguma conversa com Kaiser, mas ele nunca pega suas iscas. Dante só descobriu que seu nome era César por conta de Ivete. Kaiser é alguém importante para Arthur, então ele deveria ser importante para Dante também, mas como se aproximar de alguém que claramente não quer derrubar suas próprias barreiras? Se ele se deu o trabalho até de criar um pseudônimo para si, ele claramente não é alguém em busca de novas amizades.

Dante ouve o barulho de uma folha sendo impressa, e o da tampa da impressora sendo fechado. Kaiser estende ambos os papéis em sua direção.

"Aqui." Dante pega o original e a impressão, ainda um pouco quentinha, e passa os dedos pela cópia, não conseguindo esconder a decepção por não conseguir mais sentir as notas musicais, e tal demonstração não passou despercebida por Kaiser, que arqueoou a sobrancelha, olhando o homem de cima a baixo. Ele se recosta na cadeira e cruza os braços. "Algum problema com a cópia?"

"Não! Não. É… você teria tinta por aí, Kaiser?" Dante conseguiu perceber a leve impaciência na voz do outro homem.

"Tinta? Só cartucho de impressora. Quem deve ter tinta é o Arthur." Dante concordou com a cabeça, em silêncio, e abaixou o papel. Kaiser conseguiu notar que o ocultista estava um pouco cabisbaixo, porém não tinha ideia de como consolá-lo, e, sendo honesto consigo mesmo, não tinha ideia nem do porquê de querer consolá-lo. Ele sabia que Arthur gostava de Dante, e queria apoiar o amigo, mas seu nariz ainda é retorcido quando se trata de Dante. Por que confiar em alguém que estava literalmente preso numa das celas da Ordem? Até que ponto Dante realmente não sabia das intenções de seu amigo Leo? Ele realmente foi ludibriado, ou era apenas história para boi dormir? Arthur era corajoso demais por gostar e se entregar a um possível romance com tal pessoa.

Contudo, Kaiser não pode negar: de fato, Dante não tem sido nada além de prestativo para com a equipe de Arthur e toda a Ordem, sempre respondendo o que lhe é questionado, e falando — supostamente — tudo o que sabe, sem esconder o que fez, e sem medo de mencionar estar envolvido. Talvez, e só talvez, Kaiser pudesse lhe dar um pequeno voto de confiança. Mas só por Arthur.

"Você… quer ajuda com alguma coisa? Quer que eu mude algo na cópia?" Sua voz soava engraçada, parecida com a de César.

"Ah, não é nada, é besteira." Dante negou com a cabeça, um sorriso triste aparecendo em seu rosto. "Obrigado pela cópia, Kaiser." O ocultista deu meia volta para sair do quarto, quando a voz repentina de Kaiser o fez congelar em seu treajeto.

"Pode falar. Deve ser algo importante, tenho certeza." Kaiser, mesmo ciente da cegueira de Dante, não olhava em seus olhos. Seu olhar estava preso no grande texto de 'PAUSADO' em seu monitor.

"Eu… queria, talvez, fazer o que fiz com a minha Divina Comédia, sabe? Traçar as notas na folha com tinta, pra eu conseguir sentir com os dedos." Dante continuava de costas para Kaiser.

O programador concordou com a cabeça, analisando algumas possibilidades de ajudar Dante. Os dois homens ficaram em silêncio por um tempo, longo demais para ser acidental. Dante estava prestes a se retirar do quarto, quando Kaiser quebrou o silêncio.

"Como eu escaneei a folha, eu tenho o arquivo PDF dela. Eu posso ir imprimindo várias vezes em cima dessa folha da cópia, criando várias camadas de tinta. Uma hora deve ficar bem grosso." Ele viu Dante virando de volta para si, uma breve esperança preenchendo seu rosto.

"Pode? Ah, mas vai gastar muita tinta, não quero incomodar e…"

"Eu já tenho um cartucho novo lacrado, se acabar eu troco." Kaiser interrompe a fala de Dante, dando de ombros.

"Ah, se não for incômodo…" Timidamente, Dante estende a folha da cópia na direção de Kaiser, que a pega e encaixa de cabeça para baixo, na parte de trás da impressora. Abrindo seus inúmeros arquivos, Kaiser consegue, com maestria, localizar o PDF da partitura, logo iniciando o processo de impressão. Por algum tempo, o barulho da impressora era a única coisa que preenchia o ambiente, até Kaiser, para a surpresa de ambos, ser quem quebra o silêncio humano.

"Sabia que, se for fazer isso que eu 'tô fazendo, tem que colocar a folha de cabeça pra baixo?"

"Sério? Por que?" Apesar de Dante não ser a pessoa mais sociável do mundo, ele agarraria qualquer chance de tentar formar um laço com Kaiser.

"A maioria das pessoas não percebe, mas a impressão é feita como se fosse ao contrário mesmo. No computador, o cabeçalho do arquivo 'tá pra cima, mas quando começa a imprimir, o cabeçalho vai lá pra baixo da folha, então é como se a impressora invertesse o arquivo. Se um dia você precisar fazer isso de novo, não esquece." Kaiser retira o papel e coloca de novo na parte de trás, indo para a quinta impressão.

"Interessante, Kaiser. Eu realmente nunca tinha notado isso. Uma falta de atenção poderia fazer um estrago enorme, não?"

"Com certeza. Você pode embolar toda a impressão, e aí vai ter gastado papel e tinta à toa." Após imprimir cinco vezes, Kaiser passa a mão por cima da folha, notando como, de fato, as notas estavam mais proeminentes. "O que acha?" Ele estende o papel para Dante, que o pega e sente a tinta sob os dedos, conseguindo discernir com clareza cada nota ali presente. Sem conseguir se controlar, um pequeno sorriso abre em seu rosto.

"Está perfeito. Obrigado, Kaiser, desculpe novamente por incomodar."

Kaiser faz um gesto de ''deixa disso'' com a mão, cruzando os braços novamente. "Não levou nem cinco minutos, e não gastou quase nada de tinta, 'tá tranquilo."

Dante concorda com a cabeça. "Bom, obrigado de novo, Kaiser. Com licença." Dante se vira e vai em direção a porta do quarto, a abrindo. Entretanto, antes que pudesse sair do cômodo, a voz de Kaiser chama sua atenção.

"Isso tem a ver com o Arthur, né?"

Dante para no batente da porta. Nada diz, apenas vira metade do rosto na direção de Kaiser, e concorda com a cabeça.

"O Arthur anda muito ressentido desde que perdeu o braço e percebeu que nunca mais poderia tocar violão ou guitarra. Espero que isso não seja uma piada de mau gosto com ele."

A mão de Dante na maçaneta a aperta com força, o que não passou despercebido por Kaiser. "Eu jamais faria isso com ele. Sei que eu e você não estamos em tão bons lençóis assim, mas acredite quando eu digo que não sou esse tipo de pessoa, Kaiser."

"Eu só não quero que ele se magoe ainda mais, Dante. Ele já sofreu demais."

"Todos nós já sofremos demais, não?"

Kaiser não responde, e Dante não diz mais nada. O ocultista fecha a porta de Kaiser devagar, e retorna ao quarto de Arthur, amassando a partitura original e a jogando o mais próximo possível da cama, retornando para a sala e se sentando no sofá.

Agora, era hora de provar para si mesmo que sua memória das aulas de música ainda estava afiada.


Demorou cerca de duas semanas até Dante tomar coragem e bater na porta do quarto de Arthur pela madrugada. Toda vez que ouvia o choramingo e a frustração do homem, Dante queria mais do que tudo entrar naquele quarto e abraçar Arthur o mais forte possível, tentando, de algum modo, afastar toda a mágoa de dentro de seu peito.

Porém, havia algo tragicamente lindo na dedicação de Arthur. Mesmo com nada mudando, noite após noite, ele continuava ali, tentando fazer dar certo. As mesmas notas desafinavam, os mesmos dedos não possuíam firmeza para segurar o instrumento, a mesma música soava completamente quebrada, mas ele ainda estava ali. E Arthur sempre estaria ali, Dante sabe disso: ele nunca foi o tipo de pessoa que se deixa derrotar facilmente por qualquer adversidade que seja. Arthur, na medida do possível, conseguiu contornar tudo aquilo de pior que a vida jogou em sua direção, por que seria diferente com isso? Por que ele não haveria de conseguir tocar novamente seu violão com a maestria de sempre? Por que ele precisa aceitar sua primeira morte?

Tal dedicação, todavia, é uma grande corda bamba, onde a queda pode resultar em furiosa teimosia. Se Arthur se desequilibrasse, seu desejo de voltar a tocar música se tornaria incontrolável, e ninguém — talvez nem mesmo Ivete — iria conseguir convencê-lo do contrário. Dante entende o desespero de Arthur: ele também daria de tudo para se agarrar a algo que o conectasse ao passdo, e o lembrasse de tempos mais simples.

Mas, infelizmente, esse não é o caso para nenhum deles. Dante perdeu o orfanato, Arthur perdeu Carpazinha; Dante perdeu Arnaldo, Arthur perdeu os pais; Dante perdeu Jasmin, Arthur perdeu todos os Gaudérios. Dante não é mais médico, e Arthur não é mais músico. Essa é a vida que lhes foi imposta, e essa é a cruz que deverão carregar, até os fins de suas vidas.

Na madrugada de hoje, Arthur conseguiu tocar uma nota — apenas uma, no singular — afinada, e sua mente automaticamente se encheu de esperança, crendo que havia conseguido, de alguma forma, ''hackear'' o Universo e recuperado seus dotes musicais. O coração de Dante apertou ao ouvir a reação surpresa de Arthur, finalmente feliz por ter comseguido algo com o violão. Contudo, a alegria não era nada além de efêmera: o resto das notas voltaram a sair desafinadas como um disco arranhado, e a frustração logo retornou para aquele quarto.

Dante conseguiu ouvir o grunhido impaciente e frustrado de Arthur, e disse a si mesmo que já era o suficiente; não iria mais tolerar ouvir o sofrimento de Arthur, noite após noite, enquanto estava de mãos atadas. Respirando fundo, Dante juntou coragem e bateu na porta, sua voz suave ao chamar o nome do músico.

Dante conseguiu ouvir Arthur fungando. "Quem é?"

"Sou eu, Dante. Posso entrar?"

"Pode…" a voz de Arthur era baixa, e o tom choroso era nítido para o ocultista.

Dante adentrou o quarto, o cheiro de Arthur ainda mais forte, e ele conseguia sentir a presença sufocante, porém gostosa, do outro homem no cômodo. Arthur fez apenas um som para indicar sua posição no quarto, sentando no chão, perto do armário. Dante andou até perto de seu parceiro, a ponta do pé esbarrando sem querer na coxa musculosa do homem. Dante se desculpou e se sentou do lado esquerdo de Arthur, a partitura escondida em seu bolso.

"Também não consegue dormir?" Arthur pergunta, colocando o violão de lado, do modo mais silencioso possível.

Dante concorda com a cabeça. "E, pelo visto, você também tem sofrido com insônia, não? E não é de hoje."

Arthur sente sua mão gelar e, ao mesmo tempo, começar a suar na palma. Aquela frase era a confissão silenciosa de Dante, admitindo a Arthur que sabia das tentativas secretas de tocar violão novamente. O músico, mesmo sabendo que não era a intenção de Dante, se sente um pouco humilhado ao ouvir tal confissão: esse tempo todo, crendo estar apenas com sua própria companhia, havia uma testemunha? Alguém estava vendo as tentativas patéticas de recuperar aquilo que jamais retornará, o observando como se ele fosse um animal de zoológico?

O músico engoliu em seco, a respiração trêmula. Ele esfregou a palma da mão na perna, tentando secar o suor. "Vai me zoar por isso também? Já basta minha própria cabeça, Dante."

O ocultista foi pego de surpresa pela agressão nas palavras de Arthur, mesmo sabendo que ele estava com mais raiva de si mesmo, do que de Dante. Claramente, Arthur não está nada feliz de saber que era observado.

"Me desculpa, eu não queria magoá-lo. Eu só… ouvia uma música de madrugada, e a seguia para saber de onde vinha. Não foi minha intenção te ofender, Arthur."

Arthur suspira e geme em frustração, enterrando o rosto na mão, puxando alguns fios de cabelo. "Eu sei, eu sei. Desculpa, eu… tenho andado muito estressado."

"Entendo…" Os dois caíram num silêncio desconfortável; Dante queria abraçar e confortar Arthur, porém não tem tanta certeza se seria a melhor opção. A cabeça de Arthur estava à mil, transitando entre mágoa, raiva, ódio, tristeza, humilhação e amargura, ter sido pego ''no flagra'' por Dante era tudo que ele não queria, ainda mais por ele. Arthur finalmente estava se permitindo amar, e amar a pessoa de seus sonhos, como poderia se mostrar tão patético na frente dela? Qual impressão Dante teria de si? Como ele poderia se dedicar, ser um bom parceiro para alguém quebrado, quando ele mesmo está destruído em mil pedaços?

Dante brinca com os dedos, sem saber o que dizer ou fazer. Não conseguia ver Arthur, não sabia o que ele estava fazendo, ou qual era a expressão em seu rosto. Para Dante, era incomum não saber o que fazer, mas Arthur o deixava perdido às vezes, tanto por ser seu primeiro parceiro homem, como por ser o seu primeiro desde Jasmin. Dante não quer errar com ele de modo algum, Arthur é a pessoa mais importante em sua vida, não pode sequer cogitar a possibilidade de perdê-lo.

Dante leva os dedos até a lateral do rosto de Arthur, que levanta a cabeça, curioso com o toque surpreso de Dante. O ocultista, então, consegue mover seus dedos por todo o rosto de Arthur, sentindo o cenho franzido, as pálpebras um pouco inchadas e a boca virada para baixo. Ele ajeita seus dedos para encaixar a bochecha de Arthur em sua palma, o polegar acariciando a bochecha do homem.

Arthur sorri triste, se aninhando contra a palma grande do outro homem, deixando ali um beijo breve. "Desculpa, Dante. Eu…"

"Não precisa se desculpar. Eu que devo desculpas, não deveria ter te observado em segredo."

Arthur nega com a cabeça. "Não, não. Essa também é sua casa agora, você tem o direito de andar por ela à vontade."

"Arthur… você sabe que não é esse o problema."

Arthur sorri sutil contra a palma de Dante. Claramente, ele não poderia esconder nada de Dante, mesmo se quisesse. O ocultista nunca precisou dos olhos para enxergar.

O músico suspira, deitando ainda mais o rosto na mão de Dante. "Eu 'tô em contato com a música desde que me entendo por gente, Dante. Meu pai me ensinou a tocar guitarra. Eu aprendi a andar ouvindo os discos que ele e minha mãe colocavam pra tocar lá em casa. O pouco de inglês que sei é por causa das bandas estrangeiras. Eu me formei em música. Tocar e criar sempre foi tudo pra mim, e simplesmente ter isso sendo arrancado de mim… Por aquela merda daquele Santo Berço…"

Dante aumentou o aperto em Arthur, sentindo a ira começando a se fazer presente no homem. Ele também é alguém que teve tudo arrancado de si: seu lar, seus amigos, sua namorada, sua irmã, sua visão… ele entende como Arthur se sente, parecia até que estava olhando num espelho. Talvez tenha sido isso que o fez se atrair por Arthur; como não se apaixonar por alguém que carrega as mesmas cicatrizes que você? Que pessoa melhor no mundo para entender sua dor e suas complexidades?

Dante chegou mais perto, colando seu corpo com o de Arthur. "Santo Berço não arrancou nada de você. Você ainda é você, pois ainda tem isso aqui." A mão livre de Dante pressiona o meio do peito de Arthur, e Dante sente como a respiração do músico ainda estava um pouco irregular. "Não é porque perdemos um dos membros, ou um dos sentidos, que deixamos de ser quem somos, ou que nossa vida acaba. Você me disse isso."

Arthur suspira. "Esse tipo de coisa é mais fácil falar pros outros, Dante. Ouvir a si mesmo é uma outra história. 'Cê acha mesmo que eu não daria tudo pra ter meu braço de volta?"

"E você acha que eu não daria tudo pra ter minha visão de volta?" Os dois ficaram em silêncio por um tempo. "A vida é um eterno tango, Arthur. Mesmo perdendo alguns passos, precisamos continuar dançando, nos adaptando ao ritmo da dança, ou iremos ficar caindo e escorregando o tempo todo. Mas, mesmo assim, não deixamos de ser dançarinos."

Arthur concorda com a cabeça. "Eu sei… Mas não sei se consigo continuar dançando. Eu 'tô cansado, Dante, muito cansado."

"Então você precisa de um novo parceiro." Dante sorri, e sente o rosto de Arthur se virando na sua direção. "Pega o violão de novo, por favor?"

Arthur estranha a fala de Dante, hesitando um pouco em atender o pedido. Desde que perdeu o braço, nunca sequer havia pego no violão na frente de alguém. Parecia um sacrilégio, ou um ataque direto à realidade, além de ter a certeza que o olhariam com pena. Timidamente, ele pega o instrumento, ajeitando em seu colo com a ajuda de Dante, de modo que o braço do ficasse na frente de Dante. Olhando para frente, ele consegue notar algo que não estava ali antes: uma partitura no chão, entre eles, mais marcada do que uma comum. Ele olha com dúvida para Dante, que está ocupado demais tateando o braço com seus dedos.

"Ele está afinado, Arthur?"

"Uh… sim, sim, eu consigo afinar ele…" Arthur ainda estava completamente perdido, sem saber quais as intenções de Dante.

"Essa música que você tenta tocar, ela tem um nome?"

"Não, não. Eu demorei tanto pra compor ela, que parece até duas músicas diferentes." Arthur dá uma risada sem humor.

Dante sorri. "Talvez, então, ela seja uma música especial, que precise de duas pessoas para tocá-la." Com a mão esquerda, Dante ajeita os dedos pela extensão da escala; com a direita, ele coloca a ponta dos dedos em cima do papel, na primeira nota da música. "Eu tive aulas de violão no orfanato, então me desculpe se eu estiver enferrujado, faz muito tempo que não estudo isso."

Arthur demorou alguns segundos para entender o que estava acontecendo. Dante estava…? Ele estava, não é? Estava sugerindo que eles tocassem violão à dois. Arthur nem sabe se isso é possível, nunca tentou, e nunca conheceu alguém que tenha conseguido. Claro, já tocou com seu pai, mas ele era uma criança bem nova; claramente, era Brúlio quem estava tocando o instrumento sozinho.

Respirando fundo, e sentindo o coração acelerado, as unhas de Arthur dedilharam as cordas.

(Querido leitor, para uma melhor experiência, pegue seus fones de ouvido, e ouça enquanto lê.)

Os pulmões de Arthur ficaram sem ar, e, por um segundo, ele jurou que seu coração havia parado de bater. Sua visão não desgrudava dos próprios dedos, a memória muscular os fazendo se mover tão naturalmente pelo instrumento, como se nunca tivessem se separado; agora, pois, a visão era acompanhada de um som, um lindo som. Um som que Arthur pensou nunca mais ouvir. Um som que ele vem tentando atingir sozinho, porém sempre caindo num precipício: notas musicais. Notas musicais afinadas.

Pela primeira vez em um ano, Arthur Cervero está tocando violão.

Seus olhos lacrimejaram, e sua mente logo viajou para a memória mais antiga que ele possuía com o instrumento: aos três anos de idade, Arthur viu seu pai tocando violão no sofá da sala, e o homem o chamou, sentando o filho em seu colo, entre ele e o violão. Do ponto de vista de Arthur, o instrumento era gigante, seus pequenos braços mal conseguiam alcançar as cordas, mas, ainda assim, ele tentou tocá-las, querendo criar uma música tão linda quanto a do pai. Frustrado com as tentativas falhas, Arthur queria ir embora, mas Brúlio não deixou. Ele manteve o filho ali, falando que daria um violão pequeno de presente para ele. Apoiando a cabeça no peito de seu pai, Arthur fecha os olhos, se permitindo ser embalado pelas suaves notas que Brúlio tocava, adormecendo em seu colo.

Arthur também se lembrou da primeira vez que tocou em público. Estava tão nervoso que quase desmaiou duas vezes antes de sequer entrar no palco. Os olhos ansiosos da plateia só não eram mais intensos que os dele próprio. O ar do Suvaco Seco nunca foi tão pesado quanto naquele dia; ele tinha apenas dezesseis anos, e iria tocar junto com os Gaudérios Abutres, era uma grande responsabilidade. Com as mãos tremendo e suadas, ele subiu no palco, fechando os olhos e apenas confiando em seus instintos. A música fluiu como mágica. Naquela noite, Arthur sabia exatamente o que queria fazer para o resto da vida.

Olhando para o lado, Arthur consegue ter a visão de Dante sorrindo sutil, os dedos da mão esquerda se movendo pela extensão da escala, do mesmo jeito que ele estava acostumando a mover. De fato, era nítido que ainda havia uma certa hesitação nos movimentos de Dante, de alguém tentando resgatar alguma memória enterrada. Os dedos da mão direita estavam traçando cuidadosamente o papel, lendo as notas musicais como se fosse braille, e só agora Arthur pôde notar que a tinta no papel parecia mais espessa que o normal, talvez o mesmo truque utilizado em seu grimório improvisado?

A última nota foi tocada. O silêncio, contrastando com a linda melodia presente até meio segundo atrás, adentrou o quarto, envolvendo os dois homens numa grande camada de mistério. Dante estava ansioso, seu coração palpitava acelerado de nervosismo (o que, obviamente, não fazia nem um pouco bem à sua saúde cardíaca) e ele balançava o pé direito, inquieto, a expectativa alta para a reação de Arthur. Por duas semanas, Dante teve apenas uma hora de sono todas as noites, passando suas madrugadas em claro, relembrando como se lê partituras e treinando a música de Arthur, para garantir que sua surpresa seria perfeita. Agora, contudo, o silêncio deixava o ocultista cada vez mais inquieto. Logo ele, que sempre gostou da quietude.

Dante ia abrir a boca para falar algo, quando escutou um som, infelizmente, familiar: um choramingo. Arthur estava chorando.

"Arthur?" Dante sussurrou na penumbra do quarto, iluminado apenas pela Lua e pela lâmpada do abajour de Arthur. Sua mão tocou no ombro esquerdo do homem, e Dante conseguiu sentir como ele tremia pelo choro. A mão livre subiu até o rosto do homem, os dedos logo ficando úmidos graças às lágrimas escorrendo pela face bonita. Dante estava com o pedido de desculpas na ponta da língua, quando Arthur segurou a mão contra o seu próprio rosto, se enterrando nela, sua voz saindo abafada.

"Dante… eu… toquei violão… nós tocamos… eu…" Dante suspira aliviado, seus dedos fazendo uma carícia no rosto de Arthur. O ocultista se endireitou, abrançando Arthur de lado, passando seu outro braço por seus ombros, puxando o músico para mais perto. Arthur deitou o rosto no ombro de Dante, molhando a manga e gola de seu pijama, mas o homem estava pouco se importando.

"Surpresa." Dante sussurra, deixando um beijo no topo da cabeça de Arthur, que agora chorava de modo silencioso. "Desculpe se alguma nota soou estranha, como eu disse, já tem anos que não pego em nenhum instrumento."

"Não tem porque se desculpar. Foi… lindo, Dante, foi lindo." Arthur beija o ombro do namorado, aninhando seu rosto no pescoço do homem. "Eu nunca imaginei… conseguir tocar música de novo, achei que tinha perdido isso pra sempre…" Arthur olha para a própria mão, ainda com os sutis calos de tantos anos ao lado de seu companheiro de cordas.

"Eu sei o quanto a música significa pra você, Arthur. Não queria que você passasse mais noites sozinho, chorando angustiado, acreditando ter perdido aquilo que você ama."

"Você…" Arthur levanta a cabeça, encarando Dante, que possuía os olhos brancos virados na direção do chão. Arthur nunca sentiu medo deles, e fica feliz de Dante descobri-los quando estão só os dois. Sorrindo, ele rouba um beijo de Dante, que arqueia as sobrancelhas de surpresa. "Você é incrível, Dante, e ainda insiste em não aceitar elogios."

O ocultista sente as bochechas esquentarem, abaixando a cabeça, envergonhado. "Para, Arthur, não foi nada demais. Fiz o que qualquer um faria."

"Mas nunca fizeram isso por mim."

Dante suspira, sorrindo para Arthur. Uma mão vai até os cabelos castanhos do homem, fazendo um cafuné, enquanto a outra entrelaça seus dedos com os de Arthur. Dante sabe que não havia malícia por trás das palavras de Arthur — afinal, ele mesmo só teve essa ideia por conta de ter perdido a visão —, mas não pôde deixar de sentir uma pequena revolta das pessoas ao redor de Arthur, em especial das mais próximas: ninguém notava a tristeza do homem? Ninguém percebia que, com certeza, todas as manhãs, aquele violão amanhecia numa posição um pouco diferente? Ninguém percebia que ele passou a esconder a coleção de palhetas? Ninguém percebia como seu tom de voz se tornava melancólico ao falar sobre música? Ninguém nunca pensou em dar de presente algum instrumento adaptado, ou de uma mão só, para Arthur? Ninguém percebeu a dor em seu peito?

Precisou um cego para enxergar a dor de Arthur?

"Quando você compôs essa música?" Dante pergunta, numa tentativa de mudar de assunto e espantar os pensamentos raivosos de sua mente.

"Ah…" Arthur suspira, olhando para a partitura adaptada de Dante. "Ela, na verdade, foi composta em dois momentos diferentes. A primeira metade foi num avião, quando eu 'tava saindo de Carpazinha e vindo pra São Paulo pela primeira vez. Tudo tinha finalmente acabado, aquela maluquice de Santo Berço 'tava pegando fogo, e eu 'tava pronto pra ir embora daquela cidade. Nesse vôo, foi quando eu tive um pouco de calma e pude perceber quanta gente eu perdi em questão de, o que, três, quatro dias. Por mais que eu ainda tivesse a Ivete e o resto da equipe, eu… nunca tinha me sentido tão sozinho antes, por isso a primeira metade da música é triste. E ela ficou sendo só essa parte por muito tempo."

"E o que te inspirou a compor a segunda parte?"

Arthur sorriu triste, observando as notas da segunda metade da música. "Todo o meu ano aqui em São Paulo. A Ivete, o César, o Joui, a Agatha, até o Senhor Veríssimo," Arthur ri, "e vocês. Eu ainda me sinto muito sozinho às vezes, muito mesmo; o buraco que meu pai, os Gaudérios e o Thiago deixaram no meu coração não vai sarar nunca, eu sempre vou sentir saudade deles. Esse vazio nunca vai embora, não importa o quanto eu tente expulsá-lo. Mas, ao mesmo tempo, eu não 'tô mais sozinho. É difícil confiar nas pessoas, sabe? Ainda mais nessa linha de trabalho, onde não somos nada além de ampulhetas ambulantes, só esperando a areia acabar de cair. Mas vocês… eu acho que posso chamar vocês de amigos. Eu gosto dessa equipe, de cada um, sem exceção. Cada um tem seus defeitos, sim, mas quem não tem? A Agatha é meio lunática, o Fê e o Lu me confundem toda hora, a Erin fica gritando pelos cantos sobre granadas, o César só sabe falar de computadores, a Ivete vive me dando bronca… mas eu não trocaria vocês por nada, nem ninguém."

Dante sorri, abraçando Arthur apertado, enterrando a cabeça em seu pescoço e inalando o cheiro do sabonete de leite do homem. Ele sente Arthur fazendo o mesmo, e os dois ficaram assim por um bom tempo, os corações quase alinhando as batidas, numa cadência calma e controlada. As respirações finalmente haviam se acalmado, agora sendo apenas brisas suaves, fazendo cosquinha na pele um do outro. Num período tão curto de tempo, aquele abraço se tornou o melhor lugar do mundo para os dois homens, o calor corporal de cada um e a segurança que os braços traziam consigo eram uma promessa silenciosa de que, não importa o que acontecesse, não importa o que a vida jogasse na direção deles, eles sempre teriam para onde voltar.

"Ei.." Dante sussurra contra o pescoço do homem. "Qual o nome da música?"

Arthur deu de ombros. "Não pensei em um ainda. Talvez ela fique sem nome mesmo."

Dante concorda com a cabeça, deixando um beijo no pescoço de Arthur e se desvencilhando do abraço, puxando o homem pela blusa. "Vai dormir, já 'tá tarde."

"Dorme aqui." Arthur pega a mão de Dante, beijando-a. "Inclusive, passa a dormir aqui daqui pra frente. Para com isso de dormir na sala, Dante. Deixa a Ivete falar o quanto ela quiser."

Dante ri do comentário, assentindo com a cabeça. "Por mim, tudo bem. Com todo respeito, aquele sofá não é a melhor cama do mundo."

Arthur se levanta, guardando o violão no suporte e pegando as partituras do chão, ajudando Dante a se erguer e levando o ocultista até sua cama. Arthur deixa os dois papéis em sua mesa de cabeceira e se deita, puxando Dante para se aconchegar junto dele. O ocultista usou o peito largo de Arthur como travesseiro, os batimentos cardíacos servindo como uma canção de ninar, adormecendo o homem num piscar de olhos.

A cena é adorável para Arthur, que beija o topo da cabeça de Dante e o segura um pouco mais perto. Ele sente seus olhos lacrimejarem novamente, olhando para o teto, numa tentativa de tentar segurar as lágrimas. Ele ainda não conseguia acreditar no que tinha acabado de acontecer, no quanto Dante era atencioso consigo. Nunca ninguém havia feito algo tão lindo por ele, sem esperar absolutamente nada em troca, apenas pelo prazer de tentar deixar Arthur feliz. O músico havia se esquecido, por um minuto, dos horrores da vida lá fora: das criaturas, da morte iminente, do paranormal, do sangue, tudo. Por um minuto, o mundo inteiro era aquele quarto, ele, seu namorado, o violão e a música. A realidade pode ser peçonhenta, mas, por um momento, Arthur se permitiu sonhar.

Levando a mão até seu abajour, Arthur acaba esbarrando nas partituras. Ele pega um dos papeis e olha com atenção para as notas, analisando o que cada uma delas representava. Durante toda a composição, Arthur passou por muitas coisas, e sentiu todas a emoções possíveis, da melhor até a pior; era impossível pensar num nome para definir uma música feita num período tão caótico e imprevisível como o último ano. Nomear suas músicas sempre foi a parte mais difícil para Arthur, geralmente Gregório era quem sugeria os nomes.

Passando o polegar por uma das últimas notas, Arthur sente Dante se aconchegar ainda mais contra seu corpo, resmungando algo em seu sono. Ele sorri com a ação, observando como o homem parecia sereno ao dormir. Uma ideia surge em sua mente, e, desfazendo o abraço que tinha em Dante, ele se inclina na mesa de cabeceira, pegando uma caneta ali perdida e escrevendo um nome no papel.

Um viajante solitário conhece a esperança.

Notes:

As músicas tocadas aqui foram "Lone Sojourner" e "Before Dawn, at the Winery", ambas do jogo Genshin Impact, presentes no EP "At the Light of Dawn." vocês podem ver e ouvir o EP aqui.

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