Chapter Text
Cinco anos atrás
Era fim de tarde no reino e o sol estava começando a baixar no horizonte, tingindo o céu em tons alaranjados. O palácio permanecia imponentemente silencioso no horizonte um tanto quanto afastado.
Os arredores da propriedade da família Kunsti eram cercados por uma vasta floresta fechada que passava um ar de que escondia segredos. E era ali no meio dela que duas garotas se encontravam conversando às escondidas, debaixo das sombras das árvores.
— Não acha que a gente devia voltar? — Sussurrou a garota de cabelos pretos, observando o local inquieta.
— Pra quê? Pra me trancarem no quarto de novo? — Respondeu a outra, sem se importar em ser silenciosa.
— Eu não quero arrumar mais pra cabeça, Lina. Meu pai pode ter problemas…
— Você sabe que eu não deixaria que te tirassem daqui. — Lina sorriu ao olhar para Agatha. — Eu não vivo sem você.
Agatha riu. Um riso leve e musical, que sempre derretia o coração de Lina.
Sem nenhum aviso ou motivo aparente, Lina caminhou até uma árvore próxima e colheu uma flor, uma pequena miosótis, e foi até Agatha com a flor em mãos.
— Mesmo assi — Ela foi interrompida quando Lina chegou perto de seu rosto e colocou a flor atrás de sua orelha.
O tempo parecia passar mais devagar para elas naquela momento.
Lina percebeu a outra corar com sua ação e chegou mais perto do rosto dela para ver se provocaria mais alguma reação.
— Sabe Agathinha, tenho uma proposta. — Ela disse, com um sorriso de canto.
— Hm? — Agatha tentava manter a compostura.
— Acho que se a gente ainda estiver sozinha aos vinte, deveríamos nos casar. — Ela se aproximou mais ainda da outra, quase tocando seus narizes.
— Ah — Agatha, mesmo desnorteada com toda a situação, tentou responder. — acho que não seria má ideia.
Lina sorriu em resposta, mas não se afastou.
Pelo contrário, continuou a se aproximar mais ainda do rosto da outra, que também não recuava.
Ela podia sentir o perfume de Agatha, um cheiro suave de flores. O rosto corado, a expressão claramente perdida da outra a hipnotizava, e Lina não pode evitar ser puxada para ela.
E, antes que qualquer uma delas pudesse pensar muito, ambas avançaram. Foi um beijo leve e inocente, um selinho rápido mas que carregava o peso de tudo aquilo que elas não conseguiam pôr para fora.
Quando separaram os lábios, o mundo parecia ter voltado a girar.
Agatha ficou encarando Lina com um sorriso no rosto por alguns segundos e logo a puxou para mais um beijo, o que fez a morena se assustar um pouco pois não esperava ser pega de surpresa por ela.
— Te assustei, princesa?
Ela sentia que o coração ia saltar do peito sempre que Agatha a chamava assim.
— Eu te amo idiota.
Ambas riram, e passaram mais um tempo assim por ali ignorando tudo aos seus arredores e pensando apenas no amor que sentiam. Até que, eventualmente, precisaram voltar para a realidade e caminharam de mãos dadas até o palácio.
Nos dias de hoje
Agatha caminhava pelos corredores gélidos e calados da grande fortaleza que era o palácio Kunsti, bom não tão quietos como o normal pois ela escoltava Lina, a princesa, de volta para seus aposentos depois do jantar.
— […] e aí eles começaram a falar que vão arranjar um príncipe pra eu me casar e tudo mais. Sabe bem que podia ser aquele lá… como que ele chama mesmo? — O hábito de falar sem se preocupar com o volume era algo do qual Lina não se desprendia.
Agatha nem teve tempo de responder e a outra já voltou a falar freneticamente.
— Opspor! Isso mesmo, aquele lá. Ele não é tão bonito mas a herança dele meio que deixa esse fator de lado não acha?
A guarda costas sentia seu sangue fervendo e seu corpo todo se esquentando. Porque ela falava tanto assim dele? Ela queria mesmo se casar com ele? O que ele tem de tão especial assim, sem ser toda aquela fortuna?
Agatha sabia que a relação dela com Lina já não era a mesma coisa, não depois delas terem sido descobertas pelo pai de Agatha, que preferiu não informar a família real sobre pois ele poderia acabar expulso do reino caso o fizesse. A única escolha que ele pensou em tomar foi manter Agatha longe da garota, a treinando todo dia para ser uma soldada do reino.
Ao completar dezoito anos, Agatha foi designada para ser guarda costas da princesa, por mais que seu pai não concordasse com isso, o rei em pessoa foi até a casa deles para insistir que ela aceitasse. Ele disse que só poderia confiar a segurança da princesa nas mãos da filha do próprio chefe da cavalaria, que havia sido treinada por ele todo dia durante quatro longos anos.
Quando viu Lina novamente pela primeira vez em anos, ela estava diferente. Não apenas fisicamente, mas o jeito que ela a tratava não se parecia nada com o que elas tinham antes. Talvez mais alguém lá dentro soubesse sobre elas e por isso Lina parecia sempre querer garantir que elas eram apenas amigas toda vez que elas conversavam.
Foi um clima estranhamente horrível que magoou Agatha tanto quanto no dia que ela teve que deixá-la, mas ela precisou aprender a se acostumar a ser apenas a guarda costas dela.
— Não acho que sou a pessoa certa para opinar, princesa.
Lina ficou em silêncio por um momento, o que era extremamente raro, e Agatha dirigiu seu olhar a ela para ver se não tinha algo de errado e percebeu o rosto dela corado.
Mas é claro, como elas esqueceriam? Agatha sabia que Lina ficava desconcertada ao ser chamada assim por ela, mas não pensou que isso ainda aconteceria depois de tudo que havia acontecido entre elas nos últimos anos.
O clima pareceu mudar e a conversa morreu ali, elas foram até o quarto em silêncio depois disso.
Agatha abriu a porta do cômodo e logo foi se posicionar para guardar a entrada, mas foi chamada inesperadamente.
— Não vai entrar? — Questionou Lina.
— Eu deveria?
Ela assentiu com a cabeça e Agatha entrou, fechando a porta atrás dela.
— Agatha, eu sei que tenho agido como se não me lembrasse de nada, mas eu preciso falar com você.
A de cabelos negros apenas assentiu, se preparando mentalmente para o pior.
— Eu estava confusa, sobre tudo. Sobre nós.
— Então nunca existiu "nós", não é? — Agatha indagou.
— Não foi isso que eu disse.
— Então o que foi? — Ela pausou e esperou por uma resposta de Lina, mas não recebeu. — Eu sei que você se lembra Lina, e eu também me lembro muito bem de tudo. "Nós" já existimos e você parece querer apagar isso.
Lina continuou calada, tentando pensar em palavras que poderia usar para não destruir a outra, e a si mesma, totalmente, mesmo que ambas já estivessem em ruínas.
— Eu lembro.
— Então por que age como se não o fizesse?
Lina respirou fundo e apertou suas mãos, tremendo de leve.
— Porque a gente não pode! — Ela disse alto, claramente um tanto alterada. — Não tem como Agatha, eu não posso e você sabe disso. — Disse virando o rosto, os olhos já vermelhos e cheios de lágrimas.
— Você não pode ou… não quer?
Essa frase foi a gota d'água para a morena, que deixou escapar um soluço enquanto lágrimas encharcavam seu rosto e se virou para olhar nos olhos de Agatha.
— Eu não posso querer.
Agatha não esperava aquilo, não achava que a outra sentisse daquela forma também, pensava que havia sido feita de idiota por ela e não que ambas tivessem passado pela mesma situação. Ela não sabia se devia tentar confortá-la ou só dar espaço.
— Se nós tivéssemos quinze anos ainda, tentaríamos lutar por nós. — Agatha também chorava a esse ponto. — Eu achei que… você talvez estaria disposta a isso.
— N-não fala assim. — A voz dela quebrava.
— Me diz como falar então. Me diz que não vale a pena lutar pela nossa promessa.
Lina ficou calada, lágrimas voltavam a preencher seus olhos.
E esse silêncio disse tudo que Agatha precisava ouvir.
— Você é minha melhor amiga, Agatha. — Lina quebrou o silêncio, a voz dela ainda um pouco rouca. — E eu gostaria que você estivesse comigo para o meu casamento também.
Agatha deu uma risada. Um riso amargo e baixo.
— Melhor amiga? Só isso que sempre fui pra você?
Lina assentiu, e aquilo doeu mais do que qualquer rejeição dita em voz alta poderia doer.
— Soldados guardam os portões, Lina, e eu não deixarei meu posto para uma celebração. — Ela disse e caminhou em direção a porta do quarto.
— Espera!
Ela parou no meio do caminho, mas não se virou para encará-la.
— Me desculpa, eu só… não devo continuar sentindo isso.
Agatha sentiu uma gota gelada escorrer por seu rosto.
— Eu entendo. — Ela mentiu e saiu quarto afora.
Depois de anos esperando ela finalmente teve a confirmação que precisava para seguir em frente.
Agatha caminhou para fora do palácio e foi direto para casa conversar com seu pai. Ela decidiu que não faria mais parte do exército e que precisava de uma vida longe do castelo, longe do reino e, principalmente, longe de Lina.
O dia seguinte seria o último dela no palácio, ela iria conversar com o rei e inventar alguma história convincente para explicar seu afastamento, afinal ela não podia dizer que queria viver um romance proibido com a filha dele.
Ela só não esperava que naquela manhã o noivado já teria acontecido, e aquilo definitivamente transformaria aquele dia no pior da vida dela.
O caminho até a casa não era longo.
A porta foi aberta com mais força que o normal, o que chamou a atenção de seu pai, que estava sentado à mesa.
— Chegou cedo.
Ela não disse nada, só ficou parada olhando para o chão por alguns segundos enquanto tentava reunir coragem para dizer tudo que precisava.
— Vou sair do exército.
Um silêncio desconfortável pairou no cômodo e o homem ergueu o olhar para encará-la.
— Você o que?
— Não quero mais aguentar isso. — A voz dela era firme, mas seus olhos entregavam o que sentia. — Vou embora do reino.
Ele se levantou, tentando usar seu tamanho para impor algo nela.
— Tudo isso por causa dela?
Agatha estalou a língua.
— Não começa.
— Você sabe muito bem por que fiz o que fiz.
— Você acabou com a minha vida! — Ela gritou, finalmente explodindo. — Me privou das minhas decisões e me negou o direito de sentir algo por alguém!
— Eu te protegi!
— Me fez uma soldada pra tentar apagar quem eu realmente sou!
Ele se aproximou, o que a fez dar um passo para trás.
— Eu te criei pra sobreviver.
— A quê? A ter que guardar os portões do casamento dela com outro?
Ele riu, irônico.
— Então realmente é esse o problema. Você não sabe superar.
— Superar o que? Você tentando apagar a realidade sobre mim?
Ele não respondeu, o olhar fixo no chão.
Ela limpou o suor da testa, já estava exausta com tudo aquilo.
— Eu fiz tudo que você mandou. Treinei, fui pra longe, virei a armadura vazia que você queria moldar.
— E não adiantou nada. Você continua… isso.
Isso? Eu me resumo a isso pra ele?
— Não vou continuar vivendo minha vida baseada nas escolhas de alguém que não gosta de mim e quer mandar na minha vida.
— Quem disse que eu não amo minha filha?
— Mas você gosta da Agatha?
Ele não reagiu aquela fala, e ela continuou ali esperando por uma resposta que já tinha.
— Você vai viver como lá fora? — Ele retrucou. — O mundo não é gentil.
— Aqui dentro não é muito diferente.
O pai a observou por longos minutos.
— Se você sair não será mais bem vinda aqui.
— Eu sei.
Ele assentiu com a cabeça e caminhou para seu quarto.
— Então vá.
E, pela primeira, vez suas palavras não pareciam uma ordem, mas sim uma derrota.
