Chapter Text
O sino preso acima da porta tilinta toda vez que alguém entra, misturando-se ao som baixo da máquina de café e ao ronronar preguiçoso de meia dúzia de gatos espalhados pelo salão. Já acostumados com os sons do lugar, os bichanos mal reagem: Miu Miu, a gata branca e marrom, continuou arranhando um dos sofás e Misty, a gata grande e preta, observava a tudo do alto de uma prateleira, como se fosse a verdadeira dona do café, enquanto os outros gatos dormiam sossegados.
Ilia Malinin, um dos donos do estabelecimento, continuou a organizar as fatias de bolo, cookies, cinnamon rolls e sanduíches embrulhados em papel pardo no expositor de vidro e só levantou o olhar quando o novo cliente já estava parado bem à sua frente. Agradeceu mentalmente por já estar com as mãos vazias ou provavelmente teria derrubado os quitutes no chão. Afinal, aquela era, sem a menor dúvida, a pessoa mais encantadora do mundo: Os ombros encolhidos davam a impressão de que era menor, mas o rapaz devia ter mais ou menos a mesma altura que Ilia, embora mais esguio. O cabelo castanho e denso caía em ondas suaves sobre a testa e parecia tão macio ao toque que precisou controlar a vontade enorme que surgiu de levar a mão até ele e fazer um carinho experimental. Os olhos grandes e escuros tinham uma espécie de magnetismo difícil de ignorar, como se o instigassem a continuar olhando, mas também carregavam um ar melancólico e agora encaravam o dono do café com bastante timidez.
Droga, com certeza encarou demais e agora parecia um esquisitão!
— O-oi… — Ilia cumprimentou com nervosismo que não combinava com alguém geralmente tão confiante. — Bem-vindo! — emendou — O que você vai querer hoje?
O rapaz abriu um sorriso pequeno.
— Hmm… Acho que um matcha, tamanho M, por favor — pediu em um tom de voz baixo e cortês, o timbre suave combinava perfeitamente com as feições bonitas e gentis do rosto.
Ilia notou que o cliente adorável parecia ter um leve sotaque, mas não conseguiu identificar de onde era e nem deu tanta atenção a isso, já que recebiam imigrantes e visitantes de todos os lugares do mundo ali nos Estados Unidos. Ele mesmo era filho de imigrantes russos, afinal.
— Beleza! Para tomar aqui ou para viagem?
— Para viagem, por favor.
— Tá, logo fica pronto! Se quiser, pode brincar com os gatos enquanto eu preparo! A maioria deles é bem sociável! Menos Misty e Miu Miu — revelou e apontou para a dupla, eram as gatas mais velhas e folgadas da casa. — Elas me tratam feito lixo! Mas não precisa ter medo, eu juro que elas não mordem… Não forte, pelo menos — explicou e sentiu que falou demais por conta do nervosismo, no entanto a risada baixinha que recebeu como resposta fez valer a pena, pois tinha a certeza de que aquele era o som mais bonito que já tinha ouvido na vida.
Ilia começou a preparar a bebida, mas vez ou outra parava o que fazia para prestar atenção no cliente. Ele seguiu o conselho e buscou pela atenção dos gatos. Ilia observou, traído, Misty e Miu Miu se esfregarem de maneira carente e receptiva nas pernas dele.
— Traidoras… — murmurou, ressentido, em russo, a língua que costumava falar em casa com os pais, e sentiu olhos castanhos e confusos pousarem sobre si, mas apenas balançou as mãos em sinal de que estava tudo bem e finalizou a bebida. — Qual o seu nome? — questionou.
O estranho pareceu pensativo por um breve momento, mas logo respondeu:
— Misha.
Ilia pegou uma caneta, escreveu o nome no copo e adicionou um coração no final — algo que não fazia habitualmente — e o embrulhou dentro de um saco de papel antes de oferecê-lo para o cliente.
— Espero que goste!
Misha agradeceu e sorriu novamente antes de pagar pelo pedido. Despediu-se de Ilia com um “até mais” e, na saída, parou por um instante para fazer um último carinho nos gatos.
Ilia suspirou sonhador e pediu aos céus que aquela não fosse a única visita do rapaz adorável dos olhos grandes.
♡
As preces de Ilia pareciam ter sido ouvidas, pois, logo no início da tarde seguinte, Misha voltou ao café.
Ilia não estava sozinho dessa vez, Sasha Trusova, sua sócia, o ajudava a organizar a bagunça dos gatos e foi a primeira a prestar atenção no cliente que adentrava o estabelecimento. Ao notar o cabelo volumoso e os olhos grandes e marrons, se virou para Ilia e questionou em russo:
— É este o “príncipe melancólico” que você passou a manhã inteira descrevendo e desenhando nos guardanapos?
Ilia sentiu as bochechas ficarem quentes e acenou que sim com a cabeça.
— Ele é lindo, não é?
Sasha observou por alguns instantes e teve que segurar o riso ao ver Misha tropeçar nos próprios pés ao tentar se aproximar do balcão.
— Bonito ele é, mas meio desajeitado para um príncipe…
— É o charme dele! — Ilia o defendeu e passou as mãos pela franja loira, numa tentativa frustrada de ajeitar os fios rebeldes. — Deixa que eu atendo ele! — exigiu e sorriu simpático assim que chegou ao balcão de atendimento. — Misha, não é? Tudo bem? — questionou, falando em inglês assim como na primeira interação que tiveram. — Vai querer outro matcha?
Misha sorriu pequeno, mas sincero, parecia feliz por ter sido lembrado.
— Hoje eu preciso de café. Um espresso duplo, por favor.
— Tá legal! Para viagem?
— Hoje eu quero beber aqui.
Ilia abriu um sorriso grande.
— Fica à vontade, eu te chamo quando estiver pronto!
Ilia começou a preparar o café, cantarolando baixinho e notou Sasha se aproximar novamente.
— Você está mesmo afim dele, não é? — ela questionou em russo e sorriu de lado — Eu não te vejo com essa cara de idiota desde que o Jun te largou para voltar para Coreia.
Ilia fez um careta com a lembrança indesejada, sofreu durante meses por causa disso.
— Só um pouquinho… — admitiu e lançou um olhar furtivo ao cliente, mas ele parecia distraído demais brincando com Misty para notar que era assunto dos funcionários do café. Adorável. — Eu não sou o tipo de pessoa que acredita em amor à primeira vista, mas tem algo de diferente nele… E Misty e Miu Miu gostaram dele, isso só comprova que ele é especial — explicou, no mesmo idioma que Sasha, para garantir que ninguém além dos dois entendesse o que falavam.
Sasha riu de forma travessa.
— É claro… Serve um bolo de cortesia junto com o café, meus doces com certeza vão conquistar o coração dele!
— É sério? — Ilia perguntou animado. — Eu posso mesmo?
— É claro, depois eu desconto da sua parte dos lucros.
Ilia grunhiu, mas seguiu o conselho da amiga e levou a xícara de café e um pedaço de bolo de morango até a mesa de Misha.
— Ei, o seu pedido. O bolo é por conta da casa — anunciou e recebeu como resposta um sorriso tão grande que, pela primeira vez, notou o brilho metálico nos dentes de Misha. E, embora usar aparelho ortodôntico depois da infância e adolescência costumasse ser motivo de vergonha e chacota, Ilia pensou que aquilo só o deixava ainda mais fofo.
— Obrigado! Eu tô precisando mesmo disso… — admitiu e o olhar ficou distante por alguns segundos, mas logo voltou a sorrir. — Você é muito gentil… — tentou ler o crachá, mas a visão não era boa o suficiente para distinguir letras tão pequenas.
— Ilia, Ilia Malinin! Mas pode me chamar só de Ilia.
— Tá certo, obrigado, Ilia!
Com certa relutância, Ilia se afastou da mesa e voltou para trás do balcão.
— Ele sorriu para mim! — cantarolou alto em russo, incapaz de conter a animação na voz.
Misha olhou na direção deles, mas logo desviou os olhos de volta para o bolo. Sasha soltou uma risada alta.
— Ei, se acalma aí ou ele vai te ver babando!
Ilia riu de volta e pegou um pano para esfregar no balcão já limpo, apenas para ocupar as mãos. Ficar parado por muito tempo o deixava inquieto.
— Eu ainda vou conquistar ele, você vai ver!
— Eu não duvido — a garota retrucou, divertida. — Só toma cuidado para não assustar ele antes disso.
— Eu sei ser sútil, não esquenta!
♡
Ilia não era nada sutil. Sempre que Misha entrava no café, corria para ajeitar o cabelo, alisar o avental e abria um sorriso enorme para recebê-lo.
— Misha, bem-vindo! — Anunciou animado naquele fim de tarde, já estavam quase fechando, mas o cansaço do dia se dissipou graças à companhia de última hora. — Miu Miu e Misty estavam com saudades, faz nove dias que você não aparece! — disse e inconscientemente fez um beicinho.
Se Ilia fosse cem por cento sincero, teria admitido que era ele quem sentia falta do cliente favorito, mas, infelizmente, as poucas conversas sobre gatos e sabores de bolo ainda não tinham sido suficientes para criar uma intimidade maior entre eles. Qualquer pessoa menos impulsiva e emocionada teria percebido que acabara revelando que estava contando os dias. Para sua sorte, porém, Misha não pareceu se incomodar e também decidiu não comentar nada a respeito.
— Uh, me desculpe? — por um momento ele pareceu se sentir genuinamente culpado. — Os treinos estavam exigindo muito de mim, eu mal tinha tempo para respirar — admitiu, antes de erguer os olhos para o cardápio suspenso atrás de Ilia. — Mas agora isso não será mais problema… O que você recomenda para animar alguém que vai perder o pouco investimento que ainda tem por causa de uma lesão idiota?
Ilia piscou, confuso, por alguns segundos. Aquela era a primeira vez que Misha dizia mais do que algumas poucas palavras impessoais para ele.
— Bem… Acho que um um pedaço de bolo de chocolate bem quentinho — respondeu alguns segundos depois e cortou um pedaço bem generoso para a companhia. — Treinos, é? Você é atleta, artista ou algo assim?
Misha sorriu.
— Algo assim. Eu sou um patinador até que decente…
O olhar de Ilia se iluminou no mesmo instante.
— Patinador? Você quer dizer patinador artístico?
Misha fez que sim com a cabeça.
— Você tá brincando! Meus pais são patinadores! E minha irmã também!
— Ah é? E você é a ovelha negra da família?
Ilia riu e deu de ombros.
— Eu até que era bom, mas não lidava muito bem com a pressão e era muito descuidado. Acabei ferrando o joelho no final da adolescência.
— Oh, eu sinto muito — Misha parecia realmente chateado.
— Não esquenta, nunca foi meu sonho me profissionalizar e meus pais também não queriam isso. Eu só gostava de estar no gelo… E ainda consigo fazer isso de vez em quando, agora só por diversão — o tranquilizou e deixou o pedaço de bolo sobre o balcão. — Posso te fazer um chocolate quente? Com marshmallow.
Misha concordou e sentou em um dos bancos próximos ao balcão.
— Este lugar é seu sonho? — questionou e girou o dedo indicador ao redor do café.
— É! — Ilia concordou, animado — Eu sempre quis abrir um café e eu amo gatos! Parecia a coisa certa a fazer e meus pais gostaram da ideia, eu usei o dinheiro que ganhei vencendo alguns campeonatos e eles me emprestaram uma parte também… Está dando certo, nós já estamos aqui há quase um ano e logo logo eu me formo em gastronomia também.
— Isso é bom, você parece feliz aqui — Misha observou e deu uma colherada no bolo, suspirando satisfeito assim que o gosto doce se espalhou pela boca. — Ei, isso aqui tá uma delícia! É você que faz os doces daqui?
Ilia sorriu largo, genuinamente contente pelo elogio.
— A Sasha, minha sócia, faz a maioria, ela é uma confeiteira muito melhor do que eu… Mas este aí é uma receita minha, inspirado num bolo russo de chocolate e café que minha mãe costumava fazer sempre que chovia.
— Faz sentido. Ele é pesado, mas de um jeito bom, parece perfeito para dias chuvosos… E combina com uma tarde fria como esta.
— Obrigado — Ilia agradeceu e deixou a caneca de chocolate quente em frente a ele. — E quanto a você, Misha? Você é feliz patinando?
— Muito — admitiu com um ar sonhador, mas suspirou pesado logo em seguida. — Mas o amor a um esporte pode ser muito ingrato às vezes.
— O que aconteceu? — Ilia enfim perguntou e tirou o avental antes de se sentar no banco ao lado de Misha.
— Eu só vim para cá por causa da pista. Um investidor com negócios aqui me garantiu um lugar para dormir e um lugar decente para treinar por alguns meses. Mas isso foi antes de eu cair e machucar as costas… Agora eu tenho que ficar um mês inteiro longe do gelo para me recuperar, mas aparentemente isso já é suficiente para cortarem o investimento da pista de patinação — ele tomou um gole demorado do chocolate quente antes de continuar. — Eu ainda tenho mais alguns meses na kitnet onde eu e o meu treinador estamos ficando. O treinador que, aliás, está me treinando de favor… — soltou uma risada sem humor. — Mas eu não faço ideia do que vamos fazer sem um lugar para patinar.
— Isso é horrível.
— É… Desculpa estar te enchendo com meus problemas. Você deve ter tido um dia puxado aqui — Misha sorriu sem graça e tentou se desfazer da expressão chateada que carregava.
— Você não enche! — Ilia garantiu.
E, num impulso solidário, levou a mão até a de Misha, pousada sobre o balcão, e a apertou levemente. Os dois coraram com o toque e, depressa, Ilia recolheu a mão.
— Você tem um vídeo?
Misha ficou confuso, então Ilia esclareceu:
— Um vídeo seu patinando.
Misha concordou e tirou o celular do bolso, procurou nos arquivos do aparelho por um momento e, quando encontrou o que queria, o entregou para a companhia. Ilia deu play no vídeo e assistiu em silêncio. Uma música dramática, cantada em italiano, preencheu o café enquanto a tela mostrava Misha deslizar e saltar sobre o gelo. Apesar de vestir as mesmas roupas discretas e esportivas de sempre, ele parecia completamente diferente do rapaz tímido e desajeitado que frequentava o café. Sobre os patins, Misha se movia com uma elegância poderosa, quase hipnotizante. Já não parecia adorável: era lindo de tirar o fôlego, intenso e absolutamente impressionante. Ilia cresceu em pátios de patinação e assistiu a todo tipo de patinador desafiar a gravidade — os pais, a irmã, competidores talentosos e até mesmo lendas como Yuzuru Hanyu —, mas nenhum deles foi capaz de levá-lo às lágrimas. Quando o vídeo chegou ao fim, Ilia deixou o celular sobre o balcão e secou o rosto molhado com as mãos.
— Caramba… Uau! Você é incrível.
Misha parecia realmente constrangido.
— Obrigado — riu sem graça.
— É sério! — insistiu Ilia. — Seus saltos são tão precisos e elegantes... É tipo observar uma força da natureza em ação: devastadora, quase imbatível… E é impossível desviar os olhos.
O rosto de Misha ficou completamente vermelho, não fazia ideia de como reagir a um elogio tão forte e aparentemente tão sincero, por isso apenas repetiu mais um tímido “obrigado”.
Já Ilia não disse mais nada. Apenas pegou o celular novamente para rever a performance. Permaneceu em silêncio enquanto assistia e, ao final do vídeo, ergueu os olhos azuis para os castanhos cor de chocolate de Misha.
— Eu não posso te prometer porque não depende só de mim… Mas eu acho que talvez consiga um lugar para você treinar por algumas horas. Primeiro só por um dia, para ver como funciona, mas, se os treinadores gostarem de você, talvez consigam conversar com o dono para arranjar mais tempo.
Misha não conseguiu esconder a surpresa.
— Você tá falando sério?!
— Você pode me encontrar num lugar daqui um mês?
Misha assentiu devagar e sorriu. Aquilo era o mais próximo de esperança que sentira nas últimas semanas.
Ilia também sorriu. Agora só precisava convencer os pais a darem uma chance a um completo desconhecido.
