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O silêncio dentro do Uber tinha a densidade de uma terceira passagem. As luzes da cidade corriam pelas janelas como fotogramas de um filme que Gabriela e Alanis não sabiam se queriam protagonizar, mas do qual também não conseguiam sair. O ar condicionado gelava o suor fino que ainda cobria a nuca das duas, resquício do evento, do calor dos fãs, da energia que trocaram o tempo inteiro sem trocar uma única palavra sobre o que de fato importava.
Gabriela e Alanis haviam passado o evento inteiro tentando disfarçar a proximidade diferente entre elas, tentando disfarçar a tensão que nem elas mesmas conseguiam deixar menos visível. Cada sorriso para uma fã, cada pose para foto, vinha acompanhado de uma varredura discreta do olhar. Onde ela está? Assim que o flash baixava, os olhos já buscavam a silhueta familiar. Alanis mal terminava de agradecer um abraço e já virava o pescoço, procurando o tom ruivo que funcionava como um farol. E Gabriela, do outro lado, sentia a ausência como um puxão no estômago, até que as íris verdes de Alanis a encontrassem de novo.
Agora, fora dali, a realidade comprimia as duas no banco traseiro. Ambas estavam no Uber, estavam no mesmo hotel, no mesmo quarto. O detalhe do quarto único fora decidido com uma naturalidade falsa “é mais prático”, mas carregava o peso da confissão que nenhuma delas verbalizou: elas já não sabiam dormir separadas, mesmo quando a culpa virava terceiro travesseiro.
O motorista seguia calado, o rádio em uma estação qualquer. Gabriela mantinha os dedos entrelaçados no colo, Alanis, ao lado, sentia o perfume de Gabriela invadir o espaço mínimo entre os ombros delas e se perguntava se Gabriela percebia que a cada curva do carro seu joelho encostava de leve no dela, um toque despretensioso que nunca era rompido.
Faltando ainda um pouco de tempo para chegarem, por pura coincidência começou a tocar uma música que parecia uma indireta do universo. A melodia entrou baixa, depois a letra se impôs, e o carro inteiro pareceu diminuir para o tamanho de um confessionário.
“Você é uma comprometida que me liga
E eu sou o solteiro que atende
Depois que o suor seca o chão
É fácil me chamar de tentação.”
O trecho atingiu Alanis e Gabriela como um suco, por que, universo? Se perguntaram mentalmente enquanto trocavam olhares. Alanis, absorveu o “solteiro que atende” como um rótulo colado a fórceps, ela era a que estava livre, a que não devia nada a ninguém, e ainda assim sentia que a liberdade lhe cobrava um preço alto: ser reduzida à tentação, ao erro que elas decidiram cometer.
O banco de couro pareceu mais áspero de repente. Nenhuma desviou o olhar, e foi pior, porque a música continuou a despejar verdades no pequeno habitáculo.
“Como se eu fosse o culpado
Do que ‘cê faz com o seu namorado
Como se eu que tivesse alguém
Mas, diferente de você
Meu beijo não tá enganando ninguém.”
O momento pareceu ter sido moldado à mão para elas. Alanis solteira, Gabriela comprometida. Alanis sentiu o maxilar travar. Ela sabia racionalmente que era culpada. Mas racionalidade era quando o corpo de Gabriela cheio de culpa se entregava a ela com uma fome que beirava o religioso. E ali, na letra, o verso escancarava a diferença: o beijo de Alanis não enganava ninguém; já o de Gabriela carregava a mentira que ela contava para o namorado, para si mesma, para o mundo. Gabriela, do outro lado do toque quase imperceptível de joelhos, leu a acusação na música como quem lê a própria sentença. Ela desviou os olhos para a janela, mas o reflexo no vidro mostrava a expressão de Alanis: orgulhosa demais para se fazer de vítima.
“Jogando erro contra erro
O seu é bem maior que o meu
Da vida, cê não tira ele
Da cama, cê não tira eu”
O golpe final veio como uma lâmina sem pressa. “O seu é bem maior que o meu.” A verdade que as duas evitavam, que mascaravam com cenas de Eduarda e Lorena, com a desculpa profissional dos sets de gravação, com a suposta amizade colorida que colorida já não era mais, porque tinha se tornado a cor inteira do mundo delas. O adultério que antes, ambas cometiam, agora era apenas Gabriela no erro. E um erro que elas não conseguiam largar, algo que se prolongou quando se reencontraram para gravar cenas de Eduarda e Lorena, após o caso de carnaval, mas tudo se perdeu e foi muito além do casal.
Dentro do Uber, enquanto o motorista cantarolava distraído, Gabriela reviveu a lembrança que nunca pedia licença para invadi-la: a cena da primeira vez do casal. O roteiro mandava um beijo técnico, mas pediram “mais verdade”. E a verdade engoliu as duas. Alanis deslizou a mão pela cintura dela com uma firmeza que não estava escrita, os olhos escureceram, e o beijo deixou de ser Eduarda e Lorena muito antes do “corta”. Quando gravaram a cena da primeira vez do casal, se renderam à tentação uma da outra, e assim foi se tornando frequente, nenhuma se segurava mais por causa do alguém do lado.
A música terminou, substituída por uma propaganda qualquer, mas o veneno já estava inoculado. O carro reduziu a marcha, as luzes do hotel surgiram à frente. Alanis respirou fundo, como se tivesse prendido o ar o caminho inteiro, e quebrou o silêncio sem voz: apenas virou a palma da mão para cima sobre o banco, um convite mínimo, sem testemunhas. Gabriela olhou para aquela mão que conhecia os caminhos todos do seu corpo, hesitou dois segundos, os mesmos dois segundos que sempre hesitava antes de cair na tentação, e entrelaçou os dedos nos de Alanis.
O Uber estacionou. O motorista desejou boa noite, alheio à catástrofe silenciosa no banco de trás. Elas se soltaram antes de abrir a porta, mas a eletricidade permaneceu, pulsando entre as peles como um segredo que o quarto do hotel logo sufocaria de vez.
Entraram no quarto de hotel sem trocar uma palavra. O estalar da fechadura ecoou no silêncio carregado, a única testemunha do que estava por vir. Gabriela se curvou para desabotoar as botas, os dedos trêmulos deslizando pelo couro frio, enquanto o coração martelava no peito. Do outro lado do hall de entrada, Alanis desafivelava a tira fina do salto alto, a respiração presa. Nenhuma olhou para a outra, mas a consciência da presença alheia queimava a pele como um holofote. O ar estava tão denso que parecia sólido.
Quando Alanis ergueu o rosto, os lábios entreabertos prontos para a primeira frase verdadeira da noite, o toque estridente de um celular cortou o momento como uma lâmina. O aparelho vibrou sobre a mesinha de canto, e o visor iluminou o nome do “namorado” de Gabriela. Alanis desviou o olhar rápido para a janela, mas não antes de sentir o estômago se contrair, uma pontada fina e fria.
— Oi? Ah sim, cheguei bem sim, amor. – A voz de Gabriela soou estranhamente domada, mecânica. Alanis observava seus lábios se moverem, mas era como se o som chegasse abafado. — Uhum, tô sozinha já no quarto do hotel, vou descansar, beijos.
A palavra “sozinha” acertou Alanis em cheio. Ela apertou a mão contra o próprio coração, que protestava contra as costelas, caindo na realidade brutal de que Gabriela era comprometida. Não com ela. Não na boca do povo. Seus dedos pressionaram o tecido do vestido no peito, tentando silenciar o que ameaçava transbordar: uma mescla de tesão, afeto e a dor surda da injustiça.
— Ei, não fica com essa cara. – Gabriela desligou e se aproximou, o celular largado na cama como um objeto qualquer. Os passos eram suaves, mas determinados, e seus olhos buscaram os de Alanis com uma urgência que desarmava.
— Não tô com nenhuma cara. – A resposta veio curta, a voz embargada que a mais alta tentava disfarçar erguendo o queixo. Mas suas mãos foram direto aos ombros de Gabriela, os polegares pressionando a clavícula por cima da camisa de botão, como se ancorassem ali o resto de compostura que lhe sobrava. Os olhares se fundiram: famintos, implorando por verdade.
— Você sabe que ele não é bemmm um namorado, Lani. – A ruiva levou as mãos até a cintura da morena, os dedos quentes encontrando a curva exata e puxando os corpos num só movimento. O calor que emanava da pele de Alanis alcançou Gabriela e a fez suspirar de leve. Ela sondou o rosto da outra, buscando nos olhos verdes o perdão que não precisava pedir. Havia uma dádiva ali: as pupilas de Alanis, dilatadas, deixavam escapar um “eu entendo”.
Alanis esticou os braços, entrelaçando-os ao redor do pescoço de Gabriela. A ponta dos seus dedos roçou a nuca, sentindo a penugem arrepiada e os fios ruivos escapando do rabo de cavalo. O contato trouxe um conforto imediato e, ao mesmo tempo, ateou fogo.
— Foi difícil, sabia? – A voz saiu mais baixa e rouca, enquanto uma das mãos descia lentamente pela frente do corpo de Gabriela, os dedos encontrando a gravata laranja. Alanis começou a brincar com o tecido sedoso entre as pontas dos dedos, alisando, torcendo, e a cada movimento as juntas roçavam o esterno da ruiva, provocando arrepios. — Tá cada vez mais difícil, pra falar a verdade. Disfarçar em público o quanto eu te quero.
Gabriela sentiu o ventre se contrair. A confissão de Alanis, dita com a voz meio embargada e os olhos fixos na gravata que ela teimava em desmanchar, era o espelho do seu próprio desespero. Um riso curto, entre a ironia e a rendição, escapou dos seus lábios. Ela inclinou o rosto e colou a boca na mandíbula de Alanis, beijando devagar o osso saliente, sentindo a textura da pele e o perfume que se intensificava ali. Distribuiu beijos milimétricos, subindo pela linha do maxilar até a concha da orelha. O hálito quente bateu primeiro, depois os lábios, e por fim a voz, reduzida a um sussurro grave e íntimo que fez Alanis estremecer:
— Tá impossível mesmo. Você tá tão linda nesse vestido que eu não consegui tirar o olho nem por um segundo que fosse.
Assim que as palavras pousaram no ouvido de Alanis, seus olhos se fecharam e um sorriso genuíno, luminoso, abriu uma covinha na bochecha direita. Gabriela, antecipando o gesto, beijou exatamente ali a ponta do nariz gelado tocando a pele quente, os lábios contornando a depressão com ternura antes de voltar a morder de leve o queixo.
Os dedos de Gabriela cravaram-se na cintura, apertando o tecido do vestido e a carne macia por baixo. Sem desviar o rosto, ela ergueu os olhos e encontrou o par verde. Foi um convite sem palavras: um erguer de sobrancelhas quase imperceptível, um brilho de súplica e promessa. Então depositou um beijo nos lábios rosados de Alanis, um beijo seco e decidido, mas que explodiu em significados.
Alanis, com o coração disparado, relaxou os dedos que ainda brincavam com a gravata e puxou uma ponta. O nó se desfez num deslizar suave, e a tira laranja escorregou pelo peito de Gabriela até cair no chão com um roçar de tecido quase inaudível.
Alanis levou as mãos para o rabo de cavalo ruivo, desatando o elástico com cuidado. Os fios caíram em cascata sobre os ombros e ela mergulhou os dedos ali, emaranhando-os nos fios ruivos, massageando o couro cabeludo enquanto puxava o rosto de Gabriela para perto. Enquanto encostava seus lábios nos da ruiva, seus olhos permaneceram abertos por uma fração de segundo, o verde encontrou o castanho num choque mudo de adoração, até que as pálpebras pesaram e o mundo se dissolveu no beijo.
A boca de Alanis desabrochou sob a pressão quente, e o contato explodiu como desejo represado por uma tarde inteira. Cada lampejo de língua, cada respiração compartilhada, cada inclinação de cabeça carregava o peso das horas roubadas em público, dos olhares furtivos, dos toques acidentais que queimavam como brasa. Quando Gabriela sugou o lábio inferior de Alanis entre os dentes, puxando de leve, a mais alta gemeu baixinho e sorriu contra a boca da amante, aquele sorriso que Gabriela jurava ser sua ruína.
Em meio ao beijo, os dedos trêmulos de Alanis encontraram o primeiro botão da camisa vermelha de Gabriela. Ela o deslizou para fora da casa com uma lentidão calculada, as costas dos dedos roçando deliberadamente o vale entre os seios. O segundo botão, o terceiro… enquanto a boca de Gabriela a devorava, paciente e impiedosa. A ruiva, sentindo a camisa se abrir, ajudou com um movimento de ombros, e a peça escorregou braços abaixo, juntando-se à gravata no chão.
Os corpos se embolavam, tropeçavam um no outro, numa dança cega rumo à cama. Os pés descalços de Gabriela pisaram de leve sobre os dedos de Alanis, que riu baixinho contra a boca dela, mas não ousou quebrar o beijo. Cambalearam, se apoiaram na parede, deram um giro desajeitado. Nenhuma se importava com a falta de jeito; o beijo era um cordão umbilical que as mantinha vivas.
Alanis encontrou a borda da cama com a parte de trás dos joelhos e se sentou, puxando Gabriela consigo. A ruiva se ajeitou em seu colo, as coxas quentes emoldurando o quadril. Só então separaram os lábios com um estalido úmido, as testas unidas, as respirações ofegantes e entregues.
O olhar de Alanis queimava o rosto de Gabriela. Ela deslizou a ponta do polegar no canto da boca, recolhendo um vestígio de batom borrado, depois baixou os olhos para o pescoço exposto. Inclinou-se e tocou a pele com a boca entreaberta. Foi um beijo de reconhecimento, um mapa térmico que Alanis desenhava com os lábios e a ponta da língua, sentindo o pulso acelerado de Gabriela latejar sob seus lábios. A ruiva soltou um suspiro manhoso, a mão subindo para a nuca de Alanis, onde o coque prendia os fios escuros. Arranhou a raiz dos cabelos com as unhas, deixando uma vermelhidão efêmera.
Alanis beijava, lambia, mordiscava o pescoço da mulher com cuidado reverente, a ponta dos dentes provocando calafrios, mas a sucção sempre interrompida antes de deixar marca. O gosto de sal e perfume inundava sua boca. Enquanto isso, a mão esquerda subiu pelas costas nuas até o fecho do sutiã. Com um estalar quase inaudível, libertou os seios de Gabriela, jogando a peça para longe.
Ela desceu com os lábios pelo colo, passando a língua plana e lenta sobre a curva do seio esquerdo. Sentiu o bico rígido contra o palato e, por um momento, deixou o ar quente escapar entre os lábios, observando o corpo de Gabriela arquear em resposta. Então abocanhou, mordendo de leve o ápice tenso, enquanto as mãos apertavam a cintura da ruiva e puxavam seu corpo contra o próprio, as ancas se encaixando num movimento instintivo.
— Hmmm… – Gabriela soltou um suspiro manhoso que se transformou num gemido abafado. A mão que descansava no ombro de Alanis subiu pelo pescoço, contornou o maxilar e se fechou suavemente em torno do queixo. Exerceu uma pressão delicada, obrigando Alanis a abandonar o seio e erguer o rosto. Os olhos verdes estavam enormes, a íris reduzida a uma fina auréola, as pupilas transbordando tesão e uma fome que saltava dali como uma chama. Havia também um pedido mudo, uma pergunta que só o olhar poderia traduzir: “Você é minha?”. Gabriela respondeu beijando-a novamente. Dessa vez, o beijo não foi desesperado, mas simbólico, uma colisão de almas em que as bocas narravam cada “eu te amo” que jamais ousariam sussurrar naquela noite.
Num entendimento tácito, elas se ajeitaram na cama. Alanis se deslocou, ficando por cima, uma perna de cada lado do corpo de Gabriela. A saia do vestido subiu, a pele nua das coxas se encontrando e despertando arrepios em cadeia. Alanis voltou a traçar beijos no pescoço da mais velha, seguindo a trilha da carótida até capturar o lóbulo da orelha entre os dentes. Ela mordeu de leve, um peteleco de dor e prazer, antes de falar com a voz rouca:
— Gab… Cê tá linda hoje, já te falei? – O som reverberou dentro da mente de Gabriela, que fechou os olhos e sentiu os próprios pelos do braço se eriçarem.
— Fala de novo... – sussurrou Gabriela, a voz embriagada.
Mas Alanis não repetiu. Em vez disso, começou a descer. As mãos de Gabriela percorreram suas costas, apertando o tecido do vestido, amassando a malha enquanto os beijos desciam pelo esterno, pela costela, pela volta do umbigo.
— Eu amo beijar teu corpo todo. – A voz de Alanis ecoou novamente, mais baixa, como uma oração entoada sobre a pele quente.
Ela então se ergueu um pouco, apoiando-se nos joelhos. Seus olhos encontraram os de Gabriela, uma pergunta silenciosa. “Posso?” Sem desviar o olhar, Alanis segurou a barra da saia da ruiva. Gabriela, com as pupilas igualmente negras e o peito arfante, ajudou com o corpo, erguendo os quadris para que a última peça deslizasse pelas pernas junto com a meia calça e se juntasse à pilha de roupa esquecida no chão. Em retribuição, Gabriela levou as mãos à barra do vestido de Alanis e puxou para cima. Alanis ergueu os braços, uma rendição belíssima, e o tecido foi atirado para o lado. Os sutiãs já não existiam. Era pele contra pele, coração contra coração.
E assim elas ficaram, nuas de corpo e alma.
Alanis se deitou por cima, encaixando o quadril entre as coxas de Gabriela, e voltou a distribuir beijos pelo corpo amado. Do pescoço ao ombro, do ombro ao seio, da costela à barriga, cada contato de lábios arrancava da ruiva suspiros manhosos que substituíam os gemidos que ela continha com esforço. A boca de Alanis era cúmplice: beijava, desenhava mapas com a língua, soprava de leve só para ver os poros se arrepiarem.
Até que, sem pressa, ela passou as duas pernas de Gabriela sobre os próprios ombros, ajeitando-se entre elas. Abaixou a cabeça e, pela primeira vez, encarou diretamente a intimidade encharcada à sua frente. O perfume almiscarado a envolveu, e ela fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, como quem se embriaga antes do gole. Então levantou o olhar, os cílios projetando sombras sobre as maçãs do rosto coradas, e mirou nos olhos de Gabriela, aqueles olhos que brilhavam com uma vulnerabilidade absoluta. Com a voz pastosa, perguntou:
— Ficou assim a noite toda pra mim?
Gabriela sustentou o olhar por um instante eterno. Sua mão desceu e tocou o rosto de Alanis, o polegar acariciando a bochecha com uma ternura que contrastava com a urgência do corpo. Então sussurrou, a voz trêmula e entregue:
— Desde o momento em que te vi entrar naquele evento... Cada música, cada conversa idiota, cada gole de cerveja... eu tava aqui, pensando em você.
A confissão incendiou algo em Alanis. Ela virou o rosto e beijou a palma da mão de Gabriela, depois a ponta dos dedos, um a um, sem pressa. O olhar continuava fixo no fundo dos olhos, como se jurasse lealdade.
Então, finalmente, abaixou a cabeça. O primeiro toque da sua boca foi um beijo seco, reverente, na parte interna da coxa direita. Subiu devagar, milímetro por milímetro, espalhando beijos molhados, enquanto as mãos de Gabriela se agarravam ao lençol e seus quadris se contorciam em antecipação. O ar quente da respiração de Alanis bateu primeiro no centro do desejo, e Gabriela gemeu baixinho, um som que escapou por entre os dentes cerrados. Então a língua larga e macia a tocou, num primeiro lampejo lento, de baixo para cima, recolhendo toda a umidade que provava a espera.
— Lani... – O nome veio aos pedaços, os olhos de Gabriela revirando, a mão mergulhando nos cabelos soltos de Alanis, desfazendo o coque que ainda prendia a nuca.
Alanis não se apressou. Lambeu novamente, provando com atenção, os lábios desenhando círculos preguiçosos no ponto mais sensível, enquanto os dedos subiam pelas coxas trêmulas e se fixavam nos ossos do quadril, mantendo Gabriela ancorada. O olhar de Alanis se ergueu uma última vez, buscando o rosto da mulher, os olhos apertados, a boca entreaberta, a testa franzida em puro abandono. Aquela visão era seu próprio paraíso. Então fechou os olhos e se entregou à arte de desmontar Gabriela com a boca, numa coreografia de língua, lábios e sucção que arrancava gemidos cada vez mais altos e irregulares.
Gabriela já não continha nada. Os suspiros manhosos se tornaram gemidos graves e depois gritos abafados contra o próprio punho, enquanto os quadris dançavam no ritmo da boca que a consumia. Alanis percebeu o gesto de abafar e, num intervalo de carícias, com o queixo molhado e os olhos brilhando, subiu e puxou a mão de Gabriela, entrelaçando seus dedos contra o colchão.
— Quero ouvir você... – murmurou contra a pele úmida da coxa, a voz totalmente rouca. — Não esconde de mim.
E voltou a se perder entre as pernas da ruiva, sugando o ponto exato, desenhando oitos com a língua, enfim inserindo dois dedos devagarinho, curvando-os para dentro no ângulo que sabia de cor. O corpo de Gabriela se arqueou na cama como um arco retesado; a mão livre agarrou os lençóis, as costas descolaram do colchão, e um grito longo e entrecortado anunciou o clímax que Alanis bebeu com adoração, sentindo cada contração pulsar contra seus lábios.
Enquanto os espasmos ainda percorriam o corpo de Gabriela, Alanis subiu suavemente, beijando o ventre, o seio, a clavícula, até encontrar os lábios cansados. Beijou-a com calma, compartilhando o gosto salgado e adocicado, enquanto a ruiva a abraçava com força, as pernas ainda enlaçadas no seu quadril.
Os olhos verdes de Alanis brilharam, a covinha se aprofundando no sorriso exausto e feliz. Gabriela afastou uma mecha de cabelo escuro do rosto suado da amante e beijou a ponta do seu nariz.
E foi aquele olhar, entregue, confiante, vulnerável, que acendeu uma nova chama em Gabriela. Ela sentiu o corpo ainda pulsar com os ecos do próprio prazer. A ruiva respirou fundo, os olhos endurecendo com uma determinação amorosa. Ela deslizou as mãos dos ombros de Alanis para seu rosto, as pontas dos dedos contornando as maçãs, o maxilar, a curva dos lábios entreabertos.
— Agora... – A voz saiu mais firme, um contralto grave que fez Alanis prender a respiração. — Agora é a minha vez.
Sem dar tempo de resposta, Gabriela inverteu as posições com um movimento fluido, usando o peso do próprio corpo e a surpresa do gesto. Alanis deixou escapar um pequeno suspiro de espanto quando suas costas tocaram os lençóis bagunçados. A ruiva se encaixou entre suas pernas, os quadris nus se tocando, o calor úmido de Gabriela roçando na coxa de Alanis e provocando um arrepio coletivo. Ela apoiou os antebraços de cada lado da cabeça da morena, as pontas dos cabelos ruivos caindo como uma cortina que as isolava do mundo.
Gabriela pousou o olhar nos olhos verdes. Eles estavam ainda mais escuros agora, as pupilas engolindo a íris, o desejo renovado mesmo depois de tudo. Havia uma pergunta ali, uma curiosidade excitada. E havia confiança. Muita confiança.
— Você passou a noite inteira me olhando – murmurou Gabriela, baixando o rosto até que seus lábios roçassem a comissura da boca de Alanis. — Agora eu quero provar tudinho que eu não pude tocar.
Alanis soltou um gemido baixo, quase um soluço. As mãos subiram para a cintura de Gabriela, mas a ruiva as interceptou no caminho. Com uma agilidade surpreendente, prendeu ambos os pulsos da morena acima da cabeça, contra o travesseiro, com uma mão apenas. A outra mão permaneceu livre para o que desejasse.
— Não, não... – Gabriela sussurrou, um sorriso torto nos lábios.
Os lábios de Gabriela desceram pelo pescoço de Alanis, mas dessa vez a rota foi diferente. Começou pela covinha do sorriso, deslizou pela mandíbula tensa, mordiscou o lóbulo da orelha, arrancando um arrepio visível. Ela se demorou ali, a respiração quente ecoando no ouvido enquanto sua mão livre percorria o flanco de Alanis com uma lentidão quase dolorosa.
— Você tem ideia do que foi te ver naquele vestido? – A voz de Gabriela era um ronronar, os lábios movendo-se contra a pele atrás da orelha. — Cada vez que você ria, cada vez que cruzava as pernas... Eu precisei me segurar pra não atravessar todas aquelas pessoas e fazer isso aqui.
A mão de Gabriela deslizou pelo ventre liso de Alanis, as pontas dos dedos desenhando círculos preguiçosos na pele macia, descendo até o osso do quadril e subindo de novo, evitando deliberadamente o centro do desejo. Alanis arqueou o corpo, tentando buscar mais contato, mas a ruiva apenas apertou os pulsos presos, mantendo-a imóvel.
— Quieta... – Gabriela ordenou, a boca agora descendo pela clavícula. — Eu esperei tanto. Você também pode esperar um pouquinho.
O beijo que ela depositou no seio esquerdo foi diferente do de Alanis: mais lento, mais adorador. Ela não mordeu de imediato, mas passou a ponta do nariz ao redor do mamilo contraído, sentindo a textura, provocando com o hálito quente. Alanis gemia baixinho, a cabeça jogada para trás, os cabelos escuros espalhados no travesseiro como tinta. O coque já não existia; Gabriela fez questão de soltar os fios completamente antes de começar, e agora eles emolduravam o rosto da morena como uma auréola.
— Tão linda – Gabriela murmurou contra o seio antes de finalmente abocanhá-lo, sugando com uma pressão que fez Alanis gritar baixinho.
Mas ela não se demorou ali. Continuou descendo, os lábios traçando a linha central do tronco de Alanis, a língua plana provando o sal da pele. A mão que prendia os pulsos afrouxou um pouco, mas Gabriela não a soltou completamente. Queria que Alanis soubesse quem estava no comando, queria vê-la se render.
— Gab... – Alanis chamou, a voz embargada e rouca.
— Shh... – A ruiva respondeu, os lábios agora na altura do umbigo. Ela ergueu o olhar e encontrou os olhos verdes turvos de tesão e afeto. Foi uma visão que a desmontou e a fortaleceu ao mesmo tempo.
Ela depositou um beijo no baixo ventre de Alanis, e então mais um, e mais um, até que seu rosto estivesse entre as pernas da morena. Mas não a tocou ainda. Em vez disso, deslizou as mãos pelas coxas internas, abrindo-as suavemente, os polegares massageando a pele quente e arrepiada.
— Olha pra mim – pediu, a voz mais doce agora.
Alanis obedeceu, os olhos encontrando os de Gabriela com uma intensidade que dizia tudo. A ruiva sustentou o olhar enquanto baixava a cabeça e, lentamente, passava a língua em todo o comprimento da intimidade encharcada. Foi um toque largo e lento, de baixo para cima, recolhendo o gosto da espera. Alanis fechou os olhos, um gemido grave escapando por entre os dentes, as mãos finalmente livres se agarrando aos lençóis.
— Não feche os olhos, linda – Gabriela ordenou, erguendo o rosto por um instante. — Quero ver tudinho.
E assim foi. Alanis manteve os olhos abertos, fixos nos de Gabriela, enquanto a ruiva a desmontava com a boca. Lambeu, sugou, traçou círculos e desenhos, inseriu um dedo, depois dois, curvando-os no ângulo que sabia ser o ponto exato. A cada gemido de Alanis, a cada contorção dos quadris, Gabriela intensificava o ritmo, os lábios e a língua trabalhando em sincronia, a mão livre subindo para apertar a mão da morena que agarrava os lençóis.
— Gabi… Eu vou gozar… – Alanis avisou, a voz entrecortada, os olhos verdes quase negros.
— Vem – Gabriela murmurou contra o centro pulsante, sem parar o movimento. — Vem pra mim, amor.
E Alanis veio. O corpo se arqueou na cama, os olhos ainda abertos e cravados nos de Gabriela, a mão livre agarrando a nuca ruiva com força, um grito longo e rouco preenchendo o quarto. Gabriela percebeu cada contração, cada pulsação, e bebeu tudo com uma adoração que beirava a reverência.
Só quando os espasmos cessaram, ela subiu lentamente, beijando o ventre ainda trêmulo, o seio, o pescoço, até encontrar os lábios de Alanis.
Ficaram assim por um longo momento, as testas unidas, as respirações se acalmando no mesmo ritmo. O ar do quarto cheirava a sexo e a paixão, a lençol amassado e a pele quente. Gabriela rolou para o lado, mas manteve uma perna enlaçada na de Alanis, o tornozelo acariciando a panturrilha num gesto distraído e íntimo. A morena virou o rosto no travesseiro, os olhos verdes ainda com a névoa do prazer, e encontrou o perfil de Gabriela. A ruiva tinha os lábios entreabertos, os cabelos espalhados na fronha, uma gota de suor escorrendo pela têmpora que Alanis, instintivamente, esticou o polegar para recolher.
Gabriela soltou uma risada curta, o som vibrando contra o peito de Alanis, e se espreguiçou como uma gata, os braços esticados para trás, os seios se erguendo. Alanis observou o movimento sem disfarçar, o olhar demorando-se nas curvas, na pele ainda marcada pelas sucções cuidadosas. A ruiva percebeu e mordeu o lábio inferior, um brilho de satisfação nos olhos castanhos.
A mais velha pegou o celular e Alanis apenas se ajeitou, apoiando a cabeça no ombro de Gabriela, os fios escuros se misturando aos ruivos. O corpo da morena ainda estava mole, saciado, e o calor da pele a ancorava no presente.
— O que cê tá vendo? – Alanis perguntou, a ponta do nariz roçando a clavícula de Gabriela.
— A timeline – respondeu a ruiva, inclinando o celular para que as duas vissem. A tela iluminou os rostos, lançando sombras azuladas nas maçãs do rosto, nos lábios inchados. — Olha isso.
Gabriela começou a rolar a timeline do Twitter com a lentidão de quem saboreia a fofoca. O polegar deslizava pela tela enquanto seus olhos percorriam as postagens. A primeira que apareceu era um video delas, onde Gabriela se aproximava de Alanis cheirando o pescoço da mesma.
“ “posso ver?” e ela indo cheirar a alanis kk ai .”
Alanis prendeu a respiração por um segundo. No video, dava para ver o ângulo do seu corpo inclinado em direção a Gabriela, o olhar fixo nos lábios da ruiva. E dava para ver Gabriela correspondendo, o sorriso meio torto, a mão que quase tocava o braço de Alanis. Era sutil, mas aos olhos das duas, era um outdoor gritando o que sentiam.
— Acho que não disfarçamos tão bem assim… – Alanis murmurou contra a pele de Gabriela.
— Não mesmo, olha esse. – A ruiva apontou para o outro post.
“Por isso não aparecem mais juntas, não conseguem disfarçar.”
Alanis deixou escapar uma risada abafada, o hálito quente se espalhando pela pele de Gabriela. A ruiva continuou descendo a timeline, o polegar agora mais lento, como se cada novo tuíte fosse um petisco que merecia ser saboreado. A luz da tela tremeluziu nos olhos castanhos.
“era óbvio.”
“tudo se confirmou, irmãs . obrigada aos deuses do teatro por esse presente”
Gabriela leu o último em voz alta, arrastando a ponta da língua nos dentes depois de pronunciar “deuses do teatro”. Alanis sentiu o peito aquecer, não de vergonha, mas de um orgulho estranho. As pessoas estavam vendo, desconfiando, mas ao mesmo tempo aplaudindo. Como se torcessem por um adultério.
— “Era óbvio”… – Alanis soprou, o tom entre a zombaria e o espanto. — Será que era mesmo?
— Ah, amor, cê não se enxerga. – Gabriela rolou de lado, apoiando-se num cotovelo para encará-la. O celular ficou esquecido contra o travesseiro, a tela ainda acesa. – Você não disfarça nada.
“A música nos storys da Gabriela ‘jeitinho dela’ ela não é inocente .”
Gabriela arregalou os olhos. Aquela música, sim, era indireta para Alanis.
— “Jeitinho dela” é? – Alanis diz, a voz mais grave, os dedos agora traçando círculos na barriga de Gabriela. – Engraçado, foi exatamente o que eu falei em um certo vídeo… Gabriela, isso tá ficando meio perigoso…
— Eu sei. – A ruiva largou o celular de vez e se inclinou, a boca encontrando a comissura dos lábios de Alanis, um beijo de canto que era segurança e provocação ao mesmo tempo. — Mas também é gostoso. Eles tão montando um quebra-cabeça sem saber se a gente vai confirmar. E cada pecinha que eles acham é tipo… algo enorme.
Alanis abriu os olhos verdes. Ela segurou o queixo de Gabriela, os polegares nas bochechas sardentas.
– Por enquanto… vamos deixar eles brincarem de detetive. Tá rendendo uns tuítes bem bonitinhos.
Um riso escapou de Alanis, curto, libertador. Ela virou o rosto para capturar os lábios de Gabriela num beijo mais demorado, língua e calma. Quando se separaram, o celular vibrou sobre o lençol. Gabriela pegou de volta, curiosa.
A morena afundou o rosto no pescoço de Gabriela, escondendo o sorriso. A ruiva passou os dedos pelos cabelos escuros, sentindo o corpo da amante se aconchegar como se a cama fosse o único universo possível.
— Olha… – Gabriela recomeçou, a voz agora embalada pela tranquilidade da entrega. – Essa aqui: “obrigada deuses do teatro por me permitir viver medveguillen”.
— “Obrigada deuses do teatro” é o novo mantra do fandom? – Alanis murmurou, os lábios roçando a clavícula de Gabriela.
— Tá parecendo. – A ruiva deixou o celular escorregar para o meio dos lençóis, apagando a tela. O quarto voltou à penumbra. – Eles agradecem aos deuses do teatro, a gente agradece a quem? À falta de vergonha desses fãs que enxergam tudo?
Alanis riu, o som vibrando contra o peito de Gabriela.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelas respirações que voltavam a se sincronizar. Lá fora, o mundo girava, tuítes pipocavam, o fandom construía teorias e suspirava por um amor que acreditava existir. Ali dentro, a única verdade que importava era o calor que subia dos lençóis, o cheiro de sexo e paixão ainda pairando, e a certeza de que, enquanto estivessem assim, enlaçadas e escondidas, nenhuma legenda e nenhum like poderiam estragar o que elas tinham ou antecipar o dia em que, talvez, não precisassem mais se esconder.
Gabriela estendeu a mão no escuro e encontrou a de Alanis, os dedos se entrelaçando sobre o coração acelerado da ruiva.
— Amanhã a gente vê o resto dos tuítes – sussurrou. – Agora… acho que os deuses do teatro merecem mais uma oferenda.
Alanis não respondeu com palavras. Apenas rolou sobre o corpo de Gabriela, o riso abafado se transformou em um gemido baixo, enquanto a tela do celular tornava a desligar com mais uma notificação de que nenhuma das duas se importou em ler.
