Work Text:
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Ruído Branco
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A floresta era banhada pelo dourado do entardecer, um cenário que deveria inspirar o silêncio de uma missão. Bom, ou ao menos seria, se o time de shinobis responsável pela missão não contasse com específicos dois ninjas que pareciam determinados a testar os limites da paciência humana até o último fio.
Yamato caminhava à frente, a postura rígida e os olhos atentos a qualquer alteração no ambiente. Atrás dele, o silêncio era uma grande utopia.
— Você fechou? É uma pergunta tão simples, Kakashi! Sim ou não? — a voz de Obito ecoava entre as árvores, carregada de indignação.
— Obito, se eu disse que fechei, é porque eu fechei. Por que você continua perguntando? — respondeu Kakashi, sem sequer tirar os olhos das páginas de seu livro de capa laranja. Ele saltava sobre uma raiz exposta com uma elegância que beirava a arrogância. Sua cabeça permanecia inclinada, os olhos percorrendo as linhas. Ele nem ao menos piscava.
— PORQUE EU VI A JANELA ABERTA QUANDO NÓS SAÍMOS, KAKASHI! — Obito gritou, gesticulando de forma tão exagerada que quase acertou um galho baixo — A cortina estava balançando! Eu vi! Eu tenho um sharingan, seu idiota!
— Você viu o reflexo da sua própria cara no vidro. — Kakashi virou mais uma página com um movimento que parecia estudado para maximizar o efeito provocador — Erro comum para quem é lerdo. E o sharingan não corrige a lerdeza.
— Você NUNCA assume quando erra, é impressionante! — Obito estava agora andando de lado como um caranguejo enfurecido, colado ao ombro de Kakashi numa tentativa desesperada de furar o bloqueio da capa laranja. Sua voz subiu mais um tom. — É sempre "ah, Obito, você é atrasado", "ah, Obito, você é lerdo", mas quando É VOCÊ que esquece alguma coisa, cadê? Cadê a porra humildade, hein?
— Humildade pressupõe a existência de um erro a ser humilhado. — Kakashi virou mais uma página. — Não é o caso aqui. Você está confundindo humildade com alucinação.
Yamato suspirou, sentindo uma leve pontada nas têmporas. Ele olhou para o lado, onde Maito Gai saltitava em um pé só, aparentemente imerso no que chamava de "treino de equilíbrio da juventude". Yamato não entendia muito bem isso, mas a expressão de Gai era serena, como se a trilha sonora da discussão fosse uma sinfonia inspiradora.
Yamato se aproximou dele, sussurrando:
— Senpai... eles estão discutindo sobre essa janela desde o começo da missão. Fazem quatro horas. Quatro horas. Por que eles ainda estão falando disso?
Gai soltou uma risada. Ele alternou o pé de apoio.
— Ah, meu caro, Yamato! Isso não é sobre a janela! — declarou, com a convicção. — É sobre a chama da alma! A chama eterna da rivalidade! Eles não estão brigando, estão aquecendo os motores do coração! A primavera da juventude floresce até mesmo nos campos de batalha mais áridos da discórdia!
Yamato piscou lentamente, tentando processar aquilo. "Primavera da juventude" era, em seu dicionário mental, apenas uma forma rebuscada de descrever o inferno na terra.
— Outra coisa, Kakashi! — Obito mudou de assunto — Se nós tivéssemos dobrado à esquerda no vale, teríamos chegado no local há duas horas atrás! A rota que você escolheu é um desvio inútil!
Yamato franziu a testa. Agora era sobre o caminho?, pensou. Ele lançou um olhar rápido ao mapa mental que havia memorizado antes da missão. O trajeto de Kakashi era, na verdade, mais longo por cerca de quinze minutos, mas passava por terreno mais seguro e com menos probabilidade de emboscadas. Era uma escolha taticamente superior. Yamato abriu a boca para apontar isso, mas fechou-a imediatamente. Não, ele não iria se meter nisso. Ele já havia aprendido essa lição na primeira hora da missão, quando tentou argumentar que ambos estavam tecnicamente corretos sobre a posição do sol, e acabou recebendo olhares furiosos do Uchiha e do Hatake.
— E se tivéssemos dobrado à esquerda, estaríamos agora no meio de um pântano de javalis, Obito — respondeu Kakashi, sem sequer erguer os olhos das páginas de seu livro. Sua voz era tão calma que beirava o sarcasmo puro. — Siga o mapa, não o seu instinto de direção... que, convenhamos, é inexistente.
Obito parou bruscamente no meio da trilha.
— Inexistente?! — sua voz saiu em um rosnado. — Você é que é teimoso demais para admitir que eu estava certo uma vez na vida! Uma vez! Não peço muito! Só uma vez, Kakashi! Que seja!
Então Yamato observou Kakashi fechar o livro com um estalo seco. Ele guardou o volume lentamente na lateral e então se virou para Obito com aquele olhar semicerrado que indicava um sorriso sarcástico por trás da máscara.
— Obito, você se perdeu indo para o escritório do Hokage semana passada. Eu tive que te buscar perto da barraca de dangos. E não foi a primeira vez. — Kakashi pontuou calmamente.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que Yamato podia ouvir o próprio coração batendo. Ele viu o rosto de Obito passar por cinco estágios diferentes em três segundos: choque, negação, fúria, mais fúria, e finalmente um rubor tão intenso que parecia que suas bochechas iriam pegar fogo.
— Eu não estava perdido! — Obito gritou, o som reverberando pelas árvores — Eu fui até lá porque queria comprar dangos, seu idiota.
Yamato desviou o olhar, fixando-o em um ponto distante no horizonte onde o sol tocava as copas das árvores. O céu estava pintado de laranja e vermelho. Era lindo. Era pacífico. Era tudo o que aquele momento não era.
Ele respirou fundo. Lembrou-se dos dias de treinamento na fundação. Nada no seu treinamento lá o preparou para o nível de infantilidade do Uchiha e do Hatake.
Dois homens, pensou ele, enquanto seus dedos pressionavam a têmpora em um esforço para aliviar a pressão que se acumulava ali. Dois homens que poderiam derrubar exércitos sozinhos. Que enfrentaram bijuus, ninjas renegados, exércitos enormes. E estão discutindo sobre uma janela e um desvio de quinze minutos como crianças de cinco anos disputando o último pedaço de doce.
Gai, percebendo o sofrimento silencioso de seu companheiro, saltou até ele. Colocou uma mão no ombro de Yamato.
— Não temas, Yamato! — disse, em um tom que tentava ser reconfortante — Cada grande equipe tem suas tempestades antes da calmaria!
— Senpai — respondeu Yamato — Eles estão discutindo desde do portão da vila. A tempestade que virá aqui é um crânio rachado de um dos dois.
Gai riu novamente, dando um tapinha nas costas de Yamato.
— A juventude é imprevisível, meu caro amigo!
A discussão havia evoluído para algo que Yamato só podia descrever como um confronto de egos. Kakashi estava agora com as mãos nos bolsos, o ombro apoiado casualmente em um tronco de árvore, enquanto Obito gesticulava intensamente.
— E outra coisa — Obito continuou, o dedo apontado para o peito de Kakashi. — Você acha que é melhor que todo mundo só porque fica lendo aquela porcaria de romance que você chama de livro o tempo todo! Isso não te faz culto! Uma pessoa culta lê um livro que presta, não uma pornografia literária. Isso não te faz culto, te faz um tarado, Bakakashi!
Kakashi inclinou a cabeça, e Yamato jurou que podia ver uma sobrancelha erguida.
— Icha Icha é um estudo aprofundado da psicologia humana em situações de alta pressão — respondeu, com um tom de quem estava explicando algo óbvio para um aluno lerdo. — Você deveria ler. Talvez aprendesse alguma coisa sobre sutileza.
— Sutileza?! — Obito quase engasgou com a palavra. — VOCÊ não sabe o que é sutileza, Kakashi! Sabe o que é sutileza? É admitir que você não fechou uma janela.
— O que isso tem—
— EU VI A JANELA ABERTA, KAKASHI!
Yamato parou de caminhar. Seus ombros caíram. Ele olhou para o céu. Isso..., pensou ele, enquanto invocava mentalmente paciência, calma, sabedoria e qualquer outro recurso espiritual que pudesse encontrar, vai ser uma missão muito longa.
[...]
A fogueira queimava no centro do acampamento. O céu escureceu completamente, e as primeiras estrelas aparecem entre as copas. O cheiro de fumaça e pinho se mistura ao aroma do chá sendo preparado em uma pequena chaleira de ferro.
O acampamento está em seu momento de calmaria noturna. As barracas se agrupam em semicírculo ao redor do fogo. A cabana de madeira de Yamato se destaca no centro.
Gai está sentado em posição de lótus, os olhos fechados, respirando em um ritmo que ele chama de "meditação do fogo interior" e que todo mundo já aprendeu a reconhecer como um cochilo.
Genma, que simplesmente havia aparecido por lá, está sentado em uma pedra plana, mexendo o chá com um galho descascado. O palito no canto da boca sobe e desce em movimentos pequenos, acompanhando algum ritmo interno que só ele parece ouvir.
Yamato está encostado em um tronco, os olhos fixos nas chamas, mas a mente está dividida entre a missão e a observação silenciosa do que acabou de acontecer.
Obito e Kakashi se afastaram do acampamento há dez minutos. Talvez quinze. E desde então, a clareira tem sido... tranquila. Extremamente tranquila.
É estranho. Yamato não deveria sentir falta do barulho.
— Pode perguntar. — diz Genma, de repente.
Yamato pisca, ele não percebeu que estava com uma expressão tão legível. Genma está olhando para ele, o copo de chá já está estendido em sua direção.
— Perguntar o quê?
— O que você está se perguntando desde que eles saíram. O que todo mundo que já passou mais de quinze minutos na presença dos dois se perguntou em algum momento. Inclusive eles mesmos, provavelmente. Só que eles têm a desvantagem de estar dentro da situação, o que é sempre um problema. — Genma dá de ombros.
Yamato pega o copo. O calor contra os dedos é reconfortante.
— Eu... — ele hesita. Não quer parecer ingênuo. — A rivalidade deles — ele diz, escolhendo as palavras com cuidado. — É... intensa.
Genma solta uma risadinha curta.
— Intensa — ele repete, enquanto o palito em sua boca sobe, desce, sobe. — Bonito eufemismo.
— É pura sede de superação, certo? — Yamato inclina a cabeça, tentando encaixar as peças em uma estrutura que faça sentido. — Dois shinobi de elite, histórias entrelaçadas, dívidas de honra, a rivalidade clássica que eleva o nível de ambos. Como o Gai e o Kakashi, só que—
— Só que o Gai e o Kakashi não dividem o apartamento desde os dezenove anos — Genma interrompe.
O silêncio se alonga. Gai abre um olho. Talvez, o cochilo em forma de meditação não tenha sido tão profundo quanto parecia dessa vez.
— Genma — ele diz, em tom de advertência. — Deixa o Yamato descobrir sozinho. Faz parte da experiência.
— Que experiência? — Yamato pergunta, mas já está se sentindo estranhamente deslocado.
Genma tira o palito da boca e examina a ponta. Ele o recoloca, ajusta o ângulo com a língua, e então olha para Yamato.
— Yamato — ele diz, e há na voz a paciência de quem está prestes a explicar algo óbvio. — Quantos anos você tem agora?
A pergunta soa tão fora de contexto que Yamato precisa de um momento para processá-la. Ele pisca.
— Dezenove.
— Dezenove anos. — Genma repete o número como se estivesse pesando-o em uma balança — Você é um dos shinobi mais capacitados de Konoha. Passou pela fundação. Passou pelo ANBU. Passou por muitas coisas... — conta os itens nos dedos, um por um — Você já viu de tudo.
— Sim.
— Então como você ainda não percebeu?
— Percebido o quê? —- Yamato franze a testa.
Genma olha para Gai. Gai, que agora tem os dois olhos abertos e um sorriso tão largo que ameaça sair do rosto, balança a cabeça em um gesto que é permissão. Genma se inclina para frente. A fogueira estala entre eles.
— Aquilo ali — ele diz, apontando com o palito para o caminho por onde Obito e Kakashi desapareceram — não é rivalidade, Yamato.
Yamato espera. Genma sorri.
— É puro drama de casal.
O som da fogueira parece ficar mais alto no silêncio que se segue. Ou talvez seja o sangue de Yamato correndo. Ou talvez seja o universo inteiro rindo, porque é claro, claro, como ele não viu antes?
Yamato pisca. Uma vez. Duas vezes. Sua boca se abre, mas não sai som nenhum.
— ...O quê?
— DR. Discussão de relacionamento. — Genma explica.
— Mas eles... — Yamato começa, e para. Recomeça. — Eles brigam por tudo.
— Exato.
— Eles quase se mataram no treino da semana passada. O Kakashi usou Chidori. O Obito ativou o mangekyo.
— Pois é.
— O Obito jurou que ia fazer o Kakashi comer as palavras dele em relação ao relatório da última missão.
— E o Kakashi corrigiu a pontuação da escrita enquanto o Obito gritava. "Faltou uma vírgula depois do 'termos', Obito. E o verbo no futuro do pretérito exige crase." — ele imita a voz de Kakashi com uma precisão que faz Gai rir silenciosamente, os ombros sacudindo. — Foi lindo.
Yamato passa a mão no rosto. O mundo, de repente, está fazendo menos sentido do que deveria.
— Genma-senpai — ele diz, e nota que sua voz subiu uma oitava, — Você está dizendo que o Kakashi Hatake e o Obito Uchiha estão... — ele não consegue terminar a frase.
— Discutindo quem deixou a tampa da pasta de dentes aberta? — Genma oferece, útil.
— SIM!
— Sim.
— DESDE OS DEZENOVE ANOS?!
— Tecnicamente, desde os dezesseis — Genma corrige. — Mas eles não dividiam apartamento até os dezenove.
Yamato abre a boca. Fecha. Abre de novo. Ele olha para Gai, em busca de apoio. De ele que vai dizer "Genma está brincando, é uma piada entre nós..."
Gai surge ao lado de Yamato e coloca a mão no seu ombro.
— Yamato — ele diz, e sua voz é um trovão distante, cheia de convicção — Meu jovem amigo — Yamato engole em seco. — Eles se amam tanto que dói.
Gai continua, agora com as duas mãos no ombro de Yamato, os olhos brilhando com fervor.
— O Kakashi só provoca o Obito porque é a única forma que ele conhece de manter a atenção do Uchiha nele 24 horas por dia! Você já viu o Kakashi ignorar alguém? Realmente ignorar? Ele não fala com 90% da aldeia! Ele responde com monossílabos! Ele some no meio das conversas! — Gai aperta os ombros de Yamato com força suficiente para deixar marcas. — Mas com o Obito? ELE DISCUTE. ELE ARGUMENTA. ELE PERDE TEMPO PREPARANDO O CAFÉ DO JEITO QUE O OBITO GOSTA E DEPOIS DIZ QUE FOI "POR ACASO"!
— Gai... — Yamato tenta, mas Gai está em transe.
— E OBITO! O HOMEM QUE DEU UM OLHO PARA O KAKASHI! Esse mesmo homem passa quarenta minutos escolhendo qual bentô comprar para o Kakashi porque "o outro tinha muita cenoura e ele não gosta muito de cenoura"!
Gai finalmente solta Yamato. Dá um passo para trás. Cruza os braços.
— Eles se amam tanto que dói, meu jovem — ele repete, mais suave agora — E o que você chama de "rivalidade", o que você está tentando diagnosticar como "competição mal resolvida" e "traumas de infância não processados", é só o vocabulário limitado que dois idiotas treinados para matar desde a infância encontraram para dizer "eu me importo". Eles não aprenderam outra língua. Ninguém ensinou. A aldeia ensinou a lutar, a matar, a sobreviver. Não ensinou a dizer "eu sinto sua falta quando você não está". Não ensinou a dizer "seu café é ruim, mas eu gosto de tomar ele com você de manhã". Não ensinou a dizer "por favor, não morre, eu não aguentaria". — Ele pausa. — Então eles brigam. Porque brigar é seguro. Brigar é familiar. Brigar é uma coisa que eles sabem fazer sem precisar baixar as defesas, sem precisar admitir que há algo ali que vale a pena proteger.
O silêncio. Yamato está processando.
Na sua mente, as peças começam a se encaixar, e o quadro que se forma é tão absurdo, tão profundamente óbvio agora que alguém disse em voz alta, que ele se pergunta como não viu antes.
Os olhares que Kakashi lança para Obito quando acha que ninguém está vendo.
O jeito que Obito sempre se senta perto de Kakashi em reuniões, mesmo quando há lugares sobrando.
A forma como as brigas nunca escalam para violência real, apesar de tudo.
Como Obito nunca, nunca deixou Kakashi devolver o sharingan que deu ao Hatake. Como ele desvia do assunto com um "guarda isso aí, me devolve quando eu pedir", mas nunca pediu, nunca vai pedir, como se aquele olho fosse uma coisa que pertence aos dois agora, um pedaço de cada que se alojou no outro e não pode mais ser removido sem matar os dois.
— Eu não te avisei? E você não viu nada ainda. Espere até eles começarem a competir sobre quem faz o melhor café. — Genma sorrir.
— ... Café?
— Café. Da última vez, quase incendiaram a cozinha do Gai. E o Gai aplaudiu.
— Aquele dia foi incrível. — Gai deu um sorriso grande.
[...]
O riacho corria baixo, quase inaudível. O lugar ficava a poucos minutos do acampamento. O Uchiha e o Hatake caminhavam em silêncio agora.
Obito ia na frente, os ombros ainda tensos, as mãos enfiadas nos bolsos do uniforme. Kakashi, que vinha três passos atrás, as mãos também nos bolsos, o rosto erguido para as estrelas como se estivesse lendo algo no céu.
Obito parou na beira do riacho.
A luz das estrelas tocava a superfície da água, criando pequenos reflexos. Ele olhou para o próprio reflexo por um momento, distorcido pelas ondulações, e então se virou.Kakashi estava exatamente onde ele sabia que estaria. Nem um passo mais perto, nem um passo mais longe. A distância exata que Obito esperava.
— Você não fechou a janela. — Obito disse.
Não era uma pergunta. Era uma afirmação, porém agora sua voz era baixa, não alta, como era nas últimas horas.
Kakashi não respondeu imediatamente.
Ele tirou uma mão do bolso e, em um gesto que Obito já conhecia tão bem que podia antecipar cada milímetro do movimento, puxou a máscara para baixo.
— Não fechei. Eu vi a cortina balançando quando a gente saiu.
Obito arqueou uma sobrancelha. Havia um triunfo silencioso em seu único olho.
— E você deixou aberta de propósito só para me ver gritando? — perguntou.
Kakashi deu de ombros. Era um movimento pequeno, quase imperceptível, mas Obito viu.
— Você fica bonito quando grita.
Obito piscou uma vez. Duas vezes. Sua boca se abriu, fechou, abriu de novo, fechou. O vermelho subiu pelo seu pescoço, alcançou as bochechas, e Kakashi observou o processo.
— Você — Obito começou, e a voz falhou. Ele pigarreou. — Você não pode simplesmente... Isso não é... Você é um idiota.
— Sei. — Kakashi disse, e agora havia um sorriso em seus lábios.
Obito deu um passo à frente. Depois outro.
Agora eles estavam frente a frente. Obito ergueu a mão, e por um momento pareceu que iria acertar Kakashi no ombro, no peito, em qualquer lugar que pudesse ser interpretado como agressão amigável, a linguagem segura que eles conheciam.
Mas sua mão parou no ar. E então, lentamente, Obito colocou a palma contra a bochecha de Kakashi.
A pele estava quente. Os dedos de Obito roçaram a borda da máscara ainda puxada para baixo, e ele sentiu a respiração de Kakashi mudar, tornar-se mais rápida, menos controlada.
— Você também fica bonito quando eu grito. — Obito murmurou, e a frase era boba, não fazia sentido, mas Kakashi entendeu.
Kakashi inclinou a cabeça, pressionando a bochecha contra a palma da mão de Obito.
— Quatro horas. — Kakashi disse, e sua voz era um sussurro. — Você discutiu comigo por quatro horas por causa de uma janela.
— Foi uma janela importante. — Obito retrucou.
— E o desvio?
— Irrelevante.
— A rota?
— Perda de tempo.
— O livro?
— Você sabe que eu gosto quando você finge que não está me ouvindo.
A confissão pairou no ar entre eles. Kakashi soltou uma risada baixa.
— Eu nunca finjo que não estou te ouvindo. — Ele disse. — Eu só finjo que não me importo.
— Eu sei.
— E você finge que não percebe.
— Eu também sei.
Obito puxou Kakashi para frente, e o movimento foi ao mesmo tempo brusco e cuidadoso, como tudo entre eles. A testa de Kakashi encontrou o ombro de Obito, e ele ficou ali por um momento, respirando o cheiro que era exclusivamente Obito. Os braços do Uchiha envolveram suas costas.
— Você é terrível — Obito murmurou contra os cabelos prateados. — Você é a pior pessoa que eu já conheci.
— Hum.
— Eu odeio quando você faz isso.
— Sei.
— Eu odeio que você sabe exatamente o que fazer para me deixar maluco.
— Sei disso também.
— Eu amo você.
As palavras caíram no silêncio. O corpo de Kakashi ficou rígido por um segundo, apenas um segundo, e então ele relaxou completamente contra Obito.
— Eu sei — ele respondeu, e desta vez não havia provocação no tom. Apenas reconhecimento.
Obito riu contra o cabelo de Kakashi.
— Você vai me dizer de volta?
— Não.
— Não?
— Não agora. — Kakashi ergueu o rosto, e seus olhos estavam estranhamente brilhantes na penumbra. — Você já sabe.
— Eu sei. — Obito concordou. — Mas eu gosto de ouvir.
Kakashi rolou os olhos, e o gesto era tão familiar, tão profundamente ele, que Obito sentiu o peito se encher de algo que não tinha nome, algo que ele vinha carregando desde que se lembrava, algo que ele havia aprendido a chamar de "rivalidade" porque era a única palavra que tinha, mas que nunca, nunca foi apenas isso.
— Às vezes, — Kakashi começou, e sua voz era tão baixa que quase se perdeu no som do riacho — eu penso em todas as coisas que a gente poderia ter sido se o mundo não tivesse sido o que foi.
Obito não respondeu imediatamente.
— A gente é o que a gente é. — Obito disse finalmente. — E o que a gente é — sua mão apertou a nuca de Kakashi, os dedos firmes contra a pele — é o suficiente. É mais que suficiente.
— Você é muito brega quando quer.
— Só com você. — Obito sorriu. — Com os outros eu sou durão.
— Você não é durão com ninguém. Você chora com filme de cachorro.
— Aquele cachorro estava esperando o dono voltar por dez anos, Kakashi. Isso é triste.
— É um filme, Obito.
— É uma obra-prima do sofrimento canino.
Kakashi riu. Obito sentiu a vibração contra seu peito e pensou, como pensava quase todos os dias desde que se entendia por gente, que não havia som melhor no universo inteiro.
— Vamos voltar. — Kakashi disse, mas não fez movimento para se afastar. — O Yamato deve estar achando que a gente se matou.
— Ele sempre acha isso. — Obito retrucou, mas também não se moveu. — Genma deve estar explicando pra ele.
— Explicando o quê?
— A gente.
Kakashi ergueu a cabeça.
— Você se importa?
A pergunta era simples, mas Obito entendeu o que estava por trás dela. Você se importa que as pessoas saibam? Você se importa que eu não sou bom em demonstrar, que eu não consigo ser o que você merece, que eu só sei discutir e provocar e fingir que não me importo quando na verdade me importo tanto que às vezes não consigo respirar?
Obito puxou Kakashi para mais perto.
— Eu me importo que você fechou a janela. — Ele disse, e agora sua voz estava cheia de uma ternura que ele só deixava transparecer em lugares como aquele, em noites como aquela. — Eu me importo que você deixou aberta de propósito. Eu me importo que você finge que não está me ouvindo quando eu sei que você ouve cada palavra. Eu me importo que você leu o mesmo capítulo do seu livro cinco vezes hoje porque estava ocupado demais olhando para mim quando achava que eu não estava vendo.
— Eu não—
— Eu tenho Sharingan, seu idiota. — Obito interrompeu, e seu sorriso era tão grande agora que seus olhos se fecharam quase completamente. — Eu vejo tudo. Eu sempre vi tudo. Eu vejo você desde os quinze anos, Kakashi. E você é a única coisa que eu não me canso de olhar.
Kakashi abriu a boca e fechou. A ponta de suas orelhas agora estavam vermelhas. Obito achou aquilo profundamente satisfatório.
— Vamos voltar. — Kakashi repetiu, e desta vez sua voz estava estranhamente rouca. Ele puxou a máscara de volta ao lugar, e Obito observou o movimento com uma ponta de decepção. — Antes que o Yamato venha nos procurar.
— Ele não vai vir. — Obito disse, mas já estava se afastando, os ombros relaxados, as mãos de volta aos bolsos. — O Genma não deixou.
— Por que o Genma— Kakashi começou, e então parou. Suspirou. — O Genma sabe.
— O Genma sabe de tudo. É irritante.
— Ele vai contar pro Yamato.
— Ele já contou.
— E o Yamato—
— Vai fingir que não sabe.
Kakashi soltou um som que poderia ser uma risada ou um suspiro de resignação. Talvez os dois.
Eles caminharam de volta pelo mesmo trilho que haviam aberto na vegetação, agora mais lentos do que na ida. Quando a luz da fogueira começou a filtrar entre as árvores, Obito diminuiu o passo.
— Kakashi.
— Hum?
— A janela. — Obito disse. — Deixa aberta mais vezes.
Kakashi parou.
A luz do fogo dançava distante e Kakashi sustentou o seu olhar em Obito por um longo momento. Então, lentamente, seus olhos se curvaram sobre a máscara, formando aquele sorriso que só Obito sabia identificar.
— Combinado.
