Work Text:
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Reflexos
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O vento não uivava na Cordilheira da Geada. Ele sussurrava.
Era um som que não vinha do ar, mas de dentro do próprio chão. Uma frequência baixa, que fazia os dentes doerem e a ponta dos dedos formigarem. Kakashi sentiu isso assim que seus pés tocaram a neve. Uma pressão, como se a montanha inteira estivesse prendendo a respiração, esperando para ver o que eles fariam.
— O que você está sentindo? — Kakashi perguntou, sem tirar os olhos da fenda escancarada na parede de gelo à frente. A abertura tinha formato de ferida, com bordas que brilhavam em violeta.
Ao seu lado, Obito demorou para responder. O que era estranho. Obito sempre respondia, mesmo quando a resposta era só uma reclamação sobre o frio ou uma piada de mau gosto para quebrar o silêncio.
— ...É como se tivesse alguém me observando de dentro da minha própria pele — Obito disse finalmente, a voz baixa. — Você não sente?
Kakashi apertou os dedos ao redor do cabo da tantō. Sentia uma coceira na nuca, e o eco de vozes que ele sabia, racionalmente, não estavam ali.
— Controle sua respiração — ele respondeu, usando o tom que usava na ANBU. Neutro e firme. — É só genjutsu residual da fenda. O relatório da inteligência mencionava alucinações auditivas em quem se aproxima demais.
— O relatório da inteligência — Obito repetiu, e havia ali um fio de amargura que Kakashi não soube explicar. — Claro. Eles sempre sabem de tudo.
O vento sussurrou de novo, e dessa vez Kakashi quase pôde distinguir palavras.
Quem é você... o que você esconde... mostre... mostre...
Ele decidiu ignorar.
— Entrando — Kakashi anunciou, dando o primeiro passo em direção à fenda.
O silêncio dentro da caverna era diferente. A luz violeta se intensificava conforme eles avançavam, refletindo em formações de cristal que brotavam das paredes como galhos de árvores petrificadas.
Kakashi notou que Obito havia se aproximado.
— O que você vê, Obito?
— Nada — a resposta veio rápido demais. — Só... esses cristais. Eles parecem olhos.
Kakashi franziu a testa sob a máscara. Olhou para as formações. Elas não pareciam olhos. Pareciam espelhos.
Mas antes que pudesse dizer algo, o chão tremeu.
Não foi um terremoto. Foi algo pior. Foi como se a caverna inteira inspirasse, sugando algo invisível do ar, e Kakashi sentiu seu próprio chakra se contorcer dentro dele como um animal acuado.
—Kakashi— — Obito começou, e sua voz trincou no meio.
As paredes de cristal começaram a brilhar. E então, as sombras se moveram. As sombras não se desprenderam das paredes como ele esperava. Elas floresceram.
Kakashi viu primeiro pelo canto do olho: uma mancha mais escura que a escuridão, se esticando desde a base de um cristal como óleo subindo pela superfície da água. Ele girou, a tantō já meio desembainhada, mas a sombra não veio para ele. Ela escorreu pelo chão, contornou seus pés, e subiu pela parede oposta como se tivesse encontrado seu lugar.
E então, o cristal começou a formar algo.
— Kakashi — a voz de Obito saiu presa, estrangulada. — O que… o que está acontecendo?
Kakashi queria responder com alguma coisa prática, mas as palavras morreram em sua garganta. Porque no cristal à sua frente, algo estava tomando forma. Não era um reflexo, ele não estava parado diante daquela parede. E, no entanto, ali estava ele.
Ou melhor: ali estava o que ele poderia ser.
A figura usava o uniforme da ANBU, mas sem a máscara de kitsune que Kakashi usava nos dias de missão. O rosto estava nu, e era terrível ver a própria face transfigurada daquela maneira: os olhos vazios, sem o brilho cansado, mas presente que ele via no espelho todas as manhãs. Eram olhos de quem já não precisava mais enxergar porque já tinha visto tudo o que havia para ver. O que importava era a mão.
A mão direita brilhava com o chidori.
O Chidori ilusório trespassava o peito de uma silhueta sem rosto que se debatia nos dedos da figura, e o sangue escorria pelas luvas, pingando em um ritmo lento.
Ninja Copiador, os sussurros que antes vinham de lugar nenhum agora tinham uma fonte. Mil jutsus. Nenhum coração. O que você salva, Hatake? O que você protege?
Kakashi sentiu o chakra se revirar dentro dele. Sua mão esquerda, por puro instinto, apertou o pulso direito, como se pudesse conter algo que já estava prestes a explodir.
— Não olhe — ele conseguiu dizer, a voz saindo áspera. — Obito, não olhe para as paredes.
Mas ele sabia. Mesmo antes de virar o rosto, ele sabia.
Obito estava caído de joelhos.
Não era o mesmo Obito que entrava em missões com um sorriso largo e provocações na ponta da língua. Não era o Obito que discutia com ele sobre o significado do Caminho do Ninja enquanto devorava bolinhos de arroz. Esse Obito tinha os ombros encolhidos, as mãos pressionadas contra as têmporas, e respirava como se cada entrada de ar fosse uma faca.
E diante dele, o cristal mostrava outro rosto.
A máscara laranja em espiral era a primeira coisa que Kakashi viu. Depois, um manto de nuvens vermelhas. Porém era o rosto, não o rosto atrás da máscara, mas a expressão que a máscara transmitia, que fazia seu próprio sangue gelar.
Aquele Obito sorria.
Era um sorriso que não tinha nada a ver com o jeito que Obito sorria quando achava que Kakashi tinha feito algo legal e não queria admitir. Era um sorriso de quem já havia desistido de tudo que importava e, no lugar, construíram um mundo inteiro de mentiras tão sólidas que já não doíam mais.
Olha só, disse o Obito do cristal, e a voz era a mesma do Obito que estava ajoelhado. Olha como ele treme. Como ele nega. Você acha mesmo que vai ser diferente, Obito?
— Cale a boca — Obito gemeu, os dedos se enroscando nos próprios cabelos — Você não é real. Você não é real.
O ódio já vive no seu coração, o vilão continuou, dando um passo dentro do cristal. Você é Uchiha. Você sabe o que isso significa. Um dia, alguém que você ama vai morrer, e você vai sentir. Vai sentir aquela coisa preta crescendo dentro de você. E no dia em que isso acontecer, onde vai estar o seu herói?
Obito soltou um som que não era grito nem choro, mas alguma coisa entre os dois. Ele bateu com o punho fechado no chão de gelo, uma vez, duas vezes, até que as juntas ficaram brancas.
— Eu nunca — sua voz trincou — eu nunca seria você. Eu nunca vou trair Konoha. Nunca vou trair o Minato-sensei. Nunca vou… nunca…
Nunca o quê? O vilão inclinou a cabeça, curioso, como um gato observando um pássaro com a asa quebrada. Nunca vai sentir? Nunca vai querer apagar tudo isso e começar de novo? Nunca vai pensar que, se o mundo é só sofrimento, talvez seja melhor criar um novo?
O corpo de Obito tremia tanto que Kakashi podia ver os ombros sacudindo mesmo à distância. O cristal pulsava mais forte, a luz violeta tingindo tudo, e o vilão ria agora, uma risada baixa, íntima, a risada de quem conhece todos os segredos de alguém porque é esse alguém.
Você já pensou nisso, Obito. Você já pensou. A diferença entre nós dois é só o tempo.
Kakashi sentiu o mundo girar.
Não era o chão. Era ele. Ele que estava parado entre duas paredes de cristal, dois futuros, dois abismos. À sua direita, o Ninja Copiador ainda trespassava o peito sem rosto, e o sangue já formava uma poça que escorria em direção aos seus pés. À sua esquerda, Obito se desfazia em pedaços diante de uma verdade que Kakashi não conseguia alcançar.
O corpo de Obito desabou. Os joelhos afundavam na neve acumulada dentro da caverna, as mãos escorregaram das têmporas e caíram ao lado do corpo, inúteis.
— Eu jamais seria aquele monstro — ele sussurrou, e a voz já não tremia. Estava morta. Plana. — Eu jamais trairia Konoha. Eu jamais trairia o Minato-sensei. Eu jamais…
As palavras se repetiam como um mantra que já não funcionava mais.
Kakashi deu um passo em sua direção, mas algo o deteve. Não era o vilão do cristal à sua direita, este já havia voltado a se mover, mudando de posição, agora com os olhos mortos fixos em Kakashi com uma curiosidade que não prometia nada bom. O que o deteve foi o cristal de Obito.
O vilão de máscara espiral se aproximou da superfície do espelho.
Olhe para ele, o vilão disse, e agora a voz não vinha apenas do reflexo, vinha de dentro da caverna, reverberando pelas paredes, vibrando nos ossos. Olhe para o seu companheiro. O herói que ia salvar todo mundo. Onde ele está agora, Hatake?
— Não escuta ele, Obito — Kakashi tentou, mas sua própria voz soou distante. — É só um reflexo. Não é real.
Mais real do que você, o vilão respondeu, e havia riso ali. Porque eu sou o que ele esconde. Eu sou a verdade que ele enterra toda vez que olha no espelho e diz "eu sou diferente". Você sabe como é, Hatake. Você também tem um.
Kakashi sentiu um arrepio percorrer a espinha. Não precisava olhar para a direita. Sabia que o Ninja Copiador agora também estava mais próximo, a sombra do Chidori ainda brilhando, o sangue ainda pingando. Mil jutsus. Nenhum coração.
— Eu não sou você — Obito disse de repente, e havia uma fagulha de fúria na voz agora. Ele levantou o rosto. — Eu não sou você. Eu nunca vou ser você. Nunca!
Ele se levantou de um salto, o chakra explodindo ao redor do corpo, e Kakashi viu o perigo antes que Obito o visse. Os cristais estavam reagindo à emoção, pulsando mais rápido.
— Obito, para!
Mas Obito já tinha avançado em direção ao próprio reflexo com os punhos erguidos.
O vilão não se moveu.
Isso, ele disse, e seu sorriso se alargou. Isso. Esse ódio. Essa vontade de destruir. Guarda bem isso, Obito. Vai ser útil um dia.
O punho de Obito atravessou o cristal.
Não houve impacto. Não havia estilhaços. O braço afundou na superfície como se estivesse mergulhando em água gelada, e por um instante o vilão e o herói compartilharam o mesmo espaço.
O grito que Obito soltou fez Kakashi se mover antes mesmo de pensar. Ele atravessou a caverna em dois passos, ignorando o Ninja Copiador que agora ria às suas costas, ignorando os sussurros, ignorando tudo que não fosse o corpo de Obito se contorcendo com o braço preso dentro do cristal.
— Solta ele! — Kakashi gritou, mas não sabia se estava gritando com o vilão, com o cristal ou com o universo inteiro.
Quando seus dedos tocaram o ombro de Obito, o choque foi instantâneo.
Imagens explodiram atrás de seus olhos. Pedras caindo. Um grito abafado. Sangue escorrendo por baixo de uma rocha. A sensação de estar sendo esmagado, não apenas o corpo, mas algo mais, algo que não tinha nome, algo que doía de um jeito que os ossos quebrados nunca doeriam. E por baixo de tudo, uma voz que não era a de Obito, mas poderia ter sido:
Você chegou tarde. Você sempre chega tarde.
Kakashi puxou Obito para trás com toda a força que tinha.
Eles caíram juntos no chão de gelo, Obito ofegando, o braço finalmente livre, o cristal atrás deles se fechando como se nada tivesse acontecido, mas algo havia mudado: os vilões não estavam mais dentro dos espelhos.
Eles estavam fora.
Kakashi ergueu o rosto e viu. O Ninja Copiador estava agora a poucos metros de distância, os olhos mortos fixos nele, a mão direita ainda brilhando com a eletricidade do Chidori. O Obito vilão havia saído de seu cristal e caminhava lentamente em volta deles, como um lobo avaliando a presa.
— Você viu — Obito sussurrou, e havia algo partido em sua voz. — Você viu o que tem dentro de mim.
— Não — Kakashi respondeu, e surpreendeu a si mesmo com a firmeza da própria voz. — Eu vi o que este lugar quer que você acredite que tem dentro de você.
Mas Obito não estava ouvindo. Ele se encolheu, os braços envolvendo o próprio corpo, os olhos fixos no chão como se não suportasse mais olhar para nada.
— Eu pensei nisso — ele confessou, e cada palavra saía como se estivesse arrancando um dente. — Eu pensei em como seria se… se ninguém me entendesse. Se eu pudesse fazer um mundo onde… onde as pessoas que eu amo não tivessem que…
— Obito.
— Eu tive esses pensamentos. Eu tenho. E se isso significa que um dia eu vou…
— Obito.
Kakashi se moveu antes que o pensamento se completasse. Suas mãos encontraram os ombros de Obito, os dedos cavando na carne, firmes. Mas Obito se encolheu ainda mais, como se o toque queimasse.
— Olha para mim — Kakashi ordenou, mas Obito balançou a cabeça, os olhos apertados, os lábios trêmulos.
— Não. Não olha para mim. Eu não quero que você veja…
— Olha para mim, agora, Obito Uchiha!
A voz de Kakashi cortou o ar como uma lâmina.Não era o tom do amigo. Era algo entre os dois, um comando de quem não vai deixar o outro se perder, custe o que custar. Obito ergueu o rosto. Seus olhos encontraram os de Kakashi.
E atrás deles, os dois vilões se aproximaram, as sombras crescendo, os sussurros se tornando um coro.
É mais fácil desistir, dizia o Obito vilão.
Você só vai machucá-lo, dizia o Ninja Copiador.
Você é o monstro que ele teme.
Você é a dor que ele carrega.
Desiste.
Desiste.
DESISTE.
Kakashi sentiu o medo tentar entrar em seus pulmões, tentar fechar sua garganta. Sentiu o peso de todas as noites em que acordou com o gosto de sangue na boca, de todas as missões em que deixou alguém para trás, de todas as vezes que olhou no espelho e se perguntou se ainda havia algo ali que merecesse ser chamado de humano.
Mas havia algo mais forte que o medo.
Havia Obito.
Obito tremendo em suas mãos. Obito que tinha visto a própria escuridão e, em vez de fugir, tinha enfiado o punho nela. Obito que tinha pensado todos aqueles pensamentos sombrios e ainda assim acordava todas as manhãs e escolhia ser bom, escolhia ajudar, escolhia acreditar.
Kakashi apertou os dedos nos ombros de Obito.
— Escuta minha voz — ele disse. — Só minha voz. Nada mais.
Os vilões estavam a um passo deles agora. Kakashi não se moveu. Ele só olhou nos olhos de Obito e esperou.
Kakashi soltou os ombros de Obito.
Por um instante, Obito pensou que ele ia se levantar, ia se afastar, ia fazer o que todo mundo sempre fazia quando via o que havia dentro dele: recuar, pesar o risco, decidir que não valia a pena. Era o que ele esperava. Era o que ele merecia.
Mas Kakashi não se afastou, ele levou as mãos ao rosto de Obito.
Os dedos do ninja copiador, os mesmos dedos que tinham trespassado mil peitos, que brilhavam agora com o reflexo do Chidori iminente, tocaram suas bochechas com delicadeza. As luvas estavam ásperas contra a pele quente, mas o gesto era tão cuidadoso que parecia vir de outro homem, de um Kakashi que Obito raramente tinha permissão de ver.
— Olhe para mim — Kakashi disse, e sua voz não era a voz que usava em missões. Não era o comandante, não era o colega, não era o rival. Era uma voz que Obito nunca tinha ouvido antes, mas que reconheceu imediatamente como a mais verdadeira que Kakashi já usara. — Olhe para mim, Obito. Não para eles. Para mim.
Os vilões estavam ao redor deles agora. O Ninja Copiador erguia o Chidori sobre a cabeça de Kakashi, a eletricidade crepitando tão perto que os cabelos brancos se eriçaram. O Obito vilão estava agachado ao lado, o rosto na altura dos olhos de Obito, a máscara espiral refletindo um sorriso que não era sorriso.
Vai mentir para ele? o vilão sussurrou. Vai dizer que a escuridão não existe?
— Aquele não é você — Kakashi disse, e os dedos se moveram levemente, afastando uma parte do cabelo que caía sobre os olhos de Obito. O toque era tão íntimo que Obito sentiu o peito doer. — Escuta o que eu estou dizendo. Aquele não é você.
Você não controla o que ele vai ser, o Ninja Copiador murmurou do outro lado. Você mal consegue controlar o que você é.
— Eu sei o que você carrega — Kakashi continuou. — Eu sei o que você pensa nas noites em que não consegue dormir. Eu sei o que você esconde atrás dos sorrisos. Eu sei.
Obito sentiu as lágrimas começarem a escorrer. Não conseguiu conter.
— Então você sabe que eu posso me tornar aquilo — ele sussurrou, e a voz quebrou no meio da frase. — Você sabe que eu já tenho…
— Você não vai se tornar aquilo.
— Como você pode ter tanta certeza? — Obito quis gritar, mas o que saiu foi um soluço abafado. — Você não controla o futuro! Você não controla o que vai acontecer comigo! E se um dia eu…
— Se um dia o mundo tentar te transformar naquilo… — Kakashi interrompeu, e sua voz não vacilou — Eu estarei lá para te trazer de volta.
O mundo pareceu prender a respiração. Os vilões pararam de se mover. O Chidori parou no ar, imóvel. O sorriso da máscara espiral congelou.
— Eu aceito — Kakashi disse, e cada palavra era um tijolo assentado sobre uma fundação que Obito nem sabia que existia — A sua escuridão. Todos os pensamentos que você tem e que te apavoram. Todas as noites em que você duvida de si mesmo. Todas as vezes que você olha para dentro e vê ele. — Os polegares de Kakashi passaram suavemente sobre as maçãs do rosto de Obito, enxugando as lágrimas sem pressa, sem julgamento. — Porque eu conheço a sua luz — ele concluiu. — E ela é mais forte do que qualquer coisa que este lugar possa mostrar.
O vilão de máscara espiral deu um passo para trás. Um movimento involuntário, como se algo tivesse mudado na gravidade do lugar, como se o chão sob seus pés já não fosse tão sólido quanto antes.
— Você não pode… — o vilão começou, mas sua voz falhou.
Obito ainda tremia, mas agora não era só medo. Havia algo mais se misturando ali.
Ele ergueu a mão. Os dedos trêmulos tocaram o peito de Kakashi. Ali, bem no centro, onde o tecido azul da armadura, o reflexo do Chidori ilusório ainda brilhava, a mancha de luz que o Ninja Copiador carregava como uma acusação eterna. O lugar onde, em todas as versões dos pesadelos de Kakashi, a mão havia entrado e não saído mais.
Obito pressionou a palma contra aquela luz.
— E eu aceito — ele disse, e sua voz ainda tremia — a sua dor.
Kakashi parou de respirar.
— Você não está sozinho no escuro — Obito continuou, e a cada palavra sua mão pressionava mais forte contra o peito de Kakashi, como se pudesse alcançar por dentro e arrancar aquela luz que não era luz, era uma ferida aberta que ninguém nunca tinha permissão de tocar. — Você carrega isso sozinho há tempo demais. Acha que ninguém vê. Acha que ninguém sabe, mas eu sei e eu vejo.
Os dedos de Kakashi, ainda no rosto de Obito, tremeram pela primeira vez.
— Obito…
— Você não precisa ser o herói que salva todo mundo sozinho — Obito disse, e agora sua mão livre se ergueu também, encontrando o ombro de Kakashi, puxando-o para mais perto. — Você não precisa pagar por algo que aconteceu. Você não é só o que sobrou. Você é você. E eu aceito tudo. Tudo que você acha que é imperdoável. Tudo que você esconde. Tudo.
O Ninja Copiador, atrás de Kakashi, baixou a mão do Chidori.
O vilão de máscara espiral recuou mais um passo.
E então aconteceu.
Obito puxou Kakashi para frente.
Não foi um movimento brusco. Foi um colapso em direção um ao outro, duas órbitas que finalmente pararam de lutar contra a gravidade que as puxava para o mesmo centro. A testa de Obito encontrou o ombro de Kakashi, e os braços de Kakashi, que já haviam matado, que já haviam falhado, que já haviam se fechado para o mundo inteiro, se fecharam ao redor de Obito como se fossem a única coisa que ainda sabiam fazer.
E ali, envoltos na luz violeta que já não ameaçava mais, com os ecos dos vilões se dissipando ao redor como fumaça ao vento, eles se seguraram.
Não era um abraço de herói e resgatado. Era o abraço de dois homens que haviam passado a vida inteira fugindo de si mesmos e finalmente tinham encontrado um lugar onde podiam parar.
— Eu não vou deixar você se perder — Kakashi murmurou contra o cabelo de Obito, e a promessa foi tão baixa que quase não foi ouvida.
— Eu também não vou deixar você se perder — Obito respondeu, os dedos se enroscando no tecido azul das costas de Kakashi.
Os cristais ao redor começaram a estalar. Não foi um som de destruição. Foi um som de libertação.
O primeiro estalo foi pequeno.
Um som fino, agudo, mas ele se espalhou pelas paredes de cristal com a velocidade de um pensamento, e onde passava, deixava para trás um rastro de fraturas finas que brilhavam com uma luz que já não era violeta, era dourada.
Os vilões não gritaram quando começaram a desaparecer.
O Ninja Copiador foi o primeiro. Ele olhou para as próprias mãos, onde o Chidori ainda brilhava, mas já não era uma arma, era apenas luz. Seus olhos mortos, pela primeira vez, pareciam ver algo além do vazio. Ele olhou para Kakashi, e naquele instante fugaz, antes de se desfazer em partículas de ouro que subiram em direção ao teto da caverna, seu rosto pareceu suavizar.
Cuide dele, o reflexo sussurrou. E talvez fosse apenas a imaginação de Kakashi. Talvez fosse o eco de algo que ele mesmo precisava ouvir.
Mas ele apertou os braços ao redor de Obito com um pouco mais de força.
O vilão da máscara espiral durou mais tempo. Ele ficou parado no centro de seu cristal rachado, observando a cena com uma expressão que ninguém ali soube interpretar. Não tinha raiva. Não foi derrota. Era algo, mais cansado, uma tristeza tão profunda que parecia vir de outro tempo, de outra vida.
Ele realmente veio, o vilão disse, e sua voz já não zombava. Era apenas uma constatação, um fato que ele havia negado por tanto tempo que quase esqueceu que era verdade. Ele veio. Ele ficou.
Os olhos por trás da máscara, os olhos de Obito, mas não o Obito que estava ali, abraçado no centro da caverna, encontraram os do original.
Não desperdiça isso, ele disse. Não comete o mesmo erro que eu.
E então ele também se desfez.
Os cristais explodiram e o silêncio que ficou era diferente.
Era o silêncio de uma caverna comum, fria e vazia, com pingos de água escorrendo das estalactites e o vento lá fora assobiando baixinho na entrada. Não havia mais luz violeta. Não havia mais sussurros. Não havia mais nada além do som da própria respiração.
Kakashi foi o primeiro a se mover.
Ele não soltou Obito. Apenas recuou o suficiente para poder olhar em seu rosto, os braços ainda envolvendo os ombros do outro, as mãos ainda firmes contra suas costas.
— Acabou — ele disse.
Obito piscou algumas vezes, como quem acorda de um sonho muito longo. Seus olhos estavam vermelhos e inchados.
— Acabou — ele repetiu, e a voz ainda estava rouca, mas já não tremia.
Eles ficaram assim por mais alguns segundos, apenas existindo naquele espaço que haviam conquistado. Depois, como se um acordo silencioso tivesse sido feito, as mãos de Kakashi deslizaram dos ombros de Obito e desceram até encontrarem os dedos do outro.
[...]
A saída da caverna era mais estreita do que ele lembrava.
Ou talvez fosse apenas que, com as mãos dadas, o espaço parecia diferente. Kakashi teve que ir na frente, puxando Obito atrás de si, e em algum momento Obito riu quando seu ombro esbarrou na parede de gelo.
— Aperta um pouco mais esse caminho, Bakakashi, já que você é tão bom em abrir espaço.
— Se você não fosse tão desastrado, caberiam dois.
— Eu sou desastrado? Você que está puxando no lado errado…
As vozes ecoaram pelo túnel, e pela primeira vez naquele dia, o eco não devolveu nada além das próprias palavras. Quando pisaram na neve lá fora, o sol estava se pondo.
Eles caminharam em silêncio por alguns minutos. As mãos ainda estavam dadas.
— Kakashi — Obito disse finalmente, sem olhar para o lado.
— Hm?
— O que a gente viu ali… o que a gente disse…
— Eu não vou esquecer — Kakashi interrompeu, e sua voz era calma, mas firme. — Se você está preocupado que eu vá fingir que nada aconteceu.
Obito mordeu o lábio. A neve rangia sob seus passos.
— Eu não quero que você finja que nada aconteceu — ele disse, mais baixo. — Eu só… não sei como voltar disso para o normal. Depois de…
— Quem disse que a gente precisa voltar?
Obito parou de andar. Kakashi também parou.
— O que a gente tinha antes… — Kakashi começou. — Não era ruim, mas também não era tudo o que podia ser.
Obito engoliu em seco.
— E agora? — sua voz saiu mais rouca do que ele queria.
Kakashi olhou para as mãos dadas. Para a forma como os dedos de Obito se encaixavam entre os seus, perfeitos, como se sempre tivessem devido estar ali.
— Agora eu sei que você tem uma escuridão — ele disse, levantando os olhos novamente. — E você sabe que eu tenho uma dor. E nenhum dos dois vai embora só porque a gente finge que não existe.
Obito sentiu o peito apertar.
— Mas também sei… — Kakashi continuou, e um sorriso apareceu sob a máscara, um sorriso pequeno, quase tímido, mas era o mais verdadeiro que Obito já viu nele — Que não preciso carregar a minha dor sozinho. E você não precisa esconder a sua escuridão.
O vento soprou suave, levantando uma névoa fina de neve entre eles.
— Então não volta — Obito disse finalmente, e agora era a vez dele apertar os dedos. — A gente não volta. A gente vai pra frente. Juntos.
— Juntos — Kakashi confirmou.
E continuaram caminhando.
O sol se pôs atrás deles enquanto desciam a montanha, e as sombras da noite vieram, mas nenhum dos dois sentiu frio. As mãos continuaram dadas, e em algum momento Obito começou a reclamar que estava com fome, e Kakashi disse que ele sempre estava com fome, e Obito respondeu que não era sempre, era quase sempre, e isso era muito diferente, e Kakashi riu, realmente riu.
Atrás deles, a caverna já era apenas uma mancha escura na encosta, mas dentro dela, no lugar onde os cristais haviam estado, algo permanecia. Não uma maldição, não um perigo. Apenas a memória de dois homens que haviam encarado o pior de si mesmos e, em vez de se afastarem, haviam se aproximado.
E naquele espaço vazio, onde antes havia medo, agora havia apenas uma coisa:
A certeza de que não importava o que o futuro guardasse, eles enfrentariam juntos.
