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A sensação que dominava seu corpo era horrível: impotência. Não era apenas dor, nem apenas desespero — era algo mais profundo, mais sufocante, como se o mundo inteiro tivesse desabado sobre seus ombros e, ainda assim, ele fosse obrigado a permanecer ali, consciente de tudo. O cheiro de sangue impregnava cada canto de Old World, pesado, metálico, impossível de ignorar. O vermelho carmesim se espalhava sem pudor, manchando suas roupas, sua pele, seus cabelos — e, inevitavelmente, sua alma. Não havia nada que ele pudesse fazer. Nada que pudesse reverter aquilo. Nada que trouxesse Doc, Ice Man, Piano Man, Lippmann ou Albatross de volta.
Ali, ferido, ajoelhado, segurando o corpo de Albatross, ele já não sentia o próprio peso. Seus braços doíam, seu corpo tremia, mas sua mente… sua mente era seu verdadeiro inimigo. As lembranças vieram sem aviso, cruéis, insistentes, como se desejassem queimá-lo por dentro. Seu primeiro aniversário com aqueles idiotas, cheio de risadas altas e provocações idiotas. A moto que ele tanto amava — presente daquele cabeça oca que agora jazia imóvel em seus braços. Os documentos sobre seu passado, as respostas que ele achava que queria. E até mesmo os dias mais simples, leves demais para serem não valorizados na época, desperdiçados entre partidas de bilhar e taças de vinho ou espumante, onde o tempo parecia não ter importância.
Como Chuuya sentiria falta desses dias…
Seu rosto estava molhado, manchado de lágrimas e sangue, as duas coisas se misturando sem distinção. A marca da mão de seu velho companheiro ainda estava ali, como um último vestígio de calor — seus amigos, sua família. Ele fechou os olhos, mas não encontrou descanso. Arahabaki sussurrava, como sempre, preenchendo os espaços vazios com promessas violentas, oferecendo incontáveis formas de fazer Verlaine pagar por aquilo, uma após a outra, como se nenhuma fosse suficiente.
E, no fundo, ele sabia.
Chuuya faria com que Verlaine pagasse.
…
O despertar veio abrupto, violento, como se tivesse sido puxado à força de um abismo. Sua respiração estava descompassada, presa entre o pânico e o cansaço, enquanto seus pulmões lutavam para acompanhar o ritmo do próprio coração. Mais um pesadelo. Sempre o mesmo. Sempre aquele dia — o fatídico dia de sete anos atrás, que insistia em não se tornar apenas passado.
Seu corpo estava frio, mesmo sob os cobertores. O cabelo grudava na testa, úmido, e sua cabeça girava de forma desconfortável, como se ainda não tivesse voltado completamente para o presente.
— Que merda… — murmurou, a voz rouca, carregada de irritação e cansaço, enquanto se esforçava para se levantar.
Cada movimento parecia mais pesado do que deveria. Seus músculos respondiam com atraso, hesitantes, como se até mesmo seu corpo questionasse a necessidade de continuar. Caminhar até a cozinha não deveria ser difícil — e, ainda assim, parecia uma tarefa absurda.
Desceu as escadas com cuidado, uma mão apoiada na parede, os dedos ainda levemente trêmulos. Ele odiava aquilo. Odiava a sensação de fragilidade, odiava como tudo parecia confirmar algo que ele sempre evitava admitir: ele tinha um coração e ainda assim, sabia que não merecia, por não ser humano o bastante para isso.
E então…
Antes mesmo de chegar à cozinha, o cheiro amadeirado acalmou as marteladas pesadas em seu peito.
A porta estava entreaberta e a luz acesa; o cheiro do seu chá de hojicha — o único que ele escondia de todos, o único cujo esconderijo apenas aquele idiota conhecia — preenchia o ambiente.
Apenas para confirmar o que já sabia, ele adentrou o cômodo, podendo ver Dazai vestido com um avental cor-de-rosa, enquanto servia uma segunda xícara.
— Ah, Chuuyaa~ finalmente você levantou!
Ver aquele sorriso, aqueles olhos castanhos tão grandes e, ao mesmo tempo, desprovidos de vida, trouxe o que faltava para que ele se acalmasse completamente.
— Por que não me avisou que voltaria hoje, seu maldito idiota…? — Ele fechou a cara, fingindo porcamente estar com raiva de Dazai.
— Chibii, você é um péssimo cachorro. — Tá, talvez não estivesse fingindo tanto assim.
Ele apenas o ignorou. Apesar de odiar ser chamado de cachorro, o pesadelo anterior ainda pesava em seu humor. Ele só queria tomar seu chá, talvez uma garrafa de vinho, e voltar para sua cama na esperança de não sonhar mais.
Então, não demorou para que se sentasse à mesa e puxasse para si o hojicha, bebericando com cuidado o líquido fumegante.
…
Dazai, que antes possuía uma expressão brincalhona, agora estava sério.
Sabia o porquê de seu amado cachorrinho estar assim; sabia que sua mente ainda era atormentada pela morte dos Flags e, por isso, decidiu — apenas por hoje — parar de provocá-lo um pouco
Ele apenas se sentou ao lado dele e começou a tomar a outra caneca, mesmo não sendo um amante de chá.
O silêncio não era desconfortável.
Após quase meia hora, os dois haviam finalmente terminado e, é claro, Dazai lavou tudo. Chuuya aparentava já estar mais calmo e sonolento.
Ele sabia disso; podia ver o homem de 22 anos cochilando e babando sobre a mesa.
Uh… como ele amava aquele ruivo.
Ele terminou rapidamente e, enfim, voltou em direção ao mais baixo, pegando-o no colo para levá-lo de volta ao quarto.
Um suspiro pôde ser ouvido, vindo diretamente de seu chibi.
— Eu não deixei você me carregar…
A voz levemente rouca e irritadiça foi ouvida e veementemente ignorada. Ele apenas terminou o caminho até o grande quarto de Chuuya. Colocando-o na cama com toda a suavidade que não sabia que tinha.
Sabia que “Não Mais Humano” estava apagando os sussurros de Arahabaki.
Sabia como seu Chibi amava dormir com ele.
Com seu marido.
Ele deitou logo depois, cobrindo-os para mais uma curta madrugada juntos, sem que a ADA ou a Máfia do Porto soubessem de seu matrimônio.
Olhando um para o outro — já que o ruivo havia acordado ao menor movimento que Osamu fez sobre o colchão —, o brilho nos olhos ainda baixos revelava o amor e o calor que sentiam.
E, finalmente, Osamu pôde abraçar a cintura de seu ruivo, aproveitando mais uma pequena coisa na vida — obviamente, guardando essa piada para outro momento —, salvando-o de mais uma noite em claro, assim como Nakahara fazia o mesmo indiretamente.
E, enfim, Chuuya pôde esconder o rosto no pescoço daquele idiota, maluco e tão apaixonante detetive, para dormir pelo resto da noite.
Em momentos como esse, Osamu se sentia finalmente vivo, como se o buraco em seu coração tivesse sido permanentemente preenchido.
E Chuuya não se importava em ser humano, em sentir o rosto quente de vergonha, em sentir seu sangue correr pelas veias.
Como um humano.
Agora, só se podia ouvir a respiração calma dos dois amantes, enquanto as taças de vinho permaneciam intocadas na mesa de cabeceira.
