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— Juquinha, o que você ainda tá fazendo aqui, menina?
Eduarda foi tirada de seu devaneio pela voz do delegado, que entrou na sala dos investigadores com uma batida de porta nada sutil.
A verdade é que ela ainda estava lá porque simplesmente não conseguia ir embora.
Depois de tudo o que tinha acontecido com o Paulinho, e de vê-lo sair da delegacia completamente desolado com a notícia de que havia sido afastado das funções por conta de mais uma das tramoias de Santiago Ferette, Eduarda ficou com os nervos à flor da pele, determinada a encontrar qualquer coisa que pudesse ajudá-lo a sair daquela situação.
Então, quando ficou sozinha naquela sala, depois de uma despedida carregada de emoção e lágrimas, Eduarda se enterrou nos documentos, depoimentos e inquéritos, na esperança de encontrar algo, qualquer mínima coisa que tivesse passado despercebida durante a investigação e que pudesse ajudá-los a colocar Ferette na cadeia.
Mas, depois de tanto tempo encarando a tela, as palavras já começavam a se embaralhar, perdendo o sentido, e sua cabeça estava pulsando em um latejar incômodo e insistente com o esforço que ela fazia para se concentrar na atividade em sua frente.
— Ah, delegado. Pensando em toda essa situação do Paulinho, né. — suspirou, colocando as mãos na cabeça. — Ele não merece passar por isso.
— Eu sei que não, minha filha. Mas com um vagabundo baixo como o Ferette, a gente não pode cometer o tipo de deslize que ele cometeu. Qualquer passo em falso é algo que ele pode usar contra nós. — ele se senta na cadeira em frente à mesa da ruiva. — E você tome muito cuidado, viu? A senhorita sabe muito bem que ele tem motivos muito além dessa investigação para querer te derrubar.
— Eu sei, delegado. Eu sei. Eu também falo pra Lorena tomar cuidado com ele.
— E falando na sua amada, por que você não está lá com ela? Você não vai conseguir nada uma hora dessas. Vai pra casa, menina!
No estado em que estava, nada parecia melhor do que simplesmente estar com Lorena. Só a presença dela já era, na maioria das vezes, suficiente para acalmar seus nervos quando estava abalada. Era como um respiro de ar fresco no meio do caos que vinha sendo sua rotina nos últimos dias.
— Você tá certo, delegado.
Com o pensamento na noiva inevitavelmente a acalmando e suavizando seu humor, Eduarda pegou o celular e mandou uma mensagem rápida para ela.
Eu [00:57]
oi, linda
ainda tá aí no bar?
Meu amor ♡ [01:02]
Oi, meu amor
Tô sim
Mas tô só finalizando umas coisinhas aqui
E já saio
Eu [01:03]
beleza, me espera aí que eu to saindo da delegacia
e te levo pra casa
Meu amor ♡ [01:05]
Ok, eu espero
Tá na delegacia a essa hora, amor?
Eduarda decidiu ignorar a última mensagem por enquanto; achou que seria melhor explicar tudo pessoalmente. Depois de se despedir do delegado, pegou a bolsa rapidamente e seguiu para o estacionamento, em direção ao seu T-Cross.
Ao entrar no carro e olhar pelo retrovisor, finalmente conseguiu encarar o próprio reflexo. Ela estava... péssima.
Os olhos ainda inchados, o nariz e as bochechas vermelhos por conta da quantidade absurda de choro depois de abraçar Paulinho e o delegado. Mas, naquele momento, aquilo não importava muito. A única pessoa que ela veria era Lorena, que era também a única no mundo de quem queria colo quando estava nesse estado.
Quando chegou perto do bar, estacionou do outro lado da rua em uma vaga livre, e mandou uma mensagem rápida para a morena, saindo do carro e apoiando-se na porta do passageiro enquanto esperava.
Eu [01:32]
tô aqui do outro lado, amor
Não demorou muito até que ela a visse vindo em sua direção. Lorena já carregava uma expressão preocupada no rosto, provavelmente por Eduarda ter trabalhado até tão tarde, e essa preocupação só se intensificou ao notar as marcas de choro ainda visíveis no rosto da ruiva.
— Oi, meu amor... aconteceu alguma coisa? — perguntou, segurando o rosto de Eduarda com as duas mãos.
Ao encarar os olhos doces e acolhedores de Lorena, com aquela expressão tão sincera e a voz suave, a calma que ela tinha se esforçado tanto para alcançar pareceu se desfazer. O cansaço e toda a carga emocional do dia voltaram de uma vez, transbordando em lágrimas que rapidamente encheram seus olhos.
— Ai, amor... deu uns problemas na delegacia hoje. Mas eu só queria chegar logo em casa, você também deve estar super cansada. Depois eu te conto tudo, tá? — disse, com a voz embargada.
Ela fechou os olhos, sentindo algumas lágrimas escaparem com o gesto, e Lorena não demorou a cobrir seu rosto com beijos suaves. Começou pela bochecha, passando pelas lágrimas e secando-as no caminho, depois seguiu para a têmpora, finalizando com um selinho delicado nos lábios.
— Tá bom, meu amor. Mas eu dirijo. Não vou deixar você levar a gente desse jeito.
— Não, Lorena, tá tudo bem. Eu consigo dirigir. Vim da delegacia até aqui já. — disse, passando a mão pelo rosto em uma tentativa de se recompor.
— Ok, mas agora eu tô aqui, e eu posso perfeitamente dirigir daqui até nossa casa. Vai, Duda. — disse, abrindo a porta do passageiro e fazendo um leve gesto com a cabeça. — Entra.
Quando finalmente chegam em casa, depois de um trajeto mais silencioso do que o habitual, Eduarda mal tem tempo de cumprimentar Boris antes de Lorena pegar sua mão e conduzi-la até o sofá, fazendo com que se sentem frente a frente.
— Agora me fala, meu amor. O que aconteceu?
E ela conta.
Eduarda leva um tempo explicando tudo para Lorena. A foto, a bronca estratosférica que o delegado deu no Paulinho, e o peso no peito ao ver alguém que ela considera quase um irmão ter que se afastar de um lugar que ama tanto, ainda mais no meio de uma investigação tão pessoal para ele.
— Lorena, ele tá arrasado. Você tinha que ver a cara dele quando o delegado Jairo contou... — a voz falha, novamente sendo tomada pela emoção.
— Oh, meu amor... vem cá.
Lorena abre os braços, e Eduarda se encaixa nela, apoiando a cabeça em seu ombro e envolvendo sua cintura. Lorena passa a fazer carinho em seus cabelos e nas costas, com movimentos lentos, quase como se a estivesse ninando.
Elas ficaram assim por um tempo, em silêncio, apenas se segurando uma na outra. Lorena não tinha pressa, deixava os dedos passearem devagar pelos cabelos de Eduarda, sentindo aos poucos o corpo dela relaxar contra o seu.
Quando percebeu que ela já estava um pouco mais calma, afastou-se só o suficiente para conseguir olhar seu rosto.
— Duda... — chamou baixinho, colocando uma mecha ruiva atrás de sua orelha. — Você já jantou?
Eduarda fez uma careta leve, com o rosto ainda meio abatido.
— Comi uma besteirinha lá na delegacia.
Lorena franziu o cenho, já tomada pela preocupação. Durante os turnos do dia, ela normalmente mandava uma marmita completa para Eduarda, com almoço – geralmente vegano –, um suco, um docinho e uma fruta para o caso de bater fome durante a tarde.
Mas, nos turnos noturnos, nem sempre consegue preparar alguma coisa por conta dos horários na Fundação e no bar, então a alimentação acaba ficando por conta de Eduarda, que normalmente se cuidava bem nesse quesito, mas Lorena sempre fazia questão de perguntar.
— Você quer que eu faça alguma coisa pra você comer?
Em qualquer outro dia, Eduarda já teria puxado uma piadinha, mandado ela tomar cuidado para não incendiar a cozinha, relembrando o episódio lá no início do relacionamento em que Lorena conseguiu, de alguma forma, queimar macarrão. Até hoje, Eduarda sustentava que aquilo desafiava as leis da física. Mas, de algum jeito, Lorena Ferette sempre encontrava novas formas de surpreendê-la.
Mas, naquela noite, o cansaço pareceu finalmente alcançá-la. O suficiente para que nenhuma resposta espirituosa viesse à tona.
— Pode ser. — respondeu, simples, a voz ainda baixa.
— Então vai tomar um banho enquanto isso — disse, levando a mão até o rosto dela mais uma vez, com um carinho leve. — Hoje é meu dia de cuidar do meu amor.
Enquanto Eduarda tomava banho, Lorena preparou algo para ela comer, um lanche não-vegano, porque achou que, depois de um dia difícil, ela merecia uma boa comida conforto do jeitinho que mais gostava.
Apesar do próprio cansaço, sentia-se bem em poder cuidar de Eduarda. As duas sempre tiveram uma relação muito recíproca, estando ali uma para a outra, sendo porto seguro e refúgio, sempre. Mas, desde o início do relacionamento, com tudo o que vinha acontecendo com seu pai, era Lorena quem geralmente estava sendo cuidada e consolada pela ruiva.
Por isso, poder retribuir, mesmo que um pouco, fazia qualquer traço de cansaço desaparecer.
Em vez disso, Lorena se pegou pensando em como, na maior parte do tempo, achava até engraçado o jeito de Eduarda reagir a tudo com tanta intensidade, sempre com o coração à flor da pele. Nesse sentido, eram quase opostas, com Lorena tendo tido uma infância tão reprimida, o choro não era algo que vinha fácil.
Na maioria das vezes, isso rendia momentos leves e até cômicos, como quando Eduarda chorava assistindo a um comercial de cachorro aleatório. Mas, em outros momentos, o peso emocional que situações mais intensas traziam para ela era difícil de carregar. Como agora.
E como se tivessem combinado, Eduarda apareceu na cozinha no exato momento em que Lorena terminou de preparar algo para ela comer. O rosto ainda carregava vestígios de abatimento, mas o inchaço do choro já havia diminuído. Vestia uma das camisetas de dormir de Lorena, levemente larga em seu corpo, e mantinha o cabelo preso em um coque despretensioso.
Sentou-se em silêncio, murmurando um “obrigada” baixinho quando Lorena colocou o prato à sua frente.
— Vai tomar um banho enquanto isso, meu amor. Eu sei que você tá cansada. É o tempo de eu terminar de comer, aí a gente deita juntinhas. — disse Eduarda, já pegando o lanche para dar uma mordida.
Lorena sorriu de leve, suavizando a expressão.
— Tá bem, minha linda. Vou rapidinho e já volto.
Antes de sair, inclinou-se para deixar um beijo suave no topo da cabeça de Eduarda.
Quando finalmente saiu do banho, depois de cumprir seu ritual quase religioso de skincare, que incluía pelo menos dois cremes veganos para o rosto e um para a área dos olhos, Lorena voltou para o quarto e encontrou Eduarda já deitada, virada na sua direção, claramente esperando por ela sair da suíte.
— Demorei tanto assim? — perguntou, se aproximando da cama.
Assim que se deitou, abriu os braços, convidando Eduarda a se aconchegar contra seu peito, e começou a fazer um carinho lento no cabelo dela, descendo pelo braço que envolvia sua cintura.
— Só o tempo de você passar um creme já é suficiente pra eu comer e lavar a louça toda, amor. — respondeu Eduarda, com um sorrisinho de lado.
— Você fala como se também não ficasse roubando eles pra passar. — ela soltou uma risadinha, mas logo suavizou a expressão, ficando um pouco mais séria. — Tá se sentindo um pouco melhor?
— Tô, obrigada por cuidar de mim. — ela a apertou um pouco mais. — Eu só fiquei muito mal com toda essa situação do Paulinho. Por mais que eu odeie admitir, eu amo muito ele, e... ver o Ferette conseguindo derrubar tanta gente do bem sem a gente poder fazer nada, sinceramente, tá acabando comigo.
Lorena diminuiu o ritmo do carinho, pensativa por um instante. Havia uma coisa específica na sua cabeça desde que Eduarda contou toda a história com o Paulinho, mas ela estava esperando o momento certo para tocar no assunto, e achou que aquele era o momento.
Afastou-se um pouco, só o suficiente para conseguir olhar nos olhos de Eduarda, embora ainda mantivessem o contato entre seus corpos.
— Falando nisso... com toda essa situação, eu preciso perguntar. Você tá em algum risco também? Por estar nessa investigação... e por estar comigo? — hesitou levemente na última parte, genuinamente apreensiva com a resposta.
— Por estar com você, não. Já foi constatado que você não teve nenhuma participação em nada e não tá envolvida na investigação. Mas... — Eduarda fez uma pausa — acho que talvez a gente precise tomar um pouco mais de cuidado com as saídas com a Vivi e com o Leo, amor...
— Então, adeus casamento coletivo, né? — disse, com um suspiro.
— É... pelo menos por agora. Até a investigação acabar. — Eduarda respondeu, ainda um pouco incerta.
Lorena a olhou com um leve biquinho, enquanto Eduarda sustentava o olhar em silêncio, esperando pela resposta, torcendo para que a noiva sentisse o mesmo que ela sobre toda a situação.
— Mas eu não quero esperar mais um segundo para estar casada com você. — Lorena finalmente disse.
— Nem eu. — respondeu, aliviada.
— Sinceramente, amor… quanto mais a gente planeja nosso casamento, mais eu penso que está sendo algo muito nosso, sabe? O Miquéle, a casa dos seus pais… tudo isso tem tanto a ver com a gente.
— Ai, que bom ouvir isso, amor. — ela soltou um suspiro. — Eu me sinto do mesmo jeito. Toda vez que eu penso nisso, eu sonho mais ainda em ser algo só nosso... Eu ali te esperando no altar, e você entrando, a noiva mais linda que eu já vi. Só nós duas, mais ninguém.
— Então tá decidido. Só nós duas.
