Work Text:
Agatha abre os olhos e se vê encarando um papel de parede puído. Seu cabelo cai em cascata por suas costas e uma mochila pesa em seus ombros. Ela consegue escutar sua mãe murmurando alguma coisa no quarto e sente um cheiro pútrido de sangue se infiltrando por entre as tábuas do assoalho.
Ah. Hora de ir pra escola.
Com passos silenciosos, a garota se aproxima da porta, sem se despedir ou avisar de sua partida. É melhor não. Agora não.
Porém, quando ergue a mão até a maçaneta, ela consegue escutar os gritos do lado de fora. As vaias, os xingamentos, as risadas, o ódio.
Nojenta!
Assassina!
Demônio!
Doida!
Filha da puta!
As palavras doem. Mais do que se só a apedrejassem de uma vez. E ela sabe o quanto todos gostariam disso.
Mas ela precisa sair. É isso ou ficar aqui.
Ela abre a porta e está em um lugar escuro.
Debaixo da terra. Naquele bunker. Há um enorme ritual no chão. Um corpo pende do teto, usando aqueles mesmos tênis que sempre faziam os passos de Lina mais barulhentos que o resto. E, logo abaixo dela, jaz Agatha.
Ela a encara, amarrada no chão, se debatendo e urrando contra a fita na boca, parecida demais com a coisa.
Para. Para. PARA.
Agatha avança e agarra o cabelo da que está no chão. O cabelo é o pior de tudo. Ela mata usando o cabelo.
Quando ergue o próprio rosto, Agatha encara a si mesma. A que está amarrada a olha com puro horror, olhos lacrimejantes que imploram misericórdia. E Agatha, de repente, sente a necessidade de parar, não fazer aquilo, não deixar acontecer de novo...
A faca se move sozinha, cortando o pescoço dela. Os olhos mortos a encaram e, antes que o sangue consiga inundar tudo à sua volta, ela vê o reflexo na lâmina e é o corpo dele.
E ela se afoga. Se afoga, se afoga, se afoga. Em sangue. O seu. O dele. O da mãe. O dos corpos. O de Lina. O de todo o mundo.
De repente, ela expulsa o sangue de dentro de si.
É quase como um reflexo de vômito percorrendo todo o seu corpo, e então ela está tossindo e se contorcendo, sentindo o ar frio bater em sua pele ainda encharcada.
É o porão... não é? É, tem que ser...
Espera.
Não, não, não, NÃO!
Em um impulso instintivo, ela tenta correr, mas as correntes a mantém no lugar enquanto a dor se alastra por todo o corpo. Ossos quebrados, carne dilacerada, pele esfolada. Cada batida de seu coração é um sacrifício feito em forma de pura agonia.
Ela tenta se mover, mas não consegue. Naquele porão, naquele lugar, a dor é permanente. E ela é tão livre quanto um monstro enjaulado.
É desse jeito que todos a veem, de qualquer maneira.
Talvez, se ela fosse melhor, isso não teria acontecido. Ou se fosse mais forte e conseguisse se defender. Ou se não chamasse tanto a atenção. Ou se não machucasse todo mundo. Ou se não atraísse coisas ruins. Ou se tivesse nascido diferente. Ou se só tivesse morrido.
E, quando a porta abre, ela está com medo, machucada e desesperada, mas também está exausta e não consegue reagir a nada. Não é capaz de fazer nada quando sente os pulsos sendo puxados pelas correntes e o sangue pingando de seu corpo até uma poça no chão.
Ela nem mesmo grita quando ele ergue a espada.
–
Agatha acorda no meio da queda.
Ela não consegue reagir direito quando se estabana e atinge o chão do quarto com um ruído desagradável, caindo sobre as próprias mãos e sentindo uma dor aguda no pulso e na ferida do torso ao se levantar.
Ela olha à volta. O quarto escuro é pouco iluminado pela luz da lua lá fora, que bate bem na sua mesa cheia das tralhas que esqueceu de guardar ontem por ter chegado muito cansada. A porta está meio aberta e ela consegue ver um pouco do quarto de Mia, onde ela ronca baixinho com Lupi todo esparramado no colchão.
Certo. Certo. Ok. Ela tá em casa. Tá bem. Tá tudo bem.
Mas a mancha deixada pelo sonho em seu cérebro permanece ali, e ela sabe que não vai dormir de novo agora. Então, se levanta com dificuldade, levando a mão em direção à ferida, e sai do quarto, sem um rumo específico.
O nervosismo a permeia enquanto ela vagueia pela casa sem saber para onde ir, quase como um zumbi de sangue. Acaba indo parar na sala e se senta no sofá, sem pensar direito sobre isso. Sem fazer... nada.
Ela só fica lá. Parada. Pensando.
–
Por um segundo, ele não consegue ver nada. Ele sente os olhos fechados. Sente o vazio o cercando.
Então, ele escuta. Não é nenhum som em específico, é mais como um coral. Vozes, humanas e de criaturas, clamando por medo.
O movimento do ataque começa antes mesmo de Veríssimo abrir os olhos. Com o corpo impelido por um instinto de luta forjado já faz décadas, ele atravessa o inimigo que está mais próximo.
Ele se vê cercado. Uma maré se aproxima, formada pelas vidas que ele já tirou. Humanas ou não, elas se aproximam, buscando por vingança, enquanto o zumbi que ele acaba de acertar se desfaz em pó na sua frente. Mas ele não se vê cercado apenas de inimigos. Há também corpos.
Ele nem consegue ver o chão, pois os mortos o tomaram. Inertes, sem forças, como lembranças. Rostos sempre voltados para cima, ainda que algumas das faces tenham sido destruídas no momento de suas mortes.
Ele se esqueceu, se forçou a esquecer, muitas dessas pessoas. Mas ele consegue reconhecê-las. Agentes da ordem e pessoas normais sem envolvimento com o paranormal. Até mesmo alguns ocultistas no meio. Aqueles que Veríssimo foi incapaz de salvar.
Ele não pode trazê-los de volta. Então, tudo o que pode fazer é lutar.
A onda de adrenalina o percorre enquanto ele ceifa as mesmas almas pela segunda vez. Criaturas ou ocultistas, ele os trespassa a todos e combate os próximos, enquanto os inimigos caídos se transformam em poeira, reduzidos a praticamente nada.
A lâmina pesa como uma tonelada em sua mão, e, ao mesmo tempo, é como se não fosse nada. Da mesma forma, ainda que uma dor intensa floresça em seu coração e ameace destruí-lo por dentro, ela é coberta por uma névoa que impede que Veríssimo alcance essas emoções. Qualquer emoção.
É tudo o que ele pode fazer. Pra não enlouquecer. Pra não cair. Pra não morrer. Pra não fraquejar em nenhum momento.
E, por um instante, a visão de algo o distrai, algo no inimigo que ele enfrenta. Uma pessoa sem rosto, mas com olhos verdes familiares. Mesmo quando ele destrói essa criatura feita de sombra, é como se aqueles olhos ficassem impressos em seu cérebro.
A horda está acabando. Só mais um pouco. Só mais um pouco e vai terminar. Diferente da sua vida inteira, aqui, isso vai terminar. Ele vai poder parar. Ele vai poder descansar. Vai poder cair como os outros. Vai poder morrer como os outros...
Ela é a última.
Um dos braços é coberto por tatuagens do oculto, e o outro, por cicatrizes. Seus olhos são escuros e seus dentes são afiados. Seu cabelo é preto, mas ela pintou uma mecha de vermelho. A lâmina está atravessando o corpo dela.
Quando ele percebe, se retrai. Retira a lâmina. Mas é tarde demais. E, quando ele estende as mãos para segurá-la, ela desaparece como aqueles de antes.
–
Veríssimo encara o teto com olhos arregalados.
A “vantagem” de estar envolvido nisso a tanto tempo. Tão acostumado a pesadelos e a acordar no meio da noite que não faz nada além de respirar fundo e tentar se conectar ao que realmente está acontecendo.
Sonho ruim. Sentimentos ruins. Mas essa noite conseguiu dormir em casa. Então está no quarto. Bem. E... ela está bem também.
Ele se ergue rapidamente, sem fazer muito barulho, buscando acalmar o sentimento grotesco dentro de si. Olha dentro do quarto de Agatha... mas não a vê.
Uma luz vem da sala, no entanto.
Em um instante, olha dentro do quarto de Mia e a vê ali, junto de Lupi. É uma das raras noites em que todos os moradores conseguem dormir em casa. Veríssimo, então, vai até a sala.
Ela está sentada no sofá, a calça do pijama de Shadow meio dobrada na altura das panturrilhas. O cabelo está bagunçado, assim como quando acorda de manhã, devido à sua constante movimentação durante o sono. Um de seus dedos traceja o tecido do móvel, ameaçando fazer mais um daqueles pequenos arranhões com as longas unhas. Seus olhos vagueiam pelos cantos do cômodo, sem procurar um alvo fixo, do jeito que ela faz quando se perde em pensamentos.
No entanto, seu olhar trava na porta do corredor quando percebe a presença dele ali.
-Ah... oi. – ela diz, a voz um pouco rouca, enquanto sua língua umedece os lábios. Ela não parece bem.
-Aconteceu alguma coisa? – ele pergunta, se aproximando um pouco, mas indo mais na direção da mesa do que do sofá.
-Não... – Agatha murmura, o olhar caindo ao chão. – Só... acordei. Nada demais.
-Algum sonho? – ele diz, com cautela. Sabe que Agatha sempre hesita em falar sobre isso.
-Não. – ela diz, um pouco rápido demais. Então, seu olhar volta a pousar sobre ele. – Cê devia voltar a dormir. Cê tá precisando.
Bom, é verdade que Veríssimo sempre está precisando dormir mais. Mas, em vez de admitir que ela está certa, ele dá de ombros e diz:
-Sou acostumado a isso.
-Mas porque você acordou? – ela cutuca.
-Um sonho.
-Você sonha? – ela pergunta em um tom meio de surpresa, e isso faz Veríssimo dar um sorrisinho.
-Por incrível que pareça, sim.
-...você tá bem?
Ele pondera por um segundo.
-Sim. Mas você não precisa se preocupar com isso. – e olha para ela. – E você?
Ela pisca, baixa o olhar de novo e acaba falando:
-...meio que eu tive um sonho, sim. Mas... – ela faz uma pausa para inspirar. – ...eu tô bem, agora.
-Que bom. – ele sorri um pouco. – Eu vou fazer chá. Imagino que você não vai querer, não é?
Como o esperado, Agatha faz uma careta com a sugestão.
-Não tem café?
-Eu não vou fazer café pra você às duas da manhã, Agatha. – ele suspira, embora não esteja frustrado de verdade. – Leite serve?
-...uhum. – ela concorda, e de forma mais tímida murmura: – Obrigada.
-Não precisa agradecer.
E eles sabem que aquela não é uma casa onde as pessoas se machucam.
