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tá numa aula chata? - medveguillen

Summary:

Em meio ao tédio sufocante de uma aula qualquer, Gabriela decide escapar, mas o que começa como uma simples fuga por um pirulito se transforma em algo muito maior. Um convite inesperado, carregado de meses de silêncios e olhares não ditos, a puxa para fora da rotina e direto para um encontro que mistura nervosismo, desejo e revelações mal disfarçadas.

Entre mentiras improvisadas e verdades que quase escapam, uma conexão finalmente ganha forma, e talvez seja impossível voltar atrás.

Chapter 1: 27 de agosto - 19h20

Chapter Text

27 de agosto de 2024 - 19h20 

As luzes fluorescentes da sala pareciam vibrar em um tom acima do normal naquela noite de terça-feira. No centro do bloco de Publicidade e Propaganda, o professor de Semiótica discorria com um entusiasmo quase cruel sobre as camadas de significado em um anúncio de perfume, mas para Gabriela, a única camada que importava no momento era a de sua própria impaciência.

Ela já havia aprendido a identificar o exato momento em que seu cérebro decidia "fechar as cortinas" para o conteúdo acadêmico. Era um cansaço físico, que começava na nuca e terminava na ponta dos pés.

— Não aguento mais ouvir sobre o 'signo e o significado' — ela murmurou, a voz saindo mais como um lamento do que como um segredo, inclinando-se para o lado.

Rômulo, seu melhor amigo e dupla inseparável, mal desviou os olhos do caderno onde desenhava formas geométricas sem sentido. Ele era o único que aguentava seus dramas em silêncio.

— É a terceira vez que você diz isso em dez minutos, Gabi. O que você quer? Café? Água? Um atestado de óbito?

— Um pirulito. Daqueles de cereja bem artificiais que deixam a língua vermelha e o céu da boca cortado — Gabriela decidiu, fechando o estojo com um clique seco que ecoou alto demais na sala silenciosa. — Vou na cantina antes que eu comece a ver o Ferdinand de Saussure sentado naquela cadeira vazia ali na frente.

Ela fez uma pausa dramática, tateando o bolso vazio e olhando para o amigo com uma expressão de súplica que ele já conhecia bem.

— Aliás... me empresta cinquenta centavos? É que eu quero comprar dois, um para mim e outro para você não morrer de tédio sozinho.

Rômulo revirou os olhos, mas já estava enfiando a mão no bolso. Tirou uma moeda, entregando-a com aquele ar de quem financia o vício de uma criança.

— Vai logo, corajosa. Se ele fizer chamada, eu dou um jeito de tossir o seu nome.

Gabriela sorriu de canto, levantando-se sem levar nada além do celular e da moeda, tentando ser invisível — uma missão impossível para quem carregava aquele tom de ruivo. Ela atravessou a porta da sala, sentindo o alívio imediato do corredor mais amplo e silencioso. O prédio de comunicação tinha aquela estética industrial-moderna meio decadente, com paredes de concreto exposto e cartazes de festivais de cinema colados por toda parte, descascando nas bordas.

Ao chegar perto do último degrau da escada, o movimento diminuía. Ela caminhou em direção às catracas que davam para a saída do bloco, o metal frio brilhando sob os refletores. Foi ali, a poucos passos da liberdade, que o celular no seu bolso vibrou, uma notificação curta e direta que fez seu estômago dar um solavanco que não tinha nada a ver com fome.

Era uma mensagem de Alanis.

Alanis: "tá numa aula chata? quer vir fumar comigo aqui fora?"

O coração de Gabriela acelerou.

Aquela mensagem era o culminar de meses de uma arquitetura silenciosa. Eram olhares roubados que duravam um segundo a mais do que o socialmente aceitável, conversas em grupos de amigos onde as palavras eram ditas para todos, mas os olhos buscavam apenas um destino.

Havia também o mundo digital, aquele terreno onde as curtidas em fotos antigas funcionavam como uma bandeira branca de interesse, no Instagram, o jogo era de gato e rato: uma notificação de Alanis era o suficiente para tirar o sono de Gabriela.

Mas o estopim real tinha sido aquela aula dinâmica, dias atrás, onde precisavam adivinhar quem era o dono de certas características. No meio das risadas e da confusão entre os grupos, Alanis havia soltado uma piada rápida, uma provocação direcionada apenas a Gabriela.

Foi a primeira vez que a voz de uma alcançou a outra sem intermediários, e Gabriela guardou aquele tom de voz como se fosse um segredo valioso.

Ela mal teve tempo de processar o convite agora, os dedos ainda suspensos sobre o teclado para formular uma resposta à altura, quando seus olhos subiram e atravessaram o vidro da porta de saída.

Ela estava lá.

Alanis não estava esperando de pé, nem procurando por ela. Estava sentada de um jeito terrivelmente confortável no segundo degrau da escadaria, as pernas longas e desleixadas. Ela estava concentrada. As mãos em concha protegiam a chama de um isqueiro contra o vento da noite, e no mesmo instante, o clique do isqueiro ecoou no silêncio do pátio exatamente quando o olhar de Alanis subiu.

Gabriela ainda segurava o celular, a tela acesa revelando que ela sequer tivera tempo de responder. O flagra era completo.

A ruiva então atravessou a catraca, o som do metal girando pareceu selar um destino, e se sentou, mantendo uma distância que tentava, inutilmente, esconder seu nervosismo.

— Oi... — Gabriela soltou, um cumprimento tímido que mal parecia pertencer a ela.

— Oi — Alanis respondeu, soltando a fumaça para o lado e voltando o olhar para a garota ao lado. — Você é rápida, hein? Nem deu tempo de aparecer o "digitando" aqui. Acho que eu não sou a única querendo fugir daquela sala.

Gabriela sentiu o rosto esquentar e deu um sorriso de lado, olhando para os próprios pés.

— Eu já estava no caminho, Alanis, estava indo na cantina comprar um pirulito... — ela disse, e o nome saiu de sua boca com uma naturalidade que a traiu.

No mesmo instante, Alanis travou o movimento de levar o cigarro à boca. Ela inclinou o rosto, os olhos brilhando com uma surpresa genuína.

— Alanis? — ela repetiu, saboreando o som. — Como você sabe meu nome? Gabriela sentiu um frio na espinha. Era uma pergunta justa, mas a resposta era densa demais para ser dita em voz alta.

Ela sabia porque o nome "Alanis" era o que mais ecoava em sua mente nas últimas semanas. Sabia porque tinha stalkeado o perfil dela tantas vezes que poderia recitar a biografia de cor.

— Eu... eu ouvi alguém comentando na aula — mentiu Gabriela, a timidez agora sendo seu único refúgio enquanto tentava desviar da intensidade do olhar de Alanis, que parecia saber exatamente que aquela era apenas a metade da verdade.