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Português brasileiro
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Published:
2026-05-10
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5,039
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Cinco Regras • Loquinha

Summary:

Lorena criou cinco regras pro acordo que as duas tinham. Sem dormir juntas, sem carícias, sem emoções. Eduarda aceitou sem dizer uma palavra. As regras eram simples, claras, e faziam todo sentido no papel.

Só que o coração não sabe ler.

Notes:

ê brasil, olha eu aí de novo com mais uma one shot pra vocês. talvez vcs gostem de alguma outra que tem no meu perfil, sintam-se a vontade pra dar uma olhada;)

Work Text:

Ponto de vista de Eduarda 

 

As regras de Lorena Ferette para o "Sexo Sem Compromisso":**

1. Chamadas podem acontecer a qualquer hora, de ambas as partes, mas não precisam ser atendidas ou aceitas. Nenhuma pergunta deve ser feita.

2. Não dormir juntas.

3. Nada de carícias excessivamente íntimas (por exemplo: aquelas carícias suaves que não levam a nada mais que aquilo, tocar no nariz da outra, ou aquela coisa fofa de encostar a testa que fazem nos filmes).

4. Nada de questionar o sexo com outras pessoas.

5. Nada de sentimentos.

 

A lista foi escrita na manhã seguinte àquela primeira noite. A manhã em que você acordou ao lado de um bilhete rabiscado, e não ao lado da morena gostosa da sua aula de Psicologia. Lorena Ferette. Você já sabia o nome dela, claro. Tinha gravado lá no começo do semestre, quando ela entrou atrasada às pressas e se jogou na cadeira do seu lado. Você odeia atraso, mas adorou o sorriso apressado que ela te lançou quando você mostrou os seus primeiros rabiscos de ideias.

As duas nunca conversavam na aula. De um jeito inexplicável, e até idiota, você foi pegando uma queda cada vez mais boba por ela. Até que numa noite foram parar na cama juntas depois de uma sessão de estudos que virou basicamente uma sequência de shots de tequila sempre que erravam uma questão. Um ciclo vicioso, de fato.

Mas você não estava bêbada o suficiente pra esquecer. Você lembra de tudo. Basta piscar um olho e já está de volta lá: a forma como ela se contorcia sob você, como a respiração dela travava na garganta quando finalmente se entregava, como ela sussurrava seu nome com reverência e uma pitada de segredo sussurrado, igual quem confessa um pecado. Estava te enlouquecendo aos poucos. Por isso você concordou tão rápido com as regras de Lorena. Embora sustente até hoje que nunca houve um acordo verbal. Foi completamente tácito: você marchou até o quarto dela, a empurrou contra a parede e saiu sem dizer uma palavra sequer.

Sexo você sabia fazer.

Não ter sentimentos por Lorena, aparentemente, não.

Em sua defesa, as duas viviam se colocando em situações incrivelmente comprometedoras. Não aquelas do tipo que eram pra estar, não. Do tipo emocional. Tudo começou quando você perdeu suas lentes de contato e sentou em cima dos seus óculos, quebrando-os como uma baita idiota, o que te deixou praticamente cega pelo resto da semana até o novo par chegar. Você estava sobrevivendo até que, no último dia, ela andou até seu quarto com o que parecim algum tipo de deboche no rosto, embora você não consiga dizer com certeza já que não estava enxergando um palmo a frente do nariz. Você a fitava da outra ponta do quarto, tentando arrancar alguma coisa daquela mancha colorida e desfocada aos seus olhos que era Lorena Ferette. Não estava funcionando.

— Você não tá me enxergando, né? — Ela pergunta e bocê resmunga, mas mesmo assim acaba balançando a cabeça, se deliciando com a gargalhada que vem logo depois. Você observa a mancha se mover alguns passos e parar.

— E agora? — Balança a cabeça. Três passos.

— Agora? — Mais um. Ela entra no seu espaço. Você sente o corpo dela se compelindo contra o seu, o calor dela se espalhando por você como sol saindo das nuvens, e quase solta um guincho patético quando ela puxa seus quadris o último centímetro que faltava para vocês estarem totalmente coladas. Você não solta. Você é Eduarda Fragoso. Devia ser fria, forte... e mesmo assim uma garota bonita faz você se desfazer assim. Você culpa o fato de conseguir sentir o hálito dela roçar seus lábios, de conseguir cheirar o protetor labial de morango que ela usa quando está nervosa. Culpa o fato de estar tão enroscada em Lorena que ignora a voz que grita que as duas já estiveram em posições muito mais íntimas do que essa, porque isso aqui parece diferente.

Isso aqui tem uma tensão diferente.

Você balança a cabeça uma única vez.

— Eu consigo te sentir. — A respiração dela trava tão rápido que parece que ela leva o seu ar junto. Ela sai tropeçando do quarto e você sabe que foi exatamente isso que aconteceu. Você passa o resto do dia se xingando de idiota e atualizando o rastreio da entrega do seu novo par de óculos na esperança de ver o ponto verde se mover na direção do que você imagina ser o desenho de uma casa.

*

Ela aparece no seu banho. Quer dizer, ela tenta te pegar de surpresa no banho. Você não treme. Não se move. Nem tem certeza de que estava respirando. Não consegue lembrar de ter feito nenhuma dessas coisas. Só consegue se lembrar da água batendo na pele até o corpo entorpecer. Ela dá um grito quando entra debaixo do chuveiro, mas você não faz barulho nenhum. Fica encarando a parede como se aquilo fosse fazer tudo sumir.

— Que merda, Du? A água tá gelada. — Normalmente você sorriria, soltaria alguma piada sobre esquentá-la antes de beijá-la até ela perder o fôlego. Mas você não consegue respirar. Não tem certeza de que quer respirar. Só quando ela timidamente vira seu corpo pra te encarar é que ela percebe que você está chorando. Você não lembra quando começou. Não lembra quando entrou aqui. Só sabe a data. A data de hoje e o que ela significa. Só sabe do polegar de Lorena limpando lágrimas que de nada adianta limpar. Hoje não significa nada pra ela. Ela não sabe por que você está aqui. Mesmo assim ela te puxa pra perto e não faz nenhum comentário sobre o tremor nos seus ossos enquanto cantarola baixinho. Ela nunca pergunta, mas os pensamentos dela são altos o suficiente pra que você abra a boca e responda o que não foi dito.

— Eu tava esperando que a dor adormecesse. Queria tanto que fosse embora. Por que ela não vai embora? — É partido, críptico, e você não explica nada sobre a escuridão que te ronda enquanto lembra do jeito que a sua mãe sorria com gargalhadas nos olhos e dançava com paixão nos passos. Lorena te puxa mais perto como se soubesse exatamente por que você está chorando, como se conhecesse de perto a dor que se esconde atrás da sua fachada.

Você a evita por três dias depois. Diz pra si mesma que é porque quebrou as regras. Você foi fraca e quebrou as regras. Mas sabe, lá no fundo, que o motivo de verdade é outro: porque o que ficou gravado na memória não foi a pele dela contra a sua. Foi o calor do corpo dela e a mão suave que te acariciou as costas no ritmo gentil do batimento do coração dela.

*

Era pra ser sexo. As duas tinham provas puxadas e era pra ser uma forma de relaxar. Era pra ser sexo. Quando ela abriu a porta enrolada num cobertor e te arrastou pro sofá resmungando que só precisava terminar aquele episódio, você não conseguiu não achar que ela era a coisa mais adorável do mundo. Você fica cinco minutos descaradamente encarando ela porque isso estava te enlouquecendo. Aí você se envolve completamente com RuPaul's Drag Race e não tem saída, as duas vão assistir até terminar a temporada, porque você sempre foi fã de filmes de ação, mas aquilo ali era guerra declarada.

Em algum momento você se vê dentro do cobertor de Lorena. Um episódio depois ela está aconchegada no calor dos seus braços. No último episódio você sente o nariz dela roçar o oco da sua garganta, mas ela não faz mais do que soltar um suspiro satisfeito e pousar a cabeça devagar no seu ombro enquanto continua assistindo. Ela está quebrando a regra número três de um jeito escandaloso, mas você não diz nada e acha que foi melhor assim quando acorda ainda prostrada no sofá com ela nos seus braços. Você quebrou a regra número dois e estava certa de ter saído ilesa enquanto voltava pro seu quarto... até encontrar cartazes espalhados pelas paredes do campus com uma foto das duas se aconchegando, com a legenda: "Loquinha, EduLo e Loarda, você decide. Fala com Maggye Damatta ou Gerluce Maria pra votar."

Você vai matar as duas.

Mas talvez só depois que elas te explicarem como diabos conseguiram fazer isso em três horas.

Por sorte, Lorena não fala nada sobre isso. Aliás, as duas não falam muito coisa nenhuma. Quando ela invade seu quarto na noite seguinte e te faz desejar ter colocado isolante acústico nas paredes pra evitar os olhares de quem sabe no dia seguinte.

*

Você fica com outra pessoa porque é isso que se supõe que você faça, certo? Você deveria estar distante. Não deveria sentir o calor persistente do corpo de Lorena nem as marcas na pele onde ela te tocou.

É uma merda. Pra você, pelo menos.

A garota vai embora satisfeita, mas um pouco abalada quando você ignora de propósito todas as perguntas dela sobre se vão se ver de novo ou quando ela pede o seu número. Você a acompanha até a porta porque, ao contrário do que dizem por aí, você não é de pedra e ela parece ter criado uma imagem sua que você sabe que não vai corresponder, mas mantém por mais um instante. Ela te beija na porta antes de ir pelo corredor aos pulinhos. O mesmo corredor onde Lorena está parada, te encarando com olhos ilegíveis e um sorriso que não se sustenta direito.

— Quem era essa? — Não tem como fugir disso. A única saída é a verdade. Mas não deveria importar, porque foi ela que fez as regras, especificamente a que dizia que outras relações eram permitidas e não deveriam ser discutidas ou questionadas. Ela fez as regras.

Foi ela.

— Não sei. — Você admite, e observa com curiosidade quando ela tropeça no próprio passo enquanto se aproxima.

— Como você não-

 

— Você tá quebrando a regra número quatro.

— Então você ficou com ela? Você tá ficando com outras pessoas? — Por um segundo ela parece furiosa, parece que quer gritar, mas a expressão some antes que você pisque, e você começa a se perguntar se inventou tudo isso porque quer que ela se importe. Você quer que ela te queira. Ela não faz nada além de te beijar com força até as duas tropeçarem de volta pra sua cama e você esquecer como tudo isso começou.

Você acorda sozinha e se lembra por que foi atrás de outra pessoa, por que precisou sentir outras mãos sobre a sua pele. Você se lembra da dor que vem quando deseja ser um fantoche, quando deseja que Lorena Ferette quisesse segurar todas as suas cordas e te confiar as dela.

*

Ela te evita por uma semana. Você sabe que não está imaginando quando ela senta longe de você na aula de Psicologia e vai pelo outro caminho quando você espera lá fora pra tentar falar com ela. Você desiste no quarto dia porque nem sabe o que diria. Nem sabe por que sente que devia estar se desculpando por algo que é pra não significar nada pra ela. Foram as regras dela. Ela fez as regras.

Você sente saudade dela.

Ela volta a se sentar do seu lado no oitavo dia com um sorrisinho, e você sente o próprio sorriso abrir enquanto empurra suas anotações na direção dela. Ela abre um sorriso de orelha a orelha e vai copiando tudo palavra por palavra enquanto você observa o jeito que a língua fica pouquinho pra fora quando ela se concentra, e o contorcer dos dedos quando ela enjoa de escrever mas segura firme assim mesmo. Você passa a hora seguinte observando Lorena Ferette e é uma das melhores horas da sua vida. Ela não diz nada quando te puxa pra uma cafeteria na rua de baixo e faz o seu pedido junto com o dela como se fosse a coisa mais natural do mundo. Você também não diz nada, até estarem sentadas e o silêncio começar a pesar.

— Não significou nada. — Você não sabe por que está se explicando. — Achei que você quisesse que eu-

— Tá bom. — Ela responde enquanto pousa a mão sobre a sua na mesa. Quando criança você sempre seguiu as regras, achando que eram certas e que mesmo sentindo que não eram, era mais fácil obedecer do que perder tempo se desculpando por erros. Enquanto vira a mão e entrelaça os dedos com os dela, você decide que algumas regras foram feitas pra ser quebradas, e que passaria alegremente cada minuto da sua vida se desculpando se isso significasse poder segurar a mão de Lorena.

*

Vocês não falam sobre aquele momento de fraqueza, o momento dos sentimentos. Voltam pras regras. É só sexo. Vocês não conversam. Você está começando a achar que as únicas palavras que conhece são o nome de Lorena e gemidos abafados.

Não é grande surpresa quando ouve uma batida suave na sua porta perto da meia-noite. A surpresa vem quando a batida vira porrada e alguém socando a porta com tudo que tem. Você abre de uma vez e Lorena despenca pela soleira como se tivesse planejado arrombar a porta com o próprio corpo. Ela está linda e adorável.

— Você bebeu? — Você pergunta num esforço fraco de entender por que ela está tão estranha, por que parece tão desesperada pra estar aqui e ao mesmo tempo tão assustada por ter vindo.

— Não. — Ela solta, e então avança em sua direção. Você espera os beijos apressados e as mãos certeiras, mas não chegam. Ela não faz nada além de pousar a testa na sua e olhar nos seus olhos. Você sabe o que isso significa. Acha que sabe o que isso significa.

— Você tá quebrando as regras, Lorena Ferette. — O riso dela é suave, mera expulsão de ar, enquanto o olhar dela treme no seu e ela agarra sua camiseta como se isso pudesse ancorá-la a esse momento, a você.

— Eu quebrei as regras no momento em que as escrevi.

— Como assim?

— Estou apaixonada por você desde quando você me deixou copiar suas anotações. — Ela confessa, e de repente você não liga que seja madrugada e que as porradas dela na sua porta vão render uma pilha de reclamações de manhã do seu vizinho insuportável.

— Que bom.

— Que bom? — Ela pergunta, e você toca a ponta do nariz dela em resposta até as duas estarem rindo na boca uma da outra, finalmente se permitindo olhar sem vergonha.

— Você me conquistou no "meu deus, tô atrasadíssima."

 

*

 

Ponto de vista de Lorena 

Você está atrasada. Absurdamente atrasada e embora isso não fosse novidade nenhuma na sua vida (pontualidade era justamente a coisa que sua mãe vivia te cobrando), era o seu primeiro dia no curso de Psicologia e você não queria causar uma impressão péssima logo de cara. Esse plano provavelmente foi pro lixo quando você praticamente entrou tropeçando na sala e foi se jogar numa cadeira às pressas.

Devia ter se esgueirado e sentado lá no fundo, mas não foi o que fez. Você não tem certeza do que te levou a ir até a frente e sentar do lado de uma garota que você nem conhecia, com um monte de cadeira vazia disponível. Mas no fundo, sabe. Sabe que sentou ali porque tinha avistado uma ruiva incrivelmente bonita franzindo o cenho na fileira da frente. Um cenho que se dissolve no instante em que você ocupa o lugar ao lado dela e oferece um sorriso suave.

Quando ela sorriu de volta e empurrou as anotações pra você, dava pra sentir o próprio coração na boca. Você sentia cada respiração que ela dava ao seu lado. Você sabia que ia cair de cabeça apaixonada por ela do mesmo jeito que entrou naquela sala, porque ninguém assim tão bonita conseguiria não se acomodar no seu coração quando sorria como se você fosse a única pessoa no mundo, e ficava rabiscando nas margens das anotações apesar de tê-las escrito com tanto capricho.

Você sabe que já era quando vai parar na cama com ela depois de shots demais e toques ousados demais. Ela te faz se sentir viva. Te faz sentir um monte de coisas que você não tem certeza de já ter sentido de verdade.

E ela é boa.

Meu Deus, como ela é boa.

Você acorda pensando em café da manhã. Panqueca, pra ser exata. O segundo pensamento é que ela é linda, que os cabelos ruivos-cenoura parecem ainda mais elaborados sob a luz do sol derramando pela janela, que o sorriso dela parece mais terno quando ela não está pensando nele. Aí você se lembra onde está, quem é essa pessoa, o que acabou de acontecer. Você talvez entre em pânico completo. Você talvez escreva uma lista de regras pra um sexo sem sentimentos.

Você é uma idiota.

Tudo que consegue pensar é no jeito que ela estremeceu nas suas mãos, no som do seu nome saindo da língua dela, no prender da respiração, no prender da respiração, no prender da respiração...

Você é uma idiota.

*

Ela não está te enxergando. Você tem noventa e nove por cento de certeza. Ela usa óculos às vezes, principalmente no conforto do próprio quarto, como se fosse um grande segredo. É adorável. O fato de você saber disso te faz sentir mais perto dela.

Você passa a semana inteira testando a hipótese. Acena pra ela de longe no pátio, oferece doces que você sabe que ela não gosta e fica se divertindo vendo ela enfiar na boca com uma careta que tenta disfarçar num sorriso. Você tem certeza quando olha pras anotações dela, geralmente tão caprichadas, e percebe que falta o cuidado de sempre.

— Você não tá me enxergando, né? — Você fala assim que entra no quarto dela. Ela tenta disfarçar, mas você a vê balançar a cabeça mansinho junto com o seu riso. Você dá quatro passos tímidos à frente. Ela quase recua antes de decidir se firmar no lugar.

— E agora? — Ela balança a cabeça. Você se arrisca nos últimos passos.

— Agora? — É o último balançar de cabeça que faz você entrar de vez no espaço dela, puxar o corpo dela contra o seu até cada expiração ser a inalação da outra, até você não ter mais certeza de qual coração está sentindo pulsar nos próprios ossos. Você não sabe a quem está tentando enganar com tudo isso. Você está abrindo mão de todas as suas próprias regras ao não beijá-la nesse momento, mas quando ela responde "eu consigo te sentir", você acha que não tem fôlego suficiente no corpo pra se forçar a fechar essa distância.

Você sai tropeçando do quarto dela, se enredando em cada pensamento sobre ela que tomou a sua cabeça. Só recupera o equilíbrio quando está em segurança no próprio quarto, colocando música no máximo e tentando se afogar na melodia mas todas as músicas te lembram ela.

Sempre ela.

Você fica ao mesmo tempo aliviada e decepcionada quando acena pra ela do outro lado do pátio e ela acena de volta.

*

Você invade o banho dela. Principalmente porque achou que ia ser gostoso. E talvez também porque ficou assistindo Pitch Perfect tantas vezes nos últimos dias com Maggye e Gerluce que era praticamente a única coisa que a sua cabeça conseguia pensar.

Está gelado. Realmente gelado, e você recua do jato num segundo com um gritinho. Você não presta atenção na falta de reação dela de início, está ocupada demais com os arrepios tomando conta do corpo.

— Que merda, Du? A água tá gelada. — Você nunca a chama de Du. Uma vez a chamou de Duda e o desespero dela pra que você parasse foi tão grande que virou o seu próprio desespero pra que ela continuasse, e você esqueceu o próprio nome, quanto mais o apelido que ela odiava. Você espera alguma piada safada, porque pra alguém que parecia tímida demais pra te dirigir a palavra na aula, ela era extraordinariamente boa em falar sacanagem pra você quando as duas estavam a sós.

Quando não vem, você a vira pra te encarar. Você se vê limpando as lágrimas dela devagar, se perguntando por que está se dando ao trabalho quando outra vem logo na sequência mas você sabe a resposta. Sabe que continua porque ela se inclina no seu toque a cada nova carícia, porque a imobilidade do corpo dela te diz exatamente há quanto tempo ela está aqui. Tempo suficiente pra esquecer o que é sentir frio, tempo suficiente pra parar de sentir qualquer coisa.

Você engole todas as perguntas que ficam ricocheteando na cabeça porque Eduarda não fala. Não compartilha. Você levou três segundos pra descobrir isso, mas sabe que ela precisa de você. Sabe que não pode deixá-la encarar isso sozinha, mesmo que quebre suas próprias regras pra isso.

Regras são bobagem de qualquer forma.

— Eu tava esperando que a dor adormecesse. Queria tanto que fosse embora. Por que ela não vai embora? — Você a puxa pra perto porque não tem como responder. Por mais que tente, não consegue responder essa pergunta. Já se fez ela vezes suficientes pra saber disso. Você não sabe por que ela está chorando, mas isso não muda nada: você a puxa com muita proximidade e pressiona um beijo na testa dela.

Você não sabe quanto tempo as duas ficam ali. O que sabe é que ela te evita por três dias depois. Que você passa cada um desses dias pensando na vulnerabilidade nos olhos dela e no ritmo acelerado do coração que foi lentamente desacelerando até harmonizar com o seu.

*

Você manda mensagem pra ela vir. Você sabe que ela teve uma prova difícil de manhã porque presta mais atenção do que deveria. Esperava que ela demorasse mais, culpa ela por você já estar enrolada num cobertor assistindo RuPaul.

— Só preciso terminar esse episódio. — Você murmura e a vê assentir vagamente enquanto tira os sapatos e te segue em silêncio até o sofá. Você não menciona o peso do olhar dela, nem o desejo ardente de simplesmente se virar e pegá-la fazendo isso. Não diz nada enquanto levanta o cobertor pra cobrir os ombros dela e aperta o próximo episódio. Você abusa da sorte quando se aninha no lado dela, mas sente o murmúrio baixinho na garganta dela enquanto passa o nariz pela pele com delicadeza. Ela não diz nada quando você pousa a cabeça no ombro dela e se acomoda e fica.

Você acorda com os braços vazios, mas suavemente embrulhada no cobertor quentinho.

Você acorda com o som de Maggye e Gerluce rindo. Os rostos delas te observando com sorrisos maliciosos e olhos de quem tá tramando algo.

— Que diabos vocês fizeram? — Você pergunta porque não tem fé nenhuma nelas depois da última peça que decidiram te pregar. Até hoje você não entende como conseguiram fazer tudo tão rápido. Quando elas te empurram pra fora e você vê os cartazes cobrindo as paredes, você se resigna a nunca entender como elas fazem essas coisas e nem por que gostam tanto de te torturar.

— Alguém me lembra por que dei a cópia da chave pra vocês? — Tudo que você recebe de volta é uma risada maníaca que te assombra o dia inteiro, até você estar correndo pro quarto de Eduarda e beijando ela com tudo que tem. Você não quer que ela esqueça o toque das suas mãos na pele dela. Não quer que ela esqueça a queimação na garganta de gritar o seu nome. Não quer que ela ache que não vale a pena.

Você quer que ela te queira.

*

Ela está ficando com outra pessoa e você quer vomitar.

Você desejaria poder arrancar o próprio coração do peito enquanto vê a garota passar por você como se tivesse experienciado um milagre. Você conhece essa sensação. Você quer vomitar. As duas se encaram por um segundo enquanto você tenta, sem sucesso, se lembrar de que foi sua decisão, foram suas regras. Você fez isso com si mesma.

— Quem era essa? — Você pergunta porque aparentemente é masoquista e precisa ouvir ela dizer em voz alta. Precisa ter certeza. Ela vacila por um momento como se estivesse escolhendo as palavras certas.

— Não sei. — Ela admite, e você tropeça nos próprios passos enquanto atravessa o corredor pra ficar na frente dela. Você consegue ver as marcas na pele dela. Sabe que não foi você que fez. Você sente a si mesma desmoronando a cada piscada enquanto a imagem não some. As mãos de Eduarda nela. Os lábios de Eduarda nela. Eduarda. Eduarda. Eduarda.

— Como você não-

— Você tá quebrando a regra número quatro.

— Então você ficou com ela? Tá ficando com outras pessoas? — Tudo que você sente é raiva. Uma sensação estranha se enrolando no estômago, mas você a empurra pra baixo. Você empurra tudo pra baixo e a beija. É bagunçado, é brusco, e você a joga na cama sem cuidado. Você a marca. Pinta por cima dos traços deixados pela pessoa sem rosto e a beija esperando que ela esqueça tudo menos você.

Você a evita por uma semana. Sete dias sem Eduarda. Senta lá no fundo na aula de Psicologia e dá voltas no caminho só pra evitar qualquer explicação que ela possa tentar oferecer. Você está sendo chata. Ela para de tentar no quarto dia e você se sente cedendo porque sente saudade. Sente saudade da presença silenciosa dela ao seu lado na aula, dos insultos murmurados que ela lança em aparentemente todo mundo. Menos em você.

Você sente saudade dela.

Você volta pro lugar ao lado dela no oitavo dia porque ela não fez nada de errado. Foram suas regras. Seu coração dispara quando ela sorri e empurra as anotações na sua direção. As dela eram sempre dez vezes melhores que as suas. Você fica olhando pra frente por uma hora sem escutar nada além do hálito suave da respiração dela, sentindo o olhar dela pousado em você. Você se pergunta como esse olhar repousaria se ela fosse sua e você fosse dela. Se pergunta se você aguentaria.

Você a conduz em silêncio pra sua cafeteria favorita na rua de baixo quando finalmente escapam. Ela não questiona quando você escorrega o pedido de café dela junto com o seu, ignorando a voz na cabeça que diz que você não devia saber de cor. Ela sorri. Seu coração pula. Você sorri de volta.

Você não tem ideia do que dizer quando chegam à mesa, não sabe como se desculpar por ter exagerado e sumido quando uma parte de você ainda está feliz por ter feito isso.

— Não significou nada. Achei que você quisesse que eu-

— Tá bom. — Você corta porque a culpa não é dela. Não de verdade. Ela era o motivo pelo qual o seu coração disparava mas você era o motivo pelo qual você nunca tinha feito nada a respeito. Você pousa a mão na dela sem pensar muito, mas nada poderia ter te preparado pro momento em que ela viraria a própria mão e entrelaçaria os dedos nos seus em silêncio. Uma ponte para algo mais.

Você ficou literalmente andando em círculos por uma hora. Mentalmente, você está andando em círculos há uma semana, desde que Eduarda segurou sua mão e você entrou em pânico e jogou tudo de volta em algum tipo de frenesi sexual emocionalmente vazio.

Você é uma idiota.

— Você é uma idiota. — Pelo menos aparentemente você estava certa em uma coisa.

— Sim, Maggye, eu sei. Mas ela é simplesmente tão... — Você faz algum som sem sentido no lugar de palavras de verdade porque não consegue descrever o sentimento. Não consegue descrevê-la. Você está ficando louca a cada novo passo porque não sabe o que fazer.

— Tá bom, chega. — Dessa vez é a voz de Gerluce que corta o ar enquanto ela te empurra com um casaco nos braços pra fora da porta. Sim, a sua porta, a porta do seu quarto. Por que diabos você fica deixando elas entrarem sabendo que tudo que fazem é bagunçar as coisas e pregar peças? Você bate na porta mesmo sabendo que elas não vão te deixar entrar e que a cópia da chave estava lá dentro com elas desde que elas próprias se deixaram entrar. Sério, que irritante — Não, Lorena. Vai falar com a Eduarda, aí você pode voltar.

— Tomara que você não volte! — Você ouve Maggye gritar enquanto sai a passos largos em direção ao alojamento de Eduarda. Você consegue fazer isso. Você é Lorena Ferette e consegue fazer isso tranquilo. Já fez coisas bem piores.

Você bate com delicadeza primeiro. É tímido e suave. Você sente o corpo inteiro se preparando pra correr. O coração está na boca, as palmas estão suadas e que se dane a delicadeza. Você começa uma porrada constante na porta e sabe que os vizinhos vão odiar as duas, mas não dá mais pra continuar assim. Você não pode mais se dar a chance de fugir. Está prestes a se jogar contra a porta quando ela se abre de repente e você cai pra dentro.

— Você bebeu? — Ela pergunta com um sorriso ao mesmo tempo confuso e cansado. Te olha com cautela, tentando te decifrar. Você respira fundo enquanto tenta se decifrar também, enquanto tenta descobrir como vai explicar isso, como vai conseguir botar as palavras pra fora.

— Não. — Você solta, e aí cai a ficha. Seus corpos se encontram num instante e ela segura sua cintura com uma destreza sem esforço enquanto fecha os olhos e espera. Você sabe o que ela espera. Sabe o que era pra fazer. Mas em vez disso você inclina a cabeça até sua testa repousar na dela, e os olhos dela se abrem de uma vez.

— Você tá quebrando as regras, Lorena Ferette. — Ela fala com um meio-sorriso na voz, e sua risada de volta é apenas uma única gargalhada enquanto você agarra a camiseta dela com mãos desesperadas, ainda com um fio de medo de encontrar alguma forma de se esconder disso.

— Eu quebrei as regras no momento em que as escrevi.

— Como assim?

— Estou apaixonada por você desde quando você me deixou copiar suas anotações.

— Que bom.

— Que bom? — Você pergunta, e o nariz dela desliza pelo seu em resposta até você não conseguir se segurar e rir.

As duas são completas idiotas.

— Você me conquistou no "meu deus, tô atrasadíssima."