Work Text:
Obanai ama, um amor do tipo paixão, que incendeia a alma e transforma o ambiente, a existência, grão por grão. Um querer que despretensiosamente brinca no ar, com piruetas bonitas e selvagens, que no fim, com sua mira certeira de uma flecha do cupido lançada somente com o objetivo de voar e acariciar, acerta o coração, desestruturando-o, rompendo vasos e abrindo lugar para um outro alguém se encaixar sem permissão.
Ele, um dia sequer imaginou passar por tal — se apaixonar. A sua vida — corrida e perigosa com a morte sempre no encalço —, não parecia permitir algo dessa magnitude, que causa fragilidade, fraqueza, preocupações e cuidados que vão além de sobreviver, matar onis e cuidar dos necessitados. Pois o amor, por mais bom e doce que seja, pode consumir até, em algum momento, machucar, atrapalhar.
Era o que seus instintos, pensamentos e a impureza que percorria em seu sangue diziam, e era o que ele fielmente acreditava. No entanto, ainda assim ele passou a gostar mesmo que tudo dissesse que ele não deveria, que não podia.
E Iguro demorou a ver que amava, não viu tamanha emoção chegar. Ninguém nota esse sentimento traiçoeiro alojando-se entre suas costelas, permanecendo escondido até o dia que será grande demais para caber em algo tão pequeno quanto o coração, logo expandindo aos ossos, músculos e pele. O ser por um completo.
O amor sempre chega pequeno, sem ser convidado, e sem demora se instala, incrustando-se como cracas. Permitindo-se ser percebido já tarde demais, quando já é quase impossível deixar de amar.
E ele percebeu tarde demais, atrasado o suficiente para seus pensamentos e respirar serem quase unicamente por causa da pessoa que o causou esse lamentar e desejar.
Mas amar não é a mesma coisa de reconhecer, de permitir-se sentir, admitir sem antes recusar.
Ele custou a aceitar tais sentimentos que o consumiam sem a menor pena, sem se preocupar com o estrago nele que mal sabia o que era receber amor, quem dirá se apaixonar. Para si parecia uma brincadeira dos céus, culpa de um tal maldito cupido de que às vezes ouvia falar — mesmo que não acreditasse, pois precisava de alguém para culpar, para jogar o fardo de ter criado esse laço profundo sem sequer desejar.
Obanai amaldiçoou tudo que podia, reclamou, negou, tentou arrancar à força, mas era só olhar para os olhos de tom azul que não sabia descrever de outra forma senão como hipnotizantes, os cabelos escuros como a alma de um oni deve ser, e para uma expressão triste esculpida em uma pele branca mármore para notar que não havia jeito e ver que realmente estima.
Com o retumbar rápido de seu coração dizendo que sim; suas bochechas salpicadas de vermelho morango externando o fato e o calor do sol de primavera que esquenta carinhosamente até queimar, contido em seu peito, denunciando-o.
Tomioka Giyuu, cupido ou qualquer outra entidade que exista, conseguiu, de uma forma da qual Iguro não sabe, transformar o desgostar borbulhante que sentia em uma doçura que apodrece e restaura seus sentimentos com um carinho torturante que somente a paixão no seu mais puro significado sabe fazer.
Agora, independente das súplicas ditas em vão sobre o céu estrelado de pecado e ardor, da raiva lançada ao além com a finalidade de chegar a alguém e do início da aceitação guardada em algum lugar em seu coração, ele continuaria gostando, desejando, pulsando e se revirando pelo homem denominado como Hashira da água. Porque ele se apaixonou como nunca fez e pretendeu. Seu ser já revirado e transformado para caber esse amor e a razão dele, o acolher assim como um órgão doado compatível. E principalmente porquê Obanai ama do tipo acreditar.
