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Português brasileiro
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Published:
2026-05-10
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3,295
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1/1
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2
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Summary:

Lorena Ferette sempre amou feriados desde criança.

Mas nunca soube muito bem como se sentir sobre o Dia dos Pais.

Notes:

olá meus amores!

essa aqui fiz após sugestão da maritaca (@swiftguillen) no twitter sobre lorena ferette + dia das mães. porém espero que você não se importe que eu mudei um pouco pra dia dos pais, mari, pois amo escrever sobre os daddy issues de lorena ferette

 

é triste no começo mas prometo que acaba bem :) espero que gostem

obs: desculpa se tiver algum erro, revisei bem rápido pra não perder o timing de postar no dia das mães kkkkkkkkk

Work Text:

Lorena Ferette costumava gostar muito de dias festivos quando era pequena.

 

Como a maioria das crianças, feriados para ela significavam pouco mais do que um dia inteiro para aproveitar o conforto de casa, reunir a família em volta de comida saborosa e, nas melhores datas, ganhar presentes o suficiente para fazer a espera quase eterna de uma volta completa no sol valer a pena.

 

Apesar de muitas vezes passar despercebido perto de outras datas comemorativas, era da Páscoa que vinham algumas das lembranças mais carinhosas da sua infância, por esse motivo que, por muitos anos, ela a considerara seu feriado preferido.

 

Geralmente, era uma das raras ocasiões em que visitavam a família de sua mãe e, justamente por acontecer tão pouco, ela considerava aquilo um grande evento.

 

Guardava memórias afetuosas de ir às compras com Zenilda para escolher os looks mais estilosos para o domingo, além de sempre comer escondido uma quantidade escandalosa de chocolate. Também sempre teve um carinho especial pela mágica entidade do coelhinho da Páscoa, que provavelmente nascera do apego que ela tinha por seu bichinho de pelúcia favorito, que tinha desde muito bebê.

 

Ela também amava o Carnaval e como, por alguns dias, todos os canais de televisão pareciam se transformar em um musical animado e colorido da Disney. Também adorava as sobremesas de Natal e as discussões anuais que tinha com Leonardo sobre quem havia ganhado o melhor presente – em que ela sempre saia vencedora, claro.

 

Ela sempre carregou sentimentos conflitantes sobre o Dia dos Pais, no entanto.

 

Bem, na verdade, não sempre.

 

Nas suas lembranças mais antigas, o Dia dos Pais era um feriado como qualquer outro. Sua família não era particularmente religiosa, então não tinham o costume de ir à igreja aos domingos. O dia geralmente era passado em casa como um fim de semana qualquer, somente com seu pai pedindo para Zezé, a empregada da família, preparar seu prato favorito para a ocasião – que certamente ela algo sofisticado e absurdamente pretencioso.

 

Apesar de ser um dia quase comum em todos os outros aspectos, ela conseguia se lembrar, ainda que vagamente, do quão extasiada ficava ao esconder cuidadosamente a lembrancinha que havia feito na escola com a ajuda da mãe, esperando para entregá-la apenas no dia exato do feriado.

 

Sendo completamente sincera, Zenilda ser a responsável por guardar o presente provavelmente era o único motivo pelo qual Lorena conseguia esperar até domingo para entregá-lo, porque, desde o momento em que o fez, tudo em que conseguia pensar era finalmente ver a reação do pai ao tê-lo em mãos.

 

Tinha no fundo da mente uma imagem nebulosa de si mesma se aproximando de Santiago com as mãozinhas trêmulas, estendendo o presente na direção dele enquanto praticamente transbordava em animação.

 

— Ferette, a Lorena tem uma coisa pra te entregar. Está muito lindo, tenho certeza de que você vai amar. — a mãe tentava ajudá-la a superar o nervosismo inicial.

 

— Pra você! — disse, com a voz ainda pequena e infantil.

 

— Pra mim? — ele respondeu, em um tom igualmente animado, puxando-a para seu colo. — Que legal, minha filha! Muito obrigado.

 

Infelizmente, a inocência daquela época pareceu escapar por entre seus dedos rápido demais.

 

Conforme crescia, a complexidade da sua relação com o pai também florescia junto e, com mais discernimento, tudo parecia se tornar cada vez mais intricado entre os dois.

 

Parecia que, à proporção que ela e Leonardo se tornavam mais conscientes de si mesmos e, consequentemente, mais propensos a cometer erros ou se desviar do caminho que Santiago havia cuidadosamente idealizado para eles, agradá-lo deixava de ser algo tão simples quanto antes, o que não era um conceito fácil para Lorena compreender, ainda com pouca idade.

 

Um pouco mais velha, porém ainda sem maturidade suficiente para realmente compreender como girava o resto do mundo, sua noção de paternidade passou a estar profundamente ligada à sensação constante de ansiar e precisar conquistar o amor e a aprovação do pai, algo que, aos poucos, começou a acreditar ser simplesmente o curso natural de qualquer relação.

 

Ela tinha plena consciência da competição que o pai cultivava entre ela e o irmão, mas, antes que o desgaste disso acabasse corroendo a relação entre os dois, Lorena conseguiu ignorar o suficiente para permanecer próxima de Leonardo durante seus anos formativos.

 

Isso não significava, contudo, que ela não tivesse passado boa parte da infância fazendo tudo o que podia para garantir que Santiago também a enxergasse, antes de eventualmente se resignar ao papel de “reserva”.

 

Era quase uma sensação eufórica quando ela finalmente conseguia fazer algo que o agradava, encaixando-se perfeitamente no papel de filha obediente da família tradicional perfeita e, em troca, recebia o carinho e a aprovação que ansiava tão desesperadamente.

 

“Minha menina! Estou tão orgulhoso de você, filhota.”, ela se lembrava dele proferindo de forma calorosa, algo que ficou cada vez mais raro de ouvir.

 

Era como ter um vislumbre do pai que ela acreditava ter tido um dia, ou talvez do pai que gostaria de ter tido, porque, com o tempo, passou a questionar se ele realmente havia sido o homem que existia em suas memórias.

 

E também havia os momentos raríssimos – aqueles nos quais ela jamais esqueceria, pois pareciam estar entalhados para sempre na parte da mente aparentemente reservada aos grandes destaques dos traumas de infância – em que Santiago genuinamente parecia um bom pai. Momentos em que suas atitudes não pareciam fazer parte de algum jogo distorcido, e seu afeto não parecia condicional ou uma recompensa, mas sim algo que simplesmente existia, naturalmente.

 

Lorena chegou à realização de que aquela era a realidade normal para a maioria das famílias aos tenros nove anos de idade, ao finalmente realmente digerir as falas clichês das professoras sobre a importância do Dia dos Pais, que anteriormente pareciam irrelevantes diante de atividades artesanais.

 

O discurso era sempre o mesmo, mas que agora carregava um significado diferente para ela: pais deveriam ser os heróis de seus filhos, as figuras nas quais eles cresceriam querendo se espelhar.

 

Para os meninos, o pai deveria ser o homem que eles sonhariam em se tornar um dia. Para as meninas, seria aquele que ensinaria como elas mereciam ser amadas.

 

E, pouco a pouco, a cada ano que passava, um pensamento começava a surgir com mais frequência na mente dela. É isso mesmo?

 

Era sempre uma ideia passageira, daquelas que a faziam se sentir horrível imediatamente depois, não importando o quão breve fossem. Em todo lugar, todos pregavam sobre como a família era sagrada e sobre como você deveria amá-la acima de tudo, apesar de tudo. Mas, nas partes mais profundas da própria mente, Lorena muitas vezes se sentia quase profana pela crescente dificuldade em sentir aquela devoção incondicional que parecia tão natural para todos ao seu redor.

 

Na adolescência, todavia, parecia inevitável que aquela ideia deixasse de ser apenas um pensamento passageiro e passasse a pairar constantemente sobre sua vida, de forma pesada demais para ser ser varrida da mente como como uma ideia fugaz.

 

Foi quando Lorena finalmente cedeu ao pecado de admitir, ainda que apenas para si mesma, que seu pai não era uma pessoa tão boa quanto ele gostava de parecer.

 

Aquela realização se tornou o ponto de virada da relação entre os dois e, de muitas formas, o ponto de virada da vida de Lorena, porque foi quando ela finalmente começou a se permitir abandonar a pressão sufocante de fazer tudo em troca da menor migalha de afeto vinda dele.

 

Mas nada sobre aquela situação era fácil. Uma parte dela ainda enxergava Santiago através daquela visão suavizada da infância e, por menor que fosse, ainda existia uma esperança persistente de que a versão dele que ela um dia amou pudesse, de alguma forma, voltar.

 

Foi preciso o pior dos cenários para que finalmente entendesse que realmente não havia mais volta para ele. O momento em que ele olhou diretamente em seus olhos, sem o menor traço de remorso, e disse que não tinha mais uma filha, antes de mandá-la ir embora sem olhar para trás.

 

“Você sempre foi esquisita”, foi o que ele disse.

 

Sempre. Então, naqueles momentos em que ela vibrava de felicidade ao ouvir um “eu te amo” vindo dele, ou quando ele a consolava depois de um pesadelo, era isso que ele estava pensando?

 

Depois daquilo, foi fácil transformar toda a mistura confusa de sentimentos que carregava por ele em pura raiva. Raiva por cada pessoa cuja morte ele ajudou a causar, por cada coisa nojenta que saiu de sua boca sobre a família dela e por cada vez que ameaçou encostar um dedo sequer em Eduarda.

 

Foi assim que Lorena conseguiu seguir em frente. Lidou com ter saído de casa, com se casar com Eduarda sem ter o pai para levá-la ao altar como sonhava quando criança, e até mesmo com o momento em que ele finalmente foi preso por todos os seus crimes e ela recebeu a notícia de que estava adoecendo na prisão, morrendo sozinho.

 

E ela conseguiu fazer um ótimo trabalho enterrando tudo isso dentro de si.

 

Até chegar o primeiro Dia dos Pais depois de tudo o que aconteceu.

 

A verdade é que ela sequer estava pensando na data até ouvir um dos colegas da Fundação Três Graças comentando sobre isso.

 

— Ai, uma pena esses feriados que caem em fim de semana, né? — Amanda, sua colega, comentou casualmente enquanto organizava alguns papéis na mesa.

 

— Feriado? — Lorena perguntou, distraída.

 

— É, Dia dos Pais já tá aí. Tinham que mudar isso e obrigar todo feriado a cair em dia útil, sinceramente...

 

Depois daquilo, parecia que o resto da conversa simplesmente passou reto por ela. As palavras da colega viraram apenas ruído distante enquanto aquela informação martelava em sua cabeça repetidamente.

 

Como ela conseguiu esquecer?

 

Ela fez o possível para esconder o desconforto de Eduarda. Claramente sem muito sucesso. Ao longo do dia, e depois durante a noite, Lorena se pegava se perdendo nos próprios pensamentos com frequência, desligando completamente das conversas sem perceber.

 

— Amor... Lo? Lorena! — a ruiva chamou, despertando-a de mais um devaneio durante o jantar.

 

— Oi! Desculpa, amor. O que foi? — ela respondeu rapidamente, forçando um pequeno sorriso.

 

— Tá tudo bem? Tô te sentindo meio aérea hoje. — Eduarda comentou suavemente enquanto colocava uma mecha do cabelo castanho atrás da orelha dela.

 

— Tá, tá sim.

 

— Certeza?

 

— Absoluta.

 

Lorena sempre fez questão de ser extremamente honesta com Eduarda sobre tudo. Honestidade acima de qualquer coisa era praticamente um lema silencioso do relacionamento delas. Mas Eduarda também sabia que o assunto envolvendo o pai dela era delicado de uma forma diferente.

 

Às vezes, Lorena sequer conseguia colocar em palavras o que sentia sobre Santiago. Era uma mistura confusa demais de mágoa, trauma, culpa, raiva e saudade para conseguir organizar direito dentro da própria cabeça.

 

E Eduarda, como sempre, respeitava isso com toda a delicadeza do mundo.

 

 

— E essa carinha aí, hein? Não vai mesmo me contar o que tá acontecendo? — Eduarda perguntou mais tarde, enquanto as duas conversavam já deitadas na cama.

 

Lorena sorriu de canto com a fala, porque sabia que Eduarda a lia como ninguém. Qualquer microexpressão sua parecia ganhar um significado gigantesco aos olhos da ruiva.

 

Mas, ao invés de responder diretamente, desconversou, enquanto girava a aliança na mão de Eduarda.

 

— Você falou com seus pais esses dias?

 

— Falei com a minha mãe mais cedo. Inclusive, ela mandou beijo e disse que ainda vai conseguir te convencer a assistir novela turca com ela.

 

Lorena deixou escapar uma risadinha baixa.

 

— E vocês fizeram algum plano? O Dia dos Pais tá chegando, né?

 

Com aquelas palavras, Eduarda parece entender imediatamente, como sempre entendia.

 

Ela desconversa suavemente sobre o assunto, dizendo que não tinha nada planejado para o Dia dos Pais, já que via o pai com tanta frequência que eles nem ligavam muito para esse tipo de data.

 

Lorena descobriria mais tarde que aquilo era uma mentira descarada. Ela deveria ter imaginado que um homem sentimental como Henrique Fragoso jamais deixaria de valorizar cada Dia dos Pais ao lado da filha como se fosse o último.

 

Naquele ano, porém, Eduarda fez um acordo com ele: em troca de não passar o domingo da data juntos, almoçaria com ele durante toda a semana seguinte.

 

Porque, percebendo a aproximação inevitável daquele dia e tudo o que ele carregava para Lorena, Eduarda sentiu que a pior coisa que poderia fazer seria arrastá-la para qualquer comemoração familiar ligada a uma data tão amaldiçoada para ela, lidando com o trauma cercada de pessoas, algumas nas quais nem conhecia direito, sendo primos distantes da família de Eduarda.

 

— Que isso, Duda? Pra onde você tá me levando? — Lorena perguntou confusa quando Eduarda a acordou cedo e simplesmente pediu para ela entrar no carro, com as malas já prontas no banco de trás.

 

— Feriado surpresa no litoral! — Eduarda respondeu com um sorriso orgulhoso.

 

— Como assim, Duda? E o feriado, você realmente não vai ficar com seu pai? Ele não vai ficar chateado com isso?

 

— Relaxa, o doutor Henrique Fragoso ama demais a gente pra ficar chateado por conta de um dia. Nossa família é muito maior que isso. Mas eu sei que pra você esse dia significa muito, e ele também entende.

 

Lorena sentiu os olhos marejarem, o peito apertando com a intensidade do amor que recebia da esposa naquele momento. E também por saber que seu sogro, que agora era a maior figura paterna que tinha, era um homem tão diferente do qual ela havia sido criada, do melhor jeito possível.

 

— Eu queria que você tivesse um dia fazendo as coisas que te façam feliz. É isso que você merece. E é isso que ele merece também, estar lá, apodrecendo, enquando você tá aqui, vivendo. — ela continou.

 

Então foi exatamente isso que ela fez.

 

Lorena passou aquele fim de semana na praia vivendo a vida da forma mais plena possível ao lado de Eduarda, agradecendo silenciosamente ao universo por ter colocado alguém tão amoroso em seu caminho.

 

Depois disso, a cura natural do tempo, junto de muitos anos de terapia, fez Lorena acreditar que finalmente estava livre daquela sensação de angústia sempre que o Dia dos Pais se aproximava.

 

Ressignificar aquele primeiro Dia dos Pais significou muito para ela, e fez com que os seguintes fossem muito mais fáceis de enfrentar.

 

Na maioria das vezes, ela passava a data ao lado da família Fragoso, em almoços barulhentos e animados, cheios de presentes, carinho e lágrimas emocionadas sendo trocadas de um lado para o outro, algo que aparentemente fazia parte da genética daquela família.

 

A sombra do pai ainda parecia persegui-la às vezes, especialmente depois da decisão de aumentar a família, o que trouxe antigos medos de volta à superfície, mas algo que sua maturidade recém-conquistada a ajudava a atravessar muito melhor agora.

 

Quando Cecília era pequena, elas praticamente não pensavam no Dia dos Pais. Passavam a data como passaram em todos os anos anteriores, cercadas de amor, família e bagunça, com a pequena no meio de tudo, não tendo tanta idade para entender a comemoração, mas estando feliz por estar cercada de família de qualquer forma.

 

Quando finalmente colocaram Cecília na escola, o mais perto possível da data limite, porque queriam aproveitar ao máximo o tempo dela em casa, a maior preocupação das duas foi encontrar uma escola verdadeiramente inclusiva, o que felizmente conseguiram.

 

No meio de toda a emoção de ver a filha saindo do ninho pela primeira vez, a ideia das comemorações escolares de feriados sequer passou pela cabeça de Lorena e Eduarda.

 

Então, pela primeira vez em anos, aquele velho sentimento de angústia parecia alcançá-la novamente por causa do Dia dos Pais, dessa vez por conta de uma pergunta simples feita por uma garotinha ruiva de quatro anos e covinhas no sorriso.

 

— Mamães, o que eu vou fazer no Dia dos Papais?

 

Ela e Eduarda congelaram no meio do jantar, nenhuma das duas preparada para a pergunta. Lorena sentiu o coração acelerar imediatamente, um medo apertando seu peito diante da possibilidade de que a data tivesse feito Cecília se sentir excluída de alguma forma.

 

— Bom, a gente já teve outros dias assim antes, lembra, filha? Quando a gente foi pra casa do vovô e viu os tios e primos da mamãe? — Eduarda tentou primeiro.

 

— Tá, mas na escola eu não sei o que eu vou fazer.

 

— Como assim, meu amor? — Lorena perguntou.

 

— A Zara perguntou pra tia o que a gente ia fazer pro Dia dos Pais, aí ela falou que a gente ia fazer presentinhos, aí eu comecei a pensar. Porque eu não tenho papai. Acho que a Clara também não tem, mas ela só tem uma mamãe.

 

As palavras saíram rápidas, todas emboladas, do jeito que sempre acontecia quando Cecília estava muito ansiosa para finalmente falar seus pensamentos em voz alta.

 

Cecília era, no geral, muito bem resolvida com a questão de ter duas mães. Desde muito pequena, Eduarda e Lorena sempre fizeram questão de conversar com ela sobre diferentes dinâmicas familiares.

 

Explicavam que algumas pessoas tinham uma mãe e um pai, outras tinham duas mães ou dois pais, e que algumas crianças viviam só com avós, tios ou apenas um dos pais. E que, às vezes, as pessoas achavam famílias diferentes “estranhas” simplesmente porque estavam acostumadas apenas com aquilo que viviam.

 

Mas o mais importante era que todas aquelas famílias tivessem amor. E a delas certamente tinha.

 

— Bom, você pode fazer alguma coisa pra nós duas, igual fez no Dia das Mães, lembra? Porque a gente cuida de você, igual os papais cuidam dos filhos. — Eduarda sugeriu.

 

— Mas aí vai ser presente de mamãe de novo. — Cecília reclamou, franzindo o narizinho.

 

— E qual o problema de comemorar as mamães duas vezes, senhorita? — Lorena brincou, passando o dedo no nariz da filha em um gesto carinhoso. — Você também pode fazer alguma coisa pra comemorar alguma outra pessoa especial. Tipo o vô Henrique, que é o papai da mamãe, mas também cuida de você, te leva pra escolinha, dá presente...

 

O que elas não esperavam era que, ao invés de escolher uma das sugestões, Cecília decidisse que simplesmente não queria que ninguém importante na vida dela se sentisse sem amor naquele dia.

 

Então, quando Lorena foi buscá-la na escola naquela sexta-feira, encontrou a filha segurando uma pilha de atividades de papel nas mãos, que claramente pareciam cartões feitos à mão.

 

E Cecília rapidamente tratou de explicar tudo, cheia de orgulho.

 

— Eu pedi pra tia me dar mais folhas pra poder fazer mais. Olha, esse aqui eu fiz pra você. — ela estendeu um dos cartões para Lorena. — Esse é pra mamãe, esse pro vovô, esse pro dindo Paulinho, e eu fiz pras vovós também, pra elas não ficarem sem.

 

— Uau! Quanta coisa, minha filha. Bom, eu amei o meu, então tenho certeza de que todo mundo vai amar os deles também. Acho que isso merece uma comemoraçãozona, hein? — Lorena respondeu enquanto guiava Cecília até o carro.

 

— Aham. A tia Laura falou que eu tenho muita sorte de dar tantos presentes assim.

 

Com aquelas palavras simples da filha, Lorena sentiu o coração se preencher por completo.

 

Ela não conseguiria colocar em palavras o quanto aquilo a fazia feliz, saber que Cecília cresceria cercada por tantas pessoas que a amavam incondicionalmente, e que ela e Eduarda haviam construído uma família que era uma verdadeira fortaleza.

 

Crescer na família em que cresceu e esperar que esquecesse isso na vida adulta era como sofrer um machucado profundo muito cedo na vida e esperar que a cicatriz desaparecesse só porque o tempo passou e a ferida fechou. A marca da família em que nasceu sempre estaria ali de alguma forma.

 

Mas perceber que conseguiu atravessar tudo aquilo, todas as dores, os traumas e o caminho disfuncional para o qual foi empurrada, e ainda assim construir aquele lar para si mesma, e principalmente para a filha, parecia sobrepor qualquer cicatriz antiga.