Work Text:
John não sabia o porquê, mas havia algo diferente na comida nos últimos dias. Não é que a comida da senhoria fosse ruim, porém, não achava nada de muito especial. Ele nunca falaria, afinal, se quisesse comer algo diferente ele que fizesse ou comprasse, seria rude de sua parte reclamar de estômago cheio. Mas não mentiria, estava curioso.
Mais estranho que a comida, era o fato de que finalmente utilizavam a cozinha. Já não tinham mais experimentos na mesa e coisas definitivamente repulsivas no microondas e na geladeira. Sherlock deveria estar enlouquecendo de vez, tendo em mente que a mudança na casa inteira havia sido de sua autoria. O médico não fazia idéia, simplesmente havia acordado em um dia e visto o moreno faxinando e mudando as coisas como um verdadeiro dono de casa, mais estranho que isso, é que ele havia o dado bom dia como um marido bem humorado, parecia até que estava em um comercial de sabão em pó – talvez pudesse chama-lo de marido, mas de bem humorado? Pois então.
As coisas pareciam estranhas, mas eram boas. Pensou que talvez tudo aquilo fosse por Rosie, o detetive assumia não ter habilidade com crianças, mas ele estava sempre fazendo algo (tudo) por ela. Era agradável, anormalmente adorável. Passava horas refletindo sobre isso, em como a vida de ambos estava mudando em algo mais familiar – óbvio, não haviam abandonado os casos, mas estavam mais domésticos do que o comum com o tempo. Os pensamentos ocorriam mais enquanto comia, como no atual momento. Deveria parecer um idiota olhando em direção ao nada enquanto meramente piscava e mastigava uma única garfada de comida umas mil vezes, mas só notava a sua estupidez quando algo ou alguém o acordava de seu devaneio.
— Oh, John! Está tudo bem?
Não era difícil de perceber que andava avoado, pelo jeito. Dessa vez, havia sido Sra. Hudson quem o trouxe de volta a realidade. Nem havia percebido que a senhoria estava em sua frente, servindo chá com o semblante animado que praticamente sempre possuia, até ela ter chamado sua atenção.
— Claro, claro, só estava pensando. A comida está ótima, Sra. Hudson.
— Ah, querido, não...
— Obrigado, John.
Sherlock passou por trás de si rapidamente, segurando Rosie em seu colo e indo em direção ao fogão ligado, ele parecia ter pressa.
— Você que fez?
Limpou sua boca com um gardanapo, havia finalmente terminado de comer. Enquanto esperava uma resposta, percebeu que havia tido a refeição completamente sozinho e se aborreceu por Holmes estar sem comer por tanto tempo.
— Ele têm insistido em fazer tudo nos últimos tempo, você sabe como é difícil dizer não para ele. – A senhora teve um pouco mais de consideração por sua pergunta do que o detetive, que agora colocava a pequena na cadeirinha do lado oposto em que o médico estava da mesa. — Também não sei o que deu na cabeça desse jovenzinho!
— Quantas vezes ainda vai duvidar de mim?
O olhou com um falso semblante irritado, colocando a comida de Rosie na frente dela (se quer tinha notado ele preparado a comida dela) e se dirigindo de volta à frente do fogão. Céus, John não conseguia parar de pensar em como ele parecia um dono de casa enquanto fazia essas coisas, e o maior problema era o quão confortável se sentia em ver aquilo.
— Você é-
Ele ia pegar algo que estava no forno, porém retornou à sua postura normal e o olhou com o semblante mais sério que Watson havia visto em seu rosto em todo o tempo que haviam passado juntos. — Não, John. – As vezes ser previsível era bom, porque o moreno não deixaria de o interromper se estivesse prestes a falar uma besteira, isso evitava que continuasse e fizesse com que ele ficasse furioso consigo. Bom, John geralmente era quem ficava irritado na relação, mas era terrível quando o contrário acontecia, afimal a forma na qual os Holmes poderiam ser dramáticos era trágica. — Eu era.
— Isso, era um viciado praticamente desnutrido em uma casa empoerada e bagunçada que deixava a mesa da cozinha cheia de produtos químicos, uma geladeira com membros humanos e olhos em um microondas. Então, você realmente acha que eu vou aceitar de um dia para o outro que você sabe cozinhar?
— E o que que tem a ver? Nada disso está direitamente ligado ao uso de temperos, precisão com facas e noção de tempo. Você não presta atenção em nada ultimamente, John, eu estive fazendo tudo já fazem dias! – Ele voltou a se curvar em frente ao forno quando terminou sua fala, e para sua surpresa, tirou um bolo que cheirava maravilhosamente bem de lá. — Entretanto admito que meus hábitos alimentares e hábitos de limpeza só vieram a mudar drasticamente com a presença de Rosie. Ela me deu novos hobbies! Não acharia certo deixar um bebê em um ambiente igual ao que era, acharia?
O observou descaradamente admirado enquanto ele vinha em sua direção e colocava o bolo em sua frente. Ele sorriu, e foi meio inevitável sorrir junto. Ficou um pouco envergonhado quando voltou a olhar para frente, Sra. Hudson ainda estava ali, ajudando Rosamund a comer, ambas parecendo em um ótimo humor. Esses momentos o deixavam meio desconexo, quando diabos poderia ter imaginado que estaria vivendo momentos tão simples, mas tão bons?
— Você nunca realmente se importou com o que eu acho.
Voltou a olhar para Sherlock, ainda sorridente por ter visto a expressão feliz da filha. Ele já estava de novo em frente ao fogão, e parecia fazer uma calda para o bolo, quão irônico.
— Aí que está o equívoco, meu caro. Quer dizer, nem tanto, as vezes eu realmente não me importo. – Bom, ele sempre tinha que falar algo para tornar os momentos não tão satisfatórios. Ele sabia muito bem como fazer-lo olhar para si com aborrecimento estampado no rosto. — Não me olhe assim, se eu mentisse até sobre as coisas mais simples aí sim você ficaria verdadeiramente furioso. Rosie concorda.
Haviam dias que Sherlock resolvia ter um comportamento cínico sem dar uma trégua se quer. Ele sempre achou divertido irritar quaisquer pessoa, porém depois que se conheceram, o detetive pareceu ter uma satisfação maior quando ele era os alvos de suas provocações. Com o tempo, a vida tão doméstica e íntima entre eles, ele obviamente achou uma brecha para criar situações que só aconteceriam em ambiente familiar, John não sabia se achava isso adorável ou caótico. Já eram uma família nem um pouco convencional que sofria com perturbações constantes e a maior parte do estresse caía sobre si, aguentava mais?
— Vocês dois não se dão uma trégua, meninos!
Bem, a senhoria não estava totalmente errada. Uma das grandes características do seu relacionamento era que ambos, intentionalmente ou não, se irritavam um com o outro.
— John não me dá uma trégua, Sra. Hudson. Em inúmeros sentidos, eu não sei mais o que fazer!
— Sherlock!
Ele adorava fazer teatros. John, nem tanto.
— Viu só? Qualquer coisa que faço, Sherlock aqui, Sherlock ali, Sherlock lá, Sherlock cá.
Entretanto deveria admitir que vê-lo gesticulando excessivamente enquanto mexia a calda era um tanto quanto engraçado.
— Deveria descansar um pouco, querido. Ele está brincando com você, e ainda assim você só prova que ele está correto.
— Vocês dois são pestes.
— Espere até Rosamund crescer e não será mais apenas nós dois. Eu até diria que irá ficar com os cabelos brancos, mas isso você já tem.
Sra. Hudson riu tão alto que Sherlock e até mesmo a pequena Rosamund começaram a rir junto, agora sim John estava se sentindo insultado – apesar das risadas o causarem conforto.
— Sério? Vocês tiraram o dia para me atazanar?
— Eu particularmente acho o platinado um charme. – Sra. Hudson disse com dificuldade e limpando as lágrimas que quase caíam de seus olhos, era tão engraçado assim?
— Me perdoe, amorzinho. – O moreno disse da maneira mais debochada que conseguia, desligando o fogão e vindo em sua direção, segurou seu rosto com ambas as mãos e tentou o beijar, mas John segurou seus pulsos e tentava se afastar de todas as suas investidas. — Não quis que soasse como um defeito, eu concordo plenamente com ela, você é lindo.
— Sherlock, não venha com beijos pra cima de mim!
Aquilo era uma afronta! Ele conseguiu beijar seu rosto algumas vezes, e de tanto que lutou contra isso, ele desistiu de continuar.
— Oras, a senhora escutou isso? Não vai me tocar por uma semana então.
— Até parece que está falando sério.
Ele o olhou ofendido, não sabia se de verdade ou não, mas preferia acreditar que não.
— Começando por agora.
Mas quando ele virou de costas e fez o seu andar birrento muito bem conhecido por si, não era bom sinal.
— Sherlock? Sherlock!
Não tinha opção se não correr atrás dele.
— É, Rosie, acho que vai ter que ficar comigo por um tempinho!
No fim, sempre sobrava para a senhoria.
