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coisas que engolimos a seco

Summary:

Mike e Will não se veem há dois anos, desde que passaram meses morando no mesmo corredor do dormitório da Escola do Instituto de Arte de Chicago.

Durante o casamento de Lucas e Max, são obrigados a confrontar memórias e verdades escondidas em Hawkins. As mesmas verdades, as mesmas coisas engolidas a seco, que fizeram Mike fugir de Will mais de uma vez.

Chapter 1: 17:00

Notes:

Músicas:
Amigos até certa instância - Jovem dionísio
The Story Of Us - Taylor Swift
OK - Wallows

Chapter Text

O casamento era um sonho de Lucas, não de Max. Melodias em arranjos sutis, um casamenteiro, vestido de noiva cheio de babados, Erika, sem paciência, arrumando sua gravata torta. A tensão com a bebedeira dos convidados na frente dos pais, os pés doloridos pelo sapato de bico fino e um milhão de vidas para viver com ela. Aquela recuperada, normal, firme. Algo a que pudesse se pendurar, para ter certeza de que não estava enlouquecendo. De que Max não estava indo embora dele de novo. Will não teve a sorte dessa chance.

Os anos que se seguiram à morte de Vecna foram, no melhor dos casos, como viver em alto mar ou a céu aberto. Como tragédia em eminência ou um filme de terror com tão poucas cenas de susto espalhadas que se torna ainda mais assustador do que os outros. 

Esperar pelo pior tinha se tornado um estilo de vida, então, ao invés de se acostumarem com a correria de graduação, estavam se acostumando com um sentimento de paz pesaroso. O luto que não vinha só da morte, mas da inexistência de coisas que um dia estiveram ali. Jane Hopper, os arrepios na nuca de Will e uma luta que parecia um bicho que crescia toda vez que perdia uma cabeça. Quase como se o corpo quisesse manter a adrenalina, ainda que nada de bom viesse dela. Era o costume.

Tiveram que reaprender a ocupar a vida uns dos outros, com coisas mais corriqueiras do que derrotar monstros ou assistir o assassinato de amigos e conhecidos. Perderam prazer em D&D, as lembranças eram intensas demais. O que aconteceria se dessem nome a uma figura que tomasse vida outra vez? Culparam o crescimento, os diferentes rumos, mas nenhum deles era idiota.

Viam-se nas férias, falavam ao telefone. Não era a mesma coisa. Os arrepios de Will passaram a ser resultado de gotículas de suor de nervosismo e ansiedade, uma forma de antecipar o mal para não ser pego de surpresa. Nunca conversavam sobre isso, ninguém sabia até que ponto a ansiedade comandava a vida de cada um. Max foi a primeira a tocar no assunto, já acostumada com a ineficiência do silêncio. 

Na mesma época, quando Mike se afastou de todo o grupo, com a desculpa da distância física, Max encontrou um jeito de aproximá-lo ainda mais. Visitava tanto que acharam que se mudaria para o dormitório dele. 

Max, a noiva. Os babados do vestido, no fim, ficaram para trás. Escolheu um liso, com seda brilhosa, num tom de amarelo quase-branco. Não branco. A cor combinava com o cabelo avermelhado, escurecido ao longo dos anos, agora penteado para trás num coque que puxava o couro cabeludo contra o sentido natural. Mas não parecia desprazerosa com a festa. Ao contrário, os olhos e o sorriso, os pés, o corpo todo, estavam voltados para Lucas. Se nada a incomodava, era porque nada importava além dele.

Max tinha criado uma espécie de posto materno em relação ao restante do grupo. Preocupava-se com tudo, todos os mal-estares, todos os atritos. Tudo que ninguém dizia.

Will sentiu-se em sua mira quando a viu indo em sua direção. Instintivamente, arrumou a postura e a gravata, amedrontado de que ela descobrisse tudo de uma vez. Todas as coisas que nem mesmo ele tocava.

— Tudo bem? — Disse, sentando-se à sua esquerda.

 O nome de Mike começava a se espalhar pela mesa, anunciando sua presença. Mesmo a frequência com que Will o escutava não foi capaz de diminuir a angústia. A lembrança que vinha era sempre a mesma, o calor que passava pela micro-distância entre os dois, o barulho do lago no silêncio, a bagunça de seu cabelo, que deixava um pequeno vão na franja e brilhava castanho-avermelhado sob os postes de luz alaranjada. Suas mãos encostando uma na outra e no gramado molhado. O momento perfeito, o finalmente, arrebentando o fio frágil que ainda existia entre os dois pela rapidez com que tudo deu errado. Will precisava parar de pensar. Agora.

— Hoje é o seu dia, estou te proibindo de se preocupar comigo.

— Ah, não, agora estamos no turno do Lucas. — Ela apontou com o queixo, guiando o olhar de Will até o amigo com a gravata já presa na cabeça. 

— A cerimônia nem aconteceu e ele já está desse jeito?

— Sem um gole de bebida.

O terno da cor do cabelo da noiva ostentava a beleza de Lucas e o destacava entre os demais. O brilho era mais do que isso, claro. O alívio parecia uma aura. Em questão de segundos, ele ficaria impecável de novo, Max não precisava se preocupar. Não teria se preocupado nem se precisasse. A festa era muito pouco do que o casamento significava para ela.

Will tomou um tempo para absorver os detalhes da festa. Todos ajudaram, recortando os tecidos para pendurar sob as mesas de madeira, como réplica das pétalas de uma grande flor branca. Dustin arranjou um jeito de pendurar varais de luzes quentes sem fita aparente e sem risco de queda, Lucas e Max encheram os vidros de reciclagem com pequenos punhados de flores amarelas. Will escolheu as músicas e desenhou repetidas vezes a mesma imagem do casal, até que todos os convidados tivessem uma lembrancinha nesse estilo para levar para casa. Os pais fizeram a maior parte, é claro, deixando as crianças, como ainda se referiam a eles, com as tarefas que não interferiam gravemente no funcionamento da festa. 

Todos ajudaram, a não ser Mike, que tinha um prazo de entrega apertado para entrega de um capítulo de seu próximo livro. A não ser Mike, com quem Will não conversava há dois anos. Que se sentou na mesa à frente da sua. Não na sua, mas próximo a ela. Que teve seu primeiro livro espalhado pela NYU como se fosse uma leitura obrigatória decidida com a grade do curso, por um conselho com os homens mais importantes da literatura. 

Mike, que escreveu: Estivemos todos, nós dois, na mesma guerra, contra os mesmos homens. Mas você era você, eu era eu. Esse era o problema, suponho. Você ainda era você e eu ainda era eu. O problema era outro, Will pensou, depois de reler aquele mesmo parágrafo até decorá-lo. Você cria ressentimentos, joga-os para fora do campo de visão e eles voltam para você. Esse era o problema.

Mike estava bonito, com um traje social todo preto, as feições endurecidas com o passar dos anos, e um ar flutuante que dava a Will algo com o que se preocupar. Só a presença dele o deixava assim, com todas as memórias atrapalhando a passagem do ar. Tinha, também, a coisa toda de estarem em mesas diferentes. Will fez um esforço consciente para não pensar sobre isso.

Max o cutucou. Só então, notou que seus olhos se demoravam em Mike. Passeando por ele, como uma paisagem difícil de captar com uma só olhada. A noiva ergueu uma das sobrancelhas, sustentou o olhar até que Will a olhasse nos olhos. Analisava a potencialidade da conversa, fazia muito isso, na tentativa de não espantar o outro com a dureza amorosa com que falava as coisas.

— Will, você precisa falar com ele.

— De jeito nenhum — falou, fazendo um esforço consciente para não voltar a olhá-lo. — Não é o que ele quer, você sabe disso.

— Não, não sei. Você também não sabe.

— Esse é o problema. Não?

Max o puxou pelo braço, admitindo a si mesma que estava equivocada. Will não precisava falar com Mike, não agora. Precisava, na verdade, beber alguma coisa. Ela também precisava, o restante dos convidados chegariam logo.

No meio de todos os vultos pelos quais Will passou enquanto Max o puxava, lá estava ele. Mesmo de longe, seus olhos pareciam presos a boca de Will como um ímã de energia magnética incalculável. Como sentiu falta da força com que seus corpos agiam até ficarem próximos, no máximo que podiam ficar. Da facilidade com que ficavam sozinhos no meio de um monte de gente. Loucos juntos. Aquilo não podia ter virado só uma coisa de sua cabeça. Podia?

A boca de Will entreabriu, os segundos esfarelaram em horas. Sentiu uma adrenalina repentina tão forte que o corpo pareceu ter despencado sete andares em câmera lenta. Meses e meses com a impressão de que a voz de Mike, o rosto, sumiriam de sua cabeça. Um pavor irracional, quase fobia, de que ter conhecido Mike fosse uma ilusão.  

Mike voltou-se para a acompanhante, que arrumava algo em sua roupa. Os rostos tão próximos que Will não teria tempo de desviar o olhar se eles se beijassem. Seriam longas as horas pela frente.