Work Text:
O que Miranda sempre odiou em seus antigos parceiros era a capacidade de tratar seu trabalho e sua carreira como algo irrelevante. Algo que pudesse ser deixado de lado facilmente, como se fosse apenas um hobby remunerado que ela colocava como prioridade na vida.
Esse havia sido o motivo de todos os seus divórcios.
O primeiro marido era um aventureiro nato. Adorava viajar, conhecer o mundo e aproveitar a vida. Isso havia a encantado em um primeiro momento, mas quando a ascensão profissional veio ele não lidou bem com a nova rotina. Ela estava atolada em trabalho, viajando sozinha quase todas as semanas e trabalhando mais de quinze horas por dia.
Ela não se surpreendeu quando voltou de uma curta temporada em Milão e encontrou uma severa lacuna em seu closet. A briga que tiveram antes dela viajar e as mensagens que enviara e nunca recebera resposta eram um forte indicativo de que eles não tinham mais futuro. Estranhamente ela se sentiu aliviada ao encontrar a papelada do divórcio na mesa de seu escritório na segunda-feira.
Com o pai das meninas a história fora um pouco mais dramática. Ele pensou que tudo mudaria quando ela desse à luz, que a maternidade mataria gradativamente sua ambição e que ela se anularia como mulher para ser mãe.
Ledo engano.
Claro, as filhas eram o mais importante de sua vida, mas o trabalho também era. Sem sua persona profissional, a mãe não existiria e vice-versa. E ela lidou muito bem em conciliar os dois.
As meninas cresceram pelos corredores da Runway, deram seus primeiros passos em sua sala e falaram suas primeiras palavras enquanto observavam a mãe ditar mil e uma demandas para as assistentes. Quando precisava viajar, Miranda sempre dava um jeito de levá-las junto e assim as brigas começaram.
— Você não as levará mais. É uma escolha sua viajar, elas precisam ter uma rotina.
A última coisa que Miranda queria era discutir mais uma vez. Ela estava farta das cobranças e só de imaginar ficar longe de suas meninas seu coração já doía angustiado.
— Elas só têm dois anos, John. Elas precisam da mãe.
— Mas é você que está preferindo aquela maldita revista ao invés de ficar com suas filhas. Se você se preocupasse tanto, ficaria em casa com sua família. Não agiria como se aquilo fosse mais importante que suas próprias filhas. — era nítido o desprezo em sua voz.
Miranda sentiu o impacto como um tapa. Por um segundo ficou em silencio, tentando processar tudo aquilo que vinha vivendo.
— Você sabe que não é isso. Não distorce as coisas desse jeito.
Um riso curto e sem humor deixou os lábios do homem e Miranda teve que respirar fundo para controlar sua raiva.
— Não? Então me explique. Porque para mim parece que você prefere qualquer coisa que te faça ficar longe de casa.
— Eu trabalho, John. Isso não é um crime.
— Claro que não é, mas negligenciar suas filhas e sua família sim.
Ela não podia acreditar no que estava ouvindo.
— Cuidado com o que você está dizendo.
— Estou dizendo a verdade. — enquanto dava passos para perto dele, a voz foi ficando baixa. — Você vive cansada, estressada, nunca está presente de verdade. Que tipo de mãe acha que está sendo?
Ele sabia qual era seu calcanhar de Aquiles e aquelas palavras a atingiram como um soco no estomago.
— Você não tem o direito de questionar isso. — a voz falha denunciou o cansaço. — Eu venho fazendo o meu melhor todos os dias.
— O seu melhor? — um riso sarcástico escapou dos lábios dele enquanto ele negava com a cabeça. — Fazer o seu melhor deveria estar aqui. Com elas. Não em reuniões ou sei lá o que você tanto tem feito por aí.
Por um momento, o silencio se fez presente enquanto Miranda tentava entender para onde aquela conversa estava os levando.
— Eu não vou abandonar minha carreira.
— Carreira... — ele murmurou com desprezo. — Você fala como se isso fosse maior que a sua família.
— Não é, mas é parte de quem eu sou.
— Não, é o que está nos destruindo.
O silencio caiu pesado mais uma vez e Miranda sentiu o coração acelerado. Raiva e frustração se digladiando em seu âmago.
— Engraçado. — ela disse, depois de alguns segundos. — Você nunca precisa abrir mão de nada.
— Eu faço o melhor pela minha família. Não preciso renunciar nada porque estou verdadeiramente fazendo o meu melhor.
A editora sentiu exatamente aonde ele queria chegar.
— Então é isso? — a pergunta veio baixa. — Você quer que eu desista de tudo?
— Eu quero que você escolha o que realmente lhe importa.
Ela sustentou o olhar fixo ao dele, sentindo o peso de toda intenção por trás de cada palavra.
— E se o que importar para mim não for somente uma coisa?
Um riso de escárnio saiu contra o copo de uísque que ele levava aos lábios.
— Então você talvez nunca tenha entendido o que é ser mãe de verdade.
Aquilo foi um golpe certeiro. E ele sabia.
Miranda teve que respirar fundo para conter as lágrimas que teimavam em se acumular.
— Ou talvez você esteja tentando me convencer que eu só posso ser uma versão menor de mim mesma para caber no que você acha confortável.
O sorriso de escárnio dele desapareceu, deixando transparecer mais da raiva que ele estava sentindo.
— Eu estou tentando salvar essa família.
— Não. Você está tentando me apagar.
Essa fora a última conversa que eles tiveram antes do divórcio. Miranda sabia que não seria fácil, mas jamais conseguiria continuar casada com alguém que quisesse lhe podar.
O terceiro e o quarto marido seguiram pelo mesmo caminho dos anteriores. Se encantaram por sua determinação e se frustraram por não conseguir colocá-la em um cabresto.
Com Stuart ela pensou que seria diferente. Eles não eram um casal totalmente convencional, estavam juntos por comodidade e companheirismo. Ela pensou que talvez fosse isso que ela precisava nesta altura da vida. Alguém interessante com quem pudesse dividir a vida sem precisar dividir a cama. Uma companhia para que ela não se sentisse solitária na imensidão de sua casa vazia.
Eles conseguiam ter conversas profundas, se sentiam bem quando estavam juntos e gostavam de coisas parecidas. O que mais ela poderia querer aos setenta e seis anos?
Sua libido não era a mesma de quarenta anos atrás, ela gostava muito mais de disfrutar de sua cama vazia e contato físico nunca fora seu forte.
Tudo estava dentro dos conformes, até Irv resolver morrer.
A promoção que tanto havia almejado possivelmente não iria mais acontecer e, além disso, seu cargo que lhe custara tanto agora seria de uma mulher que não tinha senso nenhum de nada.
Ela estava colapsando internamente e ainda tinha que ouvir de Stuart que ela o tinha, como se ela tivesse que se sentir feliz com isso. Francamente.
Em contrapartida, tinha alguém que estava batalhando por seu lado profissional enquanto nem ela mesma tinha forças para isso.
Andrea.
A mesma que havia lhe abandonado vinte anos atrás temendo se tornar alguém como ela, agora estava incansavelmente tentando fazê-la reagir. Usando todas as armas que tinha para salvar o emprego de todos e tentando mostrar que sua lealdade seguia ali, inabalada, mesmo depois de tantos anos.
— Eu acho que preciso de um tempo. — a voz saiu baixa enquanto ela desfazia o top em seu pescoço.
— Claro, querida. Você precisa pensar com calma sobre como deixar a revista. — ele tentou parecer amoroso.
— Não. Você não entendeu. Preciso de um tempo sozinha. Preciso de um tempo para me lembrar de quem eu realmente sou. — ela suspirou e o olhou rezando para que ele entendesse o que ela queria dizer.
— Você quer um tempo do nosso casamento?
Ele não recebeu resposta. Claro que ela não responderia, não era de seu feitio responder perguntas que lhe pareciam idiotas. Ela já havia deixado nas entrelinhas que era isso que ela precisava e agora ele se sentia um idiota por ter feito de tudo para ir encontrá-la.
— Eu sinto muito. — foi o único que ele conseguiu dizer antes de sair do quarto.
A noite de Miranda foi insone, mas ela não conseguia deixar de pensar na sua nova editora de matérias especiais e na forma como ela estava desesperada tentando ajudá-la.
Quando o sol nasceu, ela se deu por vencida e resolveu procurar Andrea. Não foi muito difícil conseguir com que Nigel lhe dissesse em que quarto a morena estava.
— Temos muito trabalho a fazer. E com temos, quero dizer que você tem. — ela tentou ignorar o cabelo desgrenhado que estava a deixando totalmente adorável e a animação que surgiu no rosto da mais nova quando ela adentrou seu quarto sem ser convidada.
A próxima hora elas passaram tentando ajustar um plano que fosse funcionar. Miranda lhe passou todos os contatos de pessoas com poder aquisitivo suficiente para comprar a revista e que tinham capacidade de manter as coisas como deveriam ser.
Enquanto a editora-chefe passou o dia verificando se tudo ocorreria bem para o evento daquela noite, Andrea entrou em contato com todos que Miranda lhe listara. Na ultima ligação, quando ela estava a ponto de desistir, Sasha se convenceu de que seria um bom negócio comprar não só a Runway, mas a Elias-Clark.
Andrea correu o máximo que pode para encontrar Miranda.
— Eu preciso estar no palco em alguns minutos.
— Você tem a pessoa certa para isso... — a morena indicou levemente com a cabeça em direção de Nigel.
— Ele não tem interesse nisso... — Miranda sacudiu a cabeça levemente como se aquilo fosse absurdo. — Eu saberia se ele quisesse.
Ela olhou em direção ao amigo e mordeu o lábio inferior se dando conta de que seu julgamento estava errado. Foi inevitável não ir em direção a ele.
— Meu querido, num mundo onde todos esperneiam pelo que querem, eu não consegui me dar conta do que você também queria. Sempre tão leal.
Ela sempre reconheceria a lealdade de Nigel. Há mais de trinta anos ele estava a seu lado, sendo apoio pessoal e profissional. Ela certamente se arrependia do que havia feito com ele em Paris, mas como ele nunca havia falado sobre o assunto ela achou que a decepção em seu olhar era sobre a forma como ela havia feito e não sobre o que ela havia feito.
Os próximos minutos ficaram como um borrão em sua mente. Elas foram ao encontro de Sasha e ela afirmou que Miranda teria a liberdade de seguir comandando a revista da forma como sempre fizera, agora de forma mundial.
Ela estava grata por tudo ter se resolvido e ainda mais grata por Andrea.
— Você deveria escrever o livro. — a fala baixa quebrou o silencio e pegou a morena de surpresa. — É um bom dinheiro e se alguém for fazê-lo, eu gostaria que fosse você.
— Isso te destruiria, eu não seria capaz disso.
A fala a pegou de surpresa. Nenhum outro ser no mundo teria esse cuidado com ela.
— Você não deveria se preocupar tanto comigo.
— Não é como se eu pudesse controlar — o riso ironico surpreendeu a mais velha e ela fitou os olhos castanhos enquanto arqueava as sobrancelhas, como se pedisse uma explicação. — Quer dizer... — Andrea passou a mão pelos cabelos, tentando procurar as palavras certas. — Eu já tentei te odiar. Por muito tempo, na verdade. E foi muito mais fácil transformar tudo em raiva do que admitir o quanto tudo isso importava pra mim e o quão eu realmente me parecia com você.
Miranda permaneceu em silencio, absorvendo tudo que a mais nova dizia. Tentando lê-la como se fosse uma de suas matérias muito bem escritas.
— E funcionou? — os olhos se voltaram para a janela do carro e a voz soou curiosamente mais calma que o habitual.
— Não. — os lábios foram pressionados um contra o outro enquanto ela suspirou em rendimento. — Porque, no fim das contas, você nunca foi somente a chefe tirana que eu precisava sobreviver. Você me enxergou quando nem eu mesma consegui. Você foi a pessoa que mais me desafiou. A que mais me fez crescer, mesmo quando eu não queria.
O silencio que pairou entre elas não era desconfortável. Era o necessário para que elas digerissem o quão verdadeiras estavam sendo uma com a outra.
— O crescimento costuma ser desconfortável.
— Eu sei. — Andrea assentiu. — Só não pensei que doeria tanto deixar tudo para trás.
A fala fez Miranda voltar a olhá-la.
— O que mudou agora?
A morena deu de ombros, mas não desviou o olhar.
— Eu mudei. — suspirou novamente. — E talvez tenha entendido que os sentimentos não desaparecem só porque a gente decide ir embora.
E nesta confissão, Miranda se sentiu atordoada.
Ela não era do tipo que tinha conversas longas sobre sentimentos e principalmente sobre o passado. Mas ali estava ela. Totalmente desarmada ouvindo o desabafo de Andrea e querendo verdadeiramente estar naquele momento.
— A pior parte não foi ir embora. — Andrea voltou a falar, temendo que a mais velha cortasse sua confissão. Estranhamente ela estava se sentindo melhor em colocar para fora tudo que sentiu em todos esses anos. — Nem te odiar. O pior foi comparar todo mundo com você.
Ali estava a verdade nua e crua.
— Todos os trabalhos, as pessoas e os lugares. Nada nem ninguém me fez sentir um terço do que senti por você.
O silencio veio novamente e Miranda suspirou. Ela nunca fora boa em abrir seus sentimentos.
— Eu passei anos tentando entender o que te fez fugir. Sei que não sou a melhor das pessoas, mas não pensei que te comparar comigo pudesse ser algo tão abominável. Tentei te apagar da minha memória todos os dias, tentei esquecer qualquer coisa que tivesse relação a você... Porque no fim das contas você sempre me afetou demais.
Andrea sentiu o peito apertar de forma quase dolorosa.
— Eu não entendia o que eu estava sentindo. E tinha certeza de que independente do que aquilo significasse, nunca seria recíproco. Desculpe por ter feito você pensar que eu fui embora porque você era abominável.
— Eu permiti que você me visse destruída. Confessei coisas que jamais se quer pensei em dizer para outra pessoa. Você verdadeiramente pensou que eu jamais sentiria algo por você?
Andrea encolheu os ombros, quase acuada.
— Eu era somente uma assistente enquanto você era A Miranda Priestly. Não me culpe por pensar que você daria risada da minha cara se eu confessasse estar apaixonada por você.
— Então você esteve apaixonada por mim? — Miranda mordeu o lábio, contendo um sorriso.
— Meu bem, eu estou apaixonada por você. Há vinte anos. Acho que nunca passei um dia sem te amar, mesmo que de longe.
Andrea aproximou sua mão da de Miranda lentamente, dando a chance de ela parar o contato caso desejasse.
Mas ela não recuou.
Os dedos se entrelaçaram com facilidade, como se fossem destinados a fazer isso desde sempre. O contato era confortável e parecia certo.
— Talvez eu também tenha sentimentos por você, Andrea.
