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Dante não saberia dizer quando começou.
Foi algo gradual, lentamente iam se aproximando.
Quando Arthur segurou suas mãos e disse que gostava muito de Dante, que cruzava a linha do platônico. Dante acreditou.
E quando seus lábios se tocaram pela primeira vez, foi como transcender. Porém, ao invés de ir se esquecendo da verdade do outro lado e lembrar apenas do símbolo. Dante se focou apenas em Arthur nesse momento, o gosto de cigarro que ele tinha, o jeito que segurava o rosto dele. Era intoxicante. E Dante se deitou com um homem pela primeira vez, e fez isso de novo, e de novo.
Era um segredo, mas honestamente, não escondiam bem. Chegavam na base com o colarinho das camisas bagunçados e lábios vermelhos. Ninguém questionava nada, apenas aceitavam como se já suspeitassem de algo. Claro, Samuel dava risinhos às vezes quando eles passavam por ele, Agatha também, mas não importava, sabia que não faziam por mal.
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Dante era como um livro em branco em quesitos sexuais, mas a cada dia Arthur percebia uma particularidade vinda do ocultista. Um puxão de cabelo, uma mordida. Coisas básicas às quais ele já estava acostumado, mas era um mundo inexplorado por Dante. Dante ia se entregando de corpo e alma para Arthur, mostrando o mais cru de seu ser, e Arthur aceitava tudo, guiava ele com toques gentis e calor. Era tudo que Dante precisava.
O ocultista decorava cada contato contra pele morena, cada som, memorizava cada curva a fim de dar todo seu prazer a ele. Sentia que tornava aquele corpo seu.
Arthur espelhava o mesmo, Dante era sensível, aprendeu isso bem rápido. Quando esmagava a cabeça de um zumbi de sangue ou atirava em um ocultista ele era frio, cruel. Mas na privacidade, Arthur sentia que ele iria desmoronar com o mísero toque em sua pele.
Navegavam juntos a carne um do outro. Mantinham em sigilo. Experimentavam e se fartavam no sabor do outro.
Mas como Dante aprendeu, nada na vida é permanente, arrancam tudo de você deixando apenas a memória de uma flor e um “e se” que assombra seus pensamentos. Outra vez, o fim vem em forma de uma jaqueta sendo passada adiante, um desaparecimento e um fardo jogado em outro.
Foi tudo muito repentino para todos da Ordem. Arthur se viu com a responsabilidade de ser um Veríssimo, substituindo o líder astuto e fortemente respeitado por todos da organização, e fora dela, visto que outras organizações do outro lado do mundo conheciam o homem.
Não ajudou que tinham inúmeros agentes novos. Os dois irmãos da ilha, que ficavam colados um ao outro na base, o trio da antiga transmissora de TV, que se recusavam a fazerem missões separados. Mais agentes significam mais treinamento, investimento e missões. Mais missões eram mais papeladas e relatórios para analisar. Mais tempo que Arthur passava trancafiado na sala da base da Ordo Realitas.
Mais noites em que Dante não dormia, sem ele esquentando o outro lado da cama.
Ele sabia que não era apenas ele. Ivete andava tensa, triste, passava mais tempo no bar do que na base escondida embaixo dele, para não encarar a porta fechada da sala do Veríssimo.
Agatha parecia mais solitária sem a presença calorosa de Arthur na sala de ritual, que sempre aparecia por lá, a ferida incurável apenas piorava seu humor. Os meninos do condomínio azul apenas espiavam Dante quando ele passava, um pedido de ajuda silencioso, implorando algum conselho do que fazer. Mas talvez fosse impressão dele.
A verdade é que tinham se acostumado com o Arthur nunca desistindo, que sempre priorizava o trabalho em equipe e dava ênfase em como todos estão juntos nessa luta. Talvez que o cargo de Veríssimo fosse pesado demais para o espírito altruísta de Arthur.
Mas Veríssimo confiou nele como nunca confiou em ninguém. Arthur tinha o dever de honrar ele.
Mas ele precisava mesmo recusar a ajuda de Dante? Mesmo se fosse uma tarefa simples, como organizar documentos?
Era o que mais doía em Dante, essa isolação sem motivo. Mataria e morreria por Arthur, e sabe que ele faria o mesmo. Passaram pelo inferno inúmeras vezes e se reergueram, na maneira que conseguiram. Dante não entendia.
Todos esses sentimentos iriam explodir em alguém, em algum momento.
Dante sentia saudade, saudade dos beijos, das carícias, dos abraços demorados que Arthur adorava dar a ele. Dos afegos, da maneira que Arthur encarava ele e Dante se perdia no olhar bicolor dele. De traçar o dedo pelas incontáveis cicatrizes na pele do outro. Das borboletas no estômago que Dante sentia quando Arthur fazia isso.
Sentia saudade de Arthur.
Já passava das 2 da manhã, Arthur ainda estava na sala, com a porta fechada.
A saudade se tornava insuportável, queria segurar na mão de Arthur e por pelo menos um segundo, viver na ignorância de que todos não precisassem de sua liderança, que a Ordem não existia e que o mundo de Dante começava e acabava em Arthur, de que o mundo não era um lugar que abrigava criaturas repugnantes e rituais desumanos.
A Ordo estava vazia, antes disso tudo, Arthur tinha o costume de dar carona para Agatha, que também era teimosa e queria ficar lá a madrugada toda. Mas agora quem fazia isso eram os meninos do condomínio. Ficou feliz que Agatha criou laços com eles, e por um leve momento sorriu, vendo que a garota não estava na base nessa noite.
Apenas ele e Arthur.
Bateu na porta, três batidas, um intervalo entre a segunda e a terceira para Arthur saber quem era. Um sinal entre os dois.
— Pode entrar.
Fechou a porta atrás de si. O escritório não tinha mudado desde o último líder. O quadro do coliseu ainda enfeitava o local e ainda era uma sala impotente. Até o agente mais descontraído sabia que aqui, nessas quatro paredes, não era hora de piadinhas.
Mas Dante estava focado apenas no agente à sua frente.
Seu rosto agora estava decorado por olheiras, seu cabelo bagunçado e repartido mais para o lado, com uma quantidade levemente maior de mechas brancas, fazendo um contraste com o castanho escuro. Usava um terno parecido com o de Dante.
Encontrou ele esfregando as têmporas com a mão tatuada. Incontáveis papéis jogados em pilhas em cima da mesa.
Percebeu que estava encarando ele, desviou o olhar e andou para frente. Não deixou de notar que Arthur apenas desviou o olhar quando Dante desviou o dele.
– Você está cansado. – Não era uma pergunta, qualquer um que visse ele saberia responder. Ele estava acabado, mas Dante ainda achava sua beleza deslumbrante, mesmo estando mal cuidado.
Grunhiu uma resposta e pousou o papel que lia na mesa, levando a mão para a xícara. Um cheiro amargo de café no ar.
Dante suspirou e se sentou frente a frente com ele, pegou algumas folhas soltas e começou a empilhar. — Vai dormir aqui de novo? –— Um tom de frustração claro em sua voz, Arthur não olhou para ele.
— Acho que sim. — Respondeu fraco, tímido.
— A Ivete anda preocupada com você. — Em contraste, Dante respondeu com autoridade, tentava encurralar o homem, para não ter nenhuma escolha se não a de ir para casa essa noite.
— Tenho certeza que dormir aqui não é confortável.
Arthur apenas o encarou, ciente da mensagem que ele queria passar. Confortável seria dormir do meu lado. Sabia que era verdade, ansiava pelo toque do loiro. Mas isso era maior que os dois, maior que todos seus agentes. Era cansativo.
Ele nem de fato dormia quando passava a noite na base. Apenas desmaiava de cansaço e acordava inúmeras vezes durante a madrugada, nem o excesso de cafeína em seu corpo ajudava mais.
Mas quando conseguia fechar os olhos, sonhava com Dante.
— Você sabe que eu não posso, Dante. — Ele sorriu forçadamente, algo que deixou Dante um pouco desconfortável.
— Não pode, ou você acha que não pode? — Disse ríspido. Mas seu olhar era de pura preocupação. — Você não dorme em casa a dias, Arthur. Por favor.
Dante assistiu enquanto o outro desviou o olhar e abaixou a cabeça. Dante deu um passo à frente, contornando a mesa e ficando ao lado dele.
Uma mão tímida encostou no ombro de Arthur.
Arthur, em resposta, quase matou Dante de susto quando o puxou para um abraço. Ele praticamente tombou sobre Arthur na cadeira, sentando em seu colo de uma maneira incômoda.
Mas Dante não se importou com isso, envolveu os braços em torno de seu amado e o segurou firmemente. Conseguia ouvir ele chorando baixinho, com o rosto escondido no pescoço de Dante.
Ambos tentaram se conter com o toque físico tão repentino, não faziam isso a semanas. Era sufocante.
Dante se lembrou de quando achou um passarinho ferido no pátio do orfanato, uma obra de Henri que Dante sempre achou repulsiva. Segurou o pobre animal o mais delicadamente possível.
Abraçar Arthur era bem parecido.
Dante sabia que palavras de conforto agora iriam soar vazias, precisava mostrar sua preocupação com ações.
Arthur foi quem quebrou o silêncio.
— Desculpa. — Apertou Dante um pouco mais, — Eu não queria ter que fazer isso. Não é justo, nada disso é.
Nenhum deles queria isso, mas sentia que essa angústia era muito pessoal para ele verdadeiramente compreender. Então, apenas fez o papel de ouvinte nessa situação.
— Olha pra mim. — Com alguma relutância, Arthur encarou os olhos azuis e Dante encarou seus olhos vermelhos pelo choro. — Você não precisa carregar esse peso sozinho. Divide ele comigo. — Distribuiu um beijo em sua têmpora e sentiu Arthur estremecer por debaixo de seu toque.
Permaneceram assim por alguns minutos, Dante se acomodou melhor no colo dele, tão próximo que conseguia sentir a batida frenética do coração dele, sua respiração arfada que ia aos poucos se estabilizando. Ficaram juntinhos até Arthur parar de chorar.
Arthur levantou a cabeça e observou Dante, não tinha notado que já estavam tão próximos, sentia o ar quente que saia da boca dele e seu nariz encostava no de Dante. Semanas de saudade se acumulavam, se derreteu com o abraço que Dante dava nele, Dante havia se tornado a âncora que prendia Arthur na realidade. E Dante sentia o mesmo.
O toque foi feito quase que sincronizado, haviam feito isso inúmeras vezes, Arthur tinha gosto de cigarro e café. Foi suave, tímido. Dante mal conseguia se segurar, não queria se separar dele. Sentiu os caninos de Arthur roçando contra sua língua e isso o enlouqueceu. Intensificou o beijo, arrancando um suspiro surpreso de Arthur. Nem percebeu que gemia contra a boca do outro.
Mãos passeavam no cabelo de Arthur e uma mão firme segurava a nuca de Dante.
Se separaram, Dante teve que se controlar para não abocanhar Arthur novamente.
Arthur sorria de orelha a orelha. — Me convenceu… Eu durmo em casa hoje. — Disse num sussurro quase inaudível.
Dante copiou o gesto dele e deu um riso tímido, continuava a acariciar os cabelos dele. — Não só hoje, todos os dias. Sinto saudades. — Cochichou melosamente, dando um pequeno selinho nos lábios dele.
— Eu também sinto. Desculpa por ser tão complicado. — Pousa a cabeça no ombro de Dante, — Queria que fosse diferente, tudo isso, a Ordem, tanta tragédia, as lutas que só causam mais perdas… — Deixou as palavras morrerem. Não precisavam relembrar tudo de cada catástrofe.
Dante às vezes sentia que compartilhavam metade de um só coração. Tanta morte e desgraça acabaram unindo os dois, talvez a única coisa boa que venho disso tudo seja Arthur. O Paranormal é uma maldição na vida dele, mas Arthur veio como uma benção.
Ele é a melhor coisa que o paranormal trouxe para Dante.
Levantou do colo dele.
Encarou seu rosto cansado e estendeu sua mão.
— Vamos pra casa.
Deixaram uma pilha de documentos jogados pela mesa, uma xícara com um café morno para trás.
E se esqueceram de apagar as luzes.
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Arthur se remexia na cama, a sensação do colchão macio e do lençol sobre ele fizeram seus músculos relaxaram instantaneamente. Mas a melhor parte era Dante deitado atrás dele, as mãos acariciando o peito dele.
Sentia as semanas de cansaço acumulado tomando conta dele, nem mantinha os olhos abertos nesse momento de aconchego, sabia que Dante estava acordado ainda, talvez se certificando que Arthur realmente iria dormir.
Arthur tateou os braços decorados de tatuagens que o abraçavam por trás,
— Eu te amo. — Sentiu a respiração de Dante parar por alguns segundos, ele se aconchegou no cangote de Arthur, seu corpo estava quente.
— Eu também te amo. — Depositou um beijinho em seu pescoço. — Boa noite, Arthur.
— Boa noite, Dante.
