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Language:
Português brasileiro
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Published:
2026-05-17
Words:
2,105
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1/1
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2
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423
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6,798

You put your arms around me and I'm home

Summary:

Na primeira noite oficialmente casadas, Lorena não consegue dormir, absorta demais na própria cabeça.

(ou um pequeno character study da Lorena, refletindo sobre à notícia da ordem de prisão contra o Ferette)

Work Text:

Lorena observava Eduarda. Observava as costas nuas cobertas apenas pela metade pelos lençóis brancos da cama subindo e descendo embalando seu sonho. Observava o cabelo ruivo brilhoso por toda a parte. Observava a testa brilhante de suor depois de horas de atividades intensas. Observava os lábios entreabertos, as pálpebras fechadas e o nariz-

Não conseguiu resistir e deslizou o dedo indicador por toda a curvatura do nariz mais bonito que já tinha visto na vida. Contudo, Eduarda não se mexeu, continuava dormindo profundamente completamente alheia a insônia de sua esposa.

Esposa.

Lorena ainda teria que se acostumar. Tudo bem que desde que passaram a morar juntas Duda às vezes usava o termo, mas era diferente agora, tinha se tornado oficialmente Lorena Fragoso, esposa de Eduarda Fragoso, naquela tarde e ainda parecia um sonho.

A adrenalina do dia intenso, que começou com vestidos sendo roubados, um casamento lotado de amigos e familiares querendo um pouco de atenção das noivas, a notícia de que havia um mandado de prisão contra seu pai, depois descer a serra até Angra e terminou com elas adorando o corpo uma da outra, ainda não havia dissipada e Lorena não conseguia dormir.

Já a Duda......

Decidiu sair da cama, vestiu um roupão verde com uma frase escrita em roxo nas costas e desceu as escadas em direção a cozinha e aproveitou para reparar na decoração da casa de praia dos Fragoso. A verdade é que quando chegaram, Lorena estava mais ocupada em desfazer o corset complicado do vestido de noiva de Eduarda para reparar em qualquer coisa.

Começou a esquentar a água para fazer um chá e flashes de pensamento cruzavam a sua mente.

Eu estou casada.

Meu pai tentou sabotar meu casamento.

Sou oficialmente Lorena Fragoso.

Santiago Ferette finalmente vai pagar por todo o mal que ele causou.

Eduarda é a minha esposa.

Meu pai vai para a cadeia por assassinato.

Estando tão absorta em seus pensamentos que não notou a presença de ninguém até os braços fortes de sua esposa a envolverem por trás enquanto dava um beijo em seu pescoço.

— Fiz muito barulho, meu amor?

— Não, gatinha. Só não consigo dormir mais sem você do meu lado. — Brincou Eduarda. Lorena girou nos braços dela e ficou frente a frente aos olhinhos de Bambi que ama tanto.

— Que bom que agora você nunca mais vai precisar ficar sem mim. Minha mãe não aceita devolução.

— A minha que não iria aceitar, acho que Dona Violeta ama você mais do que eu.

Elas deram um selinho, mas Eduarda, com seu faro de policial, analisava sua esposa.

— Por que a gatinha perdeu o sono?

Lorena respirou fundo. Quando os olhos verdes se abriram novamente, Eduarda notou as lágrimas se formando.

— Ai duda, eu sei que hoje deveria ser o dia mais feliz das nossas vidas, mas- — Um nó se formou na sua garganta e as lágrimas começaram a cair, Eduarda imediatamente a puxou e elas ficaram abraçados, até a chaleira apitar. Duda então a soltou, limpou um pouco das lágrimas que escorriam pelo rosto da mais nova e deixou um beijo breve em seus lábios.

— Senta na sala, meu amor. Vou trazer seu chá.

Lorena foi em direção a sala enquanto Eduarda terminava de preparar o chá.

Quando chegou na sala, segurando as duas canecas, sentiu seu coração doer. Lorena, na maior parte do tempo, era a mulher mais forte que já conheceu, uma coragem e determinação que poucas vezes Juquinha tinha visto na vida, mas ali no sofá da sala da casa de praia que Eduarda cresceu correndo, nunca tinha achado Lorena tão frágil.

A diferença de idade entre as duas, que não era muito grande, mas que existia, se tornou notável.

— Aqui, meu amor. — Lorena pegou a xícara e deu um longo gole, sentindo a temperatura da bebida acalmando seu corpo que insistia estar em estado de alerta. Eduarda se sentou ao seu lado passando um dos braços pela sua cintura enquanto Lorena se aconchegava em seu torso. — Quer me contar o que está nessa sua cabeça linda e no seu coração mais lindo ainda, Lorena Fragoso?

Lorena levanta os olhos dando um sorriso fraco para a gracinha da esposa, as covinhas lindas, que Eduarda se encantou desde a primeira vez que viu, apareceram de forma breve.

— Eu não consigo parar de pensar no meu pai, Duda. Eu sei que não deveria, que ele é um ser humano horrível, um monstro assassino, homofóbico e machista. Eu sei que ele tentou sabotar nosso casamento. Eu sei de tudo isso, mas eu não consigo não pensar nele. Eu queria dizer que estou aliviada que ele vai ser preso, ficar longe da gente, da nossa família e dos nossos amigos, mas eu não consigo não pensar que eu só queria que fosse diferente.

Eduarda escutava o desabafo da mulher de sua vida enquanto fazia carinho nos seus braços. A verdade é que não tinha ninguém no mundo que odiava mais Santiago Ferette do que ela, ela achava que inclusive a morte seria boa demais para esse homem depois de tudo que ele fez, mas ali não era o momento de sua vaidade e seu orgulho.

— Eu o odeio, Duda. Eu odeio que ele nunca te deu uma chance, você seria a nora que ele sempre quis sabia. Eu sei que é fútil pensar isso, mas você tem todos os atributos que ele queria em uma nora: linda, educada, culta, de família influente e montada no dinheiro. Só que ele esquece tudo isso só por sermos duas mulheres. Ele nunca conseguiu aceitar o que eu sempre fui.

As lagrimas no rosto de Lorena insistiam em cair e o chá foi completamente esquecido nas mãos da morena. Lorena nesse ponto já estava frente a frente com a esposa que só conseguia segurar suas mãos em uma tentativa de a consolar, mas permitindo que a esposa soltasse tudo que estava no seu coração.

— E o pior de tudo, é que eu pensava que, no fundo, ele ia poder mudar, que um dia ele ia reconhecer que você me faz muito feliz e que isso seria o suficiente, sabe? Que ele ia se ver isolado da nossa família e reconhecer que o preconceito não podia ser maior do que a solidão dele. Eu só não conseguia imaginar que ele seria muito pior do que eu sequer imaginava. Eu sempre desconfiei do meu pai, Duda, mas eu não achava que ele podia ser tão horrível. Eu imaginava no máximo que existia algum esquema de lavagem de dinheiro, mas assassinato, Duda? Ele estava matando pessoas para lucrar. Toda minha vida foi construída pelo sofrimento de pessoas carentes e eu nunca fiz nada-

— Meu amor, não. Você não pode se culpar. Como você poderia imaginar o que seu pai fazia?

— Mas eu sempre desconfiei, Eduarda. Eu tinha que ter ido atrás, tantas vidas poderiam ter sido salvas se eu tivesse transformado essa minha suspeita em algo. Eu só me sinto covarde.

— Lorena, olha para mim. — A morena que evitava os olhos da esposa, por um misto de culpa e vergonha. — Você é a pessoa mais corajosa que eu conheço. Você nunca abaixou a cabeça pro seu pai, sempre levantou seus desconfortos e enfrentou ele de cabeça erguida. Não se culpe por algo que estava fora do seu controle. Você fez o que pode, você falou com sua mãe inúmeras vezes e ela mesma te afirmava que estava tudo bem. Você questionou seu irmão, que trabalhava lá e teria acesso a tudo o que seu pai fazia e ele manipulou você falando que não tinha nada errado. Meu amor, eu acho que você está sendo muito dura com você mesma. Os atos do seu pai não podem ser sua cruz para sempre. Ele vai pagar pelos crimes dele, você pode ter certeza que eu farei de tudo para isso acontecer. Já você, gatinha, já fez tudo que podia e continua fazendo, eu vejo o seu empenho em ir para a fundação, mesmo sabendo que tem turno no bar depois.

— Eu nunca quis fazer parte dos negócios do meu pai, mas sabendo agora o que ele fazia, eu sinto que eu preciso estar lá. Preciso estar ali participando ativamente da mudança dela para que ninguém mais tenha que sofrer.

— Eu te amo tanto, sabia. — Com essas palavras, Eduarda simplesmente desarmou Lorena, que simplesmente se jogou nos braços da esposa, enquanto sentia os carinhos da mais velha que ainda não tinha terminado de se declarar. — E eu tenho muito orgulho de você, todos os dias e para sempre. Que sorte a minha poder chamar de esposa a mulher mais determinada, íntegra e valente que eu já conheci. Isso tudo sem perder a sua bondade, empatia e sensibilidade.

— Eu te amo mais. — Disse Lorena tão afundada no pescoço de Duda que mal dava para ela ouvir. Eduarda a puxou para um selinho longo, sem qualquer intenção de se aprofundar. Quando as duas separaram os lábios continuaram com as testas grudadas.

— Só preciso que você saiba uma coisa. — Lorena, então, abriu os olhos e encarou Juquinha. — Que você não precisa fazer nada por ninguém, nem por mim, nem pela sua mãe, nem pelo seu irmão, muito menos pelo Ferette. Você merece fazer as coisas por você mesma. Seu dever é com a sua felicidade.

— E com a sua né, Duda. — Disse Lorena com aquela voz rouca que Eduarda era apaixonada. — Desculpa ficar aqui choramingando pelo meu pai na nossa lua de mel.

— Meu amor, a sua felicidade é a sua felicidade e você não precisa pedir desculpas por nada. Na alegria e na tristeza, não é?

— Até que a morte nos separe. — Elas se beijaram novamente e decidiram deitar no sofá, apenas apreciando a presença uma da outra.

Eduarda ficava fazendo carinho torcendo para isso ser suficiente para fazer com que a esposa pegasse no sono, mas a mente de Lorena ainda insistia em trabalhar.

— Eu tenho repulsa de tudo que é relacionado a ele, talvez seja por isso que ainda não tenha largado o trabalho no bar e assumido um posto na fundação em tempo integral. Sinto nojo de ter o sangue dele correndo nas minhas veias.

— Pensa pelo lado positivo, gatinha. Graças a isso, você ganhou duas cunhadas maravilhosas e uma sobrinha que é uma gracinha, literalmente.

Lorena se animou ao pensar na sobrinha. A verdade é que embora Raul não fosse um sonho de irmão (tampouco Leonardo era, convenhamos), Joelly era uma menina adorável e a Ana Maria das Graças já virou uma das melhores coisas da sua vida. Passou a festa inteira de casamento, quando não estava com Eduarda, paparicando a sobrinha. Sentia-se muito feliz em poder ser a tia babona que sempre quis ser.

— Eu amo muito a Aninha. Será que a Joelly deixa a gente ficar tomando conta dela lá em casa?

— Você pode ver isso com a Gerluce, né? Eu não duvido que ela deixe, a Joelly tendo que estudar pro vestibular e o Raul trabalhando, deve ser difícil tomar conta de um neném, eles com certeza vão querer um descanso. A gente pode dizer que é para pegar prática.

— Eduarda Fragoso, mal colocou uma aliança no meu dedo e já quer colocar um filho em mim?

— Lorena Fragoso, eu quero tudo com você, mas tudo tem seu tempo. Por enquanto seremos as tias sapatonas maneiras, mas daqui a alguns anos, quem sabe?

— Eu nunca tive o sonho de ser mãe, sabia? Mas desde que você entrou na minha vida, eu só consigo pensar que tudo com você ao meu lado parece mais fácil. Eu sempre achei a ideia de um casamento meio cafona, mas desde que eu te conheci, eu passei a querer tudo, desde que seja com você. Eu vou amar carregar uma mini Duda na minha barriga por 9 meses.

— E eu vou amar fazer todas as suas vontades e te transformar na grávida mais mimada desse planeta. Vou amar ouvir você ler as poesias que você vai escrever para o nosso bebê e vou amar ser a bad cop da sua good cop.

Lorena riu e deitou novamente no peito de sua esposa.

— Quem vê, até pensa. Infelizmente, meu amor, você é muito coração mole para ser a mais dura de nós duas e você sabe. A gente vai te fazer de gato e sapato.

Eduarda riu, não tendo muito como discordar. Continuou fazendo carinho em Lorena e começou a sentir a respiração dela ficar mais pesada.

— Dorme, meu amor. A gente tem a nossa vida inteira pela frente para decidir qualquer coisa.

E Lorena dormiu, pensando que o mundo pode ser assustador, mas todos os problemas pareciam menores nos braços da mulher que amava.