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Como proteger o seu protetor

Summary:

Conforme cresceram, Kalim começou a perceber a naturalidade de Jamil em se afastar, ser indiferente e, principalmente, nunca parecer uma criança. Aquilo o irritava às vezes; queria sentir que seu amigo precisava dele tanto quanto ele mesmo.

Ou, Kalim conhece Jamil como ninguém mais, e isso é uma bênção para seu humor.

Notes:

Então, essa aqui eu escrevi ainda sem saber muito sobre o universo de Twisted. Eu apostei nessa trilogia para extravasar um pouco, mas não acredito totalmente nessa vertente. Principalmente depois de passar meses refletindo e compreendendo as nuances da relação desses dois complicados. Ainda assim, como eu me diverti escrevendo, vale um holofote, neh?

Boa leitura!

Chapter 1: Chuva

Chapter Text

Quando Kalim tinha uns 7 anos, descobriu que seu amiguinho Jamil tinha medo da chuva. Não de qualquer chuvisco, mas de grandes tempestades com trovões e ventanias. 

Começou com uma pequena análise, afinal Kalim estava sempre observando aquela criança de perto. Via como Jamil mantinha a face serena com tudo, mas sempre que o tempo seco fechava, podia notar os ombros do mais alto tensos o dia inteiro. 

Depois, foi percebendo que o barulho dos trovões fazia Jamil dar sobressaltos fofinhos. Por mais imprevisíveis que fossem, apenas o clarão que antecipava fazia Jamil fechar os olhos. 

Kalim pensava que Jamil tinha medo de chuva ou de água, mas logo mudou de ideia, percebendo serem as grandes tempestades que faziam o outro mais desconfiado.

Felizmente para Jamil, chuvas não aconteciam durante o ano todo nas Areias Escaldantes. Mas isso era triste para Kalim, que, apesar de não querer seu amigo assustado, realmente pensava que as tempestades também o faziam ficar… manso. 

Uma vez, enquanto brincavam (leia-se Kalim brincando com Jamil o assistindo) na estufa do jardim, uma tempestade pegou ambas as crianças desprevenidas. Não estavam longe da casa principal, mas atravessar um caminho de lama e arriscar ficarem doentes não era uma opção para Jamil.

Então, sentaram-se de frente às grandes paredes de vidro, simplesmente esperando a chuva passar. Kalim estava fixado nas nuvens escuras e legais, mas desviou seu foco totalmente quando sentiu Jamil sentar praticamente colado a ele. 

O servo abraçava suas pernas, mantendo a seriedade no rosto, porém mordendo o canto da boca com força. E era apenas o céu brilhar ou explodir num trovão para Kalim ver claramente Jamil desviar o rosto ou se arrepiar. 

Kalim ficou impressionado, numa mistura entre sentir ternura e achar engraçadinho. Por isso, aproveitou para deitar a cabeça sobre o ombro do outro, mantendo o sorriso confiante entre os lábios. Não era o tipo de contato que eles tinham com frequência. 

Bom, e o que Kalim faria com aquela informação agora? 

Um ano mais tarde, Kalim acordou no meio da noite, surpreendido pelo som de um trovão. Abriu os olhos devagar, estava virado para sua janela, que, mesmo fechada, mostrava a forte tempestade nas Areias Escaldantes. Esperou seu corpo despertar mais um pouco, antes de virar na direção de Jamil. 

O quarto estava semi-iluminado, ou seus olhos estavam acostumados com a escuridão. Isso porque conseguiu ver, ao lado de sua cama, Jamil sentado no colchão que praticamente já lhe pertencia. 

O menino estava naquela mesma pose que Kalim gravara, com as pernas sendo abraçadas e a cabeça baixa nos joelhos. O herdeiro se alertou mais do que demonstrava, erguendo-se da cama e se ajoelhando entre os cobertores no chão. 

Sentiu o mais alto ficar tenso com sua aproximação, porém não foi impedido, algo realmente incomum com o Jamil de 8 anos. 

Conforme cresceram, Kalim começou a perceber a naturalidade de Jamil em se afastar, ser indiferente e, principalmente, nunca parecer uma criança. Aquilo o irritava às vezes; queria sentir que seu amigo precisava dele tanto quanto ele mesmo. 

Dito isso, algumas noites em que compartilhavam o mesmo quarto, Kalim fechava os olhos com força e desejava do fundo de seu coração que chovesse. Se naquela noite seu pedido foi atendido ou se foi o ciclo da natureza, nunca saberemos. 

A questão é que Kalim se viu pela primeira vez com poder o bastante para consolar Jamil. E tomou sua função imediatamente. 

Com um sorrisinho adorável entre os lábios, passou a mão pelo braço de Jamil e colocou seu corpo no dele. O abraçou de joelhos, ficando levemente mais alto e deitando seus cabelos brancos por cima dos fios castanhos. 

 

— Tá tudo bem… — disse, apertando mais seus ombros. — Estou aqui.

 

Kalim viu o quarto se iluminar, anunciando um raio daqueles que parecem quebrar o céu. Jamil o segurou com força, escondendo o rosto até que o som fosse embora. A sensação de necessidade tomou Kalim com força, e ele agradeceu pelo clima tempestuoso.

No outro dia, quando a família de serviçais encontrou ambos deitados na mesma cama, Kalim foi rápido em falar que ficou com medo da chuva. Claro, todos acreditaram. 

Jamil nunca o corrigiu. Nem mesmo mais tarde, quando estavam juntos na faculdade de Night Raven e eventualmente Jamil cumpria com o pedido do menor para dormirem juntos em noites de tempestades. 

Os alunos faziam leves piadas sobre isso, jamais imaginando que era Jamil que se escondia no peito de Kalim, até que adormecesse com um carinho nos cabelos.