Actions

Work Header

Nas Ondas do Amor

Summary:

Numa Jeju calma dos anos 80, Park Chanyeol é um jovem pescador que apenas sonha com o dia que um amor pode surgir em sua vida que é tão ocupada com o trabalho e cuidar de sua avó. Numa das madrugadas frias em busca de peixes, ele encontra um rapaz magro, de vestes caras, com olhos apavorados e o corpo trêmulo que escondia muito mais do que Chanyeol sequer podia imaginar.

Chapter Text

Capítulo 1 - Park Chanyeol, coração da vila.

1980.

Chanyeol desperta, como sempre, antes do sol nascer, com o céu ainda tingido por um azul escuro que cobria o vilarejo na encosta da praia. Ele acende sua lanterna de querosene e vai até a parte de fora da casa preparar seus equipamentos de pesca pra mais um dia de luta. O vento era frio pela falta do sol, mas para Chanyeol, ocupado com os nós de suas redes de pesca, o corpo estava quente o suficiente para lhe fazer sentir um contraste de temperatura.

Assim que uma linha laranja começa a subir timidamente pelo céu da ilha, as narinas de Chanyeol conseguem sentir o doce aroma característico de todas as manhãs: sua avó provavelmente estava na frente fogão a lenha preparando um chá de erva-doce que seu neto sempre leva junto no barco, é raro quando ele lembra de beber, mas mantém consigo como se a avó estivesse sempre ao seu lado.

— Bom dia, querido. — A mão pequena e calejada acaricia os cachos rebeldes pelo vento de Chanyeol.

— Bom dia, halmeoni. Como dormiu essa noite? - Ele não ergue o olhar das redes, mas seu campo de visão vê a avó se sentando ao seu lado no degrau superior da entrada.

— Você sabe que eu só consigo dormir bem quando você está em casa, Chanyeol-ah. — Senhora Park suspira, olhando o sol nascer no horizonte lentamente. — Porque está indo pescar nas madrugadas agora?

— Corvinas devem ser pescadas pelas noites, halmeoni, você sabe. — Chanyeol deixa suas redes perto de seus outros equipamentos de pesca, levanta e segue em direção para dentro da pequena casa que vive desde seu nascimento. — Hoje vou fazer alguns ajustes no barco, levar baldes de água pro Senhor Lee e ver se mais alguém precisa de mim pela vila.

— Não vai me dizer que o Lee se machucou de novo? — A senhora pegou seu kit de tricô para fazer sentada perto do fogão a lenha, este que aquecia também a casa gelada pelo inverno do litoral. — Aquele velho está ficando caduco de vez.

— Halmeoni, ele é mais novo que você. — Chanyeol não resiste uma risada após ouvir o costumeiro jeito de sua avó falar sobre os outros. — E sim, ele se machucou de novo. Insistiu que conseguia salvar o gatinho da Hyerin da árvore e torceu o pé feio.

O Park pega sua caixa de ferramentas gasta, que consiste num martelo velho, uma marreta que ganhou de um dos tios da vila e alguns pregos quase enferrujados que ele nunca usa mas mantém “por precaução”. Ele coloca um casaco, par de botas que vestiria na rua e o chá preparado pela avó.

— Não me espere pro almoço, a dona Oh está me devendo uma sopa de algas. — E assim, Chanyeol saiu pelas ruas que conhecia como a palma de sua mão.
No mercadinho da esquina a filha da antiga dona colocava as caixas de frutas frescas do lado de fora, as crianças da família Lim desciam de mãos dadas pra escola e como sempre acenavam pro “tio Yeol”, a senhora Do sempre aparecia com uma tangerina fresquinha para Chanyeol, o casal de donos do café de esquina sempre estava discutindo por algo bobo. Aquilo era a vida de Chanyeol, cheia de pessoas, cheia de amor.

Mas as vezes não parecia suficiente.

No cais, Chanyeol se dirigiu ao seu pequeno barco, o puxou para a terra para que assim conseguisse consertar algumas tábuas frouxas que podiam ser perigosas. As famosas haenyeo estavam chegando para seu trabalho árduo no oceano.

— O tesouro da ilha está nos fazendo companhia hoje? Meninas, sinto que isso é sinal de sorte. — Uma das senhoras mais novas, a dona Choi, comenta ao passar por Chanyeol, que responde com seu sorriso educado. — Como vai sua avó, querido?

— Halmeoni está melhor que nunca, sempre focada no tricô, você sabe. — Ele olha pra cima, um dos olhos fechados por conta do sol que agora estava alto no céu.

— E você, querido? Já arranjou uma moça pra se casar? — A senhora mais baixinha e determinada pergunta, como sempre os mais velhos estavam muito investidos na vida amorosa dele, afinal, na época que estavam um rapaz com a idade de Chanyeol ainda não ter uma noiva era diferente.

— Não, tia, esse barco é minha noiva. — Ele brinca, continuando a martelar os pregos pra fortalecer seu companheiro de todos os dias.

— Não se esqueça de você mesmo, Yeollie, todos por aqui te amam, mas um romance pode salvar até um coração que parece estar cheio. — A última senhora da fila comenta, mesmo quando elas se afastaram aquelas palavras ficaram ecoando em sua mente.

A verdade é que Chanyeol nunca sentiu seu coração bater mais forte por alguma garota da vila. Na escola, via os meninos comentando sobre suas paixões, experiências amorosas, frio na barriga e isso nunca aconteceu com ele. Achou muitas garotas adoráveis, lindas em sua vida, mas não ao ponto de sentir toda aquela intensidade que os filmes e livros relatam com tantos detalhes.

Ele gostaria de se apaixonar, mas enquanto a pessoa certa não aparecia, ele se mantinha sendo o filho da ilha.

Assim que sentiu sua barriga roncar, o suor escorria feio cachoeira de seu corpo então significava que estava perto do horário de almoço. Amarrou seu barco, deixou os equipamentos dentro e se dirigiu caminhando até o restaurante da Senhora Oh. Chegou lá rápido, afinal suas longas pernas e porte atlético facilitam tudo, abriu a porta que fez o sino tocar anunciando sua chegada.

— Finalmente você chegou, achei que ia ficar comendo pregos de barco! — A senhora Oh, uma mulher na casa dos 50 que viu Chanyeol crescer, sai de trás do balcão para encher o Park de seus beijos molhados. — Se senta, vou pegar sua comida.

Chanyeol assentiu, sentou-se numa mesa perto da janela para ficar olhando o mar, mesmo vivendo com o oceano não se cansava de admirar aquele horizonte azul cheio de mistérios e vida. No balcão, o rádio do restaurante anunciava notícias de todo o país.

“O deputado Byun veio a público lamentar o desaparecimento de seu filho na noite de ontem. Ele diz que não tem forças para continuar procurando e que precisará se colocar numa pausa de suas atividades e viver esse luto.”

— Nossa, que coisa triste. — A voz da senhora Oh tira Chanyeol de seus devaneios, ele se levanta pra ajuda-lá com a bandeja com as porções de comida, o cheiro delicioso dos temperos usados invadindo o ambiente. — O menino desapareceu ontem a noite e já desistiram de procurar ele.

— Halmeoni sempre me diz que a gente não desiste de quem ama. — Chanyeol se senta novamente para poder começar a comer.

— Ainda mais de um filho, quem tem coragem de desistir do próprio filho? — A mulher se senta lado oposto ao de Chanyeol na mesa.

— O meu pai. — A fala veio natural, como ele sempre tratava o assunto pai. Com indiferença, distância. Nunca conheceu pois o homem fugiu quando sua mãe engravidou e desde então, nunca viu nem vestígios dele.

— Ah, querido, me desculpe. — A Senhora Oh percebe que talvez tenha falado demais e tenta se corrigir. — Eu não queria…

— Tudo bem, eu não sinto falta de algo que eu nunca tive. — Ele diz pra convencer ela e a si mesmo.

O almoço acabou, Chanyeol insistiu em ajudar a senhora a lavar as louças mesmo com ela insistindo que não precisava de ajuda. À tarde, ele se ocupou com as coisas rotineiras de quem é o faz-tudo do lugar que vive, mesmo tendo apenas seus 20 anos.

Levou os baldes de água pro Senhor Lee, ajudou a remendar as pipas das crianças, carregou sacolas de compras para ajudar sua vizinha grávida, serviu de cobaia experimentando um novo bolo de uma jovem que está fazendo curso de culinária. Fazia tudo com o maior sorriso no rosto, sempre disponível e com vontade de ser útil.

Mas no fim da tarde, ao chegar em casa pra descansar um pouco antes da pesca, a mente de Chanyeol pensa e o coração aperta.

Ele se sente sozinho, solitário. Ama viver com sua avó, mas sempre que vê os casais ao seu redor e suas dinâmicas ele não consegue deixar de sentir uma pontada de inveja. Quer ter alguém ao seu lado, que se importa, que o abrace, alguém que o ame sem pedir nada em troca.

— Para, Chanyeol, vai trabalhar. — Fala ele pra si mesmo ao adentrar o portão velho de sua casa.

Conseguiu tirar um cochilo rápido, porque algo dentro dele o dizia que ele tinha que estar no mar mais cedo hoje. Um aperto no peito, uma intuição? Ele não sabia, mas sempre ouviu que deveria sempre fazer o que o coração pede. Se arrumou com suas botas e roupas grossas, os equipamentos pendurados num braço e a lamparina na outra mão.

Porém, ele não imaginaria que voltaria pra casa sem peixe algum, mas sim com um rapaz desmaiado e gelado em seus braços que mudaria sua vida para todo o sempre.