Work Text:
Eduarda chegou em casa em torno das onze da noite, após outro dia caótico na delegacia onde trabalhava. Descalçou os coturnos no pequeno hall de entrada do apartamento e pendurou a bolsa no cabideiro. Bóris, o gato, se aproximou para cumprimentá-la, recebendo um carinho leve na cabeça em reposta.
“Oi, amor” Lorena disse da sala, onde estava lendo um livro. “Como foi hoje?”
“Meio caótico, como sempre, mas já tive dias piores” riu fraco, se aproximando e deixando um beijo no topo da cabeça da esposa. “E você? Escreveu muito?”
“Alguns poemas novos, mas nada demais” comentou, fechando o livro. “Tá com fome? Fiz strogonoff de grão de bico.”
“Hmm, que delícia” murmurou, já indo até a cozinha.
Enquanto Eduarda se servia e se ajeitava à mesa, Lorena foi para o quarto do casal, voltando com uma caixinha de madeira pequena.
“Tenho um presente pra você” a morena anunciou, colocando o objeto na mesa, perto da esposa.
A ruiva a encarou com uma expressão meio confusa. Ficou parada por alguns segundos.
“Que dia é hoje?” Eduarda perguntou, genuinamente. “Eu esqueci algum feriado? Aniversário?
“Duda.”
“Eu tô falando sério! Eu esqueci alguma coisa?”
“E desde quando precisa ser uma data importante pra te presentear?” Empurrou a caixa para mais perto dela. “Abre.”
Eduarda ainda estava meio desconfiada, mas aceitou o presente.
Abriu devagar, franzindo o cenho ao notar o que tinha dentro. Sua feição mudou entre dúvida, medo, choque e alegria no período de dois segundos, gargalhando alto enquanto mantinha as mãos congeladas sobre o par branco de sapatinhos de bebê, feitos de tricô. Além dele, havia um teste de gravidez positivo e um bilhete escrito “Oi mamãe! Tô chegando!”
“Lorena…” murmurou, ainda impactada. “É sério?”
A morena já estava praticamente chorando antes mesmo de conseguir responder. Estava imaginando essa cena desde o momento que fez o teste pela manhã quando Eduarda saiu para trabalhar.
“Sério” concordou, com um sorriso de orelha a orelha.
“Tipo, sério, sério mesmo?” perguntou, sem acreditar. “Isso não é uma pegadinha de mau gosto?”
“Eu jamais brincaria com isso, amor.”
Lorena respondeu com seriedade, ainda que estivesse emocionada demais, a sinceridade em seu tom era mais que evidente.
Ela e Eduarda já vinham tentando ter um bebê há algum tempo, iniciando o processo da inseminação artificial há alguns meses. Inicialmente, tinham planejado que seria a ruiva quem gestaria, mas em nenhuma das tentativas tinha conseguido engravidar de fato. Após algum tempo, o casal teve uma longa conversa sobre o assunto, entrando em concordância que deveriam mudar o plano, com Lorena sendo a cônjuge que engravidaria.
“Amor!” a ruiva disse num quase grito de felicidade. “A gente vai ser mãe?!”
“Sim” respondeu, sem conter mais as lágrimas.
“Meu Deus” levou a mão à boca, em choque. “Meu Deus!”
Eduarda saiu da cadeira, jogando os braços ao redor do pescoço da esposa num abraço meio desencaixado, mas cheio de afeto. Lorena riu, envolvendo a cintura da outra.
“A gente vai ser mãe, Lorena!” bradou em pura alegria, se afastando um pouco da mulher.
“A gente vai ser mãe, Duda” falou ainda entre risos, sensibilizada pela reação da outra.
“Meu Deus…” murmurou, ainda incrédula. “Eu sou a mulher mais sortuda desse universo inteiro!”
Eduarda se ajoelhou, envolvendo os braços na cintura da esposa e ficando com o rosto encostado em sua barriga.
“Meu Deus, obrigada a todos os astros por ter colocado essa mulher no meu caminho!”
“Duda…” chamou, sentindo as lágrimas começarem a cair de novo.
“Ei, você aí dentro” falou, a boca praticamente encostada na barriga da outra. “Você e a sua mamãe são a melhor coisa que já me aconteceu na vida!” Beijou ali, por cima da camiseta. “Eu sempre passei muito tempo me sentindo perdida, e eu demorei um pouco, mas achei. Esse aqui é meu lugar no mundo.”
“Ajoelhada no chão da cozinha?” Lorena brincou, passando as mãos pelos fios ruivos.
“Com você, com esse bebê, constituindo minha própria família…” murmurou, beijando a barriga outra vez. “E aconteça o que acontecer, eu vou mover montanhas, mares e mundos pra dar a vocês a melhor vida possível.”
Eduarda se levantou, secando as lágrimas da esposa.
“Eu te amo tanto, Lorena” declarou, beijando uma das bochechas. “Mais do que sei colocar em palavras” beijou a outra. “Te amo! Te amo! Te amo!” repetiu várias vezes, distribuindo vários beijos por seu rosto, dando um último mais calmo e terno nos lábios.
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“Amor, como você acha que eles vão reagir?” Lorena perguntou, nervosa, enquanto terminava de arrumar a mesa do almoço. “Será que minha mãe vai gostar da novidade?”
“É claro que vai, meu amor” Eduarda a confortou, mexendo uma última vez na panela.
“Você fala como se fosse simples” murmurou, alinhando os talheres pela terceira vez.
A ruiva riu, desligando o fogão e se aproximando da esposa, abraçando-a por trás com um cuidado meio exagerado que estava tomando há duas semanas. Apoiou o queixo em seu ombro.
“Porque é. Sua mãe te ama, ela vai ficar muito feliz! Não tem porquê se preocupar, meu amor.”
Lorena suspirou, baixando o olhar para a própria barriga.
“Eu sei, é só que… nossa vida inteira vai mudar, Duda.”
“Já mudou” murmurou, levando a mão esquerda ao ventre da esposa.
“Você tá feliz? Com isso tudo?” perguntou, como se precisasse que ela reafirmasse diversas vezes.
“Lorena…” chamou baixo, deslizando as mãos para sua cintura e a fazendo se virar de frente. “Só de estar com você todos os dias, eu já sou feliz. E agora, não tem nada que me deixe mais contente do que saber que você está gerando nosso bebê, mesmo com você vomitando três vezes por dia e mesmo sabendo que a gente nunca mais vai dormir direito por pelo menos uns dois anos…”
Os olhos verdes marejaram quase instantaneamente. A ruiva puxou a cabeça dela levemente, esfregando seus narizes.
“E eu sei que você tá meio assustada, eu também tô” continuou, movendo a mão para a barriga da esposa outra vez. “Mas medo não é necessariamente um impedimento para a felicidade. Lembra do nosso começo? A gente vivia com medo do que o seu pai poderia fazer para separar a gente, mas nunca deixamos de nos amar.”
“Não me faz chorar…” pediu baixinho, sentindo uma lágrima escorrer pela bochecha. “Você sabe que eu tô sensível.”
Eduarda passou o polegar por ali, secando a bochecha e depositando um beijo quase reverencial em seguida.
“Sabe, é até bom a gente mudar um pouco” a ruiva riu fraco. “Geralmente a chorona da relação sou eu.”
“Pior que eu vou ter que concordar” Lorena riu também. “Lembra da viagem para Campos? Você chorou porque a gente ia transar!”
“Em minha defesa” ergueu o indicador. “Era a sua primeira vez e você me disse coisas lindas demais.”
“Você também quase chorou quando oficializamos o namoro. E nos cinco pedidos informais de casamento, e no casamento, e na lua de mel…”
“Você tá começando a me envergonhar…”
“E você também chorou quando eu te contei sobre a gravidez.”
“Você também chorou!”
“Duda, aquele sapatinho é menor que a palma da minha mão, como que eu não ia chorar?”
As duas ficaram em silêncio por um momento. A ruiva encarou a esposa com um sorriso no rosto e um brilho diferente no olhar.
“Você vai ser uma mãe maravilhosa” ela disse.
“Você também” devolveu o sorriso, com aquele mesmo olhar terno. “Porque você é a pessoa mais incrível e cuidadosa que eu já conheci na vida.”
“Lo…”
“É sério! Você é muito paciente mesmo quando eu estou agindo como uma pirralha, lembra de todas as coisas pequenas, chega em casa do trabalho tarde da noite com um buquê de flores só porque elas te lembram de mim! Duda, você parou de usar seu perfume favorito porque tava me deixando enjoada. É óbvio que você vai ser uma mãe espetacular!”
Os olhos escuros da ruiva ganharam outro brilho. Lorena soltou uma risada baixa ao notar.
“E agora você tá chorando.”
“Não tô chorando” a mais baixa fez um biquinho.
“Tá tudo bem” riu outra vez, segurando o rosto da esposa. “Você é minha chorona” disse num tom brincalhão, a puxando para um beijo calmo.
Ficaram ali por alguns segundos, com as testas encostadas. A mão de Eduarda continuava no ventre da outra, fazendo um carinho leve.
Até a campainha tocar.
“É a minha mãe” Lorena disse, encarando a porta. “Meu Deus, acho que vou vomitar.”
“De novo?” Eduarda brincou, recebendo um tapinha no braço em resposta.
“Amor!” chamou, num tom repreensivo.
“Foi mais forte que eu” riu fraco, indo até a porta.
Quando a abriu, cumprimentou Zenilda e Rogério com um sorriso. Os quatro ficaram conversando por um tempo antes de se sentarem à mesa.
Eduarda colocou a panela do risoto de brócolis no centro, em cima do descanso, a abrindo em seguida.
“Uau, que cheiroso!” Zenilda comentou. “Casou bem, hein, filha?” brincou.
Lorena, porém, engoliu em seco, levemente enjoada. A esposa percebeu na hora, apertando sua mão.
“Ei, tá tudo bem. Não precisa comer agora se não quiser.”
“Ué filha, tá enjoada?”
“Tô…” murmurou, bebendo um gole d'água para tentar afastar a sensação ruim. “Já faz uns dias, na verdade.”
“Mas você já foi ao médico ver isso?” a mãe perguntou, preocupada.
“Fui, fui sim” concordou com a cabeça. “A médica disse que eu tô com um negocinho na barriga.”
“Um negocinho?” Rogério riu fraco, tentando entender. “Tipo uma bactéria?”
Lorena trocou um olhar com Eduarda, meio nervosa. A ruiva apertou sua mão um pouco mais forte, a encorajando.
“Não, não é uma bactéria. É…” respirou fundo, olhando para a esposa mais uma vez antes de falar. “Tá mais pra um humaninho.”
“Um hu-” O padrasto começou, mas foi imediatamente interrompido pela advogada.
“Você tá me dizendo o que eu tô pensando que você tá me dizendo, Lorena?” a mais velha abriu um sorriso chocado. “Eu vou ser avó?”
“Vai” a morena confirmou.
“Vovó Zeni” Eduarda disse, com um sorriso.
“Ai meu Deus!” a mulher disse, os olhos marejados. Se levantou e deu a volta na mesa para abraçar a filha. “Meu bebê vai ter um bebê!”
Lorena começou a chorar com o carinho recebido pela mãe.
“Ela tá bem sensível ultimamente” a ruiva explicou.
“Faz quanto tempo que vocês descobriram?” Rogério perguntou.
“Umas duas semanas. Eu cheguei em casa da delegacia e ela me deu uma caixinha dizendo que tinha um presente, eu até achei que tinha esquecido alguma data importante. Fiquei repassando tudo na cabeça: feriados, aniversário de namoro, de casamento” riu ao lembrar. “Mas aí quando eu abri, tinha um par de sapatinhos, o teste positivo e um bilhete escrito: Oi mamãe! dentro.”
“A Duda ficou uns dois minutos completamente congelada olhando pros sapatinhos” a morena contou.
“Eu estava tentando entender como uma pessoa pode ser tão pequenininha.”
“Aí ela chorou um monte. E me abraçou tão forte que eu achei que ia quebrar minhas costelas!”
“É proibido se emocionar por acaso?” Eduarda tentou se defender. “Porque você também estava chorando, Lorena Fragoso.”
“É claro que eu chorei! Você se ajoelhou no chão e ficou agarrada na minha barriga dizendo que era a mulher mais sortuda do universo, que isso aqui é a melhor coisa que já aconteceu na sua vida, que parecia que finalmente tinha achado seu lugar no mundo e que moveria montanhas só pra ficar com a gente, como que eu não ia chorar com isso?!”
“Que fique claro que eu não menti em nenhum momento” ergueu o indicador, se virando um pouco na cadeira para ficar de frente para a esposa. “Lorena, você e esse bebê são a razão do meu viver. Eu daria tudo o que tenho por vocês, porque não há coisa nesse universo que me faça mais feliz do que meu amor, agora amores” disse, beijando a mão esquerda dela em seguida, em cima do anel de casamento. “Vou repetir quantas vezes for necessário que você é a melhor coisa que já me aconteceu.”
A morena fechou os olhos por um segundo, tentando controlar as lágrimas.
“Posso dizer o mesmo de você, Duda…” murmurou.
“Parem com isso…” Zenilda comentou, emocionada. “Vocês vão me fazer chorar em cima do meu risoto!”
O casal riu. Lorena bebeu outro gole d’água, enquanto Eduarda se abaixou, beijando a barriga da esposa e sussurrando um “te amo” ali.
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O consultório estava envolto por aquele silêncio hospitalar que nunca é totalmente quieto, mas também não é exatamente barulhento. O máximo que se ouvia eram passos e conversas no corredor, além do ruído dos aparelhos. Algumas semanas se passaram desde que contaram a novidade para a família de Lorena, e agora estavam ali, esperando pelo exame de ultrassom que lhes diria o sexo do bebê.
Lorena estava sentada na maca, aguardando sua médica, com as mãos apoiadas sobre a barriga que começava a ficar aparente sob o tecido das roupas. Eduarda estava sentada ao seu lado, com uma das mãos apoiada na coxa, fazendo um carinho leve com o polegar.
“Eu tô preocupada, amor…” a morena murmurou baixo após alguns segundos. “Será que tá tudo bem? Eu tô achando que esse bebê tá crescendo rápido demais…”
“Calma, meu amor, eu tenho certeza que tá tudo bem.”
“Não é normal um bebê crescer desse jeito, Duda. Pro meu tempo de gestação, eu tô enorme!”
“Uma enorme de uma gostosa” a ruiva riu, apertando de leve a coxa da esposa.
“Eduarda!” Repreendeu, sentindo as bochechas esquentarem. “Você acha?” perguntou baixinho.
A ruiva notou o tom apreensivo na voz da esposa, tirando a mão de sua coxa e a levando até a barriga, pousando ali com uma delicadeza diferente, mais consciente.
“Eu acho que você está literalmente carregando uma vida inteira aqui dentro, e isso nunca vai ser algo pequeno.”
“Eu sei, mas eu fico pensando… Eu ainda tô muito enjoada, fico cansada com mais facilidade, minha barriga já tá bem visível. E parece tão diferente pras outras mulheres que a gente vê aqui na maternidade…”
“Nenhuma gestação é igual. Você não tem que se comparar com ninguém, meu amor. Sei que é uma mudança gigantesca no teu corpo, sei que isso pode mexer muito na autoestima, mas quando eu olho pra você assim, barrigudinha, eu só consigo pensar que nunca vi uma mulher tão deslumbrante.”
“Deslumbrante?” Ergueu as sobrancelhas, incrédula. “Não acha que está exagerando um pouquinho?”
“Lorena, você tá gestando nosso bebê, nada é tão magnífico quanto isso.”
“Você fala como se eu fosse intocável” riu fraco.
“Não, meu amor, eu falo como alguém que te enxerga. Porque eu te vejo cansada, te vejo insegura com seu corpo, te vejo enjoada, te vejo sendo uma bomba hormonal super sensível…” fez uma pausa curta, olhando-a nos olhos. “E também te vejo gerar uma vida dentro de você, é impossível não pensar que isso é deslumbrante.”
A morena levou uma das mãos ao rosto, secando as lágrimas antes de caírem.
“Vai me fazer ficar com cara de choro na frente da médica?”
“Desculpa” riu fraco, puxando a mão da esposa e dando um beijo ali. “Mas eu não menti em nenhum momento.”
As duas ficaram ali por um tempo até a médica chegar, cumprimentando-as e pedindo desculpas pela demora. Conferiu os dados na ficha, enquanto Lorena levantava a camiseta para o exame. Eduarda ficou segurando sua mão o tempo todo.
O gel frio logo foi aplicado, fazendo com que a morena tremesse levemente com a sensação. A médica riu fraco, dizendo ser uma reação bem comum das pacientes, antes de começar a deslizar o transdutor, observando a tela com atenção.
A imagem se formou aos poucos, ainda meio embaralhada no início. O casal olhava para a tela atentamente, mesmo que não soubessem exatamente o que estavam vendo. A médica, porém, franziu o cenho enquanto analisava o ultrassom.
“Tá tudo bem, doutora…?” Lorena perguntou, um pouco apreensiva, ao notar sua expressão.
“Tudo ótimo” ela disse após alguns segundos, sorrindo. “O desenvolvimento está muito bom, mas temos uma pequena surpresa aqui…” virou o monitor para o casal.
“Surpresa boa ou ruim?” Eduarda perguntou, encarando a tela.
“Muito boa. Vejam, aqui está o bebê…” apontou na imagem, e então mexeu o transdutor um pouco. “E aqui tem outro.”
O casal se encarou, um sorriso chocado surgindo nos lábios ao mesmo tempo.
“E pelo que pude ver,” a médica continuou, deslizando o aparelho mais um pouco “são duas meninas.”
O silêncio na sala durou exatamente dois segundos até Lorena soltar uma gargalhada completamente desacreditada, que surgiu junto com lágrimas de alegria, embolando tudo o que estava sentindo. Seus olhos ficavam alternando entre a tela e a esposa, como se tentasse confirmar que aquilo era real e não algum tipo de delírio causado pelos hormônios. Eduarda, por sua vez, encarava o monitor completamente atônita, enquanto apertava forte a mão da outra.
“Amor…” a morena chamou, ainda em choque. “São duas…”
A ruiva a encarou, os olhos completamente marejados.
“Duas meninas…” repetiu baixinho.
“Você já tá chorando, Eduarda?” riu, observando a expressão da esposa.
“Eu já aceitei que vou passar os próximos meses chorando um monte.”
“Meses?” Lorena arqueou uma sobrancelha. “Você tem três mulheres pra te fazer chorar agora, Duda. Você vai passar os próximos anos chorando.”
“Três mulheres…” repetiu, negando devagar com a cabeça. “Meu Deus, eu vou perder toda a minha autoridade.”
“Que autoridade?” a morena perguntou, arrancando uma risada discreta da médica também. “Porque em casa você não tem nenhuma!”
“Vai me desmoralizar na frente da doutora, Lorena? Olha que eu te prendo por desacato!”
Lorena abriu um sorriso quase imediato, do tipo que nunca continha quando a ruiva fazia alguma piadinha envolvendo sua profissão. Se virou para a médica em seguida.
“Tá vendo, doutora? Ela acha que o distintivo funciona dentro de casa.”
“Ué, só porque eu não estou na delegacia, eu deixo de ser delegada?”
“Sim.”
A médica segurou outra risada, Eduarda encarou a esposa com uma falsa indignação.
“Dentro de casa você não é a delegada Eduarda Fragoso” Lorena continuou. “Você é só minha esposa e futura mãe de duas.”
Aquilo fez a ruiva abrir um sorriso.
“Mãe de duas…” repetiu. “Meu Deus, amor, dá pra acreditar? Duas menininhas.”
“E por falar nas meninas,” a médica aproveitou a deixa. “uma delas está bem animada.”
A mera menção das bebês fez a atenção do casal se voltar automaticamente para o monitor, olhando uma delas se mexendo bastante.
“Essa aí é a tua filha” Lorena disse, encarando a tela com carinho. “Agitada igual você. Já podemos nomear de Eduarda Júnior.”
A ruiva gargalhou.
“Pô, aí é sacanagem com a criança!”
Após algum tempo de consulta, a médica liberou o casal e as deixou à sós. Eduarda pegou o papel oferecido por ela, limpando cuidadosamente o gel da barriga de Lorena, baixando sua camiseta devagar em seguida.
“Que cara é essa?” a ruiva perguntou, notando o semblante da outra.
“Acho que ainda estou em choque” respondeu, pondo as mãos nos ombros da esposa. “Duas bebês, Duda…”
“Eu sei…” murmurou, deslizando as mãos para sua cintura, os dedões traçando um carinho leve nas laterais da barriga. “A gente vai ter que replanejar muita coisa.”
“A gente vai ter que lidar com duas adolescentes na puberdade ao mesmo tempo.”
“Será que podemos pensar em um problema de cada vez?” riu fraco, ajudando a morena a sair da maca.
“Eu já tava achando impossível escolher nome para uma criança só, agora vou ter que decidir para duas!”
“Pelo lado bom, se a gente ficar em dúvida entre duas roupinhas, podemos comprar as duas e dizer que é uma pra cada” deu de ombros.
“Ah, claro, porque isso é ótimo pra nossa conta bancária!” Lorena riu, ajeitando o cabelo da esposa.
“Imagina quando a gente sair pra passear com roupa combinando. Nós quatro.”
“A gente não vai sair com roupa combinando, é brega!” a morena argumentou, pegando as imagens do ultrassom deixadas na mesa pela médica.
“Você diz isso agora, mas vai ver só quando elas nascerem” comentou, abrindo a porta do consultório e deixando a mulher sair primeiro.
As duas saíram da maternidade lado a lado, carregando as fotos do ultrassom e a guia com a próxima consulta marcada.
Eduarda abriu a porta do carro, segurando a mão de Lorena até ela entrar.
No caminho de volta para casa, o casal ficou em silêncio por um tempo, envoltas apenas pela música baixa que tocava no rádio.
Lorena mantinha as fotos no colo, passando os dedos pela borda do papel de vez em quando, como se ainda não tivesse total certeza de que aquela era a realidade. As imagens ainda eram abstratas demais, mas ainda assim, eram suas filhas.
Eduarda dirigia com uma das mãos no volante e a outra repousada na coxa da esposa, hábito criado após algum tempo de namoro e que perdurava entre elas desde então.
“Eu tava pensando…” a morena começou, após algum tempo. “Nosso apartamento é meio pequeno, né?”
“Eu pensei na mesma coisa. A gente vai ter que sacrificar seu escritório.”
“Enquanto elas forem pequenas até vai funcionar, mas e quando elas crescerem? Cada uma vai precisar de um quarto.”
A ruiva soltou o ar devagar, mantendo o foco na estrada. A frase parece ter feito ela cair na realidade pela primeira vez de forma concreta. A família aumentou, o espaço deveria expandir também.
“Ei” Lorena chamou, notando o semblante sério da esposa. A conhecia bem demais para saber que ela já estava tentando resolver todo o problema antes mesmo de começar. “Não faz essa cara.”
“Que cara?”
“De quem já abriu uma planilha mental e já quer sacrificar a ração premium do Bóris pra guardar dinheiro.”
“Eu jamais deixaria o Bóris sem a ração premium dele, ele me mataria enquanto eu durmo.”
“Mas?”
“Mas a gente provavelmente vai ter que se mudar mesmo.”
“Tem a cobertura que ainda está no meu nome” lembrou. Ainda que tenha sido por uma das falcatruas do pai, o apartamento ainda estava lá, ainda era seu, por direito. “E seria bem engraçado ir morar com a minha família na cobertura da qual meu pai me expulsou por amar uma mulher.”
“Eu jamais te deixaria voltar para aquele lugar, independente da situação. E eu tava pensando… talvez uma casa?”
O rosto de Lorena se iluminou na hora.
“Uma casa?” repetiu. “Com jardim e tudo?”
Eduarda sorriu no mesmo momento, notando a alegria da esposa só pelo tom que dizia as coisas.
“Com jardim, piscina, balanço, escorregador, casinha de madeira…” apertou levemente a coxa da esposa. “Tudo o que as três mulheres da minha vida quiserem.”
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Lorena estava deitada entre as pernas da esposa no sofá, a cabeça apoiada em seu peito, enquanto as duas assistiam a uma série de comédia policial na televisão.
A casa nova era aconchegante, apesar de muito maior do que o apartamento do qual estavam acostumadas. Ainda não estava completamente mobiliada e decorada, mas já tinha uma carinha de Fragoso após algumas semanas morando ali.
Haviam algumas caixas espalhadas, quadros apoiados no chão, aguardando um dia de folga da delegada para que possam ser pendurados — Eduarda não deixava a esposa fazer nada que envolvesse a mudança, alegando que ela “está grávida e portanto não deve fazer esse tipo de esforço”.
Desde o momento que se ajeitaram ali, a ruiva fazia um carinho distraído no cabelo da esposa, por vezes dando um beijo preguiçoso no topo da cabeça.
No meio de uma cena qualquer, Lorena congelou enquanto movia o braço para pegar pipoca.
“Amor?” Eduarda perguntou ao perceber. “Tudo bem?”
“Me dá a mão” disse, já agarrando o pulso da esposa, espalmando-a sobre um ponto na lateral de sua barriga. “Aqui. Sente.”
A ruiva franziu o cenho, confusa pela urgência suave no tom da outra, mas deixou-a guiar sua mão, posicionando a palma contra a pele, por baixo da blusa.
Lorena continuava agarrada em seu pulso, aguardando a movimentação. Por alguns segundos, nada aconteceu.
Até que veio.
Um movimento pequeno, porém firme, claramente perceptível contra sua mão.
“Amor…” murmurou, sentindo os olhos marejados. “Nossa menininha…”
A morena sentiu o peito apertar com o jeito que ela disse aquilo.
Nossa menininha.
Se ajeitou no sofá, saindo do colo da esposa e se sentando melhor, de frente para ela. Eduarda levou a mão automaticamente para o mesmo lugar, sentindo outro chute, que lhe arrancou uma risada curta, incrédula.
Na outra lateral, Lorena sentiu outro chute.
“Pronto” riu fraco. “Agora as duas decidiram sambar na minha barriga.”
“A Eduarda Júnior já tá tocando o terror e agora decidiu ensinar a irmã” a ruiva riu fraco, se ajoelhando na frente da esposa e pondo ambas as mãos na barriga, sentindo as duas bebês chutando.
“A gente deveria começar a ver mensalidade de escolinha de futebol.”
Eduarda encarou a mulher por alguns segundos. Lorena tinha os cabelos bagunçados, estava usando a camiseta mais velha que possuía, as bochechas estavam mais redondas graças ao peso que ganhou com a gravidez.
“Você tá tão linda” murmurou, ainda fazendo um carinho na barriga, onde as bebês chutavam. “A mulher mais maravilhosa do mundo.”
“Duda…” chiou baixinho, tentando reclamar.
“Eu tô falando sério!” ela riu. “Ter você assim é melhor do que ganhar na mega da virada.”
Lorena sentiu os olhos começarem a lacrimejar.
“Depois você reclama que eu choro demais!”
“Você chora porque me ama” sorriu, se levantando do chão e se sentando ao seu lado.
“E porque você me engravidou de gêmeas” rebateu rindo. “Eu sou praticamente um condomínio agora!”
Eduarda gargalhou, tombando a cabeça para trás.
“Condomínio é sacanagem, Lorena!” disse, ainda rindo.
“Ué, e eu tô errada? Tem duas pessoas morando aqui dentro que além de me deixarem faminta e exausta, ainda ficam me chutando!” argumentou, brincando.
“Mas elas vão pagar depois, com muito amor.”
“Isso com certeza” sorriu terna, fazendo carinho na bochecha da esposa. “Mas eu vou cobrar taxa extra pelos pés inchados.”
“Ah, mas esse boleto eu consigo parcelar para as minhas filhas” riu, dando um beijo rápido em Lorena. “Se ajeita aí, eu vou pegar o creme.”
“Você não preci-”
“Nem pense em desobedecer às ordens diretas da delegada mamãe” ela disse, se levantando e saindo da sala por um momento.
A morena riu, se ajeitando no sofá numa posição meio deitada. Quando a esposa voltou, apoiou os pés em seu colo.
Eduarda começou a massagear os pés da mulher, utilizando os polegares para fazer movimentos firmes na sola, sempre com um cuidado excessivo que estava tomando desde que descobriu a gravidez da esposa.
Lorena soltou um gemido baixo.
“Sei que não sou profissional, mas tá tão ruim assim?” A ruiva brincou.
“Não, amor, na verdade tá ótimo…” suspirou. “Eu só não tinha ideia do quanto tava precisando disso.”
Eduarda assentiu, deslizando os dedos pelo arco do pé e subindo para o tornozelo inchado. A morena não conseguiu fazer outra coisa que não fosse encarar a esposa com ternura.
Sentiu o peito apertar um pouco, da mesma forma que ocorria quando eram mais jovens. Era sempre assim com a ruiva. Desde o dia que se conheceram, a primeira carona, o primeiro date, o primeiro beijo.
Eduarda amava nos detalhes. Foi na forma como disse que ia protegê-la quando deu uma carona para casa no dia que se conheceram, na forma como lhe enviou uma caixa de bombons veganos caríssimos, na forma como sempre respeitou seu tempo, como a consolou no hospital quando o pai foi internado — mesmo que ele não merecesse —, como tirou um mês de férias para acompanhá-la em Londres quando a morena estava com medo de ir estudar fora.
E nem precisava voltar tanto no tempo para constatar isso, porque Eduarda estava levantando todo dia de madrugada para buscar água para a esposa, fazia tudo o que estava em seu alcance para chegar mais cedo em casa após o serviço, prestava atenção em todas as consultas, e, agora, estava ali, pressionando seu tornozelo inchado para aliviar o desconforto.
“Que foi?” a ruiva perguntou, notando o olhar da esposa sobre si.
“Só tava pensando.”
“Ah, bem que eu senti o cheirinho de fumaça” brincou, recebendo um leve chute em resposta.
“Idiota” riu fraco, levando uma mão à barriga. “Eu só estava pensando… se me dissessem há uns anos atrás que eu estaria vivendo assim aos trinta, eu jamais acreditaria” acariciou levemente onde uma das filhas ainda chutava fraco. “Casada com uma delegada, trabalhando com o emprego dos meus sonhos, esperando duas bebês, morando numa casa linda com jardim e tudo.”
Eduarda parou por um momento.
“Às vezes eu acho que eu sou a mulher mais sortuda do mundo por te ter” a ruiva disse, os olhos já molhados.
“Duda…”
“Não, deixa eu terminar” riu fraco, tirando os pés do seu colo e se ajeitando no sofá, sentando ao seu lado. “Eu passei tanto tempo pensando que o amor não era pra mim, que era uma coisa inventada para vender livros e filmes. Aí eu bati o olho em você lá na casa da Maggye e pensei “eu vou casar com essa mulher”. Quando a gente começou a se conhecer melhor, eu finalmente entendi o que todas aquelas músicas, filmes e outras coisas românticas queriam dizer.”
Eduarda se aproximou um pouco mais, secando uma lágrima que escorreu pela bochecha de Lorena.
“Te amar é a coisa mais fácil que eu já fiz nessa vida.”
As duas se beijaram devagar, com aquela intensidade que tinham desde jovens, mas agora com uma intimidade que só se cria após quase uma década junto de outra pessoa.
Uma das bebês chutou de novo, fazendo Lorena rir fraco ao se afastar da esposa.
“Aposto que a gente vai ter uma criança dizendo “eca” toda vez que a gente troca afeto.”
“Já deixo avisado que se uma das duas fizer isso, eu vou te beijar mais ainda só pra provocar.”
“Claro que vai” revirou os olhos, brincalhona. “Você é insuportável.”
“Mas você ainda me acha gostosa” sorriu meio maliciosa.
“Acho” sorriu de volta, segurando seu queixo. “A delegada mais gostosa que essa São Paulo inteira já viu… Ai!” resmungou, quando as duas bebês chutaram forte ao mesmo tempo. “Vocês podem respeitar as mães de vocês, por favor?”
“Que lindas, já estão agindo como adolescentes que acham qualquer demonstração de afeto algo nojento” Eduarda riu com carinho.
“Você diz isso porque não é você a bola de futebol oficial das crianças.”
“Talvez elas só estejam bravas porque ainda não decidimos os nomes.”
“Claro, amor, com certeza” brincou, irônica. “Elas nem desenvolveram os pulmões ainda, mas com certeza têm consciência pra cobrar identidade civil.”
“Você subestima demais minhas filhas.”
“Nossas filhas” corrigiu, dando um selinho na esposa. “Mas, sério, eu não queria ter que pensar em nomes agora, é uma responsabilidade muito grande.”
“Não dá pra continuar chamando elas de bebê e Eduarda Júnior, amor” riu, passando a mão vagarosamente pelo ventre da esposa. “Eu tava pensando…”
“Isso nunca vem acompanhado de algo bom, mas prossiga.”
A ruiva estreitou os olhos por um segundo, indignada.
“Como eu disse, eu tava pensando” retomou, abrindo um sorriso. “Não seria tipo, muito fofo, se a gente desse nomes para elas com as iniciais combinando com as nossas?”
“Suponho que já tenha uma lista de nomes com as nossas iniciais.”
“Talvez… eu pensei sobre isso hoje no trabalho.”
“Claro” riu fraco. “O maior mistério da 105ª Delegacia da Polícia Civil de São Paulo: quais nomes a delegada Eduarda Fragoso vai dar para as próprias filhas?”
“Em minha defesa, o Paulinho já escolheu o nome da filha deles, e a Gerluce engravidou bem depois de você.”
“Mas o Paulinho e a Gerluce só vão ter um bebê. Nós temos o dobro de responsabilidade.”
“Por isso mesmo! Se a gente se enrolar muito vamos acabar tendo uma Helena e uma Valentina, aí na creche vai ter mais cinco Valentinas e sete Helenas na turma delas!”
“E o que você tem em mente, senhora anti-Valentinas e anti-Helenas?”
“Evelyn.”
“Evelyn?” testou o nome, abrindo um sorriso em seguida. “Gostei, e a outra?”
“A outra não sei. Só pensei em nome pra Eduarda Júnior.”
“Sabe um nome que tá na minha cabeça há dias? Lavínia.”
A ruiva ecoou o nome baixinho, como se precisasse testar antes de dar uma opinião.
“Evelyn e Lavínia Fragoso” Eduarda murmurou. “Parece até nome de princesa.”
“Bom, elas vão ser mimadas igual duas princesas de qualquer forma” Lorena riu fraco. “Principalmente pelas vovós.”
“Aposto que meu pai vai chorar mais que eu e você juntas quando conhecer as duas.”
“O meu infartaria se descobrisse que a filha lésbica finalmente deu as netas que ele tanto pedia quando eu era mais nova.”
“Provavelmente” a ruiva riu fraco. “Mas ele não pode fazer nenhum mal pra nós de onde ele está.”
“Graças à Deus.”
“Não. Graças à detetive investigadora Eduarda Fragoso que prendeu ele há oito anos.”
“Claro, como eu pude esquecer?” Lorena riu. “A minha policial salvando o dia mais uma vez!”
“Sua, toda sua” riu também, puxando-a para um beijo rápido e leve. “Mas eu não salvei o dia.”
“Não. Você salvou São Paulo das garras do maligno Santiago Ferette, o que é muito maior.”
“E que bom que eu fiz isso, né?” sorriu, se inclinando um pouco. “Se não eu provavelmente não teria isso aqui” acariciou a barriga da esposa.
A morena ficou a observando enquanto ela se abaixava para beijar sua barriga.
“Evelyn” beijou um lado, “Lavínia” beijou o outro, “E Lorena” levantou para encontrar os lábios da esposa. “As três mulheres da minha vida, as três pessoas que eu mais amo no mundo.”
~~~
O corredor da maternidade parecia longo demais.
Eduarda atravessava aquele inferno branco praticamente correndo, o distintivo batendo contra o peito, os cabelos presos num rabo de cavalo já tinham alguns fios soltos e arrepiados. Sequer teve tempo de tirar o uniforme da polícia civil.
A ruiva dava passos largos e duros pelo chão limpo do hospital, prendendo os cabelos na touca descartável que lhe deram na recepção. Suas mãos tremiam demais graças ao nervosismo e à adrenalina que ocupavam cada gota do seu ser.
Porque nas últimas semanas, Eduarda tinha prometido não ir para nenhuma ocorrência a menos que fosse estritamente necessário. E justamente na única que precisou ir desde a promessa, as filhas decidiram vir também.
Lorena tinha reclamado de estar sentindo dor e desconforto na noite anterior, mas já havia algum tempo que vinha sentindo e, portanto, acreditou não ser nada demais, dizendo à esposa que poderia ir trabalhar normalmente, pois ficaria bem.
A policial ouviu um grito meio rasgado em um dos quartos e dirigiu-se até lá com passos mais largos que a própria perna.
“Cadê ela?” a voz de Lorena ecoou num brado que misturava dor e raiva.
“Tô aqui, amor” Eduarda disse apressada, a respiração ofegante, enquanto atravessava a porta do quarto. “Tô aqui…”
A esposa virou o rosto em sua direção, o olhar aliviando brevemente, antes de fechar os olhos com força quando a próxima contração veio.
“Eu já estava planejando como eu ia te matar, sabia?” Lorena murmurou, estendendo a mão.
“Eu deixo você resolver isso depois” riu fraco, agarrando a mão da esposa e se posicionando ao seu lado, fazendo carinho no rosto suado dela.
“Você devia ter chegado mais cedo…” reclamou, soltando outro gemido de dor.
“Eu sei, amor, eu sei. Mas e eu ia adivinhar que as madames iam decidir nascer justo na única ocorrência que eu precisei ir no último mês?” Riu fraco, beijando sua testa. “Prometo que fico com todas as fraldas da noite e cocôs-bomba pra compensar.”
Enquanto isso, a equipe ao redor delas trocava opiniões e instruções. Outra contração veio, mais forte, fazendo Lorena se curvar ligeiramente e apertar a mão da esposa com tanta força que Eduarda pôde jurar que seus ossos foram esmigalhados.
“Tá tudo bem, amor, respira” a ruiva repetiu. “Eu tô aqui. Vai dar tudo certo.”
As contrações vinham em ondas mais longas e menos espaçadas entre si, tomando o corpo da morena numa intensidade que já não abria mais lugar para falar. A voz da médica era quase um ruído branco ao fundo, porque, ainda que tentasse acompanhar suas orientações, o corpo parecia fazer tudo por conta própria.
A mão de Eduarda já tinha se tornado um ponto de ancoragem, junto ao carinho que continuava fazendo no rosto. A dor deixava de ser algo que ia e vinha, tornando-se um estado contínuo para a morena.
A equipe se movia com precisão ao redor delas, palavras curtas, comandos rápidos, pequenos ajustes aqui e ali.
Lorena se esforçava cada vez mais para que as filhas nascessem, respirando fundo, agarrando à mão de Eduarda como se todo o trabalho de parto dependesse disso.
O último esforço veio diferente dos outros. Mais curto, mais definitivo.
E aí o som do choro veio. Alto, agudo, cortando toda a tensão do quarto.
Eduarda começou a chorar no mesmo momento, Lorena respirou aliviada por um segundo. O restante da sala, porém, voltou com o pequeno caos que um parto trazia: mais instruções, um lençol sendo ajustado. Ainda tinha outra bebê para nascer, afinal.
Antes que qualquer uma das duas pudesse pensar em falar, a bebê foi colocada sobre o peito de Lorena.
“Oi, meu amor…” ela disse, a voz fraca de emoção e cansaço.
“Ela tem a sua boca…” a ruiva murmurou, observando o rosto da filha com cuidado, como se não quisesse perder nenhum milésimo daquele momento.
Lorena soltou uma risada chorosa ao ouvir a frase, ainda tentando recuperar o fôlego enquanto encarava a recém-nascida, seu pacotinho de amor, seu mundo com rostinho vermelho e enrugado.
A bebê chorava baixinho agora, já se acomodando contra o peito da mãe, completamente calma.
“Essa é a Lavínia…” a morena murmurou.
Eduarda sorriu, completamente hipnotizada por cada detalhezinho: a boca pequena, os olhos ainda fechados, os dedos minúsculos que mexiam devagar, o cabelo ainda úmido e sujo grudado na testa.
Lorena ergueu os olhos para a esposa, pensando em fazer uma piada com seu estado, mas sentiu outra contração no mesmo instante.
“Amor?” a ruiva chamou, preocupada.
“Tá tudo bem” a médica alertou, a tranquilizando. “Mas ainda temos outra menininha pra nascer.”
Eduarda assentiu, voltando a focar na esposa que ainda estava em trabalho de parto. Continuou ao seu lado da mesma forma: segurando a mão e fazendo carinho no rosto, ainda que não tivesse a coragem de tirar os olhos da bebê em seu peito.
Não demorou muito para outro choro ecoar no quarto. Mais alto, quase indignado por estarem vivendo o momento sem ela. Os bracinhos e perninhas se mexiam rapidamente.
“Eduarda Júnior” a ruiva riu fraco, ao notar a agitação da outra recém-nascida.
A enfermeira logo colocou a bebê no peito de Lorena, do lado oposto à irmã. A morena ficou ali, alternando o olhar entre as duas filhas, com medo de mexer os braços e machucá-las.
“Você conseguiu…” Eduarda murmurou, fazendo carinho na testa da esposa. “Nossas filhas, amor.”
Lorena soltou uma risada fraca, ainda emocionada, sem tirar os olhos das pequenas em seu peito.
A ruiva se inclinou um pouco, beijando a testa da esposa. Uma das enfermeiras aproveitou o momento para tirar uma foto da família no celular de Lorena, que não precisava ser desbloqueado para acessar a câmera — a pedido da mesma, quando chegou ali e ainda conseguia falar frases completas.
“Eu amo vocês” a policial disse, virando a cabeça de modo que sua bochecha tocou a testa da esposa e ela pôde observar as bebês outra vez.
Pouco tempo depois, as enfermeiras tiraram as bebês dali para limpar e fazer todos os exames iniciais. Lorena foi levada até um quarto-alojamento, Eduarda saiu para preencher alguns documentos que seriam necessários para a certidão de nascimento das meninas.
Na recepção, Maggye, amiga e cupida do casal, aguardava ansiosa. Foi ela quem levou Lorena à maternidade quando viram que a policial não atendia ao telefone.
“Duda!” chamou, assim que a viu. “Como ela tá? Deu tudo certo?”
“Maggye, oi!” cumprimentou-a com um sorriso, abrindo os braços para abraçá-la. “Ela tá bem, tá descansando agora. As meninas são perfeitas!”
“Que bom!” respondeu, abraçando a amiga. “E que bom que deu tempo de você chegar também, né? A Lorena já estava cavando sua cova!”
“Eu sei” ela riu. “Até comentei isso. Fiquei um mês inteiro evitando ir em ocorrências, pra na única que realmente precisava de mim, minhas filhas decidirem nascer!”
“Acho que podemos dizer que elas têm senso de humor.”
“Bom, eu preciso ir preencher uma papelada. Você vem pro horário de visitas amanhã?”
“Não. Vi que eles só deixam quatro pessoas por dia, acho que seus pais e da Lorena vão morrer se não conhecerem as netas hoje” Maggye riu. “Só fiquei pra ter certeza que tudo ia dar certo.”
“Obrigada por ter trazido ela.”
“Não precisa agradecer, Duda. Fiz o que qualquer amiga faria.”
Depois de preencher a papelada necessária e se certificar sobre os horários de visitas, que só poderia ser no dia seguinte, já que as filhas nasceram quase ao cair da noite, Eduarda retornou para o quarto.
Abriu a porta devagar, tentando não assustar a esposa e as bebês lá dentro.
Quando entrou, encontrou Lorena recostada na cabeceira da cama, apoiada por alguns travesseiros. Os cabelos amarrados em um rabo malfeito, com alguns fios ainda arrepiados pelo suor, o rosto marcado pelo cansaço. Nos braços, segurava uma das gêmeas enquanto ela mamava, a outra dormia serena no berço transparente, enrolada numa manta lilás.
“Você demorou” Lorena disse baixo, encarando a esposa.
“Aparentemente, gêmeas têm muito mais formulários a serem preenchidos” disse, balançando de leve a pasta, antes de deixá-la numa poltrona. “Como você tá?” Se aproximou devagar.
“Exausta” respondeu sem nem pensar direito. “Mas muito, muito feliz.”
“Você fica linda assim” sorriu, beijando o topo de sua cabeça.
“Esgotada?”
“Sendo mãe.”
“Duda…” começou, tentando não se emocionar demais e assustar a filha. “Eu tô até agora com medo de segurar ela.”
“Pelo menos a Lavínia é calma” riu fraco. “E agora dá pra ter certeza qual das duas ficava sambando no seu útero.”
Parece que a bebê reconheceu o próprio nome, pois quando a ruiva disse aquilo, ela afastou a boca do seio da mãe, abrindo os olhos.
“Meu Deus” Eduarda murmurou, observando as íris claras da filha. “Você pariu você mesma.”
“E com xerox” Lorena riu, olhando para Evelyn, que começava a se mexer no bercinho.
“Deixa, amor” falou, já pegando Lavínia dos braços da esposa com todo o cuidado do mundo. “Eu fico com essa princesa enquanto você amamenta a Evelyn.”
“Obrigada” murmurou, cobrindo o peito com a camiseta.
A outra bebê chorou pouco depois. Lorena a pegou, a ajeitando no colo para dar de mamar, enquanto Eduarda ninava a gêmea.
“Você tá com cara de choro de novo” a morena comentou, mantendo o tom baixo na voz.
“Eu só…” começou, tentando colocar os pensamentos em palavras. “Nunca achei que isso aqui ia ser possível.”
“Como não?”
“Eu sempre vivi paixões rápidas e rasas demais, casos de uma noite, uma ficada aqui e ali. Nunca achei que eu fosse feita pra amar, sabe? Aí você apareceu na minha vida com uma saia xadrez e esses olhos verdes brilhantes… eu já tinha desistido do amor quando você chegou. E agora olha pra gente, casadas há quase dez anos, duas bebês lindas que são idênticas à mulher que eu mais amo, uma casa enorme com quintal, piscina e tudo o que eu sempre sonhei” ajeitou Lavínia nos braços, embalando-a. “Isso aqui é melhor que qualquer fantasia. Eu ganhei na loteria da vida e ninguém percebeu.”
“Duda…” chamou, tentando conter as lágrimas.
“Sabe o que é pior?” continuou, intercalando o olhar entre as filhas e a esposa por um momento. “Eu ainda sou apaixonada por você do mesmo jeito de quando éramos mais novas. E acho que me apaixonaria por você em todos os universos.”
“Eu sempre tive uma visão deturpada do que era amor, principalmente por causa da forma como fui criada, por causa do meu pai…” Lorena começou, tentando não chorar ainda mais. “Eu nunca pensei que um dia ia sair do armário, nunca pensei que ia me casar com uma mulher, que ia constituir uma família com uma mulher, e quando isso se tornou uma possibilidade, eu fui expulsa de casa. E olha pra nós agora?” riu fraco, emocionada. “A gente tem uma casa, uma família linda, um gato gordo e preguiçoso” ajeitou Evelyn no colo, já meio sonolenta, mas ainda mamando. “Então acho que podemos dizer que nós duas ganhamos na loteria da vida.”
“Eu te amo, Lorena Fragoso” declarou, as lágrimas já escorrendo dos olhos.
“Eu te amo, Eduarda Fragoso.”
