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Franco deixou o copo na mesa de centro, com a certeza tranquila de que o mundo vai resolver aquilo sozinho em algum momento. Vai até a geladeira, procurando um docinho que havia sido deixado ali, guardado para comer na hora certa.
Alê percebeu quase imediatamente, não porque o copo fosse importante em si, mas porque objetos fora do lugar tinham um jeito muito específico de lhe ocupar a mente até virarem um ruído constante.
— Copo. — Alê disse, sem elevar muito a voz, apontando com o olhar.
Franco nem levantou os olhos do celular. — Depois eu pego.
Pomba fechou os olhos por um segundo mais longo do que o necessário, como se estivesse tentando decidir se aquele “depois” realmente chegaria.
— Você sempre fala isso. — ele comentou, já se levantando.
— E sempre pego depois. — Franco respondeu, com uma naturalidade de quem realmente acredita que pegaria depois.
Pomba pegou o copo sem cerimônia, como se encerrar aquele assunto fosse mais simples do que discutir sobre ele, e levou direto para a pia.
Alê acompanhou o movimento com o olhar, ainda preso no detalhe.
— Ele viraria parte fixa da sala se dependesse de você. — murmurou, mais para si do que para os outros dois.
— Eu chamaria isso de design interno. — Franco respondeu, finalmente tirando o olhar do celular e focando nos namorados. Fechou a porta da geladeira, terminando um pedaço de bolo que definitivamente não deveria estar comendo - era de Alê.
— Você só é esquecido. — Pomba corrigiu, voltando a sentar.
Franco soltou um riso curto, mas não se defendeu de verdade; não podia negar essa afirmação.
Alê puxou a manga da blusa até cobrir metade da mão, um gesto repetitivo que aparecia mais quando elu estava tentando organizar o ambiente interno a partir do externo.
— Você deixou sua mochila no corredor ontem. — disse elu, depois de um intervalo pequeno.
Franco piscou, como se estivesse tentando se lembrar disso.
— Eu deixei?
— Deixou. — Alê confirmou, sem emoção extra.
— Ela ainda tá lá?
— Não, tirei. — Alê respondeu.
Franco franziu a testa, confuso de forma genuína. — Então pronto. Qual é o problema?
Alê inclinou a cabeça levemente, um suave bico se formando em seus lábios finos.
— O problema é que ela estava lá, onde não deveria estar, e me fez quase cair nela três vezes…
Franco abriu a boca, fechou, e depois aceitou com um pequeno aceno.
— Ok, tá. Foi mal. — disse, com um meio sorriso em reconhecimento de que Alê falava a verdade.
Pomba cruzou os braços, olhando de ume para o outro com uma atenção silenciosa.
— Você também fala “já vou” e não vai. — ele disse, agora para Alê. Não podia crucificar só um dos namorados, afinal.
Alê ficou alguns segundos em silêncio, como se estivesse verificando internamente a acusação. Não esperava que Pomba jogaria contra si.
— Eu vou, sim. — respondeu com firmeza, como se a intenção fosse suficiente para sustentar o ato.
— E você ainda diz isso várias vezes antes de ir. — Pomba retrucou, apenas constatando.
Franco soltou um riso baixo. Bem, tinha que aproveitar quando ele não era o foco do assunto dessa vez.
— Isso é preparação, na verdade. — Alê explicou, como se estivesse descrevendo um processo técnico.
— Preparação para levantar é uma categoria nova pra mim. — Franco comentou.
Pomba não riu, mas o canto da boca dele sugeriu que queria.
Alê continuou, mais direto agora, como se já tivesse se preparado para ter uma conversa sem respostas monossilábicas como de costume. — E você mastiga de boca aberta.
Franco travou.
— Eu não faço isso!
Pomba retrucou, sem hesitação:
— Faz, sim.
O silêncio que seguiu foi curto, mas carregado. Franco fez um biquinho indignado.
— Vocês estão unidos contra mim, não vale! — Franco cruzou os braços, dramatizando de forma pouco convincente.
Alê balançou a cabeça devagar.
— Apenas sabemos que você é preguiçoso...
— Total nada a ver. — Franco deu de ombros, olhando para ninguém em específico.
Pomba se inclinou um pouco para frente, pronto para falar mais.
— Você também interrompe as pessoas enquanto elas estão falando. — disse ele.
Franco abriu um sorriso culpado, que tentava parecer defesa mas já era admissão.
— Eu só fico empolgado, poxa!
Alê olhou diretamente para ele.
— Você faz isso mesmo quando não está empolgado. Só não consegue ficar quietinho esperando a pessoa terminar de falar.
Franco revirou os olhos, achando irônico.
— Isso virou literalmente um ataque agora. — depois de terminar de comer o bolo, ele foi até o sofá, se sentando nele de forma desleixada.
Pomba apontou discretamente. — E você ocupa mais espaço do que o necessário.
Franco olhou para baixo, avaliando o próprio corpo mal posicionado.
— Isso é mentira. — ele disse, automaticamente.
Alê respondeu com a mesma calma de antes:
— Você está ocupando mais de um lugar ao mesmo tempo exatamente agora.
Franco ajustou a postura na hora, como se isso lhe livrasse da culpa.
— Ok, ok, admito. É que é mais confortável, sabe como é que é.
Pomba soltou um som leve, um riso contido, enquanto voltava a relaxar no encosto.
Alê continuou, agora mais baixo:
— E você arruma as coisas da casa sem perguntar. — apontou para Pomba, que pareceu indignado.
— Qual é o problema nisso?!
— É irritante quando eu não encontro mais nada do que tô procurando. — Alê completou.
Pomba considerou por alguns segundos. — … Tudo bem, tudo bem. É um ponto válido. — admitiu.
Franco abriu um sorriso mais solto, parecendo se divertir com a briguinha dos dois.
— Eu gosto dessa dinâmica. — comentou. — Ficar se acusando e quem tiver o melhor argumento ganha. Mas, bem, a parte de se juntarem contra mim não é legal.
Alê olhou para ele.
— Você também fala muito.
Franco piscou.
— Isso não deveria ser um problema.
— Às vezes é. — Pomba disse, simples.
Franco colocou a mão no peito, dramático o suficiente para não ser sério.
— Traição, traidores!
Alê soltou um som baixo que quase poderia ser um riso.
O ambiente mudou um pouco depois disso, pareceu perder peso no silêncio confortável.
Franco se recostou contra o sofá.
— Tá, mas vocês também têm coisas irritantes. — disse, já mais leve.
Pomba ergueu o olhar.
Alê também.
Franco apontou primeiro para Alê.
— Você some do nada.
Alê piscou. — Eu não sumo.
— Você entra no modo “não disponível” e simplesmente não responde até te dar vontade de ficar verbal outra vez. — Franco constatou. Pomba teve que concordar.
— Isso acontece, mesmo.
Alê pensou por um instante.
— Eu estou aqui. — respondeu, como se isso encerrasse a lógica.
Franco sorriu.
— Agora está.
Pomba continuou, sem pressa:
— E você tenta resolver tudo falando mais rápido do que o necessário.
Franco abriu a boca, pensou, e fechou.
— Isso é tipo… Ser eficiente, meu bem. — tentou.
— É ser ansioso, meu bem. — Pomba corrigiu.
Alê completou, olhando para Pomba:
— E você fica observando tudo.
Pomba respondeu, em uma pausa — … Sim.
Silêncio breve. Não desconfortável, apenas cheio o suficiente para não precisar de palavras.
Franco soltou, mudando de assunto de forma banal:
— Ok… Cadê o meu celular?.
Alê olhou para ele, completamente sério.
— De novo? Você perdeu ele hoje cedo.
— Eu não perdi, não! Só não tava achando.
— Ele está na geladeira. — Pomba disse, sem pensar muito. Não tinha certeza, mas também não tinha dúvidas.
Franco congelou por alguns segundos.
— … Por que ele estaria na geladeira?
Alê demorou meio segundo a mais do que o esperado e, por fim, entendeu o raciocínio de Pomba.
— Você colocou lá. Enquanto roubava o meu bolo... — respondeu.
Franco ficou em silêncio, processando com uma mão no queixo.
— … Ah, bem, faz sentido. — Quando se levantou e foi até a geladeira, encontrou seu celular lá, congelando.
Pomba passou a mão no rosto. Alê fingiu que nem conhecia. Mas, no fim, ambos caíram na risada.
Ali ficaram, convivendo com as pequenas falhas uns dos outros como parte do mobiliário da relação. Eram provavelmente reclamações que se repetiriam mas, sinceramente, nenhum dos três se importava com isso. Apenas estarem ali, aproveitando mesmo com cada alfinetada, era o que importava.
