Chapter Text
O último show com sua família.
Alívio. Apenas isso poderia resumir o que se alastrava pelo corpo de Michael — não importava o quanto seu pai estivesse puto com o rumo que a noite tomara, não importava se seus irmãos estivessem com raiva dele por não ter comunicado o fim dos Jacksons e ainda ter feito isso de forma abrupta, no final do show, na frente de milhões de pessoas.
O importante é que o show fora perfeito, com recorde de vendas de ingressos; do camarim, ainda era possível ouvir os gritos da plateia, mesmo agora, após o fim da apresentação.
Mas por que, mesmo assim, ele se sentia tão só?
Mesmo em uma noite perfeita como aquela, o vazio parecia ainda mais profundo em seu peito. O alívio dava lugar ao desespero, gradualmente.
Michael pensava que, finalmente se livrando do pai, o vazio seria preenchido pela liberdade. Era bom ser livre — ou pelo menos era o que ele via escrito nos livros. Porém, agora, na vida real, ele percebeu: era liberdade demais para alguém que sempre vivera na rédea curta.
Ele desceu os pequenos degraus que davam para o "camarim", que mais parecia um salão de festas recheado de pessoas ricas — gente que não dava a mínima para nada além de montantes de dinheiro. Tentou com todas as forças passar despercebido, chegar à sua sala privada, trocar de roupa e finalmente ir embora. Mas, ao passar por um grupo de pessoas, avistou sua doce mãe e, infelizmente, teve de diminuir o passo para se despedir dela.
Ela ficaria muito chateada se ele sumisse sem falar.
"Mãe, estou indo embora, ok? Vou ficar bem" sussurrou próximo ao ouvido dela, dando-lhe um beijo carinhoso na testa. Sua mãe, em resposta, deu-lhe um aceno de cabeça e beijou sua bochecha. Ela sempre conseguia sentir quando ele estava a ponto de colapsar.
Michael afasta-se da mãe em seguida. Seu destino ainda é ir embora daquele ninho de cobras. Porém, seu novo empresário — que de bobo não tem nada — aproveita a deixa e, como um fantasma, aproxima-se. Quase como num passe de mágica, com um toque em seu antebraço, solicita que Michael fale com alguns potenciais investidores — e, mesmo que educadamente, Michael vê em seus olhos que ir embora não era uma opção.
E bem, Michael iniciará sua turnê solo logo logo. Mesmo não querendo, precisa fazer o papel de bom artista para aqueles ricos prepotentes.
☆
*Som de copos caindo.*
"Meu Deus, você por acaso é cega, criatura?" Algum rico convidado para o pós-festa colide com Lucy enquanto ela levava uma bandeja com copos de uísque para os empresários que zanzavam pelo salão — mas principalmente para aqueles que estavam próximos de Michael. Eles o encurralaram de uma forma estrategicamente impossível de ele escapar; aqueles malditos pareciam um Opala: bebiam álcool como se fosse água.
"Desculpa, eu não o vi." Ela o viu. Até tentou desviar. Mas aquele brutamontes parecia uma pedra e nem se deu ao trabalho de evitar a colisão.
Os copos caíram no chão. O líquido se espalhou como um riacho, deixando tudo grudento. O cheiro de álcool subiu no ar igual a um doce perfume, fazendo o corpo de Lucy tremer em leves espasmos. Fazia tanto tempo que ela não bebia. A temporada de abstinência fora vencida havia cerca de seis meses, mas, às vezes, ela sentia que apenas um pequeno gole a faria realmente feliz.
"Limpe isso agora" sussurrou o gerente Marcos ao passar por Lucy e, em seguida, dirigiu-se ao ricaço com quem ela trombarra, pedindo desculpas.
"Perdoe-me, senhor Julian. Ela é nova."
"Tudo bem. Eu entendo como esses novatos sempre dão trabalho."
Lucy revirou os olhos e seguiu em direção ao pequeno lago de uísque que se formara próximo a seus pés. Ser menosprezada por gente de classe alta fazia parte de seu cotidiano; ela não ficaria para saber como mais ele a ofenderia.
Ela olhou para o chão e admirou a qualidade dos copos: eles nem sequer tinham trincado com a queda — e ela agradeceu internamente por isso. Seria muito mais difícil limpar a bagunça com estilhaços de vidro espalhados, levando em conta a quantidade de pessoas presentes.
Lucy recolheu os copos caídos e os posicionou de qualquer maneira na bandeja. Foi rápida: deixou a bandeja na cozinha improvisada que montaram no canto do salão e retornou com um pano úmido e um balde.
Começou a limpar todo o chão onde o líquido amarronzado, com forte cheiro de carvalho, podia estar. Ao finalizar a limpeza, que não levou nem três minutos, Lucy percebeu que o clima ao seu redor mudara. Vozes altas começaram a ser ouvidas, junto com muitos sussurros.
"O pai dele deve estar enfurecido para fazer uma cena dessas."
"Ouvi dizer que ele não sabia que seria o último show dos filhos juntos" ouviu uma garota sussurrar para a provável amiga, pois estavam muito próximas.
Lucy levantou e largou os utensílios de limpeza em qualquer canto. Ninguém ia perceber mesmo; estavam todos vidrados no centro do salão, onde Michael Jackson estava sendo, de certa forma, coagido por Joseph. Lucy conhecia toda a família Jackson pelos jornais. Estava ali pelo dinheiro, óbvio, mas, querendo ou não, ela era fã daquelas pessoas.
Lucy não conseguia ouvir tudo. Os sons do salão abafavam as vozes. Mas ela via.
Viu o pai — Joseph, aquele homem de olhos duros que todos conheciam dos bastidores — inclinar-se sobre Michael como um urso sobre a presa. O rosto dele estava vermelho, e as mãos tremiam como se a raiva estivesse transbordando de seu corpo. Será que ele vai bater no filho na frente de todo mundo? — Lucy chegou a se perguntar, mas logo voltou a prestar atenção. A boca de Joseph se movia rápido demais, cuspindo palavras que ela não conseguia decifrar.
Michael, por outro lado, estava parado.
Muito parado.
Os ombros não se contraíam. O queixo, firme. Os olhos, secos. Não era medo. Também não parecia arrependimento. Era outra coisa. Era como se ele nem estivesse ali. Sabe quando a gente desaparece dentro de si mesmo para tentar ver a situação de outra perspectiva?
Dissociação. Era isso que Michael parecia estar fazendo.
Lucy se encostou na parede, tentando ficar ainda mais invisível no meio de tanta gente. Ela não queria perder nada do que estava acontecendo. Não deveria estar ali olhando. Deveria estar indo à cozinha, pegando mais copos, servindo mais uísque para aqueles homens de terno caro que a olhavam como se ela fosse nada.
Mas ela não conseguiu sair.
Os olhos dele a encontraram.
Michael a viu.
Por um instante — breve, tão breve que Lucy pensou ter imaginado — o rosto dele mudou. Não o bastante para que os outros percebessem. Mas ela percebeu. Ela sempre observa mais do que devia.
Era como se ele tivesse tropeçado em algo. Em alguém.
Nela.
Os olhos dele diziam coisas que a boca não podia. Você consegue ver, né? Você me entende? Não é sobre o que parece.
Lucy prendeu a respiração. Por um segundo, o salão sumiu. Os sussurros, o cheiro de uísque, o brilho dos copos. Tudo.
Sobrou só ele.
Então Michael piscou. Desviou o olhar primeiro. Voltou a encarar o pai como se nada tivesse acontecido.
Lucy soltou o ar devagar. Guardou aquele olhar num lugar seguro, dentro do peito.
Lucy sabia seu nome. Sabia, por alto, a história dos Jackson, das músicas, das rédeas curtas. E conseguia imaginar, com uma certeza que doía, que ele era tão só quanto ela. E que nenhum dos dois faria nada sobre isso.
Ela viu o segurança antes de entender o que estava acontecendo.
Um homem grande. Muito grande. Surgiu de algum lugar do salão — Lucy não viu de onde — e se enfiou entre Michael e Joseph como um muro de carne e osso.
Bill. Ela já tinha ouvido o nome. O segurança particular de Michael.
Os irmãos de Michael também apareceram. Dois, três, quatro deles. Não para gritar ou causar ainda mais problemas. Para segurar Joseph. Para apaziguar.
"Acabou, Joseph." A confusão parecia um rio prestes a transbordar. Mas Bill segurou a barragem.
Bill não gritou. Ele nem precisava. A voz era baixa, grossa, como um trovão distante. Mas, de alguma forma, todos no salão ouviram.
Lucy ficou paralisada.
Nunca vira tamanho vexame num lugar com tanta gente importante. Olhou ao redor, rápido. Os empresários de terno caro fingiam não olhar, mas olhavam. Os copos de uísque pararam no ar. Até os sussurros pareciam ter sido engolidos por um silêncio constrangedor.
Ela chegou a pensar: talvez seja encenado.
Gente famosa gosta de atenção. Isso ela sabia. Já vira assessores combinando brigas de casal para sair em revista, já ouvira histórias de artistas que pagavam para ser fotografados chorando.
Mas aí ela lembrou de Michael. Mais especificamente, do corpo dele.
Da forma como ele se retraíra — por um segundo, apenas um segundo — quando Joseph se aproximou. Não foi um movimento grande. Quase ninguém teria notado. Mas Lucy notou.
E quando Joseph gritou...
O corpo de Michael tremeu.
Não foi encenação. Não tinha como ser.
Aquele tremor veio de algum lugar fundo, de dentro dos ossos. Um reflexo antigo. Uma coisa que o corpo aprende e a mente não consegue apagar, mesmo depois de anos, mesmo depois de toda a fama do mundo.
Lucy engoliu em seco. Não. Aquilo não era teatro. Era sobrevivência.
E disso ela conhecia.
Ela viu Bill colocar uma mão no ombro de Michael. Não bruscamente. Com cuidado, quase como um pai. Depois, conduziu o rapaz para fora do salão, em direção a um corredor que Lucy nunca tinha notado antes.
Dava para o estacionamento.
Michael não olhou para trás.
Joseph, porém, não conseguia desviar os olhos. Observou o filho sumir no corredor — passo firme, costas retas, sem hesitar. Lucy viu o momento exato em que Joseph entendeu.
Não adiantava mais gritar. Não adiantava tentar.
Todos estavam contra ele.
O próprio sangue.
Joseph ficou ali, parado, os punhos cerrados, o rosto ainda vermelho. Os irmãos de Michael se afastaram devagar. Você conseguia ver em seus rostos o alívio por tudo ter acabado sem agressões. Eles deixaram o velho sozinho no meio do salão, como quem se livra de um cachorro no acostamento; nem ao menos olharam para trás para certificar-se de que Joseph estava bem.
Lucy desviou o olhar primeiro.
Ela pensou em Michael sumindo pelo corredor. Em Joseph encolhendo sozinho no meio da festa. Em famílias que se pareciam menos com famílias e mais com campos de batalha.
E se lembrou da sua.
☆
"Para onde devemos ir, senhor?" Bill questiona Michael quando estão seguros dentro do carro.
Já estavam a uns bons minutos andando sem rumo. Bill não quis atrapalhar Michael; ele parecia precisar de tempo para pensar no que acontecera.
É de conhecimento geral o quanto Michael, mesmo não querendo, é dependente emocionalmente da família. Pode parecer bobo e até um pouco injusto, mas ele se sentia responsável por eles. Afastar-se deles estava sendo como partir-se ao meio.
"Já pedi para me chamar apenas de Michael, Bill. O apartamento temporário que solicitei para alugarem e mobiliarem está pronto?"
O apartamento em questão era próximo da produtora. Foi alugado há meses e era temporário enquanto os trâmites de um rancho estavam em andamento. Ele sabia que não teria como voltar ao estúdio que usava na casa dos pais depois que informasse o fim da turnê — e nem queria. Então, precisava pensar em um modo de poder ficar perto daquilo que amava fazer. E era a única coisa que o distraía das dores.
"A reforma foi finalizada há umas duas semanas, porém não está completamente mobiliado e talvez precise de uma limpeza."
Na verdade, Bill um dia antes tinha ido fiscalizar tudo. Já estava praticamente pronto, mas muito empoeirado, e ele achou que não seria utilizado tão cedo. Por isso, nem sequer contratara uma empregada.
"Bem, vamos para lá mesmo assim. E ligue para o gerente que estava cuidando do buffet e pergunte se teria alguém disponível para trabalhar como empregada, ao menos por hoje."
Michael não estava com disposição para limpar nada. Só queria a paz de ficar sozinho.
"Não cite que é para mim. Ele pode mandar algum fofoqueiro, e não estou com tempo para lidar com esse tipo de coisa hoje."
"Ok, chefe."
Michael revira os olhos — já se passaram anos, e Bill continua o chamando de chefe.
Bill observa que o carro está quase na reserva e encosta em um posto de gasolina para abastecer. Ao sair do automóvel, aproveita e liga para Marcos, seu velho conhecido e a quem sempre contrata para esse tipo de ocasião.
ligação on
— Oi, Marcos. Preciso de alguém para trabalhar como doméstica só por hoje. Apenas limpeza básica, sabe?
— Oi, Bill. Boa noite pra você também. É para alguém importante?
— Não, Marcos. É para mim mesmo. Minha casa está uma zona.
— Ah, entendi. Temos a Lucy, a free-lancer que sempre contrato quando alguém do time falta. Ela é ótima, mas cobra caro para quem vive de bicos.
— Não tem problema. Vou enviar o carro que vai esperá-la no estacionamento. Apenas lembre de me mandar uma mensagem quando ela estiver a caminho.
— Tudo bem. E como você...
Bill desliga em seguida.
ligação off
Se Bill desse trela, ele ia perguntar até sobre a mãe dele. Tanque cheio. Hora de partir.
"Tudo certo, chefe" Bill diz ao entrar no veículo. Mas, quando olha pelo retrovisor, observa Michael dormindo, com a testa encostada no vidro da porta.
Bill, mesmo não querendo, vê em seu chefe um filho que ele ainda não teve. Seu senso de proteção chega a gritar toda vez que vê aqueles olhos vermelhos de lágrimas que ele não deixa cair.
O ressonar de Michael é sua trilha sonora até o apartamento.
