Chapter Text
Ser pai solteiro de gêmeos não era nenhuma brincadeirinha, mas Doh Kyungsoo conseguia muito bem tirar de letra. Mesmo que pisasse em um sapatinho de boneca aqui, que escorregasse em carrinhos Hot Wheels e caísse ali — o que rendia vários xingamentos mudos, já que não podia xingar na frente das crianças —, mesmo que tivesse que lidar o tempo todo com bagunça, roupa suja e muito prato pra lavar… Ele sempre tinha um lindo sorriso para oferecer para os seus filhos, e isso lhe resumia como pessoa.
Como um homem solteiro e pai de primeira viagem, acontecia bastante de ter dificuldade para saber o que fazer, mas sempre dava um jeito. Por vezes precisava recorrer a tutoriais no YouTube, cursos de paternidade, e em último caso, até aos próprios pais. Nunca deixou seus filhos na mão, em nenhuma ocasião. Na verdade, era mais fácil ele desdenhar de seus próprios desejos do que os dos filhos. Sempre deu a eles os melhores brinquedos, a melhor educação, a melhor alimentação… Abriu mão de muita coisa, mas não se arrependia de nada. Não quando há sete anos atrás, ganhou dois melhores amigos em miniatura.
Hana e Jihan eram os melhores filhos que poderia ter, se fosse para ser sincero. Já chegou até a escutar de um amigo que “de hack é mais fácil”. As notas na escola eram lotadas de estrelinhas e “parabéns!” das professoras, e o máximo de reclamação que recebia era por conversarem demais. Os amiguinhos? Viviam pedindo para ir para brincar juntos, e os pais confiavam tranquilamente em deixar. Até mesmo para ir ao médico ou tomar vacinas, eles eram fortes e não faziam birra — bom, na maior parte das vezes.
Kyungsoo vivia pensando que, embora sua paternidade tenha sido um pouco repentina e vindo em um momento desfavorável, ele tirou uma sorte grande com aqueles dois. Não era todo homem que conseguiria, sozinho, ser pai de dois. Mas ele conseguiu, e por sinal, criou duas crianças maravilhosas.
Exceto por uma coisinha. Um detalhe bobo, mas importante: aqueles dois eram, provavelmente, as crianças mais fofoqueiras que já existiram.
Não sabia qual foi a ocasião, mas em algum momento, Hana e Jihan fizeram amizade com o segurança do condomínio onde a família Doh morava. Não fazia ideia de onde, quando e nem como. Só o que sabia era que, entre um papo e outro, os gêmeos chegaram em casa falando que a partir dali, aquela era a profissão deles. Na perspectiva deles, havia algo muito divertido e misterioso em ser segurança, aparentemente. Lembrava ainda de ter escutado a garotinha falando algo como “esse é o melhor trabalho do mundo, só precisa espionar o que as pessoas estão fazendo”.
Foi ali que entendeu do que se tratava: nada mais, nada menos do que uma curiosidade grande até demais para duas criaturinhas tão pequenas. Dois fofoqueiros mirins, como Kyungsoo costumava chamar.
Depois desse dia, as reclamações sobre os pirralhinhos começaram a ser cada vez mais frequentes. Não foi uma, nem duas, nem três vezes que tirou suas crianças de encrencas por conta daquela tal profissão.
Em um dia, foi chamado na escola porque seus filhos foram encontrados revirando os armários da sala dos professores. E se quer saber a desculpa deles, foi apenas que estavam procurando uma prova de que o professor de educação física usava peruca. Ainda disseram que era só por motivos de pesquisa.
No outro, foi chamado na casa de um coleguinha de Jihan, porque o pequeno foi encontrado xeretando uma gaveta no quarto dos pais do amigo. E o que aconteceu em seguida? Ele apareceu perguntando “que marca de chiclete é essa?” para algo que… bom, definitivamente não era um chiclete.
Em outra ocasião, foi chamado até numa capelinha do bairro, porque seus filhos, dessa vez os dois, invadiram a casa das freiras enquanto ninguém estava olhando — e olha que nem tinha costume de levá-los para a igreja! Nesse dia, eles inclusive se recusaram a contar qual foi o motivo, o que rendeu um bom castigo de uma semana sem televisão. Mas eles nem se importavam tanto assim, porque o foco era totalmente as missões ultra-hiper-mega-secretas de vigias do condomínio.
Não sabia exatamente se era uma fase da infância, se estava fazendo alguma coisa errada na criação ou se eles só… eram daquele jeito mesmo. A única certeza era que, desde então, estava sempre em estado de alerta. Vivia com uma pulga atrás da orelha, atento no que os dois estavam fazendo para evitar possíveis infortúnios. Para preservar sua saúde mental também, vale ressaltar.
Naquele dia, como num outro qualquer, acordou preparado para aturar mais uma novela dos vigias do condomínio.
— Agente J falando. O passarinho de terno está na toca. Câmbio, desligo!
Escutou pelo walkie-talkie na cabeceira de sua cama bem na hora que despertou. Achou que fosse uma ótima ideia comprar um daqueles para cada gêmeo e um para si mesmo, para assim poder escutar os planos deles, por precaução. O problema é que começou a ser acordado cada vez mais cedo pelas vozes fininhas no sinal de rádio — mas tudo bem, desde que soubesse seus próximos passos.
— Agente H falando. O passarinho de terno desceu o elevador e agora tá subindo com duas malas pretas suspeitas. Câmbio, desligo!
Kyungsoo soprou um riso baixo e esfregou os olhos com as duas mãos, ao mesmo tempo que sentava na cama e pegava o aparelho. Pressionou o botão para falar para os dois ao mesmo tempo.
— Agente Papai falando. Os passarinhos Doh estão sob a mira do pássaro pai.
Estranhou o silêncio por alguns instantes, mas logo o canal foi aberto mais uma vez.
— Agente J na área. Cadê o final do protocolo, Agente Papai? Câmbio, desligo!
Riu, balançou a cabeça e levantou, ainda com o aparelho em mãos.
— Agente Papai falando. Esqueci completamente. Peço desculpas, meu superior. Câmbio, desligo!
Bagunçou os próprios cabelos e trocou de roupa rapidamente, ainda um pouco perdido, pensativo sobre qual poderia ser o passarinho da vez. Eles eram um pouco confusos com os codinomes, e acabavam usando os mesmos para se referir a diferentes pessoas. Inicialmente, costumava achar que “passarinho” era para falar sobre o porteiro, depois achou que era sobre o vizinho do 203, depois o zelador… e quando foi ver, não fazia mais a menor ideia de quem os pestinhas estavam falando. Era assim desde então: só descobriria na marra.
Saiu do quarto em busca de ambos, e encontrou Hana em pé em cima de uma cadeira, bem atenta no olho mágico da porta de entrada da casa, enquanto Jihan estava do outro lado do cômodo, observando a janela da varanda. Eles estavam, na verdade, perto o suficiente para que não precisassem usar os walkie-talkies, mas segundo eles, não existia “operação” sem aqueles aparelhinhos — já tinha aprendido aquilo com os dois.
— Qual é a da vez? — perguntou em voz alta, do corredor da sala, o que deu um belo susto nos dois.
— Vizinho novo, pai! — Hana contou, enquanto descia da cadeira e corria para abraçar o pai, com um sorriso largo no rosto, faltando dois dentes. Então falou arrastada, dengosa: — Bom diiiaaa…
— Ele vai morar bem aqui do ladinho, você não escutou o barulho? — foi a vez de Jihan falar, mas ainda continuava pendurado na janela, na ponta dos pés. Provavelmente estava atento demais para ir cumprimentar o pai naquele instante.
— Escutar eu escutei, mas eu não achava que isso era um problema — riu baixo. — Querem o quê pra comer?
Kyungsoo seguiu rumo à cozinha para preparar um café da manhã para os três, e os dois seguiram logo atrás, quase em fila. Por mais que estivessem em uma missão importantíssima, o café da manhã era indispensável.
A geladeira da família estava lotada de desenhos tortos presos por ímãs coloridos. Havia rabiscos de giz de cera espalhados até perto da lista de compras, e no meio deles, um papel escrito “suspeitos do condomínio” em letras tortas, garranchadas até. Em primeiro estava a Senhora Kim — a síndica —, depois o tio Yixing — que eles gostavam muito, mas desconfiavam por algum motivo —, o porteiro da cabeça raspada…
Lá no finalzinho da lista, havia um nome novo, algo que não conseguia entender completamente. “Vezinho novo” estava riscado com um X, e logo embaixo estava “vizinho novo”, circulado de canetinha rosa com glitter, além de umas setinhas apontando.
Não fazia ideia de como, mas eles já tinham uma ficha completa do rapaz ao lado. Bom, na verdade, completa é uma palavra muito forte… Mas eles tinham alguma coisa. Logo mais embaixo, estava outra folha, presa na geladeira com outro imã, falando mais ou menos assim:
FICHA DO NOVO SUSPEITO
Nome que ele falou: alguma coisa com B
Nome de verdade: não sei mas pode ser Carlos
Casa dele: a 302 aqui do lado
Nível de “pirigo”: muito muito muito muito alto
Profissão: deve ser agente secreto
Kyungsoo não sabia se queria ou não saber mais informações.
O Doh mais velho entregou uma fruta para cada um — uma tangerina para Jihan e uma maçã para Hana; as favoritas de cada um —, para forrar o estômago enquanto cozinhava algo mais elaborado. Se eles estavam tão despertos, já deveriam estar acordados já algum tempo. Aproveitou que eles estavam sentados na mesa da cozinha e um pouco mais quietinhos para perguntar a respeito.
— Mas me diz… O que o nosso vizinho novo fez?
— É que ele chegou de terno, todo chique… — comentou o garotinho, com a voz abafada por estar de boca cheia. — A gente quer descobrir o que ele é.
— E usar terno é suspeito? — Somente deu corda, enquanto quebrava três ovos na frigideira, um para cada um.
— Não, pai! — Hana fez bico, batendo o pé no chão por ele não ter entendido de primeira. — É um disfarce mal feito. Quem usa terno pra se mudar?
— E outra, pessoas normais usam bolsa. Ele fica de maleta! Na outra mão ele ainda trouxe uma pasta! — foi Jihan que comentou, enquanto ia buscar talheres e as louças para ajudar o pai. — É tudo muito abscuro.
— Obscuro — corrigiu automaticamente. — Às vezes ele pode estar pronto pro trabalho, quem sabe.
— Pro trabalho no FBI, com certeza — A menininha complementou.
FBI? Kyungsoo pensou, confuso. Não conseguia passar por sua cabeça nem sequer de onde eles tiravam aquelas ideias. Eles viam um homem de terno e a primeira coisa que eles pensavam era em um agente do FBI?
— Isso era confidencial, noona! — O gêmeo resmungou logo em seguida.
— Mas o pai também é vigia!
Embora Kyungsoo estivesse completamente entretido com aquela mini discussão do Tico e do Teco, focou suas energias em terminar o café da manhã — leite para os pequenos e café para si mesmo, um pãozinho com ovo para todos e um prato de mais frutinhas cortadas para dividirem. Ao fundo, escutava os cochichos, imparáveis.
— As malas dele são o disfarce perfeito para esconder o material confidencial… — Jihan foi falando em sussurros nada baixos, enquanto fingia anotar algo no caderno. Talvez anotasse mesmo, mas a letra era tão ilegível que pareciam apenas rabiscos.
— E o caminhão de mudança? Ele não precisa de tanta coisa em um apê… — a menina falava, enquanto batucava o walkie-talkie pendurado no pescoço.
— E ele tá sozinho! Pra que ele precisa de dois sofás?
— Ele também carregou uma caixa sozinho — Hana adicionou. — Acha que ele tem superforça?
— Mas ele pediu ajuda pro moço do caminhão… — deixou o dedo no queixo, pensativo.
— Hmm… — pensou em como contrariar. — Agentes também cansam, Jiji. Tipo o pai e a gente quando vai dormir.
— Tem razão. — o garotinho deu de ombros, e não demorou quase nada para esquecer do que estava retrucando poucos instantes atrás. Era fácil quando tinham um assunto novo de tanto interesse na ponta da língua.
O Doh mais velho serviu a mesa com carinho, e viu a atenção deles na briga se dissipar enquanto eles pegavam cada um sua porção. Era interessante observar o quanto o foco deles era seletivo e… desfocado. Tentava muito, tentava de verdade acompanhar como a cabecinha de criança deles funcionava, mas sempre se perdia no meio do raciocínio. Ao menos, era engraçadinho.
Estava tudo se normalizando aos poucos. O café da manhã estava voltando a ser o foco. No entanto, enquanto servia a si mesmo, a campainha tocou repentinamente. E é claro que todos os planos de acalmar o dia foram por água abaixo.
— Ele nos descobriu! — os gêmeos disseram em uníssono, e o Doh mais velho engasgou em um riso.
— Esperem aqui, tá bom? Nada de assustar o cara.
Kyungsoo limpou rapidamente as mãos em um pano de prato antes de seguir até a porta, ainda escutando os cochichos desesperados dos gêmeos atrás de si.
— Ele sabe demais, Nana… — Jihan comentava, exageradamente preocupado.
— Será que ele tá armado? FBI usa arma, Ji! — a gêmea respondia, aumentando o tom da voz no mais puro desespero.
— Shhh! Ele vai escutar!
De quebra, os dois ainda se esconderam por trás do arco que separava o corredor da sala, só o topinho da cabeça de cada um aparecendo. O Doh mais velho precisou morder o interior da bochecha para não rir enquanto destrancava a porta.
Não esperava que fosse, de fato, dar de cara com o vizinho novo.
— Bom dia!
Ele falou em um tom gentil e educado, mas Kyungsoo o observou por um momento antes de responder. De fato, era um pouco fora do usual ver alguém tão bem trajado tão cedo da manhã assim, e principalmente enquanto fazia uma mudança. Porém, lá estava ele. Parecia um pouco perdido e agitado, mas tinha algo nele que parecia explicar o motivo de ele tomar tanto o foco de seus filhos. Ele realmente chamava atenção.
— Bom dia! — Kyungsoo respondeu, uns dois ou três segundos depois.
Ele tinha trejeitos gentis e educados, mas não parecia tímido. Estava todo engomadinho e arrumado, com o terno muito bem alinhado. Era um pouco mais alto que Kyungsoo, mas não chegava a ser alto. Ele também era bonito. Bastante bonito, se fosse reparar bem. E a cereja no topo do bolo foi quando ele abriu um sorriso para o Doh. Era provavelmente o sorriso mais caloroso que via em uns bons anos — ou talvez, só estivesse há tempo demais sem conversar com ninguém de fora de seu nicho.
Havia alguma coisa levemente contraditória nele. O terno alinhado passava uma mensagem, mas as mangas levemente dobradas, e o cabelo um pouco desalinhado pela correria da mudança passavam outra. A maleta encostada nos pés diziam uma coisa, mas a mala com estampa do Sonic que o ajudante carregava até sua casa dizia outra. Por algum motivo, sentiu que ele era um cara divertido, ou no mínimo esquisitinho.
O jeito expressivo denunciava que ele era extrovertido. Ou pelo menos, que não era tímido. Parecia incapaz de ficar parado, mexendo nas mangas do terno, bagunçando o próprio cabelo e mudando o peso do corpo de um pé para o outro. Agitado, provavelmente — e com isso Kyungsoo sabia lidar muito bem. Também parecia empenhado demais em causar uma boa impressão, de um jeito quase fofo. O sorriso meio desajeitado e constante no rosto entregava isso muito facilmente.
Kyungsoo não fazia ideia do que lhe atentava tanto nele. Só sabia que estava lá.
— Eu sou Byun Baekhyun, é um prazer te conhecer. Vou ser seu vizinho de porta daqui pra frente! — esticou a mão em sua direção.
— Doh Kyungsoo, é um prazer. — sorriu pequeno, estranhamente acanhado, enquanto trocava um aperto de mão com ele.
— Eu vim aqui pra me apresentar e também pra pedir desculpas pelo barulho… — ele suspirou baixo e coçou a nuca, antes de seguir falando. — Eu tinha marcado a mudança para começar às cinco, mas esqueci de especificar que era cinco da tarde. Não sei se você trabalha aos sábados, mas eu trabalho e tive que faltar de última hora… Foi complicado. Mas enfim! — interrompeu a si mesmo, divagando. — Só vim me desculpar pelo barulho tão cedo de manhã, sei que isso é uma chatice.
Percebeu que ele falava rápido demais. Não sabia se ele estava se embolando por estar nervoso, ou se ele estava ansioso, mas também tinha a possibilidade de ele só falar desse jeito mesmo. Kyungsoo pendeu a cabeça levemente para o lado, uma expressão engraçada no rosto, digna de alguém que estava tentando acompanhar o ritmo.
— Não se preocupe — sorriu de volta, educado, balançando a cabeça em negação. — Sábado é um bom momento pra fazer mudança, só tem a gente nesse andar e eu só trabalho durante a semana mesmo. E barulho é o de menos por aqui, sendo sincero.
O Doh apontou com a cabeça para o corredor, e foi aí que Baekhyun encontrou os quatro olhinhos encarando a porta, escondidos.
— Mayday! Abortar missão! — um dos pivetinhos falou, e os dois saíram correndo em direção ao quarto.
— Eu bem que tinha percebido alguém me encarando muito pela janela… — Baekhyun deu uma risada alta e assentiu com a cabeça. — Espero não ter assustado eles.
— Imagina — negou de imediato. — É mais fácil eles assustarem você, sinceramente. Eles estão em uma fase… complexa. Acho que é a crise dos 7 anos.
— Da curiosidade, né? Meu sobrinho já teve algo parecido — o novo vizinho se esgueirou levemente, na tentativa de ver os dois, mas agora eles estavam, de fato, escondidos. Ia precisar de uma distração mais forte para que eles voltassem sem medo. — Eles querem saber de mim?
— Pior — apontou. — Eles estão teorizando sobre você. Acham que você é do FBI, por algum motivo. E antes que pergunte, eu também não sei qual.
Baekhyun franziu o cenho por alguns instantes, então alisou as próprias têmporas com as mãos, entre um estralar de língua no céu da boca, dramaticamente. O Doh arqueou uma sobrancelha, confuso.
— Eu sabia que a minha identidade secreta seria descoberta cedo ou tarde…
E pronto, foi suficiente para Kyungsoo engasgar em um riso alto e genuíno, precisando até cobrir o rosto com as mãos. Ele estava mesmo engajando naquela loucura de seus filhos!
— Cuidado pra não falar isso na frente deles, senão eles acreditam mesmo — apontou o indicador para ele.
— E você não acredita? Meu raio laser está lá dentro como prova.
No mesmo instante, o walkie-talkie de Kyungsoo, que estava jogado na mesa de centro da sala, apitou com a voz de um deles. Os dois se viraram, atentos para onde vinha o barulho.
— Agente J falando. Papai, abortar missão agora mesmo! O suspeito confessou, precisamos fugir! Câmbio, desligo.
Baekhyun não poderia acreditar no que estava ouvindo. Suas bochechas chegaram a doer com o tanto que riu com aquilo. Não as conhecia oficialmente ainda, mas estava admirado com o quanto eles eram criativos.
Fazia tempo que não entrava em um ambiente tão vivo. Tão barulhento daquele jeito específico que só famílias pareciam conseguir ser. Aquele apartamento parecia morno e divertido. Só naquele primeiro contato, via desenhos espalhados, brinquedos jogados pela sala, cheiro de café recém-passado e um barulho confortável, típico de criança sendo criança.
No meio de tudo aquilo, Kyungsoo parecia estranhamente calmo. Calmo daquele jeito de quem arranjou pertencimento no meio da baderna.
— Eles são sempre assim?
— Você não faz ideia…
Os dois riram baixo, um riso genuíno, quase cúmplice. E então, sem perceber exatamente como e porque, o riso foi morrendo devagar enquanto continuavam se olhando por tempo demais.
Kyungsoo só percebeu aquele olhar demorado quando, aos poucos, ficou estranhamente consciente do sorriso alheio. Do jeito que Baekhyun estava encostado no arco da porta, com os braços cruzados contrastando com uma pose descontraída, inclinado levemente para dentro do apartamento sem nem notar. Do perfume leve vindo dele, misturado com cheiro de papelão de mudança e café recém-passado.
Baekhyun, por sua vez, parecia distraído demais encarando o brilho divertido nos olhos do outro homem. Ou talvez a forma como ele claramente estava tentando não rir da própria situação. Ou então os lábios carnudinhos, quase imperceptivelmente melados de ketchup no cantinho.
Kyungsoo foi o primeiro a quebrar o olhar, desviando rápido enquanto bagunçava os cabelos, estranhamente consciente de si mesmo de repente.
— Enfim — Baekhyun afastou-se um pouco. — Vou deixar você e seus vigias em paz agora e seguir com as minhas coisas do FBI, viu? — coçou a nuca, com um sorriso enviesado e até um pouco constrangido. — Olha, mais tarde, quando minha mudança estiver pronta, prometo que trago um bolo de pedido de desculpas pelo barulho.
— Nem precisa esquentar com isso, certo? — Kyungsoo fez questão de reiterar. — Mas se for te deixar contente, tudo bem. Eu aceito o bolo.
— FBI faz bolo? — A voz vinda lá no fundo do cômodo interrompeu. Era Hana, que tinha voltado só para ver novamente o vizinho, mas se distraiu com a conversa.
— É parte da sua missão? — Jihan apareceu logo atrás, parcialmente escondido na irmã, que era só um pouco mais alta.
Kyungsoo correu o olhar entre eles e o vizinho, mas suavizou a expressão ao ver que ele não parecia incomodado. Muito pelo contrário, parecia entretido.
— Essa informação é confidencial, vigias — ele informou, e um dos dois cochichou um “como ele sabe que somos vigias?” — Mas se vocês forem promissores, posso compartilhar com vocês no futuro.
— Estamos de olho em você!
— E eu estou em todo o país, cuidado — o tal agente do FBI deu corda, enquanto dava uma piscadinha discreta para Kyungsoo. Voltou o olhar para os moleques, apontou para os próprios olhos e em seguida para eles. — Mas agora preciso ir! Minhas missões me aguardam lá em casa.
— Nós ainda vamos descobrir qual é o seu plano! — a menininha gritou de longe, enquanto os dois orquestravam alguma coisa do sofá, falando em sussurros.
— Tchau, Baekhyun — Kyungsoo disse, educadamente. — Foi um prazer te conhecer. Desculpa aí qualquer coisa, Hana e Jihan são meio doidos.
— Nada, magina — ele deu outro daqueles sorrisos calorosos, que acabou contagiando o outro rapaz. — Tchau, tchau! Depois nos conhecemos melhor. Obrigado pela recepção.
Assim que fechou a porta, Kyungsoo soltou uma risada baixa pelo nariz, balançando a cabeça para os lados enquanto voltava para a cozinha. Atrás dele, dois pirralhinhos mais espevitados e dispersos do que nunca seguiam conversando e planejando as próximas expedições para descobrir a missão do vizinho. Quase se esquecem do café da manhã e da programação que tinham feito para o final de semana, que ainda envolvia cursinho de inglês, natação em família, parquinho de tarde… Como um sopro, nenhum outro assunto surgia além do novo vizinho.
— A gente precisa descobrir o nome verdadeiro dele — Hana cochichou, como se o homem tivesse dez identidades secretas diferentes.
— E achar o raio laser. — Jihan complementou, sério.
— E se ele estiver em um esconderijo? Todo agente secreto tem um esconderijo, Jiji — falou como se fosse óbvio.
— Por isso mesmo que a gente vai investigar, bobinha.
— Não me chama de bobinha! — deu um toco na cabeça do irmão. — Eu sou mais velha que você.
— Só oito minutos!
Kyungsoo soltou outra risada baixa enquanto levava as xícaras até a pia. Não conseguia nunca ficar sério quando estava na presença daquelas duas criaturinhas. Era até curioso, porque antes de virar pai, costumava ser considerado até meio fechado por outras pessoas. Agora, vivia de sorrisos de um lado para o outro. Talvez fosse bobo exatamente igual aos próprios filhos.
— Vamos cada um pra um banheiro tomar banho, espertinhos? — Kyungsoo apontou. — Vocês não vão conseguir fugir da natação hoje de novo. Já não fomos no sábado passado!
— Mas pai! — Jihan reclamou. — E a missão?
— Vai ficar pra mais tarde. — retrucou.
— Mas a gente quer ficar e descobrir o padeiro do vizinho novo. — Hana falou, com um bico enorme enquanto levava os pratos para a pia.
— Paradeiro — corrigiu mais uma vez. — Só depois da aula. Agora andem logo, vai, vai!
Saiu empurrando os dois pelo corredor insistentemente, vendo-os se arrastarem resmungando por pura preguiça. Preguiça essa que foi embora logo depois que ouviu um dos dois — nem sabia qual — falar que se eles acabassem mais rápido, poderiam voltar mais cedo para casa. Não deu nem dois segundos para que acelerassem o passo, ansiosamente.
Talvez toda essa história de vizinho novo fosse lhe causar um pouco de dor de cabeça. Mas enquanto via seus dois filhos correndo pela casa, como se tivessem acabado de fazer um novo melhor amigo, achou que talvez não fosse uma dor de cabeça tão ruim assim.
