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Verdades Não Ditas

Summary:

Ter o poder de retroceder o tempo era uma benção e uma maldição, pois fazia os sentimentos de Max colidirem como se o fato de não poder viver os momentos perdidos com Chloe fosse a parte mais dolorosa de sua vida. Elas estavam juntas de novo, mas Max precisava dizer tudo o que sentia, pois talvez assim, poderia deixar de vez o passado para trás e aproveitar o presente com toda a intensidade que merecia.

[ PriceField | Comfort Love | Pós-Reunion ]

Notes:

Olá ~

Mais uma vez sumi, mais uma vez apareci e assim seguindo a vida, né? Sei que tô (muito) atrasada com o capítulo extra da minha última fic, mas um dia sai, sigo esperando o bloqueio com a história passar.

Enfim, assisti a uma gameplay de Life is Strange Reunion e meu amor por PriceField voltou com força - elas foram praticamente meu primeiro casal sáfico favorito da vida (e AmberPrice também ok) e revisitar esse universo foi lindo demais, mesmo que o jogo não seja perfeito. Só o fato de trazerem Chloe de volta, já foi o suficiente para me fazer feliz pelo resto desse ano. Sendo assim, trago uma fic fofinha para aquecer nossos corações, já que nós, fãs desse shipp, sofremos por tanto tempo.

(ah, muita coisa desses onze anos lembrei de cabeça, perdão se houver algum erro ou falta de precisão! ><)

Espero que goste e tenha uma boa leitura!

Work Text:

 

Capítulo Único - Carta Aberta

 

Não havia sido muito fácil escapar da chuva que estava a ameaçar o dia todo, mas por sorte, Max conseguiu correr e alcançar a porta de vidro do hotel antes que as primeiras gotas a atingissem. Ela gostava de observar e ouvir a chuva, mas andar na rua era complicado quando se estava sempre com uma câmera cara consigo. E ao lembrar daquele detalhe, obviamente ela puxou a máquina e bateu uma foto do movimento do lado de fora, como algumas pessoas apertando o passo e o céu nublado pintavam uma imagem boa para se guardar. Satisfeita com o resultado da fotografia, Max sorriu pequeno e seguiu para o elevador, seu quarto ficava no quinto andar. Ela não era muito fã de lugares altos, no entanto, não havia muitas opções quando não tinha uma casa fixa. Não se arrependia daquela decisão de maneira alguma, na verdade, sabia que havia feito a escolha certa ao abrir a porta do quarto e se deparar com a mulher de cabelos verdes sentada perto da escrivaninha, concentrada ao ler vários papéis, provavelmente contratos com a banda a qual gerenciava. Ficou observando-a por alguns segundos, uma mistura de paz, alívio e pensamentos conflitantes ao mesmo tempo, frutos de todos os acontecimentos que trouxeram Chloe de volta para ela. Por mais loucas e inacreditáveis que fossem aquelas circunstâncias, Max sempre se pegava agradecendo à vida, ao universo, ao destino… a Deus? Ela mesma não sabia de quem era a responsabilidade, só sabia que não desperdiçaria aquela chance de novo. Piscou algumas vezes e voltou à realidade, fechando a porta de vagar para não chamar atenção, mas não deu muito certo.

 

— Chegou cedo. — Chloe falou sem precisar olhar para a fotógrafa, logo pegando outra folha da mesa. — Pensei que a sessão para a revista fosse demorar mais.

 

— Pois é, a equipe quis terminar antes por conta do clima. — Max colocou a bolsa com a câmera pendurada no gancho perto da porta e se aproximou. — Felizmente, deu tempo de chegar aqui sem pegar chuva.

 

— Nem notei que tinha começado a chover. — Chloe se deixou relaxar na cadeira e esticou os braços.

 

— O que é toda essa papelada? Contratos? — Max perguntou assim que se sentou na cadeira que havia por perto.

 

— É. Alguns lugares entraram em contato para a banda tocar em lugares maiores, aí sabe como é, uma tonelada de burocracia. — Explicou e suspirou em seguida. Chloe sentia-se cansada, porém feliz pelo trabalho estar indo bem. — Mas não posso reclamar, as meninas lutaram muito por isso. Elas merecem.

 

— E você também. — Max fez questão de enfatizar, mesmo que a namorada às vezes não enxergasse o quanto era esforçada também. — São tantos anos junto da Batom Barato, quer dizer… Vocês todas são um time e tanto. Acho linda a forma como vocês lidam com as coisas, mesmo quando algum erro acontece. Se elas não tivessem uma empresária tão dedicada, o caminho certamente seria mais difícil.

 

— Boa tentativa, Supermax, mas não vai me fazer chorar em plenas quatro horas da tarde, tá? — Brincou Chloe, fazendo-a rir. — Tô ligada em tudo que a gente passou na estrada esse tempo todo, por isso tô feliz pra caramba que as coisas estão finalmente indo para um lugar que a gente sempre sonhou. Único obstáculo é prestar atenção e não cair em golpe, mas isso eu resolvo.

 

— Sem violência, né…? — Disse Max, com o olhar estreito.

 

— Claro que sim. — Chloe respondeu como se fosse óbvio, porém sabia que não era e isso era o mais engraçado. Não era fácil manter a calma quando haviam ótimas oportunidades para quebrar a cara de algum pilantra por aí. — A não ser que seja necessário.

 

— Tá bom. — Apenas aceitou após cruzar os braços e dar uma risadinha. — Quer ajuda com isso?

 

— Não precisa, tô de boa. — Chloe voltou a olhar a bagunça em cima da mesa. — Já tá quase acabando.

 

— Certeza? Lembra que amanhã a gente precisa sair cedo daqui, temos um longo caminho até Los Angeles.

 

Sem querer, Max acabou percebendo que o sorriso fechado da namorada escondia algo que há muito tempo elas não falavam sobre. Estava na cara que a cidade para qual iriam traria recordações que podiam ser dolorosas para Chloe e, o que menos queria era vê-la mal novamente. Pensar em tudo aquilo fazia Max voltar à ferida que nunca se fechou em seu coração e, talvez a hora de falar tivesse enfim chegado, por mais que quisesse evitar.

 

— O que foi? Ficou calada de repente. — Chloe inclinou-se levemente para alcançar seu olhar distante.

 

— Não se preocupe, eu só… — Olhou para a palma das mãos, frias pelo clima e pelo nervosismo que subia gradativamente. — Desculpe, Chloe.

 

— Pelo que, exatamente? — A dúvida era genuína.

 

— Por tudo. — Finalmente a coragem para botar aquele sentimento amargo para fora havia lhe encontrado. — Sei que já conversamos sobre isso, mas foi há tanto tempo, tanta coisa aconteceu e…

 

— Ei, fica calma. — Chloe segurou as mãos de Max ao notar que ela estava ficando ansiosa. — Não precisamos mais falar sobre isso, você não…

 

— Eu preciso! Por favor. — Assim que viu aquela a sua frente assentir, prosseguiu com mais controle da situação. — Só queria que soubesse que me arrependo muito de ter ido embora quando você mais precisou de mim. Em alguns momentos, eu quis usar meus poderes para voltar até aquele dia e te devolver toda a felicidade que foi tirada de você. Viver todos os momentos bons que deveriam ter acontecido e trazer as pessoas que você amava de volta, para compensar. Seu pai, a Rachel…

 

— Max…

 

— Cada vez que lembro o quanto você sofreu com a morte dela, o quanto você a amou e agora eu não saber o que fazer para compensar o tempo perdido me faz sentir extremamente culpada. — Uma lágrima escorreu solitária ao dizer aquelas palavras. — Eu te amo, Chloe. Te amo tanto que queria poder te devolver cada segundo de alegria que tiraram de você. — Parou por um instante, vendo Chloe sem saber o que lhe responder. — Lembrar de tudo isso e saber que dez anos se passaram em outra realidade a qual escolhi não viver com você, me fez perceber que não deixei de ser uma péssima amiga para você, uma péssima namorada… Que continuei te fazendo sofrer, mesmo sem ter consciência disso. Talvez eu não mereça, mas essa é a razão de estar te pedindo perdão agora.

 

Um grande silêncio abraçou o ambiente e nenhuma palavra parecia estar a altura de tudo o que foi dito ali. 

 

Chloe nunca havia sido uma pessoa de proferir palavras tão profundas - mas sim, de sentimentos profundos, afogados a força dentro de si - ao contrário de Max e por isso, a empresária não achou absurdo a namorada dizer tudo aquilo. Ao contrário, Max estava sendo ela mesma na sua mais pura essência, o que lhe cativou a também dizer, de sua forma direta de sempre, o que estava guardado há mais de uma década.

 

— Primeiro de tudo, eu sei que não foi uma escolha sua ir embora naquela época. — Guiou a cadeira para mais perto de Max. — Sei que demorei para entender isso, mas é como dizem, a gente amadurece e entende certas coisas que não entendíamos antes, né? Acho que não consegui fugir desse clichê. — Conseguiu formar um mínimo sorriso na fotógrafa. — Sobre essas realidades que, sinceramente ainda são bem confusas de entender, acho que as coisas aconteceram como tinha que ser. Quer dizer, a Max a qual me envolvi fez tudo o que podia pra ficar comigo, contrariou a minha própria vontade de “me demitir da vida” e tivemos momentos incríveis juntas, mesmo que o peso de nossa consciência às vezes gritasse. Acho que é aquela coisa de haver consequências pelos nossos atos. Sei que é brega falar isso, mas talvez minha relação com ela não ter ido para frente fosse necessário para que tudo desse certo agora. Faz sentido? — Fez uma careta, realmente não tinha ideia se aquela teoria era correta ou não. — Voltar e mexer no passado poderia até trazer coisas ruins; lembra aquele rolê com meu pai? Eu me ferraria mesmo assim.

 

— Isso é verdade. — Max relembrou dos resultados devastadores de trazer William de volta e como não importava o quanto tentasse, Chloe sofreria de um jeito ou de outro. — Mas e se houvesse uma outra maneira de…

 

— Não, Max. Não há outra maneira. — Chloe a interrompe. — Nem tudo tem possibilidade de ser, de mudar, de acontecer… E também, eu não quero que nada mude. Nem mesmo se pudesse trazer a Rachel, entendeu? Quero que entenda que não é justo.

 

— Se ela não tivesse morrido… Vocês… Você seria feliz. — Max dizia com uma certa melancolia por saber que Rachel foi alguém que trouxe luz quando o mundo de Chloe estava perdido.

 

— Se ela não tivesse morrido, muito provavelmente teríamos terminado. — As palavras soaram duras, mas era a verdade. Chloe já havia pensado sobre o assunto e a conclusão mais realista era aquela. — Ela me traiu, sei que houveram muitos fatores, muitas questões… Mas, assim como com a Max da outra realidade, nossa situação se tornaria insustentável, por mais que eu tenha sido apaixonada pela Rachel. Ela foi, sim, muito importante pra mim, foi o meu anjo na pior fase da minha vida e quero lembrar dela assim.

 

— Não queria que ficasse triste por se lembrar dela…

 

— Não fico mais triste por isso já tem um bom tempo. — Acariciou a bochecha de Max com leveza. — Você me fez manter apenas as melhores coisas, mesmo que não se lembre ou que seja de outro mundo paralelo. — Riu. — E bom, o que importa aqui é que agora estamos juntas. Mesmo depois de muito trauma, loucura, viagens no tempo-espaço, universos paralelos… Esqueci de mais alguma coisa?

 

— Eu te amo tanto, Chloe. — Max reforça mais uma vez, segurando fortemente a mão que toca em seu rosto.

 

— Também te amo, sua boba. — Disse com um sorriso sincero e em seguida a beijou com carinho. Quando voltou a olhá-la nos olhos, continuou. — Esse papo me fez lembrar de uma coisa… Caralho, eu disse a mim mesma que nunca contaria isso pra você. Ao menos não em vida.

 

— O que é? — A pergunta veio de imediato.

 

— Acalma o coração aí, senhorita Caulfield.

 

Assim que se levantou, Chloe foi até uma das malas guardadas embaixo da cama, abrindo uma delas que continha as bugigangas que as duas não deixavam para trás de jeito nenhum. Sob o olhar curioso de Max, ela remexeu em algumas coisas dali, retirou outras, vez e outra arrumando a franja que insistia em cair em seus olhos. Em seguida, abriu uma caixa a qual estava com um cadeado, cuja chave estava pendurada em seu colar. Max pensou que, de fato, havia algo de extrema importância escondido para que a namorada tivesse tanto cuidado com aquela chave.

 

— Aqui. — Chloe colocou um caderno sobre a mesa, empurrando-o em sua direção.

 

— É um diário? — Perguntou apenas para confirmar, já que todas as características da capa apontavam para sua conclusão.

 

— Isso aí. — A empresária fez um bico ao dizer. — É o meu diário da época em que você foi embora. Contém todas as fofocas que você queria saber e mais um pouco.

 

— Não creio! — Max levou as mãos até o diário, como se estivesse tocando algo de alto valor. — Você está mesmo me dando algo tão pessoal assim para ler?

 

— É, digamos que não é algo fácil de se fazer. — Tentava não dar muita importância, mesmo que estivesse prestes a ver as melhores reações vindas de Max. — Mas, meio que… Tudo que tá escrito nessas páginas, foram pra você ler um dia.

 

Os olhos celestes de Max instantaneamente encontraram os de Chloe, os quais transpareciam a verdade com que ela falava. Ao abri-lo, se deparou com seu nome estampado ao lado de cada data, cada acontecimento, fosse trivial ou fosse incrível da vida intensa da mulher que amava desde sempre.

 

Aquele caderno era como uma carta aberta de todos aqueles anos que elas estiveram separadas.

 

— Só um conselho: leia só as primeiras páginas, porque do meio pro final fui ficando mais puta com a sua ausência e acabei te ofendendo. — Chloe comentou com humor.

 

— Não tem problema, eu merecia. — Max estava simplesmente encantada com tudo o que estava vendo.

 

— Isso é. — A dona do diário encolheu os ombros, rindo. Logo se aconchegou no ombro da fotógrafa. — Nem preciso dizer que é parte da minha doce personalidade.

 

— Não mesmo. Estranho seria estarem escritas palavras fofas.



Max queria ler tudo o que pudesse, entretanto, sabia que tinham que dormir cedo, então buscou ler assuntos que chamasse sua atenção num primeiro momento. Leu sobre as festas que Chloe se aventurou, admirou os desenhos dela que evoluíam o traço a cada página, constatou o quanto ela amava seus pais e como as escapadas com Rachel lhe fizeram bem, mesmo que de maneiras tortas.

 

— Vocês duas fizeram tantas loucuras. Pular de um trem em movimento? — Deitada na cama, Max questionou e olhou para a namorada, que já havia terminado de ler e assinar os contratos que antes ocupavam a mesa. — Você não ficou com medo?

 

— Eu? Pff… Tava cagada de medo. — Viu a outra rir. Nostálgica, Chloe se sentou sobre o colchão, perto dela. — Mas, naquela hora, eu só pensava em viver o agora, sabe?

 

— Entendo. Bom, agora eu entendo, né. — Suspirou, voltando a folhear as páginas repletas de adesivos e fotos. — O engraçado é imaginar você irritada escrevendo tudo isso.

 

— Pra você ver, né? — Antes de prosseguir, Chloe deitou-se perto o suficiente para sentir a respiração de Max se tornar irregular por quase ocupar o mesmo espaço que ela. — Mesmo estando com outra pessoa e cheia de raiva, eu pensava em você o tempo inteiro. Ainda resta alguma dúvida que era para sermos eu e você, senhorita Caulfield?

 

— Como sempre, conseguindo me convencer, senhorita Price. — Max fechou o diário, colocando-o sobre a mesinha de cabeceira, sem se importar de quase derrubar o pequeno relógio de ponteiro que ali repousava. Apenas permitiu-se retribuir o abraço e os inúmeros beijos que recebeu daquela que, em toda e qualquer realidade, seria sempre o amor de sua vida.