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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-05-30
Words:
1,298
Chapters:
1/1
Comments:
6
Kudos:
2
Hits:
46

me aqueça

Summary:

Elas deveriam estar vendo as estrelas, mas as estrelas sempre fazem suas mentes divagar. Na maioria das noites como essa, é Yachi quem tagarela a noite toda, falando sobre tudo e qualquer coisa que lhe vem à mente. Kiyoko gosta de ouvir cada palavra dela, não importa o quão banal seja. Ela gosta de o quão humana Yachi é.

Hoje a noite, entretanto, Kiyoko está recordando, nostalgia pingando em cada sílaba.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

Yachi acha que o piso de pedra do pátio de Kiyoko é mais familiar do que grande parte de sua própria casa de infância. É estranho como ela sente que pertence mais aqui quando está deitada no chão, uma vampira milenar que deveria ter a matado há muito tempo e com a friagem da noite acariciando sua pele quando ela poderia ter vivido toda sua vida com luxo se tivesse simplesmente ficado ao lado de sua mãe.

Não é como se ela não pudesse voltar.

Kiyoko já a assegurou várias e várias vezes que ela é livre para ir quando ela bem entendesse.

Yachi poderia, em teoria, voltar e passar uma tarde inteira conversando com Hinata até que o sol baixasse no horizonte, ou escovar folhas para fora do cabelo de Yamaguchi até ele empurrar suas mãos para longe por estar puxando os nós com muita força. Sua mãe a aceitaria de volta de braços abertos e olhos afiados, já planejando banquetes e introduções e um futuro moldado e polido pra que ela se torne alguém respeitável. Yachi poderia voltar a usar vestidos de seda e manter sorrisos cuidadosamente ensaiados. Ela poderia se tornar novamente a filha que todos esperavam que ela fosse.

Segura. Admirada. Humana.

Esses pensamentos deveriam confortá-la, mas ela se sente estranhamente vazia com eles.

Só porquê ela pode ir para casa, não significa que ela quer ir.

Essa realização vem até ela em momentos sombrios e silenciosos como este, quando o mundo é mais brando sob a luz do luar e a presença de Kiyoko ao seu lado é tão natural que Yachi esquece, mesmo que por um momento, que essa vida já foi uma escolha. Ela pensa sobre isso especialmente quando Kiyoko a deixa para visitar seu clã e a lembra gentilmente, toda vez, que ela não precisa ficar sozinha esperando que Kiyoko volte para a mansão. Kiyoko se preocupa com coisas assim, que Yachi vai ficar muito sozinha ou muito entediada ou muito ansiosa quando não há ninguém por perto.

Yachi poderia ir. Poderia atravessar os portões da mansão ao amanhecer e seguir a estrada de volta para casa sem que ninguém a impedisse.

Mas ela nunca vai. Não acha que ela sequer conseguiria se obrigar a fazer isso, mesmo que Kiyoko jamais a culpasse por isso.

O jeito que o sorriso de Kiyoko se ilumina quando Yachi admite que ficou já é razão suficiente para ela nunca querer ir embora.

Hoje a noite, esse sorriso é mais simples, tocado pelo prateado da lua sobre suas cabeças. Elas deveriam estar vendo as estrelas, mas as estrelas sempre fazem suas mentes divagar. Na maioria das noites como essa, é Yachi quem tagarela a noite toda, falando sobre tudo e qualquer coisa que lhe vem à mente. Kiyoko gosta de ouvir cada palavra dela, não importa o quão banal seja. Ela gosta de o quão humana Yachi é.

Hoje a noite, entretanto, Kiyoko está recordando, nostalgia pingando em cada sílaba.

— Acho que o que mais sinto falta é o calor. — Kiyoko diz, e o luar ilumina seu rosto de uma maneira ímpar e Yachi nunca poderia estar em qualquer lugar — Eles nunca te dizem quando você é abraçado, mas você nunca mais sente isso de novo. Nunca sentir o calor de um cobertor pesado ou de uma lareira… Acho que nunca vou me acostumar com isso.

Yachi se vira de lado, não tentando mais fingir que ela está prestando atenção nas estrelas. Ela estende a mão em direção à de Kiyoko, entrelaçando seus dedos, maravilhada com o quão pálidos os dedos de Kiyoko parecem em contraste com os seus, rosados. Ela está congelando, e o contraste entre as temperaturas é suficiente para causar um arrepio na espinha de Yachi.

— Essa era sua parte favorita de ser humana?

— Não quando eu era humana, não. — ela admite — Mas agora é o que me vem em mente. Eu nunca vou sentir isso de novo. Sem falar em deitar na grama numa tarde de primavera, com os raios de sol acariciando a minha pele. Ser humana, apesar de todos seus desconfortos, tinha muitos pequenos momentos de alegria.

Yachi engole em seco, sentindo um aperto repentino na garganta. O ar da noite parece mais quente que a pele de Kiyoko, e só esse pensamento já lhe causa um aperto profundo no peito.

— Mas você ainda pode fazer essas coisas, — ela sussurra — não pode?

— Na verdade, não. Posso deitar na grama e me lembrar de como era sentir o sol, mas nunca mais vou ter a mesma sensação. Posso ficar em frente a uma lareira e saber que deveria me sentir aquecida, mas nem mesmo encostar a mão no fogo me causaria mais do que uma queimadura. — seu polegar acaricia distraidamente os nós dos dedos de Yachi — É diferente agora. Eu sou uma lembrança ambulante, Yachi.

Yachi olha para suas mãos de novo. Dedos pálidos entrelaçados cuidadosamente com os seus, delicados como o luar.

— Você se lembra de quanto tempo faz? — ela pergunta antes que possa se conter.

O olhar de Kiyoko se afasta das estrelas.

— Tempo o suficiente que eu honestamente parei de contar.

Yachi tenta imaginar isso. Séculos passando em um silêncio gélido, ano após ano a carregando para longe da sensação do sol na pela ou cobertores quentinhos por serem tirados da secadora ou do chá quente demais para ser bebido imediatamente sem queimar a língua. Pequenos desconfortos humanos transformados em coisas preciosas apenas pela sua ausência.

Ela aperta a mãe de Kiyoko com mais força.

— Bom, — ela diz, tentando aliviar um pouco a conversa sem ter certeza de que teria algum sucesso — se serve de consolo, ainda é agradável segurar sua mão.

Uma risada leve escapa Kiyoko, pega de surpresa.

— É?

— É. Mesmo que você esteja congelando. — Yachi se aproxima mais, seu ombro roçando no braço de Kiyoko — Eu posso ficar quentinha o suficiente para nós duas.

Por um instante, Kiyoko não diz absolutamente nada.

Então Yachi sente seus dedos tremerem. É sutil, um movimento tão pequeno que ela quase pensa ter imaginado. Mas quando levanta o olhar, Kiyoko a encara com uma expressão tão aberta e dolorosa que Yachi precisa desviar o olhar antes que a consuma por completo.

— Hitoka.— ela sussurra — Posso te contar um segredo?

Yachi cora intensamente ao ouvir seu primeiro nome escapar dos lábios de Kiyoko. O jeito como a outra fala, como se seu nome fosse algo sagrado, algo belo… Isso deveria ser ilegal. Ela odeia qualquer pessoa que já tenha visto Kiyoko assim antes, e deseja mais do que tudo ser a primeira, a única, a vê-la dessa forma.

— Eu… Uh… Sim, é claro. Você pode me contar qualquer coisa, Kiyoko.

Kiyoko se vira completamente em direção à Yachi, a trazendo para mais perto e pressionando seu queixo no topo da cabeça de Yachi.

— Eu só sinto calor quando estou com você. — ela suspira — Você me faz sentir um pouco humana de novo.

Yachi esquece, por um breve instante, como a falar funciona.

Seu corpo inteiro esquenta de repente, um calor que sobe das pontas das orelhas até o peito com tanta intensidade que ela pensa que Kiyoko deve ser capaz de sentir através das suas roupas. O que, considerando a posição em que estão, provavelmente é verdade.

Os braços de Kiyoko ao seu redor são frios e incrivelmente gentis. Seu queixo repousa levemente sobre a cabeça de Yachi, os cabelos escuros caindo sobre o ombro de Yachi como seda. O ar da noite deveria ser frio, mas, em vez disso, Yachi pensa que poderia entrar em combustão.

Acima delas, as estrelas continuam brilhando frias e distantes no céu. Mas, aconchegada ao lado de Kiyoko, envolvida em seus braços frios, Yachi pensa que talvez este seja o momento em que mais se sentiu aquecida em toda a sua vida.

Notes:

eu amooo quando personagens imortais falam sobre o que eles sentem falta de quando eram humanos, tipo. mano. ser humano é foda

espero que tenham gostado, não esqueçam de deixar um kudos ou comentar <3