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você desagua em mim e eu... oceano

Summary:

O casamento de Eduarda e Lorena recontado do jeito que eu acho que elas mereceriam.

Notes:

eu acho muito engraçada essa aleatoriedade das conexões que nós fazemos em vida, sabem?
talvez nada seja igualmente recíproco: alguém sempre vai se importar mais, querer mais, amar mais, e não tem muito o que fazer sobre. eu acho injusto, se querem saber minha opinião, mas aprender a aceitar isso ajuda a gente a carregar menos peso, talvez. ou não.
queria poder extrair a dor dos outros e transformar em palavras em papel: limpar a sujeira do coração de alguém e sujar o papel com isso. queria pegar no colo e dizer que vai ficar tudo bem, mas estou longe, muito longe. mesmo se gritasse, não seria ouvida - e possivelmente ignorada. não acho que ninguém tem obrigação de retribuir meu afeto, longe disso, mas isso não me impede de desejar, no fundo da minha alma, que sim.
talvez seja um motivo para escrever: talvez alguma frase meia boca minha seja capaz de trazer um fóton que seja para a alma que eu mais gostaria de ter perto de mim e isso deve bastar. tirar de ti e colocar em mim.
enfim, perdoem a viagem na maionese.
tudo isso pra dizer que: fiz essa história com todo amor e carinho do mundo, por elas, lorena e eduarda, e por quem eu gostaria que soubesse que eu estarei sempre aqui, pronta pra transformar sua dor em alguma poesia.
boa leitura!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

5 de outubro de 2026

 

Eduarda acordou sozinha, o sol lambendo seu rosto em carícia, como se tivesse nascido apenas por ela. Por elas.

Ainda de olhos fechados, a ruiva foi inundada pela consciência de que, em algumas horas, casaria com o amor da sua vida. Sentiu o coração acelerar, as borboletas em seu estômago farfalharem as asas em expectativa, um sorriso impossível de ser contido rasgando seus lábios. Deixou a inevitabilidade do futuro assentar em si por mais alguns segundos, como se ainda fosse difícil de acreditar que mais tarde estaria dividindo um altar com Lorena, lendo para ela os votos que passou três semanas escrevendo com ocasionais pitacos de Paulinho e do delegado, chorando copiosamente enquanto todo o amor que se acumulava dentro dela transbordava.

Seus devaneios foram interrompidos pelo som de um suspiro, trazendo Eduarda de volta ao quarto, à cama, à pessoa que dormia tranquilamente ao seu lado. Virou-se devagar, encontrando as costas nuas de Lorena emolduradas pelas suas ondas negras, subindo e descendo suavemente no compasso da sua respiração. Sorriu novamente, maior ainda, sentindo aquela expansão conhecida no peito que a acompanhava desde o primeiro instante em que havia avistado Lorena cruzar o batente vermelho da galeria. Hoje, mais de um ano depois da primeira vez em que seus olhares se encontraram, Eduarda ainda sentia o mesmo frio na barriga, a mesma explosão de calor que se alastrava do coração para o resto do corpo, quando olhava para Lorena.

Partilhavam um gato, uma casa e uma vida já fazia mais de dez meses. No início, dormiam juntas quando podiam, tentando conciliar os plantões na delegacia com os turnos no bar: mesmo quando uma das duas chegava mais tarde, encontrando a outra já adormecida esparramada na cama – como se a ausência fosse sentida com menos intensidade se o espaço fosse ocupado de alguma maneira -, faziam questão de deitar-se juntas, nem que fosse por poucas horas ou apenas alguns minutos, compartilhando carinhos e calor, negando-se teimosamente a aceitar os desencontros do trabalho como desculpa para não se desmancharem em amor todos os dias.

Depois que Lorena deixou o emprego como garçonete para voltar a estudar Letras e trabalhar com Zenilda na Fundação, elas passaram a se encontrar mais vezes em horários normais e partilharam noites inteiras entre braços, pernas e lençóis. Nesses meses todos, entretanto, apesar das mudanças, das adaptações e do esforço mútuo para estarem presentes, uma coisa era constância: a sensação de completo encantamento que elas sentiam ao acordarem e perceberem a presença da outra ao lado.

Nessa manhã de sábado, Eduarda sentia-se à deriva em um oceano, completamente à mercê dos ventos. Sentia um amor tão intenso, cru e antigo por Lorena que sentia as lágrimas acumuladas nos olhos, prontas para desaguarem no travesseiro. Depois de alguns minutos simplesmente contemplando a existência da sua futura esposa, Eduarda cedeu ao ímpeto de acordá-la, aproximando-se devagar na cama e depositando beijos delicados nas suas costas, da nuca até o limite de pele exposto, e subindo outra vez para seguir o contorno do ombro. A pele de Lorena era quente, macia, conhecida. Era terra mapeada por Eduarda por dias e noites, formando um mapa cartográfico perfeito que a ruiva carregava dentro do peito.

Sentiu Lorena despertar aos poucos, o sono sendo afastado delicadamente pelas carícias tranquilas de Eduarda, pelas lambidas do sol que entrava, pela consciência que também se assentava na morena de que hoje estava longe de ser mais um dia comum.

Lorena virou-se de barriga para cima, o peito exposto sem encabulamento - a nudez sendo apenas um detalhe na vida compartilhada entre elas -, um sorriso estampado no rosto enquanto os olhos permaneciam fechados.

- Bom dia, meu amor. – Eduarda sussurrou, depositando seus beijos pelo rosto de Lorena com a mesma delicadeza de antes.

Lorena apenas resmungou em resposta, embriagada no carinho da manhã, encharcada pelo amor que era derramado sobre si. Permitiu-se ser venerada por alguns minutos, sentindo o toque de Eduarda por seu corpo, os beijos úmidos na pele, os dedos traçando as linhas das suas curvas. Quando finalmente abriu os olhos, seu mar esverdeado brilhava sob o sol, um verde líquido que mimetizava a dança suave das ondas em dia de calmaria.

- Bom dia, vida. - Sussurrou sem quebrar o contato visual, sorrindo enquanto acariciava o rosto de Eduarda, o qual se mantinha próximo ao seu.

- Dormiu bem? - A ruiva respondeu no mesmo tom. Deitada de lado, apoiada no cotovelo, tinha uma perna sobre Lorena e um braço passado por seu abdômen, em um encaixe tão natural que seus corpos se procuravam antes mesmo do cérebro perceber o movimento.

- Você quer que eu diga que dormi bem por sua causa, né? - Lorena respondeu rindo, divertida.

- Óbvio! E mesmo que você não responda, eu tenho certeza.

- Como pode ser tão convencida?!

- Ah, linda… quando te tenho desmanchada nos meus braços, de olhos fechados e um sorriso besta, miando enquanto eu distribuo beijos pelo seu rosto, você quer que eu pense o quê? – Eduarda falou sorrindo sugestivamente. Começou a se mexer na cama, posicionando-se por cima de Lorena, indo em direção ao pescoço e deixando um rastro quente de beijos por onde passava.

- Duda… - Lorena sussurrou, já sentindo a respiração mudar. - Agora?

- Agora. – Eduarda respondeu contra sua pele, descendo seus beijos pelo peito, sentindo o corpo de Lorena amolecendo.

Quando a língua de Eduarda chegou perigosamente perto do seio de Lorena, o som estridente da campainha cortou o ar calmo da manhã de sábado. Eduarda levantou o rosto indignada, olhando para uma Lorena que voltava aos poucos à realidade.

- Quem diabos tá tocando a campainha a essa hora? – Eduarda falou, a irritação evidente na voz.

- Deve ser a Maggye. – Lorena respondeu, empurrando Eduarda para o lado e levantando-se, indo até o armário vestir alguma coisa.

A ruiva continuou deitada, olhando para Lorena sem entender nada.

- A Maggye? Por que é que ela tá aqui a essa hora, Lorena?

- Porque ela é minha madrinha e veio me ajudar com os preparativos do casamento. – Seu tom era descontraído, contrastando com a irritação evidente de Eduarda.

- Mas precisava chegar tão cedo?

- Eu pedi, Eduarda. – Lorena respondeu tentando manter o rosto sério, divertindo-se com a cena. – Agora vai lá tomar um banho, vai, temos muito a fazer.

Eduarda a encarava boquiaberta.

- É sério? Você sabia que ela estava chegando e me deixou começar aquilo na cama?

- Uhum.

- E vai me deixar nesse estado?

- Sim.

- Lorena!

- Eduarda, banho. Temos todo o tempo do mundo depois da cerimônia… - Respondeu enquanto ajeitava o cabelo no espelho, já saindo do quarto para abrir a porta para Maggye.

- Lorena, no dia do meu casamento eu serei tratada como crente que escolheu esperar?! 

- Sim. - Lorena olhou para ela uma última vez, sorrindo em deboche. - Agora vai pro banho, vida. 

E saiu do quarto, deixando uma Eduarda incrédula estirada na cama.

*****

Passaram uma manhã agradável com Maggye, que havia trazido comida para tomarem um café da manhã especial antes de saírem de casa. O casamento aconteceria à tarde, no sítio da família de Eduarda, e elas pretendiam chegar lá antes do meio-dia.

- Quem diria que uma janta despretensiosa na sua casa seria motivo pra tanta coisa, hein, Maggye? - Eduarda comentou.

- Despretensiosa? - Maggye olhou para Eduarda rindo. - Garota, eu tinha todo um plano de carreira para vocês duas já muito bem estruturado! Fico muito orgulhosa por vocês terem seguido ele com tanto afinco! Eu praticamente não fiz esforço nenhum para juntá-las.

Riram juntas, lembrando-se daquela noite que começou sem prometer nada, e, no fim, acabou entregando tudo.

- Confesso que passei o jantar inteiro pensando em como faria para descobrir se teria chances contigo, viu? - Eduarda confessou, olhando para Lorena com um sorriso que, apesar de pequeno, transbordava amor. 

- E eu passei o jantar inteiro tentando não deixar tão óbvio que toda vez que você me olhava, a temperatura subia. - Lorena respondeu, espelhando o sorriso.

- Olha amiga, sinto em lhe informar, mas você não disfarçou nada. Toda vez que essa aí te olhava… - Maggye falou, divertida, enquanto apontava um dedo para Eduarda. - Você olhava pros lados e se abanava. 

- Eu disfarcei tão mal assim? - Lorena perguntou.

- Demais, amiga, eu estava quase te oferecendo uma toalha molhada.

Lorena escondeu o rosto nas mãos, subitamente encabulada, enquanto Maggye ria e Eduarda inclinava-se na direção da morena, deixando um beijo na sua bochecha. Lorena levantou a cabeça depois de alguns segundos, olhando para a ruiva com olhos cheios e brilhantes.

- Nunca consegui disfarçar nada quando estava perto de você, meu amor. - Lorena falou baixo, aproximando-se de uma Eduarda subitamente entorpecida e beijando-a com delicadeza.

- Ai, arrumem um quarto, pelo amor de Deus, eu tô aqui ainda! - Maggye reclamou.

- POIS EU QUERIA, MAGGYE, MAS ESSA AQUI VAI ME FAZER ESPERAR ATÉ DEPOIS DA CERIMÔNIA!

- Eduarda! - Lorena exclamou, enrubescendo, mas rindo, logo sendo acompanhada pela futura esposa e a melhor amiga.

- Ver vocês aqui, agora, prestes a se casar e lembrar do início… Me enche o peito, sabem? O tanto que eu ri com vocês duas não tá escrito! Algumas horas depois que vocês saíram lá de casa, depois da janta, AS DUAS me mandaram mensagem, vocês lembram?

- Meu Deus, sim! - Eduarda enrubesceu imediatamente, escondendo o rosto nas mãos.

- O que foi que você mandou, vida? - Lorena virou-se para ela, divertindo-se com a reação. 

- Não vou dizer. 

- Maggye, expõe ela, por favor! - Quanto mais Lorena ria, mais Eduarda corava. 

- Deixa eu achar a mensagem! - Maggye disse enquanto puxava o celular e para procurar a mensagem. - Aqui ó: às 23:21, Eduarda Fragoso mandou um whats dizendo “amiga, que mulher é essa?! Eu não sei o que ela faz comigo, só sei que ABRI AS PERNAS E MOSTREI A GLOCK PRA ELA. Eu ABRI AS PERNAS E MOSTREI A ARMA, MAGGYE.”. - Maggye gargalhava com Lorena enquanto Eduarda tentava sumir.

- Vida, para de rir! Depois que eu voltei pra casa e processei o que eu tinha feito, eu pensei que fosse morrer de tanta vergonha. 

- Duda, tá doida?! Sua mulher amou! 

- O quê? Como assim?

- Enquanto você me mandava aquela mensagem, a Lorena me mandava outra. - Abriu a conversa com a morena e começou a procurar as mensagens antigas. - Achei! A Lore mandou:  “Maggye, do nada ela abriu as pernas pra me mostrar UMA ARMA e disse ‘eu te protejo’!!! E eu travei no banco pensando ‘que mulher é essa, meu deus, que tesão’.”

Foi a vez de Eduarda gargalhar.

- Eu não acredito?!

- Pois acredite… Essa aí estava rendida pra ti desde o primeiro dia, amiga. - Maggye falou apontando para Lorena.

- É sério, amor? E eu achando que estava me esforçando horrores para te conquistar! - Eduarda olhou para Lorena indignada.

- Sério, vida. - Lorena ria abertamente. - É o que dizem, né? Se fazer de papel pra levar tesourada…

- Realmente não posso criticar seus métodos porque, no fim, você conseguiu tudo que almejava. - Eduarda concordou. - Literalmente. 

- Meu Deus do céu vocês duas, CHEGA! - Maggye interrompeu, incapaz de ouvir mais uma menção sequer à vida sexual das amigas.

Caíram na gargalhada, embaladas pelas lembranças e pelo amor compartilhado entre as três. Tinham história e sabiam disso. 

- Eu amava lidar com vocês no início, sério. Me mandavam mensagens o dia inteiro perguntando uma da outra e pedindo conselhos… Era tão bonitinho! A Lorena já bem investida e a Eduarda apavorada.

- Apavorada com o quê, amor? Não sabia disso…

- Ah… é que eu tinha um histórico ruim, sabe? De conversar com alguém, demonstrar interesse, criar expectativas e ser alimentada de volta e, de repente, nada… um sumiço sem explicação nenhuma. Absolutamente nada. E eu estava com medo que isso acontecesse outra vez: medo que você, a garota por quem eu estava interessada, por quem eu estava disposta a tentar algo, mesmo que fosse para descobrir que não daria em nada, decidisse que não valia mais a pena investir em mim e simplesmente sumisse. Basicamente, a Maggye é uma heroína. - Eduarda finalizou com um suspiro, sentindo Lorena puxá-la para mais perto e deixar um beijo em sua têmpora.

- O que foi que você disse pra ela, Maggye? - Lorena perguntou ainda mantendo Eduarda em seu abraço.

- Eu disse pra ela parar de projetar problemas em um futuro que ela não podia controlar, parar de se preocupar com o que poderia dar errado e viver o que estava dando certo. E disse pra ela confiar em você, Lô. - Maggye sorriu com ternura para as amigas antes de completar com certo deboche. - Mas a vontade que eu tinha mesmo era de dizer pra Duda que você já estava completamente entregue e só estava se fazendo de sonsa pra ela fazer suas vontades.

- E olha pra mim hoje: estou prestes a me casar com ela. - Lorena disse, séria. - Para todos os efeitos, tudo que eu fiz deu muito certo! Você não acha, vida?

Eduarda sorria abertamente, olhando para Lorena com o mesmo brilho de sempre: em todos esses meses juntas, a única coisa que mudou no jeito como Eduarda encarava sua namorada - muito em breve, esposa -, foi a percepção de que, a cada dia que passava, suas íris avelãs carregavam ainda mais amor. Encarava-a como se ela fosse a resposta para todas as perguntas do Universo, como se ela fosse a cura para todas as mazelas que acometiam a humanidade, como se ela fosse a própria personificação de Ártemis banhada na luz prateada da Lua. Era um sentimento puro, incontrolável, arrebatador, e Eduarda o sentia aumentar diariamente.

- Eu tenho certeza que sim. - Respondeu sorrindo, olhando fundo no mar verde de Lorena, esquecendo-se da presença de Maggye por alguns segundos enquanto se via completamente à deriva na água em calmaria.

Aproximaram-se o suficiente para seus lábios se tocarem em um beijo terno, que apesar de já ter sido trocado muito mais vezes do que qualquer uma das duas seria capaz de contar, nunca deixava de causar a revoada das borboletas de residência permanente em seus estômagos. 

- Olha, sempre um prazer ENORME segurar uma vela pra vocês, viu? Mas agora eu tenho que ir! O Júnior acabou de me mandar mensagem pra avisar que tá chegando. - Maggye falou depois de alguns segundos, trazendo-as de volta ao momento. 

- Tá bem, amiga! Nos vemos mais tarde, então? - Lorena falou, levantando-se para abrir a porta. 

- Não vejo a hora de estar no altar com vocês! - Maggye deu um abraço apertado em ambas, dirigindo-se para a porta logo em seguida. - Amo vocês! Não se atrasem!

- Também te amamos! - Responderam em coro, despedindo-se da madrinha e fechando a porta atrás dela.

Novamente a sós, permaneceram em pé no hall de entrada do apartamento, subitamente conscientes do que as aguardava mais tarde. 

- Lô, nós vamos nos casar hoje. - Eduarda falou baixinho, olhando para Lorena com olhos cheios de expectativa e nervosismo.

- Nós vamos nos casar hoje, meu amor. - Lorena repetiu, aproximando-se e passando os braços ao redor da nuca de Eduarda, que respondeu envolvendo a morena pela cintura.

- Você acha que dá tempo de terminar o que começamos antes da Maggye chegar? - Eduarda questionou, sorrindo de modo lascivo enquanto descia o olhar deliberadamente para a boca de Lorena. 

- Hummmmm. - Lorena fingiu considerar a ideia, fazendo uma careta pensativa. - Acho que temos alguns minutos sim.

Não precisaram mais falar: se liam daquele jeito que só quem compartilha plenamente uma vida sabe fazer. Seus corpos já se reconheciam nos mínimos detalhes, nos pequenos gestos - quase imperceptíveis para o espectador comum, mas que para elas carregavam todos os significados -, já entendiam dos desejos uma da outra tanto quanto dos próprios, e já se buscavam automaticamente quando percebiam os sinais inegáveis de desejo mútuo. Foram para o quarto juntas, abraçando-se e rindo de nada e qualquer coisa, prontas para se amarem pela última vez como namoradas antes de subirem no altar preparado no sítio da família Fragoso e se afirmarem como esposas enfim. 

*****

Pouco mais de uma hora mais tarde, já estavam na estrada, percorrendo o caminho conhecido até o sítio dos Fragoso. A T-Cross de Eduarda deslizava sobre o asfalto, cortando a paisagem como uma mancha cinza-chumbo. Dentro do carro, Eduarda e Lorena alternavam o tempo entre conversas tranquilas e silêncio. Era uma cena antiga já: Lorena acomodada no lado do carona, o banco levemente reclinado, controlando a playlist e acompanhando a paisagem enquanto Eduarda guiava o volante, concentrada.  Sem nem pensar mais sobre, a mão de Lorena repousava sobre a coxa de Eduarda, fazendo um carinho delicado com os dedos enquanto Gracie Abrams cantava, embalando a viagem como já havia feito tantas vezes. 

A cantora fora apresentada a Eduarda por Lorena em um início de noite comum em que, depois da janta e do banho, elas buscaram a segurança dos braços uma da outra depois de um dia inteiro lidando com o mundo lá fora. Naquele canto do sofá da casa delas, com a televisão ligada apenas como pano de fundo e com o gato ronronando na poltrona ao lado, Lorena acomodou-se entre as pernas de Eduarda, repousando contra seu peito com uma caneca de chá em uma mão e o celular aberto no Spotify na outra, mostrando para a ruiva suas músicas preferidas da artista enquanto sentia o peso da sua cabeça em seu ombro e ganhava um beijo na bochecha de tempos em tempos. Era mais uma cena comum na sucessão de dias comuns que elas estavam vivendo desde que haviam se mudado e iniciado a vida juntas, e talvez por isso fosse tão especial: a simplicidade que lhes fora negada por tanto tempo pela situação familiar de Lorena agora tinha virado rotina, deixado de virar uma exceção para se tornar a regra. Desde aquela noite, Gracie Abrams virou rotina também. 

Não havia passeio, viagem ou volta de quinze minutos pela cidade sem ela na playlist.

Haviam desenvolvido o hábito de aproveitar as folgas estendidas para perambular pelo interior do estado juntas e esse escape de rotina acabou se tornando uma das atividades preferidas de ambas. Lorena perguntaria, sentada de lado no banco, observando o perfil concentrado de Eduarda ao volante, “para onde hoje, meu amor?”, fazendo a ruiva sorrir. 

- Quando chegarmos lá você descobre. - Ela sempre respondia. 

Eduarda adorava fazer surpresa: passar dias planejando uma viagem, procurando lugares pitorescos para conhecer e pousadas intimistas para hospedagem, imaginando o quanto Lorena gostaria de tudo aquilo. A ruiva deliciava-se com a expressão de puro deleite no rosto da namorada quando chegavam em cada destino: Lorena se encantava com todo pedaço de mundo com que era presenteada, descobrindo cada quilômetro novo de terra como se chegasse às Índias Orientais de navio pela primeira vez. Mal sabia Eduarda, porém, que, para Lorena, o verdadeiro encanto disso tudo não estava na paisagem, nem no restaurante tradicional mantido pela mesma família há mais de 60 anos, nem no quarto de pousada com vista para o mar, nem no passeio de barco em Angra dos Reis, nem nas casas coloniais de Paraty: para Lorena, a magia estava intrinsecamente relacionada à presença de Eduarda. 

Havia sido forçada pelas circunstâncias a aprender a desfrutar das coisas como a única companhia dela mesma, sendo ela o sujeito que vive e que compartilha o viver ao mesmo tempo, internalizando as experiências, as impressões e os gostos e desgostos pela falta de alguém para compartilhar. Quanto mais velha ficava, mais seus interesses e afinidades se distanciavam dos da sua família, isolando-a cada vez mais e obrigando-a a guardar para si aquilo que pensava, queria, sentia. Quando na companhia dos pais e do irmão, nas viagens que realizaram juntos na adolescência, poucas vezes verbalizou seus desejos em voz alta, sua vontade de conhecer tal museu, de visitar tal exposição de arte, de assistir tal musical. Nas raras vezes em que o fez, fora humilhada e seus desejos ridicularizados, forçando-a a calar-se cada vez mais, até o ponto de supressão total dos seus interesses individuais. 

Eduarda, no entanto, jamais aceitou essa postura passiva na tomada de decisões, no planejamento dos seus dias, das suas viagens, das suas vidas: insistiu desde sempre na importância da opinião de Lorena, na necessidade inegociável de ter seus interesses expostos para que, juntas, decidissem o melhor roteiro de viagem, o melhor delivery de comida, o melhor filme para assistirem no sofá, o melhor evento para irem. Perguntava tantas vezes à Lorena sobre suas vontades, seus gostos e desejos que a morena se sentia próxima das lágrimas às vezes: sentir-se vista e validada desse jeito e aceitar que merecia esse tratamento desencadeava um embate emocional violento nela mesma: sua postura retraída e submissa, fruto de anos de condicionamento e negações, era constantemente atacada pela atenção de Eduarda e sua insistência em fazê-la entender que era digna de uma voz sim. 

Depois de alguns meses, já se sentia confiante o suficiente para opinar sobre as coisas sem questionar seu direito de fazê-lo. Começava a verbalizar seus desejos mesmo sem Eduarda perguntar sobre eles, sentindo-se mais consciente de si e da validade daquilo que ela gostava e queria. Fazia sugestões, procurava destinos, encontrava eventos. Tinha até começado a ser a pessoa que convidava para programas, um contraste notável com a Lorena de alguns meses atrás que apenas aceitava sem questionar. 

Foi ideia de Lorena visitar Paraty durante a FLIP, por exemplo. E havia sido ideia de Lorena a lua de mel na Itália, para onde embarcariam em uma semana e passariam vinte dias desbravando a Emilia-Romagna, a Toscana e a Úmbria de carro. Eduarda havia discretamente se distanciado do planejamento da viagem, deixando uma Lorena encantada pesquisando roteiros e atividades, assumindo, pela primeira vez em sua vida, o controle absoluto dos preparativos de algo grande em sua vida. 

Quando ainda faltavam pouco mais de trinta minutos para chegarem no sítio, o celular de Lorena tocou. 

- Quem é, vida? - Eduarda perguntou sem tirar os olhos da estrada.

- Minha mãe. - Lorena respondeu antes de abaixar o volume dos auto-falantes e atender a ligação. - Oi, mãe!

- Meu amor! Vocês estão onde? - Zenilda cumprimentou animada, deixando escapar uma nota de ansiedade na voz. 

- Estamos perto, mãe, mais meia hora e chegamos. Tá tudo certo por aí?

- Ai, que ótimo! Vou avisar a Violeta, então. Sim, a equipe de cozinha já chegou faz horas, o pessoal da decoração tá terminando aqui e a equipe do salão me disse que chegaria logo mais. 

- Ótimo! Obrigada por organizar isso, mãe. - Lorena respondeu com a voz mansa, levemente emocionada.

- Imagina, minha filha, é minha maior alegria poder fazer isso por você nesse dia! - Zenilda respondeu, deixando transparecer uma nota de emoção na voz. - Bom, vou dar uma olhada no andamento do jardim! Vejo vocês logo, então?

- Sim, mãe! Logo chegamos. - Lorena sorriu para o celular.

- Tá bem, meu amor! Te amo! Manda um beijo pra Duda. - Zenilda despediu-se.

- Mando sim, mãe! Também te amo. 

Lorena guardou o celular e largou-o no console sem dizer palavra. 

- Ela tá bem feliz, né? - Eduarda cortou o silêncio após alguns segundos.

- Muito. - Lorena respondeu enquanto encarava o horizonte ao longe. - Muito mesmo, Duda, até parece que é o casamento dela. - Riram juntas do comentário, imaginando Zenilda envolvida com todos os prestadores de serviço contratados para o evento.

- E você, meu amor, tá feliz também? - Eduarda perguntou ao mesmo tempo que colocava a mão sobre a coxa de Lorena, apertando de leve.

Lorena ficou pensativa por alguns segundos, respirando fundo antes de finalmente virar-se para encarar o perfil da namorada.

- Eu tô muito feliz, amor, de verdade. Eu nunca imaginei que seria possível  nós termos esse tipo de relação um dia. Ela tá tão… inteira perto de mim, tá fazendo tanto… Passamos tantos anos com uma barreira invisível entre nós, nos separando profundamente mesmo sem que fosse possível perceber, e agora… agora que não tem mais nada, eu sinto minha mãe comigo de um jeito que eu nunca havia sentido antes. - Lorena desabafou, sorrindo. 

- Eu fico tão feliz por ti, sabia? - Eduarda falou baixo, ainda com a mão segurando a coxa de Lorena.

- Eu sei, vida. Eu sei. - Lorena respondeu enquanto passava a mão esquerda na bochecha de Eduarda, fazendo um carinho que desceu até a nuca e permaneceu lá, os dedos enrolando os fios de cabelo ruivo enquanto massageavam seu pescoço.

 

flashback - um domingo qualquer no primeiro mês morando juntas

Lorena e Eduarda haviam decidido que aquele domingo seria dedicado a uma existência preguiçosa: era um daqueles dias em que suas folgas coincidiam e elas fechavam-se para o mundo, optando por dedicar o dia inteiro à tarefa de orbitar uma a outra. Sentiam-se, curtiam-se, viviam-se: passavam grande parte das horas acordadas enroscadas, em uma tentativa urgente de apaziguar a saudade acumulada da semana e de recuperar o tempo em que foram obrigadas a existir em separado. Cozinhavam, faxinavam e cuidavam das plantas da varanda juntas; lembravam uma à outra como era fácil de respirar quando São Paulo e todos os seus problemas ficavam do lado de fora e dentro de casa só sobravam elas e tudo aquilo que cabia no espaço entre um coração e o outro. 

Naquele momento, Eduarda estava sentada no sofá com uma caneca de café em uma mão e um livro na outra, com Lorena acomodada entre suas pernas, a cabeça apoiada contra seu peito, imersa na sua própria leitura. Aos seus pés, Bóris dormia na tranquilidade que ele só conhecia nos dias em que tinha suas duas humanas perto de si.  Aproveitavam da companhia uma da outra em silêncio, naquele marasmo típico do pós almoço, imersas na intimidade em que a falta de vozes não é mais sinônimo de opressão ou nervosismo, mas de conforto irrestrito.

Eduarda quase virou a caneca em sobressalto quando o interfone tocou, rasgando a quietude da tarde. Olharam-se confusas, em um questionamento silencioso do motivo pelo qual alguém teria aparecido em sua casa em um domingo. 

Lorena fechou o livro e levantou-se, indo rapidamente até o interfone e atendendo-o.

- Sim? - Ela disse assim que tirou o aparelho do gancho. - Sério? Não, não, pode mandar subir sim, seu Cláudio, eu só não estava esperando. Certo, muito obrigada!

Eduarda observava-a do sofá em expectativa. 

- Quem é, amor?

- Minha mãe. - Lorena respondeu enquanto voltava para perto de Eduarda, o cenho franzido.

- Ela tinha te dito que vinha?

- Não, ela só… apareceu. Não entendi nada, será que aconteceu alguma coisa? - Lorena questionou.

Eduarda levantou-se, aproximando-se de Lorena e abraçando-a pela cintura.

- Ah, talvez ela só esteja com saudade e decidiu fazer uma visita. Vou lá passar um café novo pra ela, tá? - Deu um selinho em Lorena e foi para a cozinha.

Poucos minutos depois, ouviram a campainha soar denunciando a chegada de Zenilda. Eduarda abriu a porta enquanto Lorena permaneceu alguns passos atrás, o constante girar dos anéis denunciando seu nervosismo. Precisava admitir que estava sinceramente incomodada com a aparição repentina da mãe em um dos poucos dias em que sua folga conciliava com a folga da namorada. Mesmo tendo passado os últimos minutos criando suposições na cabeça, não conseguia formular um motivo razoável o suficiente para a visita: por que não havia ligado antes? Por que não havia combinado algo durante a semana? Ou o que poderia ser tão importante que não podia ser dito em uma ligação? Estava irritada, e, se fosse completamente sincera consigo mesma, sentia-se invadida de certa maneira.

Sentia-se estranhamente desconectada de Zenilda: desde que havia sido expulsa de casa, sob o testemunho passivo de sua mãe, a qual presenciou toda a violência a que fora submetida pelo próprio pai e, ainda assim, continuou dividindo o mesmo teto e a mesma cama com ele depois, algo na relação entre as duas havia sido permanentemente danificado.

Carregava uma mágoa no peito que, mesmo constantemente evitada e desviada, insistia em subir à superfície. Por anos, sentiu-se uma estranha na própria casa: crescera à sombra do irmão mais velho, o maior orgulho do seu pai, e fora rejeitada pelo genitor com mais intensidade ano após ano, conforme suas próprias opiniões de mundo mostravam-se cada vez mais divergentes de tudo aquilo que Santiago pregava. Mesmo vivendo nessa hostilidade, encontrava seu consolo no convívio com a mãe, na parceria que era baseada não só no vínculo maternal - que entre elas era particularmente forte -, mas em um instinto inconsciente de sobrevivência em um ambiente predominantemente masculino, onde a voz de Santiago Ferette insistia em se sobrepor a todas as outras. Faziam-se ouvir aos sussurros, protegendo do patriarca a relação que possuíam, em um cenário em que Lorena destacava-se como o compasso moral da casa, incentivando a mãe a libertar-se das amarras do pai, a alimentar o fogo quase extinto dentro de si, sufocado por anos de condicionamento, a voltar a ser Zenilda e não apenas a senhora Ferette.

Foi por incentivo de Lorena que Zenilda voltou a advogar, foi por incentivo de Lorena que Zenilda passou a caminhar dentro de casa com a cabeça mais alta, os ombros mais retos, a postura de quem se entende como indivíduo único e detentor das próprias vontades e ambições, foi por incentivo de Lorena que Zenilda passou a enxergar todas as micro agressões a que era submetida todos os dias por Santiago, fossem elas verbais ou psicológicas, e assim foi se libertando aos poucos. Por maior que fosse a dificuldade em tomar para si os créditos por algo, Lorena tinha essa certeza intrínseca de que a mãe só estava fora de casa hoje, com o pedido de divórcio encaminhado, por sua causa. Amava vê-la assim, feliz, realizada, trabalhando incansavelmente naquilo que ela acreditava, vendo-a atravessar espaços carregando tudo de si com ela e não deixando nenhum rastro de dúvida quanto a sua independência, mas mesmo assim, mesmo orgulhosa, mesmo aliviada em ver a mãe liberta, Lorena sentia uma pontada de dor ao lembrar-se que fora abandonada no pior momento da sua vida por quem ela nunca havia largado a mão. 

Conforme o tempo passou e Lorena foi encontrando acolhimento e amparo em outras pessoas, a mágoa com a mãe foi ficando em segundo plano, mas nunca desapareceu completamente - e, ela sabia, jamais desapareceria. 

Havia Eduarda, que não havia saído do seu lado em momento nenhum, segurando mais pontas soltas do que seria saudável exigir de alguém, mantendo o mundo de Lorena no lugar enquanto tudo se desmoronava ao seu redor e mantendo-a com a cabeça para fora d’água até que conseguisse voltar a nadar sozinha.

Era muito grata ao pensar em tudo que Maggye, João Rubens e Kasper haviam feito por ela no dia em que seu próprio pai havia lhe arrancado o chão, e todos os outros dias que viveu sob o teto da galeria, oferecendo-lhe um lugar seguro para juntar seus cacos e sentir como se sua presença não fosse um fardo pela primeira vez na vida.

E quando lembrava-se do tratamento dispensado a ela pelos sogros sentia vontade de chorar: “agora você é nossa filha também”, havia lhe dito Henrique, olhando-a fundo nos olhos, no dia em que se conheceram, na sua casa. Aquilo havia atravessado muitas camadas de tecido fibroso em seu peito, camadas e camadas de cicatrizes emocionais que por anos precisaram se fechar sozinhas, e chegado diretamente no seu coração, fazendo algo ceder. Olhava para os sogros e para a namorada e ondas avassaladoras de emoção que preencheram seu peito e espalharam-se pelo corpo transbordaram enfim: chorou naquela noite aquele choro de quem descobre que existe, sim, amor para si em algum lugar do mundo; aquele choro de quem finalmente pode parar de procurar por algo que buscou por anos e, finalmente, descansar. A compreensão de que existia uma realidade em que ela era amada e celebrada sem esforço, sem exigências, sem nenhuma tentativa de adequá-la ou torná-la algo que ela não é. 

E mesmo depois de conquistar espaços e uma família para chamar de sua após a ruptura brusca e repentina do primeiro laço que conheceu ao vir ao mundo, precisava admitir que, ainda assim, sentia falta da mãe. Sentia mágoa pela mãe. Sentia-se abandonada, deslocada, desvalorizada, descartada. Uma dor latente sob a pele agindo como um lembrete constante daquilo que lhe fora negado.

- Oi, Zenilda! - Eduarda cumprimentou sorrindo, cordial e radiante como sempre. Ela entendia a sensibilidade do momento e por isso havia assumido a tarefa de tornar essa visita inesperada o mais agradável possível. - Como vai? - Abriu caminho para a sogra entrar, abraçando-a em seguida. 

- Oi, meu amor! Eu vou bem. Desculpa chegar assim sem avisar… - Zenilda já se desculpava.

- Que isso, tudo certo! Eu até passei um café novo pra gente! 

Zenilda sorriu outra vez para Eduarda antes de olhar enfim para a filha, que permanecia parada no hall do apartamento como que pregada ao chão.

- Oi, minha filha. - O tom de Zenilda era afetuoso, mas perceptivelmente mais inseguro agora. Aproximou-se com gestos mais contidos, abraçando Lorena com um leve receio.

- Oi, mãe. - Lorena tentou oferecer um sorriso.

Eduarda, lendo o ambiente corretamente, fechou a porta e logo chamou a namorada e a sogra para a sala, indo até a cozinha servir café para as três. Lorena e Zenilda ainda trocaram um olhar nervoso antes que a filha indicasse com o braço a poltrona, convidando a mãe a sentar-se ali. Lorena, por sua vez, acomodou-se no sofá, a postura rígida denunciando a tensão. Eduarda voltou com três canecas fumegantes logo em seguida, não permitindo que o silêncio desagradável se estendesse por muito tempo. Entregou uma caneca para a sogra e uma para a namorada, acomodando-se ao lado da última no sofá, as pernas coladas e uma mão sobre a coxa da namorada.

Eduarda sabia muito bem dos sentimentos conflitantes de Lorena com relação à mãe, das mágoas não resolvidas e das palavras jamais proferidas, e por isso optava pela proximidade máxima para transmitir segurança, amparo e calor. Lorena sentiu o corpo relaxar um pouco no exato momento em que a ruiva sentou-se ao seu lado, sentindo a paz inerente à presença da namorada abraçá-la como um cobertor, tornando até mesmo o ato de respirar mais fácil. 

- Então, Zenilda, como está? - Eduarda perguntou antes que o silêncio beirasse o insuportável. 

- Tudo nos conformes, querida! - Zenilda tentou sorrir, mas era evidente que estava cada vez mais angustiada.

- Mãe, o que aconteceu? Pra você vir aqui sem avisar. - Lorena cortou bruscamente, soando mais seca do que gostaria e impedindo qualquer tentativa de conversa casual.

Zenilda olhou para a filha com olhos apreensivos e nervosos. Mexia suas mãos no colo, inquietas, e era possível notar alguns tremores ocasionais nos dedos. 

- Eu… eu precisava falar com você, filha.

- Sobre…? - Lorena arqueou uma sobrancelha. 

- Eu preciso te pedir desculpas. - Zenilda respondeu olhando a filha nos olhos. 

Eduarda entendeu que seria melhor deixar as duas a sós. Apertou a mão de Lorena, transmitindo sua força à namorada naquela linguagem não-verbal que elas haviam desenvolvido juntas. Imediatamente entendendo a intenção do toque, Lorena virou-se para olhar Eduarda nos olhos, a apreensão e o pedido de ajuda estampados em suas retinas, e a ruiva entendeu.

- Ei, tá tudo bem, amor. Eu tô logo ali no quarto, tá? - Falou delicadamente com a namorada, deixando um beijo lento e terno em sua têmpora antes de levantar-se do sofá, despedir-se de Zenilda e trancar-se em seu quarto, já prevendo uma conversa delicada e demorada.

Deixadas sozinhas, mãe e filha encararam-se por alguns segundos, naquela hesitação que antecipava conversas difíceis. 

- Filha, eu… Eu não sei como começar. - Zenilda falou, hesitante, puxando a alça da bolsa em nervosismo.

- Começa do começo, mãe. Desculpa pelo quê? - A voz de Lorena saiu menos firme do que ela gostaria.

Zenilda respirou fundo, tentando organizar seus pensamentos. Seus olhos pareciam mais escuros, opacos, como que enxergando Lorena através de uma cortina espessa que ela não sabia abrir.

- Semana passada, quando eu vim jantar aqui com vocês duas e os pais da Eduarda, eu vi você tão… você. - Zenilda começou. - Eu percebi ali que nunca havia te visto tão relaxada em algum lugar, tão confortável, tão… feliz. Lá em casa você sempre pareceu tão contida, como se calculasse a quantidade exata de movimento para não ser notada, como se pensasse várias vezes no que falar antes de efetivamente fazê-lo, com medo de falar algo errado e ser repreendida. Lá em casa você estava constantemente em alerta, sempre consciente de tudo que acontecia ao seu redor, como se precisasse ter tudo sob algum tipo de controle, alguma maneira de se preservar. E foi assim por anos e anos e eu nunca percebi. Eu precisei te ver completamente à vontade e existindo sem amarras em meio à família da sua namorada para finalmente perceber o quanto eu falhei contigo, minha filha. - A voz de Zenilda quebrou enfim e as lágrimas começaram a rolar.

Lorena permaneceu no sofá, estática, as mãos fechadas em punho. Bóris havia deitado em seu colo como se entendesse que, na falta de Eduarda, ele deveria ser responsável por manter Lorena ancorada à realidade. A morena sentia o mundo girar, o desabafo de Zenilda mexendo em dores antigas e fibrosas em seu peito. Tentou se concentrar no peso de Bóris, no calor que emanava do seu corpo e na solidez da sua existência, para se manter firme ali enquanto ouvia o desabafo de Zenilda.

- Eu nunca tinha te visto tão feliz antes, nunca, nunca. Toda vez que a Violeta ou o Henrique faziam algum comentário te elogiando ou te perguntando algo sobre você, eu via seus olhos brilharem de um jeito que não acontecia lá em casa. Seus gestos estavam livres, espontâneos, você não precisava calcular nada, não precisava considerar as implicações de nada, as reações explosivas de ninguém. Foi te vendo na mesa da janta, com a mão da Eduarda apoiada no seu ombro, conversando animadamente com a Violeta e o Henrique sobre seus interesses em Literatura que eu entendi que seus sogros, que te conhecem apenas há algumas semanas, te viam mais claramente do que eu que te trouxe ao mundo. - Zenilda abriu a bolsa com mãos trêmulas, procurando por um lenço. As lágrimas escorriam sem trégua, pingando em seu colo como chuva.

-Mãe… - Lorena tentou, a voz embargada.

-Não, filha, eu preciso falar. Eu já passei muito tempo em silêncio. - Seus olhos castanhos inchados encararam a filha com determinação. - Seria muito fácil para mim culpar teu pai e todo o sufocamento e a violência a que ele me submeteu, dizer que eu não compreendia o que estava errado porque por anos eu fui condicionada a ver isso como normal e ver você como diferente, dizer que eu suavizava todos os ataques que ele direcionava à você porque eu não era capaz de enxergar a profundidade do golpe, entre tantas outras justificativas que eu já cogitei. Seria fácil terceirizar essa culpa, dizer que eu sofri também, e pedir teu perdão assim, mas não seria verdade. Não seria verdade porque era meu dever te proteger, meu dever te amar incondicionalmente, meu dever te celebrar, te exaltar, te incentivar a ser exatamente como você é, esse ser humano de tanta luz. Eu preciso te pedir desculpa hoje porque você passou a vida inteira se colocando na minha frente pra me proteger, segurando uma lamparina acesa para mim enquanto eu estava perdida no escuro, e quando você mais precisou que eu te protegesse… quando você mais precisou de uma mãe… eu simplesmente assisti você ser chutada de casa sem fazer nada. Me desculpa, minha filha, por ter te abandonado. Me desculpa pelo abandono físico que eu permiti que acontecesse na minha frente e pelo abandono emocional de todos esses anos. - Zenilda enxugou os olhos com mãos trêmulas, os soluços ameaçando impedi-la de continuar. 

- Na hora de se despedir, enquanto a Violeta ia ao toalete, eu fiquei observando os quadros que vocês penduraram na parede e eu vi um poema emoldurado assinado por você. Senti um aperto tão forte na garganta… ainda bem que a Violeta apareceu em seguida e nós fomos embora… Chorei no carro até chegar no flat porque ver seu poema ali, exposto para o mundo, me levou de volta anos atrás, pra quando você tinha dez anos e trouxe da escola um presente de dia dos pais. Naquele ano, a professora tinha proposto que vocês se expressassem livremente através da arte e você quis escrever um poema. No fim do dia, você chegou em casa radiante, com sua mochila nas costas e um envelope colorido na mão, sorrindo de canto a canto e procurando pelo seu pai. Nós estávamos na sala quando você chegou e veio correndo, chamando pelo “papai” e entregando o presente, permanecendo de pé na frente do sofá, olhando pro Santiago com olhos enormes de expectativa, as suas mãozinhas puxando as alças da mochila. Seu pai pegou o envelope, abriu, tirou a folha colorida de dentro e perguntou pra ti o que era aquilo, e você, orgulhosa, respondeu que tinha escrito um poema para ele de dia dos pais. Eu me lembro até hoje do que eu senti ao enxergar algo nos seus olhos se apagando quando ele te disse que aquilo era uma grande besteira e que você não deveria perder seu tempo com esse tipo de coisa ridícula, coisa de gente sem futuro. Você não falou nada, apenas abaixou a cabeça e foi pro seu quarto, toda a animação de segundos atrás completamente extinta. Naquela noite, ele rasgou seu poema e jogou no lixo do banheiro e você nunca mais escreveu nada pra ninguém lá em casa. E eu vi tudo isso sem fazer nada, nada. Eu devia ter feito tudo por ti, minha filha, mas eu apenas testemunhei a tua luz se apagando aos poucos dentro daquela casa. Saber que você ainda escreve… saber que a poesia nunca morreu dentro de ti me conforta tanto quanto me corrói, porque eu fico tão feliz sabendo que aquele homem nunca foi capaz de apagar completamente a sua luz, ao mesmo tempo que eu me culpo diariamente por não ter te levado oxigênio enquanto você lutava sozinha pra manter seu fogo aceso.

Zenilda precisou parar para respirar por alguns instantes, o esforço para conter os soluços exigindo muito dela. Enxugou os olhos antes de continuar. 

- Filha, eu vou entender se você me disser que é tarde demais pra mim. Eu tive chances a sua vida inteira de ser melhor pra ti, de fazer melhor pra ti, e nunca o fiz. Eu precisei te ver sendo amada aos berros por outra família pra finalmente compreender a extensão da minha negligência e da minha culpa. Eu vim aqui hoje porque eu não aguentaria mais um dia sem te falar isso tudo, sem tirar isso do peito e te garantir, de alguma maneira, que você nunca foi um erro e nunca será. Você foi o maior acerto da minha vida e eu sinto tanto, mas tanto por ter demorado todo esse tempo pra entender isso. Eu entenderei se você não quiser me perdoar… me contentarei em te acompanhar de longe, aceitando a perda do espaço nos bastidores e te celebrando ativamente da plateia. Mas caso você ainda queira me dar alguma chance, eu te prometo que eu farei de tudo pra reconquistar sua confiança, seu carinho, seu respeito. Você não precisa me falar nada agora, ok? Toma seu tempo. - Olhou fundo nos olhos de Lorena antes de continuar. - Eu te amo para sempre, minha filha, e finalmente posso dizer com certeza que te amo do jeito certo. Obrigada por me receber na sua casa e por ouvir o que eu tinha pra te dizer. 

Com isso, Zenilda levantou-se e foi até a porta, saindo do apartamento sem esperar por Lorena, que permaneceu sentada no sofá com Bóris por mais alguns minutos, sem reação. 

Eram tantas coisas passando pela sua cabeça e tantas sensações correndo pelo seu peito que ela se sentia próxima da implosão. Queria cair, desabar, soltar o ar que havia segurado o tempo todo em que Zenilda falava e se desmanchar em lágrimas e em dores escondidas nos cantos escuros da sua alma por anos.

Levantou-se e foi até o quarto, abrindo a porta e encontrando Eduarda deitada na cama de fones enquanto lia um livro. Ficou parada no batente, sem saber como proceder, até que a namorada percebeu sua presença e olhou em sua direção, tirando os fones.

- Oi, amor, sua mãe já foi? O que ela queria?

- Já sim, ela… - Lorena sentiu a garganta fechando-se, os olhos ardendo, a onda subindo, chocando-se contra o penhasco, querendo quebrar. 

Seu corpo que, por anos, aprendeu a se consolar sozinho, guardando dentro de si um turbilhão de sentimentos mal resolvidos, já se preparava para fechar-se novamente, até que um pé na porta impediu-o de seguir esse padrão solitário.

-Ei, venha cá. Deita aqui comigo e me conta o que aconteceu. - Eduarda chamava, os braços estendidos, os olhos transbordando amor.

Lorena aceitou sem pensar duas vezes: Eduarda ensinava-a todos os dias como se permitir sentir, como confiar no amparo, como aceitar o colo. Praticamente desabou em cima da ruiva, escondendo o rosto na curva do seu pescoço, permitindo-se ser vulnerável enquanto deixava o coração sangrar, doer, curar. Desmanchou-se ali, aberta, a ferida pulsando, tentando processar tudo que a mãe havia dito, tentando processar todos aqueles anos sendo abusada dentro da própria casa.

Lembrou-se das noites em que se embalou para dormir no próprio choro, sofrendo sozinha debaixo dos cobertores por algum motivo que jamais seria importante o suficiente para a família se importar, mesmo quando era algo capaz de rasgar Lorena ao meio; lembrou-se de todas as vezes que pronunciou-se voluntariamente sobre algum desejo ou vontade ou aspiração que fugia daquilo que o pai considerava nobre e rentável e de toda a zombaria, deboche e repreensão que havia enfrentado; lembrou-se do silêncio da mãe nos momentos em que seu coração era trincado por algum golpe violento do próprio pai, assistindo ao sofrimento calado de Lorena como se, para ela, doeria menos se ela simplesmente fingisse que nada acontecia. Lembrou-se de tudo, suas cicatrizes vibrando em seu peito, fazendo rodar imagens e mais imagens de memórias doloridas, enterradas fundo no peito, e que haviam sido exumadas durante a conversa com Zenilda. 

Permaneceu nos braços da namorada durante todo esse tempo, agarrando-se ao calor do seu corpo e ao seu cheiro de sempre como um náufrago faria com uma tábua de madeira flutuante. Quando se acalmou o suficiente, contou tudo para Eduarda, que começou a chorar com Lorena ainda no início do relato. 

- E ela me pediu desculpas. - Finalizou Lorena, a voz fraca. - Me disse que quer tentar reconquistar minha confiança, meu carinho e meu respeito, e disse que me ama muito. Ela sabe que eu posso não querer perdoá–la, então me deu um tempo, mas…

- Mas o que, vida? - Eduarda perguntou em voz baixa, a mão fazendo carinho na bochecha da morena. - Você quer perdoá-la?

- Eu… eu acho que sim, Duda. - Lorena falou, sentindo a emoção tomar conta de seu corpo e as lágrimas ameaçarem voltar. - Eu sinto falta dela e… eu acho que foi sincero, sabe?

- Eu acredito na sua intuição, Lô, então se você acha que foi sincero, eu também acho. - Falou sorrindo, depositando um beijo na testa da namorada. - Como você pretende fazer agora?

- Não sei ainda, Duda. Só sei que… eu espero muito que eu consiga aceitar minha mãe de volta. - A voz saiu tão baixa que, se Eduarda não estivesse com o ouvido tão próximo de Lorena, não teria ouvido.

- Vai dar certo, meu amor! Pode esperar. Você tem todo o direito de levar o tempo que precisar pra processar tudo isso, ok? Não se cobre, não se apresse, não decida nada pela conveniência ou para agradar os outros, tá? A prioridade é você, vida! Você e os seus sentimentos. - Eduarda comentou sorrindo.

- Eu sei, amor… eu vou tentar manter isso em mente.

- Vai sim, e tudo bem se você esquecer porque eu te lembro. - Deixou um beijo na testa de Lorena. - Mas ei, te ajeita direito aqui em mim. Vou colocar um filme pra gente assistir… acho que já deu de interações por hoje, né? 

- É, eu acho que sim… Não quero mais ver ninguém, confesso. - Lorena disse, ajeitando-se de modo a ficar debaixo da coberta, virada de lado, com a cabeça encaixada no pescoço de Eduarda. 

- Então agora você deixa eu dar todo o chamego do mundo pra minha namorada, ok?

- Tá bem, Duda. - Lorena sorriu de leve, mais tranquila, e virou o rosto o suficiente para conseguir olhar Eduarda nos olhos. - Eu te amo, sabia? 

- Eu também te amo, vida. - Eduarda respondeu aos sussurros, depositando alguns beijinhos pelo rosto da namorada. - Amanhã você pensa nisso.

- Amanhã.

fim do flashback

 

Sorriram ao avistarem os portões de madeira maciça alguns metros afastados da lateral da rodovia, já abertos, convidando-as a adentrar a propriedade dos Fragoso. Seguiram pelo caminho sombreado pela copa de árvores antigas por algumas centenas de metros, o cheiro de mato invadindo o carro, até avistarem a casa da família. Os carros de Zenilda e Violeta já estavam lá, assim como outros veículos que elas não reconheciam, já que deviam pertencer às equipes contratadas. 

Estacionaram ao lado do Volvo da mãe de Eduarda, trocando um olhar cúmplice antes de abrirem as portas e descerem. Tendo ouvido o som do carro sobre o cascalho, Violeta e Zenilda apareceram na varanda animadas para recebê-las. 

- Meus amores! - Exclamou Zenilda, adiantando-se e puxando Eduarda e Lorena para um abraço apertado. - Finalmente! 

- Meninas! - Violeta abriu os braços assim que elas se soltaram do abraço de Zenilda, trazendo-as para perto e deixando um beijo na bochecha de cada uma.

- Oi mãe! Oi sogra! - Lorena sorria. 

- Cadê o pai? - Eduarda perguntou. 

- Seu pai insistiu em cozinhar o almoço hoje! Tá lá na cozinha dos fundos rodeado por panelas, ansioso pra ver vocês. - Violeta explicou.

- E tudo certo com a organização da cerimônia? - Questionou Lorena, sentindo a ansiedade começar a aflorar. 

- Tudo, minha filha! Todas as equipes muito pontuais e competentes! Vocês não fazem ideia de como o pátio tá lindo… - Foi a vez de Zenilda responder. 

- Quero deixar pra descobrir na hora… - Lorena sorriu, permitindo-se imaginar cenários. 

- Bom, vamos almoçar? Logo mais vocês precisam começar a se arrumar! - Chamou Violeta, já entrando na residência e indo em direção a cozinha, conversando animadamente com Zenilda.

Eduarda e Lorena permaneceram mais alguns minutos na varanda, processando tudo aquilo. A partir do momento que cruzassem as portas de correr da entrada, todo o sonho e o planejamento dos últimos meses ganharia a camada mais sólida de realidade até então. 

- Juntas? - Eduarda ofereceu a mão para a noiva, olhando–a fundo nos olhos.

- Sempre. - Lorena entrelaçou seus dedos sorrindo, a covinha exposta para o mundo denunciando seu estado de felicidade genuína. 

Adentraram a casa de mãos dadas. 

*****

Henrique às recebeu no meio das panelas, vestindo um avental bordado e um sorriso permanente no rosto que aumentou ainda mais ao avistar a filha e a nora.

- Meus amores! Que saudade! 

- Oi pai! - Eduarda aproximou-se para um abraço apertado, seguida de perto por Lorena.

- Oi Henrique!

Henrique as abraçou forte, depositando um beijo na cabeça de cada uma, antes de soltá-las e observá-las por alguns segundos, puxando o ar e sentindo os olhos começarem a arder.

- Pai, você tá chorando…? - Eduarda questionou quando percebeu o que estava acontecendo.

- Eu… é muita emoção, minha filha! Ver vocês assim… eu não aguento!

- Pai, a gente nem tomou banho ainda! Imagina quando nos enxergar vestidas. - Eduarda riu enquanto se aproximava do pai outra vez, envolvendo-o em um abraço lateral.

- Eu sei, meu amor… hoje vou chorar todas as lágrimas do meu corpo. 

- Henrique do céu, deixa de ser tão dramático! - Intercedeu Violeta. - Vamos almoçar logo que as noivas precisam começar a se arrumar logo! 

- Sim, meu amor, verdade. Vamos, sentem-se, meninas! - Henrique pediu enquanto ele, Zenilda e Violeta levavam as panelas até a mesa. 

Tiveram um almoço tranquilo, como se todo o clima de ansiedade e antecipação que geralmente acomete as pessoas no dia do seu casamento fosse posto em suspensão por uma hora, substituído pela tranquilidade do hábito antigo. Nos últimos meses, essa cena havia se repetido incontáveis vezes em diferentes lugares: no apartamento de Lorena e Eduarda, na casa dos Fragoso, no duplex de Zenilda, em restaurantes da cidade. 

Com o pai e o irmão de Lorena presos e o progresso na reconstrução do relacionamento com Lorena, Zenilda fora acolhida pelos Fragoso naturalmente, encontrando neles, assim como sua filha já havia feito, uma família. Havia virado amiga íntima de Violeta, marcando compromissos e dividindo programas com uma frequência considerável, além de encontrar imenso prazer em suas discussões sobre a Lei com Henrique. Lorena sentia o coração cheio com essa aproximação, por vezes participando dos encontros entre elas, com Eduarda ou sem. 

Na mesa do almoço antes do casamento, conversavam sobre tudo e sobre nada, rindo frouxo enquanto dividiam a comida preparada com tanto esmero por Henrique. Era agradável, leve e cotidiano, um toque íntimo em um dia que ainda seria dividido com tantas outras pessoas. 

Por quase uma hora, foram apenas eles cinco. Até Violeta olhar o relógio e expulsar as noivas da mesa.

- JÁ para o banho vocês duas! A equipe do salão vai encontrar vocês em meia hora!

- A Stella mandou as roupas já, certo, Violeta? - Perguntou Lorena.

- Já está tudo pronto, minha querida!

- Pera, você também foi na Stella?! - Eduarda perguntou surpresa.

- Claro, amor. Sua mãe me levou. 

- Mãe, você levou nós duas sem sabermos?

- Só você não sabia de mim, linda. Eu, Violeta e Stella conversávamos muito sobre você. - Lorena olhou pra ela e piscou.

- Mãe! - Eduarda virou-se para Violeta, que já ria abertamente. - Sério isso?

- Agora eu preciso te avisar toda vez que quiser passar tempo com minha nora preferida, Eduarda? 

- Nossa, vocês, hein… - Eduarda estreitou os olhos. - Bom, Zenilda, semana que vem, já sabe! Vamos juntas tomar um café!

- Combinado, meu amor! - Zenilda falou em meio às risadas do resto da família. - Agora vão lá se arrumar porque hoje não podemos nos atrasar!

Lorena e Eduarda despediram-se alegres, indo em direção a ala dos quartos da casa. 

- Amor, acho que agora nós nos despedimos, né? - Lorena falou quando chegaram em frente ao quarto com seu nome escrito em um pedaço de papel preso à porta.

- Quê?!

- Eu vou pro banho no meu quarto e já fico aqui esperando o cabeleireiro e a maquiadora e você a mesma coisa. Nos encontramos de novo mais tarde, tá? 

- Não! - Eduarda exclamou, indignada. - Ah não, amor, é sério? Mas eu quero tomar banho com você. - Olhava para Lorena com olhos enormes e um bico deste tamanho, sentindo-se contrariada ao extremo.

- Mas amor… assim a gente agiliza! - Lorena quis argumentar, tentando manter um semblante sério enquanto se aproximava da noiva e colocava uma mecha de seus cabelos atrás da orelha. 

- Mas vidaaaaaaaaaaaaaaaaaaa. - Eduarda miava, abraçando a cintura de Lorena. - Já que não quer pensar em mim, pensa no planeta! Economia de água! 

- Meu Deus, que dramática! - Lorena já não conseguia segurar o riso, os cantos da boca insistindo em subir.

- Eu sou apenas uma garota, diante de outra garota, pedindo para ela tomar banho comigo. 

- Vida, eu não te aguento. - Lorena sorria aberto agora. - Mas é banho, Eduarda. 

- Eu sabia que você aceitaria. - Eduarda havia desfeito o bico e sorria de ponta a ponta. - Você estava se fazendo de papel, né? 

- Talvez. - Lorena responde sem encará-la, fazendo cara de paisagem.

Eduarda gargalha, deixando um beijo na sua bochecha. 

- Eu já devia saber! Sempre a mesma tática.

- Funciona, ué… - Lorena defendeu-se. - Você sempre cai. 

- Sempre, é inacreditável.

- Tá, meu amor, vamos tomar esse banho antes que sua mãe apareça pra puxar nossas orelhas. - Lorena falou, já estendendo a mão para abrir a porta do quarto. - ‘Cê lava meu cabelo? Eu amo quando você faz isso. 

- Tudo que você quiser, amor meu. Tudo que você quiser. - Deixou um último beijo em Lorena, seguindo-a para dentro do quarto e fechando a porta atrás de si. 

*****

Eduarda estava na cadeira trazida pela equipe de cabeleireiros para prepará-la, tendo seu cabelo tratado por uma cabeleireira enquanto uma manicure fazia suas unhas, quando Paulinho chegou no quarto.

- E aí, Juquinha? - Cumprimentou sorrindo.

- Oi, padrinho. - Ela respondeu ao reflexo no espelho. - Trouxe minhas alianças ou serei obrigada a te demitir do cargo duas horas antes do evento?

- Nem brinca, Juquinha! Tão aqui sim, tá? Sou extremamente responsável. 

- Aham, sei. - O tom de Eduarda era seco, mas o sorriso discreto a traía. - E a Gerluce? 

- Tá lá fora falando com a Zenilda, depois ela vem aqui. Como você tá se sentindo, parceira? 

- Eu tô bem… ainda. Estranhamente bem. Não sei se isso é bom ou ruim, na verdade, porque sinto que vou chorar toda água do meu corpo quando a ficha cair.

Paulinho riu sincero, lembrando-se do dia do próprio casamento e do jeito como se sentiu.

- Capaz, Juquinha. Se você fosse entrar em parafuso, já tinha entrado faz horas! Vai chorar sim, mas não tudo isso que você tá pensando não, relaxa!

- Paulinho, você já viu meu pai, né? Um cachorro existe do lado dele, o homem já está chorando. Eu sou igualzinha, você sabe. 

- Eu sei, mas pensa só, isso é bom! Na polícia não seria, lá você tem que ser cascuda mesmo, mas aqui… - Paulinho fez um gesto abrangendo todo o ambiente. - Aqui você não precisa sustentar um personagem pra ninguém. Se permita se emocionar, garota, é o seu casamento! Com a mulher da sua vida! Vai ficar de contagem de lágrimas justo hoje?

- Paulinho, odeio quando tenho que admitir que você tem razão. - Eduarda falou enquanto balançava a cabeça em descrença. 

- Eu sempre tenho razão! Você que é uma mala e fica teimando comigo. - Paulinho rebateu. - Mas e aí, e teus votos? Tão aqui, né? 

- Tão sim… só não sei se estão bons o suficiente para ela. 

- Juquinha, coloca uma coisa na sua cabeça: não importaria se você chegasse lá e imitasse uma galinha os votos inteiros… O casamento é sobre muito mais do que isso.

- Eu sei, Paulinho, eu sei, mas mesmo assim…

- Ah, eu sei. A gente quer fazer bonito, quer descrever a pessoa amada no discurso mais bonito que ela já viu, etc, mas e se eu não conseguir fazê-la sentir-se especial?

- Tá, olha só, enquanto a chefia aqui trabalha nos teus cabelos, você me mostra os votos outra vez, pode ser? 

 

flashback - força-tarefa para parir os votos de eduarda na delegacia

Quando Paulinho chegou para trabalhar naquela quarta-feira, encontrou Juquinha já em sua mesa encarando um caderno aberto à sua frente, a caneta frouxa na mão. Estava tão concentrada que nem percebeu sua chegada, o vinco na testa denunciando seu estado de completa imersão na tarefa - fosse ela qual fosse. 

- Bom dia, parceira. - Paulinho cumprimentou sentando-se em sua própria cadeira.

- Hum. - Juquinha respondeu sem nem mesmo olhá-lo. 

Estranhando o comportamento da amiga, empurrou a própria cadeira para perto dela e aproximou o rosto do caderno, tentando descobrir qual o teor da tarefa aparentemente impossível para a qual ela se dedicava. Surpreendeu-se ao encontrar uma folha em branco, limpa, intocada.

- O que você tá fazendo, Juquinha? 

- Nada.

- Quem nada é peixe. - Paulinho respondeu, levantando um dedo. - Vamos, pode desabafar comigo. Tem algo te incomodando em casa? 

Juquinha finalmente desviou os olhos do papel para encarar o parceiro, que permanecia próximo dela, jogado em sua cadeira e olhando-a com tranquilidade.

- Que porra de desabafar, Paulinho? Quem disse que tem algo me incomodando em casa? - Respondeu irritada.

- Ninguém, ué, eu só estou aplicando meus conhecimentos recém adquiridos na terapia. Eu vi que você estava concentrada em algo, com uma cara meio fechada, e concluí que você poderia precisar de um espaço para expor seus sentimentos e ser acolhida. - Paulinho concluiu.

- Meu Deus, eu preferia quando você era mentalmente desequilibrado que nem eu.

- Juquinha, entenda, eu sou um homem mudado! Finalmente entendi os benefícios do acompanhamento psicológico de rotina e agora estou tentando mostrar para terceiros as vantagens de uma vida com mais autoconhecimento e controle sobre minhas emoções.

- Tanto blábláblá pra não admitir que quem te mandou pra terapia foi a Gerluce e você foi porque obedece ela acima de qualquer coisa.

Encararam-se em silêncio por alguns segundos, Juquinha segurando um sorriso. 

- Tá, sim. Ela me convenceu. - Paulinho admitiu, cruzando os braços. - MAS realmente é bom, Juquinha, tenho que te confessar.

- Tá bom, Paulinho. - Juquinha riu, mais relaxada. - Pois saiba que eu tenho minha psicóloga faz meses, ok? 

- E você foi atrás dela sozinha?

- Claro que não, Lorena me mandou. 

Seus olhares se encontraram novamente e o riso não pôde mais ser contido: riram juntos da própria incapacidade de contrariar qualquer ordem de suas respectivas mulheres. Quando se acalmaram, Paulinho voltou a falar.

- Tá, agora me conta o que você tá fazendo com esse papel em branco e essa caneta que já deve ter secado de tanto tempo aberta sem riscar nada.

Juquinha suspirou, finalmente admitindo para si que precisaria de reforços. 

- Eu tô tentando escrever meus votos de casamento, mas tá muito difícil! 

- Tá. Eu, Paulo Reitz, como seu padrinho oficial, vou te ajudar com essa tarefa. - Paulinho falou solene, colocando a mão direita sobre o peito como se fizesse um juramento. - Já volto, vou buscar reforços. 

E antes que Juquinha pudesse reagir e impedi-lo de fazer o que quer que ele estivesse planejando, Paulinho já tinha fechado a porta da sala atrás de si. Cinco minutos depois, voltou acompanhado do delegado Jairo, o qual vinha sorridente atrás de Paulinho, segurando uma caneca com café.

- Juquinha, meu amor, Paulinho me disse que você precisa de ajuda para escrever os votos de casamento! - Jairo disse sorrindo, claramente animado com a perspectiva.

- É sério que você trouxe um adúltero para me ajudar a escrever os votos do meu casamento, Paulo Reitz? - Juquinha perguntou para Paulinho, debochada.

- Não precisa ofender também, Juquinha. - Jairo respondeu, ofendido. - Você sabe que o amor nunca foi meu problema… A questão era o excesso! Posso muito bem te ajudar a escrever votos com paixão.

Juquinha pareceu considerar a proposta por alguns segundos, olhando de Jairo para Paulinho algumas vezes, analisando o quão grande era seu desespero para aceitar a ajuda deles para uma tarefa tão importante. Concluindo que estava à beira do precipício espiritual, suspirou, cedendo. Teria que aceitar toda a ajuda possível.

- Tá, vocês podem me ajudar. - Falou resignada. - Faz mais de uma semana que eu estou tentando escrever meus votos e tudo que eu consegui escrever no papel até agora foi “Lorena”. Assim, minha futura esposa é poetisa! Eu não posso chegar lá com meia dúzia de linhas mal feitas ou com um stand up de comédia… Eu preciso escrever algo tão lindo quanto ela!

- A gente pode usar o quadro para organizar nossas ideias! - Paulinho sugeriu. - O que você acha, delegado?

- Eu acho uma ideia ótima, Paulinho. Traga para cá o quadro e vamos trabalhar. 

Paulinho foi até o canto da sala, onde estava o quadro branco deles, e puxou-o para o centro do recinto, de modo a deixá-lo de frente para a mesa de Juquinha. Trouxe uma caneta azul,  para si, e uma caneta vermelha, a qual foi entregue a Jairo. Juquinha observava tudo com um misto de desespero e divertimento: duvidava muito que conseguiria extrair algum tipo de material relevante de qualquer um dos dois, mas queria ver até onde iria o teatro. 

- Juquinha, eu acho que você deveria começar focando na palavra “AMOR”. - Jairo disse enquanto escrevia “amor” em letras garrafais no quadro, perto do centro. - Paulinho, procura aí no dicionário a definição da palavra, faz favor.

- Aqui ó… “amor, substantivo masculino, atração afetiva ou física; afeto, carinho, ternura, dedicação; demonstração de zelo, dedicação; fidelidade… - Leu Paulinho diretamente da internet.

- Paulinho! - Chamou Juquinha. - Procura aí a definição de “adultério”, faz favor. 

- Poxa Juquinha, assim você me machuca… - Choramingou o delegado enquanto Paulinho e Juquinha riam.  

E assim passaram meia hora: Paulinho e o delegado descobrindo palavras novas, trazendo ideias, construindo frases juntos. Juquinha se divertia tremendamente, intercalando sua atenção às sugestões de discursos com momentos de dissociação em que achava ter encontrado alguma inspiração para algo, mas logo voltava à estaca zero.

- Juquinha, veja bem! Montamos um mapa mental muito rico aqui. - Paulinho falou enquanto apontava para o quadro, orgulhoso.

- Tá e… - Juquinha começou, levantando-se da sua cadeira, dando a volta na mesa e sentando-se sobre ela. - Vocês esperam que eu tire o que exatamente desse monte de palavras jogadas no quadro?

- Inspiração! - Disse o delegado.

- Palavras chave para a estruturação sólida do discurso! - Disse Paulinho.

- A receita do bolo está ali, minha cara. - Jairo discursava. - Agora depende de você transformá-la em bolo. 

- Minha nossa senhora… - Juquinha suspirou, passando a mão pelo rosto. - Eu vou chegar no meu próprio casamento sem votos, é isso.

Paulinho, que havia voltado para a própria mesa, olhava atentamente para o monitor enquanto digitava, concentrado.

- Negativo! Nada de pessimismo aqui, certo, Jairo?

- Com certeza, Paulinho! Você tem razão. Vai dar tudo certo Juquinha, você vai ver.

- Juca, presta atenção nessa ideia aqui… - Paulinho falava encarando o monitor. - Que tal começar os votos falando “Lorena, quando estamos juntas, mesmo sem falar nada, nosso silêncio é cheio.”? Eu acho que tem potencial.

- Paulinho, você pediu pro chatGPT escrever meus votos?

- Eu só pedi ajuda para começar! Sou seu padrinho, é meu trabalho encontrar soluções para teus problemas relacionados ao casório.

Eduarda jogou a cabeça para trás, ambas as mãos espalmadas contra o rosto, em postura de desistência. Quando abriu os olhos de novo, Paulinho e Jairo continuavam encarando-a em expectativa. Respirou fundo antes de voltar a falar.

- Gente, vocês precisam entender que minha muito em breve esposa é poetisa, ok? E ela é estudante de Letras. Vocês tão entendendo o tamanho da enrascada? Como é que eu compito com uma mulher que doma palavras? Que torce, estica, encurta, poda palavras todos os dias por esporte? Meu Deus eu vou passar tanta vergonha no meu próprio casamento.

- Ei, ei, ei, não vamos nos desesperar agora! Juquinha, me escuta, tudo tem solução! O que importa realmente é o amor entre vocês duas. - Jairo interferiu, antecipando a crise de Juquinha. - Tenho certeza absoluta de que a Lorena vai amar qualquer coisa que você disser porque vai ser dita por você.

- Mas como que eu chego no meu casamento com votos mal escritos? Delegado, a primeira vez que eu vi a Lorena… Foi a primeira vez que eu senti as tais das “borboletas no estômago”, sabe? Achava que fosse besteira, uma expressão puramente figurativa, mas é real. Quando a Lorena entrou pela porta vermelha da galeria naquele dia, eu senti as borboletas voando e eu pensei “eu vou casar com essa mulher um dia”. E por algum capricho generoso do destino, aqui estou eu, pronta para subir em um altar e colocar uma aliança no dedo dela, prometendo a ela todo o meu amor, meu carinho e o resto da minha vida. Eu quero a certeza de que vou acordar ao lado dela todos os dias, de que vamos dividir torradas na mesa do café da manhã, de que eu vou voltar pra casa de um plantão extremamente cansativo e ela vai estar me esperando no sofá. Eu quero as certezas e as dúvidas, eu quero a parceria e o atrito, eu quero o riso e o choro, eu quero o sol e a chuva: quero tudo de bom com seu oposto, porque eu não quero um relacionamento perfeito, eu não quero um mar em eterna calmaria, eu quero que a gente saiba encarar o temporal e esteja juntas quando a chuva passar e o sol nascer de novo. Quero que ela tenha certeza absoluta de que, no fim de um dia ruim, eu estarei lá do outro lado, esperando. Sempre. Pro resto da minha vida. 

Eduarda parou de falar e olhou ao redor procurando por Paulinho e Jairo: havia se deixado levar pelos pensamentos e, por alguns instantes, se esquecido de onde estava. Encontrou Paulinho sentado em sua cadeira e Jairo de pé na frente da mesa e ambos choravam copiosamente.

- Juquinha, eu… Eu não tenho palavras, minha filha! - Jairo disse com a voz meio embargada.

- É, parceira. - Paulinho falou, fungando, enquanto limpava os olhos. - Eu acho que você acabou de escrever seus votos. 

-  Ai meu Deus. - Juquinha arregalou os olhos, dando-se conta do que havia acabado de fazer. - Mas agora eu já esqueci o que eu disse!

- Não se preocupe, parceira. - Paulinho sorriu para ela. - Eu transcrevi tudo enquanto você falava. - Em seguida, virou o monitor na sua direção, mostrando o texto em um arquivo do docs. 

- Ah, Paulinho, às vezes você é um irmão mesmo. - Eduarda desceu da mesa e foi em direção ao parceiro, abraçando-o apertado. - No fim das contas, vocês realmente me ajudaram a escrever meus votos. 

- A delegacia dos apaixonados nunca decepciona no ramo, minha filha. - Jairo falou, piscando para ela.

Juquinha limitou-se a rir entre lágrimas de emoção que corriam pelas suas bochechas coradas sem resistência. Amava os colegas de trabalho como se fossem família, e, de certa forma, eles já eram. Contemplou-os por alguns minutos, rindo dos comentários que faziam, sentindo um calor se alastrar pelo peito enquanto permanecia ali. 

fim do flashback

- Paulinho. - Eduarda chamou.

- Hum?

- Você tá chorando?

- Não! - Ele respondeu, a voz saindo uma oitava mais aguda do que o normal. - Tá, eu tô sim, mas é que esses votos estão muito bonitos, Juquinha! Tô emocionado.

- Só tem chorão perto de mim hoje, inacreditável. - Eduarda entonou uma falsa nota de indignação.

- Até parece que você não vai se acabar em lágrimas mais tarde. - Paulinho pontuou.

- Ah, eu vou sim, mas não precisa ser agora, né? Você e meu pai tão competindo pra ver quem chora mais antes da hora.

- Juquinha, você tem que entender que somos homens sensíveis! 

- Tô até vendo vocês dois abraçados e chorando na hora dos votos. - Eduarda ria, divertida.

- Ah, e eu não duvido que o Jairo apareça pra fazer parte do abraço também.

Riram juntos, imaginando a cena. Paulinho continuou no quarto fazendo companhia durante o processo de arrumação de Eduarda, fazendo elogios ocasionais a cor do esmalte e ao penteado escolhido e conversando sobre banalidades, mantendo a ansiedade que aumentava a cada minuto relativamente controlada.

Quando seu coque ficou pronto, levantou-se da cadeira animada, pedindo licença para a maquiadora por alguns minutos e indo em direção à porta.

- Tá indo pra onde, Juquinha? - Questionou Paulinho.

- Quero mostrar meu cabelo pra Lorena, ué. 

- E você realmente acha que é uma boa ideia?

- Óbvio que sim, Paulinho, por que não seria?

- Ah, talvez ela não queira que você a veja logo antes do casamento… - Paulinho sugeriu com receio, com medo de ser repreendido. 

- Paulinho, é minha mulher, ok? Licença, já volto. 

Saiu do quarto sem olhar para trás, fechando a porta atrás de si e andando os poucos metros até o quarto em que Lorena se arrumava. Abriu a porta já sorrindo, ansiosa para ver a reação da noiva quanto ao seu penteado.

- Amor, olha aqui meu cab- - Começou, mas foi imediatamente interrompida. 

- EDUARDA! O que você tá fazendo aqui?! - Lorena exclamou, buscando desesperadamente algum pano ou toalha para se esconder.

- Eu vim te mostrar meu penteado, amor…

- Mas você não pode me ver agora, Eduarda!! Dá azar.

- Você acordou comigo hoje, Lorena, que diferença faz?

- Eu não estava vestida de noiva quando acordei.

- Na verdade, você não estava vestindo nada, né.

- EDUARDA! - A voz de Lorena saiu esganiçada. - Maggye, tira ela daqui!

- Vamos, Duda, antes que ela tenha um siricutico. - Maggye levantou-se da cadeira ao lado de Lorena, vindo em direção a Eduarda a passos rápidos enquanto tentava segurar o riso.

- Ai, tá bom, tá bom. Que saco. - Eduarda cedeu, visivelmente contrariada, e saiu do quarto.

Voltou para o seu salão improvisado arrastando os pés, o bico enorme denunciando a missão mal-sucedida.

- Foi expulsa, é, parceira?

- Não enche, Paulinho. - Sentou-se de volta na cadeira, preparando-se para ser maquiada. - Não faz sentido essa história de não poder ver a noiva antes da hora, que saco. 

Paulinho limitou-se a rir baixo, divertido, e voltou a ler sua revista. Alguns minutos mais tarde, Gerluce chegou, animada.

- Duda, sua maquiagem está ficando linda! - Ela exclamou, radiante. - Não vejo a hora de ver o conjunto todo: cabelo, maquiagem e vestido! Ai, amor, você não fica com saudade do nosso casamento assim? Me dá uma nostalgia…

- Mas amor, ainda chegam boletos pra pagar da nossa cerimônia… Eu não tenho como sentir saudade de algo que ainda não acabou! 

- Nossa senhora, Paulinho. - Eduarda murmurou de olhos fechados, reclinada na cadeira da maquiadora. 

- Ignora ele, Duda. - Gerluce falou, escaneando a sala com os olhos enquanto procurava pelo porta-vestido do traje de Eduarda. - Ai, e como ficou o vestido, afinal? 

- Gerluce, ficou maravilhoso! Que pena que vocês não conseguiram ir na última prova! 

- Ah, amiga, assim não estraga completamente a surpresa! E no fim, como ficou a questão das mangas? 

- O que você acha, Gerlu? - O tom de Eduarda era divertido. - Sem mangas!

- Você quer matar a Lorena, né? - Paulinho perguntou.

- Jamais, Paulo, jamais. Isso é tudo para ela.

 

flashback - terceira prova do vestido de eduarda

Por sugestão de Violeta, o vestido de Eduarda foi desenhado e produzido em um atelier de alta-costura de São Paulo. A idealizadora do ateliê e estilista mais requisitada era amiga antiga de Violeta, ambas carregando um extenso histórico de parcerias de trabalho na bagagem. 

Chegaram para a terceira prova no meio de uma manhã de sábado, ansiosas pela revelação do progresso do vestido, da materialização das ideias postas no papel. Além de Violeta e Eduarda, Paulinho e Gerluce também estavam presentes, animados com a perspectiva do casamento da amiga e vivendo a nostalgia dos preparativos para o próprio casamento, que havia acontecido alguns meses antes.

Esperaram pouco na recepção, degustando um café passado na hora na prensa francesa, grãos vindos de alguma terra longínqua, torrados sob um sol específico, com notas de especiarias exóticas, o quilo vendido a preços exorbitantes. Quando Paulinho pediu açúcar, foi fuzilado pela recepcionista que preparava as quatro xícaras, sentindo-se extremamente intimidado: a mulher encarava-o como se fosse um criminoso.

- A senhora me perdoe… - Começou hesitante. - É que lá na delegacia só tem melitta. 

Como que por mágica, a estilista apareceu logo em seguida, cumprimentando Violeta com um abraço caloroso. 

-Minha amiga querida! Sempre bom revê-la. - Stella Mercado exclamou, sorrindo de ponta a ponta. - Eduarda! Cada dia mais linda! Não vejo a hora de vê-la dentro do vestido! - Falou virando-se para a ruiva, abraçando-a em seguida. 

- E hoje temos convidados? - Virou-se sorrindo para Paulinho e Gerluce.

- Stella, esse é meu parceiro na delegacia, Paulo Reitz, e meu padrinho de casamento. E essa é a Gerluce, amiga querida e esposa dele. - Eduarda apresentou-os. 

Depois de trocadas as cordialidades, todos seguiram a estilista por um corredor que levava ao seu estúdio, uma sala ampla e bem iluminada que tinha janelas para um jardim muito bem mantido. Paulinho só voltou a respirar aliviado quando a porta se fechou, finalmente livre do olhar inquisidor da recepcionista.

Stella indicou o centro da sala, onde o vestido, já bem avançado na confecção, repousava em esplendor no manequim de pano, iluminado em tons dourados pelo sol que entrava discreto pelas janelas. 

-O que você acha, Eduarda? - Stella perguntou sorrindo, observando atentamente as reações da noiva.

- Eu… - Eduarda começou sem saber como prosseguir, os olhos arregalados, a boca parcialmente aberta. - Eu amei? Meu Deus, Stella, ele tá lindo! Tudo que nós fizemos no papel… Você tá traduzindo e deixando ainda melhor do que eu poderia sonhar… - Sua voz foi sumindo, silenciada pela emoção avassaladora que a atravessou. 

Quando virou-se para a mãe e os amigos, que a observavam em expectativa alguns passos mais distantes, os olhos estavam marejados, as lágrimas precisando apenas de um último incentivo para correrem livres.

- Mãe… - Eduarda falou, a voz embargada, os olhos brilhantes, um sorriso contido.

- Diga, meu amor. - Violeta falou, aproximando-se da filha.

- Eu vou casar, mãe. - E chorou. - É real.

- Você vai, meu amor, e você vai ser a noiva mais linda que já existiu! - Violeta disse enquanto envolvia a filha em um abraço lateral, beijando o topo da sua cabeça.

- Vamos com calma, mãe, porque eu ainda estou me casando com a Lorena. - Eduarda falou contra o peito da mãe, enquanto tentava limpar as lágrimas.

Todos riram: estavam emocionados, felizes, completos. Partilhavam de uma felicidade que havia movido montanhas e enfrentado gigantes para estar ali, hoje, naquele estado puro de plenitude e realização. Celebravam o amor de quem preferiu enfrentar o deserto, sem nenhuma garantia de que encontrariam água no destino final, a curvar-se sob as exigências de quem achava-se capaz de controlar a chuva - mas que não era capaz de abrir uma torneira.

- Vamos provar esse vestido, então? - Violeta falou quando o riso cessou, secando as próprias lágrimas de emoção por dividir esse momento com a filha.

- Vamos! - Eduarda concordou, sorrindo, observando Stella começar a remover o vestido do manequim. 

Paulinho, tal qual o cavaleiro que ele insiste em dizer que é, virou-se sem ninguém pedir, concedendo privacidade à Eduarda enquanto ela despia-se da roupa cotidiana para entrar no seu vestido. Já devidamente acomodada nos tecidos que aos poucos ganhavam a forma do seu traje de casamento, idealizado com tanto carinho em conjunto com Violeta e Stella, Eduarda girou na sala, radiante, ouvindo os elogios e as exclamações encantadas de todos. 

O casamento tradicional, com direito a vestido, buquê e festa, nunca havia sido seu sonho: idealizava, desde a adolescência, uma esposa, gatos e, - quem sabe? -, uma criança, mas nunca se viu ansiando pelos grandes eventos, pela cerimônia tradicional, pela dor de cabeça dos meses de planejamento. Sempre teve para si que o casamento no civil bastava, que o que realmente importava para ela, no fim do dia, era chegar em casa para sua esposa, na vida construída por elas com as próprias mãos, tijolo por tijolo, sua união blindada pela lei. 

Lorena, contudo, ansiava pelo casamento na totalidade do seu esplendor: falava em cerimônia, em votos, em vestido, em buquê, em flores. Queria a cor, a música, o riso alto e solto, o calor humano. Queria sim o buffet superfaturado, as tardes passadas decidindo a cor dos guardanapos de pano (creme mais claro ou creme mais-claro-ainda-porém-não-vejo-a-diferença), as provas dos doces e das roupas, e, principalmente, queria viver toda essa experiência de mãos dadas com Eduarda. 

Queria a festa, a farra, o barulho, o buquê sendo jogado, o bolo enorme com duas miniaturas dela e da esposa no topo sendo cortado, os brindes, os choros emocionados, a vida com a sua esposa sendo tratada como qualquer outra, a felicidade de ambas sendo celebrada e abençoada pelas suas famílias e amigos, e por tudo isso, Eduarda cedeu. Via o brilho nos olhos da futura esposa toda vez que chegavam no assunto “casamento”, via a frequência alta com que as covinhas surgiam toda vez que esse tópico entrava na roda, via como ela parecia sonhar acordada com esse dia, anotando ideias em seu caderno constantemente. 

Decidiram por sediar a cerimônia no sítio dos Fragoso, no espaço amplo do pátio principal da casa da família, em concordância com um dos sonhos de Lorena. Eduarda não cansava de ver a namorada tremendo de uma felicidade tão genuína, falando sobre seus planos para a decoração, para as músicas, para a comida, para a disposição dos convidados, e a ruiva não podia se interessar menos: apenas concordava com tudo que Lorena dizia, encantada com sua empolgação. 

Agora no estúdio de Stella, olhando-se no espelho em um vestido que já se parecia e muito com o resultado final, Eduarda sentiu, pela primeira vez, aquela vontade de uma cerimônia de casamento nos moldes tradicionais. Pensou que fosse chorar outra vez, mas conteve-se. 

Stella girava ao seu redor, observando o caimento, a forma, a maneira com que o tecido vestia o corpo dela, com alfinetes na boca e um olhar concentrado. 

- Eduarda, precisamos resolver uma questão pendente: as mangas do vestido. - Stella falou depois de se dar por satisfeita com os ajustes da saia.

- Sem mangas. - Paulinho falou, surpreendendo a todas as mulheres presentes.

- Desde quando você dá palpite em vestido de noiva, Paulinho? - Eduarda questionou, o cenho franzido enquanto olhava para o parceiro.

- Desde que eu tenho conhecimento sobre as preferências da sua noiva, Juquinha.

- E o que é que você sabe das preferências da minha mulher? - Eduarda franziu ainda mais o cenho, curiosa.

- Eu sei que ela prefere teus braços expostos. De preferência de uma maneira que ninguém mais os veja, além dela, mas enfim.

Fez-se silêncio por alguns segundos, tempo insuficiente para processar o fato de que Paulinho falava com tal propriedade sobre os gostos de Lorena, mas suficiente para instigar a curiosidade de todas as mulheres no estúdio. 

- E como é que você sabe disso, Paulo? - Foi a vez de Gerluce questionar.

- Ela me disse. - Respondeu simplesmente.

- Como assim te disse, Paulinho? - Eduarda falou, uma nota de irritação evidente na sua voz. - Para de se enrolar e explica logo toda essa história.

- Você lembra da coletiva de imprensa que nós participamos, depois da Operação Casa de Farinha? - Paulinho perguntou para Juquinha enquanto segurava um sorriso.

- Lembro sim, mas o que isso tem de relevante?

- Então, você lembra que te colocaram pra falar no centro da mesa? Você estava sentada lá, de braços cruzados em cima da mesa, vestindo um colete branco sem mangas. Tiraram fotos da coletiva e fizeram um post no instagram mais tarde pra falar disso, e a primeira foto do carrossel que eles postaram era uma sua respondendo algum repórter. E a Lorena viu o post e ficou… contrariada. - Paulinho falou sem olhar Eduarda nos olhos.

- Ué, mas contrariada pelo quê? - Eduarda questionou, claramente impaciente.

- Eles postaram aquilo pra enaltecer a competência da polícia, celebrar o sucesso da operação e o combate ao crime de falsificação de remédios e tudo mais, mas, no fim, aquele post virou sobre… você. - Paulinho hesitou. - Quando a Lorena viu os comentários do post… Ela veio me pedir pra dar um jeito de apagar aquilo pra ontem. 

- Que comentários, Paulo? - Gerluce precisou intervir porque Eduarda estava muito ocupada tentando fazer sentido do relato para falar.

- Ah, tinha de tudo, mas nada sobre a Operação em si… - Paulinho tentou desconversar.

- Paulinho, que comentários? - Juquinha chiou. 

Paulinho suspirou, resignado, e puxou o celular do bolso.

- Eu tenho os prints que a Lorena mandou aqui ainda… - Depois de abrir a galeria, entregou o celular para Eduarda.

Violeta e Gerluce aproximaram-se, uma de cada lado, olhando para a tela por cima do ombro da ruiva.

@becaoncinha queria ser a melhor amiga dessa aí pra poder dormir com ela pelada de conchinha

@floraleite alguém me diz se essa mulher tá solteira por favor é questão de vida ou morte

@emily_dickinson caramba que isso imagina levar um soco dela que sensação maravilhosa

@rockin_robin queria ser embalada pra dormir nesses braços fortes

@laura_hollis alguém sabe se ela come proteína? queria me oferecer de side dish…

@caitkiramman onde que eu assino pra levar um mata-leão dessa aí?

- Nossa, que comentários… criativos. - Violeta comentou quando terminou de ler os prints. 

- Realmente, colocar ESSA foto tua no destaque do carrossel foi uma escolha… - Gerluce comentou. - Não me surpreende que o foco da Operação tenha sido deturpado.

- Pois é, eu mesmo fucei no post depois que a Lorena travou meu whats com notificações e achei um de um usuário chamado @misssnake_69 que dizia “Operação Brações da Cenourinha”. - Paulinho completou.

Eduarda ainda olhava para o celular, tentando descobrir se sentir seu ego massageado pelos comentários era algo bom ou ruim.

- Paulinho, mas eu não entendi… Por que a Lorena pediria pra você excluir isso e não pra mim?

- Ela disse que não queria que você achasse ela uma “ciumenta maluca e controladora”. Palavras exatas! - Paulinho segurava o riso com dificuldade. - Quando eu disse que não conseguiria fazer nada, que não tinha nenhuma relação com o pessoal que controlava a imagem pública da delegacia, ela ameaçou ir até lá falar com eles pessoalmente porque, segundo ela, os braços da mulher dela eram dela para serem apreciados e apenas dela.

Após alguns momentos de reflexão, o vinco no cenho foi suavizando e um sorriso divertido foi se formando nos lábios de Eduarda, que virou-se para a estilista e anunciou com propriedade.

- Sem mangas! Se minha mulher gosta dos meus braços, então quem sou eu para tapá-los? 

A estilista, que havia permanecido de pé com alfinetes na boca esse tempo todo, fascinada pela interação do grupo nos últimos minutos, sorriu, concordando. Aproximou-se outra vez de Eduarda e continuou fazendo seus ajustes no vestido.

E assim a decisão mais importante de todo o processo de confecção do vestido de Eduarda foi tomada: seus braços permaneceriam expostos.

 

fim do flashback

- O que você achou? - A maquiadora perguntou assim que terminou de pintar os últimos traços no rosto de Lorena, posicionando-se ao seu lado e permitindo a morena que olhasse seu reflexo no espelho.

Lorena encarou-se por alguns segundos, tentando processar os detalhes com calma. Seu cabelo estava solto, suas ondas libertas desaguando sobre seus ombros. Tinha apenas duas tranças discretas nas laterais da cabeça, presas juntas atrás, impedindo que as mechas caíssem nos olhos. Sua maquiagem evidenciava o verde dos seus olhos de uma maneira deslumbrante, completa pelo batom vermelho nos lábios. 

Já vestia seu terno branco, feito sob medida de acordo com suas próprias ideias, o corte perfeito abraçando seu corpo com delicadeza.

Tocou seu braço, sentindo a textura do tecido, como quem custa a acreditar que algo é real e que não acordará logo em seguida, deixada com uma fumaça da sensação daquilo que por um momento foi tão sólido. 

Não, hoje não. Hoje essa era sua vida real, fora dos sonhos traçados em papel por mãos trêmulas, borrados por lágrimas que insistiam em escorrer enquanto Lorena se forçava a escrever, a desejar, a implorar por um futuro mais gentil. 

Em poucos minutos, atravessaria o jardim em direção a Eduarda, sua namorada, seu amor, sua futura esposa, cercadas por todos aqueles que as amam genuinamente, sem medo, sem receio, sem nada além da certeza de que aqui e agora é exatamente onde ela deveria estar. Respirou fundo, sentindo a emoção tentar afogá-la. Ainda não, pensou. Só mais um pouco.

Logo a porta se abriu e Zenilda apareceu.

- Oi, meu amor! - Ela falou enquanto se aproximava, olhando para o reflexo de Lorena com olhos brilhantes. - Filha, eu… Você está tão linda, filha. 

- Mãe, eu vou casar. - A voz insistiu em tremer, mas Lorena se controlou.

- Você vai, filha! Com o amor da sua vida. - Zenilda sorria bem perto de Lorena agora, fazendo um carinho delicado em seus cabelos. - E você vai ser tão, mas tão feliz. Ainda mais do que já é! 

- Eu amo tanto ela, mãe…

- Eu sei, meu amor, e ela também te ama.  

- Eu vou casar com ela, mãe! - Lorena repetiu, sentindo o coração acelerado, a ansiedade pelo momento que se aproximava rapidamente aumentando.

- Você vai, meu amor! - Zenilda riu. - Você vai. Eu te amo tanto, minha filha, tanto! 

- Também te amo, mãe. - Lorena respondeu, puxando a mãe para um abraço apertado. 

Depois de meses reconstruindo a relação, tijolo por tijolo, elas finalmente se reconheciam como mãe e filha sem nenhuma barreira ou cortina ou parede de vidro separando-as de alguma maneira. Zenilda desfez-se do abraço, limpando uma lágrima solitária.

- Vamos, Lorena? Tá na hora.

- Vamos, mãe. - Sorriu e seguiu Zenilda para fora do quarto.

Enquanto atravessavam a sala, percebeu vagamente uma pessoa da equipe de cerimônia entregar-lhe um buquê de flores coloridas e avisar-lhe que entraria em poucos minutos, pedindo para que se posicionasse. Aceitou o buquê e pressionou-o contra o peito como se fosse uma âncora, concordando com as instruções sem realmente tê-las ouvido. Quando a brisa trouxe os primeiros acordes da suite de Bach para dentro do recinto, Lorena achou que seu coração rasgaria seu peito e sairia correndo em liberdade. De repente, foi atravessada por uma lembrança antiga, guardada por doze anos naquelas reentrâncias da alma que são pouco visitadas, mas jamais plenamente esquecidas.

 

flashback - uma tarde longa demais na piscina da casa de uma colega chamada clarissa em 2014

Era um dia quente de outubro. Clarissa, uma de suas colegas de classe, havia ligado convidando-a para passar a tarde em sua casa com outras meninas para aproveitarem a piscina. Lorena não queria ir, mas Zenilda a convenceu, dizendo que faria bem para ela sair um pouco de casa. Afinal de contas, Lorena jamais saía do quarto: investia todas as horas possíveis em seus livros, saindo de casa apenas arrastada.

Querendo agradar a mãe e poupar-se de um conflito, Lorena concordou com a visita à casa de Clarissa. Decidiu que tentaria aproveitar de alguma maneira, mesmo não gostando muito daquelas garotas… Mas elas a convidaram, não? Talvez estivessem mudadas? Talvez quisessem mudar? Muitos questionamentos alternavam-se na cabeça de Lorena, que organizou sua mochila com roupas de piscina e toalha e pegou um livro novo, determinada a adiantar a leitura até a hora de sair.

Chegaram à casa com pontualidade britânica, Zenilda radiante e Lorena… bem, Lorena preferiria frequentar a escola em um domingo a encarar Clarissa e sua trupe. Com uma última olhada para trás, para a mãe que abanava e mandava beijos, Lorena seguiu seu caminho em direção ao número 22, tocando a campainha logo em seguida.

Magda, a mãe da menina, foi quem atendeu a porta, recepcionando Lorena e cumprimentando Zenilda, que havia ficado esperando a filha entrar na residência antes de dar a partida e seguir com seu dia. 

- As meninas já estão lá na piscina, minha querida! Você quer se trocar e ir lá com elas? - Magda perguntou a Lorena enquanto a guiava pela sala. 

- Pode ser, sim. - Lorena sorriu, forçando-se a ser agradável.

- Vou te deixar à vontade, então! Já vou avisar a Cissa que você chegou, tá bem? Qualquer coisa que precisar é só me pedir, querida. - Magda falou enquanto indicava o banheiro social da sala e já andava em direção ao pátio, de onde podiam ser ouvidas vozes animadas.

- Tá bem, muito obrigada. 

Lorena colocou seu biquíni e foi andando em direção às portas da varanda com passos hesitantes, nervosa com a perspectiva de passar uma tarde com meninas que estavam longe de serem suas amigas: nunca a trataram exatamente mal, nem foram exageradamente agressivas de alguma maneira ou descaradamente debochadas, mas Lorena sentia os olhares, os comentários trocados em voz baixa, os julgamentos. Ela era a “esquisita” da sala: dificilmente era vista sem um livro debaixo do braço, não demonstrava interesse nas coisas consideradas comuns para as meninas da sua idade, não se misturava muito nas brincadeiras e passava mais tempo conversando com as professoras do que com qualquer colega, hábito que lhe rendeu a alcunha debochada de “puxa-saco”. 

Lorena tinha certeza de que Clarissa havia sido obrigada pela mãe a convidá-la, já que Magda e Zenilda nutriam uma boa relação, e por isso não conseguia relaxar: sabia que Clarissa podia ser obrigada a convidá-la, mesmo à contragosto, mas ninguém poderia obrigá-la a tratar Lorena bem se ela não quisesse.

Chegando à varanda, encontrou Clarissa, Daniela, Milena e Priscila na piscina, rindo e falando alto, uma música pop tocando no CD player instalado no deck. As quatro meninas viraram-se para Lorena assim que ela apareceu no seu campo de visão, agarrada à sua mochila como se fosse um escudo. 

- Oi. - Lorena disse, hesitante.

- Oi. - As meninas responderam, claramente contrariadas com sua presença.

Para a sorte de Lorena, Magda apareceu logo em seguida trazendo uma bandeja com cachorros-quentes para lanchar, chamando-as para comer e tratando de inserir a recém-chegada na dinâmica da tarde. 

Conforme o tempo foi passando, Lorena foi se sentindo mais à vontade: as meninas pareciam mais receptivas, conversando com ela com normalidade, sem aquele deboche implícito na voz que era tão comum nas aulas. Lorena respondia, perguntava, ria, sentindo-se incluída de uma maneira inédita.

A tarde foi passando, e, quando seus dedos secaram como ameixas e seus corpos ameaçaram ceder ao cansaço, decidiram sair da piscina e ir para o quarto comentar sobre os colírios Capricho das revistas de Clarissa. A garota tinha pilhas de revistas coloridas no quarto e vários posters colados na parede dos mesmos cinco garotos, aparentemente integrantes de uma banda chamada One Direction, da qual Lorena nunca havia ouvido falar.

- Você não conhece One Direction, Lorena? - Milena havia exclamado, incrédula, quando Lorena apontou para um dos posters perguntando quem eram. 

- Não…

- Ai, não acredito! Você devia conhecer! - Priscila inseriu-se na conversa. - Queria tanto namorar o Zayn…

- Pois eu queria namorar o Louis! - Daniela completou, olhando para um dos garotos no pôster com olhar sonhador. - Imagina que lindo seria quando a gente casasse…

- E eu queria casar com o Harry! - Clarissa compartilhou. - Um casamento enorme, cheio de convidados, com a própria banda tocando na hora da festa! E o Harry subiria no palco pra cantar uma música só para mim… E passaríamos a noite dançando muito.

- Nós podíamos casar juntas, né? Imagina, nós em uma igreja enorme, uma orquestra tocando… - Milena sugeriu. - A Clarissa e o Harry, a Dani e o Louis, a Pri e o Zayn e eu e o Liam! Até sobrou um para você, Lorena.

- Pra mim? - Lorena falou sem entender bem.

- É, o Niall! Ele é meio feinho, mas é o que sobrou…

- Ah, mas… - Começou a sentir uma bola se formando na garganta, nervosa com a sugestão. - Eu não sei se queria casar assim… - Tentou desconversar.

- Assim como? 

- Assim em igreja… 

- E como é que você queria casar, então? - Clarissa questionou, observando Lorena atentamente. 

- Ah, eu… eu imagino meu casamento acontecendo em um lugar aberto, em um sítio ou algo assim, com várias flores espalhadas por todo lado e luzes penduradas nas árvores. E eu vou atravessar o corredor entre as cadeiras enquanto um violoncelista toca a suíte nº 1 em G maior de Bach e eu vou olhar pra frente… - O vislumbre do desejo de Lorena estava estampado em sua retina: a garota olhava para uma parede sem realmente vê-la, tão imersa estava em sua fantasia. - E a minha futura esposa vai estar me esperando no altar e eu-

-Esposa? - Milena perguntou, incrédula. 

-Sim, minha futura esposa. - Lorena respondeu, um pouco perdida pela interrupção brusca do seu relato. - Não quero casar com esse Nigel…

- Você quer casar com uma mulher? - Foi a vez de Clarissa se intrometer, aquela conhecida nota de deboche despontando em sua voz. 

- Sim… - Lorena sentia aquele calor que a preencheu durante a narração do seu mais íntimo desejo sumir aos poucos, perder o brilho. Olhava confusa para Clarissa, o cenho franzido, sem realmente entender o problema.

Risadas explodiram no quarto: Milena, Clarissa, Daniela e Priscila gargalhavam. Lorena permaneceu estática, aquele sentimento gelado que começava no rosto e descia para o corpo inteiro, a vergonha absoluta de si.

- Nossa, mas que ideia ridícula!!! - Daniela comentou enquanto tentava controlar o riso. - Imagina achar que uma mulher vai esperar outra no altar, como se fosse um casamento de gente normal. 

Nova onda de risadas. Agora elas se curvavam para frente, segurando o próprio abdômen, enquanto se desmanchavam em risos da ideia absurda. 

Lorena olhava para elas sem reagir. Decidiu ali mesmo, no auge dos seus treze anos, que não choraria sobre isso na frente de ninguém. Engoliu em seco, forçou um sorriso e logo estava conversando normalmente com as amigas outra vez, o assunto de casamento superado. 

Aguentou pacientemente mais duas horas na casa de Clarissa, pois não ligaria para a mãe pedindo para buscá-la mais cedo do que o combinado. Não mostraria a nenhuma delas o quanto sangrava por dentro, rasgada pelas risadas estridentes que transbordavam deboche.

Quando Zenilda finalmente chegou, sorrindo para a filha e perguntando se ela havia se divertido, Lorena entrou no carro, devolveu o sorriso e disse que sim. Conversaram sobre amenidades no caminho para casa, como normalmente faziam, sem realmente se aprofundar em nada. Zenilda não percebia e Lorena se questionava se algum dia perceberia. 

Ao chegarem em casa, Lorena foi direto para o quarto, e, com a porta finalmente fechada, soltou o ar preso há horas e chorou: chorou pela humilhação, pelo deboche, pela acusação velada de não ser uma pessoa normal. Sabia que o casamento homoafetivo era garantido por lei no Brasil, lembrava-se de ter visto a notícia na televisão no ano anterior, os olhos enormes encarando o repórter que fazia a cobertura da notícia, o coração batendo um pouco mais acelerado, mas também sabia que a lei mudava muito mais rápido que as pessoas. 

Sentada no chão do quarto, abraçada às próprias pernas em um embalo solitário do próprio ser, desamparada dentro da própria casa, Lorena chorou todas as lágrimas que tinha dentro de si, e, quando seu pulmão já ardia e seus olhos estavam tão inchados que tinha dificuldade para enxergar, ela tomou uma decisão. 

Levantou-se e foi até a mesa de cabeceira, abrindo a terceira gaveta e retirando de lá um caderno surrado. Levou-o consigo até a escrivaninha, abrindo-o e procurando a próxima página em branco no meio de seu mar de pensamentos, ideias e desabafos, e escrevendo lá como promessa.

fim do flashback

 

Lorena respirou fundo, fechando os olhos pela duração de um batimento. Sentia a firmeza do braço de Zenilda no seu, apoiando-a, enquanto atravessavam as portas de correr da varanda indo em direção ao ponto de início da caminhada até o altar, logo onde acabava a pedra e começava a grama.

Olhava ao redor para seus convidados: amigos da faculdade de Letras, amigos da Fundação, amigos dos meses em que trabalhara como garçonete em um bar. Via também a família de Eduarda, seus amigos da escola, seus amigos da delegacia - todos eles já inseridos na vida de Lorena de alguma maneira, como que por consequência óbvia do relacionamento. Sentiu o cheiro das flores trazido pela brisa e buscou-as pelo ambiente: havia espécies cor-de-rosa, amarelas, laranjas, espalhadas por todo o perímetro. 

Sentindo seu coração bater mais rapidamente, seu olhar direcionou-se enfim para o altar: Eduarda estava lá, sorrindo para ela o maior dos sorrisos, uma lágrima teimosa insistindo em escorrer pela sua bochecha. 

Eduarda estava linda

Seu vestido lhe caía como luva, discreto como tudo que ela usava, mas, ainda assim, impressionante. Tinha as mãos inquietas ao lado do corpo, como se não soubesse onde repousá-las, e seus olhos brilhantes não desviavam da imensidão verde de Lorena: ali naquele espaço entre suas íris, transbordavam-se. Agora só viam uma à outra, nada mais importava. Conforme andava em direção à noiva, guiada por uma Zenilda que não se continha em felicidade, Lorena absorvia mais detalhes de sua mulher: o vestido com alças discretas, deixando os braços fortes de Eduarda à mostra, o coque elegante e as poucas mechas deixadas soltas de propósito, o seu cabelo ruivo em chamas sob a luz do sol que aos poucos se despedia, as lágrimas que seguiam rolando e o sorriso que não hesitava. 

Sentiu-se atingida por uma súbita onda de emoção quando foi deixada por Zenilda no altar e postou-se de frente para Eduarda, encarando seus poços de avelã banhados em ouro. Tentou conter-se por força do hábito, evitando chorar antes da hora e borrar sua maquiagem.

Contudo, não esperava a atitude de Eduarda, que, percebendo a mudança sutil na sua respiração, tomou suas mãos para si e levou-as até a boca, deixando um beijo em cada dorso sem desviar os olhos de Lorena. Foi o estopim: as lágrimas finalmente libertaram-se do rosto da morena, rolando livres pela sua face. Fechou os olhos por um instante, pensando na Lorena de treze anos. 

Nós conseguimos, Lô. Nós casamos com a mulher mais linda que esse mundo já viu. 

Quando os abriu novamente, reencontrou-se com os faróis de Eduarda, vendo a si própria refletida neles, e sorriu tão grande que suas covinhas pareciam capazes de conter o mundo. 

Assim que percebeu que as noivas estavam prontas, Michele, o amigo convidado para atuar como juiz de paz, iniciou a cerimônia. 

- Boa tarde a todos! Me sinto verdadeiramente honrado de poder participar de um evento tão bonito como esse! Nós todos estamos aqui hoje com o único propósito de celebrar a união dessas duas mulheres incríveis, que nos ensinam todos os dias algo novo e valioso sobre a verdadeira essência do amor. O amor, para elas, nunca foi uma escolha: foi uma colisão de almas prevista, escrita nas estrelas desde a criação do Universo. O sentimento que nutriam uma pela outra nunca foi dúvida e nem gerou qualquer insegurança: desde o primeiro momento, o afeto foi sólido, honesto e escancarado. - Michele fez uma pausa breve, alternando seu olhar entre as noivas e os convidados. - Hoje celebramos esse amor construído na troca, na parceria, nos olhares demorados, nos corações galopantes, nos toques roubados. Celebramos a coragem de escolher o amor mesmo quando o céu se fechou em tormenta sobre elas, mesmo quando atravessadas pelo medo, pelo abandono, pelo preconceito. Todas as vezes que foram apresentadas com opções mais fáceis, com caminhos menos tortuosos, elas escolheram uma a outra de cabeça erguida. Enfrentaram o mundo de mãos dadas, queimando ao sol e se encharcando na chuva, fazendo sacrifícios impossíveis e se adaptando às circunstâncias, até chegaram ao início do arco-íris juntas, e lá encontraram o tesouro que sempre mereceram: o início do resto das suas vidas como uma só. Hoje celebramos a força e a teimosia de quem nunca se curvou aos caprichos alheios, nunca deixou de amar aos berros, nunca permitiu ter seu amor e seu direito de amar ser posto em xeque. Celebramos o encanto da paixão arrebatadora, a felicidade genuína da vida à duas, os pequenos prazeres de uma rotina doméstica, a possibilidade de reunir amigos e família para festejar. Lorena e Eduarda, o amor de vocês duas é revolucionário, e é um prazer enorme para mim… - Fez um gesto amplo com as mãos, abrangendo os convidados sentados nas cadeiras em frente ao altar. - Para nós, sermos testemunha disso.

Michele puxou um lenço do bolso para limpar uma lágrima solitária que escapou contra sua vontade antes de continuar.

- E agora, a melhor parte: que venham os votos! - Sorriu largo, emocionado. 

Eduarda e Lorena olharam-se nervosas, sentindo aquele misto de antecipação, ansiedade e medo que as acometia em momentos aleatórios nos últimos dias. Com mãos trêmulas, Eduarda recebeu seus votos escritos em papel de Paulinho, que estava logo atrás dela no altar.

- Eu quero começar! - Eduarda disse com a voz mais aguda que o normal, arrancando alguns risos da plateia. Sua voz denunciava seu estado de emoção avançado. - Tudo bem, vida? Eu preciso começar porque se ficar para depois do seu… Eu não vou conseguir falar nada de tanto chorar. 

- Claro que pode, meu amor. - Lorena riu junto dos convidados, pegando uma mão de Eduarda e levando aos lábios.

Eduarda a encarou em silêncio por alguns segundos, parecendo se acalmar ligeiramente, antes de desamassar o papel dos votos, limpar a garganta e começar a falar. 

- Lorena, eu… - Eduarda teve seu fluxo de pensamentos interrompido por um soluço alto, virando-se em direção ao som para descobrir a origem. 

Logo identificou seu pai, sentado na primeira fileira de cadeiras, com uma mão na boca em uma tentativa desesperada de se acalmar. Chorava de maneira contida desde a caminhada até o altar, controlando-se relativamente bem, mas ver sua filha, seu maior amor e orgulho, preparando-se para ler seus votos de casamento foi demais para ele: chorava copiosamente, o rosto vermelho, o olhar emocionado. 

- Pai do céu, se controla senão eu vou chorar contigo! - Eduarda disse meio rindo, meio já chorando.

- Desculpa, meu amor, é que é emoção demais… - Henrique respondeu entre soluços, sendo amparado por Violeta. 

- Vida… - Lorena chamou, trazendo a atenção de Eduarda de volta. - Tá tudo bem, não precisa ficar nervosa, tá? Olha pra mim… somos só nós duas aqui e mais ninguém. 

Lorena tinha aproximado seu rosto de Eduarda, as pontas dos narizes quase de tocando, o mar verde - que sob a luz do meio da tarde parecia esmeralda - devorando o avelã naquela conexão silenciosa e indecifrável para o mero espectador, mas que fluía tranquilamente entre elas. Eduarda sentia o coração galopar, mas ao olhar fundo nos olhos de Lorena, sentiu algo se acalmar em seu peito e uma paz líquida se espalhar por todo seu corpo. 

Sorriam uma para a outra, alheias ao resto dos presentes, à existência de uma cidade a poucos quilômetros dali, ao tempo passando, ao sol correndo para o horizonte: sob aquele céu, naquele momento, elas eram as únicas pessoas no mundo. Eduarda respirou fundo outra vez, concentrando-se.

- Lorena. - Falou, a voz mais firme, mais certa. - Serei obrigada a pedir licença agora para usar as palavras com menos encanto e refino do que elas mereceriam, do que você mereceria. Uma das grandes vantagens de compartilhar a vida com uma poetisa é aprender, todos os dias, como trazer meus sentimentos pra fora de maneiras diferentes; como arrancar sentido de algo banal e rotineiro e transformá-lo em uma declaração de amor; como explicar o fato de me apaixonar mais por você em todo amanhecer usando a mesma língua dos anjos.

- Mas eu continuo não tendo o seu dom de curvar as palavras de acordo com sua vontade, de domá-las, espremê-las e agigantá-las. Eu tenho apenas as palavras como elas são e um sentimento grande demais para o meu corpo. Mas por mais que eu repita as palavras, por mais que eu não saiba traduzir meus sentimentos com a sua precisão, eu te afirmo com certeza: toda vez que te falo, é diferente. Porque toda vez que te olho, te sinto, te ouço, algo muda em mim: o amor cresce, ocupa, transborda. 

- Lorena, a primeira vez que eu te vi, entrando pela porta vermelha da galeria naquele dia, eu senti, pela primeira vez na minha vida, as famosas “borboletas no estômago”. Eu pensei que fosse voar tamanho o alvoroço causado pelo bater das asas delas, sabia? Eu olhei pra ti e foi como se algo mudasse dentro de mim de maneira irreversível. Nunca quis tanto uma mulher quanto eu te quis naquele momento. Nunca senti tamanha conexão imediata com alguém como o que eu senti quando você se aproximou para me cumprimentar com um abraço. E eu, que nunca acreditei no destino, tive meus princípios obliterados por um único pensamento: “eu vou casar com essa mulher um dia”. E olha onde estamos! Estou aqui pronta para colocar uma aliança no seu dedo, te prometendo todo meu amor e o resto da minha vida. Eu estou aqui, extasiada com a certeza de que vou acordar ao seu lado, de que descobrirei poemas em post it espalhados pela casa escritos para mim, de que dividiremos torradas no café da manhã, de que voltarei de um plantão cansativo na delegacia e te encontrarei me esperando - todos os dias. 

- Meus pais sempre me disseram, enquanto eu crescia, que essa história de encontrar a tampa da sua panela ou a metade da sua laranja é uma grande bobagem, porque isso implicaria na inexistência de um ser humano completo em si mesmo. Minha mãe, particularmente, sempre fez questão de me repetir que eu era suficiente, inteira e completa, me pedindo para prometê-la que nunca permitiria que me arrancassem um pedaço de mim para justificar uma falsa sensação de incompletude. Ela dizia que, nessa vida, a matemática que vale não é a que soma ½ com ½ para resultar em 1, mas a que soma 1 com 1 para resultar em 2.  Precisamos ser inteiros em nossos relacionamentos, por nós e pelo outro: respeitar a individualidade, celebrá-la e cultivá-la. E só assim podemos ser inteiros à dois. 

- Confesso que passei muitos anos da minha vida sem efetivamente compreender o que minha mãe queria dizer com tudo isso até te conhecer, Lorena. Algo em você me atraiu de tal maneira que eu não via mais possibilidade de existir se não pudesse te orbitar, te ter perto e te descobrir. Desde o primeiro momento, eu quis virar sua plateia exclusiva, a pessoa que te ovaciona da primeira fileira do teatro e depois te encontra no camarim. Queria ouvir o que você tinha a dizer, ler o que você tinha a escrever e enxergar o mundo através dos seus olhos cor de mar em dia de sol. 

- Lembro do início, das noites em que ficamos em ligação até tarde, quando você não conseguia dormir e queria companhia, me contando dos seus livros preferidos enquanto eu permanecia em silêncio, absorvendo tudo. E penso no hoje, em que dividimos uma cama, e você continua me contando das coisas até altas horas da madrugada, nossos narizes tão perto que faz cócegas, sua voz me envolvendo como música. Você sempre me fascinou, Lorena, e o faz até hoje. Mesmo sabendo que precisaria acordar cedo no dia seguinte, mesmo sabendo que ainda hoje preciso, eu não sei parar de te ouvir: eu sempre quero mais e mais se vem de você. Sua inteireza me encanta e me deslumbra, e são nesses momentos em que eu entendo o que minha mãe queria dizer com 1 mais 1 resultarem em 2. 

- Eu amo me somar a você e viver a gente. E pelo resto do nosso tempo, eu quero as certezas e as dúvidas, eu quero a parceria e o atrito, eu quero o riso e o choro, eu quero o sol e a chuva: quero tudo de bom com seu oposto, porque eu não quero um relacionamento perfeito, eu não quero um mar em eterna calmaria, eu quero que a gente saiba encarar o temporal e estejamos juntas quando as nuvens abrirem e o sol reaparecer no céu. Quero que você tenha certeza absoluta de que, no fim de um dia ruim, eu estarei lá do outro lado, esperando.

- Assim como te quero e te recebo inteira, me entrego inteira para você em corpo, alma e pensamento. 

- Lorena Fragoso, você é a mulher da minha vida. E saber que, no fim do dia, você vai para casa comigo é o que faz meu coração bater mais forte.

- Te amo pra sempre, vida. 

Quando Eduarda levantou os olhos do papel, encontrou um par de esmeraldas brilhantes encarando-a como se ela detivesse as respostas para todas as perguntas. Lorena chorava silenciosamente, seu olhar preso à Eduarda como que por magnetismo, as ondas do seu mar escorrendo em amor pelos cantos dos olhos. 

Contrária ao que seria esperado, Eduarda segurou o rosto de Lorena com as duas mãos, aproximando-se o suficiente para depositar um beijo em sua testa, logo descendo o rosto até seus narizes e testas se encontrarem. Fechou os olhos e ali ficou, embalando Lorena enquanto processava seus sentimentos.

- Te amo. - Eduarda repetiu em um sussurro exclusivo para Lorena.

A morena ainda precisou de alguns instantes para se recompor e reaprender a falar, a agir, a existir: quando foi que aprendera a nadar nesse oceano de amor de Eduarda? Enxugou os olhos delicadamente, tentando preservar a maquiagem, e sorriu para a noiva um sorriso puro e cheio de significado.

Respirou fundo por alguns instantes, recebendo de Maggye as folhas dos seus votos e limpando a garganta para fazer sua própria leitura.

- Oi, vida. - Começou hesitante, as mãos ainda trêmulas do excesso de emoção que havia tomado conta dela alguns instantes atrás. - Sabe de uma coisa engraçada? Na primeira vez que eu te vi lá na galeria, meu coração acelerou de tal maneira que eu pensei que ele nunca mais acalmaria. E mesmo depois de todo esse tempo, ele ainda acelera igual todas as vezes que eu te vejo. É como se eu me apaixonasse por você de novo e de novo e de novo, como se fosse sempre a primeira vez. Agora mesmo eu o sinto galopando no meu peito! É como se ele fosse viciado em você, Duda. Como se meu corpo, minha mente, minha alma fossem viciados em você. E talvez seja exatamente isso: eu sou completamente, perdidamente, irremediavelmente viciada em você, encantada por você, apaixonada por você. E eu honestamente não sabia que era possível sentir-se assim um dia.

- Antes de te conhecer, eu não sabia bem o que era felicidade, nem sabia o que era sentir a segurança de um amor tranquilo que não exige, não cobra, não pressiona. Foi você quem me ensinou, sabia? E continua ensinando todos os dias. Você me ensinou a ser feliz, a ser livre, a ser leve. Contigo, eu consigo ser eu mesma e sorrir sem sentir vergonha, sem sentir a necessidade de me conter, sem sentir que sou demais. 

- Você também me ensinou a ter coragem, Eduarda. Coragem para existir de cabeça erguida e peito cheio, coragem para sentir orgulho de quem eu sou, coragem para lutar pelo amor que nós construímos. Você permaneceu ao meu lado durante os piores momentos da minha vida, sem titubear, e se tornou a minha referência no escuro: existe algo em você que incendeia, um calor intrínseco que irradia e envolve quem está perto, uma chama alta que ilumina até o breu mais espesso. Você foi meu apoio, minha luz e meu colo preferido enquanto eu via minha vida ser virada de cabeça para baixo e tinha dificuldade em acreditar que ela voltaria ao normal em algum momento. Quando fui obrigada a atravessar o deserto, você não hesitou em me seguir na areia: quando eu precisei parar para respirar, você me esperou pacientemente; quando eu precisei enfrentar meus tormentos sozinha, você me encontrou na metade do caminho; e naqueles dias em que eu não conseguia mais caminhar, você passou um braço pela minha cintura e me manteve em movimento, sustentando meu peso até eu conseguir me carregar sozinha. E qual não foi a minha surpresa quando eu entendi que o oásis no fim do caminho era, antes de qualquer lugar físico, a família que eu havia encontrado em você? Quando eu finalmente reencontrei meu reflexo nas águas do nosso paraíso, você continuava ali, apertando minha mão e sorrindo para mim, inabalável.

- Nos primeiros dias na nossa casinha, passamos um domingo juntas na sua folga. Concordamos em passar o dia em casa, terminando de organizar o que faltava da mudança com calma, sem nenhuma pressa ou cobrança. Em algum momento da tarde, eu estava no sofá lendo um livro e você estava lidando com as plantas na sacada, o Bóris do seu lado como uma sentinela. Me lembro que parei de ler por um momento porque me deu vontade de olhar pra você e foi no exato instante em que o sol saiu de trás das nuvens e iluminou nossa varanda. Seus cabelos incendiaram e você, o Bóris e as samambaias foram cobertos por um lençol dourado. Ver vocês, minha pequena família, existindo tão mediocremente, fez algo dentro do meu peito se romper e se espalhar. Naquele momento, o amor que eu sentia não cabia mais em mim. Transbordei. 

- Lágrimas silenciosas rolaram pelas minhas bochechas, livres, enquanto eu permaneci no sofá te observando. Não tentei limpá-las em nenhum momento: com você, aprendi que não precisava ter vergonha por sentir e nem precisava esconder meus sentimentos na sombra. Te olhava sorrindo, uma sensação de paz absoluta tomando conta de mim, os raios de sol que chegavam até o sofá acariciando minha pele, a brisa suave fazendo meus cabelos esvoaçarem levemente. 

- Em algum momento você sentiu meu olhar e virou-se para mim, sua testa levemente suada, seu coque frouxo se soltando, suas mãos sujas de terra - absurdamente linda. Você sorria, mas assim que percebeu que eu chorava, sua expressão serena se transformou em preocupação e você veio até mim para saber o que tinha acontecido. Eu lembro da gargalhada bonita que você deu quando entendeu que eu só estava sendo uma apaixonada patética, dos beijinhos que distribuiu pelo meu rosto, dos eu te amo que repetiu várias e várias vezes, me fazendo sorrir com você e te puxar para mais perto. Naquele momento, como em tantos outros, você me preencheu com seu amor: ocupou todos os ocos, cantos e frestas do meu ser. E eu que passei tantos anos me sentindo completamente vazia e seca, aprendi contigo que flores podem crescer em terras áridas. Você só precisa cuidar dessa terra. Naquela tarde, de olhos fechados enquanto recebia seu carinho, eu sentia você desaguar em mim, e eu… oceano

- São dias assim que me fazem querer mais, sempre mais de nós! Nem nos meus sonhos mais otimistas eu poderia imaginar que algum dia eu dividiria o protagonismo de uma vida tranquila como a nossa, muito menos que compartilharia tal vida com alguém como você. 

- Eduarda, você é o meu sol. E também a minha lua. O meu dia e a minha noite, meu mar em tormenta e minha calmaria, meu último pensamento antes de dormir e o primeiro estímulo da manhã. Você é minha companhia preferida e a minha saudade mais sentida, o carinho delicado na minha sobrancelha e o abraço apertado que ameaça nos fundir, minha grande certeza e minha ausência de dúvida, minha musa, minha arte, meu grande amor.  

- Depois que você me deixou em casa pela primeira vez, depois da janta na Maggye que enlaçou nossos caminhos, eu me tranquei no quarto e me vi engasgada em você. Depois de anos sem abrir meu caderno, eu senti uma vontade muito forte de escrever sobre a policial ruiva que havia me dado uma carona depois de um jantar despretensioso. Já fazia alguns anos que eu não conseguia mais traçar caminhos de tinta em papel, mas naquela noite, eu precisava, e sabia que conseguiria. Você me devolveu as palavras, Eduarda. E foi assim que eu escrevi pela primeira vez sobre você.

 

 

- Hoje a nossa história já tem tantos capítulos que eu perdi a conta e sentar ao seu lado para relembrar de nós virou um dos meus passatempos preferidos. Nós já vivemos tanto em tão pouco tempo… Mal posso esperar para viver tudo que o futuro tem guardado, já que esse é apenas o começo do resto das nossas vidas. E eu me sinto capaz de enfrentar tudo se eu tiver você comigo. 

- Eu te amo, Eduarda Fragoso, e vou continuar te amando para todo o sempre da nossa trajetória efêmera nessa Terra e para além, na eternidade das almas que fazem dos astros seu último lugar para repousar

Se no futuro perguntassem para Eduarda o que ela estava sentindo no momento em que sua esposa terminou os votos, ela não saberia responder: como você descreve a sensação de arrebatamento causada por tamanha declaração? Como você põe em palavras a vibração das ondas de amor no seu estado mais puro que percorreram seu corpo, arrepiaram sua pele, ameaçaram parar seu coração? Como você traduz um sentimento forjado no núcleo de uma Supernova e realocado para seu peito, pequeno demais para tanto? Eduarda não soube no dia e nem jamais saberia. Mas talvez sejam essas coisas que não necessitem explicação, nem racionalização ou método científico; são aquelas coisas antigas e sagradas que fogem à compreensão humana, existindo em um plano inalcançável pelo lógico, pela tentativa arrogante de explicar o que não deve ser explicado, apenas sentido, atravessado, provado, mergulhado. 

Eduarda afogava-se em Lorena. Lorena afogava-se em Eduarda. E no fundo desse oceano só delas, elas dançavam ao som do canto das sereias. 

Michele, emocionado como todos os convidados com os votos das noivas, demorou alguns segundos para retomar a concentração e dar prosseguimento à cerimônia.

- Bom, gente… Eu tinha preparado mais algumas coisas para dizer antes da troca das alianças e do beijo, mas convenhamos? Depois disso aqui… nada mais precisa ser dito. Elas sabem, e isso importa. Então, Eduarda, Lorena, podem trocar as alianças. 

Uma caixinha de veludo bordô foi estendida para Eduarda por Paulinho e outra idêntica foi oferecida a Lorena por Maggye. Eduarda pegou a caixa com firmeza e a abriu, retirando a sua aliança e tomando a mão de Lorena na sua, deslizando o anel de ouro branco pelo dedo anelar da esposa. Em seguida, Lorena fez o mesmo, sem nunca quebrar o contato visual, o amor líquido em seus olhos sendo impossível de disfarçar. 

Quando ambas já estavam com suas respectivas alianças, sorrindo de canto a canto enquanto seguravam as mãos uma da outra, Michele falou outra vez.

- Eu as declaro esposa e esposa! Pode beijar a noiva!

Lorena não hesitou: levou uma mão para a nuca de Eduarda e outra para sua cintura, puxando-a para um beijo intenso, urgente, longo, a epítome da trajetória delas até esse momento no altar do seu casamento. Eduarda respondeu com vontade, espalmando uma mão nas costas de Lorena enquanto segurava seu rosto com a outra, reafirmando naquela troca tudo o que fora dito naquele dia e em todos os outros desde a primeira vez em que se viram. 

Estavam, enfim, casadas.

*****

Depois do beijo, Lorena e Eduarda atravessaram juntas o corredor entre as cadeiras, de mãos dadas, sorrindo e acenando para os convidados que vibravam, aplaudiam e comemoravam. O ar estalava em felicidade genuína, blindando as recém-casadas do resto do mundo.

Em seguida, os convidados foram acomodados para a janta em mesas redondas que orbitavam uma grande mesa retangular ao centro, onde se  sentaram as noivas, seus familiares e seus padrinhos. 

Entre conversas vibrantes e risos que corriam soltos entre todos, o jantar seguiu animado. Depois que o bolo foi cortado, distribuído junto com outras opções de sobremesas e apreciado pelos convidados, Paulinho levantou-se da mesa, batendo com o talher na sua taça para chamar a atenção de todos.

- Gente, boa noite. Eu gostaria de dizer algumas palavras antes que vocês todos terminem de comer o bolo, comecem a festa e eu perca a oportunidade! - Paulinho falou em voz alta e clara para ser ouvido por todos os presentes.

- Iiiih, lá vem. - Eduarda disse, arrancando risadas de Lorena e do resto dos convidados.

- Vou fingir que não ouvi. - Paulinho rebateu, tirando um pedaço de papel dobrado várias vezes de dentro do bolso da calça e limpando a garganta. - Eu escrevi algumas palavras para as noivas e queria compartilhar isso com vocês, assim como a Maggye vai fazer mais tarde. Na verdade, ela gostaria de fazer isso agora, mas como somos pessoas muito justas, decidimos nosso destino no pedra, papel e tesoura e eu ganhei.

Em meio ao riso generalizado, Eduarda e Lorena automaticamente aproximaram-se, dando-se as mãos e encarando Paulinho em expectativa. Este, quando terminou de desdobrar o papel do seu discurso, respirou fundo antes de começar.

- Eduarda e Lorena, eu preciso admitir algo para vocês que eu mantive em segredo desde que a Juquinha começou lá na delegacia. - Olhou para elas por cima do papel como quem prepara uma grande revelação. - A verdade é que eu só precisei de quinze minutos com a Eduarda no primeiro dia dela como minha estagiária pra ter certeza de que ela era uma grande mala. 

Paulinho foi interrompido pelas gargalhadas dos convidados e aproveitou para olhar para Eduarda com deboche: ela ria solto, sincero, lembrando-se do seu primeiro dia de trabalho com carinho. 

- No fim do expediente, quando ela finalmente foi embora, eu fui direto para a sala do delegado para implorar a ele que devolvesse a garota. Eu lembro até hoje da cara do delegado quando ele me olhou fundo nos olhos e perguntou “Paulinho, você quer devolver a estagiária?”. E eu confirmei que sim, com toda a certeza do meu ser, ao passo que ele me respondeu “Paulinho, pelo amor de Deus, a garota não é mercadoria da amazon pra ficar devolvendo!”. - Mais risadas, principalmente da parte dos convidados da delegacia, colegas de Paulinho e Eduarda. Paulinho prosseguiu seu relato olhando diretamente para Juquinha. - Eu rebati dizendo que você era insuportável e que eu não aguentaria mais um dia como seu supervisor e o Jairo praticamente me expulsou da sala, me mandando tomar vergonha na cara e eu tive que aceitar meu destino mesmo que contrariado. - Olhou para Juquinha outra vez. -  Precisei de uma semana inteira para ser conquistado. Se lembra da primeira vez que nós fomos comer o cachorro-quente do Vanidog, Juquinha? Você ficou me perguntando sobre a Gerluce, disse que queria conhecê-la e exigiu ser madrinha do futuro casamento, uma verdadeira pentelha. Eu não sei o que exatamente me fez mudar de ideia, mas naquele dia eu decidi te dar uma chance… e olha só onde estamos hoje, minha irmãzinha, no seu casamento.

- Sabe Lorena, uma vez essa garota aí estava sentada quieta na mesa dela, bem borocoxô, pintando qualquer coisa em um pedaço de papel. Pedi o que era e ela suspirou, dizendo que o último rolo dela tinha dado muito errado e ela estava triste. Ofereci tudo que podia: um ombro amigo e conselhos questionáveis e por alguns minutos nossa dinâmica de desabafo e consolação funcionou bem, até o momento em que ela me perguntou se eu já tinha me apaixonado antes, e eu disse que sim. A Eduarda me falou naquele dia que ela nunca havia se apaixonado antes, me olhando com aquela cara de cachorro que caiu da mudança, sabem?, e que se apaixonar devia ser muito legal porque o amor é lindo de todas as formas

- Imaginem então qual não foi a minha surpresa no dia que ela chegou para trabalhar, logo após o famigerado “jantar das luluzinhas”, radiante! Os olhos brilhavam como dois faróis e ela só sabia sorrir, andando pela delegacia como quem flutuava. Queria usar esse espaço aqui, hoje, para me retratar: Juquinha, eu realmente não achei que mandar bombons para a Lorena funcionaria, ok? Me desculpa por duvidar das tuas habilidades na arte da conquista!

- Jamais te admitiria isso antes, mas eu adorava te acompanhar se apaixonando um pouquinho por dia. Eu via a mudança no teu jeito, nas tuas expressões, na tua alma… A Lorena realmente parecia ser tudo que você merecia, e eu confirmei isso no dia em que a conheci, naquela tarde que ela apareceu na delegacia. O jeito que vocês se olhavam… Deixei vocês a sós na sala e fui direto fofocar com o delegado, óbvio, e compartilhar com ele a minha certeza de que vocês realmente haviam sido feitas uma para a outra. E muito me alegra poder estar aqui hoje, celebrando esse amor tão bonito, forte e honesto, com vocês, minha família escolhida. Podem contar comigo e com a Gerluce para sempre, tá bem? Prometo estar aqui assim como você sempre esteve por mim, parceira. Então, eu queria propor um brinde… - Paulinho pegou a taça e apontou para as noivas, encarando uma Eduarda que chorava copiosamente com os próprios olhos marejados. - À Eduarda, a policial mais cascuda que São Paulo já viu, a irmã mais nova mais pentelha que o departamento de polícia podia ter me dado e a esposa mais babona passiva patética que a Lorena poderia ter arrumado. E à Lorena, a mulher mais sortuda do mundo por poder chamar minha maninha de “esposa”. VIVA!

Os convidados irromperam em vivas e aplausos enquanto Eduarda e Lorena se levantavam para encontrar Paulinho. Eduarda foi envolvida pelo abraço do amigo primeiro, meses dividindo trabalho, preocupações, conquistas, tristezas e alegrias, formando um laço tão sólido que, eles sabiam, jamais seria rompido. Abraçados, choravam: permitiram-se aqueles momentos para serem completamente vulneráveis um com o outro, escancarando o afeto, que normalmente era dosado, sem medo ou restrição. 

- Te amo, irmão. - Eduarda falou contra o peito de Paulinho.

- Te amo, irmãzinha. - Paulinho respondeu deixando um beijo no topo da cabeça da ruiva. - Vem cá também, Lorena. - Falou abrindo um braço e puxando a morena para o enlaço também, sob os aplausos calorosos dos convidados. 

Assim que se soltaram, enxugando as lágrimas e voltando aos seus respectivos lugares, Maggye levantou-se.

- Agora é minha vez! 

Lorena agora tinha um braço sobre os ombros da esposa, que repousava a cabeça em seu ombro, os olhos ainda vermelhos pela emoção causada pelo discurso de Paulinho. 

- Pra quem ainda não sabe, a mente de titânio que juntou essas duas aqui fui eu, ok? - Maggye sorriu para as amigas enquanto os convidados riam. - Eu e a Lorena havíamos ventilado a possibilidade de fazer uma janta, e a Lore me prometeu que organizaria tudo. Resultado: ela não organizou nada! E como previsivelmente sobrou tudo para mim, no fim das contas, eu tomei a liberdade de chamar uma outra amiga minha… Confesso que fiquei um pouco decepcionada quando percebi, já na janta, a troca de olhares intensa entre vocês e mais ainda quando ambas me mandaram mensagens naquela noite, completamente encantadas uma com a outra. Poxa, sabe? Eu tinha todo um plano montado para juntar vocês! E na primeira noite vocês descobrem logo de cara que o encontro de vocês estava escrito em algum lugar entre as estrelas? Como fã de um slow burn bem feito, fiquei chateada, mas como amiga e grande admiradora de ambas, fiquei encantada. O encontro de vocês foi tão poderoso que não se limitou a relação que foram construindo aos poucos, mas foi além: testemunhar o amor de vocês e senti-lo respingar em mim me fez acreditar que contos de fada não são tão fantasiosos assim. 

- Vocês são um exemplo de coragem, sabiam? Coragem para amar aos berros mesmo quando existe tanta pressão para o silêncio; coragem para amar de cabeça erguida mesmo quando tentaram transformar o amor de vocês em algo para se sentir vergonha; coragem para assumir uma briga imensa pelo direito de escrever e viver a própria história, ao lado da sua pessoa; coragem para existir por inteiro em um mundo que seguidamente força uma existência pela metade. 

- Lore, Duda… é um grande prazer e um enorme privilégio para mim andar ao lado de vocês nessa caminhada, assim como eu tenho certeza que muitos aqui compartilham desse sentimento também. Vocês são luz, são música, são arte, são vida. E eu só posso desejar continuar aqui, pertinho de vocês, pro resto da vida! Aplaudindo todas as conquistas de pé, aos gritos histéricos como se estivesse em um show de uma diva pop. Eu as amo imensamente, para sempre, tá? Feliz vida de casadas!

Lorena e Eduarda levantaram-se imediatamente e foram ao encontro de Maggye, envolvendo-a em um abraço apertado. 

- As verdadeiras “Três Graças”! - João Rubens, pai de Maggye, gritou de algum lugar nas mesas. 

- Eu amo vocês, pra sempre! - Maggye sussurrou dentro do abraço.

- A gente também te ama, Maggye. - Eduarda respondeu.

- Juntas pro resto da vida. - Lorena completou. 

Findados os brindes, as emoções e os choros, os pratos de comida foram recolhidos e as mesas afastadas, abrindo espaço para uma pista simples de dança. A música foi aumentando de volume aos poucos, sincronizada com a energia dos convidados, que tomaram a pista sem encabulamento.

Violeta e um Henrique que, aparentemente, havia enfim gastado todas as suas lágrimas, dançavam alegres ao som da playlist escolhida a dedo por Lorena.

Maggye tentava, em meio a risadas e beijos, fazer um Júnior sem gingado nenhum soltar seus quadris na pista. 

Paulinho girava Gerluce como se estivessem de volta no seu próprio casamento, embriagados um no outro (e no álcool, verdade seja dita). 

Jairo dançava agarradinho em Morena mais ao canto, sem chamar muita atenção, apenas aproveitando o conforto do corpo da amante-mulher-atual-it’s-complicated.

Zenilda ria com Rogério, seu atual namorado, escandalosamente bela e solta na pista, em evidente contraste com a pressão baixíssima do homem. 

E, obviamente, havia elas. No centro da pista, completamente alheias a todo o resto, Lorena e Eduarda dançavam em um ritmo só delas: sem nunca se afastar ou desviar o olhar, elas moviam-se pela grama como se flutuassem. Seus olhos transbordavam amor, desejo, encantamento puro e verdadeiro. Suas bocas constantemente se procuravam em selinhos ternos, como se repetidamente confirmassem o novo título de esposas e agora beijar tinha um gosto novo. 

A festa só foi interrompida para o lançamento dos buquês, quando Eduarda e Lorena se posicionaram na frente de todos os convidados e lançaram suas flores para trás ao mesmo tempo. Morena pegou um deles, buscando o olhar de um Jairo apavorado com as implicações de um comprometimento monogâmico enquanto Paulinho, já claramente embriagado, gritava.

- Ô JUQUINHA, OLHA QUEM PEGOU O BUQUÊ! OLHA!

O outro arranjo fora capturado no ar por Maggye, que imediatamente foi envolvida por um Júnior apaixonado e deixou subentendida a promessa de um novo casório em um futuro próximo.

Os convidados, exaustos e realizados, começaram a se dispersar quando a madrugada já era alta. O amanhecer já despontava quando os únicos restantes na festa eram as recém-casadas, Paulinho, Gerluce, Maggye e Júnior. 

Estavam os cinco reunidos em sofás na varanda, completamente exauridos, quando Paulinho reapareceu. 

- Finalmente conseguimos mandar o Jairo para casa, minha nossa. O cara bebeu todas. - Disse Paulinho enquanto praticamente se jogava ao lado de Gerluce no sofá.

- Amanhã ele vai estar insuportável na delegacia. - Eduarda comentou de onde estava, deitada contra a lateral de Lorena, um braço da morena passado por cima dos seus ombros e sua própria mão acariciando a coxa da esposa. 

- E sou eu quem vai precisar aguentá-lo, né. 

- Ué, Paulo, eu também. Só viajo sábado, lembra? - Eduarda falou. 

- Ainda uma semana te aguentando? Meu Deus, só pode que usei a madeira da cruz pra fazer fogo pro churrasco. - Paulinho reclamou.

O comentário arrancou risadas dos seis amigos, que aos poucos morreu e permitiu o silêncio do início da manhã se assentar: o som dos pássaros, das folhas se movendo com a brisa, o mugido de uma vaca ao longe e latidos ocasionais de cachorros que acordam cedo demais para um domingo. Foi Gerluce quem falou novamente minutos depois.

- Então, Maggye e Júnior… Sem pressão, mas agora só faltam vocês. E se formos usar o buquê que a Maggye pegou ontem como sinal…

- Ai, Gerlu, falta mesmo! Mas temos tempo, né, amor? - Maggye falou sorrindo enquanto olhava para o namorado. - Agora tem muita coisa acontecendo… Meus pais querem que eu me envolva com mais coisas na galeria, pra me preparar pra passagem do bastão nos próximos anos, e o Júnior tá voando na Fundação. - Sorriu orgulhosa do namorado.

- Isso é verdade! - Lorena comentou. - Não tem nenhum problema de computação que ele não resolva para nós. 

- E agora que ele tá montando uma oficina de computação na Chacrinha pra ensinar as crianças no contraturno da escola… - Maggye continuou, feliz em exibir as conquistas do namorado. - Fica difícil pensar em casamento. Mas podem ter certeza: vem aí!

- Olha, Maggye, acho justo pensar nisso, viu? Agora como uma mulher casada eu posso afirmar com propriedade que o casamento vale à pena! - Eduarda pontuou. 

- Não faz nem doze horas que você casou, Eduarda. - Paulinho rebateu.

- Ué, mas já foram as melhores doze horas da minha vida como esposa… você não acha, amor? - Virou o pescoço para olhar Lorena, sorrindo em expectativa, arrancando uma gargalhada da morena.

- Eu acho que você deixou a desejar um pouco, viu? 

- Lorena! - Eduarda endireitou-se no sofá, indignada.

- É brincadeira, vida! Volta aqui. - Lorena riu enquanto estendia os braços para a ruiva, que prontamente voltou a se encaixar contra seu peito. 

- Eu ainda não acredito que vocês finalmente casaram… - Comentou Paulinho enquanto as observava com olhos cheios de ternura.

- Abriram mares e moveram montanhas, e agora estão aqui. - Maggye disse.

- E eu faria tudo de novo se fosse necessário. - Eduarda disse, a voz mansa, enquanto brincava com a mão de Lorena. - Pelo privilégio de dividir uma vida contigo e te chamar de minha esposa… - Virou o rosto levemente para o lado, procurando os olhos de Lorena. - Eu declararia guerra contra o mundo. 

Lorena sentiu aquela onda conhecida de amor passar pelo seu corpo, aquele sentimento tão forte que parecia escapar por todos os poros do seu corpo. Aproximou-se de Eduarda e deixou um beijo em seus lábios, na ponta do seu nariz e na sua testa, intensificando o aperto do abraço.

- E agora, meninas? - Perguntou Gerluce com um sorriso.

- Agora? - Lorena repetiu, olhando para a mulher em seus braços. - Agora é viver nosso amor do nosso jeito de sempre, um dia de cada vez. Eu não tenho pressa de nada, sabem? Eu quero viver tudo com essa mulher, absolutamente tudo, no nosso tempo. 

Sorriu para os amigos, os quais sorriram de volta com expressões ternas no rosto. Se entendiam e se amavam, e isso bastava. 

- Bom, a festa estava ótima, mas eu realmente preciso ir pra casa antes que desmonte em alguma cama da sua casa, Juquinha. - Paulinho falou, levantando-se com certa dificuldade. - Vamos, amor?

Maggye e Júnior aproveitaram a deixa para ir também, se despedindo das amigas com abraços apertados e promessas de se verem antes da viagem para a Itália. Em poucos minutos, restaram apenas elas e a imensidão do sítio ao redor envolvendo-as como um abraço. Lorena fazia um carinho preguiçoso no cabelo de Eduarda enquanto a ruiva brincava com a mão da aliança da esposa. 

- Amor. - Eduarda sussurrou.

- Hum?

- A gente casou.

- Sim, a gente casou. - Lorena sorria contra o cabelo de Eduarda. 

- Parece que eu tô vivendo um sonho, sabia? 

- Eu também… Mas é real, amor. Essa é a nossa vida e vai ser pra sempre. 

- Promete?

- Prometo, Duda. Vamos dormir?

- Me abraça mais um pouquinho? Tá tão bom sentir você comigo aqui, com o sol nascendo e os pássaros cantando pela primeira vez para nós casadas. 

- Fico, amor. Fico o tempo que você quiser. - Lorena disse, intensificado o aperto ao redor da esposa.

- Eu te amo, Lorena. - Eduarda sussurrou. 

- Eu também te amo, esposa.

 

fim

Notes:

me sinto na obrigação de vir aqui fazer alguns esclarecimentos!
1 a inspiração para a foto da eduarda no instagram da delegacia veio diretamente da foto de uma amiga minha que tem uns brações de colocar inveja até na xênica e que ironicamente (ou não) também se chama eduarda. duda, se você ler isso, saiba que a admiração total e absoluta pelos seus lindos braços é muito sincera e eu desejo que você os tenha para sempre!
2 eu me lembro de ler o tweet de alguém dizendo que o perfil fake de instagram da Arminda seria algo parecido com o que eu escrevi ali, misssnake_69, mas eu não tenho certeza de quem era o tweet. ACHO que era o nosso icônico Itálo Pachola, então, ficam aí os créditos pela criatividade.
3 a menção ao cachorro quente do Vanidog é uma referência direta a minha querida amiga e inspiração intelectual Vique. quem sabe um dia eu possa comer um cachorro-quente no melhor lugar de SP enquanto ela me ensina a ser excepcional como ela.
4 eu precisei pesquisar no google o nome dos integrantes da one direction.
5 se alguém cogitar a possibilidade das páginas de caderno manuscritas da Lorena terem sido feitas por IA eu me atiro do prédio mais alto que eu encontrar na segunda-feira porque nada me ofenderia mais do que alguém achar que minha letra cursiva lapidada por anos é IA