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Brincando de casinha

Summary:

que criança nunca brincou de casinha?

o clássico momento de faz de conta em que um grupo de mini indivíduos de até 9 anos se juntam para fingir que são uma família saudável.

neste caso não são crianças (fisicamente) e não são saudáveis. se prepare para uma história de dramas de divórcio, crianças negligenciadas, mal influencia, e UM CALANGO tudo em uma sala num período de tempo de umas meia hora. como isso vai terminar em uma explosão? Leia.

Notes:

Foi um surto.

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: CAPÍTULO 1

Chapter Text

Segunda-feira. Só mais uma segunda-feira.

Por incrível que pareça, naquele dia todos os monitores haviam aparecido fisicamente para a reunião.

O problema?

Todos estavam quietos. Distantes. Sentados separados como se fossem testemunhas em programa de proteção. O silêncio era tão denso que dava para ouvir o ego do Azul inflando sozinho.

E aquilo incomodava Kalim. Incomodava muito.

“Reunião sem bagunça é reunião com potencial desperdiçado”, pensou ele, balançando as pernas na cadeira. Crowley ainda não tinha chegado. Ou seja: janela de 30 minutos para fazer o que quiser!

Ele olhou para um lado. Olhou para o outro. Os olhos brilharam.

— Gente! Gente, gente! — bateu palmas como quem descobre fogo. — Vamos brincar de casinha!

O silêncio da sala não só se tornou sepulcral. Ele assinou contrato, abriu CNPJ e comprou um terreno no cemitério.

Todos os olhares se focaram em Kalim.

Riddle piscou devagar, como se estivesse traduzindo do idioma “idiota” para o inglês.

Leona bocejou alto o suficiente para ser considerado ataque sônico.

Idia já tinha voltado a olhar para o tablet, torcendo para ser declarado morto em combate.

— Brincar... De casinha? — Riddle repetiu, como quem cheira leite para ver se azedou. — Prefeito Kalim, o estatuto estudantil não prevê...

— É bem simples, caro Riddle! — Azul se ajeitou na cadeira, já assumindo a pose de palestrante. — Brincar de casinha é uma simulação social onde amigos (normalmente crianças) formam uma unidade familiar fictícia em prol da coesão grupal e do desenvolvimento afetivo. Faz de conta, Riddle!

— Brincadeira de gente retardada — Leona resmungou do canto, já se esparramando para dormir de pé. — Se eu quisesse criar filho, adotava um cachorro. Ou o Ruggie.

Malleus piscou, inclinou a cabeça como um dragão curioso vendo um brinquedo novo, e assentiu solenemente.

— Se é para fortalecer os laços entre nós, guardiões, então eu aprovo. Vamos brincar de casinha, Al-sim. —

O choque na sala foi audível. Riddle se engasgou. Vil largou a pinceleta que não estava usando.

Kalim pulou na cadeira e bateu palmas com força suficiente para ativar o alarme de incêndio.

— Tudo bem! Tudo bem! Vamos separar os papéis! — ele já apontava o dedo como diretor de elenco desesperado. — Riddle e eu vamos ser os filhos!

— Por que eu? — Riddle já sentia a enxaqueca chegando.

— Porque... — Kalim o olha de cima a baixo. Não poderia falar da altura ou da grande energia feminina que ele exalava. Infelizmente Jamil não estava presente para o proteger do caos — Porque sim!

Riddle abriu a boca para protestar, lembrou que era só uma brincadeira, e fechou de novo. O dano psicológico seria contabilizado depois.

— Eu vou ser o primo incrível que se formou em direito, fez MBA em Harvard, defensor do capitalismo e que resolve 90% dos problemas judiciais da família só porque é formado em direito e os familiares pensam que ele pode trabalhar de graça! — Azul declarou, ajeitando a gravata inexistente. — Podem me chamar de Dr. Azul

— Ótimo! Já temos os filhos, o primo insuportável — Kalim anotava mentalmente. — Idia vai ser o tio que todo mundo suspeita ser gay e que nunca aparece nos encontros de família porque “tá ocupado com o projeto”!

Idia levantou os olhos do tablet por 0,3 segundos, encarou Kalim com o olhar de “eu vou te deletar do grupo da família”, e voltou a ignorar a existência de todos.

Nenhum protesto. Isso era vitória.

— Leona e Vil vão ser o papai e a mamãe! — Kalim completou, olhando os dois como quem acabou de ganhar na loteria.

Leona se levantou com a lentidão de quem tem ossos de 80 anos.

— Por que eu e esse projeto de Barbie temos que ser o casal? Ele tem cara de esposa mal-comida que guarda rancor desde a lua de mel...

— “Esposa mal-comida”?! — Vil colocou a mão no peito como se tivesse levado um tiro. — Eu passo mais tempo na frente do espelho que você na frente da vida, Leona!

— Exatamente por isso vocês dois são perfeitos! — Kalim bateu palmas. — O Leona seria um péssimo marido pro Vil, e por isso estão em processo de divórcio litigioso há 7 anos.

Riddle assentiu sutilmente. Pela primeira vez na semana, algo fazia sentido. Mas algo diz a ele que crianças não brincam de faz de conta assim.

Leona sorriu devagar. O sorriso de quem viu uma oportunidade de fazer merda sem culpa.

Se Vil era o marido, e Kalim o filho... seus olhos se fixaram no cabelo vermelho de Riddle.

— Ah. Entendi. EU QUERO O DIVÓRCIO! — ele apontou pra Vil. — É impossível que Riddle seja meu filho! Olha esse cabelo! Olha essa postura! Isso é filhote de fiscal da alfândega, não meu!

Vil não perdeu tempo. Abriu a bolsa de mão com a precisão de quem já treinava pra isso e apontou o spray de brilho para Leona.

— QUE ABSURDO! Como você ousa?! Metade da sua família tem cabelo laranja queimado de sol! É óbvio que Riddle puxou isso da sua linhagem de leão de chácara! Mesmo que fosse só uma brincadeira o Vil ia se empenhar 100% no papel de esposa divorciando.

A tensão entre os dois era 100% fictícia, mas definitivamente séria.

— Tio, tia! — Azul se meteu no meio, esfregando as mãos. — Como o grande e generoso conhecedor da lei que eu sou, posso mediar esse divórcio por apenas em menos de uma hora! Aceito pagamento em informação privilegiada e fotos comprometedoras!

Enquanto isso, Kalim arrastou Riddle para um canto, longe do circo.

— Olha só, Riddle. Quando a família é conturbada desse jeito, é comum que eles tenham um filho menino e uma filha menina — ele disse com a seriedade.

Malleus, que não queria perder uma grandiosa e preciosa oportunidade de socializar, se aproximou de joelhos, os olhos brilhando.

— Questionando um pouco a sua grande sabedoria, Kalim... mas de onde você tirou essa informação?

— Da minha cabeça! — Kalim sorriu, radiante. — E da minha cabeça eu decidi: eu vou ser o menino e o Riddle a menina!

— Por que eu tenho que ser a menina?! — Riddle perguntou, já sentindo a dignidade escapar pelos dedos.

— Porque sim. — Kalim sacou dois prendedores de cabelo do bolso como se fosse mágico. Em 3 segundos, Riddle estava com duas chiquinhas perfeitas e cara de quem queria pedir demissão da vida.

Malleus observou a cena, cruzou os braços e assentiu.

— Eu acho que isso é justo. A simetria está adequada. Mas eu também quero um papel. Qualquer um. Eu preciso participar.

Malleus não poderia desperdiçando nenhuma chance de se aproximar dos outros líderes de dormitório!

Kalim o encarou de cima a baixo, pensativo.

— Hmm... Toda família tem um pet... Mas a gente não tem cachorro, nem gato... Logo... — ele apontou pra Malleus com reverência. — Talvez um calango? Calango serve! Você vai ser o calango.

Um silêncio pesado caiu. Até Idia pausou o vídeo.

— Mas... o que um calango faz? — Malleus perguntou, genuinamente confuso. Pela primeira vez na vida, Draconia havia sido rebaixado a réptil doméstico.

— Eles botam a língua pra fora assim ó “:P"— Kalim colocou a língua pra fora e pra dentro rapidinho, fazendo barulhinho de sapo. — Viu? É super importante! Você tem que fazer isso sempre que o papai e a mamãe brigarem, pra aliviar a tensão!

Malleus processou. Processou de novo. E então os olhos dele brilharam como quem recebeu uma missão divina.

— Entendido! Eu servirei como calango com honra!

Ele se arrastou até Idia, sentou ao lado dela e sussurrou com orgulho:

— Idia, sabia que calangos usam a língua pra sentir o ambiente? Eu vou fazer isso por você agora. Thppthppthpp —

Idia não reagiu. Mas o tablet dele tremia levemente.

Vitória.

No centro da sala, Leona e Vil já estavam no segundo round da briga de divórcio, Azul cobrava honorários, Riddle tentava manter a compostura com chiquinhas, e Kalim observava tudo com a cara inocente de alguém que sabe que provavelmente deu início ao pandemônio.

Notes:

Bom? :D
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