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Characters:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-06-14
Words:
5,275
Chapters:
1/1
Kudos:
4
Hits:
41

Ultima Vez

Summary:

Onde, Kevin viaja para a California e finalmente se encontra, apenas para no final da noite se perder outra vez.

Work Text:

Jeremy batia os pés ansiosos no chão do aeroporto enquanto esperava por qualquer sinal de que Kevin e Andrew estavam hospedados na Califórnia. Seu telefone tocava tão rápido quanto as batidas do seu coração, mas nenhum alerta além do toque de raposa destinado à conversa de Kevin importava.

Jeremy jogou mais uma vez eu ioiô para o alto em uma tentativa de fazer que os ponteiros do relógio passassem mais rápido, quando seu celular finalmente fez o barulho que ele tanto esperava. Enviou sua localização na conversa de Kevin e ficou à espera dos dois no portão principal do aeroporto.

Não fez tanto tempo desde que Jeremy se encontrou com as raposas nas semifinais da última temporada, mas todas as informações que vieram junto com a vinda de Jean para os troianos parecem ter afetado a percepção de tempo dele.

A sensação de esperar por Kevin e Andrew era a mesma que teve ao procurar Jean nesse mesmo lugar alguns meses atrás. A ansiedade e o medo coçam seu corpo inteiro, e um arrepio o percorre ao se lembrar da raiva no “Eu queria que ele morresse” de Jean na última conversa que teve sobre Kevin e Evenmore. Quando estava prestes a se perguntar pela décima vez se aquilo era realmente uma boa ideia Jeremy finalmente vê a dupla vinda em sua direção. É, agora não tem volta.

"É bom finalmente ter vocês aqui! Como foi o voo?"

Ao ver que os olhos de Andrew simplesmente o ignoravam Jeremy voltou sua atenção totalmente para Kevin.

"Ei Jeremy, bom te ver! Foi um longo voo, acho que preciso me esticar um pouco mais ainda"

Ele falou enquanto acompanhava suas costas. Andrew ainda alheio à conversa ao lado, parecia olhar atentamente por algo em volta. Jeremy teria que admitir que ver o goleiro tão de perto pela primeira vez quase o fez sentir um nó se formando em seu estômago, mas ignorou a sensação e guiou os dois rapazes ao seu carro.

O caminho até a casa deles não seria longo e foi preenchido com uma conversa fácil com Kevin e alguns olhares irritados de Andrew. Nada que ele não conseguisse lidar.

“Confesso que esperava ver Neil com vocês, depois da última visita que ele fez ao Jean”

Disse Jeremy em determinado ponto da viagem. O carro que antes emanava um certo calor, agora tinha um silêncio desconfortável entre os três.

"Neil esteve aqui? Na Califórnia?"

Perguntou Kevin confuso, enquanto se virava para o banco de trás procurando por respostas de Andrew que retribuía o olhar tão perdido quanto o outro.

“Bom, sim, ele veio em Junho”

Kevin finalmente se virou para frente com um xingamento baixo e olhou pela janela, Jeremy conseguiu ouvir a respiração pesada dele, e ao verificar pelo retrovisor a expressão de Andrew era como se ele pudesse ver as engrenagens de sua cabeça trabalhando incansavelmente. Quando finalmente olhei para cima e fez contato visual com Jeremy pelo espelho decorativo uma das suas sobrancelhas com piercing para ele.

“Quando exatamente foi isso?”

"O que? Vocês não sabiam que ele veio?"

Perguntou ainda mais confuso, e ao perceber que não receberia respostas contínuas: “Foi no mesmo fim de semana que Grayson Johnson faleceu”

Ao acabar de dizer foi como um sino tocando sem parar na sua cabeça, ele arregalou os olhos e ao olhar para o lado só pode pensar que suas suspeitas foram encontradas porque agora Kevin se encontrava encontrando cada vez mais no banco do passageiro e com as mãos quase arrancando o próprio cabelo. Enquanto isso Andrew apenas deu um estalo com a língua e voltou a olhar pela janela ao horizonte do pôr do sol da Califórnia.

Mais tarde Jeremy fez uma anotação mental sobre como filhos de gangsters podem ser realmente assustadores e de nunca se meter com Neil Josten. Mas ainda assim, não poderia deixar de se sentir um pouco grato pelo que ele fez por Jean, também se lembraria de agradecê-lo quando teve uma chance.

O restante do caminho em silêncio, mas agora já não era tão desconfortável.

Quando Jeremy estacionou o carro conseguiu ver Andrew, que foi o primeiro a descer, ir em direção ao canto do jardim acender um cigarro e o viu pegar um telefone antigo, olhou para Kevin para confirmar se deviam o esperar, mas ele apenas balançou a cabeça qualidades e o guiou para a porta de entrada. Já da varanda era possível ouvir as vozes de Laila e Cat abafadas vindas da sala de estar.

“Fique à vontade!” Disse Jeremy enquanto entrava com Kevin atrás de si.

Laila que chegou primeiro em uma velocidade que quase a fez tropeçar na porta do corredor arregalou os olhos e deu seu melhor sorriso para Kevin

“Eai rainha, quanto tempo”

Kevin mostrou seu sorriso que poderia fazer qualquer pessoa desmaiar parecendo envergonhada pelo apelido.

“Já disse que adoro quando me chamam assim?”

Cat finalmente apareceu ao lado da namorada e pousou primeiro o olhar em Jeremy o olhando de cima a baixo, para só depois olhar para Kevin e cumprimentá-lo.

Os quatro seguiram em direção a sala e o loiro não ficaram surpresos ao não encontrar Jean no cômodo, talvez ele precisasse de mais tempo, pensei, mas agora ele já havia se esgotado.

Jeremy guiou Kevin até a cozinha e eles finalmente pararam ao encontrar o francês encostado no balcão com sua caneca preferida de café nas mãos. Jeremy olhou minuciosamente para a expressão de Jean procurando por qualquer sinal de raiva ou desprezo, mas tudo o que Jean fez foi parar o caminho de sua bebida e encarar Kevin com uma expressão fria, sem qualquer mudança em seu rosto. Kevin também retribuiu a mesma expressão, e os dois ficaram apenas se olhando por um tempo, até Jeremy dizer em voz alta.

“Jean, seu amigo finalmente chegou para você ver”

Ao ouvir as palavras, o moreno finalmente descongelou, mas pareceu extremamente ofendido pelas palavras do loiro.

“Não sou amigo desse pirralho mimizento”
Ele disse e voltou a beber seu café

“Sou mais velho que você, não sou nenhum pirralho”

“Então ébapenas mimizento, por favor não encha o saco”

Jean voltou a beber do seu café ignorando a presença de Kevin no cômodo. Este, que segue em direção ao balcão para que pudesse diminuir a distância entre os dois.

"Você parece bem. A Califórnia está fazendo efeito?"

“Foi você quem me mandou pra esse lugar para início de conversa”

“Sim, fui eu quem trouxe você para cá”

Falou quase como uma sugestão, como se estivesse orgulhoso de seu trabalho.
Jeremy notou a sombra de um sorriso de Kevin. Por um momento, senti a história entre eles e ficou tonto; por outro lado, ele estava profundamente ciente de que havia muita coisa ali para ele entender.

▪︎

 

Cat e Jean haviam feito alguns aperitivos juntos mais cedo, então agora todos os seis se encontravam na sala de estar em volta da pequena mesa de centro, exceto por Andrew, que estava em um sofá na janela parecendo prestar mais atenção no movimento dos carros do lado de fora do que no caos de gritos que acontecia do lado de dentro.

Jeremy havia sugerido que eles assistissem a algumas partidas de Exy para passar o tempo. Kevin como já era de se esperar era a pessoa mais focada de todas as presentes, e sempre que ele fazia um comentário ou um gesto um pouco mais exagerado Jean olhava pra ele, e podia jurar que todos ouviriam seu ritmo cardíaco acelerado, mas sempre desviava a atenção o mais rápido possível temendo ser pego novamente em meio a sua queda pelo estupido e bonito Kevin.

Mais tarde, depois de assistirem 3 ou 4 partidas, apenas Kevin, Jeremy e Jean se encontravam ainda acordados no cômodo. Cat e Laila dormiam enroladas uma na outra de jeito estranho no sofá já bêbadas demais para se levantarem. E Andrew já havia ido para o quarto de hóspedes a tempos atrás, logo depois que Kevin começou a engolir a Vodca de Laila como água. 

Apesar de ainda acordado Jean já conseguia ver Jeremy prestes a cair de sono com a cara em cima da mesa centro. Jean que passou a noite toda se lamentando silenciosamente deu a pequena festa como encerrada. 

Deixou Kevin assistindo os últimos minutos da partida do jogo da USC contra o Arizona e viu ele vibrar em frustração com o erro que o capitão cometeu contra Faser ao errar o gol, enquanto se levantava para acordar as meninas ainda babando em cima de si mesmas.

“Ahn? O que você tá fazendo?” Perguntou Laila, confusa: “Ah, tá. Vem Amor, vamos pro quarto” Respondeu a si mesma quando entendeu o motivo de Jean acorda-lá.

Jean apenas olhou para Jeremy com os olhos como se pedisse por favor antes que ele seguisse as meninas em direção ao corredor dos quartos murmurando um baixo e cansado boa noite para os dois que ainda ficavam na sala.

Ele esperou com Kevin até que a partida acabasse antes de começar a organizar os restos de comida e louças sujas as levando direto para a cozinha, deixaria para limpá-las na manhã seguinte. Quando Jean voltou para a sala de estar, ela já se encontrava sem mais ninguém, ele suspirou pesado e a solidão o pegou como um todo novamente, assim como fizera em todas as noites antes dessa.

Estava decidido a ir para a cama, mas Kevin dobrou o corredor e apareceu com um dos discos de vinil de Cat, o girando nas mãos e soprando para tirar o excesso de pó do tempo guardado.

Kevin levantou o olhar calmo embriagado na direção de Jean em um convite silencioso para se juntar a ele no sofá. Sem escolha, Jean desistiu de mais uma noite de sono em troca da companhia de Kevin.

Jean se sentou no sofá do couro de frente para ele e encarou enquanto Kevin ligou a música na vitrola ao lado da TV ao mesmo tempo que uma melodia lenta que começou a tocar baixa, mais como um barulho de fundo do que se fosse de fato para apreciar a letra.

Jean acompanhou com o olhar enquanto Kevin se sentava ao seu lado na outra ponta do sofá. Os dois ficaram ali por um momento apenas apreciando o silêncio confortável da presença um do outro.

“O que é aquilo?” 

Perguntou Kevin olhando para algo atrás do sofá. Jean se virou para olhar e bufou ao ver a o papelão do golden retriever encostado na parede,se lembraria de escondê-lo atrás da geladeira de novo mais tarde.

“Cachorro de Jeremy” Ele teria parado por aí, mas a cara que Kevin fez foi tão confusa que quase chegava a ser engraçado “O tio da Laila não permite animais nas casas, então as meninas deram esse para ele.” Completou, deixando de lado que a família de Jeremy era uma droga, já presumindo que Kevin sabia dessa parte. “Auau de Albuquerque” Disse por fim.

Os olhos de Kevin de repente se tornaram tão grandes que Jean achou que eles poderiam sair do rosto do outro, mas a pequena risada que veio em seguida o pegou totalmente desprevenido. Jean sentiu suas bochechas arderem com o calor repentino e abaixou a cabeça olhando para suas pernas e as de Kevin que quase se encostavam com a proximidade.

“Isso é a cara dele”

Jean só levantou o rosto novamente depois de ter certeza que seu rosto estaria de volta ao normal. Ele deu de cara com o olhar de Kevin o fulminando, não sabia a quanto tempo Kevin estava o encarando assim, mas o rosto dele parecia brilhar e Jean tem certeza que Kevin está perdendo a sanidade quando percebe a pequena sombra de um sorriso em seu rosto.

“Você combina com esse lugar” 

“Sim. Você já disse isso mais cedo”

“Você gosta?”

Jean não precisa pensar para responder isso, mesmo que ainda esteja se adaptando a quantidade exagerada de sol e a insistente simpatia dos outros Jean ama a Califórnia.

Ele ama a brisa noturna dos passeios de moto com Cat e quando eles cozinhavam juntos, amava os arco-íris que apareciam nos poucos dias chuvosos, ou ver os fogos de artifício brilharem no céu ao noturno ao lado de Jeremy. Jean amava muitas coisas que só conheceu com a Califórnia. Mas o rosto de Kevin o fez hesitar responder de imediato, a ansiedade e preocupação evidentes enquanto ele mordia o canto da boca como se tivesse medo da resposta de Jean.

“Gosto” Disse por fim.

Kevin apenas acenou positivamente a cabeça em resposta, voltando a olhar em volta da sala de estar, como se fugisse de algo.

“Onde você quer chegar?” Perguntou Jean

Kevin pensou pelo o que pareceram décadas antes de finalmente responder.

“Você acredita em Deus agora?” 

Jean demorou quase um segundo para perceber que ele se referia a sua corrente de cruz pendurada no pescoço

“Não” Falou enquanto apertava o pingente em sua mão “O que isso tem haver, Kevin?”

“Foi é da Renee não é? Vocês ainda conversam?”

Jean estreitou os olhos na direção de Kevin que continuava o encarando com aqueles olhos ansiosos.

“Sim, as vezes, não sempre, mas sim”

“Você fala dele?

“Você já foi irresponsável por nós dois contando tudo aquelas raposas, Kevin”

Jean conseguia sentir seu sangue esquentando e a raiva prestes a sair, ele devia saber que Kevin faria isso, foi um idiota em achar que a simples companhia de Jean o deixaria satisfeito

“Você sabe que pode falar sobre isso, Jean, não precisa carregar esse fardo sozinho” 

“Não preciso de nada, Kevin.”

“Jean” Kevin quase implora, chegando mais perto do outro, ele segura a mão do moreno por cima do colar de cruz “Nem comigo?” 

O coração de Jean batia rápido, tão forte, que simplesmente não havia como Kevin não estar ouvindo. Seus olhos foram direto para a boca à sua frente como uma maldita memória muscular. Jean se lembrou da época em que eles se sentavam tão próximos um do outro que podiam se fundir em um só, enquanto ele ensinava Francês para Kevin, sempre alternando o olhar entre a boca e os olhos tão verdes e com os sussurros mais baixos possíveis para que Riko não os encontrasse.

Jean se viu caído no chão ao lado cama, ainda quando a imensidão do preto vazio era tudo o que ele conseguia ver em sua volta, quando o desespero ainda era o sentimento mais presente e a dor ainda era apenas mais um dos muitos pequenos incômodos em Jean. Era sempre assim, até Kevin entrar pela porta, rápido e ansioso para cuidar dele. Ele ainda se lembra do alívio que o percorria sempre que via aqueles olhos verdes desesperados cuidando dele, murmurando palavras confusas em uma mistura rápida e confusa de Inglês e Francês.

No fundo da sua mente ainda conseguia ouvir a promessa que fez a Kevin, ele estava quebrado, mas ele lutou, por Kevin.

“Me promete que não vai tentar de novo. Me promete, Jean. Eu não quero te perder.” Me promete, exceto que ele foi embora anos depois sem pensar duas vezes.

Também viu Kevin tempos depois de sair do ninho, naquele banquete de inverno, estupidamente lindo em um terno preto, cabelos penteados para trás e uma única mecha caindo perfeitamente em sua testa ao lado do número dois tatuado na bochecha.

Os sentimentos de traição, a raiva e o abandono que sentia ao pensar em Kevin durante um ano inteiro, tudo desapareceu quando se sentaram um de frente pro outro, com os pés se tocando por baixo da mesa.

Jean se lembrou do primeiro cartão postal que ganhou de Kevin, do primeiro imã de geladeira, da primeira carta, do primeiro toque. Jean viu um mundo inteiro de paixões envolto de Kevin Day por todos os cantos.

O desespero o consumiu por inteiro, não sabia dizer por quanto tempo ficaram se encarando, mas sabia que se ficasse um segundo a mais seria perigoso demais. Jean se soltou de Kevin, e se levantou do sofá em uma velocidade que só usaria se um adversário estivesse prestes a furar sua defesa em quadra.

"Muito menos com você”

Foi o que conseguiu responder antes de sair pisando forte para fora da sala. Deixando um Kevin confuso para trás, assim como fizera com ele anos atrás.

▪︎

Sozinho na sala Kevin encostou a cabeça nas costas do sofá, e suspirou pesado. Queria tanto conversar com Jean, esperou pelo momento em que estivessem a sós, assim ele não poderia mentir sobre nada, afinal, Jean nunca mentiu para Kevin. Mas ele estragou tudo, não devia ter perguntado de Riko, não devia tê-lo pressionado, e nem o tocado. Poderia, talvez, ter sido um erro vir à Califórnia.

Ainda estava um pouco embriagado, não tanto quanto mais cedo, mas ainda se sentia leve demais. Se ainda tivesse uma garrafa de vodca Kevin a beberia inteira agora mesmo. Mas não tinha vodca, e também não tinha Jean. Era uma ruína total.

Às vezes, quando está quase dormindo, Kevin ainda se pergunta como seria se Jean tivesse saído do ninho com ele, ou se ele mesmo nunca tivesse saído de lá. Seria uma droga.

A música que ainda está tocando atrapalha os pensamentos de Kevin, então ele se levanta do sofá e para a canção de uma vez com raiva. 

Kevin passa a mão pelos cabelos e respira. Vamos deixar essa discussão pra outra hora, ele pensa, e vai em direção ao corredor dos quartos novamente. 

No fim do corredor há dois quartos com as luzes acesas, ele imagina que o último quarto, o com a porta aberta seja o que ele vai dormir essa noite, e que talvez Jean tenha deixado a luz ligada para que Kevin saiba onde ir, porque ele é esse tipo pessoa. Jean é uma pessoa carinhosa que se preocupa com as pessoas, até mesmo com aquelas que não merecem sua atenção.

Kevin não consegue pensar como uma pessoa tão calorosa como Jean sobreviveu tantos anos em um lugar tão frio quanto o ninho. Talvez tenha sido por minha causa. Diz Kevin em seus pensamentos.

Ao chegar à porta aberta Kevin não vê sua cama, nem suas malas. Esse é o escritório da casa, há mesas, notebooks, livros e muitos papéis espalhados pelas estantes.

Há três escrivaninhas no total, e Kevin percebe que a mais organizada é claramente a de Jean, ele sempre detestou bagunça. 

Mesmo não sendo esse o seu quarto, Kevin entra, só porque ele é um enxerido de merda que não sabe seu lugar, como Andrew sempre diz.

Ele se senta na cadeira de Jean, procura por um caderno e lê todas as anotações chatas do curso de administração. Jean sempre foi dedicado nas coisas que faz, por isso ele nunca fracassou em nada. Seja no exy, nos estudos da faculdade e até na cozinha, coisa que Kevin descobriu apenas hoje que Jean é bom.

Observando mais em volta Kevin nota na janela, uma foto de Renee que ele reconhece como a foto que sumiu do mural das raposas e ao lado vê o último cartão postal que enviou a Jean, assim que ele se mudou para o outro lado do país. Kevin não consegue deixar de sorrir ao pensar no francês recebendo os presentes. Ele não deixaria de enviar novos cartões e imãs de geladeira para Jean novamente.

Kevin guarda a foto de Renee, mas carrega consigo a foto com a paisagem de Miami com uma pequena mensagem atrás. Ele sai do escritório e para na porta do quarto ao lado, que agora está um pouco mais aberta. 

Ele bate duas vezes na porta antes de colocar a cabeça para dentro e confirmar que é Jean quem está lá dentro. Jean está sentado na cama de pernas cruzadas, e tem algo em suas mãos que provavelmente ele estava mexendo. 

Jean ainda parece com raiva mas não diz nada sobre Kevin entrar em seu quarto. Talvez ele ainda precisasse de um pouco mais de tempo sozinho, mas os corvos nunca souberam muito bem o que era espaço pessoal, por isso Kevin se junta a Jean na cama sem hesitar.

Eles ficam em silêncio por alguns segundos, ainda se acostumando com a presença um do outro novamente. 

Kevin olha para Jean, que está olhando para o pequeno objeto em sua mão com um olhar triste, é um pequeno ursinho com uma boina vermelha partido ao meio, foi um pequeno presente para Jean que Kevin trouxe em uma das suas breves viagens que fez a Nova York.

Ele voltou seu olhar para Jean e agora via que o mais novo continha as lágrimas com esforço. Jean nunca foi de chorar, depois de um tempo nem mesmo a crueldade de Riko era capaz de tocar as emoções do menino. Kevin entendia o sentimento de construir muros tão altos até que não restasse humanidade alguma dentro de si. Mas como Kevin já sabia, Jean era muito mais que ele, sempre fora. Jean é mais sensível, mais vulnerável, era mais humano do que Kevin jamais seria um dia.

“Você não precisa fazer isso se não quiser. Mas se você tiver vontade, Jean, eu sempre vou estar pronto para te ouvir. Você merece mais do que isso”

Kevin falou com um sussurro tão baixo que se a casa não estivesse tão silenciosa ninguém o ouviria. 

Jean olhou para ele, e ficou olhando para ele sem dizer nada por tempo, até se cansar e encostar sua testa no ombro de Kevin, que envolveu sua nuca em um meio abraço desajeitado. Kevin sentia as lágrimas quentes de Jean molhando sua blusa, mas não importava, eles ficaram assim até que ele sentisse a respiração de Jean voltar ao normal.

Jean levantou a cabeça mas ainda permanecia perto de Kevin, que mantinha a mão firme na nuca do outro. Ele olhou para baixo em direção aos dois presentes, lado a lado no colo dos dois.

“As vezes me pergunto se você sente falta”

“Sentir falta do que, exatamente?” 

Pergunta Jean com uma expressão confusa.

Kevin volta a olhar para ele, encontra seus olhos cinzas e ainda vermelhos por conta do choro recente. 

Ele aproveita o momento para admirar toda a extensão que é Jean Moreau.

Seu nariz torto de tantas vezes que foi quebrado, o desagradavel número três logo acima da sua bochecha, seus olhos tão brilhantes quanto uma paisagem noturna, sua boca, que Kevin nunca conseguiu dar atenção o suficiente sem sentir um incomodo no peito, sua pele tão macia e cheia de cicatrizes causadas por alguém que já não existe mais. Kevin pensa, será que esse ainda é o mesmo Jean que eu conhecia?

“De mim. De nós”

Nesse momento o peito de Kevin está pulando tão rápido que ele sente que pode morrer agora mesmo, exceto que ele não pode ir embora antes de qualquer resposta que Jean esteja disposta a dar a Kevin. Ele procura por qualquer coisa, qualquer sinal, microexpressão, uma respiração irregular que seja, qualquer coisa que mostre a ele que Jean também sente sua falta.

Os olhos de Jean brilham apenas por um segundo antes que ele pisque e comece a se afastar das mãos de Kevin, que finge não se decepcionar.

“Você precisa parar de beber, está matando seu cérebro. Por quanto tempo você acha que consegue manter o título se está bebendo veneno?”

Kevin precisa manter a postura, então ele rebate a acusação de Jean da melhor maneira que pode.

“Pra sempre", Kevin promete. "A última pessoa que tentou tirar isso de mim morreu. Xeque-mate.”

Como se a determinação em sua voz não fosse o suficiente, Kevin teve a coragem de sorrir. Jean o encarou incrédulo por um tempo antes de colocar a mão sobre a própria boca reprimindo uma risada. Felizmente esse não foi o método mais eficaz e Kevin agradeceria a todos os deuses em que não acredita por lhe deixarem ouvir a risada escandalosa de Jean ao menos uma vez em sua vida. Eles riram juntos alto por um tempo até que se lembrassem de que haviam outras pessoas na casa. A essa altura Kevin podia apostar que Andrew estava a um passo de atirar uma das suas facas na direção do quarto de Jean.

Quando ambos se acalmaram Jean encarou Kevin, os olhos mais brilhantes do que Kevin jamais viu e agora com apenas a sombra do que uma hora já fora riso. Kevin tem certeza de que irá morrer hoje, que tudo isso é um presente das divindades para seu último dia na terra. Ver Jean tão feliz nunca passou pela mente de Kevin antes, mas agora ele acha que já não consegue mais viver sem ouvir a risada dele, não soube como pode ficar tantos anos sem nunca escutá-la.

Jean solta um suspiro pesado antes de abrir a boca e a fechar novamente, desistindo do que seja lá o que tivesse para falar a Kevin.

“Obrigado” Disse por fim.

Kevin sorriu, e pegou a mão de Jean pela segunda vez naquela noite. 

“Tu mérites d'être heureux, tu mérites tellement plus.” 

Ele sussurrou em um francês calmo. Jean permaneceu sério encarando as mãos juntas dos dois em seu colo, sem coragem de olhar para Kevin. E quando finalmente toma coragem já não existe mais brilho algum seus olhos, a apatia estava estampada em seu rosto, Jean o encarou sério e se levantou da cama desconfortável.

Kevin confuso não faz nada além de olhar Jean se movimentar de um lado para outro no cômodo. Agoniado Kevin alcança a mão de Jean e se levanta parando na frente dele.

“O que foi, Jean? Fala comigo” Dessa vez ele implora de verdade “ Por favor, me diz o que tem de errado”

“Você Kevin, você é o problema aqui” Jean diz com raiva soltando as mãos do outro de seus ombros e continuou a andar pelo outro canto do quarto “Você é sempre o maldito problema”

Kevin olha assustado para Jean, ele não entende a raiva repentina e não sabe o que pode ter feito de errado dessa vez, mas ele pede, ele reza e implora para seja lá o que for, Jean o perdoe.

“Jean, Jean me escuta” Ele fala com o aperto no peito já tão nervoso quanto o outro “Olha para mim Jean” Ele pega nas mãos do mais alto novamente “Me explica o que foi, por favor, a gente pode se resolver”

Jean olha para o cartão postal e o pequeno ímã quebrado descansando um ao lado do outro na cama e volta a olhar para Kevin.

“Não consigo fazer isso” Ele espera que Jean continue, mas quando não o faz, Kevin tem que apertar suas mãos mais forte como incentivo “Sinto tanto a sua falta, Kevin” Jean leva a mão de Kevin a seu peito junto com a sua própria e ele conta os batimentos de Jean, tão rápidos quanto seus próprios “Sinto tanta falta de nós que posso fazer algo que vou me arrepender a qualquer momento”

Kevin não entende a princípio, ele está concentrado demais nos corações dos dois batendo no mesmo ritmo para digerir as palavras tão rápido.

Quando compreende o que Jean quer dizer, ele levanta o olhar de suas mãos entrelaçadas e encara diretamente os olhos a sua frente ele sente que todo o efeito da bebida se foi de vez, ah, talvez agora ele esteja mesmo sonhando

Jean se solta de Kevin mais uma vez, claramente atordoado com a falta de resposta. Mas ele tem um olhar tão esperançoso para Jean que acha difícil que exista alguém que não note sua animação.

“Espera” Ele chama quando Jean tenta passar por ele para fora do cômodo, colocando sua mão esquerda no peito de Jean. Kevin respira e olha para sua mão, com as cicatrizes se destacando no meio da pele bronzeada. Ele junta as próprias marcas com as de Jean em seu rosto. 

Ele tem os olhos marejados, e Kevin pode ver que as emoções quase o explodem de novo, mas Jean não mantém contato visual, continuando a olhar para a porta.

“Sinto muito” As palavras de Kevin chamam a atenção de Jean imediatamente “Sinto muito que você tenha passado por isso. Você não merecia, nunca mereceu nada disso” 

As lágrimas que saem dos olhos de Kevin logo fazem companhia as de Jean, ele conforta seu rosto na palma de Kevin e ele tem certeza de que pela primeira vez na vida eles estão na posição certa, porque a maneira como o rosto de Jean se encaixa nas mãos de Kevin é perfeita, é confortável, é macia e a vista que Kevin Day tem é definitivamente a mais linda de todo o universo. 

Ele passa a mão por cima da tatuagem de número três com força, como se quisesse arrancá-la de lá. Jean abre os olhos e encontra o olhar de Kevin. Ele não sabe, mas aposta que Jean consegue ver toda a paixão em seu rosto, a essa altura do campeonato Kevin já sabe que perdeu tudo. Jean é a única coisa que resta, a única que importa, é a única que faz sentido, todo o resto se foi.

Kevin se aproxima lentamente pouco a pouco do rosto de Jean, esperando por uma resposta de que poderia fazer isso. Jean não responde, mas é ele quem junta seus lábios primeiro, é apenas um encostar leve, mas todos os pelos do corpo de Kevin se arrepiam, ele acha que consegue ouvir o coração de Jean, batendo tão alto quase em um ritmo perfeito que faria ele ficar dias apoiado no peito de Jean apenas ouvindo a melodia de seu amor.

Kevin passou tempos imaginando como seria isso: a sensação de ter Jean para si, mas nada o preparou para a realidade, ela é muito melhor do que sequer pôde imaginar um dia. 

Jean o agarra pela nuca juntando mais seus rostos e inicia um beijo de verdade dessa vez. 

Esfregando perigosamente seus dedos pelos fios de Kevin. Jean o beija com raiva, com vontade, com desejo. O beija como se esperasse por esse momento a vidas e talvez Kevin também esperasse.

Quando a falta de ar se faz presente pela primeira vez eles se separam, mas ainda tão próximos que seus narizes ainda se tocam, eles ainda sentem as respirações suas respirações, ainda sentem um ao outro.

“Não devíamos fazer isso”

Kevin dá um pequeno e quase invisível sorriso antes de devolver a resposta também em um sussurro.

“Por que?”

A demora na resposta faz ele abrir os olhos e se deparar com a imagem de apenas partes do rosto de Jean, ele acha que isso é perfeito. 

Ele deve se arrepender de dizer isso, porque a resposta não chega de forma verbal, mas sim, com outro beijo que faz Kevin ver estrelas próximas o suficiente para sentir seu calor, que faz suas pernas bambearem e o faz questionar sua própria sanidade.

Eles se abraçam como se suas vidas dependessem disso, como se eles significassem tudo um para o outro. E Kevin tem a impressão de que significam.

Eles se perdem em meio a beijos e mãos ansiosas, se deixam levar pelos sussurros em francês. Eles se encontram de novo nos meio sorrisos, nos carinhos e nos olhares que parecem uma infinitude brilhante. Eles se deixam levar pelo momento, se permitindo sentir tudo que estava acumulado durante todo esse tempo.

Ao fim da noite Kevin sente um aperto mais forte no coração, sente seu sangue correr pelas veias e se sente perdido.

“Se as pessoas podem fumar sabendo que isso destrói seus pulmões, qual o problema de amar alguém sabendo que será sua perdição?” Se pergunta Kevin, encostado no travesseiro. Porque ele tem certeza de que ama Jean tanto que ele será o grande responsável por sua ruína final.