Chapter Text
Era uma manhã normal na casa das Fragoso-Esteves. Eduarda voltava do trabalho de delegada cansada, mas feliz, depois de finalmente concluir suas tarefas na delegacia. Agora, podia voltar para casa e para sua mulher e suas filhas.
As duas haviam construído uma família linda juntas, além de uma cumplicidade enorme desde que se casaram. Eduarda ainda se perguntava como tinha conseguido ter tanta sorte e encontrar sua companheira de vida por meio de um encontro organizado por uma amiga. Já havia agradecido muito a Maggye por isso e agradeceria de novo e de novo se fosse preciso.Mas tinha certeza de que o destino as uniria de qualquer forma, mesmo sem o famoso encontro de luluzinhas.Estava ligando o carro quando recebeu uma mensagem. Na verdade, não uma, mas duas mensagens suspeitas.
Esposa
— Meu amor, precisamos conversar sobre a Clarice quando você chegar. E fica tranquila, não é nada demais.
— Te amo. Traz aquele doce vegano que eu gosto da padaria? Te espero. 🩷
Eduarda
— Claro, meu amor. Eu já até comprei seu doce. E que coisa é essa? O que ela aprontou? Você me deixou curiosa assim, Lorena.
Esposa
— Amor, não é nada demais. E não, ela não aprontou nada. Quando você chegar em casa, nós conversamos. Beijos. Vem logo, que estou com saudade do seu cheiro.
Eduarda
— Ok, amor. Tô indo. Tchau.
Outra mensagem surge no celular quando ela aperta o cinto.
Cecília 🩷
— Mãe, não sei se a mamãe Lorena já falou com você, mas não fica brava com a Clarice, tá?
— Eu conheci a pessoa! Não ia deixar minha irmã sair com qualquer um. Fica tranquila.
— Te amo. traz um mimo para mim também , você não tem só a mamãe para alimentar rs.🩷
"Sair com qualquer um?" Mas que história era essa? Clarice saindo com alguém? E ninguém tinha contado nada para ela,Por que era sempre a última a saber? Ter tantas mulheres naquela casa ainda a deixaria louca.
Eduarda bufou alto diante de todos aqueles pensamentos e falou sozinha enquanto dava partida no carro:
— Estão me devendo muitas explicações.
E, com isso, saiu em direção para casa.Clarice era a caçula da família. Tinha acabado de completar 17 anos, mas, na cabeça de Eduarda, ainda era a mesma criança que pedia "carcunda" e esperava ansiosamente na porta pela chegada da mãe para brincar.
Que saudade ela sentia daquela época. Só de pensar nisso, seus olhos começavam a lacrimejar. As meninas estavam ficando mais velhas, e isso lhe causava um aperto no coração. A família era tudo para ela. Eduarda era completamente boba pelas filhas e pela esposa, é claro.Clarice estava se tornando uma mulher independente e muito bonita (também sendo filha de quem era, não poderia ser diferente.) Herdou as covinhas perfeitas de Lorena, os cabelos ondulados castanhos, um pouco mais claros que os da mãe, os olhos verdes e a pele muito clara. Os genes de Lorena tinham vencido de lavada, e Eduarda não poderia pedir mais nada da vida depois de ter sido presenteada com uma verdadeira miniatura de sua esposa.
Já Cecília era a mais velha. E o que dizer de Cecília?
Bem, Cecília era sua confidente. Eduarda ensinou muito a ela, mas também aprendeu muito com a filha. Era sua parceira para todas as horas. Tinha sido gerada por Eduarda e herdado seus cabelos ruivos, além dos olhos castanhos que sempre a faziam lembrar os de um filhote de cervo. Usava óculos, um detalhe que Duda achava adorável desde que ela era criança. Era absurdamente linda e inteligente, quando entrou na pré adolescência, Eduarda faltou infartar com o tanto de cartas e declarações que chegavam para a mesma na porta de casa.
Cecília era apenas dois anos mais velha que Clarice e já fazia faculdade. As duas sempre foram unha e carne, compartilhando segredos, risadas e momentos que Eduarda guardava com carinho no coração.
Clarice sempre foi mais tímida e reservada. Tinha seus amigos, mas sentia dificuldade em falar em público e gostava de permanecer no próprio mundo, cercada pelas coisas que amava. Talvez por isso todas na casa fossem tão cuidadosas com ela. Eduarda, Lorena e Cecília odiavam qualquer pessoa que a machucasse ou a fizesse sofrer.
Já Cecília era o completo oposto.
Expansiva, energética e engraçada, fazia amizade com facilidade por onde passava. Tinha muitos amigos e estava sempre procurando um motivo para sair de casa. Durante a adolescência, Lorena e Eduarda precisaram de muita paciência para discipliná-la, repetindo inúmeras vezes que ela podia se divertir, mas precisava ser responsável e cumprir suas obrigações.
Felizmente, quando completou 18 anos, pareceu finalmente cair na realidade e se tornou muito mais responsável.
Ainda assim, Eduarda tinha uma pergunta que fazia para Lorena quase todos os dias.
— Amor, quando elas voltam a ser pessoas normais?
Lorena sempre ria da esposa antes de responder:
— Acho que lá pelos 20 anos. Vamos ter que esperar.
Então se aproximava, deixava um beijo em sua testa e completava:
— Te amo. Boa noite.
E, naquele instante, Eduarda tinha certeza de que conseguiria sobreviver a mais um dia sendo mãe de adolescentes.
Quando chegou em casa, Eduarda colocou as chaves sobre a mesa e logo foi recebida pela esposa com uma chuva de beijos. Sorriu instantaneamente e suspirou, como se um peso enorme tivesse sido retirado de suas costas sem que ela percebesse.
— Oi, meu amor. Eu também estava com saudade.
— Eu estava com muita, muita saudade de te cheirar, Duda. Você demorou, amor. Diz inalando o perfume da esposa e distribuindo beijos pelo pescoço da amada.
Nesse momento, Cecília apareceu na sala e se deparou com a cena. Fez uma expressão de nojo por puro costume, mas, no fundo, achava as duas o melhor casal do mundo. Era como se tivessem nascido uma para a outra. Às vezes, se perguntava se um dia encontraria alguém assim.
— Nossa, mas dizem que essa melação acaba depois do casamento... Acho que estavam enganados, né? Vocês estão tão melosas que estão me dando cárie.
Eduarda pegou uma almofada do sofá e a lançou na direção da filha.
— Ei!
— Respeita suas mães, garota.
— Eu respeito! Só estou relatando os fatos.
Lorena não conseguiu segurar a risada enquanto observava as duas implicando uma com a outra. E nem mesmo das duas fazendo caretas uma para outra, parecia que tinha três adolescentes em casa.
— E onde está a Clarice?
Eduarda finalmente se afastou de Lorena e olhou para Cecília.
— E o que era tão importante que vocês queriam conversar comigo? E que história foi aquela de "não deixar sua irmã com qualquer um", hein?
Cecília e Lorena trocaram um olhar rápido.
— Ah, e outra coisa — continuou Eduarda, apontando para a filha. — Você tem que cuidar dela como irmã mais velha. Conversar com ela, saber como ela está.
O tom firme logo deu lugar a um sorriso carinhoso.
— Eu sei que você anda muito ocupada com a faculdade, meu amor. Ela entende isso, mas sente sua falta, filha.
Cecília suspirou e se aproximou da mãe.
— Eu sei, mãe. Prometo que vou passar mais tempo com ela. A gente conversa todo dia, mas eu vou tentar sair mais com a pestinha mesmo.
— Pestinha? — Eduarda arqueou uma sobrancelha.
— Pestinha. Com todo o amor do mundo.
Lorena observava a cena em silêncio, tentando não rir.
— Aliás, não é comigo que você tem que se preocupar dessa vez.. esqueceu que puxamos seus genes de malandra antes de conhecer a mamãe? pois é , parece que nossa quietinha na verdade é uma ferinha.
Cecília diz enquanto começa a rir e a balançar a cabeça super orgulhosa da irmã caçula. Lorena até então não tinha falado sequer uma palavra. Pensando na melhor maneira de dizer o que tinha acontecido sem que Eduarda surtasse, e planejando mentalmente matar Cecília mais tarde. Eduarda a olhava com olhos arregalados.
—Amor vem, vamos para o quarto. Você toma banho e eu te falo tudo.
As duas seguem para o quarto, mas antes, Duda bate na porta da caçula e dá um beijo na testa dela avisando que chegou, ela fazia isso desde que a menina era mais nova e ficava aflita pela mãe demorar para voltar por causa do trabalho. Lorena sorri para a cena, achava adorável como Eduarda era zelosa, e via o quanto as filhas a admiravam.Nesses momentos pensava em ter mais quinhentos filhos com aquela ruiva.
Eduarda tinha aderido um visual mais maduro, tinha os cabelos cortados que agora não passavam da mandíbula, detalhe que Lorena faltou babar quando viu pela primeira vez, ela se perguntava como ela conseguia ficar cada vez mais linda.Já a ex-ferrete e agora Fragoso, tinha os cabelos negros como a noite longos até as costas, estava cada vez mais parecida com Zenilda, e Eduarda a achava a mulher mais bela que pisou na Terra.
Assim que entram no quarto do casal, Eduarda tira suas roupas e começa a ir em direção ao banheiro para tomar banho. Enquanto isso, Lorena começa a falar com vergonha de encarar os olhos da esposa.
— Amor, sei que você deve estar preocupada e imaginando mil cenários, então vou falar de uma vez,tá?
— Tá. Fala logo Lorena eu estou ficando preocupada, o que aconteceu com ela?
— Então, como eu posso dizer isso.. ai Meu Deus. Olha, bem, é que eu e Cecília tínhamos ido ao shopping comprar presentes para o aniversário da Clarice,certo?
— Sim. Eduarda ouvia atentamente e com o rosto franzido preocupada.
— Bem.. é que quando voltamos ela tinha companhia. Lorena disse de uma vez esperando a reação da esposa.
— Companhia?! como? na nossa casa? SOZINHA COM QUEM!? VOCÊS DEIXARAM ELA SOZINHA LORENA!
— Calma Eduarda pelo amor de Deus, até parece que você era uma santa nessa idade né?,quando chegamos ela estava beijando uma garota no sofá apenas. (Lorena pensou em poupar a esposa do fato de que Clarice estava sem blusa.)
— Enfim. Temos que conversar com ela sobre vida sexual e orientá-la. Por isso estava esperando você chegar.
— O que?.. Espera. Lorena?
— Oi amor?
— Uma garota? ela beijava uma garota? ..Eu ouvi certo ou estou alucinando. Eduarda diz sorrindo.
— Pois é amor, eu também fiquei em choque! finalmente acertamos com pelo menos uma das nossas filhas, ela ficou igual um pimentão e não quer nos encarar desde o acontecimento, mas eu estou tão feliz de descobrir que ela gosta de meninas.
— Nós já desconfiávamos, né? Mas ter essa confirmação assim.. também, filha de peixe peixinho é! puxou a mãe aqui, com certeza! vai ser mulherenga. Tô tão orgulhosa.
— Ah, é Eduarda? puxou a mãe mulherenga?
Lorena diz já com raiva da mais velha e de todas que provaram sua mulher quando ela era solteira. E olha que isso faz muito tempo.
— É.. claro que não amor, sou uma mulher de mulher só a muito tempo. Diz ela beijando a bochecha da esposa que já está com um bico enorme.
— O assunto aqui é nossa caçula. Temos que conversar com ela mas não acho necessário o papo sexual agora só por um beijo, minha filha não vai fazer isso agora com uma desconhecida qualquer que chegou ontem.
Eduarda já tinha absorvido a felicidade de saber que a mais nova gostava de mulheres e tinha dado o lugar para ciúmes. Não queria que ninguém que não merecesse sua filha a fizesse sofrer, ainda mais adolescentes cheias de hormônios, imagina só? sua filha, que foi criada com tudo que quisera sempre por ela e pela Lorena, namorando alguém que só quer usá-la. Só de pensar juquinha sente vontade de vomitar.
A conversa de Lorena e Eduarda foi interrompida por batidas na porta. As duas se olham apreensivas e falam em uníssono um “Entra”. Na porta revelasse o assunto recorrente na casa finalmente, Clarice apareceu um pouco envergonhada as mães notaram pelo seu semblante.
— Oi…mães, será que posso falar com vocês?
— Claro filha, entra.
Lorena diz e Eduarda apenas assente. Lorena começa a ficar com calor e coloca as mãos no cabelo como se fosse prendê-lo mas o solta. Mania que ela tinha desde que ela se entende por gente.
— Bom, eu estou um pouco sem graça e gostaria que vocês apenas ouvissem e depois falassem para ser mais fácil para mim,ok?
— Ok filha. As duas assentem
— Eu gosto de meninas. Eu descobri faz um tempo, mas nunca falei porque eu não tinha certeza ou interesse por nenhuma de fato, até então.. bem eu sei que está parecendo que to saindo do armário para duas mães lésbicas.
Clarice começa a rir e as mães também. Ambas estavam com um sorriso orgulhoso no rosto.
— Mas eu não queria falar sem ter certeza justamente por isso,sabe? não queria decepcioná-las se não fosse verdade. Mas,enfim, eu sou bem lésbica mesmo,então podem ficar despreocupadas.
— E agora que eu já disse isso, vem o mais importante.. bem eu estou apaixonada. Completamente apaixonada,eu nunca achei que diria isso. Ela é incrível, inteligente, carinhosa, e ela me deixa feliz simplesmente existindo, ela é linda céus, como ela é linda. Clarice diz com um sorriso bobo.
Lorena e Eduarda se olham e as duas sorriem, estava na cara da filha que ela estava apaixonada. Lorena tinha percebido pela pele mais brilhosa, bom humor ao acordar, coisa que Clarice nunca tinha. Eduarda pensando, também já tinha notado a filha sorrindo mais para o telefone que o normal. Mas não queria quebrar sua privacidade.Quando ela se sentisse pronta ela falaria, como ela está fazendo agora.
— Eu quero apresentá-la para vocês.
