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O horário de mudanças do meu prédio era sempre após às 10 horas da manhã, pra garantir que não iam acordar ninguém ou atrapalhar qualquer atividade, trabalho ou reunião. Mas era domingo e eu estava ouvindo a porta do elevador abrindo e fechando incansavelmente às 07h30. Os barulhos no apartamento de cima também foram responsáveis por me acordar bem cedo, muito antes do horário aceitável para um ser humano, no domingo.
Minha mãe disse que foi uma exceção por causa do filho do casal que estava se mudando pro andar de cima. Quem era ele, o presidente da República? Quando eu quis levar meus amigos pra piscina não deixaram, mas o alecrim dourado podia perturbar a paz pública…
Sufoquei meu sono com o travesseiro no rosto, enrolei alguns minutos, mas a arranhação de móveis no piso de cima não me deu descanso, então me levantei, tomei um banho, e coloquei os fones de ouvido, mergulhando num jogo de videogame.
No horário do almoço, eu já podia sentir o aroma da comida da minha mãe e estava com fome pra caramba, quando ela veio até o meu quarto.
— Binnie? Vamos dar as boas-vindas aos vizinhos de cima, vem.
— Quê? Por quê?
— Porque é uma coisa gentil de se fazer.
— Ah, mãe, tô jogando…
— Vamos, sua irmã também vai.
Resmunguei, mas fiz o que ela pediu. Entramos todos no elevador: meu pai segurando o bibimbap com barriga de porco da mamãe, minha mãe, minha irmã mais velha e eu com a minha fome.
Quando alcançamos o quarto andar, a porta do único apartamento do piso estava escancarada, caixas e mais caixas estavam espalhadas pelo hall e se estendiam para dentro da casa, e um homem terminava de tirar um sofá do elevador de serviço. Meu pai rapidamente foi ajudá-lo.
— Olá, nós somos os Seo, seus vizinhos de baixo. — Minha mãe sorriu.
— Obrigado — O homem agradeceu a ajuda do meu pai quando eles encostaram o estofado na parede. Ele tinha sotaque de algum lugar que não soube identificar de onde era. — Jess, nós temos visitas! Os vizinhos! — Ah, muito prazer. Nós somos os Bahng. Eu sou o Jack. — Nisso, a esposa apareceu, segurando um bebê fofo no colo, uma garota curiosa e um cara mais ou menos da minha idade logo atrás. — Essa é minha esposa, Jessica, e meus filhos, Lucas, Hannah e Christopher.
Ele apontou para o filho mais velho. Nomes ocidentais, deviam ser estrangeiros. O tal Christopher nem nos olhos direito e estava de fones nos ouvidos. Engraçado, então o barulho deles perturbava mesmo.. Olha só que coisa… Se o próprio filho se sentia assim, imagine o resto do prédio. Dei um sorriso amarelo para os adultos por educação.
— Vimos trazer o almoço. Imaginei que com toda a correria da mudança, não teriam tempo de fazer algo para comer. — Minha mãe ofereceu a travessa.
— Ah, muito obrigada! Eu ia procurar um delivery agora mesmo, mas… aceito a refeição. Muito obrigada mesmo. Almoçam com a gente? A mesa e as cadeiras já estão no lugar certo. — O sotaque da mulher era muito mais forte, mas ainda dava pra entender.
— Não, imagina. Vocês ainda tem muita coisa para arrumar, não se preocupem. Espero que gostem.
— Desculpem pelo barulho logo cedo, isso não vai se repetir. — Jack pediu. Parecia que havia mais a ser dito, mas ficou escondido na garganta.
Apresentações feitas, comida entregue, voltamos ao nosso apartamento no andar debaixo, e eu finalmente almocei, ansioso para voltar para meu jogo. Eu provavelmente faria isso o dia todo, aproveitar enquanto ainda não era semana de provas.
🪲
Minha irmã acabou de se formar no ensino médio e está esperando os resultados das faculdades, então continua dormindo, por isso eu tenho inveja dela. Só queria não ir pra escola, mas não há essa opção, então, me resta apenas desejar que ela engasgue no sono e acorde tão cedo quanto eu pra não conseguir dormir.
Quando chego na escola, meus amigos já estão me esperando e metade deles está tentando se aparecer para o grupo de meninas da outra sala, como sempre. Estamos jogando conversa fora, quando vejo descer de um carro, o cara do dia anterior, meu vizinho de cima. Ele está com o uniforme completo e os fones de ouvido, parecendo um bobo. Quem usa o uniforme inteiro? Ri internamente. Passou por nós e foi direto para dentro da escola. Ainda havia alguns minutos até o início da aula, então continuamos do lado de fora.
Na sala, o tal Christopher está sentado numa carteira sozinho, ao canto da sala, na segunda fileira, os fones ainda no ouvido e está lendo um livro. Deve ser um dos nerds certinhos.
— Bom dia, senhores. Hoje é nosso penúltimo tema antes da prova. Por favor, abram os livros na página 56. Guardem os bonés e fones de ouvido. — O professor de física pediu assim que entrou na sala e começou a escrever no quadro as fórmulas do dia. Deu uma volta na sala enquanto falava a matéria, e parou ao lado da mesa do aluno novo. Ofereceu a mão em cumprimento à ele, que apertou de volta. — Senhor Bahng, por favor, não permitimos fones de ouvido na sala de aula.
O cara não falou alto o suficiente e tentou argumentar, mas o professor Kim era meio irredutível quando queria, então, confiscou os fones dele.
Como sempre, minha cabeça começou a viajar para qualquer lugar, menos na física, e em quinze minutos, eu já nem ouvia direito o que o professor Kim falava. O caderno está completo, mas eu sei que teria que me esforçar para estudar para as provas, e muito. Só voltei à prestar atenção quando Christopher se levantou da sala e saiu, no meio da explicação, sem pedir licença, nem nada. Ele parecia apressado.
Todos nós nos entreolhamos com caras de assustados. Era um desrespeito e ele mal tinha chegado… As coisas podiam ser diferentes no país dele, mas aqui, ele ia ter sérios problemas se continuasse assim.
Mal o professor retomou a explicação após anotar algo em sua agenda pessoal —provavelmente um lembrete de advertência para tratar com a diretora—, a senhora Park apareceu na porta de nossa sala, acompanhada de Christopher. Todos nós ficamos de pé e ela pediu um pouco da atenção do professor. Obviamente, quanto menos aula de física tivéssemos, melhor seria para todos nós. Em segundos, a sala virou um amontoado de conversas, eu joguei um papel nas costas de Seungmin pedindo para me passar as cartas de Pokémon dele do novo deck, e Christopher voltou ao seu lugar com o fone de ouvido na cabeça.
Pela insubordinação e comportamento estranhos, ninguém sequer chegou perto dele. Ele também não parecia muito a fim de falar com ninguém, então era assim que as coisas seriam. Talvez ele fosse uma pessoa quieta, na dele. Tanto faz. Eu tinha um campeonato de bafo pra vencer no intervalo.
Estava comemorando a vitória, zoando meus amigos, é claro, quando o vi de novo, dessa vez do lado de fora, de cócoras na grama, observando o chão com muita atenção. Que cara estranho. Contanto que não chegasse perto de mim, tava suave.
E pelo resto do dia, Christopher ficou em sua cadeira, sem mais nenhuma surpresa para nos fazer perder alguns minutos de aula, com o fone nos ouvidos e à cada troca de professor, ele abria um livro. Nerd confirmado. Não abriu a boca, não falou com ninguém, nem se levantou mais.
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Já completava mais de um mês da mudança dos vizinhos. Minha mãe e a senhora Bahng viviam conversando, e eu sempre encontrava com a pequena Hannah e o pequeno Lucas no playground do prédio, brincando com as outras crianças, mas só encontrava Christopher na escola. Como ele não falava com ninguém, estava sempre sozinho, sempre com os fones e era o único que tinha permissão para não fazer aula de educação física, não sabia nem mesmo qual era o som da voz dele. Mas também não me importava.
Era o meu dia favorito, dia de treino de futebol, mas a aula já estava acabando e o time que a professora me colocou era ruim demais, então saí meio frustrado quando ela apitou, seguindo para o vestiário brigando com Han Jisung, aquele perna de pau que eu costumava chamar de amigo. Christopher sempre ficava sentado no vestiário no período da aula, lendo seu livro apoiado nas pernas, quieto, num canto. Das primeiras vezes, a gente até se assustou com a figura dele lá, mas agora já nos acostumamos.
— Você é muito ruim, cara! Quando eu falo passa a bola, é pra passar! A gente perdeu uns cinco gols por sua culpa! — Reclamei.
— Nada a ver! Eu ia marcar os gols, mas eu escorreguei, o chão tava mais liso do que o normal.
— Ah, cala a boca, para de dar des- — Eu estava distraído brigando com ele enquanto abria meu armário, quando vi um bicho nojento em cima da minha bolsa, todo verde, parado, enorme e gordo. Eu dei um grito de susto, e acabei tropeçando em Jisung que estava atrás de mim. — Que nojo! Que nojo, porra! Credo! Ah, não… na minha bolsa. Tem um bicho na minha bolsa.
Christopher ergueu a cabeça com o susto e quando menos percebi estava do meu lado, enfiando a cabeça no meu armário, curioso.
— Não é um bicho. É uma lagarta. — Foi a primeira vez que ouvimos a voz dele. De todas as pessoas do mundo, eu imaginava que ele sairia correndo, vomitando ao ver aquilo, mas na verdade, ele era o mais calmo de nós. Jisung estava prestes a vomitar no meu pé, e sendo sincero, eu estava bem próximo disso.
Christopher se abaixou e fez a coisa mais nojenta e imunda do mundo: pegou a lagarta com as mãos. O pior era o cuidado que ele tratou daquela nojeira, como se fosse, sei lá, algo precioso. Foi demais para Jisung, que se trancou numa das cabines para colocar o café da manhã para fora. E Seungmin, ótimo amigo, saiu correndo pra fora do vestiário.
— É uma larva de mariposa de fogo de mão fina. Squeaking silkmoth. Acho que em coreano é… yurisannuenabang.
— E você pega isso na mão? Que nojo, mano.
— Ela não faz nada. Provavelmente subiu na sua bolsa enquanto você estava distraído. Você se sentou no jardim hoje?
— Sim.
— Tem muitas delas perto da faia no jardim. Essas larvas adoram comer as folhas de faia e de bordo. São da espécie Rhodinia fugax. O macho é marrom-escuro e a fêmea é amarelada, e podem chegar até 10 cm de envergadura. Não enxergam muito bem, deve ter confundido sua mochila escura com uma folha seca e achou que podia começar o casulo por aqui.
— Qual é, você é uma enciclopédia humana?
Ele me ignorou, olhava com muito interesse para a larva que andava em sua mão lentamente, com aquelas pernas gordas e nojentas, o bicho era todo verde, com uns riscos escuros, a coisa mais bizarra do mundo, e ele parecia muito interessado mesmo.
— Que nojo, joga isso fora. — Pedi. A sinfonia do estômago de Jisung ainda podia ser ouvida. — Droga, vou ter que lavar essa bolsa.
— Não precisa lavar. Larvas de mariposa não produzem muco quando estão na fase de alimentação e ganho de peso, só na fase pré-pupa. Além do mais, o casulo dessa espécie é muito utilizado para fazer seda selvagem e remédios. Você teria um ótimo produto nas mãos.
— Ah, que nojeira. —Reclamei mais uma vez, e foi minha vez de ignorá-lo. Por sorte, minha bolsa estava fechada, então meu uniforme estava intacto e protegido. Peguei a bolsa com a ponta dos dedos e fui me trocar.
— Posso ficar com ela? — Christopher perguntou quando passei por ele, desviando dele para me manter longe daquela porquice.
— Faz o que quiser.
Depois disso, ele saiu e parecia ter um sorriso no rosto.
Me preocupei mais com a minha bolsa, trocar de roupa e salvar Jisung que ainda estava botando os bofes para fora, mas ainda assim, Christopher com aquela lagarta nas mãos ficou na minha cabeça. Quem em sã consciência sai pondo a mão nos bichos desse jeito? Aliás, quem é que decora nome de bicho assim? Podia ser qualquer animal nojento e eu odiaria igual.
No intervalo, evitei ir ao jardim. Não queria nenhum outro encontro com aquele tipo de verme ou outro animal não-convidado, mas vi pela janela que Christopher estava no pé da árvore. Faia, ele disse, eu acho. Segurava uma lupa e observava a larva verde que ele colocou ali com entusiasmo. Quem usa uma lupa em pleno 2026?
Também percebi que ele andava com um pequeno vidro nas mãos, mas não vi o que tinha dentro, talvez tivesse colocado a tal lagarta ali dentro. Sei lá. Ganhei no bafo de novo.
A próxima aula era de Biologia e o professor já tinha enchido a lousa com textos quando chegamos no laboratório. Não deu nem tempo de reclamar.
— Pessoal, aqui na lousa, eu coloquei os trabalhos do trimestre em detalhes. Anotem. Será um trabalho em duplas. Cada dupla vai falar sobre um filo do reino animal ao longo das próximas semanas, de acordo com o tema da aula proposta. Escolham sua dupla e me entreguem os nomes para fazermos o sorteio do tema.
Imediatamente, olhei para Seungmin. Jisung se juntou com Minho, e essa era a nossa formação padrão para os trabalhos. Quando era em grupo, sempre fazíamos os quatro juntos. O restante da sala comemorou e fomos levando os nomes para o professor. Depois de uns minutos de conversa e alvoroço, o professor chamou nossa atenção.
— Tem um aluno sem dupla. Quem pode receber o Christopher e formar um trio?
Nunca ouvi a minha sala mais em silêncio do que aquele dia. Eu e os meninos ficamos quietos porque, pô, que nojo, ele pegou um bicho com as mãos. O resto da sala só o achava estranho e pra falar a verdade, ninguém tinha trocado nenhuma palavra com ele antes.
— Vamos lá, quem pode receber o colega no grupo? — O professor insistiu. Era aquele momento de vergonha alheia: o professor porque havia cometido um erro de cálculo, os alunos, que não queríamos fazer grupo com ele, e ele, que tinha um rosto esperançoso, achando que íamos acolhê-lo. Silêncio completo. — Ninguém? Bom, então vamos mudar as coisas. Eu vou sortear as duplas e os temas.
Reclamação geral. Um culpou o outro, a sala toda resmungou. Por causa de um aluno, nosso trabalho ficou comprometido. A única coisa que todo mundo dividia agora era a frustração e o medo de cair de dupla com Christopher.
A cada nome que saía, uma ansiedade se instalava nos nomes que sobravam na mão do professor. Mas, para alegria geral, exceto a minha, o professor chamou: — Seo Changbin e Bahng Christopher.
Ótimo. Trabalho com o esquisitão nerd da lagarta. Vi Jisung rir. Isso, bobão, ri mesmo. Só porque saiu com o seu namoradinho. Otário. Arrastei minha mochila sentindo o olhar de pena e de ironia dos meus colegas sob minhas costas enquanto me aproximava do nerd.
Christopher estava com uma expressão diferente no rosto, não consegui ler qual era, mas ele parecia tão infeliz quanto eu. Talvez porque devesse ser humilhante não ser escolhido por ninguém, talvez porque sabia que eu não queria fazer trabalho com ele. Ele abaixou a cabeça e voltou a olhar para seu livro. Era um livro grosso, com páginas acetinadas e muitos desenhos. A página que ele lia tinha um percevejo desenho, daqueles fedidos de jardim.
— Certo, duplas formadas, vou sortear os temas. — O professor anunciou e eu percebi que nem tinha chegado muito perto de Christopher, só me sentei ali e esperei. Eu sobreviveria por um trabalho.
No momento que o professor disse nosso nome, e que ficamos com o filo Porifera —sei lá o que era isso—, Christopher ergueu a mão e eu quis me afundar na cadeira. Já não bastava a humilhação que ele tinha trazido para si, e consequentemente para mim, ele queria mais?
— Professor, eu gostaria de ficar com Arthropoda.
— É um sorteio, senhor Bahng.
— Por favor. Eu gostaria muito de ficar com Arthropoda.
De novo, o professor negou e continuou o sorteio. Então, eu vi e realmente fiquei assustado. Christopher havia começado a chorar. Feito um bebê. Seus olhos ficaram vermelhos e ele apertou as mãos e as lágrimas começaram a rolar por suas bochechas. Ficou de pé e caminhou até a mesa do professor, que o ignorou apenas até o segundo seguinte, quando o notou chorando. Não ouvi o que falavam, mas dava pra ver o pânico na cara do professor por ter feito um aluno chorar. Ele perguntou para a sala se a dupla do grupo Arthropoda se incomodava de trocar o tema e é óbvio que a tal dupla respondeu que não, porque, óbvio, ninguém fazia questão de nada. As pessoas normais nem sabiam que porcaria era um filo arthropoda.
Quando retornou à nossa bancada, Christopher ainda tinha os olhos vermelhos do choro, o olhar caído, uma feição triste, como se ele mesmo não tivesse gostado da situação. Mas ele mesmo quem se colocou nisso. Vai entender…
— Você se importa de ficar com esse tema? Eu gosto muito.
Dei de ombros. — Tanto faz pra mim. — Agora, eu só queria fazer logo o trabalho, apresentar essa droga e não ter que falar mais com ele. Que doideira.
— Podemos fazer o trabalho hoje. Tenho muitos livros para usar em casa. Você pode ir.
Assenti.
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Quem atendeu a porta foi a senhora Bahng.
— Oi, senhora, Bahng. Eu marquei de fazer um trabalho com o Christopher hoje.
A mulher sorriu.
— Oi, querido. Sim, entre, ele já me avisou. Está te esperando no quarto, é a última porta à direita no corredor.
Todos os apartamentos tinham a mesma configuração interna, então não era difícil de me localizar. Pedi licença para entrar e iniciei meu caminho para o corredor.
— Espera, Changbin. — A senhora Bahng me chamou. — Obrigada por fazer o trabalho com ele.
Eu ia abrir a boca e dizer que não tive escolha, que foi um sorteio e que por mim, nunca chegaria perto do menino-larva, mas ia ser rude demais. Nenhuma mãe gostaria de saber que seu filho é um excluído na escola, então, em vez disso, dei um sorriso.
— O Chris ficou feliz de saber que você seria a dupla dele. Ele é autista, como deve ter percebido, e não se sente muito confortável com pessoas estranhas. Saber que o vizinho debaixo quem iria fazer a tarefa junto o deixou mais calmo.
E foi nessa hora que eu mais me senti burro. Mais ainda do que quando minha irmã me chamava de burro. A voz dela me falando aquilo tinha um tom explicativo, algo me dizia que eles já tinham passado por aquele cenário muitas vezes, e que provavelmente foram experiências não muito legais. Minha cara também estava denunciando que eu não sabia da situação dele, com certeza. E eu me senti culpado.
Tá, não que eu tivesse sido a pessoa mais receptiva do mundo. Eu realmente acho que ficar sozinho na escola, ser excluído é ruim, mas em minha defesa, ele também não deu abertura pra ninguém e agia um pouco estranho. Agora que eu sabia que tinha um porquê, não era mais tão estranho.
Assenti com a cabeça e segui para o quarto dele. Dei uma batida na porta.
Ele abriu quase imediatamente.
É estranho ver as pessoas que só vemos na escola sem uniforme, mas não foi isso que me chocou. No quarto dele, a parede acima da cama parecia um cemitério de bicho morto dentro de porta-retratos.
— Oi, Changbin. Pode entrar. Esse é o meu quarto.
— E aí.
A minha melhor habilidade não é ser discreto e ele percebeu que eu entrei no cômodo sem tirar os olhos da parede. Nunca tinha visto aquilo antes e ainda não tinha decidido se aquilo me deixava fascinado ou com nojo. Acho que estava com mais medo de uma daquelas patinhas se mexer.
— O que é isso? — Perguntei, apontando para a parede.
— É minha coleção entomológica.
— Que porra é essa?
— Eu não gosto de palavrões, você pode por favor, não falar?
— Desculpa. Que isso?
— É uma coleção de insetos conservados. Mas eu não mato nenhum, não tenho autorização do órgão de regulamentação pra isso. Eu só coleciono os que eu encontro mortos.
— Você dorme com isso aí em cima de você?
— Sim. Estão mortos. Qual o problema? — Haviam muitos problemas, e eu poderia listá-los em ordem cronológica, alfabética, ou como ele quisesse, mas ele não ia querer, pelo jeito. — Essa é a mariposa fêmea da lagarta que estava na sua bolsa.
Ele subiu na cama e tirou um dos quadrinhos da parede e me mostrou. A mariposa, apesar dos pelinhos curtos e coloridos e arrepiantes, era bonita.
— Hm. Legal.
— Eu ainda não consegui um macho. Eles morrem longe das fêmeas e das desovas, geralmente em matas mais fechadas.
— Então você tipo, coleciona insetos mortos?
Percebi que não fiz uma cara legal nem fui gentil na minha pergunta quando ele abaixou a cabeça, entristecido. Tipo, era estranho, mas até que interessante. Nunca conheci ninguém antes que colecionava esse tipo de coisa, e não era nem de perto tão nojenta quanto a coleção de chicletes mastigados que o Jisung teve na quarta série. Dei uma meia volta, observando o resto do quarto e vi que haviam insetos por todos os lugares. Todos os lugares mesmo. Na estante de livros, na mesa de trabalho, miniaturas, desenhos, vidros, caixas, mais dos quadrinhos, uma pequena bandeira de insetos pendurada na parede. Tinha até uma almofada de besouro na cama.
Já tinha ouvido falar em hiperfoco, a palavra tava no hype, e apesar de usar de modo errado às vezes, eu sabia que era uma coisa de pessoas como o Christopher. Mas sempre eram coisas legais tipo, dinossauros, bandeiras, tubarões, trens, sei lá… Nunca vi ninguém gostar de inseto. Acho que ele era o único.
Mas sinceramente? Acho que o choque de ver tanto inseto na minha frente foi tipo um tratamento de choque. Foi legal. E eu acabei descobrindo que não sabia que a lagarta era um inseto. Será que minha irmã tinha razão? Eu era mesmo mesmo e por isso meus pais tinham me achado no latão de lixo?
— Achei legal.
— Achou?
— É. Tipo, você tem um monte de Pokémons. — Brinquei e o vi sorrir.
Acho que era a primeira vez que olhava pra ele, então foi só ali que percebi que ele tinha covinhas e um sorriso bonito.
— Valeu. Vamos fazer o trabalho.
Já tinha uma cadeira à mais ali esperando por mim, e ele já havia deixado tudo separado. Cola, tesoura, imagens impressas e a impressora ligada, caso precisássemos de mais, a cartolina ficou por minha conta.
— Os artrópodes são o filo que engloba os hexapoda, o subfilo dos insetos. Todo inseto é um artrópode, mas nem todo artrópode é um inseto. Eles tem por característica um exoesqueleto quitinoso e pernas articuladas que varia de acordo com o subfilo e as classes. Arthropode vem do grego arthro, que significa articulado, e podos, que significa pernas, apêndice. O próprio nome já traz a maior característica do grupo. São o maior filo existente no reino animal.
Em cinco segundos, eu ouvi tanta informação que nem consegui entender o que ele estava falando direito. Só sabia de uma coisa: o dez ia vir com força.
Os livros empilhados na mesa não tinham o selo da biblioteca da escola, e eu nem precisei de muito esforço para chegar à conclusão de que Christopher sabia tudo aquilo graças ao seu interesse. Aqueles livros eram dele.
— Por isso que você queria esse tema então… Agora tudo fez sentido! — Eu o cutuquei com o cotovelo e ri.
— É, foi por isso. Eu gosto muito. Não gosto muito de falar em público, eu fico meio nervoso, mas se fosse o tema que eu gosto, fica mais fácil pra mim. Eu só fico falando e nem percebo que tô falando.
— Da hora. Tá bom, acho que isso aí que você falou tem que ter, é tipo o básico, né?
E por três horas, eu tive uma aula particular de insetos. Entomologia, na verdade. O trabalho era focado no grupo todo, e eu inclusive aprendi que aranhas e escorpiões não são insetos, assim como os carrapatos, mas que todos esses animais —eu nem sabia que inseto era animal, pra começo de conversa— eram tipo primos dos caranguejos, só que Christopher, obviamente, focou mais nos insetos. Nem percebi o tempo passar, pra ser sincero. Ele era muito inteligente, ele sabia umas coisas que eu duvido que o pessoal da universidade sabe.
Nosso cartaz estava sensacional, sem nenhuma modéstia, e eu queria muito ver a cara do Jisung, do Minho, do Seungmin e do Hyunjin quando eles vissem o nosso trabalho. O professor Khang ia dar uma nota 15, se fosse possível. A parte dos outros grupos era reduzida, não vou mentir. Mas estava igualmente boa. A dos insetos era a maior parte.
— Eu posso falar a parte dos outros grupos então. Eu fico com os Cheli-, queli, Chelicerata, Myriapoda e os extintos, e você fala dos insetos e dos crustáceos, pode ser? — Sugeri.
— Pode.
— A gente vai dividir a parte escrita assim também?
— Tem que fazer parte escrita?
— Sim, todos os trabalhos tem parte escrita. O professor não colocou na lousa, mas sempre tem.
— Ah, eu não sabia. Não era assim na minha antiga escola. Tudo bem, podemos dividir assim.
— Você é de onde?
— Eu nasci aqui em Seul, mas fui pra Sydney na Austrália quando era bebê.
— Sério? Que da hora!
A mãe dele nos convidou para tomar um lanche e eu agradeci porque já tava morrendo de fome, fiquei prestando atenção demais no trabalho e nas coisas do Christopher que nem lembrei do estômago, mas ela fez uma comida boa. Ajudei Christopher a guardar as coisas e disse que ia começar a parte escrita e mandar por e-mail pra ele, e finalmente fui embora.
Ele não era tão ruim assim.
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A data de entrega do trabalho ainda ia demorar bastante, mas já tínhamos deixado tudo pronto, o que me salvou, porque eu precisei focar em física e matemática no período de provas e se eu tivesse que dividir a atenção com isso também, provavelmente teria me lascado.
Nos dias que se seguiram, não dá pra dizer que eu me aproximei do Christopher de uma hora pra outra na escola, acho que nem dava. Ele parecia preferir ficar mais afastado da galera, e nem sempre me falava oi, mas eu via ele passar o tempo do intervalo no jardim e nem achava estranho. Sabia que ele estava coletando algum inseto morto para a sua coleção. Nas aulas de ciências, acabei sentando na mesma bancada que ele em todas as aulas.
E sempre, nas pouquíssimas vezes que interagimos, ele sempre contava algum fato curioso sobre algum inseto. Eu tava aprendendo por osmose, e não é que ele tinha razão? Essas criaturas até que podiam ser legais.
Foi só no dia da excursão para o museu que conversamos mais como na casa dele.
A galera se espalhou pelo ônibus, mas os lugares do meio sempre eram dos meus amigos e eu. Christopher entrou por último, os abafadores postos, procurou um lugar para se sentar, mas à julgar pela cara dele, não quis se sentar com ninguém do fundão nem com as meninas, então ele pediu licença e se sentou ao lado do professor.
— Que humilhação sentar com o professor, sacanagem. Chama ele lá, Bin. — Jisung sugeriu. Ele estava encostado no peito do namorado nos bancos atrás de mim e de Seungmin. Empurrei Seungmin para passar e ele acabou se mudando para o lado de Hyunjin, no banco ao lado, enquanto eu fui até Christopher.
— Ei, Christopher? Vamos lá com a gente. Tem um lugar sobrando.
Ele olhou para trás, olhou para mim e concordou. Apresentei os meninos pra ele, à essa altura, eles já sabiam que eu tinha ido fazer o trabalho na casa dele, e que ele era legal, Jisung odiou saber dos insetos, quase vomitou de novo nos meus pés ao ouvir a história, mas não tinha nada contra ele.
A visita ao museu foi… chata. Pra caralho. Não dava pra ouvir nada do que o guia estava falando, as coisas mais legais que tinha pra ver, o professor não mostrou e ele ainda pediu um relatório técnico das mesmas obras e pontos do ano passado. Sem contar que andamos pra caramba e eu já tava morrendo de fome. Eu sempre tô morrendo de fome.
Depois de pararmos pra comer, finalmente, tivemos um tempo livre pra aproveitar o resto do museu —era tudo um esquema, o professor pulou as coisas legais, porque sabia que íamos querer ver depois—. Jisung e Minho se perderam por algum canto, todo mundo sabia que eles iam se pegar e eu sinceramente tava torcendo pro professor encontrar os dois no flagra. Hyunjin sumiu com o caderno de desenhos, provavelmente foi ver os quadros e tirar inspiração. Seungmin estava procurando gente para jogar Pokémon, mas como eu não tinha levado o meu deck, me interessei por outra coisa.
Desde quando chegamos ali, eu abri o mapa do museu e vi que tinha uma área de biologia, com uma coleção de insetos. Achei que Christopher gostaria de ver.
— Aí — o cutuquei, tirando-o de sua leitura. — Tem uma parte de insetos. Quer ir ver?
Os olhos dele brilharam na mesma hora. Não foi aquele sorriso curto que ele costumava dar para responder aos professores, mas sim um sorrisão que fez os olhos dele quase sumirem em duas frestas e as covinhas apareceram. Na mesma hora, meu estômago deu um nó esquisito, uma espécie de solavanco que me deixou sem ar por um segundo, como se o chão tivesse sumido debaixo dos meus tênis.
Eu continuei parado, esperando que ele se levantasse, mas estava sentindo uma quentura repentina subir pelo pescoço e queimar a ponta das minhas orelhas. Era uma sensação completamente nova e desconfortável, mas que, ao mesmo tempo, eu não queria que parasse. O peito parecia grande demais para o meu corpo, batendo num ritmo descompassado que me deu uma vontade absurda de rir do nada, ou de sumir dali correndo.
Christopher guardou os livros rapidamente e nós fomos até a sala de biologia. Tinha um esqueleto de dinossauro inteiro bem na entrada do saguão, mas isso não tirou o nosso foco, seguimos direto até um enorme mostruário de vidro, e Christopher abriu a boca, maravilhado. Tinha quase 3 metros de extensão, e insetos do início ao fim, dos mais variados tipos, cores e tamanhos. De uma ponta à outra, muitos insetos. Besouros, baratas, borboletas, libélulas, louva-deuses, gafanhotos, formigas, moscas… Eu nem sabia que tinha tanta mosca diferente assim no mundo. Mas pelo jeito ele sabia.
— Isso é uma Cochliomyia macellaria. é um califorídeo, mosca-varejeira, e ela tem três riscos no tórax. As larvas produzem uma secreção que possui propriedades anti inflamatórias e anestesiantes, além de comerem tecido morto, por isso são muito estudadas no campo da terapia larval. — Ele disparou, os olhos colados no vidro, maravilhado.
— Essa mosca aqui?! Mentira…
— É sério. E essa aqui do lado é do mesmo gênero, mas de outra espécie, elas são tipo… irmãs. Cochliomyia homnivorax. O nome dela diz tudo: vem do latim devoradora de homens. Ao contrário da macellaria, suas larvas comem tecido vivo, ou seja, nunca pode ser usada para terapia larval. As larvas causam as bicheiras e pode levar à morte. É um dos maiores problemas veterinários e de casos de negligência.
— Pára, Chris. Cê tá zoando já.
— Não, é verdade! Mas dá pra distinguir elas pelas três listras. A hominivorax não tem listras e os olhos são mais claros. Essa família, os califorídeos, são muito utilizados nas investigações criminais, sabia? Todas elas têm larvas que se alimentam de tecido animal, vivo ou morto, e elas têm uma alta detecção para os fluidos corporais animais, são as primeiras à chegar numa cena de crime violento, podem detectar o cheiro de sangue há 14 km aproximadamente.
— Eu já vi isso no CSI, mas achava que era só coisa de TV.
— Não, é verdade mesmo. Muito da hora. — Ele deu um passo para o lado e apontou para um bicho enorme, parecia uma folha seca.
— Que isso?
— Um bicho-pau australiano. Extatosoma tiaratum. Eu via um monte desse no jardim da minha casa antiga. A gente tinha uma roseira e eles gostam de comer as folhas. Nessa espécie, quem tem a asa desenvolvida é o macho, e a fêmea tem asas bem pequenas, não voa. Nas espécies da América Latina, as espécies tendem a ser o macho com a asa curta e disfuncional e a fêmea com asa desenvolvida.
— Que bicho é esse?
— É um Stagmomantis limbata. Um louva-deus muito voraz que preda pássaros da América do Norte.
— Essa coisa come pássaro?
— Sim. Ele fica na ponta das plantas com flores, e quando os pássaros param para se alimentar ou descansar, esticam o primeiro par de pernas raptoriais e os enforcam. Os beija-flores são os mais afetados. A ooteca das fêmeas parece uma lagarta de mariposa de fogo, pra evitar que eles sejam comidos antes de nascer.
Um arrepio subiu pela minha espinha. Se uma coisa daquela come pássaros, em breve a evolução vai fazer essa coisa enforcar e comer humanos. Que coisa tenebrosa.
— Olha esse mosquito aqui. É um mosquito da família Ceratopogonidae, com nome popular de maruim, principalmente encontrado na América do Sul e nos países do sul da África. Eles são os principais polinizadores do cacau. Sem eles, não haveria chocolate.
— Protejam os cerago, cegopo, como é o nome mesmo?
Chris riu. — Ceratopogonidae.
Pelo resto da tarde, a gente ficou no mesmo lugar. Eu não lembrava nem um por cento dos nomes que Chris tinha falado, mas as curiosidades eram muito legais e ele falou de praticamente todos, dos quase 3 mil exemplares. Era muito legal ouvir tudo o que ele tinha pra falar, porque ele tinha muita coisa pra ensinar. Ele sabia muita coisa e se divertia falando sobre. Eu descobri que eu me divertia ouvindo as coisas dele.
— Eu falei muito, né. Desculpa, eu me empolgo quando falo dos insetos. Minha irmã diz que eu dou dor de cabeça nela.
— Minha irmã fala a mesma coisa pra mim e eu nem falo com ela direito. — Relaxa. Foi da hora de ouvir. Agora, como você lembra tudo isso, é um mistério. Seu cérebro deve ter, tipo, sei lá, uns 3 terabytes de capacidade.
— Só pro que me interessa mesmo.
— O meu não tem nem pro que me interessa, então você ainda tá no lucro. Como você decora esses nomes difíceis?
— Não decoro. É fácil, os nomes em latim tem uma linha de raciocínio e geralmente trazem a característica das espécies no nome. Bipunctata sempre vai ser um animal com dois pontinhos em alguma região grande e fácil de ver no corpo. Alba, provavelmente é um animal com coloração branca, Niger, com coloração preta, campestris, que vive no campo, e por aí vai. Aí, eu associo com uma curiosidade ou hábito do inseto. Fica fácil de lembrar.
— Muito bom. Obrigado por compartilhar sua sabedoria.
— Obrigado por ouvir. Ninguém gosta muito de insetos e nem quando eu falo demais.
— Mas eu gosto. Você fica empolgado quando fala, é… legal.
Eu fiquei com vergonha nessa hora, não sei bem o porquê, então parei de falar e olhei para o chão. Voltamos para o ônibus em silêncio. Como todo mundo já tava cansado, a volta foi bem mais quieta. Jisung e Minho estavam com as bocas vermelhas, jurando que o professor não tinha visto, Seungmin estava roncando alto e Hyunjin perdido nos seus desenhos, a mão toda suja. Christopher estava lendo, e eu estava olhando pra ele.
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Não achei que Chris fosse aceitar, mas depois que eu o chamei pra jogar videogame em casa, ele começou a aparecer mais. Ou ele ia em casa e a gente jogava o resto da tarde, e dizia que eu era muito bom, ou eu ia até a casa dele e ele ficava mostrando as coleções de inseto, fossem os novos indivíduos que ele conseguira, fosse a de brinquedos de montar.
Eu até passei a coletar insetos mortos pra ele. Ainda tinha nojo, então pegava com um papel ou graveto, mas quando achava alguma barata morta, ou uma joaninha morrendo nas plantas da minha mãe, eu guardava e dava pra ele. Ele sempre ficava feliz e até me chamou pra ajudar à fixar os bichos uma vez.
Eu sentei do lado dele e fiquei observando porque não queria quebrar nada. Chris tirou um pedaço de isopor da gaveta e ligou o estereomicroscópio que ganhou de Natal —não é um microscópio, é uma lupa com nome difícil—, também puxou um estojo com diversas agulhas e um degrauzinho feito de madeira. Com cuidado cirúrgico, espetou a joaninha no lado direito e com mais cuidado ainda, abriu a asa do lado esquerdo. Com as agulhas, fez pequenas forquilhas para cada perninha —infelizmente, a que eu dei pra ele tinha duas pernas à menos, mas ele disse que não se importava—, e para as antenas. e colocou num pote com serragem para secar.
— Joaninhas são besouros, e besouros têm dois pares de asas como todos os insetos, só que o primeiro par é modificado em élitro, uma estrutura muito mais grossa, de proteção. — Ele respondeu quando eu perguntei sobre a estrutura que ele abriu. — Vou chamar essa aqui de Coccinella septempunctata changbini, porque foi você que me deu.
— Ah, sim, claro. Entendo. Vou me lembrar disso, com certeza.
Ele riu, mas eu tava falando a verdade.
Tiramos dez no trabalho e o professor quis expor todos os cartazes no saguão da escola, com o nosso bem no meio. A cara do Seungmin foi no chão, bem feito.
Chris ainda não almoçava com a gente, ele dizia que o refeitório era muito barulhento, amplo demais e as pessoas de todas as salas conversando juntas deixavam ele com o coração acelerado. Além do mais, ele gostava de ver o jardim e procurar insetos. Mas ele falava comigo e com os meninos, e a gente se via praticamente todo dia depois da aula.
Jisung fica cada dia mais grudado em Minho, eles pareciam uma coisa só e a diretora vivia dando bronca deles, mas eu meio que passei a entender. Ji sempre dizia que gostava de passar todo o tempo com Minho, que gostavam de dividir as coisas, que se divertia com ele e que o coração batia mais forte quando estava com o namorado. E 16 anos era a idade pra se apaixonar. Era a desculpa dele.
Mas eu acho que estava entendendo. Eu gostava muito de passar o tempo com o Chris e de ouvi-lo falar.
🦗
Era a segunda semana de novembro. Minha irmã fez a única coisa que prestasse na vida dela e me emprestou um dinheiro quando fomos ao parque, num programa de família. Minha mesada já tinha acabado, mas eu queria muito mesmo comprar uma coisa que vi na lojinha.
Mandei uma mensagem pro celular de Chris, perguntando se ele queria me encontrar na quadra e ele disse que não, porque já estava tarde. Eu ri. Mudei e perguntei se ele queria descer em casa, disse que precisava entregar uma coisa pra ele. Só disse isso porque eu sabia que ele ia negar de novo.
Em menos de cinco minutos, ele tocou a campainha. Meu pai estava na sala, mas eu saí correndo pra atender, disse que a gente ia jogar um pouco de videogame, afinal era sexta-feira, e o puxei logo, antes que ele dissesse que não ia jogar videogame e que só tinha ido buscar alguma coisa que tinha trazido pra ele.
Assim que entramos no meu quarto, fechei a porta.
— O que você tem pra me entregar? Achou algum inseto?
— Sim e não. — Comecei a ficar nervoso, as palavras estavam sumindo da minha boca e eu fiquei com vergonha. — É que… hoje é dia 11 de novembro. Não sei se tem isso na Austrália, mas é que… aqui é, a gente comemora o Pepero Day. Tipo, não é uma comemoração. É só um dia, e nesse dia as pessoas trocam pepero, o biscoito de chocolate, sabe?
— Você quer me entregar um Pepero? — Christopher ficou vermelho na mesma hora e foi ali que eu percebi que ele sabia muito bem o significado por trás do Pepero Day, toda a conotação romântica da coisa. Eu fiquei mais nervoso ainda.
— Eu ia. — Soltei todo o ar do meu pulmão, em seguida, respirei fundo. Eu tinha que falar, já ia ter que pagar a minha irmã mesmo. Então, que valesse à pena. — Só que eu sei que você não gosta muito da textura do Pepero verde, nem de morango, e eram os únicos dois sabores que tinha, mas eu achei uma coisa que me fez pensar em você e eu não sei porque eu falei do Pepero na verdade.
Estendi as duas mãos pra ele, em formato de concha, onde haviam algumas balas de goma colorida em formato de insetos. Tinha em forma de barata, de mosca, de borboleta e de besouro.
— Eu fui no parque com a minha família hoje, e eu encontrei numa loja lá perto. Peguei todos de inseto. Eu ia pegar de escorpião só de sacanagem, mas pensei melhor não. — Brinquei.
Ele me olhou sorrindo, todo bobo e sem reação e eu fiquei mais nervoso ainda porque… eu queria muito beijar ele. Só que talvez ele não gostasse, e se eu não fizesse igual nos filmes, de surpreender a pessoa, ele poderia só dizer que não e eu não ia saber onde enfiar a minha cara, mas ele não gostaria de ser surpreendido assim também, então eu jamais faria isso.
— Binnie, você gosta de mim romanticamente? — Ele cuspiu a pergunta antes mesmo de pegar as balas.
Não tinha nem como negar mais. Eu fiz aquilo bem no dia do Pepero, em que as pessoas entregam o doce pra quem elas gostam como se fosse uma demonstração de interesse. Pelo menos, ele seria direto, ia ser rápido como arrancar um curativo.
— É, eu gosto. Faz um tempinho já. Desde aquela vez que fomos ao cinema com o pessoal. Eu queria muito pegar a sua mão, e beijar você.
— De verdade?
— De verdade. E eu queria fazer isso agora.
O meu quarto pareceu menor de repente, com Chris parado me olhando. Ele estava quieto, concentrado em traçar a linha da barra da camiseta que usava com o dedão, processando o turbilhão de coisas que haviam acontecido num intervalo de quinze minutos. O meu coração, por outro lado, parecia uma bateria de escola de samba batendo contra as costelas. Eu me aproximei devagar, respeitando o espaço dele, e esperei que ele me olhasse. Quando os olhos dele finalmente encontraram os meus, Christopher piscou algumas vezes, assimilando o pedido, e depois de um segundo que pareceu uma eternidade, ele assentiu com a cabeça, um reflexo do sorriso dele aparecendo bem de leve.
Quando eu me inclinei, o beijo aconteceu: foi um esbarrão tímido de lábios, meio desajeitado e cheio daquela inocência típica de quem está descobrindo o mundo. Para mim, era a confirmação de tudo o que eu vinha sentindo em segredo. Nossas respirações se misturaram, curtas e assustadas, e quando nos afastamos, o Christopher deu um leve suspiro, ajustando-se àquela nova textura do momento, enquanto eu só conseguia guardar na memória o calor suave da boca dele.
Ele quis que eu dividisse uma das balas com ele, a de borboleta, porque as outras ele ia guardar. Eu dei risada, mas dividimos.
— Eu nunca beijei ninguém antes. — Ele confessou.
— Ah, agora você beijou. — Dei de ombros. — À não ser que você não tenha gostado, aí você pode deletar da sua memória.
— Eu gostei. Muito. Eu gosto de você romanticamente também, mas fiquei com vergonha de te contar.
Eu sorri.
— Bom, que bom que a gente tá na mesma página então e- —Ele se movimentou rápido, levantou da cama onde tínhamos nos deitado, e se aproximou da parede. Seus olhos foram para dois pequenos insetinhos parados ali, e eu nem tinha visto antes.
— Que isso? — Parei do lado dele e devagarzinho, entrelacei meus dedos nos dele.
— Um casal de Plecia nearctica, as moscas-do-amor. Elas ficam grudadas assim, pelo abdômen por pelo menos 10 horas, porque é o tempo que demora pro macho transferir o esperma pra fêmea, mas podem ficar atracadas por muitos dias.
Senti meu rosto ficar quente e vermelho ao extremo com a informação, mas ele era fofo. Eu ri, mesmo com vergonha, e dei um beijo em sua bochecha.
— Desculpa, eu… estraguei o momento, né? É que eu nunca consegui pegar um desses e fiquei animado.
— Você não tem noção de como eu gosto de te ouvir falar de insetos. Eu só comecei a gostar deles por sua causa. Você fica tão bonito, feliz, animado falando deles. Por favor, não pare de falar deles. Eu sempre vou querer ouvir. — E dei mais um selinho em seus lábios. Agora que eu tinha passe livre pra isso, ninguém ia me parar. À não ser ele, é claro.
🪳
No dia seguinte, Chris me convidou para ir num parque ecológico que ele descobriu ter uma pequena coleção entomológica e é claro que eu fui. Era um encontro oficial. Nós andamos de mãos dadas o tempo todo, até mesmo quando ele achava algum inseto numa folha, no chão ou voando, ele não soltou minha mão nem por um segundo. A coleção dele era bem maior do que a que tinha no parque, mas foi legal mesmo assim, porque ele ficava radiante com o menor dos bichinhos. E eu adorava isso nele.
Nesse dia, aprendi que as abelhas europeias, africanas e africanizadas —que são uma hibridização de abelhas europeias com africanas— morrem após ferroarem porque o seu ferrão é a estrutura de colocar ovoso modificada em agulha, já que apenas a abelha-rainha é quem coloca os ovos e só as operárias picam. Quando ferroam, a agulha tem micro-ganchos, como se fosse um anzol e não sai da nossa pele, fica preso, então, quando ela alça vôo, ela perde uma parte das vísceras, e por isso morre. Ele falou muito mais coisa, algo sobre uma mosca com o maior espermatozoide do mundo —e eu particularmente adorava as curiosidades que tinham à ver com sistema reprodutivo, porque ele sempre ficava envergonhado ao notar o que tinha acabado de dizer—, e também sobre uma formiga que fazia o orégano existir. Mas não consegui prestar muita atenção, porque eu foquei nele, e em como ele ficava animado, no sorriso dele, nas covinhas, nos lábios grossos e no modo como ele segurava minha mão e fazia meu coração bater mais forte.
Ele tinha hiperfoco em insetos, mas era errado eu dizer que tinha hiperfoco nele?
