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Characters:
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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-06-18
Words:
18,693
Chapters:
1/1
Kudos:
2
Hits:
71

Outrora

Summary:

Baekhyun leva uma vida silenciosa entre o trabalho como designer, a companhia fiel de Mongryong e os cafés de quarta-feira com Minseok, mas há um ano sonha com o mesmo rapaz em cenas que sempre terminam em tragédia. Quando esse rosto finalmente aparece no mundo real e ganha o nome de Park Chanyeol, Baekhyun precisa entender se tudo não passa de uma coincidência estranha ou se algumas almas, mesmo separadas pelo tempo, sempre encontram o caminho de volta uma para a outra.

Notes:

Antes de tudo, meu mais sincero agradecimento ao FicFest do Utopia pela oportunidade. Depois de quase dois anos sem escrever, eu não imaginava que voltaria a participar de algo assim, e esse evento me lembrou do quanto eu sentia falta desse universo. Tentei aproveitar cada etapa ao máximo, e isso também só foi possível graças à organização impecável de vocês. Foi um prazer participar.

Um agradecimento mais do que especial à minha beta, Ray (@hopelessrk no X). Você foi um verdadeiro doce durante todo o processo. Corrigiu meus infinitos erros de tempo verbal com muita paciência, sempre respeitando minha voz e minha escrita. Seus comentários me deram confiança, vontade de continuar e me motivaram mais do que você imagina. Aprendi com você e sou extremamente grata por toda a ajuda e carinho.

Também preciso agradecer pela capa maravilhosa, feita por ninguém menos que meu marido hahaha. Eu nunca imaginei isso, já que ele nem faz parte do meio das fanfics, mas é um artista incrível, e uma arte de olhar crítico apurado (oldknee.co). A capa ficou exatamente como eu imaginava, até melhor. Obrigada por embarcar nisso comigo e por traduzir tão bem a essência da história.

Obrigada à pessoa anônima que doou esse plot. Você me tirou do limbo do hiatus e me devolveu algo muito precioso que é a inspiração para escrever novamente. Espero, de coração, ter conseguido entregar um resultado à altura da ideia que você compartilhou.

Por fim, obrigada a todo mundo que chegou até aqui para dar carinho a esta fic. Em vários momentos eu me senti insegura, porque apesar de amar soulmate AU, nunca tinha escrito algo do gênero. Tive medo de cair demais no clichê ou de me perder na fantasia. Ainda assim, coloquei muito do meu coração nesta história. Espero que ela consiga tocar o coração de vocês também.

Work Text:

Capa com tons quentes e aspecto levemente granulado. À esquerda, aparecem dois recortes do rosto de uma pessoa jovem de cabelo escuro: um mostrando os olhos de frente e outro o perfil do rosto. À direita, há uma cena de campo florido sob céu azul, com duas pessoas vistas de costas caminhando juntas. No topo, lê-se o título “OUTRORA”

 

O cheiro de bronze aquecido e poeira antiga grudou na garganta de Byun Baekhyun como se tivesse mãos. Ele engole em seco e não adianta. A sensação fica áspera, insistente, e o ar parece pesado demais para entrar inteiro, como se precisasse escolher o que levar para dentro de si e o que deixar do lado de fora.

Acima, polias rangem num ritmo irregular. Cada estalo chega como aviso atrasado. A plataforma de madeira, um retângulo mal feito sustentado por cordas grossas, tremia no centro de um vão estreito, como se o próprio espaço estivesse cansado de sustentar gente e esperança ao mesmo tempo.

Um buraco quadrado de luz se abre como a única saída possível. A luz vinha de cima, limpa e cruel, e por baixo dela existia um mar de chamas que se movimentava como se tivesse vontade própria.

Ainda assim, a certeza vem inteira que aquilo é um elevador antes de ter esse nome. Aquele maquinismo deveria levar para o andar de cima e, mesmo assim, a palavra seguro não cabia em nenhum lugar. O andar de cima vai queimar também, e ainda assim ele parece oferecer alguns segundos a mais. Cordas, polias, força humana, madeira tremendo. Nomes antigos, como se tivesse lido isso em algum lugar, como se a memória não precisasse de permissão para existir.

Então ele surgiu no meio do tumulto como se o caos abrisse espaço só para ele passar, mais alto do que qualquer um ali, alto demais para aquele lugar apertado e cheio de fumaça.  Os olhos o encontram primeiro. Expressivos e enormes, como alguém que já entendeu que não tinha tempo e mesmo assim escolheu tentar. O rosto sujo de fuligem não apaga os traços marcados, nítidos, quase impossíveis de esquecer. 

Antes que Baekhyun entenda o que está sentindo, vem um sorriso largo e cativante do outro, completamente fora de lugar naquela cena. A admiração o invade. Não combina com o medo, mas é a coisa mais real ali, a única coisa que não ameaça desaparecer. Ele sentiu vontade de sorrir, como se devesse, como se tivesse prometido isso em algum momento, só que a boca não respondeu de volta.

A culpa que não lembra de ter escolhido é o que impede. Está deixando o rapaz lá embaixo. Ou foi ele quem o empurrou para cima, para longe, como se o quisesse vivo mesmo que isso custasse o resto.  A ideia atravessou o peito de Baekhyun com peso, e o pior era que fazia sentido sem pedir explicação, como se fosse antiga demais para ser discutida.

Um estrondo sacode a multidão. A fumaça escura engole o ar de uma vez, grossa e pesada, e os seus olhos ardem até lacrimejar, mas não dá para desviar, porque ele ainda está ali, inteiro demais para aquele inferno. Ainda assim, o rapaz lá embaixo puxava a corda com a determinação de quem acreditava que dava para enganar o destino no braço, e o corpo dele trabalhava como se insistência fosse uma forma de milagre. Talvez fosse. 

A plataforma sobe um pouco, rangendo. Sombras encolhidas sobre a madeira, gente demais tentando caber numa coisa feita para poucas pessoas, mãos agarrando, cotovelos, desespero. E dói não conseguir fazer nada além de existir ali, preso na distância entre o que se quer e o que acontece.

A plataforma oscilou como se fosse decidir ali mesmo se continuava existindo. O sorriso dele desapareceu, o rosto endureceu, e ele olhou para cima entre as nuvens de fumaça com os olhos ainda maiores, brilhando de pânico contido, como se segurasse o próprio corpo no lugar.

Quando a plataforma encaixa onde deveria, a mão do rapaz se estende na direção da mão de Baekhyun, que já está estendida sem perceber. Não é um gesto heroico. Era simples, quase infantil, como se a imaginação de um toque pudesse arrumar aquela despedida. Ele é engolido pelas chamas. Rápido demais e lento demais ao mesmo tempo. 

Alguém puxa Byun pelo andar de cima, pela luz, pela fuga, e o corpo obedece, porque sobreviver é um reflexo que não pede autorização. A mão fica aberta no ar, vazia e ridícula, tentando segurar o que não existe mais.

Ele acordou no susto, puxando ar como se estivesse realmente sufocado, com a mão estendida no vazio e o coração batendo alto demais para um quarto silencioso. E isso lhe dá mais medo do que o incêndio, porque ali, acordado, não existe explicação para a saudade daqueles olhos.

A escuridão é moderna e quieta, e mesmo assim ele demora um segundo para acreditar que nada vai cair. Do outro lado da cama, Mongryong levantou a cabeça com um resmungo baixo, confuso com a pressa, e isso deu uma vergonha pequena em Baekhyun, porque o cachorrinho estava dormindo em paz. 

Ele se arrastou para mais perto, as patinhas curtas fazendo aquele som leve no lençol, e encostou o focinho na palma aberta, como se estivesse conferindo se ainda estava ali. Os dedos de Byun passam pela orelha do cachorro e isso convence o seu sistema nervoso de que não há fumaça, não há corda, não há buraco quadrado de luz. Era apenas um sonho. 

De manhã, na cafeteria, seu amigo, Kim Minseok, o encarava com a paciência de quem já decorou expressões, como se soubesse o que ia ouvir só pelo jeito que a porta foi empurrada. Baekhyun chega um pouco atrasado, com Mongryong grudado na panturrilha.

Quarta-feira tem esse ritual silencioso entre eles. É o dia em que Minseok precisa ir até a unidade presencial do trabalho híbrido, a poucas quadras da casa do outro, e os dois usam isso como desculpa para tomar café juntos.

Minseok sempre escolhia a área permitida para pets antes mesmo da chegada de Byun, já acomodado na mesa perto do cantinho de uma plaquinha discreta, já que deixar espaço para o Mongryong era tão óbvio quanto pedir café.

O salão é atravessado por Baekhyun no automático, direto para o suporte baixo onde a coleira é presa com um cuidado maior do que as pessoas fariam, ajeitada para não incomodar, conferida duas vezes. 

Mongryong aceitou sem protesto, acostumado com a rotina. Um cachorro resgatado de canil, ressabiado, mas que sabia em quem podia confiar. Abana o rabo, e Minseok faz carinho na cabeça dele.

Kim voltou a encará-lo, como se agora o ritual estivesse completo. Conversam sobre adversidades por um tempo, até fazerem os pedidos de sempre. O pesadelo vem à tona. 

— De novo, Baek?

— Eu juro que é sempre o mesmo. E quando não é ele que morre, sou eu.

Minseok solta um riso curto, daquele que tenta aliviar sem desmerecer, e isso vira um alívio também, porque não vem acompanhado daquele olhar de “problema a ser resolvido”. Um suspiro escapa, e as mãos de Baekhyun procuram algo para fazer.

— Teve elevador?

As sobrancelhas de Minseok subiram, curioso, como se isso confirmasse alguma coisa que ele já suspeitava. Byun confirma com um meneio antes de continuar.

— Esse parecia com as imagens de elevadores antigos que encontrei na internet, sabe? Os primeiros que já existiram. Era só corda e madeira.

— Você está lendo BL demais, Baek.

Minseok brinca, tentando deixar o clima mais leve. A risada de Byun vem junto, porque por um segundo quase dá para fingir que é só isso.

— Acho que eu realmente preciso fazer terapia — Baekhyun disse entre dentes. 

— Eu já cansei de te falar isso, amigo. Pode ser terror noturno, pode ser ansiedade, pode ser um monte de coisa.

Logo depois, o barista chama os nomes, o som de xícaras encostando no pires é quase doméstico, e por alguns segundos a atenção se prende à espuma do cappuccino tremendo de leve. 

O café tem cheiro de normalidade e, ainda assim, Baekhyun não consegue caber naquela manhã do jeito que as outras pessoas parecem caber. Minseok mexe o espresso com calma. A conversa continua por cima do vapor, em volumes mais baixos, entre goles e pequenas distrações, e por alguns minutos Byun fica melhor, menos preso dentro de si.

Quando Kim olha o relógio, a mudança aparece visível no corpo do amigo. Ombros endireitando no modo trabalho. Ele se levanta, arruma as coisas com uma pressa organizada, e a despedida acontece do jeito costumeiro. Antes de ir, se inclina e faz um último carinho no Mongryong.

O caminho de volta para Baekhyun até sua casa parece curto e comprido ao mesmo tempo. Já pensa no computador, nas tarefas de design abertas, e em como o silêncio do home office ajuda a ter foco, mesmo que, às vezes, há um incômodo que o mesmo silêncio também sabe alcançar.

 

.

Naquela noite, a janela de seu quarto está escondida nas cortinas brancas, levemente transparentes. Está perto das dez. Ele encosta nos travesseiros, apoiado na cabeceira da cama, com receio de dormir e cair em outra tragédia. Mongryong estava atravessado aos seus pés como se tivesse entendido que o tutor andava meio distante de si mesmo e isso não era permitido dentro daquela casa.

Às vezes o cachorro suspira, e o olhar de Baekhyun o acompanha, na tentativa de respirar mais leve. A janela está aberta atrás das cortinas e a luz de um poste distante aparece como um brilho tímido. O vento é leve, fresco, e balança o tecido com uma calma que não combina com a ansiedade que acontece por dentro dele.

Os olhos expressivos e o sorriso largo do rapaz voltam, mostrando todos os dentes. A pergunta vem já costumeira: como podia sentir falta de alguém que nunca viu?

Baekhyun nunca foi de precisar de companhia romântica. Teve um caso aqui e ali e sempre parou antes de virar rotina, porque gastar energia em algo superficial era cansativo. Aos vinte e nove, sua paciência já não era muita e o desejo de algo duradouro era maior. Para ele, se fosse para ter alguém caminhando ao lado, precisava ser um caminho que aguentasse o tempo, não uma história que só existia para logo terminar.

A solitude sempre funcionou. Mongryong seguindo pela casa, a amizade de Minseok, as aulas de dança, mas há um ano começaram os sonhos que afetaram sua paz. No começo, ignorou, afinal eram apenas sonhos. Depois, culpou o trabalho, o home office, o tempo sozinho. Talvez alguma carência escondida, ou estresse. Qualquer explicação. Até o ponto em que passou a acordar como se nem tivesse dormido, ou passou a procurar na rua um rosto que só existia na própria cabeça.

Ele decide tomar uma ação. No dia seguinte iria seguir o conselho que Minseok repetia desde a quinta vez que esses pesadelos passaram a acontecer. Pela manhã, o amigo o ajuda com a indicação de uma profissional. Baekhyun consegue uma sessão para aquela tarde de quinta-feira e escolhe presencial porque já passa tempo demais em frente a uma tela.

Antes de sair, se agacha para fazer carinho em Mongryong. O cachorro gira o corpo inteiro, animado, achando que vai junto, e quando percebe que não vai, encosta o focinho no joelho, insistente. Byun promete voltar logo e lhe entrega um petisco para agradar.

No prédio da clínica, percebe que ali também atendem outros profissionais de saúde como fisioterapia, psiquiatria, nutrição. Tudo parece limpo e organizado, o que ajuda, mas a inquietação fica enquanto espera a recepcionista. Ela indicou o quinto andar, Baekhyun agradeceu e foi procurar pelas escadas. A pior informação possível para Byun apareceu em uma placa de “interditada”, os pisos das escadas estavam em manutenção, a única opção era o elevador, não teria para onde fugir.

Diante da porta fechada e metálica do elevador, Baekhyun quase desiste. O estômago apertou, a boca secou, a pele ficou mais consciente de si, arrepiando-se, como se fosse só um monte de reações procurando motivos pelas quais se preocupar. Ele quer inventar uma desculpa, mas lembra da voz feliz de Minseok no áudio, aliviado pelo amigo finalmente encarar isso. Também lembrou do dinheiro gasto e de si mesmo dizendo que precisava parar de deixar para depois. Aproxima-se como quem se aproxima de um animal que pode morder.

O ding soa e a porta se abre. Só há uma pessoa dentro do elevador espelhado e, por mais absurdo que pareça, é o rapaz dos sonhos.

Baekhyun trava completamente. Por um instante, tudo fica dividido entre a angústia do elevador e o choque de estar frente a frente com um rosto visto há um ano inteiro, em cenários diferentes, em épocas diferentes, sempre com o mesmo par de olhos. A porta ameaça fechar e o rapaz segura com a mão, sem pressa. Um sorriso quase aparece, mas os olhos estão preocupados, idênticos aos do sonho.

— Está tudo bem?

A voz real puxa Byun para fora do próprio abismo. Profunda como já sabia, e, novamente, isso era absurdo, porque não deveria saber nada, e mesmo assim sabia. A cabeça tentou correr atrás de explicação, talvez já tivesse visto aquele cara em algum lugar e o cérebro só decidiu assombrá-lo. Só que não frequentava aquela região, não tinha carro, saía pouco, não fazia sentido. 

Nunca foi totalmente cético, mas gostava de teorias comprovadas, de explicações, e mesmo assim o peito se comportou como se tivesse encontrado uma resposta que não cabia em ciência alguma.

— Vai entrar? — pergunta o outro, com uma calma que parece mar brando.

— Sim, obrigado. Desculpe.

As palavras saem todas ao mesmo tempo enquanto Baekhyun entra. Há espaço suficiente para não ficarem próximos, mas a sensação para ele é de que o calor da pele do outro atravessa o ar.

— Qual andar?

Ele demorou um segundo para lembrar da recepcionista, como se a informação de vida real fosse pequena perto do que estava acontecendo. 

— Quinto.

— É normal ficar meio perdido. O prédio é grande.

O rapaz sorri, simpático, enquanto fala e um murmúrio sai de Baekhyun, nem ele mesmo consegue entender direito. O ambiente espelhado devolve sua imagem, que não parece tão pálida e tensa quanto se sente. O homem está de jaleco e há um nome bordado acima do bolso pequeno. Park Chanyeol. Um ding soa de novo.

— É o meu andar — ele diz. 

Park Chanyeol sai, e o ar fica diferente. Só então Baekhyun percebeu que estava prendendo a respiração; ela voltou com força demais. No quinto andar, a porta abriu com um novo toque e ele saiu quase correndo, como se estivesse fugindo de uma assombração. Só que ninguém parece notar, e isso torna tudo ainda mais real.

O corredor do quinto andar tinha o piso claro demais, o ar cheirava a desinfetante e a alguma coisa cítrica que tentava mostrar higiene. 

A recepção do andar é silenciosa, cadeiras enfileiradas, revistas que ninguém abre. Ele senta numa delas e sente a pele lembrar de coisas que parecem não ter acontecido ali. Esfregou a palma na calça para disfarçar, como se alguém pudesse ler sua mente. A porta do consultório tem uma plaquinha discreta com o sobrenome da psicóloga, e isso vira o que Baekhyun precisa. Os sobrenomes e horários são reais. Formulários também são reais, com papel dá para lidar.

A recepcionista deixa uma prancheta e uma caneta. Quando a ponta toca o papel, a letra dele sai limpa nos primeiros campos e vai ficando torta quando chega nas perguntas que não têm resposta exata. Motivo da consulta. Queixa principal. Quer escrever “sonhos”, porque é o que cabe, porque é o que dá para nomear, e ainda assim a palavra parece pequena demais para a forma como ele vivencia. Escreve “pesadelos recorrentes”, depois “sensação de déjà vu”, depois para.

A porta abre alguns minutos depois, e a psicóloga o chama pelo nome com uma voz comum, o tipo de voz que não tenta ser doce e também não tenta ser dura. O consultório é simples, a iluminação é confortável, uma planta que provavelmente sobrevive porque alguém lembra de regar, uma caixa de lenços num lugar estratégico demais.

Ela esperou um segundo antes de falar, como se estivesse oferecendo a Baekhyun o direito de respirar.

— O que te trouxe aqui hoje?

O caminho que sai é o racional, o que também foi colocado na ficha. Ele explica sobre os pesadelos e a fobia de elevador.  Emperrou no meio de algumas coisas, porque dizer sem diminuir o quanto aquilo era grandioso para si, era difícil. Ela não interrompe, só inclina a cabeça de leve.

— Nada é irrelevante aqui — ela diz em um momento de pausa no relato de Byun. — A gente pode investigar isso com calma.

Baekhyun respira e tenta, agarrando-se à palavra investigar para saber o que dizer. Ele não contou sobre o rapaz dos sonhos, muito menos que o encontrou em Park Chanyeol, ali mesmo na clínica, pela primeira vez. Como poderia? Atém-se aos fatos e mostra que quer entender racionalmente o que pode estar acontecendo consigo. 

Ela o olhou como se estivesse escolhendo o jeito certo de não prometer nada.

— O importante agora não é provar uma teoria. É entender o impacto. Como isso está te atrapalhando no seu dia a dia?

Ele pensa no focinho de Mongryong encostando em sua mão nesse momento. Minseok olhando com paciência. Momentos em que, muitas vezes, ele está em pânico interno e são quem o ajuda a manejar suas emoções.  No fim, Baekhyun saiu da sessão com uma tarefa e o agendamento da próxima. Deveria anotar suas sensações físicas e emocionais, sem tentar interpretá-las. 

“Isso vai nos dar um mapa”, foi o que ela disse. Mapas fazem sentido para ele. Queria uma resposta mais concreta, mas também sentia um alívio, porque parecia que havia algo a fazer sobre tudo aquilo. Tinha a sensação estranha de ter aberto uma porta pequena.

Precisar enfrentar o elevador novamente foi inquietante, para dizer o mínimo. Seu consolo só veio quando Mongryong o recebeu como se não o visse há anos. Baekhyun, antes mesmo de tirar o sapato para entrar do quintal para dentro de casa, abre a mensagem de confirmação da clínica e olha a data da próxima sessão. 

Mandou uma mensagem pedindo para ser online, como se fosse só logística, e uma para Minseok contando sobre Park Chanyeol. O amigo poderia achar que enlouqueceu, mas ainda estaria ao lado. Kim decidiu que isso era assunto para se tratar pessoalmente, combinando de ir até a sua casa naquela noite.

 

II 

— Talvez realmente seja algo místico — Minseok disse, enquanto os dois cozinhavam um macarrão juntos.

Minseok era como Baekhyun, não era cem por cento cético, mas gostava de provas concretas e, até ali, a conversa tinha pairado sobre possibilidades neurológicas e psicológicas. Até que ele decidiu puxar os vinte por cento de misticidade que existiam nos dois. Eles eram muito parecidos e muito diferentes ao mesmo tempo, e isso fazia a amizade parecer quase uma irmandade.

— Não sei, Min. Estou apavorado. Eu queria qualquer coisa que me ajudasse a acreditar que estou delirando, ou só associando um rosto que achei bonito. Mas era ele, sem tirar nem pôr.

Os dois eram a prova daquela máxima de que, quando você está com seu melhor amigo, podia estar dando tudo errado e ainda assim iriam rir de alguma coisa juntos, mas Minseok levava as situações a sério. Ele realmente mostrava preocupação com Baekhyun. Assim como Baekhyun fazia com ele.

— E se você tentasse falar com ele?

— Ficou maluco, Min? O que eu vou fazer, abordar ele na saída do trabalho e dizer que sonho com ele morrendo?

— Amigo, hello. A gente vive no mundo das redes sociais. Você tem o nome e sobrenome do cara. Tenta achar e seguir ele. Por que não? Se não rolar conversa, pelo menos você tira a cisma de saber mais sobre quem ele é.

Baekhyun não era muito ligado em redes sociais. Tinha um perfil no Instagram que mexia de vez em quando e já tinha pensado em desativar. Minseok, ao contrário, era ativo, principalmente para ver vídeos de gatos e animais e mandar todos nas mensagens diretas do amigo. Baekhyun gostava disso.

A ideia não parecia tão ruim. Ele podia nem encontrar o perfil e, se encontrasse, talvez ver uma ou outra foto ajudasse a desmistificar aquela sensação ridícula de que era o homem dos sonhos.

— Me dá seu celular, vamos procurar — Minseok intimou. — Park Chanyeol.

Ele ditou o nome do jaleco que Baekhyun tinha mencionado, enquanto digitava. Baekhyun sentou no sofá ao lado dele, bisbilhotando o que aparecia na tela do próprio celular. Os pratos já estavam apoiados na mesinha de centro, e algum clipe de música tocava no YouTube da televisão, como costumavam fazer quando estavam juntos. Park era um sobrenome comum, mas o primeiro nome ajudou a filtrar.

— Esse — Baekhyun se entusiasmou sem perceber ao reconhecer a foto de perfil. — É ele.

Minseok abriu o perfil e não era privado. “Ufa”, Baekhyun pensou, e nem deveria estar esperando tanto assim daquela pequena facilidade. As fotos eram comuns, do dia a dia e ele sorria em várias delas. A bio não entregava absolutamente nada, ainda assim, Baekhyun continuava convicto de que aquele era o rosto que via nos seus pesadelos.

— Toma, agora é com você. — Minseok devolveu o celular para o amigo. — Se eu fosse você, seguia, não tem nada a perder. Ele é bem bonitinho mesmo.

Baekhyun riu sem graça. Era difícil levar qualquer coisa completamente a sério com Minseok fazendo o mundo parecer menos estranho do que realmente era, mesmo assim, o receio continuava ali.

— Eu vou pensar — Baekhyun disse, dando de ombros.

O que ele não contou foi que, naquela noite, quando Minseok já tinha ido embora fazia horas, acabou abrindo o perfil de novo. “Quem é você, afinal, Park Chanyeol?”, era o que rondava seus pensamentos, alimentando a insônia. 

Baekhyun tentou conhecer o que conseguia do rapaz pela rede social, mas não havia muito, o outro também não parecia alguém muito ativo naquela rede. Ainda assim, olhar para aquelas fotos dava uma familiaridade incômoda. Talvez por estar vendo aquele rosto em diferentes tipos de elevador, em épocas diferentes, há quase um ano.

Quando o sono finalmente ameaçou invadir por completo, Baekhyun clicou no botão de seguir e bloqueou o celular. Ele não deixava as notificações ligadas, então só saberia se aquilo daria em algo quando decidisse entrar no aplicativo de novo.

Não queria parecer um perseguidor digital, é claro, acabou pensando bastante sobre isso, mas o nome estava estampado no jaleco, não era como se tivesse feito um jornalismo investigativo. Ele nem tinha pensado em procurar nada até Minseok sugerir.

Deixou o cansaço tomar o lugar da preocupação, uma preocupação que nem deveria existir. Nem mesmo Park Chanyeol deveria existir fora dos seus sonhos, mas ele existia nos dois lugares agora, e o visitou novamente naquela noite. O sonho não veio inteiro dessa vez. Apenas em fragmentos, como se alguém tivesse deixado uma porta entreaberta e o vento passasse por ali de vez em quando.

Quando acorda, o relógio digital da cabeceira marca um horário qualquer da madrugada. Baekhyun fica deitado um tempo, esperando o sono voltar. Ele não pegaria o celular àquela hora se fosse alguém mais responsável. Em vez disso, abre o Instagram como quem abre uma gaveta de facas e há uma notificação no coraçãozinho.

Park Chanyeol havia seguido de volta.

Baekhyun clica e observa a foto de perfil por alguns segundos. Mongryong encosta a cabeça em sua coxa, como se estivesse cansado de vê-lo existir em outro lugar. Baekhyun acaricia suas orelhas até sentir o presente voltar e, por pura teimosia, bloqueia a tela para tentar dormir de novo.

 

.

Na quarta-feira, Baekhyun e Minseok escolheram uma cafeteria, que tinha acabado de inaugurar, para o ritual semanal que seguiam. Mongryong bebia água em goles teimosos ao lado da mesa, e Minseok contou um caso do trabalho com aquela facilidade que sempre deixava Baekhyun um pouco mais leve. 

A manhã estava calma e Baekhyun estava se sentindo mais leve naquela semana, mas vê sua tranquilidade desabar quando Baekhyun vê a figura alta entrando pela porta da cafeteria. Se estivesse com o cappuccino na boca, teria engasgado. Minseok percebeu o travamento e seguiu o olhar do amigo, e só então entendeu o que roubou a atenção de Baekhyun, que estava sempre atento ao que o amigo tinha a dizer. 

— Mentira — Kim murmura mais para si mesmo. 

E o pior, Chanyeol reconhece Baekhyun e acena de longe, antes de ir na direção deles com a naturalidade de alguém que não tem motivo para temer nada. Quando chega, se abaixa para Mongryong.

— Oi! Lembro de você na clínica. Que cachorrinho mais lindo.

O cachorro simplesmente se jogou nos braços dele, abanando o rabo como se já conhecesse aquele corpo, o que não era, nem de perto, o seu comportamento comum.  Baekhyun fica num silêncio tão absoluto e incomum que Minseok precisa intervir.

— Esse é o Mongryong. Meu amigo aqui vive por esse cachorro.

Minseok dá um tapinha no ombro do amigo, como quem o puxa de volta. Funciona, pois Baekhyun pisca, ainda meio atordoado.

— Ah… sim — ele diz, tentando soar normal. — Ele é resgatado… geralmente estranha todo mundo.

A frase sai um pouco torta, mas sai. Minseok faz um gesto quase imperceptível com a cabeça, como quem diz “boa”. Chanyeol sorri, sem drama.

— Então, eu dei sorte — ele diz olhando de Kim para Byun. — Eu tô vindo pela primeira vez aqui. Lá no trabalho o pessoal não para de falar desde que abriu. 

— A gente também. Primeira vez — Minseok completa, ajudando a conversa a ficar no trilho.

Chanyeol deseja um bom café da manhã e se despede com uma educação tranquila; eles respondem de volta, breves. Quando ele se afasta, Baekhyun ainda parece em choque.

— Meu Deus. Eu nunca te vi travar assim — Minseok comenta, baixo.

— Amigo, que sensação estranha. 

Minseok pensa um pouco antes de responder.

— Olha… se a gente estava tentando explicar isso racionalmente, talvez seja a hora de parar de tentar. Eu nem acredito muito nessas coisas. Mas parece que a vida está te dando uma chance de descobrir o que é isso tudo. Talvez seja a hora de deixar acontecer sem tentar controlar cada detalhe. Afinal, você nem conhece nada dele ainda. 

Baekhyun faz uma careta. Ele não era bom em deixar as coisas acontecerem. Sentia necessidade de explicar tudo que acontecia à volta e dentro dele. Mas as sessões online de terapia tinham começado a mostrar alguns dos próprios funcionamentos, de onde vinham certas reações, o que ele fazia para evitar sentir. Era pouco e recente, mas ele estava tentando.

— Você quer ir embora ou quer terminar o café? — Minseok foi cuidadoso como sempre.

Por um segundo, Baekhyun pensa em levantar e ir embora. Seria fácil. Seria coerente com tudo que ele sempre fez quando algo ameaçava sair do controle. Mas, ali, com o café ainda quente, sair agora também significaria confirmar para si mesmo que aquilo tinha poder demais. Que um encontro casual podia derrubar a rotina inteira. Ele respira uma vez, senta melhor na cadeira e escolhe ficar. 

— Você viu o jeito do Mongryong com ele? — Baekhyun questiona.

Minseok solta uma risada curta.

— Fiquei quase com inveja. Ele demorou pra ficar assim comigo. — Dá de ombros. — Se o seu cachorro aprovou, então é um bom sinal.

Os dois riem um pouco, deixando o ar menos pesado. Depois seguem falando de coisas menores, tentando voltar à superfície. Nas pequenas pausas da conversa, quando Minseok olha o celular, chama o atendente ou se distrai com a xícara, os olhos de Baekhyun escapam para a outra mesa.

Chanyeol está ali, mexendo no café ou no celular, e os olhares se encontram mais de uma vez. Curtos demais para significar alguma coisa, longos demais para parecerem casuais. Talvez fosse imaginação, ou talvez não.

 

Quando a noite chega, ele tenta ser responsável de novo. Toma banho. Faz um chá. Deita cedo. A cabeça insiste em abrir o Instagram, e ele não abre. Fica só com a vontade, mas isso não faz com que consiga escapar dos próprios sonhos; o daquela noite vem mais nítido.

Há um corredor e uma luz amarela confortável no elevador ao final. O lugar parece um prédio acolhedor, quase como um hotel chique. Mesmo assim existe uma urgência que ele não consegue justificar. Em algum ponto, a voz de Chanyeol surge antes do toque da mão carinhosa na cintura.

“Vamos, amor. O sol está ótimo pra piscina.”

Baekhyun encontrou um olhar doce, corriqueiro, como se aquilo fosse o mais normal do mundo. Era o primeiro sonho que vinha sem gosto de tragédia e, ainda assim, ele acordou sentindo-se atormentado.

A água do chuveiro não resolve nada, mas ajuda a tirar a pele do modo cansaço. Ele come qualquer coisa sem prestar atenção no sabor. Lavou um prato, largou outro na pia. Trocou de roupa, dobrou uma camiseta, e conseguiu esquecer onde colocou o celular como estava acostumado. 

Olhou para Mongryong esticado no chão como se estivesse derretendo, a língua de fora, completamente despreocupado. Pensou em como seria bom ter a mesma capacidade de existir sem precisar explicar. Só então pegou o celular e postou um story de Mongryong, mais para provar a si mesmo que entrar no aplicativo ainda podia ser uma coisa comum. Passa o resto do dia evitando a tela com uma disciplina quase ofensiva, até abrir o aplicativo no fim da tarde e encontrar a notificação.

Park Chanyeol curtiu seu story.

Um incômodo pequeno atravessa seu estômago, quase como fome. Não é alegria. Não é romance. Era um constrangimento íntimo, como se alguém tivesse encostado o dedo numa parte que ninguém costumava tocar.

Baekhyun bloqueou a tela com força, como se isso fosse uma decisão. Mas desbloqueia de novo para tirar um print e mandar para Minseok.

 

baekhyun: ele curtiu.

 

 A resposta vem logo.

 

minseok: você vai querer ver onde isso vai dar ou vai ignorar?
baekhyun: não sei ainda.

 

Baekhyun encarou a conversa com o amigo por alguns segundos, como se o celular pudesse responder por ele. A pergunta de Minseok não tem acusação, mas tem um peso. Então, escolhe uma coisa mínima. Pequena o suficiente para não se comprometer e grande o suficiente para admitir que existe. 

Abre o Instagram e procura uma foto que pareça normal o bastante para existir na vida de alguém. Encontra uma em que Chanyeol está com outras pessoas e alguns cachorros em volta, e curte. A curtida não resolve nada, mas muda a temperatura do dia.

 

.

Nos dias seguintes, Baekhyun tenta não deixar que aquilo vire o centro. Trabalha, faz terapia, esquece café esfriando pela casa e repete pequenos cuidados como quem ainda não acredita totalmente neles. Mongryong continua exigindo presença do jeito dele, e Baekhyun tenta dormir melhor, comer sem pressa e não transformar o Instagram numa sala de espera.

Não estava esperando nada, repetia para si. Mesmo assim, toda vez que abria o aplicativo, os olhos iam direto para o lugar onde uma conversa poderia existir. Não queria iniciar o contato. O que diria? Dizer “oi” seria simples demais. Ele preferia ficar do lado em que ainda dava para chamar de coincidência. Havia uma espécie de orgulho teimoso ali, se alguém falasse primeiro, não seria ele. Por isso, quando a notificação aparece na DM, o salto no peito o irrita levemente. Não queria aceitar que seu corpo o estivesse denunciando daquela maneira.

 

parkchanyeol:
oi, Baekhyun. Desculpa chamar do nada.

Eu vi na sua bio que você é designer e acabei entrando no seu portfólio. É muito bom!! Minha irmã e o marido dela tocamos um projeto de resgate de cães de grande porte e estamos organizando um evento daqui a três meses. Precisamos de umas artes simples de divulgação e talvez um impresso.

Lembrei de você, porque comentou que o Mongryong é resgatado. Achei que poderia ter interesse. Seria algo totalmente voluntário, estamos conversando com alguns profissionais para não sobrecarregar ninguém, para ficar organizado e cada um pegar só o que puder.

Se tiver interesse, posso te mandar o perfil do projeto e a gente fala mais.

 

Ter um motivo para a conversa alivia Baekhyun. Ele quase agradeceu por não ser uma mensagem vaga, por não ser uma tentativa de conversa só pela conversa. Isso não seria necessariamente um problema, mas, para ele, ter um motivo tornava a comunicação mais fácil.  O nome de Mongryong no meio da mensagem o pegou de um jeito pequeno, porque provava que Chanyeol estava atento naquele dia.

Ele revisa mentalmente cada resposta antes de escrever, apesar de só querer que tudo flua naturalmente. Ele sempre quis fazer parte de alguma coisa assim, mas sempre teve, também, uma desculpa pronta, ou trabalho, ou cansaço. Adotar Mongryong tinha sido a única forma concreta de participar da causa animal sem precisar prometer nada a ninguém.

Agora havia a oportunidade para uma vontade antiga ali, fazer parte de alguma coisa que importasse fora do trabalho e do próprio caos. Mas também sentia uma cautela antiga subir pelo corpo, a mesma que aparece nos sonhos um segundo antes da tragédia acontecer.

Responder significava tornar aquele contato concreto. Tirar Chanyeol do território onde ele ainda podia ser coincidência e colocar no mundo onde tudo acontecia de verdade. Ele pensa nas tragédias dos sonhos. Como se conhecer Chanyeol fosse, por si só, encostar a mão no botão que iniciaria a destruição de ambos. Admitia que pudesse estar exagerando, afinal tinha o pensamento incansavelmente ansioso. 

O último sonho tinha sido diferente, lembrou, com uma normalidade que era quase doce. Baekhyun respira, lê de novo, apaga a primeira frase que escreve. Depois apaga a segunda. Decidiu, por fim, que tinha o poder de controlar o próprio destino. Não tinha? Aí, finalmente, respondeu.

 

baekhyun:

oi, Chanyeol. tudo bem?

Obrigado por entrar no meu portfólio. Eu tenho interesse, sim. Muito legal o projeto de vocês.

Se você puder me mandar um resumo do evento e como funciona o projeto e o que vocês esperam para os criativos, eu vejo o que consigo assumir.

parkchanyeol:
Tenho tudo anotado, sim! Posso te mandar por aqui.

É complicado manter cão grande em apartamento e muita gente abandona. Temos um abrigo para eles, e esperamos com esse evento arrecadar algumas coisas para o abrigo e ajudar com adoção responsável. Se preferir, a gente marca 20 minutos online, bem rápido.

 

 

III 

Não aconteceu de uma vez. Se tivesse acontecido, Baekhyun provavelmente teria recuado, mas, no começo, o que existia era apenas o projeto e o contato se limitava a isso.

Chanyeol mandava informações, fotos do abrigo, medidas, prazos e referências tortas que faziam sentido só na cabeça dele. Baekhyun respondia como responderia a qualquer cliente, talvez com cuidado demais, talvez com uma formalidade que servia mais ao controle do que ao trabalho. Só que controlar as coisas sempre foi mais fácil na teoria.

Às vezes o celular vibrava enquanto ele estava no sofá, Mongryong deitado de barriga para cima no tapete, as patas tortas para o ar como se dormir fosse uma tarefa que exigisse entrega total. Baekhyun olhava a notificação e era só Chanyeol perguntando se uma foto estava muito escura, se dava para trocar a tipografia do título. Nada demais. Ainda assim, alguma coisa nele se deslocava de leve.

Quando se encontrou com Minseok na nova cafeteria outra vez, tentou agir como se fosse um assunto comum. Como se estivesse só comentando uma pessoa que tinha cruzado sua rotina por acaso e permanecido nela um pouco mais do que o esperado.

Minseok, por outro lado, olhou para ele com aquele interesse imediato de quem já percebeu que a conversa não era casual.

— Quantas vezes vocês já se falaram essa semana?

Baekhyun deu um gole no cappuccino antes de responder, mais para ganhar tempo do que por vontade.

— Não sei. Normal.

— “Normal” é um número agora?

Baekhyun fez uma careta e Minseok sorriu daquele jeito satisfeito de quem tinha encontrado exatamente a fresta por onde queria entrar.

― Eu só estou tentando entender o grau da situação — disse Minseok, erguendo as mãos.

Baekhyun olhou para Mongryong.

— Não tem situação, Min.

— Baekhyun, você me mandou print de uma curtida no story como se fosse um documento confidencial e, agora que vocês estão conversando sempre, vai fingir que não é nada?

A pergunta ficou entre os dois por alguns segundos, daquelas que acertam porque vêm de quem conhece. Baekhyun mexeu na colher, mesmo sem precisar. O vapor do café já tinha diminuído, e o vidro da cafeteria devolvia a rua numa claridade meio branca.

— Eu não estou dizendo que não tem nada — falou, por fim, em voz mais baixa. — Só não acho que... sei lá. Que isso vá virar alguma coisa de verdade. 

Minseok ergueu as sobrancelhas.

— Porque você não quer ou porque te assusta?

Baekhyun odiava quando o amigo continuava acertando sem precisar insistir.

— Porque é esquisito — respondeu. — Tudo nisso é esquisito. Eu sonhei com esse homem durante um ano inteiro antes de conhecer ele de verdade. Agora ele existe, e é simpático, e manda foto de cachorro, e eu continuo sem saber o que isso quer dizer. Parece... perigoso.

Minseok começou a rir levemente, apoiou os braços na mesa, inclinando o corpo para frente.

— Como perigoso, amigo? Ok, o sonho é bem estranho, mas você racionaliza tudo até a morte. Eu não acho que você precise decidir se é ou não perigoso. 

— Fácil para você falar.

— Sim, graças ao universo não sou eu vivendo uma fanfic de realismo mágico com um homem gostoso dando em cima de mim.

Baekhyun riu, apesar de tudo. Era uma das funções mais inerentes de Minseok no mundo, fazer as coisas parecerem um pouco menos insuportáveis sem tirar delas o peso que tinham.

—  A gente não sabe se ele está dando em cima de mim. 

Minseok rolou os olhos. 

— Talvez você esteja tentando pular para a resposta final porque o meio te deixa nervoso. Já pensou que o meio seja só vocês dois se conhecendo? Pode não dar em nada, ou dar em amizade. Ainda é só a vida passando, amigo.

Só a vida passando; Baekhyun guardou essa frase por algum motivo.

Nos dias seguintes, a vida passou mesmo, do jeito pouco cinematográfico que ela costuma passar. Trabalho acumulando em abas abertas, roupa para dobrar ficando tempo demais na cadeira, Mongryong exigindo atenção no exato momento em que ele tentava finalizar alguma coisa, mensagens chegando enquanto a comida esfriava na bancada.

No meio disso, Chanyeol. Às vezes mandava uma foto de algum cachorro do abrigo ocupando espaço demais no banco de trás do carro. Às vezes um áudio curto, rindo da própria irmã, de alguma confusão na organização do evento. Desabafando da dificuldade de convencer pessoas a adotar os animais. 

Os áudios sempre ativavam algo no corpo de Baekhyun. Não era só porque a voz era bonita, embora fosse, nem porque gostava de ouvi-la, embora gostasse. Era só absurdamente familiar para ser conhecida por algumas semanas. 

Em algum momento, Chanyeol convidou-o para conhecer o abrigo. O pretexto foi simples, plausível, para que ele soubesse onde seria o evento e onde ficariam suas peças impressas. O uber parou na frente do local, que era afastado do centro da cidade. Quando Chanyeol surgiu, sorriu daquele jeito inteiro. Baekhyun odiou o quanto isso o desarmou.

— Você disse que ia se atrasar — Chanyeol disse.

— Eu atrasei, dois minutos.

— Para você isso já conta como atraso?

Baekhyun deu uma risadinha. Ver Chanyeol mostrando o espaço era deslumbrante. Já havia percebido pelo trabalho que desenvolveram com as peças e contato online que o rapaz prestava atenção de verdade. Não aquela atenção educada de quem concorda com tudo para terminar logo. Ele olhava para cada versão, fazia perguntas honestas, lembrava de detalhes ditos dias antes. Tudo que ele comentava sobre os cachorros e o lugar ali também tinha essa atenção. E os animais eram todos incríveis e carinhosos. 

Em determinado momento, enquanto Baekhyun brincava com os cachorros, percebeu Chanyeol olhando para a própria mão, abrindo e fechando os dedos como se estivesse distraído e apertando o ombro com a outra. 

— Você está cansado? — perguntou, antes de pensar.

Chanyeol ergueu os olhos, como se tivesse sido pego fazendo algo muito mais grave.

— Um pouco, meu ombro está um pouco dolorido.

— Mas você não é o fisioterapeuta? Isso não parece muito profissional — Baekhyun caçoou.

Chanyeol sorriu de verdade dessa vez, aquele sorriso largo que sempre parecia grande demais para o rosto e, ainda assim, encaixava. Baekhyun sentiu a risada subir antes de decidir se queria deixá-la sair. 

— Você sempre trabalhou com isso? — perguntou depois, num tom mais calmo, quase sem perceber a mudança.

Chanyeol inclinou a cabeça de leve, como se precisasse analisar a pergunta.

— Fisioterapia, sim. Desde que me formei, mas o abrigo foi acontecendo aos poucos. Minha irmã começou a resgatar alguns cães maiores, depois o marido dela entrou junto, e quando eu vi já estava carregando saco de ração e ajudando em feira de adoção no fim de semana.

— Você gosta?

Chanyeol demorou um pouco para responder, não pareceu hesitação exatamente, era mais como quem tenta escapar da primeira resposta automática.

— Gosto quando ainda dá tempo de ajudar. Tem dias que fico triste pelos animais. 

Não tinha nada de especialmente dramático na frase, mas Baekhyun se sentiu triste também.

No meio dos cachorros e empenhado em ajudar Chanyeol com alguns afazeres, os dedos deles encostaram. Foi só um toque rápido, quase nada, mas Baekhyun puxou a mão de volta como se tivesse colocado os dedos perto demais do fogo. Chanyeol ergueu os olhos para ele.

Depois de algum tempo, Baekhyun decidiu que voltaria para casa e Chanyeol insistiu em dar uma carona. Ele falou que não era necessário, mas o outro respondeu que também iria para casa e insistiu que não seria um problema. 

Quando chegou e Baekhyun desceu, colocando a chave no portão, ainda conversava com Chanyeol, que estava inclinado no banco do motorista. Mongryong atravessou a conversa toda com latidos porque estava, como sempre, louco de saudade do tutor. 

— Vou precisar dar uma voltinha com ele para se acalmar — comentou rindo. 

— Posso caminhar com vocês? Queria ver o Mongryong.

Baekhyun nem pensou em recusar a companhia. Não admitiria, mas gostaria de estender aquele dia o quanto fosse possível. O outro estacionou melhor e desceu do carro. Baekhyun o convidou para entrar só enquanto pegava a coleira e guia do cachorrinho e logo já estavam nas calçadas. 

Mongryong caminhava entre os dois com uma dignidade curta e teimosa, parando onde não devia, puxando a guia na direção de postes muito específicos, como se a rua guardasse segredos pessoais dele. 

— Ele gosta de escolher o próprio trajeto — Chanyeol comentou, quando Mongryong ignorou completamente uma tentativa de Baekhyun de fazê-lo andar em linha reta.

— Ele gosta de fingir que é independente.

Havia uma facilidade em falar com Chanyeol e o problema era justamente esse, pensava sempre. Isso talvez fosse um aspecto positivo para a maior parte das pessoas, mas os relacionamentos eram complicados para Baekhyun, por isso era tão resistente. 

Baekhyun conseguia prever o equilíbrio exato de um layout complexo no trabalho, mas se alguém o respondesse com um simples ‘'tanto faz" sobre o que comer no jantar, o sistema dele travava como uma tela azul no computador. Para ele, o amor era quase como uma equação de física aplicada, o “tanto faz” continha infinitas variáveis, e a mente dele exigia constantes. 

Essa facilidade não era muito comum, geralmente sentia-se bastante exausto só por começar qualquer flerte casual. Gostava de monólogos detalhados sobre assuntos de interesse e isso, geralmente, cansava facilmente as pessoas, mas Chanyeol nunca parecia cansado. Também havia os sonhos que o incomodavam pelo simples fato de não serem algo que conseguia explicar racionalmente, e ele queria cavar isso até entender. Naquela noite, contou a Minseok por mensagem que tinha passado a tarde com Chanyeol.

 

minseok: que românticos

baekhyun: não foi um encontro, era pelo trabalho 

minseok: ah sim, ele se ofereceu para passear com seu cachorro por causa do evento

 

Baekhyun encarava o celular com um riso no rosto. 

 

baekhyun: eu não estou dizendo que ele não dá sinais

minseok: mas

baekhyun: mas eu não sei se confio em mim dentro disso

minseok: aí já é outra conversa

baekhyun: eu não queira estragar alguma coisa por interpretar errado

minseok: amigo, você nem chegou na parte de estragar ainda, vocês estão só existindo 

 

Os sonhos continuaram, mas já não obedeciam ao padrão antigo. Eram leves e rotineiros. Ainda havia a sensação de que alguma coisa ruim rondava os dois de um jeito persistente, como se esperasse o momento certo para entrar. 

Num deles, os dois estavam à janela enquanto a chuva escorria pelo vidro e alguma música antiga tocava em outra parte da casa. Não acontecia nada demais, mas era extremamente confortável. A ausência de horror e dos elevadores deixava espaço demais para o resto, para intimidade e a paz. 

Baekhyun acordava desses sonhos devagar, como quem emergia de água morna, e por alguns segundos o quarto parecia incorreto.  Ele contou parte disso a Minseok numa outra quarta-feira, os dois de novo diante de café e normalidade.

— Você está começando a gostar dele.

Baekhyun ergueu os olhos na hora.

— Não.

— Baek.

— Eu não disse isso.

— Você não precisa dizer.

Baekhyun soltou o ar pelo nariz, incomodado. Não parecia um começo, porque não tinha a textura insegura de duas pessoas se aproximando pela primeira vez. Mesmo assim, no dia seguinte ele respondeu a mensagem de Chanyeol mais rápido do que responderia a qualquer outra pessoa. Começou a perceber que sabia distinguir os humores dele pela forma como escrevia.

Mesmo depois do evento, Chanyeol continuou encontrando motivos para vê-lo, e Baekhyun continuou aceitando como se fossem apenas coincidências convenientes. Não houve um momento exato para apontar, quando percebeu, já estava vivendo dentro do sentimento.

 

.

Baekhyun pensou muitas vezes se deveria falar sobre seus sonhos com Chanyeol, em versões diferentes, em momentos que nunca chegaram a acontecer de verdade. 

Então, numa tarde que não tinha nada de especial, eles estavam sentados no chão da sala da casa de Baekhyun. Com as costas apoiadas no sofá. Mongryong, que foi a desculpa para Chanyeol passar lá, aproveitando para deixar um petisco diferente que havia comprado e ser convidado para entrar, dormia atravessado no tapete, como sempre, ocupando mais espaço do que parecia possível para um corpo tão pequeno. O ventilador fazia um barulho baixo no canto, empurrando o ar quente de um lado para o outro sem resolver nada.

Eles conversaram sobre amenidades por muito tempo. Então, começaram assuntos mais profundos da maneira que Baekhyun se encantava, sobre suas famílias, amizades, ambições e sobre o mundo. Era quase filosófico e Baekhyun sentia que aquele vínculo realmente estava se tornando mais profundo. Já estavam conversando sobre muita coisa fora o tópico trabalho há um tempo, mas aquela tarde quente parecia carregar um peso diferente. 

Até que Chanyeol ficou quieto por certo tempo. Baekhyun percebeu que aquela pausa não encaixa na conversa. 

— O que foi? — perguntou.

Chanyeol demorou um pouco a responder.

— Eu preciso te falar uma coisa.

Não era o tipo de frase que ele costumava usar. Baekhyun parou de jogar a bolinha para Mongryong. 

— Que suspense é esse? — brincou.

Chanyeol não parecia nervoso, parecia culpado.

— Eu pensei em não dizer nada, mas aí parece que eu estou me aproveitando de alguma coisa.

Baekhyun franziu levemente a testa, entendendo que a conversa era séria.

— Se aproveitando?

Chanyeol passou a mão pelo cabelo, desviando o olhar por um segundo.

— De você ou da situação.

A palavra ficou estranha no ar. Baekhyun não entendeu completamente, mas também não gostou da sensação.

— Eu não estou entendendo.

Chanyeol assentiu de leve, como se já esperasse isso.

— Eu tenho sonhado com você.

Baekhyun não reagiu na hora, pois a frase entrou e não encontrou lugar para ir. Chanyeol continuou antes que pudesse falar qualquer coisa.

— Não é um ou outro sonho. Já faz um tempo, antes de te conhecer, na verdade. Eu achei que era coisa da minha cabeça, tipo quando você vê alguém em algum lugar e o cérebro resolve repetir. Só que são sempre coisas muito específicas. Lugares diferentes, mas parece sempre… a gente.

Baekhyun ficou completamente parado, os olhos nele, mas sem uma resposta que parecesse possível. Chanyeol olhou direito para o rosto dele então, e pareceu entender que o silêncio era rejeição. 

— Eu não devia ter falado assim — disse, rápido demais. — Desculpa, sei que é estranho. Eu só achei que, se eu não falasse, ia parecer que eu estava manipulando alguma coisa. Como se eu soubesse de algo sobre você e não contasse. Não sei, e—

— Chanyeol…

A voz de Baekhyun saiu baixa, mas firme o suficiente para fazê-lo parar no mesmo instante. Baekhyun passou a mão pelo rosto devagar, como se estivesse tentando se localizar dentro do próprio corpo.

— Estou tendo exatamente os mesmos sonhos, muito antes de te conhecer.

Dessa vez foi Chanyeol quem ficou imóvel.

— O que?

Baekhyun assentiu. Agora já parecia voltar um pouco para si, ou pelo menos para a parte de si que ainda sabia fazer perguntas.

— Sempre tem um elevador, não tem? Mesmo dos mais antigos.

O olhar de Chanyeol mudou na mesma hora, parecia ligeiramente assustado agora.

— Tem.

O estômago de Baekhyun afundou. 

— E normalmente não acaba bem — Baekhyun completou, mais devagar agora.

Chanyeol parecia em choque, os olhos maiores do que costumavam ser. 

— Não.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos. Era quase como se fosse possível ouvir seus cérebros tentando buscar uma resposta racional.

— Mas mudou depois que te conheci — Baekhyun disse, por fim. Parecia ridículo dizer aquilo em voz alta, ainda assim disse.

— Não tem sempre tragédia agora, não é? — Foi a vez de Chanyeol confirmar, apesar de permanecer completamente imóvel. 

Baekhyun assentiu levemente. 

— Às vezes não acontece nada. Quer dizer, acontece, mas não é ruim. É só a gente.

— Nos meus também — o outro confessou.

O ventilador continuava fazendo o mesmo barulho no canto e a rua lá fora continuava existindo. Havia alguma coisa estranhamente ofensiva no mundo permanecer tão normal. Chanyeol passou a mão pelo cabelo, como fazia quando estava ansioso sobre algo.

— Você sabe aquela história que dizem aqui na Coreia… sobre in-yun?

Baekhyun ergueu as sobrancelhas, curioso.

— Aquela de destino?

Chanyeol fez uma pequena careta, como se a palavra não fosse suficiente.

— Mais ou menos. Dizem que é tipo uma conexão entre pessoas que vem de antes.

Ele parecia ponderar se continuava falando. Baekhyun entendia, afinal toda e qualquer teoria seria difícil para explicar o que estavam compartilhando. 

— Minha avó dizia que certas pessoas não entram na nossa vida pela primeira vez — ele continuou. — Elas só voltam com outro rosto, em outro tempo. 

Baekhyun inclinou a cabeça de leve, pensativo.

— Eu sempre achei que isso era só papo de flerte.

Chanyeol sorriu, pequeno.

— Eu também.

O sorriso sumiu devagar, sem virar algo pesado.

— Nunca levei a sério, mas agora… — Chanyeol demorou meio segundo a mais do que o normal. — Parece difícil ignorar.

Baekhyun soltou o ar pelo nariz, quase um riso.

— Nem mesmo o Mongryong te estranhou — lembrou Baekhyun. — Achei que estava projetando coisa demais, fiquei até com fobia de elevadores. Comecei a terapia por causa disso.

— Tá. Então eu realmente não estou enlouquecendo sozinho.

— Não — Baekhyun disse soltando um riso automático. — Está enlouquecendo acompanhado. 

Chanyeol riu, baixo, breve, mais de alívio do que de humor. Baekhyun percebeu que o silêncio tinha deixado de ser solitário.

— E se isso for algum tipo de aviso? — ele recomeçou. — Que nos conhecermos poderia ser o começo de alguma tragédia.

Chanyeol olhou-o com atenção.

— Pensei nisso também… Mas por que os sonhos se tornaram leves, então?

Baekhyun pensou nos sonhos mais recentes e na intimidade quieta. 

— Eu não sei — respondeu com honestidade.

O joelho de Chanyeol encostou de leve no dele. Um contato mínimo, quase acidental, mas não foi corrigido, e nenhum dos dois se afastou.

Baekhyun esperou o medo crescer, olhando para os próprios pés. Esperou aquela vontade antiga de recuar, de organizar tudo à distância, de transformar aquilo em algo explicável. Mas, por um segundo, ele pensou que se aquilo era in-yun, então, talvez, não fosse realmente o começo de alguma coisa, talvez fosse um ponto no meio. Não havia porque querer correr de algo que já estava acostumado. 

Ele levantou os olhos. Chanyeol já parecia estar olhando-o por tempo demais. O ar entre eles parecia mais denso agora, mais consciente. Não havia mais nada para dizer que não estragasse aquilo.

Quando Chanyeol se inclinou, foi devagar. Sem decisão clara, como se desse tempo suficiente para Baekhyun impedir, mas ele não impediu.  Pararam a centímetros e Baekhyun sentiu a própria respiração falhar por um segundo. A escolha ainda estava ali se quisesse se afastar, rir ou desconversar. 

— Isso pode ser uma péssima ideia — disse Baekhyun, quase num sussurro.

— Pode — Chanyeol respondeu, no mesmo tom.

Ninguém se afastou e Baekhyun fechou o espaço que faltava. O beijo não veio com pressa. Foi quase hesitante no começo, como se ambos estivessem confirmando que aquilo era real, que não ia desaparecer no meio do gesto. 

Baekhyun sentiu a mão de Chanyeol encontrar a lateral do seu rosto, e isso fez alguma coisa dentro dele ceder de vez. Ele se ajeitou sobre o tapete para ficar de frente para o outro. A própria mão encontrou o braço de Chanyeol quase sem decisão. Havia um algo ali que não parecia recém-descoberto, como se o corpo estivesse só lembrando.

Quando o beijo se aprofundou um pouco mais, ainda em um ritmo suave, mas com muita intenção, Baekhyun sentiu aquela mesma impressão deslocada no tempo. Dessa vez, ele não tentou entender, só se deixou sentir a boca de Chanyeol sobre a sua e o perfume dele que entrava pelas suas narinas. 

 

.

A única coisa que realmente mudou depois daquela noite foi que passaram a se encontrar com bastante frequência. Um dia depois do trabalho, depois outro. Às vezes com a desculpa de Baekhyun ajudar com o abrigo de animais, às vezes sem desculpa nenhuma.

Para Baekhyun havia a sensação de que nenhuma das pequenas decisões precisasse ser tomada pela primeira vez. Sentar ao lado, dividir comida, esticar o tempo por mais alguns minutos antes de ir embora. Chanyeol passou a caber na rotina de Baekhyun com uma naturalidade assustadoramente deliciosa.

Mongryong se acomodava nos espaços entre Baekhyun e Chanyeol como se sempre tivesse pertencido a ele. Subia no sofá e encostava o corpo na lateral da perna de um, depois seguia os dois pela casa com aquela persistência silenciosa que só tinha com quem aprovava.

Numa dessas noites, estavam no sofá, com um filme pausado há tempo demais para ainda fingirem que estavam assistindo. Mongryong dormia entre os dois, atravessado como um pequeno fiscal da distância exata dos corpos.

— Você gosta do que faz? — Chanyeol perguntou entre as conversas sobre vida e trabalho.

Baekhyun olhou para a tela parada, depois para ele.

— Acho que gosto. Quer dizer, eu sei fazer bem.

— Isso não foi exatamente uma resposta.

Baekhyun soltou uma pequena gargalhada.

— Às vezes eu acho que minha vida ficou pequena demais — confessou, sem olhar direto para Chanyeol. — Não é ruim, só pequena. Trabalho em casa, vejo as mesmas paredes, entrego as mesmas coisas, falo com as mesmas pessoas. Eu tinha o sonho de trabalhar com design de produto, sair da área gráfica. Aí eu pensei que talvez só quisesse mudar alguma coisa. 

— Mas desistiu de tentar a mudança de área? — Chanyeol quis saber. 

— Não exatamente, mas também não tentei mais. 

Chanyeol não respondeu de imediato. Isso era uma das coisas que Baekhyun vinha aprendendo sobre ele, não preenchia silêncio por ansiedade, esperava e refletia antes de responder.

— Eu entendo — disse, por fim. — Às vezes eu sinto algo parecido. Como se estivesse sempre cuidando de alguma coisa ou de alguém. Paciente, abrigo, família. E eu gosto, mas, às vezes, fico pensando se eu escolhi tudo ou se só fui ficando onde precisavam de mim. Mas estamos falando de você.

Ele sorriu e Baekhyun o interrompeu. 

— Estamos falando sobre ambos. Quero saber mais, tem coisas específicas que você gostaria de fazer e ainda não fez?

— Não sei. Acho que queria saber quem eu sou quando ninguém precisa que eu fique.

Baekhyun sentiu alguma coisa amolecer no peito, uma identificação silenciosa que não precisava virar explicação.

Os sonhos voltaram a aparecer novamente, e já não eram tão confortáveis. Anotava como a psicóloga tinha orientado e, por isso, notou que havia algo diferente. Em alguns sonhos, Chanyeol não estava lá. Nem os elevadores. Só Baekhyun diante das próprias escolhas, mas, ainda assim, acordava com a certeza absurda de que aqueles sonhos eram sobre os dois. 

 

IV 

Na outra semana, enquanto estava no meio de uma entrega qualquer, abriu o e-mail e encontrou algo completamente inesperado. No meio do ano anterior, quando os pesadelos já tinham começado a desgastar seu sono e o trabalho parecia mais sem sentido a cada semana, Baekhyun tinha procurado novas oportunidades quase como quem procurava uma janela. Não odiava o que fazia, mas estava cansado de sentir que tudo se repetia. Foi a época em que quis migrar para design de produto.

Aplicou para algumas vagas grandes. Em uma delas, avançou mais do que esperava. Fez entrevistas, teste, esperou retorno, imaginou cenários, começou a se sentir realmente animado. Depois a vaga foi congelada, e a frustração veio tão intensa que ele parou de tentar. Guardou aquilo no lugar das vontades que pareciam dar trabalho demais ou que, talvez, não fossem para ele.

Por isso quase não abriu o e-mail quando o viu na caixa de entrada. Achou que fosse mais uma mensagem genérica, dessas que chegam tarde demais para significar alguma coisa, mas o assunto dizia algo sobre reabertura de vaga.

Baekhyun precisou ler duas vezes para ter certeza de que não estava entendendo errado. O e-mail trazia uma proposta formal para a vaga de design de produto naquela grande empresa em que tinha se envolvido meses antes, passado por entrevistas, expectativas, e depois engolido a frustração do congelamento. 

Agora, o convidavam para assumir a vaga reaberta. Poderia parecer ótimo, e era. Só havia um detalhe impossível de ignorar. A empresa ficava nos Estados Unidos.

“Por que agora?”, a pergunta veio antes de qualquer decisão, pequena e amarga, como se uma parte dele quisesse transformar a oportunidade em provocação. 

Meses antes, Baekhyun teria lido aquele e-mail com o coração batendo de outro jeito. Teria pesquisado bairro, passagem, visto, apartamento. Teria sentido medo, claro, mas um medo limpo, desses que vinham quando a vida abria uma porta grande demais. Agora, a porta continuava aberta, só que Chanyeol estava do outro lado de alguma coisa que Baekhyun ainda nem sabia nomear.

Por alguns segundos, ficou apenas olhando para a tela. Aquilo tinha sido seu plano principal meses antes. Antes de Chanyeol existir na vida real, antes de Mongryong dormir entre os dois como se aquela configuração de mundo já fosse definitiva. Antes de Baekhyun começar a imaginar, mesmo sem admitir, como seria ter alguém chegando depois do trabalho, ocupando espaço na casa e no futuro.

Teve um pequeno primeiro impulso de recusar. Fazia apenas uma semana que eles tinham se beijado pela primeira vez e, mesmo assim, alguma coisa em Baekhyun já agia como se perder aquilo fosse perder algo grandioso. Minseok o chamaria de emocionado, mas ele não conseguia ignorar a sensação de que agora havia algo a deixar para trás.

Só que o pensamento não se sustentou por inteiro. Escolher ficar por um relacionamento que ele nem sabia se duraria também era deixar para trás uma vontade que existia antes de Chanyeol existir fora dos sonhos. Uma chance real, desejada, concreta. 

Baekhyun fechou o notebook devagar. O silêncio da casa pareceu maior do que de costume, a não ser pelo leve ronco de Mongryong em sua caminha. Passou a mão pelo rosto, tentando organizar os sentimentos, mas nada parecia ocupar um lugar estável.

Sabia que conseguiria manter Minseok na sua vida, mesmo longe. A amizade deles tinha uma espécie de teimosia própria, mas um relacionamento romântico a tanta distância era outra coisa. Ainda mais um relacionamento que mal tinha começado e, de alguma forma absurda, atravessou vários pesadelos para existir.

Depois de algum tempo, abriu o notebook de novo. Não respondeu aceitando de imediato, mas também não recusou. Escreveu dizendo que tinha interesse, mas que, por se tratar de uma mudança de país, precisaria de tempo para encerrar o contrato atual, organizar a mudança e iniciar na empresa com responsabilidade. Perguntou se, mesmo assim, a vaga estaria garantida.

Enviou e ficou olhando para a caixa de entrada como se, do outro lado daquela resposta, existisse não apenas um emprego, mas uma versão inteira de si mesmo esperando para saber se ainda teria chance de existir. Esperaria para decidir. 

 

.

No dia seguinte, a resposta chegou antes que Baekhyun tivesse tempo de se preparar para ela. A vaga era dele. Não apenas a vaga, mas também as condições que tinha estipulado. A empresa havia gostado muito do perfil, dos testes de que ele participou, da forma como pensava soluções e da maneira como parecia enxergar um produto antes mesmo de ele existir por completo. Estavam dispostos a custear a mudança, inclusive, além de auxiliar com documentação, moradia inicial e adaptação.

Era, em todos os sentidos possíveis, a oportunidade da vida dele. Baekhyun não soube onde colocar a sensação de inadequação que encontrou dentro de si.

Minseok sempre dizia que ele tinha uma tendência a ser catastrófico. Que, se alguma coisa boa acontecesse, ele precisava primeiro imaginá-la dando errado por pelo menos cinco caminhos diferentes antes de aceitar que talvez pudesse apenas ser boa. Odiava admitir, mas talvez fosse verdade.

Sentiu-se assim no começo do contato com Chanyeol, íntimo demais para alguém que ele mal conhecia. Sentia-se assim em algumas sessões de terapia e em qualquer momento em que Mongryong fazia um movimento diferente do comum, seu coração já corria para a pior possibilidade antes mesmo que a razão pudesse alcançá-lo.

Planejar era uma forma de respirar, mas a vida estava cada vez menos planejada. Na verdade, talvez nunca tivesse seguido essa linha. Agora vinha com uma proposta de emprego do outro lado do mundo justamente quando Chanyeol começava a caber nos dias dele.

Como se isso não bastasse, os sonhos trágicos também tinham retornado não apenas para Baekhyun, mas para o outro. Baekhyun tentou convencer a si mesmo de que tudo poderia estar relacionado ao próprio estado ansioso. Mas nunca conseguia explicar o fato de acontecer o mesmo com Chanyeol.

— Tive um sonho com você — Chanyeol disse numa tarde preguiçosa de um raro feriado, enquanto caminhavam por um campo florido que ficava perto do abrigo de cães. — Não acabou bem.

Mongryong ia alguns passos à frente, farejando a grama com a seriedade de quem conduzia uma expedição; Baekhyun olhou para ele.

— Os meus também não têm acabado bem.

O mais alto parecia abalado com isso. Baekhyun não escondeu como os sonhos tinham sido nos últimos dias. Não tudo, porque havia partes que ainda pareciam impossíveis de organizar em voz alta, mas o suficiente para Chanyeol entender.

— Não gosto dessa sensação — ele comentou, mais baixo. — Parece que alguma coisa ruim vai realmente acontecer. Mas são sonhos, certo? Não podem fazer nada de verdade.

Baekhyun quis concordar, quis rir e dizer que estavam impressionados demais. Só que a proposta atravessou sua mente como um alarme, faltava apenas um dia para responder à empresa.

— Yeol — começou, e a própria voz pareceu menor do que deveria. — Eu preciso te contar uma coisa.

Como se entendesse que aquele assunto não lhe dizia respeito, Mongryong caminhou até um cantinho de grama um pouco mais adiante e se deitou ali, com a língua para fora, satisfeito em fingir que não estava vigiando os dois.

Chanyeol esperou enquanto Baekhyun contou tudo. O rapaz não pareceu decepcionado em momento algum. Isso, de alguma forma, encantou Baekhyun ainda mais. Porque ele via de Chanyeol que o outro não queria aquele afastamento, mas estava genuinamente feliz.

— Baek, isso é incrível — Chanyeol disse, com um sorriso pequeno. — Você comentou mesmo sobre migrar para design de produto. E essa empresa é mundial. Você vai, sei lá, ganhar um Nobel de design se continuar assim.

Baekhyun soltou uma risada curta, quase contra a própria vontade. Pela primeira vez desde que tinha recebido a resposta, conseguiu sentir alguma alegria sem culpa. Não sem o peso que vinha junto, mas real o bastante para trazer aquela oportunidade para a realidade de suas emoções. Aquilo também era bom.

— Eu considerei ficar — disse, sincero.

Chanyeol travou e Baekhyun baixou os olhos. Havia tantas formas de dizer aquilo, mais bonitas, mais maduras, mais seguras; mas nenhuma parecia suficiente. Então ergueu o olhar para ele.

— Não por querer ficar na Coreia — disse. — Por querer ficar com você. E sei que isso é loucura, porque acabamos de nos conhecer.

A expressão de Chanyeol mudou devagar. O sorriso ainda estava ali, mas já não era o mesmo. Parecia preso entre a ternura e a tristeza.

— Eu queria ser egoísta o bastante para só gostar de ouvir isso — Chanyeol respondeu.

Mongryong levantou a cabeça, como se também estivesse esperando a continuação. O mais alto passou a mão pelos cabelos, soltando uma respiração baixa.

— Uma parte minha queria dizer que eu posso me mudar para os Estados Unidos também. — Ele tentou sorrir, mas não conseguiu por completo. — Você me traz essa urgência estranha, Baek. Eu queria continuar ao seu lado.

Baekhyun sentiu o peito apertar.

— Mas eu tenho minha vida aqui. — Chanyeol olhou para ele com cuidado. — E você tem uma vida chamando também.

Baekhyun sabia.

— Eu sei — disse. — Também não quero que uma escolha tão grande nasça do medo de te perder. Mas eu não sei o que fazer com isso. Com essa sensação de que, se eu escolher errado, alguma coisa que eu desconheço vai se repetir.

Chanyeol olhou para ele como se também estivesse tentando se manter coerente.

— A gente não precisa decidir tudo hoje.

Baekhyun soltou uma risada sem humor.

— Tenho até amanhã para responder à empresa.

— Não estou falando da vaga.

A frase ficou entre eles. Baekhyun entendeu antes que Chanyeol completasse, e o mais alto estendeu a mão, sem tocar de imediato.

— Vem comigo para o meu apartamento? Dorme lá hoje.

Baekhyun olhou para a mão dele.

— Você sabe que eu morro de medo do elevador.

Eles ficavam mais na casa de Baekhyun por causa disso. O apartamento de Chanyeol era alto, e subir todos aqueles andares de escada era cansativo. Ainda assim, na maior parte das noites, ele não podia ficar, ia embora tarde, porque precisava estar no abrigo bem cedo antes de ir para a clínica, e o trajeto era bem mais simples saindo do próprio apartamento do que desviando pela casa de Baekhyun.

Mesmo nos fins de semana, quando Baekhyun não trabalhava, Chanyeol ainda precisava seguir quase o mesmo processo. Tinha apenas uma folga na semana e ainda dividia os cuidados do abrigo com a irmã, que ficava lá no período da tarde e da noite. O canto da boca de Chanyeol se mexeu, triste e doce ao mesmo tempo.

— Eu topo subir nove lances de escada para a gente parar de conversar como se já estivesse se despedindo. Você pode passar o fim de semana lá, se quiser. Eu te empresto minhas roupas.

Baekhyun amoleceu, estava cansado de ser tão metódico com cada um de seus próximos passos. Chanyeol ainda estava com a mão estendida, então aceitou. Mongryong entrou primeiro no apartamento, farejando o ambiente com a confiança de quem já tinha decidido que aquele território também lhe pertencia. Chanyeol o havia carregado no colo pelas escadas, e não deixou de ser um pouco engraçado ver o esforço discreto nos ombros dele, porque o cachorrinho era pequeno, mas bastante pesadinho.

— Acho que ele se adapta melhor do que a gente — Baekhyun comentou.

Chanyeol fechou a porta e sorriu.

— Ele aceita mais facilmente.

Baekhyun riu, mas a graça morreu devagar. Chanyeol percebeu, sempre percebia.

— Vem cá — pediu, baixo.

Tocou primeiro sua manga, depois seus dedos, como se ainda perguntasse. Baekhyun respondeu segurando a mão dele.

Foi Chanyeol quem beijou sua testa, mas foi Baekhyun quem, exausto de ficar à beira de tudo, ergueu o rosto e procurou a boca dele. Chanyeol suspirou contra seus lábios, e alguma coisa em Baekhyun cedeu mais. Ele segurou o tecido da camiseta do outro entre os dedos e sentiu as mãos dele encontrarem sua cintura com uma delicadeza que o desarmava. O peso quente de Chanyeol diante dele, a respiração falhando perto da sua, o silêncio da sala, Mongryong se acomodando no tapete como se nada no mundo fosse urgente. Chanyeol se afastou apenas o suficiente para encostar a testa na dele.

— A gente pode parar — disse, a voz rouca, mas firme. — A qualquer momento.

Baekhyun fechou os olhos. A frase o tocou de um jeito inesperado, talvez porque nada naquela história parecesse saber parar. Nem os sonhos, nem a sensação de que eles vinham correndo um em direção ao outro havia muito mais tempo do que podiam lembrar. Mas sabia que Chanyeol pararia, se Baekhyun pedisse, ele pararia o mundo todo; e isso não era só sobre tirarem as roupas.

Então, Baekhyun o beijou de novo. Dessa vez, com toda a vontade que vinha tentando manter guardada. Chanyeol o conduziu pelo corredor sem soltar sua cintura.

Queria memorizar tudo aquilo. O quarto, a luz baixa entrando pela janela, os lençóis, o cuidado com que Chanyeol o olhava antes de tocar. As risadas pequenas quando Mongryong arranhou a porta por ciúme ou curiosidade. A forma como Chanyeol escondeu o rosto no pescoço dele por um instante, como se também precisasse se recompor.

Mais tarde, quando o apartamento já estava quieto e Mongryong dormia do lado de dentro do quarto, perto da porta, depois de ter devorado um bom tanto da ração que Chanyeol guardava para os cães do abrigo, Baekhyun ficou acordado, olhando para o teto. Usava um conjunto de moletom de Chanyeol, emprestado depois de um banho quente. O tecido era grande em seu corpo e tinha um perfume gostoso.

Chanyeol dormia ao seu lado, uma das mãos ainda perto da sua, sem prendê-lo. Baekhyun virou o rosto devagar e o observou. A linha do nariz, a boca relaxada, a expressão finalmente sem aquele peso atento que ele carregava durante o dia. Pensou em todos os elevadores, todas as portas, todas as versões deles que talvez tivessem tentado ficar em seus sonhos. Ou memórias, já não sabia dizer. 

Quando o sono o venceu, teve um vislumbre de diversas épocas diferentes. Era como se o sonho mudasse toda vez que ele passava de um vagão para outro em um metrô. Os cenários se transformavam. As roupas mudavam e as luzes também. Chanyeol não aparecia com clareza em nenhum deles, mas estava em todos. 

Em todas as épocas, havia uma decisão. E, em todas elas, Baekhyun precisava se afastar por algum motivo, mas escolhia ficar. Depois, vinha a tragédia. A vida parava no exato ponto em que ele decidia ficar. Não sempre da mesma forma. Não sempre com morte, fogo ou queda. Às vezes, era só a destruição lenta de algo que talvez tivesse sobrevivido se não tivesse sido segurado com tanta força.

Quando acordou, ainda estava escuro. Pela primeira vez, a pergunta que rondou seus pensamentos não foi se gostava de Chanyeol o bastante para ficar, foi se gostava o bastante para deixá-lo ir.

Conseguiu dormir mais um pouco antes de acompanhar Chanyeol até o abrigo. O mais alto brincou com os cães, conferiu potes de água, conversou com a irmã por telefone e pareceu, por alguns minutos, apenas ele mesmo. Depois, antes de ir para a clínica, deixou Baekhyun em casa.

Combinaram de se encontrar na saída do trabalho dele, naquela tarde, para dormirem juntos novamente no apartamento. O acordo soou simples. Baekhyun sorriu quando se despediram. Mas, assim que entrou em casa, a sensação do sonho voltou inteira. Ligou o computador.

Escreveu o e-mail de aceite para a empresa. Leu várias vezes, mas não enviou. Era sábado, Baekhyun e nem seu melhor amigo trabalhavam. Os sistemas de seus empregadores eram um pouco diferentes dos comuns na Coréia, conhecidos pelo trabalho constante. Então, sozinho em casa, ligou para Minseok.

Ficaram quase uma hora em chamada de vídeo, conversando sobre tudo. Minseok estava com o celular apoiado em algum canto enquanto brincava com os gatos, mas prestava atenção de verdade.

— Eu vou passar minhas férias com você nos Estados Unidos — avisou. — Nem vem Chanyeol roubar meu lugar.

Eles riram, mas Baekhyun ficou sério depois.

— Acho que não quero manter contato com Chanyeol.

Minseok percebeu que aquela era uma conversa delicada e até se aproximou um pouco mais do celular.

— Vocês acharam melhor assim?

— Na verdade, eu ainda não comentei que acho melhor cortar contato. Vou deixar o fim de semana acabar, então eu digo.

— Amigo, você disse que esse fim de semana não era uma despedida.

Baekhyun desviou o olhar.

— É e não é. Ainda vou ter alguns dias até ir embora de vez.

— Mas talvez seja importante Chanyeol saber das suas intenções por completo. Para vocês estarem na mesma página.

Baekhyun pensou por um momento e sentiu um medo estranho.

— Acho que não quero que ele se afaste antes do tempo.

Minseok ficou alguns segundos em silêncio.

— Pelo que você me conta dele, eu não acho que Chanyeol simplesmente se afastaria.

Baekhyun respirou fundo.

— Você tem razão. Acho que estou sendo egoísta, vou conversar com ele hoje.

O amigo assentiu. O cursor continuava piscando no e-mail aberto, como se também esperasse uma decisão. Baekhyun olhou para a tela e tentou sorrir um pouco.

— Nossa, estou monopolizando todas as nossas conversas. Me conta mais daquele cara mais novo.

Minseok estreitou os olhos.

— Lá vem.

— Aquele que você estava interessado. Jongin, não era o nome?

— Mais novo — Minseok fez aspas com as mãos. — Ele tem vinte e sete anos, Baekhyun.

— Quatro anos de diferença. Outra geração.

Minseok reclamou, e Baekhyun riu de verdade pela primeira vez naquela manhã. Deixou Minseok falar de Jongin, dos gatos e de qualquer coisa que não tivesse elevadores, sonhos ou destinos atravessados.

Quando a chamada terminou, permaneceu algum tempo diante do computador, ouvindo o silêncio da casa e o som baixo de Mongryong se mexendo perto do sofá. O e-mail continuava aberto na tela, pronto, correto demais para que ele pudesse culpar qualquer detalhe técnico pela própria hesitação. Leu a mensagem de aceite mais uma vez, mudou uma vírgula, desfez a mudança e percebeu, com um cansaço quase físico, que não estava revisando nada. Estava apenas tentando adiar o instante em que a decisão passaria a existir fora dele.

Pensou em Chanyeol, na forma como ele tinha subido nove lances de escada com Mongryong no colo como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo. Pensou também no sonho, nas muitas versões de si mesmo diante de uma escolha parecida, sempre encontrando alguma razão para ficar, sempre descobrindo tarde demais que ficar também podia significar não ter um final romântico feliz. Não sabia se aquilo era aviso, memória ou uma forma cruel que sua ansiedade tinha encontrado para organizar o medo, mas havia algo ali que não conseguia ignorar.

Baekhyun respirou fundo e enviou o e-mail. Passou o resto do tempo tentando se preparar para uma conversa que não tinha preparação possível. A tarde atravessou as frestas da janela com a mesma luz pálida. Tomou banho, separou algumas roupas, conferiu a guia de Mongryong e guardou o carregador na bolsa como se aquele cuidado pequeno pudesse compensar a falta de controle sobre todo o resto.

Quando estava próximo do horário de saída de Chanyeol, Baekhyun caminhou com o cachorrinho até a clínica. O mais alto apareceu com algumas sacolas.

— Eu pedi o que você disse que gostava — Chanyeol disse, com um sorriso cansado indo para o carro.

Baekhyun tentou sorrir, e por alguns segundos conseguiu. Era esse o problema com Chanyeol. Ele tornava o mundo simples por pequenos intervalos, simples o bastante para Baekhyun esquecer que uma conversa densa ainda estava esperando por eles.

— Isso é Samgyeopsal? — Os olhos de Baekhyun brilharam lembrando de quando comentaram outro dia que comidas tradicionais coreanas eram reconfortantes e ele mencionou aquele churrasco coreano composto por fatias de barriga de porco, que são grelhadas. — Você comprou comida para nós ou para um grupo de mudança?

— Para você, para mim e para esse ladrão aqui, caso ele consiga executar algum plano.

Mongryong abanou o rabo como se aceitasse o desafio. Chanyeol se abaixou para cumprimentá-lo, coçando atrás de suas orelhas, mas ergueu os olhos para Baekhyun antes de se levantar. O sorriso dele diminuiu devagar. Chanyeol tinha essa atenção que às vezes parecia cuidado e, outras vezes, parecia uma forma muito delicada de não deixar Baekhyun fugir de si mesmo.

— Você respondeu a empresa — ele disse.

Não foi uma pergunta. Baekhyun sentiu a garganta apertar e assentiu.

— Respondi. Eu aceitei.

Chanyeol ficou parado por um instante, como se precisasse acomodar a notícia em mais de um lugar ao mesmo tempo. Então sorriu, pequeno e verdadeiro, mesmo que já viesse com tristeza por baixo.

— Isso é bom, Baek. É uma oportunidade enorme.

A frase acertou Baekhyun com uma força injusta. Ele desviou o olhar para as sacolas que Chanyeol ainda segurava, para Mongryong farejando o chão, para qualquer coisa que não fosse aquele rosto tentando ficar feliz por ele. Chanyeol deixou a comida sobre o banco de trás do carro.

— Vamos?

Baekhyun assentiu colocando Mongryong na cadeirinha de cachorro que Chanyeol possuía no carro. Fechou os dedos contra a palma da mão. Minseok tinha razão. Chanyeol merecia entender tudo que Baekhyun pretendia. Quando estavam com a mesa pronta com a carne e os acompanhamentos, Baekhyun decidiu que não iria mais segurar.

— Eu acho que, quando eu for, talvez seja melhor a gente não se falar por um tempo.

Chanyeol olhou para Baekhyun com os olhos muito abertos. A surpresa veio primeiro, imediata, antes de qualquer outra coisa. Depois a expressão dele mudou devagar, como se a frase tivesse demorado um pouco para chegar inteira. 

— Você quer dizer… nada? Nem mensagem?

Baekhyun sentiu a garganta apertar. Era mais difícil quando Chanyeol perguntava assim, sem raiva, sem acusação, apenas tentando entender. A comida ainda soltava um pouco de vapor, como se aquela fosse uma noite comum e os dois não estivessem prestes a tocar no ponto mais doloroso de tudo. 

— Eu não estou dizendo isso porque quero apagar você quando eu for embora. É quase o contrário. Se a gente continuar se falando, eu acho que vou tentar viver lá com metade de mim presa aqui. Vou querer te mandar mensagem quando chegar, te mostrar onde estou morando, saber dos cães, perguntar se você dormiu bem. E talvez isso pareça bonito no começo, mas eu conheço um pouco de mim. Eu ia transformar cada resposta sua numa razão para não estar inteiro em lugar nenhum. 

Chanyeol apertou os lábios. Os olhos dele estavam úmidos, e a tristeza ali era tão aberta que Baekhyun precisou segurar a própria emoção.

— Mas a gente podia tentar ir devagar — Chanyeol disse, ainda baixo. — Sem cobrar nada. Uma mensagem de vez em quando. 

Baekhyun assentiu, porque também tinha pensado nisso. Tinha pensado em todas as formas possíveis de tornar a distância menos definitiva. Tentou responder, mas a voz não saiu de imediato. Chanyeol olhou para ele, e alguma coisa na expressão do outro pareceu entender antes da resposta.

— Você acha que isso ia ser pior — Chanyeol concluiu.

Baekhyun passou a mão pelo rosto quando uma lágrima ameaçou correr.

— Eu acho que eu ia esperar por isso — confessou. — Mesmo dizendo que não. Ia esperar uma mensagem sua, uma foto, qualquer coisa. Eu não ia conseguir viver os meus dias direito, e talvez acabasse não deixando você viver os seus. 

Chanyeol ficou em silêncio. Não parecia estar procurando uma resposta. Parecia só deixando a verdade chegar onde precisava. 

— Eu entendo — disse, por fim.

Baekhyun olhou para ele. 

— Eu também ia esperar. Mesmo ficando feliz por você. Mesmo querendo que desse certo. Acho que uma parte minha ia ficar presa nisso.

Baekhyun sentiu a garganta apertar.

— Yeol…

— E eu não quero isso — Chanyeol disse, antes que ele continuasse. — Não quero que nenhum de nós viva pela metade.

O silêncio ficou entre eles. Os pratos ainda intocados e Mongryong deitado perto dos pés da mesa como se não entendesse por que os dois estavam tristes. Chanyeol soltou uma respiração baixa.

— Isso é estranho, não é?

Baekhyun ergueu os olhos.

— O quê?

— A gente. Isso tudo. — Chanyeol tentou sorrir. — Eu te conheço há tão pouco tempo, Baek. Em qualquer outro contexto, essa separação nem deveria ser tão difícil assim.

Baekhyun queria ter algo melhor a responder, mas não sabia onde colocar aquilo. A explicação exigia demais de alguém que ainda prefere coisas mais concretas, mesmo depois de tudo.

— Parece que eu estou abrindo mão de uma coisa que já existia antes de mim — disse, por fim. — Também não consigo entender.

Chanyeol olhou para ele como se aquela conversa tivesse alcançado exatamente o lugar que nenhum dos dois sabia nomear. 

— Eu sonhei de novo — continuou Baekhyun.

Chanyeol ficou mais atento.

— Não exatamente com você, do jeito que tem sido, mas você estava em tudo. Era como atravessar lugares e épocas diferentes. Em cada uma, havia uma escolha. Eu precisava partir por algo que parecia maior que nós. Nem sempre era morte ou fogo, como nos nossos outros sonhos. Podia ser uma guerra, uma família, uma cidade inteira mudando. Eu entendia que precisava ir e ainda assim escolhia ficar. Mas, mesmo quando ficava, nunca estávamos realmente juntos.

Chanyeol abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa, mas não conseguiu. Dessa vez, não havia confirmação do outro lado. Nenhum “eu também sonhei”, nenhuma imagem compartilhada para tornar aquilo menos absurdo. Ainda assim, ele não parecia duvidar. 

As lágrimas escorreram de seus olhos, e Baekhyun também chorou em silêncio. Tinham pouco tempo e, ainda assim, uma sensação imensa, como se alguma coisa tivesse atravessado várias portas até encontrá-los. Baekhyun cobriu o rosto por um instante.

— Posso te abraçar? — Chanyeol perguntou.

Baekhyun assentiu e se agarrou ao outro como quem não o soltaria. Chanyeol apoiou o rosto no ombro dele, os braços firmes ao seu redor. Ficaram assim por um tempo, com Mongryong andando em volta dos dois agora.

Chanyeol se afastou apenas o suficiente para olhar para ele. Tinha o rosto marcado pelo choro, e havia algo de muito bonito e muito triste na forma como ele não tentava parecer mais forte do que estava.

— Você ainda quer dormir aqui?

Baekhyun entendeu a pergunta inteira. Não era um pedido para esquecerem a conversa, nem uma forma de fingir que a decisão não tinha sido tomada. Era só a possibilidade de passarem aquela noite juntos.

— Quero — respondeu. — Se você também quiser.

— Quero.

Não disseram mais nada por algum tempo. Depois comeram a comida já morna sem muita fome, sentados à mesa, dividindo comentários pequenos sobre Mongryong, sobre os cães do abrigo e sobre a irmã de Chanyeol, que tinha mandado uma mensagem reclamando de um dos filhotes que rasgava qualquer pano esquecido pelo caminho. A tristeza ainda pairava no espaço.

Chanyeol estendeu a mão quando estavam lado a lado no sofá, já com tudo recolhido e Baekhyun entrelaçou os dedos nos dele. Decidiram assistir um filme qualquer.

— Eu queria que fosse mais fácil — Chanyeol disse, muito baixo quando estavam deitados para dormir.

Baekhyun apertou os dedos na camiseta dele.

— Eu também.

Baekhyun fechou os olhos. Ficaram juntos no escuro, sustentando a despedida sem tentar vencê-la. Ainda se veriam antes da ida definitiva, mas, naquela noite, podiam ser apenas o que ainda tinham naquele momento.

 

V

Chicago, Illinois, EUA. 2021.

A primeira coisa que Baekhyun entendeu sobre mudar de país foi que nada acontecia com a grandeza que deveria. Havia malas para pesar, documentos para conferir, vacinas de Mongryong, recibos perdidos em e-mails, adaptadores de tomada, roupas que não faziam sentido para o clima que o esperava, entrega da casa em Seul. Decidiu vender algumas coisas e doar outras, dar de presente para Minseok ou para os pais o que eles queriam. 

Chanyeol não compareceu no aeroporto simplesmente porque seria um momento em que estaria trabalhando, mas a despedida já tinha acontecido muito antes, sabiam bem. Minseok quem foi e a família Byun, que veio de uma cidade do interior da Coreia para se despedir. Sempre souberam que o filho viveria livre, o criaram assim, para conquistar as próprias coisas e se orgulhavam disso. 

Falou sobre coisas práticas até o último instante, porque sempre foi bom nisso quando a emoção parecia grande demais para ser encarada de frente. Quando a hora chegou, Minseok o abraçou forte demais para uma despedida casual e não forte o suficiente para tudo que estava acontecendo, disse para Baekhyun não confiar no primeiro café que comprasse. Já de seus pais, ouviu para lembrar que não precisava virar outra pessoa só porque estava indo para outro país.

Mongryong, dentro da caixa de transporte, parecia ofendido com todos os humanos envolvidos naquela decisão, e Baekhyun ficou acariciando sua cabeça pela abertura pequena como se aquele contato fosse uma prova material de que alguma coisa conhecida ainda atravessaria o oceano com ele. 

Ele sentia falta de Chanyeol antes mesmo de estar longe o bastante, e havia uma injustiça silenciosa nisso, como se o corpo não respeitasse fronteiras. Conferia Mongryong com uma ansiedade que só diminuía quando o cachorro o olhava com a mesma expressão indignada de sempre.

O apartamento temporário e mobiliado em Chicago ficava no térreo. Ele tinha escolhido assim com a desculpa verdadeira de que seria melhor para Mongryong, e com a verdade menos confessável de que não queria começar a nova vida tendo que negociar com elevadores todos os dias. 

A empresa havia respaldado com muita excelência seus gastos, nem sentia que aquilo era realmente verdadeiro ainda. Ainda assim, nada ali tinha cheiro de casa, e talvez por isso Baekhyun tenha montado primeiro o canto de Mongryong. 

Colocou a caminha perto da janela, o cobertor trazido da Coreia por cima, os potes alinhados com um cuidado exagerado, alguns brinquedos no chão. Mongryong farejou cada coisa com a seriedade de quem avaliava uma propriedade recém-adquirida e, depois de um tempo, deitou sobre o cobertor como se autorizasse Baekhyun a existir naquele espaço também. 

Baekhyun esperava que houvesse uma queda interna, alguma prova de que a escolha tinha sido impossível. Em vez disso, havia a irritação de errar a entrada do prédio da empresa, a surpresa de descobrir que o café do escritório era ruim de um jeito quase ofensivo e a gentileza dos colegas novos que exigiam sua atenção inteira, porque pensar em outro idioma deixava menos espaço para sofrer. 

Baekhyun percebia, com uma culpa que depois foi se tornando apenas constatação, que gostava daquilo. Voltava para o apartamento térreo, encontrava Mongryong esperando com a urgência de quem não reconhecia carreira internacional nenhuma, apenas atraso no passeio, e os dois caminhavam por ruas que ainda estavam construindo história em suas vidas. 

O parque pequeno onde alguns cães grandes corriam livres, faziam Baekhyun pensar em Chanyeol com uma pontada limpa, quase física. Sentia falta dele nesses horários sem importância e, às vezes, abria a conversa antiga no celular, mas não mandou nenhuma nova mensagem. 

O impulso existia, mas Baekhyun aprendeu a observá-lo sem obedecer. Falava com Minseok pelo menos três vezes na semana, às vezes por áudio, às vezes por mensagens espaçadas que atravessavam o fuso horário como bilhetes largados em uma porta. 

Manteve a terapia online e os pesadelos sumiram, simples como as horas de viagem, mas a ausência deles não trouxe alívio imediato. Trouxe desconfiança primeiro, como se o corpo esperasse a próxima catástrofe escondida atrás de um dia comum. Mas os dias comuns continuaram chegando, um depois do outro, insistentes, pouco cinematográficos.

Foi em uma manhã fria de um jeito que parecia entrar primeiro nos ossos e só depois na pele, que Minseok mandou a mensagem. Ele esperava uma foto de gato, porque Minseok tinha o hábito de preencher diferenças de horário com imagens. Em vez disso, leu a mensagem uma vez e depois outra, sem tocar na tela por alguns segundos.

 

minseok: amigo, eu sei que vocês não estão se falando e não quero botar lenha no seu sofrimento

minseok: de verdade

minseok: mas acho importante você saber disso

 

Havia um link de uma notícia. Baekhyun apoiou uma mão na bancada e tocou o link com a outra. A página demorou pouco para carregar, tempo insuficiente para qualquer preparação e longo o bastante para que todos os sonhos antigos encontrassem frestas por onde entrar. 

A foto da fachada apareceu primeiro. A clínica. Aquele prédio limpo demais, onde uma porta metálica tinha se aberto para que conhecesse Park Chanyeol. O título veio logo abaixo. 

 

“Incêndio atinge prédio clínico durante a manhã e força evacuação de pacientes e funcionários.” 

 

As palavras se separavam umas das outras, cada uma carregando uma ameaça própria. O texto dizia que o foco inicial parecia ter surgido na área técnica ligada ao sistema do elevador, possivelmente por falha elétrica, e que a fumaça havia se espalhado rapidamente por alguns corredores antes da chegada completa dos bombeiros. 

Baekhyun prendeu a respiração. Continuou lendo com uma atenção doente, faminta, terrível. Algumas pessoas tinham sido levadas ao hospital por inalação de fumaça, mas não houve mortes. Ele soltou o ar, quis matar Minseok por não avisar isso previamente. Então, viu uma foto de Chanyeol. 

 

“Funcionários auxiliaram na retirada de pacientes com mobilidade reduzida. Um fisioterapeuta identificado como Park Chanyeol ajudou a orientar a evacuação e acompanhou pacientes até a saída de emergência antes de receber atendimento no local.”

 

Baekhyun procurou outra matéria, digitou o nome da clínica, depois o nome de Chanyeol. Encontrou um vídeo curto em outro portal. A imagem tremia, gravada do lado de fora, com sirenes, fumaça, gente coberta por mantas térmicas e vozes misturadas. Por alguns segundos, ele não viu Chanyeol. Viu apenas o prédio, a lateral escurecida, uma maca, bombeiros entrando e saindo. 

Então a câmera se moveu e ele apareceu. Não no centro, não como alguém feito para ser visto. Estava de perfil, o jaleco sujo, o rosto marcado de fuligem, o cabelo grudado na testa. Tinha uma das mãos no encosto de uma cadeira de rodas e a outra erguida em direção a um bombeiro, explicando alguma coisa com aquela concentração familiar que Baekhyun conheceu.

Por um instante, Baekhyun estava de novo naqueles sonhos antigos. O calor mordendo o rosto. Os elevadores, as chamas levando tudo. Só que agora a imagem na tela dizia outra coisa. Chanyeol estava do lado de fora. Sujo de fumaça, cercado por gente, mas inteiro. Questionou-se se aquilo era a quebra de um ciclo, se os pesadelos de Chanyeol também havia acabado, se aquela era uma prova real do metafísico.

O amigo mandou outra mensagem enquanto Baekhyun ainda estava com a notícia aberta.

 

minseok: espero que eu tenha feito o certo, não queria que você descobrisse por outros meios, afinal vocês sonhavam com incêndios em elevadores pelo que me contou, né? 

 

Baekhyun olhou para a pergunta. Do outro lado da janela, uma chuva fina que ele nem tinha percebido molhava o vidro. 

 

baekhyun: obrigado por me mandar, amigo, foi importante. 

baekhyun: mas você quase me matou de susto, achei que ele tinha morrido, sei lá.

 

Não era uma resposta enorme e tinha a leveza do tom que existia entre eles, mas era verdadeira.

Um mês depois da mudança, o apartamento já não parecia inteiramente provisório. Ainda era impessoal em alguns cantos, mas começava a falhar nisso. Havia uma caneca comprada porque Baekhyun gostou do azul, um pote de ração no lugar errado porque Mongryong tinha decidido que aquele era o lugar certo, uma planta pequena na janela sobrevivendo apesar da sua incompetência cautelosa. 

Ainda sentia falta de Chanyeol, de Minseok e da Coreia com uma parte do corpo que não sabia se atualizar, mas se aquietava quando Mongryong dormia sobre seus pés ou pensava em algumas amizades que pareciam surgir no trabalho. 

Naquela noite, sonhou pela primeira vez desde a mudança. Não havia elevador, essa foi a primeira coisa que Baekhyun percebeu. Era um campo florido, aquele em que eles costumavam caminhar próximo ao abrigo. Não havia fogo, fumaça ou mãos que não se alcançavam a tempo. Havia uma luz baixa de fim de tarde. Olhou para as próprias mãos e elas eram velhas, não de um jeito assustador. Apenas a vida contando seu tempo. Moveu os dedos devagar e sentiu uma tranquilidade profunda.

Então, percebeu que alguém caminhava ao seu lado com o cabelo quase todo branco, os ombros um pouco menos retos, linhas ao redor dos olhos, o mesmo tamanho ocupando o espaço com naturalidade. Usava um suéter escuro e tinha os óculos no alto da cabeça enquanto parecia procurar o próprio objeto entre os bolsos. Baekhyun sentiu uma vontade mansa de rir, uma vontade que parecia existir há muitos anos.

“Estão na sua cabeça”, disse e sua voz era mais adulta.

Chanyeol levou a mão ao cabelo, encontrou os óculos e sorriu daquele jeito pequeno, íntimo, sem defesa. Não era o sorriso largo dos sonhos em que tudo queimava. Era um sorriso gasto de cotidiano.

“Eu sabia, estava só testando sua atenção”, brincou.

“É claro, meu bem.” Baekhyun ria. 

Deixou a mão repousar na de Baekhyun com a calma de quem tinha tempo. A pele estava quente, real demais para uma coisa que não podia ser real. Chanyeol olhou para o céu e para as flores.

“Vamos dar mais uma volta? Ainda dá tempo”, disse.

Baekhyun acordou devagar. O quarto estava escuro, aquecido demais, com a luz da rua entrando fraca pela janela. Mongryong dormia perto da cama, enrolado no próprio corpo, e o apartamento fazia seus ruídos baixos de lugar habitado. 

Baekhyun não puxou o ar como se tivesse escapado de uma tragédia, apenas respirou fundo com uma tristeza calma no peito e uma paz estranha por baixo dela. Pensou em Chanyeol que, em algum lugar na Coreia, talvez estivesse tirando uma soneca, talvez não, talvez ainda cansado, talvez rindo de alguma coisa pequena. Vivendo uma vida que Baekhyun não via e, mesmo assim, desejava que fosse boa.

 

VI

Dez anos depois
Seul, Coreia do Sul. 2031.

Byun Baekhyun pisava em Seul sem a sensação de estar voltando ao passado. Essa talvez tenha sido a primeira surpresa. Durante muito tempo, acreditou que voltar significaria desfazer alguma coisa, como se o país inteiro tivesse ficado guardado em uma gaveta que ele não abria desde o dia em que partiu. 

Mas as ruas mudaram, cafeterias fecharam, outras surgiram no lugar, prédios ficaram mais altos, fachadas foram reformadas, rotas antigas pareceram ligeiramente estrangeiras quando ele as pesquisou no mapa. 

Minseok envelheceu só o suficiente para reclamar mais do joelho, mas não o bastante para perder a capacidade de responder qualquer notícia com uma piada.  Mongryong, por outro lado, agora tinha o focinho mais branco, dormia mais, exigia passeios mais curtos e parecia ofendido quando Baekhyun esquecia que sua prioridade no mundo ainda era obedecer ao ritmo de um cachorro pequeno e idoso.

A proposta da volta apareceu em uma reunião que, no início, não parecia capaz de mudar sua vida. A empresa crescia rápido no mercado asiático, e Seul havia se tornado uma escolha estratégica demais para continuar sendo tratada apenas como escritório parceiro, evento regional ou equipe terceirizada. Havia interesse econômico, claro. Havia investimento, pesquisa, produtos que precisavam nascer pensando em usuários locais.

Por isso, uma filial faria sentido para a expansão da marca e para a ponte entre equipes de criação, tecnologia e experiência. Baekhyun ouviu tudo com a atenção profissional que aprendera a sustentar mesmo quando alguma coisa dentro dele começava a sair do lugar. Só quando disseram seu nome, entendeu que a reunião não era apenas sobre a empresa.

Queriam que ele fosse para Seul assumindo a posição de diretor do setor de criação da nova filial. Alguém que montaria equipe, definiria linguagem, conduziria processos, faria aquilo existir desde o começo. 

Disseram que ele conhecia a cultura, o mercado, mas também conhecia a empresa por dentro, seus vícios, suas ambições, seus métodos e suas falhas. Disseram que confiavam nele. Baekhyun assentiu como se esse tipo de frase pudesse ser recebido com naturalidade, mas, naquela noite, em casa, demorou quase uma hora para contar a Minseok por chamada de vídeo, porque havia uma parte dele que continuava esperando alguém corrigir o próprio engano.

Minseok ficou em silêncio por dois segundos inteiros, o que, vindo dele, era quase uma experiência religiosa.

— Diretor Baek?

— Só do setor de criação — Baekhyun corrigiu, como se isso diminuísse alguma coisa.

— Diretor! — Minseok repetiu, ignorando a tentativa. — Você virou adulto de verdade e ninguém me avisou.

Baekhyun riu com vontade. Mongryong, acordado pelo som da voz de Minseok no alto-falante, levantou a cabeça com um olhar cansado de quem já tinha ouvido aquela pessoa falar diversas vezes.

Aceitar a volta não doeu como Baekhyun imaginou que doeria. Ele poderia recusar, inclusive, mas parte dele estava animado com a ideia. Talvez porque dez anos longe tivessem ensinado algo que, lá aos vinte e nove, ele ainda entendia só em teoria. Uma escolha não precisava apagar todas as anteriores para ser verdadeira. 

Os Estados Unidos tinham sido vida, não intervalo. Ele tinha criado repertório, errado com competência, acertado com medo, feito amizades, apresentado projetos que pareciam maiores do que sua coragem, recebido seu melhor amigo e pais duas vezes, envelhecido. Tinha lembrado de Chanyeol como uma luz acesa em um cômodo da casa para onde não se vai todos os dias, mas que continua ali, como uma memória afetiva.

A primeira semana em Seul foi tomada por reuniões, documentos, visitas a imóveis comerciais, conversas sobre contratação, termos em inglês misturados ao coreano, cafés rápidos, trânsito e uma quantidade ofensiva de planilhas. 

Baekhyun ficou em um apartamento temporário, novamente no térreo, porque alguns hábitos sobreviviam mesmo depois que o medo deixava de mandar em tudo. Minseok apareceu no segundo dia com comida suficiente para alimentar cinco pessoas e Mongryong por uma semana, ajoelhou no chão para receber o cachorro e chorou de verdade quando viu o focinho branco dele.

— Você está mais velhinho — Minseok acusou, segurando o rosto de Mongryong com as duas mãos.

Mongryong lambeu o queixo dele com uma solenidade pequena.

— Ele ouviu isso de você nos anos por vídeo — Baekhyun disse.

— Ao vivo é mais nítido.

A cidade entrou em Baekhyun aos poucos. Não como casa imediata, não como revelação, mas como uma coisa antiga que precisava ser reaprendida. Também foi visitar os pais no interior em um dos finais de semana, então demorou um pouco para conseguir realmente entender que a capital agora era novamente seu lugar.

Às vezes, no caminho para uma reunião, via turistas parados em pontos que ele atravessara tantas vezes sem considerar. Começou a achar curioso como esses pontos podiam ser procurados por tanta gente, enquanto ele, quando morava ali, raramente tinha parado para olhar. 

Foi depois de uma dessas caminhadas sem objetivo, voltando de uma visita técnica perto do centro, que Baekhyun abriu a lista de contatos. Não procurou Chanyeol de imediato. Fingiu, por alguns minutos, que estava apenas organizando números que já não faziam sentido manter. Havia restaurantes fechados, colegas antigos, serviços que talvez nem existissem mais, nomes sem rosto. Então Park Chanyeol apareceu na tela como uma coisa pequena demais para tudo que carregava.

Dez anos eram tempo suficiente para alguém trocar de número várias vezes. Tempo suficiente para não responder. Ou para estar em outro relacionamento, ocupado, feliz, indiferente, cansado, em outra vida que não abria espaço para fantasmas educados do passado. Ainda assim, escreveu.

 

baekhyun: não sei se esse ainda é seu número.
voltei para a Coreia por causa do trabalho, faz algumas semanas.
pensei que talvez eu devesse dizer oi.
oi, Chanyeol.

 

Quase apagou, mas deixou que aquilo surgisse sem análise demais ou expectativa demais. A resposta não veio rápido. Isso, de algum modo, o tranquilizou.  No final do dia, quando já tinha retornado da caminhada lenta com Mongryong, havia uma notificação.

 

parkchanyeol: ainda é meu número.

 

Baekhyun sentiu o palpitar do próprio coração como se fosse um adolescente. 

 

parkchanyeol: oi, Baekhyun.

 

O nome dele escrito daquele jeito atravessou dez anos sem pedir licença. Baekhyun encostou a cabeça na parede por um segundo. A conversa que veio depois foi simples demais para o que significava. Chanyeol perguntou quando ele tinha chegado. Baekhyun contou da filial, da promoção, de Minseok, de Mongryong velho e ainda mandão. Chanyeol demorou um pouco antes de responder a essa parte.

 

parkchanyeol: sinto saudade dele.

 

Baekhyun leu a frase várias vezes. Não porque ela escondesse algo, afinal Chanyeol realmente poderia sentir saudade do cachorrinho. Não dizia que sentia saudade de Baekhyun, mas ele se perguntou se sentia.

Combinaram de se encontrar no sábado. Chanyeol sugeriu o campo perto do abrigo. Baekhyun aceitou antes de pensar demais, e depois passou o resto da semana pensando. Agora tinha o próprio automóvel para se locomover. 

O caminho até lá parecia menor do que na memória e, ao mesmo tempo, mais longo. Talvez fosse o efeito de voltar a um lugar onde outra versão de si ainda caminhava.  O abrigo tinha mudado muito. Baekhyun percebeu antes mesmo de chegar ao campo. Havia uma placa nova, maior, bonita, com identidade visual profissional. O espaço parecia gigantesco, melhor estruturado. Apenas com a vista de longe, ele poderia afirmar que Chanyeol tinha feito aquilo crescer.

Antes mesmo de vê-lo, Baekhyun sentiu orgulho. O campo florido ficava um pouco além, como antes. Não idêntico, porque nada tinha a obrigação cruel de permanecer parado por dez anos, mas reconhecível. Havia flores baixas espalhadas em manchas de cor, vento mexendo a grama, céu claro demais para uma cena que Baekhyun esperava mais dramática em alguma parte secreta de si. 

Não era dramática, era apenas um sábado. Prendeu o guia em seu cachorro, mas caminhou com ele no colo, seus passinhos precisavam desse auxílio de vez em quando agora.

Chanyeol estava de costas quando Baekhyun o viu. Mais largo nos ombros, talvez. O cabelo um pouco mais curto, mas a postura ainda conhecida. Havia alguma coisa de homem que tinha passado por anos reais. Usava uma camisa clara dobrada nos antebraços. Quando se virou, Baekhyun entendeu de uma vez o que dez anos faziam e não faziam com uma pessoa. Chanyeol estava mais velho, mais bonito em sua visão. 

Por um segundo, nenhum dos dois se moveu. Havia distância suficiente entre eles para que um cumprimento comum fosse possível, e história suficiente para que nenhum cumprimento comum servisse.

Chanyeol sorriu primeiro e soltou aquele “uau” versão idioma coreano que era bastante comum para demonstrar surpresa na cultura deles. Baekhyun por ter ficado tão distante daquilo por anos, achou que o outro parecia tão tradicionalmente mais coreano que ele mesmo agora. A voz estava mais baixa talvez, ou apenas mais assentada no próprio corpo. Baekhyun riu. 

— Não acredito que é você, Chanyeol.

Eles se aproximaram sem pressa. Byun colocou o cachorrinho no chão. O abraço aconteceu porque Baekhyun tomou a iniciativa. No começo, Chanyeol foi contido, mas Baekhyun fez questão de apertá-lo em seus braços. Estava cheiroso como os homens que se relacionou nesses dez anos nunca pareceram estar. Chanyeol respirou perto do cabelo dele, e Baekhyun sentiu o braço do outro firmar mais. 

Quando se afastaram, Chanyeol olhou para ele como se estivesse tentando não olhar demais. Desviou a atenção para Mongryong então que o recebeu com uma felicidade que seria muito enérgica antigamente, mas que agora condizia com sua idade.

— Você está diferente — afirmou Chanyeol com a voz doce.

— Isso foi para mim ou para Mongryong? — Baekhyun não perdeu a oportunidade de quebrar o gelo. 

— Acho que para vocês dois. 

Baekhyun riu, porque era mais fácil do que dizer que Chanyeol também estava diferente e que aquilo o deixava um pouco encantado, um pouco desejoso, um pouco se sentindo jovem. 

Caminharam pelo campo primeiro, sem entrar de imediato nas coisas grandes. Chanyeol contou do abrigo como quem tenta resumir uma década sem transformar tudo em relatório. Depois do incêndio, demorou um tempo até a vida voltar ao lugar, se é que voltava. 

A clínica onde trabalhava fechou por meses, ele foi para outro espaço, depois decidiu abrir a própria clínica de fisioterapia com uma colega. No começo era pequeno, cansativo, quase imprudente, mas funcionou e cresceu. O abrigo também. A irmã e o cunhado continuaram envolvidos, mas o projeto ficou grande demais para depender só da boa vontade de poucos. 

Um programa internacional de apoio a iniciativas sociais conheceu o trabalho por meio de uma feira de adoção, depois vieram parcerias, patrocínios, doações maiores, empresas interessadas em responsabilidade social, voluntários mais organizados, uma equipe fixa. Chanyeol falava disso com orgulho, mas não com vaidade. Como se ainda se surpreendesse com o fato de algo que começou no improviso agora tivesse sala administrativa, calendário anual e gente suficiente para cobrir folgas.

O vento atravessou o campo e trouxe cheiro de terra, grama e alguma flor que Baekhyun não saberia nomear. 

Chanyeol também perguntou da vida dele. Baekhyun falou da empresa, da filial, da equipe que ainda estava montando, do quanto era estranho voltar com cargo alto para uma cidade onde, em algum momento, tinha se sentido pequeno demais dentro da própria rotina. O outro ouviu como sempre ouvia, sem a pressa de responder. 

— Combina com você ser diretor — disse depois.

Baekhyun ergueu as sobrancelhas.

— Combina com você ser dono de grandes iniciativas — rebateu Baekhyun.

Depois de algum tempo, Baekhyun decidiu que era hora de levar Mongryong de volta para casa para descansar. Chanyeol o convidou para darem uma volta à noite, quando ele terminasse alguns compromissos com o abrigo. 

— Pode ser — confirmou. — Gostaria que você me mostrasse o abrigo novamente, na verdade. Parece que mudou bastante. 

Os olhos de Chanyeol brilharam. Confirmaram que Baekhyun voltaria assim que deixasse Mongryong em seu conforto.

 

.

Depois de o mais alto mostrar todas as novidades do abrigo, estavam tomando um chá gelado no centro da cidade. 

— Sabe o que eu queria? — Baekhyun começou.

— Hm? 

— Visitar pontos turísticos de Seul.

Park riu sem deboche, apenas parecia genuinamente feliz. 

— Bateu a saudade? 

— Eu percebi que tem alguns que eu nunca visitei, acredita?

— Como assim, Baek? — O seu apelido saindo da boca do outro lhe dava o ar de normalidade outra vez, como se voltasse aos vinte nove anos, mas com uma bagagem totalmente diferente. — Então, por qual quer começar?

Passearam nos entornos de alguns lugares famosos, até pararem em Namsan. Chanyeol perguntou se ele queria subir pela torre ou se já tinha usado toda a coragem vertical da vida.

— Você ainda tem medo de elevador? — perguntou, com um sorriso que tentava parecer inocente e falhava.

Baekhyun olhou para ele de lado.

— Tenho uma relação de respeito com elevadores.

— Isso é jeito adulto de dizer sim?

— É um jeito adulto de dizer que eu entro quando preciso e julgo a manutenção em silêncio.

Chanyeol riu alto, e o som pareceu bater em algum lugar antigo do peito de Baekhyun.

— Estou orgulhoso de você.

— Por entrar em elevadores?

— Por vencer coisas que te assustam.

Baekhyun ficou quieto. Chanyeol percebeu, mas não pediu desculpa pela frase. Talvez porque fosse verdadeira demais para ser recolhida. De qualquer maneira, Baekhyun preferiu não subir a Namsan Tower.

À noite, estavam à beira do rio Han, em uma noite de vento frio, comendo algo comprado de uma loja de conveniência e ficaram sentados lado a lado, vendo bicicletas passarem. Às vezes, o silêncio vinha e nenhum dos dois tinha pressa de preenchê-lo. O passado estava ali, mas não ocupava todos os lugares; isso era novo.

— Como está Minseok? Eu quase não o encontrei depois que você foi embora — confessou Chanyeol. 

— Ele ainda é o mesmo, envelheceu bem menos do que eu, não sei como consegue. 

Eles riram.

— Você teve alguém lá em Chicago? 

Chanyeol pareceu receoso ao perguntar. Baekhyun sentiu que, na verdade, o outro queria saber se ele ainda tinha algum relacionamento romântico. 

— Tive pessoas. Nada tão longo. Acho que eu estava focado demais na minha carreira… E você?

— Eu fui praticamente casado, se isso fosse permitido legalmente aqui. Para a gente, era casamento. Durou alguns anos. Quatro, quase cinco, dependendo de onde a gente começa a contar. Acabou há um ano e meio. Acabou antes, eu acho. Só demoramos para aceitar. 

Baekhyun deixou a imagem pousar.

— Você foi feliz? — quis saber. 

Chanyeol demorou a responder, e Baekhyun gostou que demorasse. Respostas rápidas demais teriam parecido defesa.

— Fui. Eu queria ter sido melhor em algumas coisas, talvez ele também quisesse. 

— Acho que isso vale para todo mundo.

Baekhyun sentiu alguma coisa antiga se mover, mas não deixou que tomasse o corpo inteiro.

 

.

Nos dias seguintes, o reencontro aconteceu aqui e ali. Baekhyun mostrou a nova rotina aos poucos. Foi em uma tarde, novamente no campo florido, algumas semanas depois do primeiro encontro, que o sonho voltou para a conversa.

Tinham ido ao abrigo porque Chanyeol precisava resolver algo rápido e Baekhyun tinha insistido que queria ver os cães. A primavera deixava o lugar mais bonito que o de costume. Mongryong não tinha ido dessa vez, estava dormindo em casa, poupado de grandes deslocamentos. 

Baekhyun e Chanyeol caminharam até o mesmo trecho do campo onde tinham conversado dez anos antes sobre a proposta dos Estados Unidos, sobre medo, escolha e a possibilidade insuportável de se gostarem no tempo errado.

Sentaram na grama, sem muita cerimônia. O céu estava claro, o vento movia as flores em ondas pequenas, e a vida parecia acontecer no volume certo. Baekhyun pegou uma flor caída entre os dedos, girando devagar. Chanyeol estava ao lado dele, perto o bastante para que seus ombros quase se tocassem, longe o bastante para que qualquer aproximação ainda fosse escolha.

— Eu tive um sonho com você depois que fui embora — Baekhyun disse.

Não planejou. A frase simplesmente saiu. Chanyeol olhou para ele com cuidado.

— Um dos ruins?

— Não.

Baekhyun continuou olhando para a flor em sua mão.

— Foi depois de eu saber do incêndio da clínica pelo Minseok.

Chanyeol ficou muito quieto.

— A gente estava velho — Baekhyun disse, e sentiu o ridículo da frase tarde demais. Mesmo assim, continuou. — Idosos. Aqui nesse campo. Você estava procurando seus óculos, mas eles estavam na sua cabeça.

Baekhyun ergueu os olhos. O rosto dele tinha perdido a cor de um jeito quase imperceptível. Não medo, exatamente, era quase uma incredulidade. 

— O que foi?

Chanyeol soltou o ar devagar, como se tivesse segurado desde outra década.

— Era um fim de tarde? E eu disse que ainda havia tempo para dar uma volta? — perguntou.

Baekhyun sentiu o corpo inteiro parar. Chanyeol olhava para ele agora, os olhos grandes demais outra vez, como eram quando alguma coisa ultrapassava qualquer explicação segura. Então, Byun começou a rir. Aquelas risadas que começam com um nervosismo e quando a outra pessoa começa a acompanhar ninguém mais consegue parar.

— Eu nunca vou me acostumar com isso —  falou depois de respirar fundo dos segundos de gargalhadas entre os dois. 

O vento passou, movimentando a grama, as flores e a ponta da camisa de Chanyeol. Tudo ao redor permaneceu absurdamente normal. 

— E agora? — perguntou Chanyeol limpando o cantinho dos olhos. 

— Agora o que, Yeol?

— Ainda dá tempo para a gente?

Baekhyun demorou. Não porque não soubesse o que sentia, mas porque, pela primeira vez, não queria responder a partir da urgência ou do destino. Queria responder como a pessoa que atravessou dez anos, outro país, outro idioma, outros corpos, outro tudo. Chanyeol sorriu de um jeito tão pequeno.

Baekhyun olhou para o homem que tinha amado, confessava em sua mente agora, jovem demais.  A mão de Chanyeol estava apoiada na grama entre eles. Baekhyun poderia esperar mais e não tocá-la. Mas eles esperaram de certa forma, por dez anos. Em vez disso, pousou a flor caída em cima da mão de Chanyeol. E quando os olhos do outro se distraíram com o ato, Baekhyun teve coragem para aproximar seus rostos.

Ao perceber o movimento, inclinou-se lentamente e foi Baekhyun quem o trouxe para mais perto. O toque foi uma rendição. Ao pressionar seus lábios contra os dele, em um gesto ainda doce e terno, Baekhyun sentiu as sombras dos anos perdidos recuarem; a distância física sumiu, substituída pelo gosto familiar que ele jamais conseguira esquecer. 

— Isso é um sim? — brincou Chanyeol, travesso, quando o beijo acabou.

Baekhyun olhou para o campo, depois para ele.

— É um começo.

Pela primeira vez, Baekhyun não teve a sensação de que o tempo estava levando alguma coisa embora. Parecia, enfim, que estava trazendo.