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Categories:
Fandom:
Language:
Português brasileiro
Series:
Part 1 of Contos de Baíra
Stats:
Published:
2026-06-19
Updated:
2026-06-19
Words:
11,687
Chapters:
3/18
Hits:
8

Contos de Baíra: O Menino, as Aves e o Sol Faminto

Summary:

Quando uma escuridão impossível cobre a Mata Grande, os alimentos começam a apodrecer, os animais abandonam seus caminhos e as crianças adoecem de frio. Baíra, um jovem capaz de tomar emprestadas as formas e habilidades dos animais, descobre que a crise vem de muito além de sua aldeia.

Ao lado da cuidadosa Amana e do leal Raoni, ele parte em busca do Povo do Céu, que guarda acima das nuvens o Sol Faminto — uma luz antiga, poderosa e perigosa, mantida longe dos humanos desde uma devastação esquecida.

Mas cada território possui suas próprias leis, todo empréstimo exige devolução e os aliados sempre cobram alguma forma de reciprocidade. Conforme atravessa domínios de aves, ventos e seres antigos, Baíra percebe que a história da chama foi alterada e que isso esconde uma culpa ligada à queda do primeiro Urubu-Rei.

Para salvar sua comunidade, ele precisará decidir até onde pode ir sem se tornar igual àqueles que usam a urgência como desculpa para tomar o que não lhes pertence.

Chapter 1: CAPÍTULO 1 - Quando os bichos falavam

Summary:

Depois arrancou um quarto fruto do ramo, colocou-o na bolsa de Baíra e disse:

— Leve todos ao filhote.

— Levo.

— Não coma nenhum.

— Não gosto desses frutos.

— Mentira.

— Gosto pouco.

— Não coma.

— Está bem.

Chapter Text

PARTE I — A MATA GRANDE

CAPÍTULO 1

Houve um tempo em que os animais falavam com a gente.

Quer dizer, eles ainda falam. A gente é que desaprendeu a entender o que dizem.

Os pássaros avisam quando a chuva vem. Os macacos gritam quando a onça passa. As formigas conversam com o chão, os peixes conversam com a correnteza e até as árvores, que parecem tão caladas, passam o dia inteiro contando umas às outras aquilo que as raízes encontraram debaixo da terra.

Nós escutamos tudo. Só não compreendemos mais.

Houve também um tempo em que os Antigos andavam perto do chão. Alguns tinham rosto de gente. Outros vestiam corpo de bicho, rio, tempestade ou árvore. Havia os Senhores do Vento, a Gente da Trovoada, os Donos das Águas e aqueles que sabiam falar palavras tão fortes que o mundo precisava obedecer.

Monstros também andavam por aí. Ainda andam. Tem gente que parece gente só por fora.

Agora, os Antigos... não sei dizer se continuam caminhando entre nós. Talvez tenham ido embora. Talvez tenham aprendido a se esconder melhor do que os bichos.

Meu avô contava as histórias que escutara do avô dele. Minha avó contava o que aprendera com as tias velhas que a criaram. Essas tias já eram velhas quando a mãe de minha avó ainda dormia em rede pequena. Por isso ninguém sabe ao certo quando tudo aconteceu.

Só sabemos que foi há muito tempo.

Antes de as castanheiras cortarem o céu com folhas e galhos.

Antes de os rios escolherem os caminhos pelos quais correriam.

Antes de a Lua conhecer todas as estradas da noite.

Naquele tempo, os bichos falavam e os humanos sabiam escutar.

E nós vivíamos com medo.

História bonita costuma dizer que era bom andar ao lado dos Antigos. Quem conta assim nunca encontrou um Senhor do Vento irritado no meio de uma tempestade. Nunca escutou uma onça perguntar por que alguém entrou no território dela. Nunca precisou explicar à Cobra Grande por que sua gente estava pescando no rio que ela chamava de casa.

O ser humano é coisa frágil.

Não tem garra.

Não tem asa.

Não tem bico, casco ou couro grosso para segurar os dentes do frio.

Nossa pele abre fácil. Nosso osso quebra fácil. A febre pega a gente, a fome pega a gente, a correnteza leva a gente embora.

A gente morre fácil.

Mas Nhanderuvuçu não fez o ser humano de qualquer jeito. Fez pequeno, talvez. Fraco, pode ser. Só que colocou dentro dele uma coisa que não deu aos outros seres.

A vontade de aprender aquilo que não devia.

Foi assim que nasceu Baíra.

Quando chegou ao mundo, parecia apenas um menino pequeno, desses que correm sem sandália pelo terreiro, sobem onde não foram chamados e perguntam tanta coisa que a mãe começa a lamentar o dia em que ensinou a criança a falar.

Mas Baíra não olhava uma ave e enxergava apenas penas.

Enxergava um caminho para o céu.

Não olhava o peixe e via apenas escamas.

Via uma estrada debaixo da água.

Não olhava uma onça e via somente dentes.

Via uma maneira de caminhar sem pedir licença ao barulho.

Dizem que Baíra podia tomar emprestado o jeito dos animais. Se conhecesse bem um bicho, se compreendesse sua fome, seu medo e sua maneira de andar pelo mundo, podia vestir parte de sua forma.

Mas havia regras.

Sempre há regras.

Meu avô dizia que Baíra nunca gostou delas.

Minha avó dizia que ele gostava, sim. Gostava tanto que passava o dia inteiro procurando os espaços que existiam entre uma regra e outra.

Foi num desses espaços que quase morreu pela primeira vez.

Ou pela terceira.

Nessa parte, meu avô e minha avó nunca concordavam.

 

— Você prometeu que não ia subir mais.

Baíra abraçou o tronco da castanheira e olhou para baixo.

Amana estava três galhos abaixo, equilibrada numa forquilha estreita como se o chão não ficasse longe o bastante para transformar qualquer erro em morte. Tinha uma bolsa de sementes atravessada no peito, o cabelo preso por uma tira de palha e aquela expressão que usava sempre que Baíra fazia alguma coisa perigosa.

Era uma expressão muito usada.

— Eu não prometi isso — respondeu ele.

— Prometeu.

— Prometi não subir depois que encontrasse a arara.

Amana apontou para cima.

— E aquilo é o quê?

No galho mais alto, uma arara-vermelha examinava Baíra com um olho redondo e amarelo. Suas penas misturavam vermelho, azul e amarelo, como se o entardecer tivesse arrancado um pedaço de si e dado a ela.

Entre as aves da copa, era chamada de Pena de Entardecer.

Entre os humanos, era conhecida por roubar frutos, insultar caçadores e guardar ofensas durante mais tempo do que qualquer pessoa considerava razoável.

— Ainda estamos conversando — disse Baíra.

— Você está pedindo. Ela está recusando.

— Toda recusa é uma conversa que ainda não terminou.

Pena de Entardecer bateu o bico contra o galho.

— Terminou faz tempo.

Amana inclinou a cabeça.

— O que ela disse?

— Que está pensando.

A arara abriu as asas.

— Eu disse não.

Baíra lançou-lhe um olhar.

— Você não está ajudando.

— Não quero ajudar.

Amana cruzou os braços.

— Ele disse não, não foi?

— Disse uma palavra que pode ter vários sentidos.

— "Não" costuma ter um só.

Folhas se moveram abaixo deles. Raoni surgiu entre os galhos trazendo um cesto preso às costas. Raízes, folhas medicinais e frutos apareciam acima da borda.

Ele era três anos mais velho que Baíra e Amana e já tinha os ombros largos de quem passava os dias carregando madeira, água, caça e, quando necessário, amigos inconscientes.

Cuidava dos dois desde que aprenderam a andar.

Quando eram crianças, isso significava repartir comida e limpar joelhos machucados. Agora significava descobrir onde Baíra havia se metido e chegar antes de ele cair.

— Eu disse que ele estaria aqui — falou Amana.

— Você sempre diz isso — respondeu Raoni.

— E sempre estou certa.

Raoni olhou para Baíra.

— Ela vai jogar você daí.

— Amana não faria isso.

— Não falei de Amana.

Pena de Entardecer estalou o bico.

Baíra apertou o tronco.

— Arara gosta de mim.

— Gosto de ver você indo embora — disse a arara. — Não é igual.

Raoni deixou o cesto preso a um ramo e começou a subir.

— O que você quer dele?

— Só um empréstimo.

— De quê?

Baíra olhou para as asas da arara.

Raoni parou.

— Não.

— Nem perguntei a você.

— Não precisava.

— Eu observei Pena de Entardecer durante quarenta e duas manhãs.

— Quarenta e três — corrigiu Amana. — Você contou duas vezes o dia da chuva grande.

— Então observei durante quarenta e três.

— Continua sendo uma ideia ruim — disse Raoni.

Baíra voltou-se para a arara.

— Conheço os frutos que você come.

— Todos conhecem.

— Sei onde você dorme quando o vento vem do leste.

— Porque me seguiu.

— Sei que limpa o lado direito do bico antes do esquerdo. Sei que evita as correntes quentes depois do meio do dia. Sei que inclina uma asa mais que a outra porque perdeu duas penas quando enfrentou o gavião preto.

Pena de Entardecer eriçou as penas do pescoço.

— Ele atacou o filhote.

— Eu sei. Também sei que você não gosta de subir acima daquela copa porque o vento fica fino e cheira a pedra fria.

A arara permaneceu imóvel.

Baíra aproveitou o silêncio.

— Conheço sua fome, seu medo e sua maneira de andar pelo mundo.

— Voar — corrigiu ele, — Aves não andam pelo mundo. O mundo passa debaixo de nós.

— Então me deixe conhecer isso também.

Amana subiu até ficar ao lado dele.

— Você não precisa fazer isso hoje.

— Preciso.

— Por quê?

Baíra olhou entre as folhas.

Lá embaixo, a Mata Grande se estendia em camadas de verde. Do chão, ninguém enxergava muito além da próxima árvore. As trilhas faziam curvas, o rio desaparecia atrás das margens e o céu existia apenas em pequenos pedaços entre as copas.

Desde pequeno, Baíra tinha a sensação de que o mundo escondia alguma coisa atrás de cada curva.

Naquele dia, a sensação estava mais forte.

— Os Cantores da Manhã ficaram calados — disse.

Amana olhou para cima.

Nas árvores próximas, pequenas aves saltavam entre galhos e cipós. Havia sementes, frutos e insetos suficientes para provocar uma discussão que durasse até o meio do dia.

Mesmo assim, poucas cantavam.

— Talvez tenham encontrado alimento em outro lugar — disse Raoni.

— Todas elas?

— Você quer voar porque os pássaros estão quietos?

— Quero voar porque alguma coisa fez os pássaros ficarem quietos.

Pena de Entardecer moveu a cabeça devagar.

— As pequenas sentem mudanças antes das grandes.

Baíra sorriu.

— Então você também percebeu.

— Perceber não cria uma dívida entre nós.

— Não falei em dívida.

— Humanos sempre falam em dívida. Às vezes usam outras palavras.

Baíra retirou da bolsa presa à cintura três frutos roxos.

— Levo estes ao seu filhote.

— Ele sabe colher.

— Afastei a serpente do ninho dele na última chuva.

— Você atirou uma cabaça nela.

— Funcionou.

— A serpente ainda reclama.

— Ela está viva para reclamar.

Pena de Entardecer desceu para um galho mais próximo. O bico quase tocou o rosto de Baíra.

— Por que deseja meu voo?

Ele poderia ter respondido que queria enxergar o rio inteiro. Que desejava descobrir o que existia além das copas. Que sonhava em alcançar as nuvens e tocar o lugar onde a chuva começava.

Tudo isso era verdade.

Mas não era toda a verdade.

— Porque existe alguma coisa lá em cima — respondeu — e ninguém aqui embaixo consegue ver.

A arara ficou em silêncio.

Depois arrancou um quarto fruto do ramo, colocou-o na bolsa de Baíra e disse:

— Leve todos ao filhote.

— Levo.

— Não coma nenhum.

— Não gosto desses frutos.

— Mentira.

— Gosto pouco.

— Não coma.

— Está bem.

— Não entregue aos macacos.

— Eles não vão pegar.

— E não os troque por mel.

Baíra abriu a boca.

— Como você sabe disso?

— A mata fala.

Amana soltou uma pequena risada.

Pena de Entardecer abriu as asas.

As folhas ao redor se ergueram, embora nenhum vento atravessasse a copa. As conversas das aves cessaram. Baíra sentiu os pelos dos braços se arrepiarem.

— Empresto o primeiro vento — declarou a arara. — Desta castanheira até o grande jatobá. Do jatobá até esta castanheira. Não acima da copa. Não além do igarapé. Quando seus pés voltarem a este galho, você devolverá o que recebeu.

— Aceito.

— Diga os limites.

Baíra respirou fundo.

— Da castanheira até o jatobá e de volta. Não acima da copa. Não além do igarapé.

— E quando seus pés voltarem?

— Devolvo o que recebi.

Pena de Entardecer tocou a testa dele com o bico.

O mundo entrou em Baíra.

Os ossos de seus braços estalaram. Não quebraram, embora ele tivesse desejado que quebrassem, porque talvez doesse menos. Os dedos se alongaram e se uniram. Penas vermelhas rasgaram a pele de seus ombros, correram pelos braços e se abriram em faixas azuis e amarelas.

Seu peito apertou.

O coração disparou.

Por um instante, Baíra esqueceu como respirar.

Então o corpo da arara lembrou por ele.

O ar entrou rápido, percorreu caminhos novos dentro de seu peito e saiu carregando um grito rouco.

As cores ficaram tão fortes que doeram.

Cada folha possuía um verde diferente. Os frutos escondidos entre os galhos pareciam pontos de luz. Baíra enxergou um inseto minúsculo andando no cabelo de Amana.

— Tem um bicho na sua cabeça — tentou dizer.

Do bico saiu um grasnado.

Amana cobriu a boca.

— Não ria — falou Baíra.

Saiu outro grasnado.

Ela riu.

— Está parecendo uma arara engasgada.

— Ele não sabe falar com o bico — explicou Pena de Entardecer.

— Eu sei falar.

Grasnado.

Raoni segurou o tronco com mais força.

— Talvez seja melhor começar de um galho mais baixo.

Baíra abriu as asas.

Sabia como Pena de Entardecer as movimentava. Conhecia o ângulo que usava para desviar de uma árvore, o modo como fechava as penas nas descidas e a inclinação usada para compensar as duas penas perdidas.

Saber parecia suficiente.

Não era.

Ele saltou.

Durante um instante, não houve voo.

Houve apenas queda.

Baíra atravessou folhas e galhos finos. O vento assobiou ao redor de seu corpo. Amana gritou seu nome. Raoni tentou alcançá-lo.

Então o primeiro vento o encontrou.

O ar entrou sob suas asas e o empurrou para cima com tanta força que Baíra quase bateu contra o galho de onde havia saltado.

Ele abriu as asas por completo.

A queda se transformou em avanço.

A castanheira ficou para trás.

Baíra voou.

Passou entre duas copas, desviou de uma árvore coberta por flores amarelas e assustou um bando de periquitos.

— Humano no vento! — gritou um deles.

— Asa torta! — respondeu outro.

— Vai cair!

Baíra tentou insultá-los.

O grasnado que produziu fez os periquitos rirem.

Ele bateu as asas e subiu um pouco mais.

A Mata Grande se abriu.

Do alto, as copas formavam um chão diferente, ondulado e vivo. Pássaros pequenos corriam por baixo das folhas. Macacos saltavam por caminhos invisíveis. Insetos brilhavam no ar.

Mais adiante, o igarapé cortava a floresta como uma serpente escura.

Além dele, Baíra viu a aldeia.

As casas de palha ocupavam uma elevação próxima à água. Plataformas de secagem se espalhavam entre as árvores. Pequenas roças apareciam em clareiras abertas com cuidado, cercadas por mata preservada. Pessoas caminhavam pelas trilhas carregando cestos, madeira, peixes e sementes.

Do alto, tudo parecia pequeno.

Baíra entendeu por que as aves falavam como se fossem donas do mundo.

Quando se olha todo mundo de cima, deve ser difícil não se achar importante.

O grande jatobá surgiu à frente. Baíra contornou sua copa e iniciou o caminho de volta.

Deveria ter retornado.

Foi o que prometera.

Então viu a mancha.

Estava longe, no horizonte, acima das copas.

Uma faixa escura atravessava o céu.

Não parecia nuvem. Nuvens possuíam bordas quebradas, mudavam de forma e obedeciam ao vento. Aquela escuridão era reta demais. Densa demais.

E avançava na direção contrária às correntes.

Baíra bateu as asas e subiu.

— Não acima da copa! — gritou Pena de Entardecer.

A voz chegou fraca.

— Baíra! — chamou Amana.

Ele poderia ter voltado.

Faltava apenas uma volta ampla e o vento emprestado o levaria à castanheira.

Mas a mancha estava ali.

O espaço entre uma regra e outra parecia pequeno.

Pequeno o bastante para atravessar.

Baíra subiu além da copa.

O primeiro vento desapareceu.

Não enfraqueceu. Não mudou de direção.

Simplesmente deixou de reconhecê-lo.

Uma corrente gelada atingiu Baíra de lado. Trazia um cheiro amargo, seco, parecido com pedra depois de um raio.

A forma da arara se agitou dentro dele.

Não era apenas o medo de Baíra.

Era o medo de Pena de Entardecer.

Medo de uma coisa escondida acima das nuvens.

Medo de uma claridade capaz de caçar.

A mancha escura se abriu por um instante.

Algo brilhou dentro dela.

Não era relâmpago.

Parecia um olho vermelho se acendendo atrás de uma pálpebra de fumaça.

Baíra esqueceu de bater as asas.

A transformação começou a se desfazer.

As penas de sua asa direita desapareceram. Os dedos voltaram a se separar. O bico recuou, e o peso humano retornou antes que o céu terminasse de devolvê-lo.

Ele caiu.

A copa avançou em sua direção.

— Lembre do seu peso! — gritou Amana.

Baíra tentou abrir a asa esquerda.

Seu braço apareceu no lugar dela.

— Lembre de ser você!

Ser ele.

Baíra fechou os olhos.

Lembrou dos pés descalços no barro.

Da cicatriz na palma da mão.

Da dor antiga no joelho esquerdo.

Da fome que sempre vinha depois de vestir outra forma.

Lembrou da voz de Amana corrigindo tudo que ele dizia.

Lembrou das mãos de Raoni puxando-o para fora do rio, de um buraco, de uma árvore ou de qualquer lugar onde não deveria estar.

Lembrou que era humano.

A forma da arara o deixou.

O que não foi uma melhora.

Baíra atravessou a primeira camada de folhas, bateu as costas num galho e conseguiu agarrar um cipó.

O impacto arrancou o ar de seus pulmões.

Por alguns instantes, ficou pendurado sobre o vazio.

Raoni desceu pelos galhos acima dele.

— Não solte.

— Eu não pretendia.

O cipó estalou.

— Mudei de ideia — disse Baíra.

Raoni prendeu as pernas ao redor de um galho e estendeu a mão.

— Olhe para mim.

Baíra olhou.

— Quando eu mandar, solte.

— Isso parece ruim.

— Confie em mim.

— Confio. Só não confio no cipó.

Outra fibra se rompeu.

— Agora!

Baíra soltou.

Caiu pouco mais de um braço antes que Raoni agarrasse seu pulso. O impacto quase deslocou o ombro dos dois. Raoni gemeu, mas não abriu a mão.

Amana alcançou-os e segurou o outro braço de Baíra.

Juntos, puxaram-no até o galho.

Baíra ficou deitado de costas, tentando recuperar o ar.

— Consegui — murmurou.

Amana ajoelhou-se ao lado dele.

— Conseguiu o quê?

— Voar.

— Você caiu.

— Depois de voar.

— Quebrou a permissão.

— Só passei um pouco acima da copa.

— Não existe "um pouco" fora de um limite.

Raoni examinou as costelas de Baíra.

— Dói aqui?

— Não.

Raoni apertou.

Baíra gemeu.

— Então dói.

— Só quando você aperta.

— Porque está machucado.

Pena de Entardecer pousou diante deles.

Suas penas estavam eriçadas.

— Você tomou o vento além daquilo que ofereci.

Baíra sentou-se com dificuldade.

Algumas penas vermelhas ainda cobriam seu antebraço.

— Tomei.

— Sua intenção não muda o que fez.

— Eu sei.

— Humanos dizem isso quando desejam encerrar uma conversa.

— Desta vez eu sei mesmo.

A arara o observou.

— O que viu?

Baíra olhou para o alto.

O céu parecia normal outra vez. Azul, claro e imóvel.

— Uma escuridão.

— Nuvem?

— Não.

— Tempestade?

— Não.

— Asa?

— Grande demais.

Pena de Entardecer aproximou-se.

— Devolva o que recebeu.

Baíra colocou a mão no galho.

Dentro dele ainda havia coisas que não lhe pertenciam: a vontade de quebrar sementes com o bico, o impulso de defender um ninho, o prazer de sentir o vento sob as penas.

Havia também o medo.

Ele tentou separar as lembranças.

Pena de Entardecer puxou tudo de uma vez.

As penas restantes se soltaram do braço de Baíra. A pele ficou marcada e vermelha. Uma fome violenta abriu-se em seu estômago.

A arara cambaleou.

Por um instante, suas asas se abriram como se alguma coisa a tivesse atingido.

— Você trouxe algo de volta — disse a Arara.

— O quê?

— Um cheiro.

Amana olhou para Baíra.

— O cheiro da mancha?

Pena de Entardecer encarou o céu.

— Caminhos queimados.

Raoni recolocou o cesto nas costas.

— Precisamos voltar.

Dessa vez, ninguém discordou.

 

A aldeia da Curva do Igarapé havia sido construída numa parte elevada da floresta, onde as águas das chuvas enchiam os canais sem alcançar as casas.

Nenhuma trilha seguia em linha reta. Os caminhos desviavam de árvores antigas, pedras de memória, roças, ninhos e lugares onde os Donos da Mata preferiam não ser incomodados.

Antes das primeiras casas, eles encontraram Acauã.

O leitor de rastros voltava da vigilância das trilhas com o arco preso às costas e lama até os joelhos. Ao lado dele seguia Cauã, seu aprendiz, carregando um feixe de varas e tentando pisar exatamente nas marcas deixadas pelo mais velho.

— Encontraram caça? — perguntou Raoni.

Acauã olhou para a floresta atrás deles.

— Encontramos rastros.

— De quê?

— De tudo.

Amana franziu a testa.

— Isso não responde.

— Os animais estão deixando a parte oeste da mata — explicou Acauã. — Porcos, veados, pacas, até as serpentes. Muitos seguem para o rio. Outros voltam no meio do caminho, como se não soubessem para onde fugir.

Cauã apontou para Baíra.

— Ele caiu de novo?

— Não — respondeu Baíra.

— Sim — disseram Amana e Raoni juntos.

Cauã sorriu.

— De que altura?

— Não foi uma queda completa.

— O que é uma queda completa?

— Uma da qual a pessoa não volta para reclamar — explicou Raoni.

Eles entraram na aldeia.

Poti, responsável pelas construções, trabalhava debaixo de uma plataforma elevada. Batia numa viga de madeira e encostava o ouvido nela para descobrir onde começava a rachadura.

Arani estava sentada perto dele, trançando fibras para substituir as amarrações antigas das casas, canoas e depósitos.

— Essa corda não durou uma estação — reclamou Poti.

— A corda durou — respondeu Arani. — Você a amarrou mal.

— A árvore cresceu torta.

— A árvore estava aqui antes de você.

Poti ergueu o rosto e viu Baíra.

— Caiu de onde?

— Por que todos acham que eu caí?

Arani apontou