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Capitulo Único
Antes de existir noite, o mundo não conhecia descanso.
A claridade permanecia sobre a terra sem fechar os olhos. Não havia sombra bastante para esconder um animal ferido, nem escuridão onde uma criança pudesse dormir sem cobrir o rosto. As águas dos rios aqueciam, os frutos amadureciam depressa demais e as folhas nasciam já cansadas.
Naquele tempo, a luz não morava no céu.
Caminhava sobre o chão.
Era guardada por um dos Antigos, um ser cujo primeiro nome foi arrancado das histórias. Alguns o chamaram de Senhor da Boca Vermelha. Outros, de Dono do Calor Vivo. Entre os povos que sobreviveram ao seu domínio, porém, ele recebeu apenas um nome:
Aquele que Queima.
Não tinha uma única forma.
Quando desejava ser admirado, vestia corpo de homem alto, coberto de ouro e pedras brilhantes. Quando queria atravessar os campos, tornava-se um animal de pernas compridas, com cascos que deixavam brasas nas pegadas. Quando se enfurecia, crescia até tocar as nuvens e abria no lugar da boca uma fenda cheia de luz.
Onde ele passava, a terra escurecia.
Não havia ainda grandes aldeias humanas. Os homens e as mulheres eram poucos, frágeis e recentes, mas os animais, os rios e as árvores já conheciam a crueldade do Antigo.
Ele carregava dentro de uma cumbuca fechada, a Primeira Chama.
Não era chama como as pequenas luzes que mais tarde aqueceriam casas, endureceriam barro ou afastariam predadores. Era uma parte viva da claridade original. Possuía vontade, fome e voz.
A Primeira Chama comia tudo que tocava.
Comia folhas.
Comia madeira.
Comia carne, memória e nome.
Quando Aquele que Queima a libertava, ela não distinguia inimigo de inocente. Crescia enquanto encontrasse alguma coisa para consumir e, quando não restava nada, virava-se contra quem a havia alimentado.
Ainda assim, o Antigo acreditava controlá-la.
Os poderosos costumam confundir obediência com espera.
Ele exigia tributos dos que viviam sobre a terra. Os macacos entregavam os frutos mais doces. As onças caçavam para ele. Os rios desviavam suas águas quando recebiam uma ordem. Até os Senhores do Vento precisavam baixar a cabeça diante da vasilha ardente.
Quem recusava via seu território consumido.
Quem questionava perdia o nome.
Quem fugia descobria que a claridade corria mais depressa do que pernas, asas ou correnteza.
Durante muitas estações, ninguém ousou enfrentá-lo.
Então nasceu uma noite no coração de um urubu.
Ele ainda não era rei.
Não possuía coroa, seguidores ou nome conhecido pelos seres do chão. Era apenas uma grande ave negra, de pescoço vermelho e asas largas, que voava acima das montanhas à procura daqueles que haviam morrido.
Os outros animais desconfiavam dele.
Diziam que a ave gostava demais do fim das coisas.
O urubu não se ofendia. Sabia que toda vida deixava algum peso para trás e que alguém precisava transformar morte em começo. Onde os outros enxergavam podridão, ele via alimento devolvido à terra.
Por isso foi o primeiro a perceber que algo estava errado.
Os mortos deixaram de apodrecer.
Nos campos queimados pela Primeira Chama, nada retornava ao chão. Não surgiam insetos, brotos ou fungos. Os corpos permaneciam negros, leves e vazios, como se até a morte tivesse sido devorada.
O urubu pousou no galho de uma árvore carbonizada.
— Isto não é fim — disse ele.
A árvore ainda possuía uma raiz viva sob o solo.
— Então o que é?
— Fome sem devolução.
As raízes levaram a resposta para outras árvores. As árvores contaram aos fungos. Os fungos avisaram aos insetos. Os insetos falaram com as aves pequenas, e as aves espalharam a notícia pela copa.
A Primeira Chama estava quebrando a troca do mundo.
Aquilo que comia não retornava.
Aquilo que morria não alimentava.
Aquilo que desaparecia deixava apenas ausência.
O urubu procurou os grandes seres do céu.
Foi até os Senhores do Vento.
— Levem a cumbuca para longe da terra — pediu.
O Vento do Norte agitou suas nuvens.
— Ela pesa mais do que uma montanha.
O Vento do Sul fez chover sobre suas próprias mãos.
— A água não a apaga.
O Vento do Leste percorreu o horizonte.
— O Antigo conhece todos os nossos caminhos.
O Vento do Oeste, que era mais velho que os outros, observou as penas brancas do urubu.
— Por que você se importa? Ainda haverá mortos para alimentar você.
O urubu abriu as asas.
— Não haverá mortos. Não como conhecemos. Haverá apenas coisas esvaziadas.
Nenhum dos ventos respondeu.
O urubu procurou então os Donos das Águas.
A Cobra Grande ergueu a cabeça no centro do rio.
— Arraste a Cumbuca para o fundo — sugeriu ele.
— A chama beberia o rio — respondeu ela.
— Esconda-a debaixo das pedras.
— Ela aprenderia a comer pedra.
— Então ajude-me a tomá-la.
A Cobra Grande fechou os olhos.
— Aquele que Queima conhece meu nome verdadeiro. Se eu enfrentá-lo, poderá mandar que minhas águas corram para trás até desaparecerem.
— Um nome que serve apenas para prender você não lhe pertence mais.
A serpente agitou o rio, irritada.
— É fácil falar quando ninguém conhece seu nome.
O urubu nada respondeu.
Naquele tempo, isso ainda era verdade.
Por último, ele procurou a Gente da Trovoada.
Subiu além das nuvens e encontrou seus salões construídos entre tempestades. As colunas eram raios imóveis. O chão estremecia sob cada passo.
— Derrubem Aquele que Queima — pediu o urubu.
A Gente da Trovoada riu.
— Nossa luz dura um instante — disseram. — A dele não termina.
— Façam o instante bastar.
Os trovões ficaram em silêncio.
Foi então que uma velha voz falou atrás dele:
— Para tomar uma coisa, é preciso oferecer outra.
O urubu se virou.
Uma mulher pequena estava sentada sobre uma nuvem escura. Seus cabelos se misturavam à chuva, e seu rosto mudava toda vez que um relâmpago iluminava o salão. Às vezes parecia gente. Às vezes, ave. Às vezes possuía olhos de onça e dentes de peixe.
O urubu não perguntou quem ela era.
Seres antigos raramente gostavam dessa pergunta.
— O que pode ser oferecido em troca da Primeira Chama? — perguntou.
— Algo que pertença a você.
— Minhas penas?
— Crescerão de novo.
— Minhas asas?
— Você aprenderia outro caminho.
— Minha vida?
A velha inclinou a cabeça.
— A morte seria pequena demais.
O urubu recolheu as asas.
— Então o quê?
A mulher apontou para o céu acima deles.
— Seu lugar.
O Urubu olhou para a imensidão.
Nenhuma ave voava mais alto do que ele. Conhecia as correntes que passavam acima das montanhas, os caminhos invisíveis entre tempestades e o silêncio que existia onde o ar se tornava fino.
O céu não lhe pertencia.
Mas era o lugar onde mais se aproximava de ser livre.
— Se eu oferecer meu lugar, a chama deixará a terra?
— Por algum tempo.
— Quanto?
— Até alguém abrir um caminho de volta.
— E o Antigo?
— Perderá aquilo que usa para governar. Não perderá a fome.
O urubu observou a velha.
— Você sabe quem abrirá o caminho?
— Sei que toda prisão ensina o prisioneiro a procurar a porta.
— Isso não é resposta.
Ela sorriu.
— É a única que receberá sem pagar mais.
O urubu deixou os salões da Trovoada antes que pudesse mudar de ideia.
Encontrou Aquele que Queima no centro de uma planície consumida. O Antigo havia reunido animais, rios menores e espíritos da mata para exigir novos tributos.
A Primeira Chama descansava dentro de uma prisão escura a seus pés.
Mesmo fechada, emitia um som semelhante ao de dentes mastigando.
O urubu pousou diante do Antigo.
As criaturas reunidas recuaram.
Aquele que Queima olhou para a ave e riu.
— Veio buscar alimento?
— Vim trazer um aviso.
— Para mim?
— Para a chama.
A Cumbuca parou de mastigar.
O antigo estreitou os olhos.
— O que uma ave que come mortos teria a dizer à luz original?
O urubu aproximou-se.
— Que você a mantém pequena.
A Primeira Chama moveu-se dentro da Cumbuca.
Aquele que Queima não riu novamente.
— Cuidado, comedor de restos.
— Você a esconde. Liberta apenas a parte que consegue chamar de volta. Alimenta-a com aldeias, árvores e animais pequenos. Diz que ela é a maior fome do mundo, mas tem medo de deixá-la comer o céu.
A tampa da Cumbuca começou a tremer.
O Antigo cresceu.
Sua pele se abriu em linhas vermelhas. Os olhos transformaram-se em dois círculos de luz.
— CURVE-SE.
A Palavra atravessou a planície.
Árvores dobraram os troncos. Animais caíram sobre os joelhos. O rio achatou suas ondas.
O urubu permaneceu de pé.
Não porque fosse mais forte.
Porque a anatomia das aves não foi feita para se ajoelhar.
Às vezes, o mundo é salvo por detalhes pequenos.
Aquele que Queima abriu o Recipiente.
Talvez desejasse castigar o urubu.
Talvez acreditasse que a ave recuaria.
Talvez a Primeira Chama já estivesse decidindo por ele. Ela se alimenta de anseios tanto quando de qualquer outra coisa.
A luz explodiu sobre a planície.
O urubu saltou.
Passou sobre a cabeça do Antigo e mergulhou diretamente na claridade.
Suas penas começaram a queimar antes que alcançasse a vasilha.
A dor não se parecia com dentes, garras ou pedra quebrando osso. A chama não queimava apenas o corpo. Procurava lembranças. Entrou pelos olhos do urubu, encontrou o primeiro voo que ele fizera e tentou comê-lo.
Ele agarrou a vasilha com as garras.
A Primeira Chama gritou.
O mundo inteiro ouviu.
O urubu bateu as asas.
Uma vez.
O chão afastou-se.
Duas vezes.
As penas de sua cauda viraram cinza.
Três.
A pele de suas asas se abriu, e a luz entrou nos ossos.
Aquele que Queima ergueu as mãos.
— VOLTE!
A Palavra agarrou o corpo da ave.
O urubu quase caiu.
Então os Senhores do Vento cumpriram aquilo que não haviam prometido.
O Vento do Norte empurrou sua asa esquerda.
O Vento do Sul sustentou a direita.
O Vento do Leste escondeu seu caminho.
O Vento do Oeste lançou-o acima das nuvens.
A Gente da Trovoada golpeou a planície.
Durante um único instante, a luz dos raios tornou-se maior que a Primeira Chama.
E o instante bastou.
O urubu subiu. A chama tentou devorá-lo.
Comeu suas penas, seu sangue e parte de seu nome. Mas, quanto mais alto ele voava, menor se tornava a voz de Aquele que Queima. O céu abriu-se diante dele.
O urubu levou a vasilha até o ponto mais alto que suas asas conseguiam alcançar. Ali, ofereceu seu lugar.
O mundo aceitou.
A Primeira Chama foi arrancada da gaiola e estendida sobre o céu. Tornou-se um grande círculo de luz, distante o bastante para não devorar a terra e próximo o bastante para aquecer as águas, alimentar as folhas e marcar a passagem dos dias.
Pela primeira vez, a claridade se afastou do chão.
O dia nasceu.
Os animais se esconderam, acreditando que o mundo havia terminado.
Depois ergueram os olhos.
No alto, pontos pequenos começaram a brilhar.
A Lua abriu sua primeira estrada.
E todos compreenderam que a escuridão também podia guardar vida.
O urubu caiu.
Sem penas suficientes para sustentá-lo, atravessou nuvens, tempestades e correntes de ar. Quando atingiu a terra, já não possuía o mesmo corpo.
Nhanderuvuçu, o Senhor de Todos, encontrou-o no fundo de uma cratera.
A ave tentou levantar-se, mas suas asas haviam mudado. No lugar delas havia asas negras como madeira queimada. Suas garras tornaram-se curtas e distorcidas. O bico recuara, diminuto, deixando um rosto enrrugado pouco belo. Não era mas a ave frondosa de outrora.
— Eu salvei o mundo — disse ele.
O observou e a nova claridade no céu.
— Salvou.
— Então por que fui derrubado?
— Porque tomou a chama sem pedir.
— Aquele que a guardava não a entregaria.
— Isso torna sua escolha necessária. Não a torna sem preço.
O antigo urubu tentou se levantar.
— Qual é minha punição?
— Viver.
O Grandioso olhou para a pequena ave, inexpressivo.
— Até compreender que salvar os outros não concede o direito de decidir tudo por eles.
O caido olhou para as próprias asas. No centro, entre as plumas, ainda brilhava uma pequena centelha. Ele se fechou, para escondê-la. O Grande Pai viu, mas nada disse.
Ao longe, no meio das terras secas deixadas pela Primeira Chama, Aquele que Queima ergueu-se entre as cinzas.
Havia perdido a a Cumbuca. Havia perdido parte de sua força. Mas não perdera a fome.
Ele olhou para o novo Sol, preso no céu, e jurou que um dia encontraria um caminho para trazê-lo de volta ao chão.
Muitas estações passaram.
Florestas cresceram sobre as planícies queimadas. Rios cobriram as cicatrizes. Os humanos se multiplicaram e esqueceram por que a noite existia.
Mas nunca deixou de observar o céu, porque sabia que toda prisão possuía uma porta.E, certa noite, muito acima das nuvens, alguma coisa começou a procurá-la.
