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Os solados gastos dos sapatos esmagavam pedras até o lago. Tom e Wade se encaram por um instante antes de voltarem os olhos na direção da água escura e muito gelada.
Era só mais uma manhã na grande Bullworth, e os garotos estavam matando aula para ir alimentar os patos de manhã.
— Ainda não acredito que eu vim até aqui pra isso, coisa de criança, Tom! — Wade briga com o outro garoto pela 4ª (ou seria 5ª?) vez naquele dia, fazendo Tom recuar de leve em resposta.
Eram dois bullies, acostumados a pegar no pé de nerds e crianças pequenas, mas também tinham suas individualidades. Tom puxa do bolso uma bolsinha com um pouco de farelos de pão, olha em volta e busca um bom lugar para se sentar. Wade não vê escolha a não der repetir o gesto.
— Eles aparecem cedinho, Wade, eu não queria que enchesse demais, sabe? Além disso, você não gosta de assistir aula mesmo.
— É, não gosto, porque é idiotice.
Vestiam casacos grandes de frio e meias que, a essa altura, mal surtiam efeito na hora de esquentar seus pés. Wade assopra as palmas das mãos e olha bem para o rosto de Tom por um momento.
— Desde quando você gosta de patos, Tom?
O outro rapaz trava por uns instantes, prestes a jogar alguns farelos e atrair a atenção dos patos que começavam a reparar na presença dos meninos. Ele demora um tempo antes de responder, a voz trêmula:
— Bom, eu..acho eles legais..pra que a pergunta?
— Nunca achei que você fosse disso. Assim, eu também acho pato..engraçado. — Wade encara os bichos, que agora nadam suavemente pela superfície do lago. — É até..bom não me sentir irritado com patos.
— Você costuma se sentir irritado com patos?
— Não, Tom! Você é tapado ou o que, eu só ando muito estressado e esses patos…podiam tá me deixando bravo, só que não tão.
Tom então assente, ainda que não tenha completamento entendido tudo aquilo, e oferece alguns farelos de pão a Wade. O amigo pega em um gesto rápido, as mãos mal se tocando — mas o contato causando arrepios nos dois.
— Tá muito frio, cara! — Wade comenta.
— É mesmo, a gente pode jogar a comida e ir embora logo.
Enfim conseguiam fazer o que tinham vindo fazer. Enquanto arremessavam os pedacinhos de pão na água e viam, com interesse, os animais bicarem-nos com vigor, os garotos reparavam — de canto de olho, claro! — um no outro. Wade sempre acabava sendo o primeiro a expor seus pensamentos caóticos, então disse:
— Até que eu gosto disso.
Aquela frase, tão curta e simples, desperta um calor agradável em Tom que esquenta todo o peito do garoto e o faz sorrir para o amigo. Wade finalmente encontrava algum calor no próprio corpo naquela manhã fria.
— O que, que sorriso é esse?
— Ah, eu só fico feliz de saber. Eu também gosto dos patos.
Eles jogam um pouco mais de pão, levantando para se prepararem para a despedida.
— Eu acho que quero voltar aqui pra fazer isso de novo. Nem precisa tanto dos patos, só que seria legal se tivesse. — Wade fala tudo de uma vez, confundindo Tom. O garoto ruivo parecia meio perdido no que queria dizer e tentava expulsar tudo ao mesmo tempo. — E você vem, eu não decorei o caminho.
— A-ah, mas você sabe como—
— Não, Tom, eu quero que você venha e pronto.
Tom arregala de leve os olhos, fitando o outro rapaz por um momento. Assentiu, e seguiram pela trilha de volta para saírem do parque.
Naquele dia, Tom descobriu que gostava muito que Wade precisasse dele para as coisas. E Wade percebeu que Tom tinha muito a ensinar a ele, inclusive que companhias fazem toda a diferença.
