Work Text:
Por Srta-Athena
Trabalhar como "segurança" não era nada fácil, principalmente quando esse ofício interferia em alguns aspectos mais caseiros na qual Toji não estava acostumado.
Levar o filho de 7 anos a escolinha era um desses aspectos, se vestir e acordar cedo para arrumar o único filho para não chegar atrasado na aula, fazer supermercado, limpar a casa, tudo sozinho, eram coisas que o matador de Feiticeiros não sabia manejar, nem com o auxílio de suas vizinhas fofoqueiras. Quando sua esposa morreu, o trio boca de sacola foi como um sinal dos deuses que ele ainda merecia ajuda, mesmo que tivesse que esconder suas coisas dos olhos curiosos das senhoras.
Era um preço que ele pagava com prazer - puto, mas não podia reclamar.
— Pai, tem consulta hoje?
Toji bocejou, coçando os olhos com uma mão, enquanto mirava as panquecas na frigideira com a outra. Megumi resmungou, puxando de leve o tecido da calça do moreno, chamando a sua atenção quase que imediatamente.
— Quie moleque? As panquecas logo vão estar prontas - resmungou, bocejando mais uma vez, jogando parte do café do filho em um prato grande, junto com uma pilha de 5 panquecas grandes e perfumadas.
— Hoje eu tenho consulta!
— Hã?
Toji seguiu o olhar do seu pequeno até a porta da geladeira inox, deixando a frigideira vazia com o fogo ainda ligado. Na superfície brilhante um papel repousava firme com o auxílio do imã, com letras grandes e garrafais adornando seus piores pesadelos. Megumi tinha consulta com uma pediatra nova e o trio de senhoras não estava no prédio - um papel rosa, com a tinta da caneta azul, estava do lado só lembrete do médico, as velhinhas tinham feito uma viagem para as montanhas com uma caravana e só voltariam em duas semanas.
Ou seja — Mas que porra...
— Papai, o fogo...
— Hã?
Toji saiu de seus pensamentos se voltando à frigideira que queimava o próprio aço, sem gordura ou massa de panqueca pra torrar. O moreno xingou, tirando o objeto quente e fedido de queimado, enfiando embaixo da água corrente da pia, soltando um suspiro alto.
— Vá pegar sua mochila moleque, vou te deixar na creche e ir trabalhar — o moreno deixou a frigideira dentro da pia cheia de água e louça do café, pegando as panquecas sobreviventes, enfiando em um saco de papel — Você come no carro.
— E o senhor? — Megumi fez uma careta enquanto observava o pai, já estava vestido, faltando apenas os sapatos e a mochila azul.
— Não se preocupe comigo, agora ande!
- -
A avenida explodia em barulhos distintos, porém, Toji se concentrava unicamente em apenas um indivíduo. A picape verde lustrosa era tão ou mais barulhenta que o tráfego pesado da rua principal, quem olhasse pensaria que o dono fosse tão corpulento quanto o automóvel grande, com tração nas quatro rodas maiores que a cabeça do moreno, todavia, quem saiu de lá foi alguém completamente diferente.
— Isso não confere em nada com o alvo que aquele porra me descreveu — Toji mordeu o lábio, olhando o pedaço de papel com o rosto de uma mulher morena, de olhos esverdeados e lábios vermelhos. A única coisa que aquelas duas tinham em comum eram os olhos.
Abraço...
— Dinheiro e dinheiro, foda-se, não tenho tempo pra detalhes hoje, só tenho duas horas até o moleque sair e menos ainda até a merda da consulta — o moreno amassou a foto, enfiando-o no bolso da calça.
Toji sorriu de canto, descendo do prédio usando a lateral, mantendo o contato visual da mulher de madeixas rosadas que, estranhamente, desviou de sua rota, caminhando pela calçada enquanto falava ao telefone, deixando a picape para trás rapidamente.
A mulher possuía um porte delicado, com o rosto bem demarcado, com linhas suaves como numa pintura. Usava um vestido vermelho puxado para um rosa mais escuro, não tinha mangas; um fio do mesmo tecido marcava a cintura e os quadris sutis, um par de botas de couro preto, de cano curto, completava o conjunto. As madeixas rosadas batiam abaixo dos ombros, escovadas, com pequenos cachos nas pontas. Não parecia nada demais à primeira vista.
Todavia...
O caçador de Feiticeiros puxou a arma amaldiçoada de dentro de sua maldição inseparável, mantendo-a a mão enquanto espiava a mulher se aproximando. O prédio que usou como esconderijo nas últimas 2 horas e meia ficava no meio da rua, na dobra para um beco sem saída, e ela estava caminhando pelas redondezas, onde ele queria- talvez estivesse indo para uma das várias lojas na rua singela e tranquila, diferente da rua onde deixou a picape esverdeada.
Toji espiava pela placa espelhada da única loja que ficava na esquina antes de entrar na dobra do beco. A mulher mediana ainda estava no telefone, falando baixo. Era o momento perfeito.
Porém, quando puxou a lâmina para agarrá-la e puxá-la para o beco, ela havia desaparecido. Toji estreitou os olhos azuis, desviando quando sentiu o aroma paralisante se aproximar dele de maneira sorrateira, se virando no exato momento em que a viu bem, bem próxima de si.
As esmeraldas saiam faíscas sutis enquanto encaravam de frente os azuis do moreno, quase como se quisessem devorar a imensidão azulada do caçador de feiticeiros, todavia, Toji puxou a Ama no Sakahoko, girando a lâmina, anulando o feitiço da rosada no mesmo instante. Entretanto, o moreno não esperava levar um soco no meio do nariz, sendo jogado para o chão, com força.
— Eu sabia que iam me seguir, ou, sei lá... — Toji se virou, sentindo as costas doloridas, todavia, não conseguiu se levantar por causa dela, ou, mais precisamente, por causa da bota da rosada — mandar alguém forte para me capturar, pedir resgate, mas eu nunca imaginaria que fosse um Zen'in, acho que eu estou muito importante no mundo jujutsu, ou, pelo menos, na sarjeta onde os velhos daquele conselho se esfregam, mas você? Eu nunca esperaria.
Toji sorriu de canto encarando o sapato lustroso da rosada, subindo o olhar pelo vestido da mesma até chegar no rosto sereno e firme da atual líder do clã Hanami, apertando o cabo da lança Sakahoko, erguendo uma sobrancelha quando a viu entortar a linha dos lábios em um sorriso ladino. Nada daquela soberba combinava com a figura delicada, nem mesmo os brotos corpulentos dos galhos se cerejeiras atrás da mesma, era selvageria demais em um corpo tão frágil.
— Eu não esperava menos da atual líder daquele clã apelão — disse indiferente, porém, cauteloso — Tenho certeza que anulei seu feitiço imundo quando usei minha Ama! Por que tem que ser tão pé no saco desse jeito?!
A rosada ergueu uma das sobrancelhas finas, colocando as mãos na cintura enquanto olhava para onde estava pisando - o peitoral do moreno mal educado e enorme - e para seu próprio pé. "Que cômico", pensou ela.
— Sabe onde estou pisando, não é?
Toji deu de ombros, sentindo o salto da bota da rosada afundar em seu peito, fazendo-o resmungar baixinho — Dá pra parar o porra?!
— Não tenho culpa se meu raptor faz piadas sem graça — disse naturalmente, tirando o pé de cima do moreno, ajeitando o vestido amassado — Quanto estão te pagando? Se for uma mixaria eu mato você.
— Você é doida para uma mulher com uma fama tão respeitada — disse ao se levantar, rapidamente, puxando a lança anuladora de feitiços, analisando a postura da rosada de cima a baixo — Gostosa, porém, maluca.
— O que foi que disse?! Ora seu...
A líder do clã Hanami fez uma careta, descrente com as palavras ditas de maneira tão natural, o encarando com as esmeraldas faiscando de pura indignação e raiva. Todavia, a atmosfera inquietante e curiosa foi cortada por um som insistente de alarme de celular, Toji arregalou os olhos azuis, puxando o aparelho do bolso, constatando que estava na hora de se atrasar para buscar Megumi na creche e levá-lo a consulta com o pediatra.
— Mas que merda! Por que é tão complicado trabalhar hoje em dia?!
A rosada ergueu ambas as sobrancelhas, vendo o moreno sair correndo, mas sem antes gritar — Nós vemos outro dia, rosadinha!
— Quem é o doido agora, hein?...Homens!
- -
Três horas depois.
Hospital da Misericórdia em Cristo.
O odor de éter fazia o estômago do moreno revirar, era pior que o fedor de sangue, entretanto, fazia um esforço para não soar tão desagradável na frente das enfermeiras e, principalmente, do novo médico do filho. Toji se esforçava para cria-lo desde que a esposa faleceu e manter a atmosfera civil, longe daquela balburdia de feiticeiros e clãs infelizes, era essencial, mesmo que seu pequeno tivesse despertando o maldito dom de ver maldições.
Não queria Megumi envolvido naquele mundo, mesmo que fosse algo inevitável, o manteria seguro até onde fosse possível.
— Sr Fushiguro? — Toji saiu de seus devaneios, erguendo o olhar para a enfermeira loira de olhos azuis, balançando a cabeça enquanto se levantava do banco junto com Megumi — A Srta. Haruno irá vê-los agora, por favor, me acompanhem.
Toji pegou Megumi no colo, soltando um suspiro aliviado por não ser um homem, de novo. Não que o médico anterior fosse ruim, o atendia desde que era um recém nascido, todavia, olhar para a cara de uva passa de um homem de 70 e poucos anos era deprimente.
— Espero que seja bonita pelo menos — e sem cabelo rosa, completou o pensamento, soltando um suspiro de esperança e ranço ao lembrar daquela humilhação. Seu peito ainda estava dolorido por ter sido pego desprevenido, porém, seu orgulho estava pior.
A enfermeira os conduziu para uma sala no final do corredor do segundo andar da ala infantil do hospital, Toji conseguia ouvir o barulho de carros transitando pela avenida ainda movimentada, desviando o olhar para a janela, onde o sol entrava pela falta de uma persiana decente. Megumi tocou em seu ombro, fazendo-o olhar para o interior da sala mediana, focando os olhos azuis do filho que, de maneira inocente, apontava para a médica de costas.
— Doutora Haruno, o senhor Fushiguro com o pequeno Megumi vieram para a consulta — a loira sorriu gentil, indicando para que pai e filho entrassem. Toji arregalou os olhos à medida que caminhava para dentro do consultório perfumado de lavanda e cerejas, sentindo o corpo do filho deslizando para longe de seus braços para poder se apresentar de maneira adequada, visto que o pai estava em êxtase - e não era da maneira boa, pensou o pequeno.
A doutora se virou nos calcanhares protegidos pela bota de cano curto, se engasgando com a própria saliva quando viu seu "raptor" ali, bem diante de seus olhos, e, de quebra, com uma criança xerocada dele mesmo. A Haruno olhou para Ino, sua amiga e enfermeira da ala, tentando soar natural, apesar do susto ainda lhe consumir.
— Então esse é o famoso Megumi, e um prazer finalmente conhecer você, meu nome é Sakura, Haruno Sakura, muito prazer em conhecê-lo — Sakura se agachou para olhar na altura dos olhos do garoto, abrindo um sorriso gentil enquanto oferecia a mão para que o mesmo apertasse. O moreno encarou o pai que ainda estava atordoado, dando de ombros para o comportamento do mais velho, aceitando o gesto da doutora de cabelos rosados, apertando a mão delicada e lhe devolvendo o sorriso.
— Prazer doutora — disse com seu tom infantil e não muito animado de sempre, observando o pai pelo canto do olho — Esse e meu pai, o caladão, ele tava trabalhando, por isso deve tá com essa cara de bobo pra senhora, mas ele é legal.
Sakura deu um sorriso de canto, observando o mais velho com um ar risonho e debochado.
— Eu imagino, Megumi-chan, eu posso imaginar com toda certeza.
